sábado, 28 de fevereiro de 2009

SÓCRATES E O CONGRESSO


A começar por mim!..”, foi esta a frase que saiu da boca de Barack Obama quando, há dias, fez declarações públicas lá na Casa Branca.
Quer dizer, o presidente americano, ao ter feito várias recomendações quanto à forma de vida que as circunstâncias da crise mundial impõem, como sejam as dos cortes de ordenados fabulosos, o fim de gastos sumptuosos públicos que não podem continuar a ser levados a cabo e a mordomias que é forçoso que terminem quanto antes, e não deixando de salientar que essas medidas restritivas seriam aplicadas a si mesmo, Obama colocou-se na posição de se prestar a exemplo para todo o mundo onde a crise tem efeito.
Ora bem, mesmo não podendo comparar o modo de actuar de José Sócrates a nenhum dos chefes de política de países que, tendo povos que vivem miseravelmente, sobretudo em algumas zonas de África e em regiões do petróleo, mesmo assim se comportam, nas áreas supriores, a um nível de fausto que não é moralmente admissível, repito, não podendo honestamente estabelecer esse tipo de equivalência, mesmo assim não é possível deixar de salientar que o Governo actual não tem sido capaz de estabelecer prioridades e de, no capítulo das despesas, e que tenha conseguido distinguir permanentemente o urgente do supérfluo. E isso, sobretudo, nas obras e nas acções que, arrombando os cofres do Estado, bem poderiam ter sido colocadas numa “fila” de espera.
Mas, referindo-me a ele próprio, a Sócrates, nas suas falas públicas, quanto a mim, tem pecado por optimismo inadequado às circunstâncias concretas do nosso País – embora, nesta altura, ao não conseguir fugir aos efeitos da crise que está aí para todos a verem, se mostre um pouco mais moderado -, e não tem sido capaz de usar de uma linguagem que transmita confiança aos cidadãos, aceitando que todos os homens cometem erros e não é por se encontrarem, numa altura determinada, na área da governação que tudo que fazem está livre de equívocos e de opiniões contrárias.
O que tem valido a José Sócrates é que, na área das oposições, não se encontram potenciais governantes que permitam, quando chegar a altura das eleições, optar por outra solução. Na verdade, Portugal está ingovernável neste momento, e não surgiram ainda propostas de outros partidos suficientemente numerosos em filiados, que possam ser considerados opções válidas. Mas isso não pode nem deve constituir uma forma de conformismo. O que se tem é que exigir do chefe do Governo que abandone a sua forma de responder às oposições que fazem o seu dever, que é o de criticar, e que apresente propostas, ele também, sujeitando-se a que os contrários não alinhem nas suas decisões. E dando-lhes razão quando for caso disso.
Vá lá, José Sócrates. Já que não pode fazer muito para que a crise seja ultrapassada, pelo menos actue naquilo que ainda depende da sua acção para melhorar certos vícios que se mantêm no nosso País. A Justiça, por exemplo. Mude de ministro e mostre que está receptivo a que o sistema pode e deve ser modificado. E isso é extremamente urgente. Na Educação, também deixe de mostrar essa amizade doentia com a ministra, e oriente uma forma de ultrapassar as greves dos professores (mesmo que eles não tenham completa razão) e, para além disso, meta mão no caso da Faculdade de Medicina, acabando com essa exigência estúpida de só serem admitidos alunos com notas altíssimas, dando no que agora se verifica da falta enorme de médicos portugueses. Já agora, nas Obras Públicas, dê descanso ao “jamais” que, em termos de imagem, representa a anedota deste Executivo.
E, acima de tudo, acabe com as regalias monetárias que são dadas a todos os fulanos que saem da política e são logo colocados em lugares de administração de empresas dependentes do Estado. Desde que eles sejam devotos seguidores do seu Partido. Esse escândalo não pode continuar.
Isto é apenas um pequeno e fugaz exemplo do que pode fazer nesta fase. Já que está, segundo parece, condenado a manter-se no seu pelouro depois das próximas eleições (isto se não ocorrer nenhum fenómeno inesperado), mude completamente de comportamento. Aceite que tem tido má imagem. E, pelo menos aí, dê mais conforto aos olhos e aos ouvidos dos portugueses.
Não se julgue sempre com razão, porque não existe no mundo quem nunca se engane. Seja flexível e verá, já que, pelos vistos, vamos ter de o manter na governação – isto não é um desejo, mas uma previsão -, que o ambiente no País a seu respeito talvez melhore um pouco.
Este congresso do PS, agora inventado para seu conforto pessoal de se julgar sempre rodeado de maiorias, não veio, em relação aos problemas nacionais, resolver nenhum conflito. E, ainda por cima, mostrou que, para Sócrates, é mais importante ser aplaudido pelos seus seguidores, do que discutir na Europa soluções que interessam a todo um conjunto largo de situações que estão envolvidas pela crise mundial. Por muito que tenha querido justificar-se no final do tal convívio no Norte.
Esta, do Congresso completamente inutil para o País, pode pesar no momento em que os portugueses tiverem de ir às urnas fazer a escolha. Se é que a população ainda ligue o mínimo de importância a estas distracções dos políticos. Pelo menos, quanto a maiorias, será caso para pensar duas vezes!...


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

QUE VEJO?

QUE VEJO ?

Olho e vejo
mas que vejo?
aquilo que não me agrada
fecho os olhos
p’a não ver
mas ficou-me na memória
aquilo que não quero crer
que existe
e que persiste
em não sair da lembrança
parece ser a vingança
de algo que então gostei
e que até mesmo amei
mas que pertence ao passado
a caso ultrapassado
que não é já tema d’hoje
porque foge

Não quero ver nem olhar
e muito menos pensar
naquilo que em tempos foi
e que hoje ainda dói
assunto que já passou
desandou
não quero tê-lo na mente
mas surge-me de repente

E que vou fazer agora?
Sem tempo para demora
o que o destino me traz
e que de mim pouco faz
pois de todo enganou-me
e num golpe embrulhou-me
obrigando-me a ceder
e a nada poder fazer
contra o que em anos passados
seriam amores olvidados
que afinal renasceram?
Enganei-me: não morreram

CENSURA OUTRA VEZ?



Passados já tantos anos sobre aquilo a que eu assisti muitas vezes no tempo da outra senhora, ou seja ao espectáculo arrepiante de ver entrar nas editoras e livrarias uns fulanos, com caras sorumbáticas, que surgiam de rompante e se punham a atirar para um monte no chão as edições que traziam já o encargo de retirar da circulação, mais de três décadas decorridas e, com espanto de todos nós, constatamos que se repetiu esse gesto quando uns agentes da PSP, numa feira do livro em Braga, apreenderam exemplares de uma obra que tem o título “Pornocracia” e na capa reproduz um quadro de Courbet que, por sinal, mostra uma mulher nua em posição bem expressa das suas intimidades.
Seja como for e por menos interessante que possa ser a demonstração de uma capa de um livro, o que está em causa é a acção policial que não pode ficar apenas pela transcrição jornalística do acontecimento. O Ministério Público e a direcção nacional da Polícia têm obrigação de averiguar em profundidade de onde surgiram as instruções para que os agentes tivessem tomado aquela iniciativa, pois não é crível que tudo tivesse surgido por vontade individual de um ou mais polícias que se julgariam com autoridade bastante para actuar daquela forma. Vamos a ver o que surge como explicação. Se é que alguma vez aparecerá!
A propósito deste acontecimento vem-me à memória um episódio passado comigo, quando, em 1957, tendo fundado uma empresa denominada “Mercúrio, Agencia Jornalística e Editorial, Lda.”, me apareceu no local, em Lisboa, um funcionário da Censura, com uma ordem judicial para colocar selos nas instalações e encerrá-las, isso porque, por desconhecimento do notário, a escritura da sociedade ter sido feita e isso não podia acontecer sem antes existir uma autorização daquela maldita instituição, que tudo geria na área das publicações.
O curioso deste facto é que o representante da Censura que vinha com o encargo de fechar as instalações da empresa era, nem mais nem menos, o Luís Pacheco, o que, agora já desaparecido, se transformou mais tarde num autor literário com características particulares de enorme distanciamento das regras de vida tradicionais, sendo um contestatário mediático e oposto ao regime político vigente, bem diferente, portanto, do aprumado funcionário público da Censura, que tinha sido antes.
Mas isto é a vida e o Homem e as circunstâncias continuam a dar razão a Ortega y Gasset, pois que ninguém é dono absoluto de si mesmo e quantas vezes é forçado a fazer aquilo que odeia. No caso da Mercúrio, empresa que marcou uma época, até por ter sido a editora de uma série de livros de bolso, com saída mensal (a Censura não deixou que fosse classificada como revista) com esse título precisamente, publicação essa dedicada à difusão dos melhores contos mundiais, aí o Luís Pacheco mostrou uma grande abertura à solução do problema, tendo conseguido um período para não ser tomada de imediato a decisão drástica e definitiva.
Anos mais tarde, ao recordarmos este acontecimento, à mesa de um café no Rossio, ainda foi meu convidado num pequeno almoço, pois ele fez questão de recordar que ainda estava em jejum!
Coisas da minha vida profissional na área do jornalismo, as tais que bem me têm querido tentar para deixar em livro, mas eu só actuo na área da literatura com os textos que eu pretendo e não com as propostas de outros. Os editores que falem comigo!...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

E DEPOIS?


Sempre há um depois do que agora passa
Alguma coisa de que se suspeita
Ou de que se tem só ideia escassa
Mas que está bem ao pé de nós à espreita

Esse depois assusta muita gente
Pode ser p’ra melhor ou nem por isso
Quem pode saber é só o que sente
Que esta vida é toda um compromisso

Se o depois é tão grande mistério
E se há também quem tal não entenda
Esteja só ou tenha vida a dois

Será bom ver o amanhã a sério
Estar sempre pronto para a contenda
Para não perguntar sempre: e depois?...

TAP/IBERIA


Há tanto tempo que mantenho esta ideia que nem sei se, com o passar dos anos, as circunstâncias ainda se apresentam favoráveis a que seja levada a cabo nesta altura concreta. Refiro-me a uma medida que, não sendo fácil de concretizar, precisamente porque nos encontramos perante uma crise que obriga a enfrentarmos, com todas as nossas forças, as maiores dificuldades, é por isso que teremos que fazer todos os esforços para que o resultado das nossas actuações seja positivo e apontem para melhorias de resultados e economias de meios.
Este preâmbulo pretende alertar os que seguirem este blogue de que as ideias que surgem, às vezes de onde menos se espera – o que não é o meu caso, que me desculpem da imodéstia -, merecem ser analisadas e é para isso que também existem os governos dos países, para ir recolhendo sugestões e não estar sempre convencido que as boas ideias só nascem do interior dos seus umbigos.
Ora bem, sabe-se que as companhias de aviação atravessam um período que também a elas afectou imenso os resultados das operações e, por isso, já uma boa meia dúzia abriu falência ou fundiu-se com parceiras. A TAP, apesar de ter sido bem gerida pelo administrador brasileiro que lá vai defendendo os interesses da companhia portuguesa, mesmo assim não esconde que a situação é difícil e as medidas restritivas que têm sido tomadas são bem a prova de que não se navega no mais tranquilo dos céus.
Eu sei que ainda há muita gente que, apesar das vantagens das uniões para ter mais força, no nosso caso não é generalizada AINDA a ideia de que esta nossa península ibérica está mesmo a pedir que se reúnam as actividades que ofereçam condições para tal e que, no caso das exportações, por exemplo, só teríamos, nós e os espanhóis, vantagens em fazer uma frente comum. Pois, dentro desta ideia, o mais natural é que as duas companhias aéreas nesta ponta da Europa, se formasse uma empresa única, uma TAP/Ibéria por exemplo, o que traria todas as vantagens, económicas e funcionais, no capítulo de transportar de fora para dentro e o contrário, o maior número possível de visitantes que escolham esta vasta zona como destino.
E não seria só o alargamento da funcionalidade e o aumento de destinos que as linhas habituais das duas companhias proporcionariam, mas também uma redução substancial nos custos das representações espalhadas pelo estrangeiro. É que todos os escritórios e lojas, agora separados, das duas empresas aéreas que se situam em muitas cidades estrangeiras para atender os eventuais passageiros, passariam a ser reduzidas a metade, mas não só isso, é que, de igual modo, havendo nessas mesmas cidades e em outras também escritórios tidos como centros de turismo. ao juntar-se a promoção adequada do espaço ibérico, isso permitiria que tal atitude desse ocasião a que, através de um acordo governamental entre Portugal e Espanha, se inaugurassem instalações, então com pompa e circunstância, nesses locais estrangeiros onde o turismo e o comércio externo fossem objecto de um maior campo de actuação, tanto português como espanhol. E bem precisamos todos de conquistar mercados novos para expandir os nossos produtos. O antes ICEP e agora denominado AICEP e que teve e continua a ter como objectivo expandir as nossas exportações, funcionando independentemente dos outros dois objectivos (as vendas de bilhetes de avião e a divulgação turística), não tendo sido até agora e ao longo de muitos anos muito louváveis os resultados,
não tem nenhuma razão para se encontrar colocado à parte e com os respectivos custos acrescidos que essa actividade representa. Só se ganharia se tudo funcionasse num molho de interesses. E nós e espanhóis juntos.
O nosso rei D. Manuel I, ao ter expulso os judeus e criando essa falsa qualidade de gente, denominada “cristãos novos”, o que fez foi deitar fora o que de mais importante existia nessa altura e que era o espírito empreendedor de que veio a beneficiar e muito, por exemplo Amesterdão, onde se instalaram os judeus de que ali continuam os descendentes e em que se vê ainda hoje, sobretudo nas placas dos médicos, inscrições como Moysés Silva e outros bem esclarecedores do acontecimento, se cá têm ficado, o que não teria sido a nossa colonização e o nosso domínio comercial em todo o mundo! Nós a descobrirmos e eles, também portugueses, a expandir os nossos produtos… imagine-se!...
Parece tudo um sonho, pois parece. Mas o que tem constituído um ressonar profundo das forças governamentais que têm passado pelo poder é não ter nunca surgido uma cabeça capaz de enfrentar esta situação. É por essas e por outras que, tendo tido sempre grandes amigos nessa zona da política, nunca os levei a sério e não encontrei nenhuma fartura no capítulo das ideias.
Se calhar, se se propusesse aos nossos vizinhos de Espanha esta nova forma de fortalecermos a nossa Ibéria e de nos pormos a expandir por esse mundo fora o que produzimos os dois, talvez a ideia fosse acolhida com entusiasmo. O pior é que não se vislumbra nos horizontes políticos quem tenha capacidade para, ao menos, experimentar.
Eu, no mínimo, tenho tido pela vida fora ideias. Para quê?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

INICIATIVAS



É bom que não nos quedemos satisfeitos com o que temos e que procuremos aumentar e melhorar o que constitui um progresso nas nossas iniciativas. Mas, é evidente que temos de levar em atenção as circunstâncias que nos rodeiam, analisando cuidadosamente se o esforço que vamos despender em qualquer inovação se coaduna com o ambiente que nos rodeia, e isso para que não estejamos a gastar energias em pura perda e fora do momento ideal para o fazer.
Será o que acontece com os planos que o Governo que nos rege faz questão em levar por diante, como sejam o TGV, as auto-estradas e o aeroporto de Lisboa que se anunciam, iniciativas essas que, sem dúvida, só podem trazer benefício para as populações, mas que, face às dificuldades económicas, financeiras e sociais que se atravessam neste momento, não são recomendáveis que se levem avante justamente agora, sendo aconselhável aguardar por período mais adequado logo que as circunstâncias da crise que se enfrenta sejam ultrapassadas. É que, para além do mais, meter ombros neste momento a tão dispendiosas iniciativas irá sobrecarregar os vindouros com encargos que só serão admissíveis se conseguirmos, em primeiro lugar, deixar os cofres públicos suficientemente nutridos e existir um desafogo financeiro que permita, desde o início das obras respectivas, contribuir com o que estiver ao nosso alcance para aliviar as dívidas futuras. Isto, no que diz respeito às obras que dizem respeito ao sector público, pois, por mais iniciativas que queiram os governantes actuais mostrar, especialmente tendo os olhos postos nas eleições que se aproximam, não é uma atitude louvável que, como testamento político, se entregue aos que vierem a tomar conta do Poder daqui a alguns anos, a dor de cabeça de enfrentarem compromissos que os anteriores governantes tomaram, ao que parece para ficarem bem vistos no decorrer da sua actuação pública.
Mas, fala-se agora muito e isso, em parte, na área privada, na abertura do quinto canal televisivo. É natural que os profissionais da comunicação relacionada com a televisão aspirem ter mais veículos de actividade e, dentro deste ponto de vista, façam esforços para alargar o terreno da sua actuação. Daí a “guerra” que se está a levantar para a criação daquele novo meio televisivo, como também se compreende que a TVI esteja a actuar no sentido de surgir o novo TVI24.
Não é preciso ser um conhecedor profundo da matéria para não ter dúvidas de que o meio de sustento dos canais é, acima de tudo, a publicidade. E, perante a realidade que se defronta, em que esta receita baixou, nos últimos tempos, 20 por cento e as previsões são que ainda se reduzirá mais nos próximos tempos, para não falar das condições de ofertas extraordinárias que se praticam nesta altura para seduzir os anunciantes, também aqui, neste sector, se aconselha que haja bom senso e que, para além do benefício que o público pode obter com o aumento de oferta televisiva, não será agradável assistir aos cortes posteriores de despesas, o que se traduzirá em diminuição de qualidade nas emissões produzidas.
Mas, tudo bem e até será desejável que os investimentos privados não paralisem, desde que os bolsos dos contribuintes não venham a sofrer mais tarde com os desvarios daqueles que querem fazer mais e melhor. O que é preciso é nunca deixar de levar em conta aquilo a que me refiro acima: as circunstâncias desfavoráveis que se vivem na altura das iniciativas precipitadas. No fundo, há sempre que pôr nos pratos da balança os dois dilemas - o não fazer nada ou o fazer alguma coisa, ainda que mal!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

CALADO

Ter que fazer
não ser capaz
nem querer morrer
sem deixar p’ra trás
obra aceitável
para recordar
ser memorável
não ser vulgar

Mas e o génio?
bem que o procuro
qual oxigénio
em túnel escuro
se não o alcanço
fica por fazer
não terei descanso
sem desfalecer
até conseguir
antes de partir

Só os papéis
manuscritos no café
esforços cruéis
de quem faz finca-pé
em não ser um qualquer
quem cá ficar que diga
o que lhe aprouver
pois ninguém é obrigado
a manter esta luta
e se calhar é calado
que é a melhor conduta
dizer alto é vergonha
de se ficar a saber
o que cada um sonha
e, sem o conseguir… morrer

AINDA QUE...

Nesta vida a esperança tem de ser
Aquilo que sempre faz renascer
A desejada luz que alumia
Aquele que para muitos faz de guia

Ainda que as nuvens se acinzentem
E que as más sortes se movimentem
Contra tu que anseias p’la fortuna
Nem tudo é intransponível duna

Ainda que percas todo o negócio
Que as relações se azedem com o sócio
Que seja preciso mudar de vida
Haverá outro ponto de partida

Ainda que a saúde dê de si
E sintas que o mundo não te sorri
Apesar disso há que acreditar
Que a cura p’ra doença vai chegar

Ainda que um amigo te magoe
Deixe de ser p’ra ti aquele herói
Por muito que te faça indignar
Vale sempre a pena perdoar

Ainda que a família vá morrendo
Que os amigos vão desaparecendo
E a solidão te deixe abatido
Ainda assim nem tudo está perdido

É duro golpe para um só mortal
É como cravar no peito um punhal
Mas mesmo que todo o mal aconteça
É preciso levantar a cabeça
Pô-la a comandar o coração
E seguir firme noutra direcção

Tudo tem remédio neste mundo
Puxando p’ra cima o que está no fundo
Não deixando que haja sempre um se
E dando razão ao ainda que



domingo, 22 de fevereiro de 2009

CARNAVAL


Deparamos, mais uma vez, com um período de Carnaval. E, como a terça-feira gorda se situa exactamente naquele dia que dá enorme jeito para ser constituída a chamada “ponte”, ou seja a ocupação de quatro dias em que o trabalho nacional é suspenso e aproveitado para umas feriazitas ou, no mínimo, um intervalo nos afazeres profissionais de muita gente considerada trabalhadora, claro que os poderes executivos, especialmente numa época em que é preciso construir uma imagem de simpatia na população (aproxima-se a passos largos uma temporada de eleições), são os primeiros a estipular a dispensa de ponto na classe dos funcionários públicos, o que quer dizer que o sector do empresariado privado não quer ficar mal visto e segue as pisadas oficiais.
Ora bem, é verdade que se, por um lado, à falta de empregos para ocupar tanta gente que não consegue trabalho está cada vez mais evidente, o que as paralisações de actividade só facilitam a possibilidade de aumentar a necessidade de mão-de-obra, por outro lado, essas paragens com a obrigação de sustentar os pagamentos dos salários representam um custo que tem de ser suportado numa altura de dificuldades.
De igual modo, a oferta das tais “pontes” dá a possibilidade de, os que se podem aproveitar dos descansos artificiais criados, poderem dar largas ao desejo de efectuar umas saídas dos seus poisos habituais, fazendo gastos que estarão em condições de suportar, ou criando as dívidas que se instalaram nos hábitos dos portugueses, esses, que são ainda muitos, que não pararam ainda para realizar que vivemos num País pobre e que, agora sim, é que vinha a propósito o lema salazarista do “produzir e poupar”.
O que eu pretendo dizer com este comentário é que não concluo em definitivo se se trata de uma medida realista (para além da imagem simpática que o Sócrates pretende criar) inventar “pontes” numa época difícil como esta que atravessamos, ou se, pelo contrário, seria mais aconselhável propagar na população a ideia de que precisamos de produzir o mais possível e que será por essa via que haverá a possibilidade de serem criados mais locais para trabalhar, logo de diminuição do arrepiante desemprego.
Eu sei que, como já tive ocasião de deixar expresso nestes meus blogues, sou contra as datas festivas estabelecidas pelo calendário. Não me adapto à obrigatoriedade de cumprir um Natal, uma Páscoa, um Carnaval, um dia disto ou daquilo, seguindo costumes de alegria – ou mesmo de tristeza – e modos de comportamento que são estabelecidas por acontecimentos passados. Mas isso sou eu, que reconheço não alinhar com a vontade das maiorias, pelo menos nisto.
Mas, não levar em linha de conta as circunstâncias que se atravessam num período estabelecido e contribuir para que as atitudes recomendadas pelo bom senso sejam postas de lado, não se sendo capaz de apelar para a verdade e, esclarecendo as massas dos cidadãos, não ter a coragem de fazer o melhor, é o que ocorre em Portugal a cada momento, e, encolhendo os ombros, continuarmos a dizer aquilo que nos sai sempre pela boca fora: “é isto o País que temos!...”
Ao fim e ao cabo, também não é por aproveitarmos o Carnaval para uma paragem (ou mais uma) que vem mal ao mundo. O grave, isso sim, é que não há forma de se conseguir meter na cabeça desta povo que teremos de ser nós próprios a arregaçar as mangas e, seja qual for a profissão que exerçamos, fazermos sempre o nosso melhor, sejamos simples cidadãos ou sentemo-nos no poder… sobretudo aÍ, onde as caraças são mais assustadoras!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

MÉDICOS PRECISAM-SE



Não me tenho referido neste meu blogue à actuação do Presidente da República e também, verdade seja dita, não se têm verificado motivos que justifiquem nem críticas nem elogios.
Mas, as declarações proferidas agora por Cavaco Silva, em que, talvez tocado pela greve que os enfermeiros entenderam dever fazer, considerou ser oportuno falar de um problema que não é de hoje e que é de extrema gravidade: o da escassez de médicos de Norte a Sul do País e que o próprio Governo já entendeu também apontar como constituindo algo preocupante, essas palavras vindas da boca do primeiro Magistrado da Nação deixam a ideia de que, só agora é que chegou ao locatário de Belém a notícia que estará a incomodá-lo.
Não deixo, pois, passar em branco este atraso no sublinhado cavaquista no que se refere ao que se pode considerar um acréscimo da crise, também social, que se nota hoje, há já bastante tempo que é visível e que, no futuro, se vai ainda mais repercutir no tratamento das doenças do povo português.
Neste blogue já me referi, por mais de uma vez, a essa inconcebível medida que os poderes públicos nunca resolveram tomar a peito: à da exigência de altíssimas classificações aos estudantes que pretendem seguir a medicina e, para isso, necessitam ser admitidos na Faculdade respectiva. Pois, até agora e ao longo de vários Governos, nunca se viu um ministério da Educação, suportado pelo Executivo a que pertence ou pertenceu, tomar a iniciativa de alterar profundamente aquela exigência, pois que, para ser médico, o que é fundamental, acima de tudo, é ter vocação para vir a exercer tal profissão, sendo menos importante se, nos estudos secundários, foi bom estudante de matemática, de português ou de geografia. No decorrer do curso de medicina, aí sim, deve ser exigida aplicação, conhecimento perfeito das cadeiras que são ensinadas e, acima de tudo, assistência às aulas e não a faltas de comparência como hoje é moda ser praticado em tudo que são cursos.
Ora, Cavaco Silva, que foi primeiro ministro de um Governo passado, que haja memória nunca levantou o problema daquela exigência de média no secundário para serem admitidos alunos no curso em causa, porque se o tivesse feito, os seis anos mínimos que são necessários para formar teoricamente um médico já teriam ocorrido e, nesta altura, já se podia contar com mais alguns profissionais de saúde que ajudariam a diminuir a falta que se verifica.
Agora, perante um facto incontornável através dos nossos próprios meios, só é possível tentar remediar este tipo de falta com a contratação de médicos estrangeiros e, para isso, há que convidá-los com condições que sejam muito atractivas, fazendo com que as exigências dos nossos profissionais aumentem por sua vez e como é natural. É a lei da oferta e da procura e, quanto a isso, o Presidente da República deveria ter apresentado, a par de um mea culpa, a indicação de uma forma de resolver o problema.
Falar claro é o que é preciso e isso é o que mais se nota a falta nas discursadas políticas…

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

IMIGRANTES EM PORTUGAL

POESIA ESCRITA DE UMA RAJADA
I Os Romenos

A romena, a coitadinha
Mostra-se desgraçadinha
Enrolada nos andrajos
Arrastando os pés no chão
Pede esmola, estende a mão
Estão bem rotos os seus trajos

Tem um sítio, o seu pouso
Choraminga sem repouso
Parece ser muito velha
Por perto brincam dois netos
Que pertencem aos projectos
De aparentar não ter telha

O dia não corre mal
Nunca há nenhum igual
Mas quanto mais é melhor
Valeu a pena a viagem
E sempre tira a vantagem
De gozar nosso calor

Correu toda essa Europa
Fugindo a toda a tropa
Que não quis tal pedincha
Chegou cá a esta ponta
Para tudo está pronta
E aqui ninguém lhe guincha

À noite, no fim da obra
Faz as contas, vê se sobra
O bastante p’ra guardar.
Velhinha deixa de ser
Torna-se pois na mulher
E volta para o seu lar

Não é mau o seu reboque
Tem até um certo toque
De conforto e limpeza
Está num parque de campismo
Onde há outro turismo
E também certa defesa

O marido lá aguarda
É a sua rectaguarda.
Pediu em outras paragens
Com os filhos atacou
Vidros de carros limpou
Aí tirou suas vantagens

São ciganos e que importa
Se não lhe batem à porta
E nem falam português ?
Só que o problema é nosso
E há que limpar esse osso
Acabar com o mal de vez

Expulsá-los, mas para onde ?
Pergunto ninguém responde
Não há fácil solução
Para trás ninguém os quer
Para o mar não pode ser
Ficam por cá, e então ?

Estar no fim do Continente
Não ter país pela frente
É sina já conhecida
Serviu-nos p’ras descobertas
Mostrou-nos rotas incertas
E foi porta de saída

Mas agora, nesta fase
Não podem servir de base
P’ra resolver o problema
Nós, com tantos imprestáveis
Podemos ser bem amáveis
Arranjar um estratagema

Juntar aos da Segurança
Social (uma festança!)
Mais estes que nos calharam,
Pô-los a cobrar da Caixa
E até podem usar faixa
Dizendo que nos burlaram

II – Os Brasileiros

O Atlântico passaram
E a vida melhoraram
Nossos irmão dos Brasil
Fizemos o mesmo antes
Lá partíamos vacilantes
Fugindo do que era hostil

Sopram agora outros ventos
São diferentes os alentos
Dá-se tudo na inversa
Vem p’ra cá o brasileiro
Tem ambiente caseiro
E agrada-lhe a conversa

Vêem-se por toda a parte
Descobre-se-lhe engenho e arte
Nós a pensar que eram moles
Como falam português
Discutem ao fim do mês
O salário para as proles

São muitos hoje por cá
Já todos usam o “pá”
E por fim gostam da gente
Podem ser que com os anos
Percam sotaques baianos
Sintam o que cá se sente

E se voltarem um dia
À terra da sua cria
Dirão aos compatriotas
Que afinal os portugueses
Não são aqueles malteses
Que contam nas anedotas

III – Os Cabo Verdeanos

São em número elevado
Há-os por todo o lado
Com sotaques muito seus
A nós cabe acolhê-los
E sem os ter por modelos
Não esquecer que são ilhéus

Os homens estão nas obras
Pouco mais têm de sobras
Para escolher outra função
As mulheres ficam nas casas
Que também não têm asas
P’ra ir noutra direcção

Uns e outras vão cumprindo
A vida vai-lhes sorrindo
Melhor aqui que na terra
Desse lindo Cabo Verde
A saudade não se perde
É o que a alma lhes berra

Mas os filhos vão nascendo
E o negro vão perdendo
O sangue branco mistura-se
Mas lá dentro está a morna
E se o caldo não se entorna
Uma nova raça apura-se

III… E os outros

Outras raças, outros povos
Buscam também mundos novos
Chegam ao nosso País
São eles os imigrantes
Tal como em outros antes
Usámos nossos ardis

Juntam-se aqui e ali
Conversam em frenesi
Custam na integração
Formam bairros isolados
Deixam-nos preocupados
Mesmo se dermos a mão

Há chineses, indianos,
Árabes e angolanos
Gente do Leste em geral
E então os guineenses
Juntam todos seus pertences
No Rossio da Capital

Já os amarelos são
Muito da população
De todo o globo terrestre
Não será bem o que querem
Mas á emigração aderem
Sem ninguém que os amestre

IV – Conclusão

Está o mundo a dar a volta
O que provoca a revolta
Que se sente na Europa.
Os povos trocam lugar
Todos querem seu solar
Ter dinheiro para a sopa

O mal é que muda a fome
E até muda o seu nome
De um lugar p’ra outro algures
Assim passa a miúdo
Não se vê o conteúdo
Solução está em nenhures

Qual vai ser o final disto
Que parece ser um quisto
Da sociedade de hoje ?
O futuro lá dirá
A quem passear por cá
E com os males ajouje

Serão muitos mil milhões
Andarão aos encontrões
Não caberão no Planeta
Imigrantes será todos
Numa correria a rodos
De cor branca e de cor preta

Há que ser sempre frontal
No caso de Portugal.
Perguntar e concluir
Sem nenhum complexo ter
E não dar a perceber
Intenção de destruir

É um mal ou é um bem
Estar a receber quem vem ?
Mesmo que possa alarmar
Assistir a essa enchente
O certo é que a nossa gente
Não quer mesmo é trabalhar.

IMIGRANTES ROMENOS



Quem costuma ver a televisão de Espanha, a TVE, e a italiana, a Rai Uno, como sucede comigo porque sou um entusiasta por bons programas como sucede com aquelas duas estações, ao assistir também aos noticiários dá-se conta das queixas constantes em relação ao comportamento dos imigrantes romenos que assolam àqueles dois países e que são useiros e vezeiros em actuar em contraponto com as leis locais.
A insistência que se verifica de tal noticiário em que os roubos, os assaltos e outros crimes que são praticados por elementos oriundos da Roménia e que, na sua maioria, pertencem à raça cigana, fazem pensar seriamente também na existência dessa espécie que, atravessando toda a Europa, se tem notada igualmente a sua presença no nosso País.
Poderia parecer que, situando-se Portugal a tão grande distância da Nação que ficou, tempos atrás, bem marcada pela actuação do seu chefe político, o ditador Ceausesco, não seria natural que os seus habitantes que resolvem partir à aventura para outras terras chegassem até aqui, mas a realidade é bem diferente. Estão cá e distinguem-se das outras imigrações por terem como ocupação a pedincha nas ruas, utilizando processos que têm como base visual andar com crianças a dormir nos regaços e, sobretudo as mulheres, escolherem locais onde, sentando-se no chão, fazem um choradinho às donas de casa portuguesas que vão às compras, e escolhem especialmente a porta dos supermercados como local estratégico.
Ultimamente, como foi já noticiado, são jovens romenas que, actuando em pares, servindo-se de cartões de multibanco sem uso, durante o dia abrem os trincos das portas dos andares de que viram sair os inquilinos e roubam rapidamente o que apanham mais à mão, com preferência pelos quartos de dormir, onde sabem que as famílias podem guardar os seus bens mais valiosos.
Na minha família já houve quem tivesse tido a pouca sorte de ser vítima deste tipo de actuação. E a polícia toma conta da ocorrência, mas não consegue passar daí.
A pergunta que há a fazer é como é possível que os serviços de emigração não sejam severos na perseguição a este tipo de imigrantes que, ao contrário da que escolhe o nosso País para ser útil, para trabalhar, só cá chega com o intuito de se apropriar dos bens dos outros. É que, ainda por cima, tendo cruzado todo o espaço europeu desde que deixaram a Roménia, ao chegar aqui e já não tendo outro local a Ocidente para se deslocar, só lhes resta entrar pelo Atlântico dentro e, apropriando-se de barcos de pesca, tenham em vista chegar às costas americanas. Mas não parece natural que seja esse o seu propósito.
Não me venham agora comentar que este texto tem ares de ser xenófobo. Digam o que quiserem. Mas não se queixem de que não houve quem os avisasse!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

RAULZINHO



A homenagem que foi feita ao Raul Solnado e que reuniu na Casa do Artista uma mão cheia de artistas tidos como humoristas, tendo sido organizado um programa com o título “Maratona do Humor” que ocupou toda uma tarde da SIC, e em que, por sinal, actuou como apresentador o conhecido Herman José, esse espectáculo chamou-me a atenção e fiz o esforço para assistir a todo a cena, pois que nesta fase em que nos encontramos, de uma tristeza geral com a chata da crise que chegou e não sabemos como e quando terminará, tudo o que seja trazer alguma alegria ao nosso semblante deve ser aproveitado ao centímetro e ao segundo.
Mas, afinal o que me sucedeu foi ter entrado numa profunda tristeza provocada por dois motivos que, a mim particularmente, me tocaram: tratou-se de constatar como sou, de facto, antigo e, por outro lado, como até no meio do espectáculo está completamente exaurido o espírito de humor, sendo necessário fazer um grande esforço para, no mínimo, se sorrir com as piadas que os fazedores de alegria pretendem justificar a sua existência profissional.
O ser antigo tem a ver com o meu aparecimento ao redor do meio artístico e a justificação foi, única e exclusivamente, por razões profissionais de jornalista. No caso do Raul Solnado, o seu aparecimento deve-se ao facto de, há cerca de 56 anos, na minha juventude, portanto, sendo eu amigo do proprietário do Maxime, cabaret muito na berra nessa altura, o Carlos Cabeleira de seu nome, por sinal tio do pianista José Cabeleira, este que eu conheci de criança, pediu-me para escrever um texto para ser interpretado pelo José Viana, na altura ainda não conhecido e praticante na Casa Alunos do Apolo, e isso para dar uma variante aos ballets de espanholas que eram os espectáculos usuais naquela altura e naqueles tipos de estabelecimento.
Saiu-me então a ideia de criar um amolador de tesouras e navalhas, com um monólogo cantado que surgia na pista reservada aos ballets, mas, na verdade, apesar da habilidade do José Viana, não correspondia ao que se pretendia. Dei-lhe um nome, “O Sol da Meia-Noite” mas, desde logo, impunha-se que o monólogo se transformasse em diálogo e, para isso, era necessário encontrar um comparsa que fizesse o papel do companheiro do amolador. E foi aí que o José Viana propôs trazer dos Alunos do Apolo um rapaz que lá se encontrava também em situação de aprendizagem. E apareceu, na noite seguinte, um rapazinho, com um casaco por cima do rabo e… gago. Era o Raul.
Foi para ele que tive de acrescentar o texto já feito, embora com o problema de não poder escrever frases muito extensas, pois o gaguejar do Raul não permitia alargar-me na inspiração. Lembro-me perfeitamente que, na época, o Raul Solnado foi ganhar 50 escudos por noite e ele recordou-me que, tempo depois, foi aumentado para 70 escudos.
Como o tempo passa! Parece que foi ontem que, à mesa do Café Lisboa, escrevi o texto que também contou com uma mãozinha do José Viana. E sobre este bom artista também tenho uma história para contar que se passou entre nós dois. Mas fica para outra altura.
Bem me têm desafiado a escrever um livro de memórias, mas não estou para aí virado. O que tenho para largar cá para fora, para além dos milhares de páginas que preenchi em toda a minha vida de escrevinhador, não se coaduna com o estilo biográfico. Muita gente iria ficar furiosa se eu contasse tudo a que assisti. E eu, que quero morrer descansado com a minha consciência!...Não será por mim que se tornarão públicas centenas de situações de que eu fui testemunha, com muita gente que, pelos vistos, tem a memória curta ou só se recorda dos momentos altos.
Eu é que me rio para dentro!...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CASAMENTOS



Então não é que o problema que mais nos atormenta a nós, que em Portugal não temos mais nada com que nos preocuparmos, não é outro senão o da classificação que tem que ser dada à união de dois seres humanos do mesmo sexo e à legislação que deve orientar esse acasalamento? Até um programa televisivo semanal que, de uma forma geral, se dedica a temas que podem ser considerados de importância para serem debatidos, até esse “Prós e Contras” ocupou três horas da última segunda-feira com uma série de participantes que, com opiniões contrárias, se abespinharam a expor os seus pontos de vista.
Na verdade, ninguém tem nada com isso se dois homens ou duas mulheres resolvem viver em comunhão de cama, mesa e casa, muito embora, na verdade, não possam ver solucionado o problema do testamento natural, por morte de um dos parceiros, a menos que recorram a uma medida de doação em vida e dentro das percentagens permitidas legalmente, como tornou público Manuel Luís Goucha que assim procedeu em favor do seu companheiro actual.
Mas que, numa fase tão difícil como é a que se atravessa neste momento em Portugal, se chame à discussão o problema de se definir se a junção de dois seres do mesmo sexo se deve classificar ou não de casamento, se, perante imensos problemas gravíssimos que temos de enfrentar desviemos a atenção para um tema que, digamos a verdade, interessa, de facto, aos homens e mulheres tidos como homossexuais, mas apenas a esses que, sem ser necessário recorrer a estatísticas se é que elas existem, não podem ser consideradas como tratando-se de maiorias – pelo menos por enquanto -, essa atitude é que não pode deixar de ser considerada como de distracção do importante para se atender ao supérfluo.
Para além disso, se existe a consciência de que, a par das situações difíceis que são urgentes atender, também se pode perder algum tempo com a solução das vidas em comum de pessoas do mesmo sexo, e então que se entregue o estudo da matéria a um pequeno grupo de juristas para poder vir a sair a legislação adequada, podendo-se até equacionar se o que se passa lá fora pode ou não ser adaptado ao caso português.
Agora, que não se atropelem situações que, entre nós, nos atormentam, como o desemprego crescente, o tormento do custo de vida e o problema da baixa de rendimento das empresas, sobretudo as pequenas e médias, pois que isso sim, são realidades sérias que não podem ser arredadas para se discutir se a junção de homossexuais se deve classificar como casamento ou se terá de ter outro nome.
Haja bom senso!...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Os textos que publico no meu blogue sob o título genérico de “Desencanto… por enquanto!”, pertencem a uma obra inédita que tenho para publicar, portanto à espera de editor, e que foi influenciada pelo trabalho bem conhecido de Fernando Pessoa, sob o título “Livro do Desassossego”.
Não pretendo – seria de uma presunção inqualificável – colocar-me em posição comparativa. Mas estou no direito de afirmar que foi a obra do grande poeta Pessoa que me inspirou a escrever as várias folhas que dão mostra do que me vai na imaginação e que, com o tempo que passa, se vai acumulando de maias e mais páginas. Chegará uma altura, quando surgir um editor interessado em deitar mãos a esta obra, em que o volume atingirá um formato pouco prático. Mas há sempre recurso: dará mais do que uma série
.

Somos, de facto, uns desencontrados. Aquilo que afirmamos agora, noutra ocasião, noutra circunstância, com disposição diferente não descrevemos da mesma maneira. Talvez até nos contradigamos. E, em todas as vezes, poderemos estar convencidos de que repetimos o anteriormente dito.
Os seres humanos, de uma forma geral, são pouco constantes. Mesmo os mais teimosos, por muito que queiram dar mostras de firmeza nas suas atitudes, no íntimo, no recato do seu eu terão dúvidas sobre se a persistência numa opção será o melhor caminho para obter o resultado pretendido.
É o que sucede comigo nos momentos em que me dedico â escrita de pensamentos que me ocorrem à flor da pluma. Desencantado, como é o meu estado normal, com o que ocorre neste mundo, julgo ter sempre essa preocupação de sublinhar os erros e, por vezes, de apontar caminhos. Por isso, não será natural que passe a aplaudir o que antes me surgia com defeitos. Depois, rigoroso como pretendo ser comigo próprio, mais facilmente denoto erros do que virtudes. É, aceito, uma característica negativa esta de considerar normal o que está bem e de me indignar o que nem por isso. Resultado: estou mais vezes indisposto do que satisfeito e eu sou o único a sofrer as consequências desse estado de espírito.
O que também me custa é que esta minha atitude não diz respeito apenas ao que ocorre fora da minha área de influência. Muito pelo contrário, a primeira reacção crítica que tomo diz respeito aos meus próprios actos e, por isso mesmo, à minha produção na área artística. Tanto na escrita como na pintura. Mas também, por vezes, no comportamento.
Sou, pois, mais um dos desencontrados deste mundo. Ainda não dei com o caminho certo. O derradeiro, o da última hora, um dia alguém o encontrará por mim. A minha vontade já não vai intervir na via que for escolhida.



REVOLUÇÃO



Já aqui o afirmei, mas julgo que não será demais bater na mesma tecla, pois o risco anda por aí a rondar a nossa porta. A da nossa casa, como de outros locais onde a crise económica se faz sentir com pesado efeito sobre as populações. Refiro-me ao perigo de uma revolução social que, geralmente, é a que se segue às enormes carências que chegam aos países que se vêem envolvidos pela fome.
A História demonstrou-o já em diferentes ocasiões e nos mais diversos locais. E surge este fenómeno sempre que o poder não dá mostras de conseguir resolver os problemas graves que atacam os povos e, por sua vez, quando a impaciência em suportar por mais tempo a má vida atinge o auge, leva os cidadãos a procurar, pelos seus próprios meios, solucionar o que se torna impossível aguentar por mais tempo.
Assim acabam as democracias. E assim aparecem as ditaduras. Há sempre aqueles que, andando à espreita, aproveitam os movimentos de reclamação quanto ao estado a que se chegou, e criam as condições para fazer avançar a revolta. Mário Soares, que é insuspeito no que se refere a este tema, já se fez ouvir no capítulo do perigo que corremos. Estou, pois, bem acompanhado.
As injustiças estão, em muitos casos, na base das movimentações populacionais e constituem a espoleta para juntar multidões a clamar por uma mudança. O mau comportamento da Justiça, propriamente dita, como é o que se passa cá entre portas, com as demoras de anos sem fim para que se apurem culpados e inocentes, bem se pode apontar como uma das causas para servir de motivo a uma recusa de manutenção de um “status quo”que não é louvável. E quando, a par de isso, contemplamos outra situações que não são admissíveis, como a falta de médicos, só agora apontada pelo Executivo e por culpa das dificuldades em entrar na Faculdade de Medicina, a teimosia em complicar a vida dos cidadãos com burocracias que, há muito, deveriam ter desaparecido – sobretudo agora que se pode utilizar a computorização -, quando encaramos apavorados o surto de desemprego que atinge toda a gente, isso a par de autênticas malfeitorias praticadas pelos benefícios, em ordenados elevadíssimos e em sobre ajudas, que são concedidas a uns tantos que andam a fingir que a crise não é com eles, os “golpes” que são públicos praticados em bancos que, ainda por cima, contam com a ajuda do Estado, tudo isso e com as eleições que já estão à vista, consigamos demonstrar que somos merecedores de expressar a nossa opinião sem receios de perseguições pidescas.
Mas, que é preciso alertar para evitar o pior, lá isso é!... sobretudo com as afirmações de alguns responsáveis governamentais de que “isto não está tão mal como parece” e que “lá fora ainda está pior”, juntando todos esses factores é caso para pensarmos se a Democracia que, segundo dizem, ainda paira por cá, tem base para ficar ou se, pelo contrário, alguma coisa está a evidenciar-se no sentido de que poderemos vir a chorar com a saudade de um curto período de trinta e poucos anos que não foi aproveitado condignamente.
Quem me dera estar completamente equivocado. Oxalá,

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

ESTAMOS SEMPRE A APRENDER


Comunicou-me uma Amiga bloguista que considerava que “os meus não são “blogs”, são “spots”. E que eu deveria nos meus escritos fazer ligações aos outros “blogs”, corroborando ou estando em desacordo com os “Bloggers”. Que é uma forma de entrar em diálogo com as outras pessoas e de discutir ideias”.
Ora bem, para além de confessar a minha ignorância técnica sobre a diferença que possa existir entre umas e outras, o que sucede é que eu sou dos poucos que apareço claramente com o meu nome e não me acoberto com títulos indecifráveis à primeira vista Por isso, se alguém lê aquilo que eu deixo expresso nos meus textos aqui colocados, não tem dúvidas sobre o seu autor e digo isto sem qualquer espírito de crítica em relação a quem não quer aparecer de cara aberta aos leitores .Cada um sabe de si.
Se algum dos eventuais seguidores dos meus blogues (e já viram que eu uso a expressão em português) me puder auxiliar com uma explicação clara quanto a isto dos “blogs” e dos “spots”e das vantagens em entrar em discussão aberta quanto aos assuntos que surgem expostos, eu, por mim, fico muito grato. E estou disposto a abrir portas.
No fundo, quem faz os seus blogues é porque encontrou esta forma de comunicar e sempre é mais económico para todos do que editar um livro!

Mesmo sem darmos por isso, tem de haver sempre um motivo para tomarmos qualquer iniciativa. Para levarmos por diante uma actividade. Para tentarmos uma experiência. Para nos desviarmos de uma direcção e optarmos por outra. Para qualquer finalidade. Mesmo para pronunciarmos uma frase, uma palavra, emitirmos um sinal. Até para estarmos quietos. Mudos.
O motivo é a justificação da nossa existência. É ele que nos leva a tomar uma atitude. Eu escrevo, neste momento, motivado pelo que julgo que pode sair de útil e de sincero. Seja o resultado da exteriorização de algo que não consigo conservar dentro. Faço-o porque desejo que outros, sejam eles quais forem, possam vir a tomar conhecimento do que me vai na alma. Disso que também não tenho nenhuma certeza do que seja, mas que sinto flutuar no meu interior. E se sinto, é porque existe, seja qual for o nome que se lhe queira dar.
Todo o ser humano, enquanto se movimenta, nem que seja apenas mentalmente, tem um motivo para resistir. O motivo que leva o pedinte a implorar uma esmola é o de manter a esperança de que conseguirá juntar o bastante para comer nesse dia.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Á ESPERA DE INSPIRAÇÃO

Já há umas semanas que não pinto. Fechei a casinha exígua onde guardo os meus apetrechos de pintura e alguns quadros começados e postos de lado à espera que acabe por me sentir satisfeito com o trabalho feito ou à aguardar alterações e, cada vez que penso recomeçar, volto para a escrita. E o contrário também sucede.
Há períodos da vida que são assim. Deve suceder com toda a gente que tem problemas de apreço por aquilo que faz. Seja o que for.
Mas a mim, no caso da pintura, esta insatisfação ocorre-me sobretudo quando passo por uma exposição e tenho oportunidade de apreciar os quadros expostos. Devo confessar que, aqueles que se afastam da minha definição de pintura, não me provocam nenhuma espécie de reacção crítica. Prefiro considerar a minha capacidade de apreciação desfasada daquilo que outros tomam como arte. E isso não é discutível. Porém, quando deparo com o que para mim é genialidade, é boa técnica mas também grande sentido artístico de quem produziu a obra, quando se trata de uma pintura que me faz parar em frente dela, analisando-a sob diversos ângulos e extasiar-me de prazer, nessa altura é que me arrepio ao admitir que não sou capaz de fazer algo nem sequer parecido.
Porque, pôr cores na tela, prepará-las na paleta e aplicá-las com os pincéis, esse gesto mecânico tem pouco que saber. O difícil é fazer as misturas certas para encontrar os tons ideais e colocá-los no sítio correcto até a obra nascer.
Uma tela em branco não difere de uma folha de papel antes de estar escrita. Ao olhar para qualquer das duas, o pintor, o escritor, o poeta perguntam-se: E agora? E começa aí o problema. É, pelo menos, o que sucede comigo. E não serei excepção.
Quantas vezes, quer ao escrever quer ao pintar, não existe uma ideia definida do que vai sair. Mas é preciso dar os primeiros passos. E acontece que, a partir deles, surge alguma coisa que parece ter pernas para andar, que é como quem diz ser um início indefinido que dá abertura a algo que deve ser desenvolvido. Quando não, pára-se, recomeça-se, volta-se a interromper e se a imaginação não responde, o melhor é mesmo pôr de lado. Até ver.
Quando, mesmo depois de certo trabalho feito, a conclusão a que se chega é que não se vai lá por ali, o caminho da tela é cobri-la de tinta branca e as folhas de papel escritas vão para o caixote do lixo. Sem dó. Sem hesitações.
E na vida de cada um, mesmo não sendo escritores ou pintores, o que sucede? Quantas vezes pintamos na nossa cabeça alguém que conhecemos e fazemos dessa pessoa um ser aceitável, cumpridor, incapaz de praticar maldades graves. Depois, quando passamos a conhecê-la melhor, quando se torna companhia assídua, surpreende-nos a realidade com que deparamos, tudo ao contrário do que tínhamos antes imaginado. Um desconsolo!
Só que não podemos deitar essa pessoa para o lixo ou pintar por cima uma imagem de que passemos a apreciar. Não é papel, não é uma tela. E quantas vezes somos forçados a manter o relacionamento…
Por isso – e não só – cada vez amo mais as minhas folhas de papel em branco e as telas por serem usadas. Umas e outras fazem-me as vontades, reproduzem o que lhes ponho em cima. E se não ficam melhores, a culpa não é delas. É toda minha, só minha. Não sou capaz de fazer obra que se veja.


QUE FUTURO?



Com tanta desgraça que o mundo mostra,
diariamente, persistentemente
ao tomar conhecimento daquilo que o Homem é capaz de fazer, com indiferença, lendo as notícias e passando à frente como assunto que não lhe diz respeito,
a pergunta que talvez valha a pena fazer
é se este caminho da humanidade pode conduzir
a algo que aponte para uma melhoria, para uma aproximação da felicidade,
para levar a que, após tantos séculos de sofrimento,
o ser humano acabe por compreender
que, sobretudo os dois séculos mais recentes,
não contribuíram para que se tivesse parado para pensar e para concluir que
o avanço tecnológico que
se foi efectivando
só contribuiu para tornar ainda mais malvado o interior do velho Homo Sapiens.
Este último período dos cinquenta anos,
esses então só serviram para comprovar que
a idade, a sapiência, a descoberta de novos valores,
a experiência do antes vivido,
nada disso foi benéfico quanto à melhoria
das qualidades humanas que são essenciais
para que todos dêem as mãos
e acabem, de vez, com as quezílias,
com as invejas,
sobretudo com os orgulhos,
essa palavra que se encontra agora tanto na moda
e que, em lugar de ser uma qualidade,
se trata sobretudo de um defeito perigoso.

Perguntem lá a todos aqueles
que foram vítimas, recentemente, dos bombardeamentos, de um lado e de outro,
na Faixa de Gaza ou em Israel,
se serviu para alguma coisa terem estado vivos.
E os que sofrem as epidemias por esse mundo fora?
E os que dormem nas ruas,
por não terem onde acolher-se?
E aos que ficaram sem emprego
nesta fase dramática da crise?
Que fazer com todos esses milhares de milhões
de gente sem trabalho?

Não pode haver esperanças quanto ao futuro,
os que ainda dispuserem de alguma consciência
só lhes restará irem-se defendendo e
procurar não aumentar ainda mais
a massa de gente
imprópria para consumo

Os optimistas pensam isto mas ao contrário.
Pois que sejam felizes assim.
E que tenham a sorte de ir caminhando para outro mundo
Com a convicção de que
o que fica vai sempre melhorando.

Andou Darwing a queimar as pestanas com a descoberta da evolução física do Homem.
Já outro, muito antes, quis provar que era a Terra que girava à volta do Sol, tendo que engolir em seco
porque forças religiosas impunham o contrário, dado que lhes convinha.
Falta agora saber como tudo isto acabará. Como nos extinguiremos.
E o mistério é o ambiente que vai envolver os que cá andarem no futuro.

Paz às suas almas ou às suas cinzas.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

QUEM SOU EU'?

Quem sou eu?
Quem julgo que sou?
E sou o que julgo?
Quem gostaria de ser?
Será que gosto do que fui?
Ou preferia não ter sido?
Entre o que fui e o que sou há muita diferença?
Vai-se alterar algo quanto ao que serei?
Ou já não tenho tempo para ser outra coisa?
Mas se eu não sei quem sou
Se não faço julgamento daquilo que sou
E se não me apetece já passar a ser diferente
E se também já não tenho tempo para mudar
Se não sei se gosto de ter sido o que fui
Se não sei o que mudar o quê e para quê
Também, se não sei o que ando cá a fazer
Se alguém ganha alguma coisa com o que faço
Se não sei nada
Se não obtenho resposta às minhas dúvidas
Eu, que não sei nada
E também não sei se vale a pena saber
O que fui, o que sou e o que serei
Aqui estou
Eu que me declaro ignorante
E que partirei nessa total ignorância

PRÉDIOS ABANDONADOS


É na própria Câmara Municipal de Lisboa que não se esconde a notícia de que atinge o número de 4.600 prédios que se encontram devolutos e em inconcebível estado de conservação nesta nossa capital do País. Não se trata de uma novidade e, portanto, muito menos de uma surpresa. Seja onde for que cada um viva ou circule por necessidade de subsistência, todos nós nos defrontamos com esta realidade, que não é de hoje mas que se tem vindo a acumular e que, por este andar, deparar-nos-emos a breve trecho com uma Lissabona que dá vergonha mostrar aos turistas e que, tal como afirmei num blogue passado, cada vez mais transforma, sobretudo a Baixa, numa zona abandonada e sem vida. Passam-se a ocupar as horas vagas e a fazer exclusivamente as compras nos centros comerciais, iguais a todos por esse mundo fora, e o comércio tradicional, que já foi vivo e brilhante, quando era moda virem as senhoras ao centro, para adquirir aqueles presentes de qualidade, acabará por morrer com lentidão.
Quando Mário Soares já se pronunciou desfavoravelmente em relação à transformação do Tribunal da Boa-Hora num hotel de charme, bem poderia este simpático ex-presidente da República também dar-nos a conhecer a sua opinião no que respeita à falta de casas para alugar andares e no “enxame” de podridão em que se encontram tantos milhares de prédios abandonados. Tanto mais que um seu filho – e, por sinal, nem foi dos piores presidentes - foi já responsável municipal de Lisboa. E não é preciso acrescentar mais a este ponto.
Enquanto não surgir à frente do Município alfacinha um homem que conheça bem a capital, seja possuído de larga imaginação, tenha o que se pode considerar bom gosto e, acima de tudo, seja capaz de, mesmo com falta de dinheiro por se ter gasto desmedidamente nos executivos camarários anteriores, não se contentar com o estado a que as coisas chegaram e consiga dar prioridade ao que se apresenta mais urgente, enquanto vivermos o marca-passo e o tempo das lamúrias não sairemos da cepa torta.
Eu permito-me dar um exemplo, a que, aliás já me referi nos meus escritos sobre Lisboa sempre que tenho oportunidade de divulgar as minhas ideias: é o caso das flores, dos canteiros e dos vasos que faltam em muitos locais que, pela sua importância na história da capital, deveriam ser os preferidos para animar o seu aspecto. Não são necessárias flores caras. Basta que, nos jardins que ainda possuímos, sejam cultivadas plantas baratas e de crescimento rápido e de transplantar, em alturas próprias, os resultados para vasos bem situados, no Rossio, nos Restauradores, no Terreiro do Paço, isto como exemplo.
É a isso que eu chamo imaginação e bom gosto. Como se vê, até um pobre é capaz de seguir esse caminho!...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

AMOR DE PARDAIS


Quatro pardalinhos brincam no chão do meu jardim
picam o chão com entusiasmo
e eu olho-os com ternura
pensando no mundo dos homens
desses que se guerreiam uns aos outros
e não confraternizam como estes pássaros
não dividem o que há para comer
são egoístas, querem só para si

E estes passarotos inocentes
que não sabem o que é pecado
que só procuram defender-se
dos que são gulosos
dos que apreciam o petisco
dos passarinhos fritos
saltitando, piando
lá vão apanhando as migalhas que
sem querer
os homens deixam cair

Que bom seria
se o mundo fosse todo como o dos pardais
dividindo o amor e as migalhas


ERRAR

Quem não fez ainda isso?
Que erro não praticou?
Só não fez esse serviço
Quem a vida não gozou

Há uns que mais, outros menos
Mas um homem sem pecado
Só p’ra fugir aos Infernos
É que escapou desse fado

Há que perder petulância
Evitar que se atropele
De errar é tal abundância

Que há que escrever na pele
O erro ganha importância
Quando se aprende com ele

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Por muito que consideremos anacrónica tal situação, o certo é que se podem dizer coisas, mesmo sem ter nada para dizer. Da mesma forma, podem-se escrever frases sem as ler alto depois, para não se correr o risco de deitar o escrito para o lixo.
Quanto a mim, se bem que não seja muito de falar por falar, já no que se refere ao escrever, aí dá-me jeito depositar no papel aquilo que me vem à cabeça… se bem que, na verdade, depois me custe reler o que ficou gravado pela caneta. Será por falta de amor-próprio, por não me deslumbrar com aquilo que faço, de considerar que é um risco grande que não vale a pena correr, como não sou partidário do “falem de mim ao menos mal”, será por tudo isso mas o facto é que não me entusiasma contemplar o que escrevi.
No íntimo, esta será a verdade, há sempre a esperança de se ser melhor do que aquilo que se parece, em contradição com os que parecem ser melhores do que aquilo que realmente são e que, creio eu, serão os que se encontram em maioria. Mas como a esperança só se perde no derradeira momento da existência, viver com tal ilusão tem a vantagem de alimentar um certo ego, por mais escondido que ele se encontre.
Isto, por mais que se tropece por aí com quem exalte o ego a torto e a direito. E, curiosamente, com verdadeiro sucesso!

ÀS PINGUINHAS



Já tenho estado em desacordo com Mário Soares e, que me lembre, numa das várias viagens que fizemos, até evidenciámos a nossa discordância sobre uma matéria que não vem agora ao caso. O que interessa nesta altura é que eu reivindique aquilo que tenho escrito há muitos anos no que se refere a Lisboa e que é o tirarmos partido das belezas próprias da nossa capital, não virando as costas àquilo que temos e que tem vindo a ser desprezado sucessivamente por múltiplos Municípios que não têm tido a felicidade de pôr nos seus lugares cimeiros presidentes com o mínimo de sensibilidade e de sentido de governação estética.
Quando o ex-presidente da República vem agora afirmar que “é uma pouca-vergonha” transformar as instalações do Tribunal da Boa-Hora num hotel de charme, salto eu para considerar tal afirmação como um choro de velho do Restelo, pois que aproveitar um edifício decadente, que não serve há muito para o exercício de julgamentos, para algo que vai dar vida alegre e profícua, como pode ser um estabelecimento hoteleiro de alta qualidade, esse atitude só pode ser encarada com entusiasmo, desde que se instale o tribunal dali saído para outro apropriado e onde não se vejam as resmas de papel cosido à mão espalhadas pelos corredores sombrios de um antigo convento.
O que eu tenho clamado para que os palácios situados na Praça do Comércio e onde funcionam vários ministérios, completamente deslocados das suas funções, sejam retirados dali e, em seu lugar, surjam também hotéis e estabelecimentos de qualidade, a exemplo do que sucede em Veneza, tanto mais que as arcadas que rodeiam o local seriam melhor aproveitadas se no seu espaço se montassem esplanadas com música ao vivo, durante o dia e em parte da noite, o que faria com que a Baixa lisboeta deixasse aquele aspecto desértico que hoje se vê!...
Estou mesmo a ver que existe gente que bem choraria se se alterasse o aspecto lúgubre, triste, abandonado que hoje se encontra em toda a zona pombalina que, apesar de tudo, se viu construída após o terrível terramoto de 1755. Dá a impressão que seria necessário ocorrer qualquer fenómeno do mesmo estilo para que surgisse outro Pombal capaz de encarar de frente a situação e Lisboa passasse a ver o seu aspecto de acordo com a vida que lhe falta.
Vem a propósito recordar que, desde tempos longínquos, eu venho pregando a necessidade de ser construído na capital um Bairro dos Ministérios, onde se reunissem as centenas de edifícios, completos ou em diferentes andares, que acobertassem as instalações que servem a administração pública nacional que, como é sabido, se encontram espalhadas por tudo que é sítio. Umas alugadas outras de propriedade própria do Estado.Mas não vou aqui repetir o que tem constituído uma canseira da minha parte e sem resultados visíveis. Só às pinguinhas

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

SALAZAR INVENTADO


Mas alguém pode acreditar que o programa televisivo que a SIC apresentou, com o título “o Outro lado de Salazar”, tem alguma coisa de histórico? É possível imaginar que aquele homem que, os que acompanharam mesmo de longe a sua actuação política, conheceram com uma imagem fechada, desinteressante seja qual for o ponto de vista sexual com que foi encarado, com um aspecto “apadrado” à antiga, tenha tido amores com o entusiasmo como o que foi demonstrado nas imagens?
A minha resposta é profundamente negativa. E não creio que a maioria dos que assistiram à exibição do filme sejam capazes de imaginar um Salazar conquistador e perito em funções sexuais, arrancando uns beijos com os beiços todos e a língua em funções eróticas, como aquelas que o realizador fez questão de pôr à mostra, em ambientes íntimos e com as roupas femininas próprias de um bacanal de gente experiente.
Um filme, uma peça de teatro, até um livro sem características biográficas pode dar-se ao luxo de puxar dos seus autores toda a imaginação que forem capazes de fazer sobressair do seu interior. Mas, quando se dão nomes às personagens que pretendem ser a reconstituição de factos ocorridos, nessa altura são os dados históricos, os que se conhecem ou aqueles que foram extraídos de documentação com o mínimo de credibilidade, nessa altura, por mais que apeteça transportar os biografados para campos completamente distantes e até ridículos do que se sabe que foi a vivência dos mesmos, não tem cabimento efectuar esse trabalho com base apenas no gozo que tal caricatura pode dar com actos que não têm forma de ser provados.
A mim, que sou do tempo e da vivência do ditador, não me ofende nada que seja transformado esse homem num conquistador arrebatado. Faz-me rir e só imagino o destrambelhado amante a descalçar as botas à beira da cama e a tirar as meias mal cheirosas e as ceroulas enquanto a parceira, seguramente mais evoluída sexualmente do que o envergonhado, indo à frente nessa acção de tirar a roupa, o contemplava apenas curiosa de saber como aquele homem duro de pensamento era capaz de demonstrar igual fortaleza herética.
Falou-se, de facto, na altura, de uma jornalista francesa que terá arrebatado os amores salazaristas. Também constou que o empedernido condutor de uma política de pleno poder não terá ficado indiferente a uma senhora da sociedade portuguesa que, por sinal, se destacou no acompanhamento dos movimentos militares em África. Mas, daí a poder-se concluir que o homem das botas encaminhasse essas personagens femininas para o recôndito do seu leito, ir tão longe requer um espírito inventivo que não me parece natural que viesse a constituir matéria para um filme e, acima de tudo, de um trabalho para exibição televisiva.
Só gostaria de cá estar daqui a cinquenta anos, para saber se, nessa altura, surgirá alguma película tentando reproduzir a vida íntima de Sócrates.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

MORRE LENTAMENTE…


quem não aceita envelhecer
quem lhe é indiferente o que se passa à sua volta
quem não tem desejos
quem não consegue encontrar virtudes e defeitos na sociedade
quem nunca se revolta, por mais horrorosos que sejam os acontecimentos
quem tanto lhe dá a rua por onde caminha, basta-lhe o destino
quem lhe é indiferente a música que escuta
quem não consegue ler nem ouvir uma poesia
quem nunca pegou num livro e não lhe interessa o que os escritores têm para comunicar
quem fecha os ouvidos aos que sabem mais têm para dizer
quem não sonha, não idealiza, não ambiciona
quem anda permanentemente com o pavor da morte
quem anda sempre conformado com o que a vida lhe proporciona
quem não sabe conversar consigo próprio, não perguntando e não respondendo às suas próprias questões
quem não se espanta com nada, achando tudo normal
quem está convencido que se conhece bem a si próprio
quem só conhece a sua rua e não se preocupa em conhecer outras
quem nunca parou para contemplar a lua, não olha para as estrelas e não tem interesse em ver o sol, mesmo através de um vidro fumado
quem nunca se embriagou, pelo menos uma vez
quem nunca sentiu os prazeres da carne
quem nunca sentiu as influências do espírito
quem não sabe e não sabe que não sabe
quem nunca alimentou fantasias
quem não teve a tentação de despir outrem e, em imaginação, gozar o espectáculo da sua nudez
quem não é capaz de ouvir o silêncio
quem não ama as flores e tudo que a Natureza oferece
quem julga que vale mais do que, de facto, vale
quem julga que vale mais do que todos os outros
quem nunca parou para pensar e, fazendo-o, não tem a humildade de reconhecer que errou
quem nunca hesita antes de tomar uma decisão séria
quem nunca quis pôr-se no lugar de terceiros
quem se ilude com as suas próprias mentiras
quem não desiste das suas convicções, mesmo em face de argumentos que as anulam
quem não acredita no que diz… mas diz
quem anda sempre a pedir a Deus que o perdoe, mas não é capaz de perdoar os outros
quem tem coração que é cego
quem é vazio de interior, exibindo largamente o que tem de fora
quem, fugindo ao seu destino, anda permanentemente a esbarrar com ele

TARDE PIASTE!...




O antigo Presidente da República, general Ramalho Eanes, não hesitou ontem em afirmar publicamente que os portugueses andam com medo, que especialmente olham para o futuro com pavor de que o mal que nos envolve nos dias de hoje, com essa crise que ataca em cheio, ainda se mostre com maior vilania nos tempos que se aproximam. E, como costumam fazer certos indiferentes com o futuro, não faltará quem apelide o homem que, sendo um militar que terá alguma experiência de contenção nas palavras e algum conformismo em face das desgraças que estejam à vista, não poderá ser considerado ligeiramente de pessimista.
Eu, por mim, classifico-o de cauteloso e previdente. E, sem recorrer a alarmismos, acho preferível antecipar os acontecimentos com certa dose de realismo do que ser apanhado de surpresa e só depois é que valha-nos Deus!
A minha crítica ao Governo de Sócrates sempre foi a da ausência de uma verdade límpida a ser comunicada aos portugueses, pois que os fenómenos a que o Homem está sujeito e que, muitas vezes, são consequência sobretudo do seu próprio mau comportamento, esses, em lugar de serem disfarçados ou até escondidos, o que sim devem é ser expostos aos cidadãos e ser mostrada uma vontade e uma competência bastantes para suprir ou diminuir os efeitos maléficos desses acontecimentos. Volto a usar neste blogue a expressão crise financeira, económica e depois arrastada a social, para referir a “peste” que chegou a todo o mundo e que foi sendo contemplada à medida que avançava por diversas zonas terrestres, não podendo ser considerada uma surpresa quando arribava a um país concreto. No que a nós se refere, o Executivo de Sócrates não tinha que ir olhando para o lado e, sacando do seu desejo de que nos “safássemos” desse vírus, ter andado a considerar um mal menor de que Portugal se livraria quando cá chegasse.
Agora, de repente, entende que já é altura de lançar avisos, muito embora o que merece é que os portugueses lhe contestem com um “tarde piaste”, pois que, nesta altura, não precisam que venha ninguém mostrar-lhes o que estão a sentir na pele.
Agora já se tornou público que, mesmo dentro do PS, existe medo. E por muito que a propaganda de Augusto Santos Silva faça esforços para pôr água na fervura”, vários receios se levantam, por motivos internos, mas também em relação ao panorama que surge num período que antecede eleições de vários tipos e isso, há que reconhecê-lo, terá influência na escolha que o povo irá fazer no momento de deitar na urna o resultado da sua escolha.
Por pouco tempo que reste de hoje e até ao momento eleitoral, nunca é excessivamente tarde para lançar mãos à obra e para se colocar a população perante os factos concretos. O tarde piaste é que já não serve para nada!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

GERAÇÃO SOFRIDA

Que esperanças tinha que houvesse Abril
o que eu ansiava por fim do inferno
bem dentro guardava sonhos mil
e que apodrecesse o que era governo

Levou tempo, tempo demais, demais
vivi o antes até demasiado tarde
passei por excessivos vendavais
tropecei em muita gente cobarde

Até que chegou, não era sem tempo
veio com armas, não era o ideal
para tantos terá sido um contratempo
não estava no programa tamanho funeral

Foi a euforia, a loucura nas ruas
tirou-se o tampão da garrafa fechada
tal como quem tira por fim as gazuas
do portão de uma quinta trancada

Uns quantos tinham razão de estar felizes
terão sofrido muito até então
não tiveram conta por quantas crises
passaram, apenas por dizerem não

Mas terá sido assim com a maioria,
toda essa gente que se mascarou
vestiu a farda do revolucionário, seria,
por dentro aquilo que mostrou ?

Quantos apanhada a carruagem em giro,
não foram os que ganharam com a troca ?
Fizeram tal e qual como o vampiro
e puseram-se, matreiros, bem à coca

Como ganharam com isso os aproveitas
chorudo futuro festejaram
valeu a pena a troca, largas colheitas
tiraram do campo que outros lavraram

Aqueles que tinham idade para tanto
e passado que sangrava em ferida
quase que foram postos a um canto
tratava-se, afinal, da geração sofrida

Sofrer antes e sofrer depois é muito
não é justo, há que reconhecer
poderá não ter sido esse o intuito
mas é algo que dá para entristecer

Geração sofrida, tem que se dizer,
ela existe, obscura e triste,
a juventude nem pode agradecer
ninguém mostrou e disse em que consiste

E assim se vai escrevendo a História
com lacunas, esquecimentos, inverdades
a geração sofrida escapa à memória
quem não sabe não alimenta saudades

Geração sofrida,
O que não pode estar é arrependida

NOVO ROBIN DOS BOSQUES


Não custa assim tanto, de facto, aceitar que a boa experiência que os americanos estão a sentir com a eleição, ainda recente, de Barak Obama para presidente dos E.U.A., está a dar resultados positivos em muitos outros países que, sem complexos, entendem que são medidas também a seguir em vários cantos do mundo.
É sabido que a América do Norte, pelo extensão da sua área, pela sua posição geográfica e também devido ao factor de ter sido, desde a sua constituição, um país que tem acolhido milhões de povos de todas as origens e, devido a isso, se apresenta como uma mistura que se coaduna com as diferentes espécies humanas, por isso e ainda por se ter apresentado sempre como uma Nação rica e poderosa, quando o comando das suas acções não condiz com o que a esfera terrestre aguarda como exemplos, a desilusão e as más consequências fazem-se notar em todo o hemisfério. Foi o que sucedeu durante a vigência do anterior presidente Bush, pelo que também a chegada ao poder de Obama constituiu um sopro de esperança que se respirou em muitas zonas do mundo.
Ainda não é altura de lançarmos foguetes, porque o pouco tempo decorrido desde a data da mudança na Casa Branca não chegou para apanharmos as caninhas. Mas, o seu tom conciliador e aquilo que tem afirmado desde o dia em que se sentou na cadeira da sala oval, tudo isso já permitiu perceber que se trata de um político que, embora sem a chamada experiência que muitas vezes constitui um motivo para a escolha, o que leva na bagagem é o chamado bom senso, qualidade de que, com frequência, se nota a ausência por parte de pessoas que se habilitam a situar-se à frente de governos. Nós, por cá, temos experiência do que é isso de falta de sentido comum, de ausência de vontade de ouvir quem sabe mais, de não estabelecer um diálogo com os outros e pôr de parte quezílias partidárias.
Mas, pelo menos é a minha impressão, de que o estilo obanista (tipo Robin dos Bosques) está a chegar a S. Bento. E, do mal o menos, pois que, se forem aproveitas as boas medidas, ainda podemos usufruir dos bons resultados.
Sócrates, de repente, começou a utilizar um estilo que mostra semelhanças com aquilo que, do outro lado do Atlântico, se está a desenvolver pela actuação de Obama. Parece que se perdeu o complexo de exigir dos ricos, nas comparticipações nas Finanças, procurando-se aliviar as classes mais desfavorecidas. Pelo menos o anúncio, com alguma precaução, já foi dado por Sócrates, e espera-se que terminem de vez os salários de verdadeiros “paxás” que se praticam ainda por cá em diversas empresas com intervenção estatal e até naquelas que já usufruíram de auxílios dos dinheiros públicos.
Não me alongo neste pormenor. Toda a gente sabe que se trata de uma vilanagem que não pode ser autorizada pelo sector público. E que as mordomias de toda a espécie que são concedidas a felizardos que se encostam ao Poder, essas têm que ter um fim… e quanto antes.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

RIR É O QUE NOS RESTA!



Neste nosso País parece que se faz de propósito para fazer surgir situações que complicam cada vez mais a vida dos cidadãos. Quase sempre que tomamos conhecimento de uma notícia, fruto de uma tomada de posição por parte daqueles senhores que se situam em lugares de comando, somos forçados a deparar com mais uma dificuldade que é criada para que seja levada por diante qualquer iniciativa, pois que, a par dessa medida que, em princípio, pretende emendar alguma coisa que funciona mal, nasce um novo empecilho que tem de desagradar a quem se movimenta por cá.
Já não bastava aquela determinação incompreensível de encerrar ao trânsito o Terreiro do Paço, aos domingos à tarde, e aí vem outra restrição que impede que, durante alguns meses – nunca se sabe quando acabam as obras iniciadas -, profundas remodelações na baixa de Lisboa entupam o movimento de autos em diversas ruas que confinam com a praça do Comércio, o que obriga os interessados em deslocar-se para qualquer dos lados daquela zona o terem de utilizar diferentes circuitos, alguns bem incómodos.
Para começar, a Câmara lisboeta ocupa-se dos esgotos, a fim de terminar com as descargas directas no Tejo. E até Março de 2010, com um investimento de vários milhões de euros, o desvio será feito para as bandas de Alcântara. O mesmo se irá passar quanto à substituição das condutas de água à capital e o torreão poente da mesma praça, que desde a sua construção já abateu 1,4 metros. Tudo necessário, não há dúvida, só que também tudo tarde e a más horas!
Em resumo: as dificuldades são o pão nosso de cada dia neste País onde, para fazer uma reparação, seja ela qual for, sem qualquer receio de causar incómodos aos transeuntes, a decisão que logo se toma é a de impedir isto ou aquilo, colocando polícias para desviar trânsitos e aplicando tapumes, de que gostam tanto os decisores que andam por aí e têm interferência nas alterações que se fazem.
E não são só os mandões colocados em secretárias de comando. Quaisquer senhores silvas, que têm à mão correntes para estender nos passeios, que põem e dispõem sem ter de consultar os seus chefes, sempre que se realiza uma obra, num prédio, numa calçada, até numa loja, resolvem colocar os seus taipais e, para poderem ter espaço para colocar as suas viaturas enquanto as resparações duram, ocupam grande parte das ruas junto aos passeios e ali tomam posse daquilo que não lhes pertence.
Não há regras e não existem fiscalizações que imponham ordem e método, o que constitui prova mais do que provada que Portugal anda ao Deus dará, não só hoje mas sempre, por que todos nós temos casos para apontar ao longo da nossa existência como portugueses.
Por exemplo, as indicações dos caminhos e estradas por esse País fora, surgem sempre após a entrada de tais desvios e nunca com a antecipação de espaço e tempo que se considera como uma prevenção útil. Existe agora na RTP um programa que pretende chamar a atenção para autênticas selvajarias que bem conhecemos e que, apesar das entidades oficiais existirem para cuidar dessas incongruências, só por se sentirem envergonhadas por tal exposição, é que lá vão remendando os erros.Mas o que é preciso é que se lhes chegue bem na cabeça. Não podemos andar toda a vida a rirmo-nos de nós próprios

domingo, 8 de fevereiro de 2009

FUGA PARA ANGOLA!



Já me tinham dado a conhecer as dificuldades que se levantam para obter visto de visita a Angola, começando por ser uma demora acentuada em ser obtido tal visto nos passaportes, dada a grande afluência de pedidos que atulham o respectivo consulado em Lisboa. Um antigo funcionário do semanário que eu dirigi, “o País”, que o acolheu em 1975, quando ele chegou da antiga colónia portuguesa, terra onde nasceu, ao querer, 30 anos depois, ir visitar a sua mãe e irmãos que ficaram no interior profundo da terra natal, agora com nacionalidade portuguesa e trabalho por cá, teve de se sujeitar às regras que Angola agora impõe e foi obrigado a explicar minuciosamente os motivos da sua visita.
Mas as razões parecem ser claras: é que a quantidade de portugueses que, em face das dificuldades que se sentem por cá para tentar conseguir uma vida minimamente aceitável, procuram, uns regressar a um local já conhecido de outras “guerras” e outros tantos para iniciar uma experiência em Angola, dado as notícias que lhes chegam serem suficientemente animadoras, procuram, repito, fugir deste tormento e também não havendo outras escolhas, pois que a crise que nos controla também não oferece perspectivas em países que, até há pouco, serviam para efectuar a experiência da emigração, como Espanha, por exemplo, deitam os seus olhos para onde, antes, foi um destino natural.
Essa a razão por que a terra angolana se oferece como uma porta de acolhimento que, no caso português, entre outras razões pela língua comum, se mostra particularmente sugestiva e se, já antes, o espírito colonialista não se encontrava na primeira linha dos portugueses que deslocavam as suas vidas para o ambiente africano, do lado ocidental, agora, por maioria de razão, a irmandade funciona como que um parentesco natural, não havendo quaisquer diferenças no que diz respeito a cores de pele.
Eu, que fiz várias visitas jornalísticas a Angola, de Norte a Sul, e pude testemunhar que o chamado “caldo” era o castigo mais visível que se aplicava aos empregados caseiros negros, quase como se se tratasse de uma penalização de mau comportamento que também servia para meter na ordem algum jovem familiar (e as excepções confirmavam a regra), não posso admitir que a maneira que os novos habitantes nacionais irão utilizar nesta nova vivência se terá de classificar como uma adaptação ao que as circunstâncias impõem. Não, tratar-se-á de uma atitude natural e, para a própria Angola, ser-lhe-á muito mais conveniente que os novos habitantes a engrossar a população local sejam constituídos por portugueses do que por outras nacionalidades, com línguas distintas e sem o coração e o conhecimento que nos é peculiar, por muito desastrada que tenha sido a política do nosso País nessa época colonial, a qual não tinha nada a ver com a realidade a que eu assisti de, no interior do mato imenso de Angola, se instalaram os chamados “fubeiros”, portugueses incultos mas com vontade de trabalhar, que passaram dezenas de anos em contacto directo com os indígenas, fazendo filhos mulatos e sem vontade de regressar a Portugal, para onde só vieram porque os governos, primeiro de Salazar e depois de Marcelo Caetano, este ainda mais culpado porque conhecia o mundo, não souberam negociar por forma a efectuar uma descolonização pacífica e proveitosa para ambos os lados… sem guerra!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

PERDER, NEM A FEIJÕES!


Não é que tal situação aflore ao meu pensamento, nem poucas nem muitas vezes, mas, ao ter lido, por estes dias, a notícia de que o portador de uma fortuna descomunal, esse homem que, durante anos em dias do passado e ainda no tempo de Salazar, era conhecido apenas por “o chinês”, e que, já depois da Revolução, passou a ver o seu nome divulgado com total conhecimento de quem se tratava, Stanley Ho, o todo poderoso dos Casinos de Macau, do Casino Estoril e agora também do Casino de Lisboa, ao ser afirmado que tal potentado levou um rombo na fortuna, pois perdeu, em 2008, 89 por cento do que tinha e, segundo revelou a Forbes, ficou reduzido “apenas” a mil milhões de dólares, perante tal inquietante notícia veio-me à ideia o sonho de que era eu a vítima de tamanho corte e que o meu nome surgia com a indicação de que me encontrava reduzido ao que sobrava da montanha de dinheiro que tinha sido de minha propriedade.
Quer dizer, de repente, ao acordar uma manhã era-me comunicado que a crise que não perdoa me tinha chegado à porta e que, dos muitos milhões que se encontravam nas diversas contas bancárias e nos activos dos meus bens, uma talhada grossíssima tinha sido extorquida e que tinha passado a ser somente um homem rico, mas não um dos mais ricos do mundo.
Não sei o que sentiria. Não imagino se, nesse dia, mandaria os meus cozinheiros reduzir nos pratos esquisitos que normalmente me eram servidos. Provavelmente dava ordem para retirar do pátio da minha deslumbrante casa em Hong Kong os vários automóveis de grande luxo. Começava a fazer contas mais severas quanto aos gastos com superficialidades que costumam fazer parte do meu dia-a-dia.
E digo isto porque já tive oportunidade de jantar em casa de Stanley Ho, por sinal um prato com carne de vaca especial que vinha directamente do Japão e tendo ficado hospedado no Hotel Mandarim, a seu convite, beneficiei do conforto de um dos seus sete Rolls Royce, até partir para Macau também sob o auspício de Stanley Ho.
Foi numa altura em que o magnata se queixava amargamente da falta de apoio (e até de perseguição) do então Governador português no território nacional na China, e que me pediu para dar uma entrevista em que apresentou as suas razões, o que deu oportunidade a que Ramalho Eanes, então Presidente da República, ficasse conhecedor por mim desse caso e tivesse substituído o governador de então e, a partir dessa ocasião Stanley Ho passou a beneficiar dos favores políticos e se resolveu, por isso, a investir em Lisboa, do que já
tinha desistido, tendo ficado com a concessão do jogo no Estoril e, através disso, começando a interessar-se por outras aplicações de capital no nosso território europeu. E têm sido muitas.
Relato isto com grande satisfação, pois foi graças à minha intervenção jornalística que não se perdeu um investidor estrangeiro daquele gabarito e hoje são inúmeras as famílias que beneficiam do trabalho – algum deles ultra bem pagos – que lhes dão os empreendimentos do homem que, de repente, sofreu também as agruras de uma crise que chegou a todos.
Seja como for, este sonho que aflorou à minha cabeça de que tinha levado um corte na monstruosa fortuna de que era o possuidor, só serviu para escrever este texto. Mais nada do que isso. Pode ficar descansado o Assis Ferreira, que foi um dos beneficiários do meu trabalho jornalítico em favor de Stanley Ho, de que o que sobra ainda chega para o fazer feliz. Deve andar mais preocupado o “chinês”, que isto de perder dinheiro não agrada nem aos que dormem enrolados em notas e moedas de todo o mundo.