terça-feira, 29 de abril de 2008

TALENTO



Anda por aí
bem me dizem
à espera que o apanhem
se por mim passa, se passa,
não me toca
nem se deixa
agarrar por minhas mãos
é o talento,
o malvado,
esse vento desbragado
que nada comigo quer
e se um dia me couber
segurá-lo apertado
já não vai p’ra outro lado
noutras mãos não vai parar
aqui é o seu lugar

P’ra que me serve agarrá-lo
se eu não sou o tal artista
que bem proclama amá-lo
e mantê-lo bem à vista?
É como adorar, ouvir
uma bela sinfonia
mas depois, nem a fingir,
sem mais pequena mestria
não vou nem assobiá-la
porque o tal, como o vento,
não consigo segurá-la
não sou dono do talento

Anda por aí
eu bem sei
mas já tem dono, o malvado
a mim nem sequer me liga
escorraça-me
amordaça-me
aproveita qualquer vento
não fica aqui… o talento

RESPONSABILIAR OS RESPONSÁVEIS


Cada dia que passa e perante a acumulação de noticiário que invade as colunas dos jornais e os minutos de rádio e de televisão que temos, somos levados a lastimar, os que nasceram anos atrás bastantes para não poderem agora levar em consideração a eventualidade de ir viver fora de fronteiras, cada momento que somos forçados a resistir ao que nos rodeia vai aumentando a sensaboria e o desconsolo de nada podermos fazer para dar um puxão de orelhas naqueles que, dispondo de meios para actuar, se dedicam a encolher os ombros e a não serem capazes de mostrar obra feita, por forma a alterar bastantes estados de coisas que não podem continuar, indefinidamente, a ser iguais ao que eram, isto é, a arrastar-se na teia da indolência e do comodismo, porque o não fazer nada é mais sossegado do que o tomar decisões.
Vem isto a propósito do que me foi dado saber que se tinha passado anteontem ou nos dias muito recentes. Por exemplo, o assalto ocorrido a uma esquadra da Polícia, em Moscavide, em que uns tantos energúmenos agrediram um indivíduo que ali tinha acorrido para pedir refúgio, maltratando também o único guarda de serviço, esse acontecimento mostra bem o estado de insegurança em que se vive, e em que já não chegam os assaltos no chamado método do “carjaking”, posto que todos os outros, os roubos clássicos já se tornaram banais. E os vândalos que atacaram, pela sétima vez, uma escola sem segurança nos arredores de Faro. Como o jovem que agrediu polícias com pedras da calçada e ainda o empresário esfaqueado por “striper”, tudo isso faz parte da lista de acontecimentos, num só dia, em que cada situação merecia que algum responsável não afirmasse que não tinha conhecimento das circunstância que proporcionaram a execução de tais malfeitorias. Foi o que se ouviu afirmar ao representante do Governo chamado a pronunciar-se.
Que confusão se faz por cá quanto à interpretação da aplicação do sistema democrático, temendo que se confunda exigência de responsabilidades com perseguição ditatorial e mão dura com bandalheira quanto ao cumprimento das obrigações que cabem a cada um dos cidadãos, sejam eles os mandatários do povo para fazerem cumprir leis, sejam os que, no seu devido lugar, têm de viver aceitando as regras.

DESPERCEBIDO


Passar na vida sem nada acontecer
desde que saiu da mãe e até morrer
é algo de no túmulo se gravar
mas não é raridade, antes vulgar

Passar despercebido, ser boa gente
ser alguém entre muitos que ninguém sente
falar, falar às vezes e não ser ouvido
passar entre os homens e não ser sentido

Após morrer, chamarem boa pessoa
incapaz de ser alguém que atraiçoa
ninguém aponta um único defeito
mas também não se conhece qualquer feito

Eis o modelo de gente entre milhões
igual aos que não saíram dos padrões
mas a dúvida é ficar sem saber
se aquilo foi viver ou apodrecer

Quem não consegue viver em plenitude
anda por cá e não faz que algo mude

DESENCANTO ... POR ENQUANTO!




(Recordo que os textos que vão surgindo sob este título, são extraidos de um largo arquivo que
vou sempre aumentando, cada vez que abraço o volume que reflecte reflexões que faço quase
diariamente, sempre no café que frequento. Quem se interrogar sobre o motivo de certas
afirmações aqui surgidas, tem perante si a resposta. Por muito que se diferencie dos muitos
blogues que enriquecem o conjunto que se oferece para leitura).


Cada vez mais tenho a sensação de que, para os outros, fui sempre alguém do lado de lá. Não só para os mais afastados, mas também para os parentes. Quanto mais tempo vivo, mais me convenço desta realidade, E, nesta altura, não vale a pena disfarçar que não é assim. A culpa, se é que se pode querer descortinar culpado nesta situação, terá de ser atribuída apenas a mim. Porque não serei abertamente comunicativo. Porque não pertenço àquela maioria de pessoas que mostram dar grande importância ao que os outros dizem, sobretudo quando internamente não atribuem valor suficiente para isso. Será por não ter esse sentimento de interesse demonstrativo, que tanto agrada aos outros interlocutores. Será por isso. Mas, seja pelo que for, a realidade é essa: Provoco pouco sentimento de intimidade nos outros.
E a verdade é que nem sei se sinto falta dessa intimidade. Dessa cumplicidade. Mesmo no que diz respeito aos amigos mais chegados, nunca senti esse entrosamento, daqueles que dá para trocas de confidencialidades. O meu íntimo sempre foi resguardado e, talvez por isso, o dos outros nunca me foi revelado. Antes assim.
Aquilo a que se chama “abrir-se” com alguém, foi coisa que nunca fez parte dos meus costumes. Sobretudo, porque não creio que interesse ao próximo saber o que vai no meu íntimo. Poderão, por simples curiosidade, escutar o que lhes transmitisse de muito privado que existisse no meu âmago, mas mais do que isso não se passaria.
Estar do lado de lá é, pelo menos, estar nalgum sítio. Digo eu, para justificar o meu ponto de vista. Estar em todos os lugares, do lado de cá e do lado de lá, mostrar abertura e até entusiasmo quanto ao que se escuta numa conversação, é uma forma de estar na vida para além de ser cómodo. E não importa averiguar o grau de verdade que existe em tal posição. Se eu fosse assim, só tinha a ganhar no capítulo da apreciação dos outros a meu respeito.
Mas, quanto à apreciação de mim para mim próprio?

DESPEDIDA


Dizer adeus sempre é pena
ver partir os que gostamos
nunca se esquece tal cena
mesmo passados os anos

Por mais longe que eles vão
p’ro Além ou cá na Terra
os queridos partirão
a dor em nós se encerra

Por muito que seja dura
e grande a nossa dor
na hora de despedida

O tempo os males cura
diz o povo sabedor
que conhece bem a vida


(Escultura da cabeça de José Vacondeus, da autoria de artista italiano)

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Por muito que se tenha vivido e por bastante menos que nos falte para concluir o capítulo da vida, sempre se mantém a perspectiva do amanhã. Seja para dar seguimento a uma tarefa inconcluida, seja por haver esperança de que depois é mais oportuno terminá-la. O agora nem sempre apetece. O já é normalmente incómodo. Fazer de seguida cansa, muito embora possa resolver logo a questão pendente. Encarar na altura um problema pode não dar ocasião a meditar com tranquilidade. Sobre ele e quanto à melhor solução.
O logo se vê é a posição que tomam os que arrastam para depois o encarar com as situações. O “espera aí que depois resolvo”, pode ser uma defesa para as arrelias. Um pé no travão das coisas incómodas, daquelas que, quanto mais tarde melhor, mesmo que não as elimine dá espaço para mudar de rumo.
Essa frase do “há tempo”, faz tranquilizar até os que sabem que o assunto em mãos tem contornos de urgência. Com base na expressão de que o tempo cura tudo, o deixa andar acaba, por vezes, por dar razão a quem receia enfrentar situações complicadas. E a verdade é que, se não é a melhor solução o que o tempo acaba por proporcionar, pelo menos dá mais espaço para acalmar os espíritos daqueles que defrontam um incómodo.
Seja como for, o jogo do empurra, o espera aí um bocadinho, o quanto mais tarde melhor, tudo isso só pode ser considerado como uma manifestação de fraqueza. É deixar para depois o que pode ser feito logo. É manter uma preocupação pendente, é até ter medo do resultado do confronto com o problema.
Estou a escrever este texto e faço-me esquecido de que tenho marcado um encontro com um editor para apreciar os trabalhos que tenho arrecadados numa gaveta. Vou pensar melhor se devo correr esse incómodo. Se estou preparado para uma desilusão. Se não estarei a deitar achas para a fogueira das desilusões, se não poderei atacar a árvore das esperanças que constituem o veio da força para a manutenção das minhas produções.
Não digo nada. Quando arrumar os papéis que tenho sobre a mesa e sair do café logo vejo se os meus passos se encaminham para esse “juiz” da obra dos outros. Ainda não sei se não será mais um “logo veremos”.

domingo, 27 de abril de 2008

GERAÇÃO SOFRIDA


Que esperanças tinha que houvesse Abril
o que eu ansiava pelo fim do inferno
bem dentro guardava sonhos mil
e que apodrecesse o que era governo

Levou tempo, tempo demais, demais
vivi o antes até demasiado tarde
passei por excessivos vendavais
tropecei em muita gente cobarde

Até que chegou, não era sem tempo
veio com armas, não era o ideal
para tantos terá sido um contratempo
não estava no programa tamanho funeral

Foi a euforia, a loucura nas ruas
tirou-se o tampão da garrafa fechada
tal como quem tira por fim as gazuas
do portão de uma quinta trancada

Uns quantos tinham razão de estar felizes
terão sofrido muito até então
não tiveram conta por quantas crises
passaram, apenas por dizerem que não

Mas terá sido assim com a maioria,
toda essa gente que se mascarou
vestiu a farda do revolucionário, seria,
por dentro, aquilo que mostrou ?

Quantos apanhado a carruagem em giro,
não foram os que ganharam com a troca ?
Fizeram tal e qual como o vampiro
e puseram-se, matreiros, bem à coca

Como ganharam com isso os aproveitas
chorudo futuro festejaram
valeu a pena a troca, largas colheitas
tiraram do campo que outros lavraram

Aqueles que tinham idade para tanto
e passado que sangrava em ferida
quase que foram postos a um canto
tratava-se, afinal, da geração sofrida

Sofrer antes e sofrer depois é muito
não é justo, há que reconhecer
poderá não ter sido esse o intuito
mas é algo que dá para entristecer

Geração sofrida, tem que se dizer,
ela existe, obscura e triste,
a juventude nem pode agradecer
ninguém mostrou e disse em que consiste

E assim se vai escrevendo a História
com lacunas, esquecimentos, inverdades
a geração sofrida escapa à memória
quem não sabe não alimenta saudades

Geração sofrida,
O que não pode estar é arrependida

CAVACO SILVA E O DISCURSO




Ao ler atentamente o discurso do Presidente da República, Cavaco Silva, pronunciado na sessão comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República, e em que foi divulgada a sua preocupação frente ao que considerou constituir a ignorância da juventude em relação ao 25 de Abril, perante tais declarações, mesmo que queira não posso ficar indiferente face à admiração que isso terá provocado, quer, parece, ao autor das palavras proferidas quer na repercussão que se verificou na transcrição posterior na comunicação social. E é por isso que não resisto a deixar aqui expressa a minha opinião sobre tal matéria.
Por vezes tenho a sensação de que caminho isolado neste País, que o que contemplo à minha volta não é visto pela maioria dos meus compatriotas, especialmente pelos que assumem responsabilidades políticas, pois tomo conhecimento de afirmações que têm forçosamente de causar espanto a quem não anda completamente distraído cá neste burgo, que é o nosso e que nos vai causando permanentemente mais dissabores do que alegrias.
Tenho pelo político Cavaco Silva o respeito e a consideração que me deve merecer um primeiro Magistrado da Nação. Se ele lá está é porque foi eleito pela maioria dos portugueses e, quanto a isso, com este ou com outro titular, não há que levantar quezílias. Por sinal, no desempenho das suas funções tem dado mostras de bom senso, especialmente não impondo a ideologia política que talvez mantenha em virtude da sua origem perante a actuação de outras forças que se situam em quadrantes diferentes. Faz o que compete a um Presidente que não exerce o cargo para aumentar ainda mais o mau relacionamento que se verifica entre todos os agrupamentos que, esses sim, existem para evidenciar discordância e para tentarem fazer a vida negra aos que se encontram na posição de governantes.
Mas, apontando apenas um facto concreto e dado tornar-se de uma situação muito recente, não escondo que fiquei deveras desiludido com a atitude de Cavaco no que se refere à sua passagem pela Madeira e não ter dado mostras, mesmo que devidamente cautelosas, do seu desagrado em relação à porta que lhe foi fechada para presidir a uma sessão solene do Parlamento ilhéu. E, em particular, depois das declarações, infelizes como sempre são, as do homem que preside totalitariamente ao comando do Governo local.
Não quero dizer com isto que seria oportuno fomentar ali uma “guerra”, aumentando o mau viver criado por Alberto João Jardim em relação ao Continente. Já bem basta o que basta, estou de acordo. Mas que seria uma forma de demonstrar que aquele Arquipélago ainda não é independente e que, por isso, tem de respeitar as regras que lhe são impostas pelo todo nacional e que, enquanto se mantiver o quadro político português, Lisboa é que é a capital de todo o Território pátrio, pelo que o Governo geral não se situa no Funchal nem noutro sítio ao livre arbítrio de um mandão qualquer, por muito respeitável que seja a sua actuação como comandante do poder local, ter Cavaco Silva, com amabilidade mas com firmeza, chamado a atenção para esse facto não teria caído mal ao País que ainda somos e que, como é bem sabido, anda precisado de uma lavagem de cérebro e de um estímulo patriótico para fazer frente aos desagrados diários que somos obrigados a enfrentar.
Ora, isto vem bem a propósito da tal ignorância que os nossos jovens demonstram quanto à História do 25 de Abril, tanto mais estranho como se esse fosse o único sector em que a juventude (quer-se dizer, da população entre os 10 e os 50 anos?) dá mostras de não ser propriamente grande conhecedor!...
Para não me alongar demasiado no comentário de fundo que bem me apetecia fazer, basta que me fique pelo essencial: é que os portugueses, de uma forma bem generalizada, são a matéria-prima que forma um povo que, desde séculos passados, desde a sua Fundação - podemos e devemos repisá-lo -, tem dado largas demonstrações de que não é propriamente grande sabedor, muito instruído, exemplarmente avançado nas descobertas e nos rasgos de conhecimentos profundos.
Tivemos, pela nossa História fora, figuras de que nos devemos recordar e que podem servir de exemplo à juventude, dando a ela conhecimento completo da sua existência e das suas obras, o que não é feito devidamente? Lá isso temos. Mas a regra geral não é essa. E o que temo perante os olhos, nos dias de hoje – deixando para trás o já lá vai -, é um panorama de que não será legítimo que nos satisfaça. É a minha opinião.
De quem é a culpa dos tristes espectáculos de interrogatórios de rua que, de vez em quando as televisões nos mostram, quando descem à praça pública? O Senhor Presidente da República não quer dar-se ao trabalho de reflectir sobre isso? Os vários partidos políticos, sempre tão prontos a apontar erros àquilo que os outros fazem e a não serem capazes de encontrar soluções, especialmente quando se situam nos lugares que lhes permitem mostrar o que valem, esses não dão a volta a este estado de coisas. Não é de agora, não é deste Governo, mas será de todos os que se instalaram desde o tal 25 de Abril (e, repito, o mal que vem de trás, já nem vale a pena referir), de todos esses, recordando que muitas das figuras que acumularam erros sobre erros aí estão, de novo, a querer voltar a instalar-se nos lugares de honra, de todos esses, repiso, que reside a culpa de, após 34 anos de Democracia, estarmos, quanto ao nível de conhecimentos dos portugueses, na mesma: IGNORANTES.
Continuemos, portanto, a achar muita graça às atitudes lastimáveis e às frases verdadeiramente deploráveis de políticos como o tal Jardim; prossigamos na escuta dos discursos presunçosos dos políticos, quer estejam no Poder quer não, com as referências que ninguém entende de percentagens disto e daquilo; e insistamos em presenciar o que sucede, nesta altura, com a guerrilha que se instalou no seio de PPD, apenas e só para uns tantos usufruírem do cadeirão que ficou vazio pela saída de alguém que não se sentiu apoiado no cargo que exerceu de passagem. Vamos andando no meio de todo este lodaçal, mas não nos queixemos quer da juventude ignorante quer da população de idade mais avançada só por não terem paciência para encaixar as habilidades de linguagem daqueles que, está à vista, o que querem é apenas o seu esplendoroso bem estar.
Aqui deixo o que penso. E não o mando dizer por ninguém!...

sábado, 26 de abril de 2008

O CÍRIO


As lágrimas que correm neste mundo
A fome, a doença, os desgostos
Obrigam a que lá muito no fundo
Os homens escondam nas mãos os rostos

Sofrer é caos que ataca os mortais
Ricos e pobres, de todas as cores
É alguém que nos envia sinais
De que p’ra viver há que sofrer dores

É isso, a vida fácil não é
P’ra uns melhor, p’ra outros um martírio
Mas é quando se chega ao rodapé

Que já na fase final do delírio
Se toma consciência do que é
Quando então p’ra nada serve um círio

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 DE ABRIL




Hoje, 34 anos passados sobre a data em que os portugueses, sobretudo os que têm idade para estabelecer e interpretar conscientemente a diferença entre aquilo que era antes a nossa existência e o que ocorre hoje, precisamente na altura em que sentimos todos nós - ou a grande maioria de nós, porque os que usufruem das vantagens e dos benefícios que lhes são concedidos pelos cargos importantes que ocupam, esses andarão a rir-se para dentro e a fazer afirmações de extasiante optimismo sobre o futuro que os aguarda - no momento, repito, em que sentimos quase todos nós, a preocupação generalizada, é nesta data que se atravessa que é legítimo e seguramente necessário que paremos para reflectir.
Cada um de nós terá os seus motivos para se situar nos dois extremos: ou em êxtase perante a situação económica, financeira, social que se instalou neste País que nunca usufruiu, sejamos sinceros, ao longo de toda a sua longa História, da felicidade suprema, ou, precisamente na posição oposta, encarando já os dias que correm como assustadoramente preocupantes no que diz respeito ao futuro, não vislumbrando uma saída que leve os portugueses a não ter necessida de de recorrer a mercados de trabalho no estrangeiro, e em que a nossa vizinha Espanha já está a ocupar um lugar preferencial, interessando a juventude para atravessar a fronteira a caminho do vizinho que, ainda há pouco tempo, era tomado como pouco recomendável.
Existem ainda os outros nacionais que, em face da situação que se vive nesta época pós-25 de Abril, actuam como sempre é costume entre os nossos compatriotas: estão indiferentes, não sabem o que hão-de pensar, não se atrevem a demonstrar uma opinião, têm medo de ser considerados como defensores da ditadura salazarista que aqui se instalou durante excessivo tempo, mas também, dadas as suas actividades que se situam em áreas sem grande ligação à actividade política e não tiveram antes que tropeçar num sistema que usava a opressão como força para decidir sobre a existência de todo um Povo. tal como hoje apenas sentem os efeitos da governação democraticamente instalada pela diminuição do poder de compra e por aquilo que a comunicação social, agora com total (ou relativa) liberdade para exercer a crítica, aparece a denunciar, muitas veses também por influência de posições partidárias fortes que exercem o seu poder nas administrações desses orgãos.
É que Democraria plena, séria, isenta, completamente livre de pressões de grupos ou, pior ainda, do poder financeiro, essa Democracia não foi ainda inventada... na prática. Nem cá nem, noutros locais ainda que um exercício mais honesto dessa prática.
E, no que respeita a partidos políticos que conseguem, de tempos a tempos, situar-se no comando do Governo, também esses são naturalmente formados por homens e, que me desculpem os que não são da minha opinião, nos seres humanos eu confio pouco... mas não tenho mais remédio senão deixar nas suas mãos as decisões que somos obrigados a aceitar.
É, afinal, hoje melhor ou pior do que antes do 25 de Abril que se está agora a comemorar outra vez? Bem, pior não se pode dizer que seja. Já nos basta podermos afirmar o que pensamos, termos o direito à indignação em voz alta, aguardarmos pacientemente pelo momento em que o nossos voto é depositado na urna e confiarmos que não nos enganámos de novo, como nas outras vezes, chega-nos isso para podermos gritar que um regresso ao passado horroroso que vivemos, nós os da nossa idade e que podemos estabelecer a comparação, esse passado por favor NÃO!!...
Dito isto e perante a realidade que nos tem sido mostrada ao longo destes 34 anos, não nos resta outra solução que não seja aceitar a menos má das soluções políticas que existem por esse mundo fora. E quem, como eu, fez o que pôde para pôr entraves à Ditadura Salazarista e Marcelista (esta foi uma pena que o homem não tivesse sido capaz de aproveitar a oportunidade que teve para, pelo menos, solucionar em paz o problema das Colónias) e que, depois da Revolução dos Cravos, no exercício da profissão de jornalista e de Director de Jornal, fez os impossíveis para interferir no respeito pelas regras democráticas, mesmo tendo-se sujeitado a 16 processos judiciais por alegados crimes da chamada Liberdade de Imprensa, de que foi completamente absolvido em todos os casos, os que terão no seu activo algo parecido com aquilo que me calhou ser actor naturalmente que estarão hoje mais satisfeitos do que com o que teria acontecido se não tivesse ocorrido a rebelião militar que, com os mais discutidos motivos da suua origem, conseguiu ser levada a cabo.
Mesmo passando por cima das situações que me foram oferecidas de ter sido e continuar a ser testemunha de centenas, senão milhares de situações em que os intérpretes das cenas que a vida real nos mostra serem representadas pelos novos "revolucionários", tendo sido eles antigos partidários e intervenientes activos do salazarismo que, passado o período imediato da Revolução, surgiram como entusiastas participantes do punho fechado, do braço no ar, mesmo não levando em grande conta tal gente, com todo este período passado sobre o 25 não poemos ficar agarrados a revoltas contra o descaramento que surgiu e ainda surge a cada passo da nossa vida.
Hoje, atingida a idade da complacência, do esquecimento, até do perdão, o que interessa é ir comemorando todos os anos a data que marcou um acontecimento em que tivémos a oportunidade de participar. Deixemos mentir, enganar, iludir - e até iludirem-se - todos aqueles que gozaram do antes e que usufruiram do depois. São os espertos da silva, como há por aí tantos e houve, ao longo da nossa História milhões que foram nascendo e vivendo neste País.
Tais chicos espertos são aqueles com quem nos cruzamos dirariamente em muitas das nossas actividades. São também aqueles que surgem de repente como figuras públicas de relevo.
Eu, por mim, já estou conformado. Mas não deixo de ir resmungando comigo próprio e de me arrepelar cada vez que os topo a tomar acento em lugares que lhes são confiados... como "prémio" do seu descaramento.


quinta-feira, 24 de abril de 2008

LOGO MAIS!...


Mas que mal anda a língua portuguesa
tão mal tratada pela juventude
perdeu-se por aí tanta pureza
do que é belo e não quer que se mude

Palavras novas, até se aceita
a vida não deixa nada imutável
mas mau sentido é que se rejeita
matar a língua não é tolerável

Quando se ouvem novos locutores
espalhar pelo ar mau português
aí a revolta atinge os anais

E não se podem conter os furores
quando dizem tamanha barbarez
como seja essa do “logo mais”

LUSOFONIA







Ao longo da minha vida já fui obrigado a tropeçar em duas mudanças na forma de escrever a minha língua. Depois do Ph de pharmácia, por exemplo, que já não me apanhou em pleno exercício gráfico, que me lembre, assim sem estar a recorrer agora a análises profundas, foram introduzidas alterações nisto de escrever, o que não considro dramático, pois reconheço que as línguas vivas estão sempre em evolução e acompanham não só as tendências populares como se adaptam aos modernismos técnicos e outros, nem que seja pela adaptação de nomes dados por idiomas estrangeiros, sobretudo do inglês, o que é indispensável para não se ficar sujeito a inventos de linguagem que não têm nada de lusitanismo.
Este novo Acordo, mesmo dando-se-lhe outro nome como já surgiu a proposta, tem, quanto a mim, uma vantagem: a de procurar que todos os países que, melhor ou pior, têm o português como sua língua oficial, se vão comprometendo com o ensino às respectivas juventudes de um idioma que deve agrupar-se nos liguarejares locais e, se possível, criar raízes que, infelizmente, por ausência de vocação da nossa parte, enquanto, ao longo de muitas décadas, assentámos arraiais no que foram primeiros as Colónias e passaram depois, por conveniência política, a chamar-se de Províncias Ultramarinas.
A verdade - se é que há verdade nestas coisas - é que os portugueses nunca tiveram grande habilidade para transferir das suas raizes os princípios básicos do portuguesismo e deixaram ao relacionamento natural das populações, as idas e as locais, o desaguar de costumes e de culturas. Refiro-me à falta de ensino escolar que seria essencial transmitir pelos mais sabedores, os que se transferiram da Pátria portuguesa, e se instalaram, de armas e bagagens, em terras distantes. E isso, na maior parte dos casos, foi para ficarem lá.
Sempre fomos maus vendedores das nossas coisas. Ao contrário, por exemplo, dos ingleses, que, não tendo o espírito de fraternidade com as populações invadidas. não deixaram nunca de criar as condições para que a sua língua se instalasse e fossem criadas as condições para que, por exemplo, a literatura britânica ganhasse mercados que antes não existiam.
Que foi que sucedeu com as chamadas descobertas dos nossos antepassados que, desde séculos atrás, se tornaram donos e senhores de tais novas zonas terrestres e de populações indígenas? E, em particular, em relação ao Brasil, País hoje que poderia e deveria representar a vaidade da expansão da língua portuguesa. Com tamanha dimensão territorial e tão larga difusão populacional, como ganharia hoje a lusitaniedade linguística se, de um lado e do outro do Atlântico, não houvesse as enormes diferenças que criam os afastamentos que, por muito que queiramos fechar os olhos, existem e necessitam agora de sujeições da nossa parte para se produzir a união possível.
A nossa incapacidade de "vendermos" no exterior aquilo que podria constituir um benefício para a nossa criatividade, pode ser apontado, nos nossos dias, com um outro caso que, não tendo a ver com situações linguísticas, é bem o exemplo de como não temos vocação para colocar fora de portas aquuilo que temos para oferecer. Refiro-me, malgrado o exemplo tão pouco literário, à nossa desabilidade em colocar os nossos produtos no País vizinho, enquanto nos queixamos amargamente de estarem os espanhõis a "invadir Portugal"!... E alguém nos proibe de também procurarmos "invadir a Espanha"?
Mas voltando ao problema da língua portuguesa, a ideia já surgida de ser criado um organismo que reuna todos os interesses e evite a dispersão de esforços, por mais bem intencionada que possa ser não vai resolver o problema. Somos especialistas em criar instituições, comissões, grupos de trabalho.. e o resultado tem sido sempre zero ou melhor apenas o de conseguir adiar soluções, ao mesmo tempo que se arranja encaixes para uns tantos que anseriam por mais umas verbas ao final do mês.
Sejamos realistas. Este mal português de não conseguirmos ser práticos, de optar sempre por caminhos tortuosos, difíceis, irrentáveis e de chorarmos no fim pelo insucesso do túnel que nunca mais acaba, do organismo que, afinal, só deu prejuizo, da medida que, se tivesse sido bem vista, não teria sido tomada. Esta "doença" lusitana que muitos têm receio de apontar, para não lhes chamarem pessimistas sem remédio, este mal, que não é de hoje, que não é culpa de cada Governo que chega ao poder, que não é exclusivo de um Partido político, seja ele qual for, agora que já temos vários e nos vimos livres do antigo tido como de "união nacional", tal sarna que está infiltrada em variadíssimos sectores da vida portuguesa não passará numa ou em duas gerações. Serão necessárias várias e, provavelmente, só acabara´quando outras civilizações conseguirem transmitir-nos alguma forma diferente de encarar a vida. Será que isso, algum dia sucederá?
Eu, como homem ligado desde sempre à escrita e à nossa língua, suportando o mal de conhecer muitas outras culturas e de ter assistido a soluções de problemas por esse mundo fora, já ultrapassei o período do optimismo (ou do otimismo, de acordo com a modernidade). Não creio que venha a assistir, em vida, à actividade editorial no Brasil. em Portugal e nos restantes territórios em África e em Timor - em Macau, que eu também conheci, a língua portuguesa nunca chegou a ser a praticada pela população local -, em que a transmissão de ideias e de conhecimentos, a difusão literária seja feita com a maior naturalidade e que, portanto, os autores dosvários locais espalhados sintam que a sua comunicação não se limita à zona terrestre que lhes serviu de berço.
E é este o desabafo que deixo neste blogue. Haja quem concorde e quem discorde. A exposição de ideias existe para isso. Não é necessário quetodos pensem de igual forma.
Ah! Já agora acrecsento: este texto foi escrito directamente no computador. Não o redigi antes nem o revi depois. Para não me arrepender!...

domingo, 20 de abril de 2008

IPIRANGAS


Vai-te embora profeta da desgraça
Te arrenego coruja mal-dizente
Aqui estou p’ra te pôr uma mordaça
E de mãos abertas te fazer frente

É certo que o mundo caminha mal
Que temos que tomar sérias medidas
E que, sobretudo em Portugal,
Se têm que encontrar outras saídas

Mas não é com lamúrias e bocejos
Muito menos com Té Deus e harpejos
Que se afastam calamidades

Entre nós há que arregaçar as mangas
Que dar todos os gritos de Ipirangas
E enfrentar nadando as tempestades

sábado, 19 de abril de 2008

SE NÃO O FIZ ATÉ HOJE...


Eu não tenho dúvidas. Sou, de facto, um neófito nisto dos blogues. E já consegui perceber que há uma lista dos blogues mais lidos, começando pelos 25 e aumentando em duas versões seguintes. Claro que lá fui bisbilhotar, estranhando como existem algumas mensagens que contam já com mais de um milhão de visitantes, sendo inúmeros os que recebem muitas centenas de milhar de gente interessada em ler o que lá está. Nem podia acreditar se não visse essa realidade. E, para além disso, os detentores de tais blogues não estão identificados pelos nomes por que poderiam ser analisados. Como é a maioria que assim procede, seguramente que existem razões para os "bloguistas" se esconderem por trás de títulos verdadeiramente plenos de imaginação. Já me divulgarem alguns blogues que pertencem a pessoas mais ou menos conhecidas, desde políticos e comentadores de televisão e a outra espécie de gente cujos nomes andam mais ou menos na boca dos que sabem dessas coisas.
Mas eu repito aquilo que já demonstrei ser a minha posição: quem não deve não teme e eu não me escondo para demonstrar aquilo que penso e, por isso, sujeitar-se a que haja muita figura que esteja em desacordo com aquilo que escancaro nestas linhas.
Sempre fiz assim e, como jornalista e autor de milhares de crónicas, editoriais e pareceres, nunca hesitei em abrir-me. É o que faço agora.
De igual modo, fiquei deveras surpreendido quando ao chamar ao écran do computador alguns
dos escritos, como os outros anónimos, me surgiu a indicação de que já não estavam activos, que tinham sido supensos. E não foram meia dúzia que prestaram essa informação. Foram inúmeros.
Pergunto agora: então para que é que continuam na lista dos blogues tais desistentes?
Aqui está: digo o que penso e não escondo a minha frustração perante o que a cidadania (porque não são ou três que assim se comportam) nos deixa contemplar. O meu blogue não apresenta comentários. Provavelmente é por ter o meu nome e não espreitar por detrás do biombo. Tenho uns livros prontos à espera de oportunidade de verem a luz do dia. Não se tratam de carolinices, nem de biografias a contar acontecimentos passados com outros, se bem que, na profissão que abracei, tenha para divulgar situações que muito divertiriam grande número de eventuais leitores. Mas entendo que não devo proceder dessa maneira. Basta-me o enjoo de assistir a comportamentos de variadíssimos ditos importantes, na política e não só, que hoje anunciam uma forma de pensar e que contam com o esquecimento das populações para poderem descaradamente apresentar-se como se se tratassem de outros indivíduos. O que é preciso é descaramento e é com essa característica que conseguem flutuar por aí muitos que, se metessem a mão na consciência, esconder-se-iam nas profundezas do anonimato. Serã alguns deles autores dos tais blogues com pseudónimo?
Basta por hoje. Fico-me por este desabafo. E não vale a pena, os que se poderão sentir atingidos por aquilo que sabem que eu sei , temerem, que eu mude de forma de comportamento. Se não o fiz até hoje, não será agora que darei largas ao meu desencanto com o ser humano. Com grande parte dele.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

INTERREGNO NA ESCRITA



Fiz uma paragem de uns dias até para ver se algum comentário me chegava que desse mostras de haver quem se interessasse pelo que transmito. De resto, para mim os blogues têm explicação como transmissão dos autores de algo que consideram útil levar até aos outros, sendo, por isso, produção própria e não reposição do que uns tantos alheios terão dito. Provavelmente não estou a ver bem o significado dos blogues, pois que aquilo que eu encontro em vários que tenho analisado é a repetição de textos e de produções que têm autores diferentes. Confesso que não sigo estas interpretações "bloguistas".
Voltareri, em breve, a preencher o meu espaço com muito do que me sai diariamente da inspiração, isto é, prosas e poesias, bem como reproduções de pinturas que lá vou levando a cabo, swe bem que lute com o problema da falta de espaço para ir aumentando o meu "espólio", pois sou dos que, ao pintarem, necessitam de ir acrescentando, emendando, até anulando obras que necessitam de tempo e reflexão para serem considerados prontos. Escrever inpõe a exclusividade em cada trabalho que está a ser produzido, já, na arte pictórica, a criação impõe que se use a inspiração em dias diferentes, às vezes ao longo de meses, mexendo nos trabalhos sempre que algo obrigue a fazê-lo. Isto no meu entender, claro.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

UM DESABAFO... DESABAFADO!


Desde que consegui ultrapassar a completa ignorância que tinha pelos chamados "blogs", ou, em português, segundo parece, "blogues", e, interpretando que esta prática só se justifica se o seu autor não tem nada a esconder (ou terá pouco) sobre a sua maneira de ser e quanto às actividades que terá levado a cabo, nesta medida pus-me a debitar textos, prosas e versos, e pinturas, tudo da minha autoria, no teclado do meu computador. E devo dizer que, quanto a maldades que esta máquina infernal prega aos menos capazes, passei por alguns sustos. Desde andar à procura de textos que tinha passado e que, de repente, se sumiram até andar tudo baralhado no mostrador, aconteceu-me tudo. E foi bem feito, porque ninguém me encarregou de querer transmitir aos outros - aos que, eventualmente, sejam leitores destas coisas - aquilo que tenho mantido no sossego do meu interior e no armazem desordenado da papelada que vou acumulando há anos.
Pergunto-me nesta altura se, perante tanto material, haverá quem se incomode em remeter-me comentários, sejam eles quais forem, estimulantes ou literalmente funerários. Ficarei a aguardar as consequências e, por agora, estabeleço um prazo de silêncio. Vamos a ver se me sustenho como, neste momento, a estas horas da noite, considero ser minha intenção.
Mas, como nada é definitivo... pelo menos só pouca coisa, não poso jurar.
Ah, não escondo que sempre flutuará uma esperança de que os vários editores que por aí pululam, sejjam também eles leitores de blogues. Quem sabe? E, as surpresas são isso mesmo. O aparecimento de algo que não se espera.

Durmam bem os que, a estas horas também atravessarão um período de insónia. Eu, por mim, estou cansado. Vou a cruzar os pés para a cama. Amanhã é outro dia!...

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Francamente, entendo que é altura de me interrogar sobre a razão por que ando eu nesta azáfama de escrever. De aproveitar todos os momentos para encher os papéis de palavras, uns dias prosa, outros dias a poesia.
Pergunto-me e não obtenho resposta. Isto de vir rodos os dias ao café, beber uma bica, amenizar com um copo de água e tirar da pasta as folhas de papel já escritas de um lado para aproveitar as costas em branco para, logo de seguida, encher de texto o que está ali à minha disposição, este exercício que já se tornou rotineiro nesta altura da minha vida, serve para quê?
Trago também na pasta três ou quatro livros que, por vezes, me ajudam a puxar pela imaginação. Como sucede neste momento, em que reli um texto do meu inspirador preferido, Fernando Pessoa.
Mas, frequentemente, quando saio de casa e me encaminho para este café habitual, já venho pelo caminho a mastigar um tema, o qual se me salta ao reparar em qualquer situação que surja aos meus olhos.0s jornais e os seus títulos constituem também um apreciável manancial para me agarrar a um assunto.
Torno, porém, a fazer a pergunta: Para que serve debruçar-me, na mesa do café, sobre as folhas que disponibilizo para serem preenchidas com texto que ninguém encomendou?
Na busca de uma resposta, chego a concluir que isto de escrever é um vício. Sempre o fiz toda a vida, só que antes era por obrigação e agora é por devoção. No tempo anterior era remunerado pela escrita que produzia e agora não recebo sanão a satisfação interior de admitir que a prosa ou o verso que produzo não constituem um absoluto tempo perdido.
E é tal ilusão que me leva a repetir, diariamente, essa via-sacra até ao café. Embora, com frequência, me amargure o facto de reconhecer que aquilo que escrevo não adianta nada ao mundo. Debitar sentenças ou ficar simplesmente contemplativo é igual. Mas, tenho de confessar, existirá algo de vaidade neste masoquismo da escrita. A busca da perfeição, mesmo não sendo conseguida na totalidade, é algo que está associado ao lustrar o ego. No fundo, existe sempre uma esperança de que não sejam só os outros que conseguem ser apreciados. E, por outro lado, a ânsia de certo merecimento leva a que um criador deprecie muito o que se vê nas bancas livreiras e se questione sobre se esses conseguiram interessar os editores, então algum dia chegará a vez dos desprotegidos.
Seja como for, por muito que os autores de café se sintam frustrados pela falta de interesse em publicar o que conseguem deitar para fora, compensam esse abandono com a acumulação de obra produzida.
É isso que se passa comigo. Darei razão a quem não atribui valor bastante ao que produzo ao ponto de ser passado a livro o que me sai da pena. O sector editorial é um comércio como qualquer outro e terão muito maior aceitação pública os escritos que foquem escândalos, que se refiram a amores escabrosos e sejam de preferência de autores femininos, se envolverem personagens ligadas à exposição pública de qualquer ordem, se, colocando em plano secundário, a qualidade literária, se dê preferência ao antecipadamente vendido por força da expectativa que é criada através de promoções chamativas que não têm nada a ver com a classificação do texto.
Inclino-me perante a invasão de livralhada que se situa na classe dos vendáveis a quem não mostra grande preocupação com a mínima qualidade literária. Têm razão os que vendem, porque querem ganhar dinheiro, e os que compram tal literatura, porque não têm satisfações a dar a ninguém sobre as suas preferências.
No meu caso, como o escrever ameniza o desconsolo que se me vai enraizando quanto ao mundo em que vivemos, faço-o como medicina que recomendo a mim próprio. E como os remédios não devem ser tomados sem receita médica… não tenho que obrigar os outros a seguirem a minha prescrição.

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


MORRE LENTAMENTE…


quem não aceita envelhecer
quem lhe é indiferente o que se passa à sua volta
quem não tem desejos
quem não consegue encontrar virtudes e defeitos na sociedade
quem nunca se revolta, por mais horrorosos que sejam os acontecimentos
quem tanto lhe dá a rua por onde caminha, basta-lhe o destino
quem lhe é indiferente a música que escuta
quem não consegue ler nem ouvir uma poesia
quem nunca pegou num livro e não lhe interessa o que os escritores têm para comunicar
quem fecha os ouvidos aos que sabem mais têm para dizer
quem não sonha, não idealiza, não ambiciona
quem anda permanentemente com o pavor da morte
quem anda sempre conformado com o que a vida lhe proporciona
quem não sabe conversar consigo próprio, não perguntando e não respondendo às suas próprias questões
quem não se espanta com nada, achando tudo normal
quem está convencido que se conhece bem a si próprio
quem só conhece a sua rua e não se preocupa em conhecer outras
quem nunca parou para contemplar a lua, não olha para as estrelas e não tem interesse em ver o sol, mesmo através de um vidro fumado
quem nunca se embriagou, pelo menos uma vez
quem nunca sentiu os prazeres da carne
quem nunca sentiu as influências do espírito
quem não sabe e não sabe que não sabe
quem nunca alimentou fantasias
quem não teve a tentação de despir outrem e, em imaginação, gozar o espectáculo da sua nudez
quem não é capaz de ouvir o silêncio
quem não ama as flores e tudo que a Natureza oferece
quem julga que vale mais do que, de facto, vale
quem crê que vale mais do que todos os outros
quem nunca parou para pensar e, fazendo-o, não tem a humildade de reconhecer que errou
quem nunca hesita antes de tomar uma decisão séria
quem nunca quis pôr-se no lugar de terceiros
quem se ilude com as suas próprias mentiras
quem não desiste das suas convicções, mesmo em face de argumentos que as anulam
quem não acredita no que diz… mas diz
quem anda sempre a pedir a Deus que o perdoe, mas não é capaz de perdoar os outros
quem tem coração que é cego
quem é vazio de interior, exibindo largamente o que tem de fora
quem, fugindo ao seu destino, anda permanentemente a esbarrar com ele

DESENCANTO... POR ENQUANTO!







Um saldo não se apura apenas nos documentos contabilísticos. Não é matéria exclusiva da economia e das finanças. Apurar o saldo de uma vida pode ser um exercício que, determinado a tempo, terá, eventualmente, capacidade de modificar o caminho que ainda faltar percorrer até ao fecho das contas.
Depois da morte, o saldo que os outros, os que ficam vivos, atribuírem ao finado, esse apuramento já o próprio não tem possibilidades de tentar melhorar. Mas, enquanto por cá se anda, se houver vontade de emendar as contas, tentando melhorar o resultado definido até essa altura, se o tempo que resta ainda der para isso, se as circunstâncias forem favoráveis, se existirem condições positivas e, sobretudo isso, se se quiser, talvez seja possível dar uma posição mais confortável ao saldo que estiver ainda em equação.
O essencial é que as contas que fizerem os interessados em conhecer a diferença entre aquilo que fez de bem na sua vida e o que foi produto de uma actuação contrária, malévola, esse apuramento tem de ser fruto de uma análise sincera, honesta, límpida, imparcial. Caso se cometam erros de apreciação, se forem esquecidas parcelas que influem decisivamente nos resultados, se houver lapsos nos lançamentos, nesse caso o saldo apurado não corresponde à verdade dos factos. Haverá, então, que fazer estornos, lançamentos de rectificação.
Andar com as contas da vida todas baralhadas, não efectuar os débitos e os créditos no lugar certo, dá como resultado ficar-se permanentemente com o diário atrasado e não manter o razão com o devido acerto. Logo, o saldo não pode ser apurado.
Postas as coisas neste ponto, também me dá para efectuar o lançamento da seguinte interrogação: será que a vida tem de ser levada como quem pratica exercícios contabilísticos? O Deve e o Haver do percurso humano constituem a bússola para mostrar o caminho a seguir? É, de facto, esse o saldo que tem de ser levado em conta?
Para muitos, o que importa é apurar aquele que seja positivo, que não se situe no vermelho, que represente um resto que sirva para anular futuras dificuldades. São os calculistas, os prudentes, os que aprenderam bem a tirar a prova dos nove. Para outros, o que importa é que o referido saldo seja fruto de uma operação diária, que dê para o dia-a-dia, pois o amanhã é o depois. São os despreocupados, os que usam os dedos para fazer as contas.
Hoje em dia, com o enorme número de reformados que recebe em dia certo a mensalidade que, na maioria dos casos, mal chega para aguentar as despesas do mês, essa massa de gente tem sempre o saldo apurado. Não é negativo, porque não há quem lhe dê crédito. E só é positivo porque o que falta é o que faz parte dos cortes no dispêndio, nos gastos que nem sequer são supérfluos. No fundo, apresenta sempre um saldo nulo.
Por mais que não se deseje, na linguagem do apuramento dos saldos vêm sempre a talhe de foice os números. Quanto sobra e o que é insuficiente. E, na área dos euros, dos dólares ou de qualquer outra moeda, são os quantitativos que importam. Quando, afinal, o saldo que deveria interessar aos homens tinha de ser o resultante das boas e das más acções, ou seja o apuro final no capítulo das desavenças, entre pessoas, entre países, entre posições políticas, religiosas, sociais, entre tudo que são as causas de guerras, de mortes, de destruições, de mal-estar geral.
Se, no campo das irrealidades, cada indivíduo mantivesse a sua própria conta-corrente, e, na altura do seu passamento, fosse obrigado a prestar contas, e ainda se, no balanço final, o saldo apurado resultasse, naturalmente, da diferença entre o activo e o passivo, aí, graças ao atestado de que teria de ser portador para seguir o resto do caminho, ficaria a saber se as acções praticadas, ao longo da existência, teriam sido maioritariamente positivas ou negativas.
Se esta fantasia se transformasse em realidade, era de temer que o fiscal encarregado de conferir os dados referidos no diploma, no átrio do novo depósito, fosse acumulando de tal forma saldos a vermelho, isto é, diplomas de procedimentos negativos dos seres humanos, que o chamado “fogo do Inferno” não precisava de ser alimentado por outros elementos inflamatórios.
Mas chega, por agora, o querermo-nos situar na área das fantasias. Das contabilizações despropositadas. Por mais contas que sejam feitas e por muitos saldos que se pretendam apurar, na hora da verdade, na que constitui a única certeza de que o ser humano não pode fugir, feitas as contas de cabeça ou utilizando-se qualquer das maquinetas modernas de cálculo, daquelas que a miudagem de hoje utiliza para não ter que saber a tabuada de cor, nesse momento decisivo já é indiferente apurar o saldo da vida. Os que cá ficam, esses que se cuidem. Quando muito poderão entreter-se com a avaliação dos que já morreram e que terão valor suficiente para servir de exemplo, positivo ou negativo, para serem levados em conta, quer por feitos úteis quer prejudiciais à humanidade.
Claro que há sempre quem se engane nas contas. Não faltam os que metem os pés pelas mãos e, propositadamente ou por incompetência, confundem os números, invertem as parcelas, somam onde deviam subtrair. Confundem o “trouche” e o “lebou”. Mas, não é dessa gente que está repleta a História do mundo?

JÁ NÃO TENHO IDADE


Já não tenho essa idade
passou o tempo de a ter
perdi também a vontade
de pensar que vou morrer

Já não tenho tal idade
para incómodos fatais
p’ra merecer caridade
até dos que estão iguais

Assim faço eu na vida
quieto aqui no meu canto
passou tudo de fugida
não sequer fui um santo

A aguardar p’la minha hora
penso bem no tal momento
no velho por quem se chora
no que sou e me contento

Quando passa essa idade
p’ra outras coisas fazermos
obrigar-nos é maldade
podemos ficar enfermos

Há aqueles que não crêem
que a idade muito pesa
pois coitados não se vêem
ao espelho, é só beleza

Passada a idade bela
quando é tão fácil tudo
agora toda a cautela
me torna mais façanhudo

Não senhor, não tenho idade
p’ra fingir que não sou velho
quer no campo ou na cidade
o que me sinto é bem relho

Relembrar tempos antigos
antes de haver liberdade
enfrentando os perigos
para isso tinha idade

Muitos amigos de então
recordo-os com saudade
mortos ou velhos estão
já passaram a idade

A juventude de hoje
gozando a mocidade
já não se esconde nem foge
como eu com a sua idade

Nem p’la cabeça lhes passa
sequer a dor a metade
hoje pode até ter graça
não tinha naquela idade

Mudou muito cá a vida
de voltar não há vontade
p’ra enfrentar tal ferida
eu já não teria idade


DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Quando me sento à frente da televisão e ocupo algum tempo de tédio a ver algum programa que pretende ser de divulgação da cultura, desses que são chamados de concurso com prémios, acabo sempre por ficar triste, como se estivesse à espera de assistir a concorrentes que não desconhecem aquilo que se aprendia até na antiga instrução primária. A de outros tempos, em que se faziam exames de terceira e de quarta classes e depois de admissão aos liceus.
E essa tristeza que nos provoca o espectáculo, tanto o que surge por parte dos concorrentes como do lado de quem redige os questionários. Ambas as partes são dignas uma da outra. E os telespectadores têm de suportar uma revoltante amostra de incultura. Os concorrentes, quer se trate de gente jovem quer de adultos, fazem prova de que Portugal atravessa um período aflitivo de grande falta de cultura. Desconhecem o mais básico, seja qual for o tema que esteja em jogo. Mas, por outro lado, as questões postas, na sua maioria são relacionadas com o mundo da música moderna e do cinema, mas sobretudo no que se refere a nomes de intérpretes e a relacionamentos familiares dos mesmos. Foi aquilo a que assisti num desses concursos em que o apresentador não se distinguia do baixo nível do conjunto. Usava a língua portuguesa com total descuido e abusando de expressões feitas e descabidas do diálogo que mantinha com os presentes. Lembro-me que permanentemente utilizava a expressão “digamos”, sem vir a propósito e sem caber na frase.
Aflige ter de concluir que somos um País em que a cultura, mesmo a mais mediana, se esvaziou no período de transição entre as gerações anteriores e a que hoje tem a sua oportunidade de mostrar o que vale. Não há que fazer a apologia da época de ensino em que se tinham que papaguear as estações de caminho de ferro, os rios e os seus afluentes e era obrigatório dividir as orações dos Lusíadas. Mas eu, por exemplo, ainda sei recitar de cor todas as preposições. E dá-me algum jeito!
Fico a pensar no futuro deste País. Não se trata já de sermos capazes de solucionar os problemas económicos que nos sufocam hoje em dia, mas também nos anos que se aproximam e em que a juventude de hoje, essa que não sofreu as agruras de uma ditadura que durou décadas, gozando agora os efeitos da liberdade que não sabe aproveitar porque a confundem com libertinagem, com soltura desregrada, ausência de responsabilidade, clamar só por direitos e esquecendo os deveres, essa gente nova nesta altura será a que, no momento próprio, terá de enfrentar as dificuldades que espreitam.
Nós, os que vivemos o antes em pleno e atravessámos a Revolução com a alegria e o desassossego provocados pela mudança, que conhecemos o que é viver nas duas situações, estaremos mais habilitados a avaliar os maus comportamentos daqueles que correm o risco de estragar o bem que encontraram quando nasceram.
Hoje, não se estuda capazmente, trabalha-se mal e o menos possível, apela-se por tudo e por nada aos subsídios do Estado, foge-se o mais que se pode ao pagamento dos impostos, sem os quais não há Estado capaz de fazer frente às suas obrigações, não se cumprem rigidamente regras e legislações, sempre à espera de um descuido das autoridades, numa palavra, perdeu-se a noção do que é ser um bom cidadão.
Tão mau como tudo isto que acabo de referir é a outra face da moeda. È que as instituições governamentais, aqueles que têm a responsabilidade de, periódica ou episodicamente, comandar as massas, essas, por um lado porque a situação atingiu tão baixos valores que a solução não estará ao alcance só de boas vontades e também porque as oposições, os sindicatos, os que são atingidos pelas medidas impopulares, todos esses utilizam todos os meios para denegrir a acção dos que estão a governar. E, verdade seja dita, será necessário actuar muito mais depressa e com medidas ainda muito mais severas.
Enquanto se vive neste panorama, assiste-se ao reaparecimento de grupos juvenis de novos fascistas, de início na própria Alemanha, mas depois, mesmo que em pequeno número, até portas adentro, ainda que, felizmente, em escala reduzida. Se faço este desabafo é porque tenho o direito de me preocupar por ser possível, de novo, por culpa daqueles que, por não saberem conservar as partes boas do que têm, contribuem para uma mudança que, de novo, pode apenas dar bom lugar aos oportunistas das revoluções.
Quem atingiu já a idade que não dará para chegar à altura de grandes mutações políticas, por si estará descansado. Mas, e a criançada de hoje? Os homens de amanhã? O que os espera?

FALTA POUCO


Falta pouco
falta pouco
é preciso que me apresse
tenho muito que fazer
coisas com certo interesse
seja lá onde estiver
gostava de contemplar
apreço depois da ida
pois por cá não pude achar
valor até à partida

Falta pouco
falta pouco
não me assusto por partir
é o destino de todos
mas queria antes de ir
deixar obra feita a rodos
posto que da quantidade
por pouco que se aproveite
algo há que a sociedade
deitar p’ro lixo não deite

Falta pouco
falta pouco
é também o que prevejo
pois o mundo como anda
é coisa que não desejo
anda tudo em sarabanda
há gente a mais sobre a Terra
o ser humano perdeu
o antigo horror à guerra
a convivência morreu
é o salve-se quem puder
mais a mim, mais a mim
que seja o que Deus quiser
diz quem se consola assim

Falta pouco
falta pouco
posso dizer tal e qual
eu que vivo neste canto
que se chama Portugal
que perdeu todo o encanto
que tinha tempos atrás
quando com certa vaidade
se mudou regime em paz
conquistando a Liberdade
saindo da ditadura
dessa que eu bem senti
por efeitos da Censura
mesmo sem dizer p’ra mim
falta pouco,
falta pouco!

terça-feira, 8 de abril de 2008

FARTO DISTO TUDO!...


Estou a escrever este blogue directamente no computador. Depois de ter andado a transcrever textos redigidos anteriormente, em diferentes períodos e, portanto, com humores em constante mudança. saiu-me agora esta necessidade de não deixar passar um desabafo copmentário que, como português que alguma coisa fez no passado e já não tem muito a dar em relação ao futuro,
considera que não pode calar o que lhe vai no íntimo, especialmente por atravessarmos um período nacional de enormes dificuldades económicas, financeiras e sociais que, por muito que os políticos pretendam disfarçar, só dão mostras de se agravarem ainda mais e de terem de ser os vindouros a tentar resolver a triste herança que lhes é deixada.
Durante os últimos dias, a Imprensa diária tem vindo a denunciar variados factos de gente que, tendo passado por lugares públicos de nomeada, especialmente nos governos que passaram por S. Bento, estão agora a desempenhar funções em empresas privadas ou semi-nacionalizadas cujas remunerações e regalias acrescentadas são do mais escandaloso que se pode considerar. E, pior ainda, os postos que desempenham actualmente correspondem a administrações de sociedades importantes cujas actividades estavam subordinadas, no período em que os cavalheiros de agora exerciam funções ministeriais ou autárquicas, às determinações que os mesmos to,aram na altura.
Não deixando dúvidas: antes eram pessoas importantes que tinham influência decisiva nas actividades dessas empresas e, acabando o período de governação, tomaram lugar nas mesmas empresas a usufruir das regalias que antes os mesmos concederam.
Não vou aqui referir nomes, para não ocasionar que os mesmos atingidos, actuem da forma que lhes é habitual, isto é que metam a Justiça no assunto alegando que se sentem atingidos na dita sua honra.
Não lhes basta terem ficado com a vida confortável decorrente dos favores que fizeram antes e dos benefícios que recebem agora. E os que pagam impostos - como é sua obrigação - e sofrem o agravamento do custo de vida, do desemprego, da incerteza em relação ao futuro, já o próximo e do que se aproxima, esses, se vivem perto da fronteira e podem ir aumentar os muitos milhares que já exercem as suas actividades em Espanha, lá se vão defendendo. Mas a maioria, a maralha, essa espera, espera e continua a Mas, chegado à idade que é a que alcancei nesta altura em que estou a escrever este historial, não me posso dar ao luxo de pretender atingir a perfeição. Dou largas à aspiração de deixar “coisas”, o mais que consiga e sem grandes preocupações de alta qualidade.
Outros, os que conseguiram a ajuda do tão aspirado génio, foram mais felizes. A mim resta-me o esforço e a persistência. Mesmo sem estímulo exterior ou próximo – até talvez perante o desinteresse e o descrédito no que respeita à valorização do que faço -, apenas por teimosia e por interiorização absoluta daquilo que me assalta como tratando-se de produção que vale a pena deixar, só com isso tenho prosseguido, prisioneiro na cela da minha produção completamente isolada.
Não é uma desculpa para a falta de qualidade. Eu também não gosto do que faço. Razão pela qual não releio o que me saiu na escrita e o que contemplo na pintura não me faz ficar contente comigo mesmo.
É o que tenho a dizer, mas se não o deixasse expresso também não se perdia grande coisa.ouvir os governantes a debitarem, naquela linguagem que ninguém entende, garantias de que tudo está melhor, enquanto as oposições, gulosas por também quererem vir a auferir as benesse que os poderes lhes podem dar, a prometer que, se vierem elas a sentar-se nas tais cadeiras, então pode-se esperar o céu na terra.
Eu, por mim, já não posso mais. Só assisto a corrupções, roubalheiras, por muitos nomes diferentes que alguns lhes queiram dar, e clamar que também têm direito a comer do bolo.
Competência, imaginação para fazer bem, tento nas acções e na língua, isso é que não se vislumbra por aí. Mas eu voltarei a este tema. Pois, infelizmente, não faltará ocasião para chamar os bois pelos nomes!...

Uma vida difícil (23)


(Continuação e conclusão)

Mas, chegado à idade que é a que alcancei nesta altura em que estou a escrever este historial, não me posso dar ao luxo de pretender atingir a perfeição. Dou largas à aspiração de deixar “coisas”, o mais que consiga e sem grandes preocupações de alta qualidade.
Outros, os que conseguiram a ajuda do tão aspirado génio, foram mais felizes. A mim resta-me o esforço e a persistência. Mesmo sem estímulo exterior ou próximo – até talvez perante o desinteresse e o descrédito no que respeita à valorização do que faço -, apenas por teimosia e por interiorização absoluta daquilo que me assalta como tratando-se de produção que vale a pena deixar, só com isso tenho prosseguido, prisioneiro na cela da minha produção completamente isolada.
Não é uma desculpa para a falta de qualidade. Eu também não gosto do que faço. Razão pela qual não releio o que me saiu na escrita e o que contemplo na pintura não me faz ficar contente comigo mesmo.
É o que tenho a dizer, mas se não o deixasse expresso também não se perdia grande coisa.

(Fim... por agora)

UM HOMEM PERFEITO


Quisera eu ser outro ser
nem comigo me parecer
aceitar tudo, bom-mau
ter atenção ao degrau
e se é feio não ouvir
o melhor sempre é fingir
viver só um dia à vez
não ver mal que outro fez
deixar passar quem tem pressa
ajudar a quem tropeça
mostrar sempre paciência
e ter à mão a clemência
para quem tem pouco tino
e tem gosto em ser cretino
não mentir se não faz falta
nem nunca enfrentar a malta
se ela está enfurecida
e vem de arremetida
deixar quem quer dissertar
se é feliz só por falar
também contrariar
quem pensa nunca errar
e gosta de se ouvir
querendo sobressair
contrapor não vale a pena
não torna a conversa amena
nem sempre o contraditório
tem algo de meritório
estar de acordo p’ra fora
para dentro não senhora
mas ninguém dará por isso
p’ra não causar reboliço
queria ser bem perfeito
ser limpinho sem defeito
estar bem com todo o mundo
que digam eu ter bom fundo

Mas se eu fosse assim
poria a rir-se de mim
e a chamar-me nomes feios
e a gritá-los sem receios
quem fosse bem diferente
que é afinal toda a gente
e eu ficaria calado
sem reagir, sem enfado
pois um santo não reage
e aceita qualquer traje

Mas sendo assim afinal
não tendo nada de mal
p’ra que serve um ser quejando
que não faz qualquer desmando
que tudo deixa na mesma
e se move como lesma ?

Queria então ser assim
suave como cetim.
Mas sem fazer mal nem bem
ser assim um Zé ninguém
que não tira nem aumenta
e só coloca água benta
em tudo que o rodeia
é mole como geleia ?

Pensando bem, não senhor
prefiro sim pôr fervor
naquilo em que me empenho
dando todo o meu engenho
mesmo que contrariando
e provocando desmando
nos interesses já criados
ainda que mal pensados;
pior que fazer mal feito
mesmo obra sem preceito
é falta de iniciativa
é ficar na defensiva
é deixar cair os braços
é ser igual aos madraços
é não cuidar do futuro
nem mostrar ser-se seguro

Homem perfeito, vá lá
toda a gente gostará
até por comodidade
e para deixar saudade
quando partir e for desta

Uma vida difícil (22)


(continuação)
Tendo ficado sem semanário, restava-me agarrar na outra publicação que tinha restado, de nome "o País Turístico", uma revista mensal que se dedicava à actividade do turismo nacional e que resistiu perto de um ano. A outra, que tinha também sido criada no tempo do semanário, de seu nome "o País Agrícola", outra publicação mensal, essa foi a que resistiu até 1998. E ocupou um lugar de relevo no meio da agricultura portuguesa, rendo chegado a alcançar cerca de 4.000 assinantes.
Para finalizar e apenas como recordatório deste resumo de uma vida que não terá valido assim tanto a pena, mas que, apesar de tudo, sobressaiu da mediania, sempre será relativamente importante registar que José Vacondeus fez parte do Conselho de Imprensa, tendo sido Conselheiro até ter sido extinta aquela instituição e ter sido criada a depois denominada Alta Autoridade da Comunicação Social, tendo sido substituídas as retribuições de presença da época pela choruda remuneração equivalente ao de deputado à Assembleia da República.
No capítulo da colaboração como cronista na Imprensa portuguesa, fica registado também que mantive, durante cerca de 3 anos, uma coluna semanal em “A Capital” e, logo de seguida, outra também com periodicidade da semana, no “Diário de Notícias”. Esta também perdurou durante perto de 4 anos. Ambas, segundo parece, mereceram uma boa audiência dos leitores habituais.
Hoje, resta-me aproveitar o tempo para me dedicar à leitura de cerca de 2.000 livros acumulados ao longo de uma vida, ao mesmo tempo que me vou movimentando no uso do computador, o que me permite ir também tentando passar a letra de forma o muito que existe como lastro e que anseia por ser deitado borda fora. Assim hajam editores que alarguem as suas vistas para lá dos autores ditos “mediáticos”, pois cerca de 300 poemas na gaveta, de uma peça de teatro e de um original que se intitula “Desencanto por enquanto” e que se trata de uma obra de reflexão inspirada no “Livro de do Desassossego” – salvaguardadas as devidas distâncias -, tudo isso e o mais que faço questão de fazer surgir antes da que será a derradeira partida.
Outra actividade a que me dedico e que ocupa bastante do meu cérebro é a pintura. Não tanto como eu desejaria, por deficiência de espaço na espécie de “atelier” que montei no jardim de minha casa. Precisava de espaço para não me dedicar a um quadro de cada vez e antes dividir a minha vontade de aplicar as cores em diversas produções simultaneamente. Sinto que teria bastante para dar nesta área da pintura, da mesma forma que faz falta um contacto com outros pintores para absorver as técnicas que me faltam e que não seria necessário estar a “inventar” em absoluta perda de tempo.

(continua)

FASCINANTE




O que é ser fascinante para mim?
por exemplo é ver a natureza
dos campos e também do meu jardim, como ouvir o coração com pureza;
não invadir o espaço alheio
e aproveitar todos os momentos,
é ter todos os dias o anseio
de a humildade praticar aos centos;
só se arrepender do que não fez,
estimular a criatividade,
brincar, como em criança talvez
e também chorar a felicidade;
ter pensamentos positivos é
fascinação plena de auto-estima
e perdoar às pessoas até
a vida não ter de ser uma esgrima;
descobrir que dos outros precisamos,
como aceitar que tudo tem limites
e mesmo aquilo que não gostamos
deva ser razão para que tu grites;
respirar a bela brisa do mar,
como curtir as pequenas vitórias
são coisas fascinantes e sem par
ao mesmo tempo verdadeiras glórias;
não prometer se não podes cumprir
é algo sem qualquer fascinação;
falar dos outros mal só é servir
para provocar grande confusão;
ter fascínio por algo fascinante
é poder ficar contente consigo
não é ser santo mas estar constante
com um sentimento bem amigo.

Depois deste sonho bem acordado
do que gostaria de ser sem ser
encarando de frente o meu fado
reconheço em mim um homem qualquer

Uma vida difícil (21)

(continuação)

Mas a História é, muitas vezes, mentirosa. E tendo em conta a "febre" de extrema esquerda que atacou o pós-25 de Abril, surgir um jornal que se mostrou contra as ocupações selvagens, contra as nacionalizações apressadas e que levaram ao descalabro económico nacional e ao desprestígio internacional que hoje já ninguém desmente, ter lutado pela democracia pura, com aceitação de todas as correntes políticas, mesmo daquelas de que não gostamos, ter tomado essa posição, na época era ser considerado de "direita". Não podia ser compreendido então que um jornalista como eu, entrevistasse, por um lado, António Champalimaud - exilado no Brasil -, e em pleno período gonçalvista, e, por outro, Santiago Carrillo, secretário-geral do PC espanhol. Era demais para muitas cabeças de oportunista !...
De resto, tendo em conta que "o País" nasceu graças a um empréstimo feito ao seu fundador de 200 contos e que, apenas pelo seu próprio esforço chegou a ser o único semanário que dispunha de fotocomposição e montagem próprias, entregando apenas à tipografia os fotolitos das páginas, que, para além disso, criou a sua própria livraria e galeria de arte (tendo sido inédito por dispor de um pequeno bar e local para pequenas tertúlias), recordando tudo isso ter-se-á que concluir que a iniciativa representou um verdadeiro milagre.
É por isso que eu digo que a História é injusta e que, infelizmente, vale a pena ser-se oportunista, como sucede hoje com a maioria da comunicação social em que, os mesmos que antes se mostraram tão revolucionários, hoje estão nas mãos de grandes grupos capitalistas, porque a censura dos nossos dias não é oficial, mas sim situa-se no poder económico.
"o País" durou dez anos e nunca se deixou aliciar por várias propostas de compra que surgiram e que queriam aproveitar-se da honestidade jornalística que constituía o capital do semanário. Se existisse hoje, seria outra coisa, mas nunca como sucedeu, por exemplo, com o grupo tão "avançado" na época de "O Jornal", que foi absorvido por um poderoso empório suíço... E o mesmo se pode dizer quanto ao que sucedeu e continua a suceder com os grandes grupos que são hoje donos da comunicação social de toda a espécie mais importante e que chegam ao despudor de serem donos também de pequenos jornais de província!
Mas, continuo a acreditar que o que é importante é ter-se a consciência tranquila, mesmo que se tenham perdido oportunidades de ganhar muito dinheiro !
"o País" acabou devido a uma traição de gente que surgiu a oferecer-se para fazer ingressar capital na empresa, na condição de que se suspendesse por 3 meses a publicação para depois ressurgir com toda a força de um Jornal livre e independente, o que não veio a verificar-se devido ao pleno que existia de me fazer crer em pessoas de bem e fugir na altura de se concretizar o que tinha ficado estabelecido. Mas, um dia, poderá ser que a história venha a ser toda contada, com os respectivos nomes dos patifes que, com grande desplante, ainda se movimentam por aí.
(continua)

EUROPA


Essa Europa de que tanto se fala
e de que muitos querem fazer parte
não encontrou ainda o caminho,
anda confusa,
anda perdida,
está a gastar tempo,
está a correr o risco de ficar pelo caminho.
A Europa das Nações é um sonho,
ter um objectivo comum
uma Constituição para todos,
um governo geral,
uma moeda igual – que já tem,
com línguas diferentes
costumes desiguais
bandeiras distintas
regiões autónomas,
conseguir tal objectivo, não é fácil.
E porquê,
se todos desejam fazer parte do grupo?
A resposta é simples:
é que a Europa é constituída por seres humanos,
também ela
como o resto do mundo
e é por isso que o entendimento,
a comunhão de ideias
e de interesses,
a capacidade de não exigir o comando,
o desprezar interesses pessoais,
o atender ao bem geral,
tudo isso falta ao Homem.
Querer ser o chefe,
o que manda,
desejar a melhor parte
é isso que destrói as comunidades,
é por aí que se partem as uniões.
A Europa chegou até onde está,
conseguirá avançar mais um pouco?
Mas quando?
E por quanto?
Até que ponto resistirá às discordâncias?
Ficará num mito?
Abdicarão os homens do muito mal pelo pouco bom?
E as regiões que, por essa Europa,
lutam por independência
estão a passar de moda?
Já eram?
Que isso de querer ser dono da sua rua
deixou de ter razão de ser?
Pois não parece…

E a emigração de que este Continente
está a ser alvo?
Os milhões de populações não europeias
que já entraram
e os milhões que virão a caminho,
instalando-se
tendo filhos,
muitos,
o dobro,
o triplo,
o quádruplo
dos naturais da Europa,
que mudança já provoca
e muito provocará
ainda mais
nos hábitos, costumes, língua,
cor da pele
na tradição europeia?
Daqui a cinquenta anos
quem cá estiver
e os que venham a ocupar
as terras europeias,
Paris,
Londres,
Madrid,
Berlim
todas as grandes cidades
deste Continente,
não encontrará nada igual ao que existe hoje.
Os adivinhos
que tenham a capacidade de ler no futuro
que desvendem esse mistério.
Talvez seja preferível, agora,
não saber…

Contemplando os homens de hoje
não será inevitável fazer
um exercício de reflexão
cauteloso?
E a pergunta impõe-se:
Como é possível existir uma Europa
com este material humano?
Essa Europa do todos por um
e do um por todos,
que vem nos livros
e se coloca nas bandeiras dos clubes
é uma forma de actuar
à moda antiga,
Porque a realidade de hoje é outra.
Afinal podemos ter esperança?
Será melhor persistir na Europa
ideal,
unida,
sonhada para ser eficiente,
capaz de juntar vontades,
interesses,
forças?

Deixo aqui a pergunta
esta e todas
e sei que há duas respostas,
antagónicas,
contrárias.
Uns, os crentes por natureza,
acreditam no êxito,
têm fé que os homens
encontrem o bom senso.
Outros, nos quais me incluo,
perderam a esperança.
Andamos a enrolar o tempo,
assistiremos aos altos e baixos,
aos avanços e aos recuos,
às reuniões,
aos banquetes
às discussões,
aos abraços,
às viagens para um e para outro lado,
aos discursos inflamados,
aos processos de intenções,
aos amuos,
aos sorrisos forçados,
às fotografias de grupo
todos em bicos de pés,
mas não passará disso,
ficará sempre nisso…

Europa unida,
em bloco
toda igual,
vivendo todos bem, os europeus?

Que sonho mais lindo!

CORRUPÇÃO

O dinheiro comanda tanto o mundo
os favores também muito se pedem
a vaidade é o que surge no fundo
e para tudo os custos não se medem

Para haver quem paga há quem receba
o preço depende da importância
da transacção que a gente conceba
e de um factor que se chama ganância

Quando é alguém que ganha do Estado
sendo o dinheiro da população
então o crime não é perdoado

Revolta por ser contra a Nação
não há desculpa para tal culpado
nem tem outro nome é corrupção

Uma vida difícil (20)


(continuação)


Mas lá nasceu do nada e tem-se mantido, mesmo que, assados tantos anos, não me apeteça nem passar à porta. Foi uma etapa da minha vida. Não tem de fazer parte do meu curriculum. E, atrás dessa tarefa, nasceu o restaurante “Cota d’Armas”, em Alfama, que foi considerado na época como um dos estabelecimentos de restauração mais conceituados e cuja direcção ficou a pertencer à minha Mulher Filipa, já então considerada uma técnica gastronómica de primeira água.
Corria bem o negócio, e lá se ia pagando o investimento, todo ele feito a crédito. O bom acolhimento, junto das classes ricas, deste restaurante com tão bonita decoração fez com que a afluência fosse sempre boa e que, na área do turismo, por influência dos hotéis de categoria de Lisboa, se verificasse uma boa aceitação.
Até que se deu o 25 de Abril e foi então que a “moda” das ocupações pelos empregados, das empresas onde trabalhavam, se pegou também ao Cota de Armas. E foi assim que aquele empreendimento não foi mais além. Com a influência “revolucionária” que se alastrava, passou para as mãos dos ditos empregados aquilo que exigia uma gestão muito cuidada e especializada. Também, verdade seja dita, já não era altura para poderem singrar negócios que estivessem instalados na área do capital. Outros restaurantes do género, como o Tavares, O Aviz e mais alguns sofreram quebras de actividade visíveis.
Da minha parte, havia que recomeçar vida. E a Revolução trazia-me a oportunidade de regressar à minha actividade de antes. No jornalismo. E foi assim que me dispus a deitar mãos à obra, agora sem PIDE e sem Censura, e tinha ficado anulada a proibição de que tinha sido vítima de exercer a profissão que tinha abraçado desde novo. Surgiu-me então o Nuno Rocha, temeroso como andava de vir a sofrer as consequências de ter sido um beneficiário do SNI e do Moreira Batista, e que, necessitando de ter as "costas quentes" com alguém que, pelo contrário, tinha sofrido as agruras da ditadura, me convidou para ser co-fundador do semanário "Tempo", vindo a exercer, durante cerca de um ano, as funções de director-adjunto. Mas, na realidade, não podiam ser compatíveis duas concepções do livre exercício do jornalismo e a minha incompatibilidade política e outras com Nuno Rocha não podiam permitir que continuasse a exercer as funções de co-responsável daquele jornal. Acabei, por isso, em 1976, por criar, com o maior esforço e sem o mínimo apoio de qualquer espécie, o semanário "o País", que ainda hoje é recordado pela sua independência política e pela verdadeira defesa dos princípios democráticos, sobretudo porque não tinha nenhum grupo económico a suportá-lo. Mas a sua história fica para contar um dia se, realmente, valer ainda a pena, sobretudo levando em conta que a esmagadora maioria dos jornalistas que, após a Revolução, surgiram com o epíteto de "revolucionários", antes tinham sido cúmplices do status quo político, ao contrário do que tinha sucedido comigo.

(continua)

BOCAGE


Bem longos anos já por mim passaram
tantos que a memória ficou confusa
alegrias, desgostos se afogaram

O julgar dos factos pede escusa
pois hoje muita coisa já perdoo
e tenho de pedir ajuda à Musa

Não sendo um santo não abençoo
aqueles a quem fiz o bem possível
de igual modo não o apregoo

Resigno-me com o que é visível
um mundo pleno de ingratidão
pois há que conviver com o horrível

Antevendo o fim da estação
não muito longe, andará por perto
coloco na consciência a mão

ao aceitar o que está mais certo
já quase nada valerá a pena
o futuro já é um livro aberto

e ao ter de abandonar a cena
quem cá fica que diga o que quiser
fará a História sem verdade plena

Bocage, personagem não qualquer
é o exemplo que só depois de morto
tem jus ao que antes devia ter

Quem até lá viveu no desconforto
versejando para ganhar a vida
sem conseguir então um bom porto

fazendo poesia atrevida
mesmo com pouca ajuda dos amigos
chegou cedo à hora da partida

E são estes exemplos bem antigos
que hoje se repetem mundo fora
sendo a clara prova dos castigos

praticados antes, também agora
porque o ser humano é o mesmo
e é muito ingrato a qualquer hora

Todos os anos passados a esmo
a contemplar o que o Homem faz
fazem-me acreditar que há abantesmo

que persegue aquele mais audaz
vindo da indigência mediana
e que nas artes se tornou primaz

ÁGUA




Já cá estavas quando eu nasci
bebi-te ainda sem saber quem eras
terei gostado, sim, gostei deveras
matando a sede, por isso sorri

Ó água pura que ainda existes
nem nisso pensam as gentes de hoje
se algum dia esse bem nos foge
será então que ficamos mais tristes

E esse dia terá de chegar
mesmo dizendo não os optimistas
é preciso não desviar as vistas
do mal que poderá todos matar

Água salgada, essa aumentará
mas tirar-lhe o sal é difícil cousa
na terra a que ainda repousa
virá o dia em que acabará

A Igreja chama-lhe água benta
e com ela baptiza as criancinhas
serão elas talvez, as pobrezinhas
que terão de enfrentar tal tormenta

É ainda o líquido precioso
que tem servido para enganar
misturado no que se vai provar
pois é vício deste mundo enganoso

E na vida faz bem ter certa fé
é bem bom acreditar no que seja
e em vez de água beber cerveja
como em seu lugar tomar água-pé

Mas para ambas é essencial
essa água que não pode faltar
da mesma forma que não haver ar
é morte certa para qualquer mortal

Mas será que neste mundo em mudança
onde tudo se inventa cada dia
alguém conseguirá a utopia
de atingir a bem-aventurança?

Não sendo a água já tão necessária
ficamos nesse caso descansados
temos de olhar para outros lados
para outra coisa também primária

Porque não acabam as aflições
excesso de gente causa problemas
e serão tais os vários dilemas
que o melhor é não ter ilusões

Uma vida difícil (19)


Aí, a minha vida deu uma volta completa. As circunstâncias permitiram que, conhecendo a filha do director da Fina, acabasse por admitir casa com a Filipa, o que viria a acontecer meses mais tarde. E, ainda as circunstâncias, determinaram que, nessa mesma altura, a posição do meu sogro na empresa sofresse um abalo ao ponto da sede geral em Bruxelas pretender substitui-lo no cargo que ocupava em Lisboa. Vim a sabê-lo mais tarde. E, subitamente, após um convite que me foi feito para me deslocar à Bélgica e depois a Itália, em ambas as ocasiões para poder estar de perto da cabeça da organização e ser analisado pela chefia máxima da Empresa internacional, foi-me feito o convite para substituir o meu sogro no lugar que ocupava em Lisboa. Tive de declinar o convite, anunciando então aos máximos da Fina que a razão era a de que não podia aderir a tal proposta, precisamente porque iria casar dentro de pouco tempo com a filha do homem que tencionavam demitir, desejando, para mais, que fosse eu a substitui-lo no lugar. Foi a surpresa geral daquela gente e isso custou-me o que era inevitável que viesse a suceder. Claro que, de tudo isto não dei conta ao visado, Filipe Corte-Real, pai da Filipa, e a minha ingenuidade não permitiu que admitisse que levassem avante a intenção de dispensar o meu futuro sogro.
Casei em 30 de Março de 1968 e as coisa mantiveram-se como estavam, em relação à Companhia, tal como até aí.
Durou pouco tempo tal situação, pois, repentinamente, a direcção belga da Fina indicou-me a porta de saída. A situação era, de facto, difícil e só eu é que a podia entender, visto que nunca comuniquei à minha nova família que me tinha sido oferecido o lugar de director-geral, substituindo quem o exercia e que, por sinal, tinha passado a ser meu sogro. Bem me insurgi bastante mais tarde e quando soube que a minha sogra, Alice Corte-real, tinha difundido no seu meio que eu é que tinha provocado o despedimento do meu sogro, para ocupar o seu lugar!...
O regime político em Portugal estava, ainda naquela época, de pedra e cal e as minhas limitações para poder exercer a actividade que sempre me apaixonara eram as maiores. Até chegar o 25 de Abril nem me parece que valha a pena entrar em mais detalhes e contar a história da minha vida. Tinha sido forçado a abandonar a vida jornalística, porque a actividade que eu queria desenvolver estava-me vedada pela Censura, pela PIDE e, segundo apurei, tudo por indicação expressa de Salazar... que honra me foi concedida! A verdade, porém, é que, já casado, tinha ficado sem emprego e, algum tempo depois, o meu próprio sogro também se encontrava demitido, embora já sofrer da doença que, cerca de um anos mais tarde, o vitimou.
Tive de me agarrar ao que me pudesse surgir e foi então que conheci um empresário que me deu que fazer, o Francisco José de Sousa Machado. E foi no seu grupo que, de novo as circunstâncias, me proporcionaram pôr de pé um empreendimento que, na altura, deu que falar: o chamado “drugstore” Apolo 70. Não me honra nada ter sido o autor de tudo que tornou real o que, então, era a maneira de eu ganhar a vida, já sendo casado. Pus a minha imaginação a funcionar e ainda hoje ma admiro de ter tido tanta capacidade para levar a cabo um empreendimento que estava bem longe de pensar que seria capaz de ef
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