sexta-feira, 30 de abril de 2010

ANGÚSTIA


Angústia
é ter dor no vazio
e não nos podermos queixar
de um ponto qualquer do corpo
é sentir a falta de algo
e o estar farto do demasiado
é o não poder respirar bem fundo
e o ter ar a mais no peito
o ler e arrepelar-se
e o não ver nas escritas
aquilo que consolaria
é o fazer a sua própria obra
e ficar insatisfeito
arrependido
por a ter iniciado

Angústia
é o estar só
ou mal acompanhado
é o ter gosto pela música
e só ouvir ruído
é querer fazer poesia
e só lhe sair rima
é ver nas livrarias as obras saídas
e interrogar-se: e as minhas
que continuam guardadas?

Sim, angústia
quando aparece
custa a ir-se embora
se é que vai algum dia
enquanto por cá se anda.

Logo pela manhã, ao despertar
ela aí está
matreira, à espreita
a castigar o cérebro
a implicar com os projectos
quando os há
a encher os ouvidos
com o não vale a pena
com o porquê e para quê
com o desconsolo

Angústia
é má conselheira
pode provocar a inveja
se não for bem interiorizada
e aí
deixa de ser um mal próprio
para passar
a ser mal ao próximo
e isso há que evitar

Angústia
cada um tem a sua
e rege-a conforme pode
se é que pode
porque quem não a sente
também não terá consciência
de que há algo
que deve mudar
em si
e no que se encontra
à sua volta

Angústia
como a minha
já me habituei
incomoda-me
mas também me desperta
para tentar emendar os erros
para mudar de caminho
para o outro ao lado
que não será muito distante
só que não é o mesmo
o de antes

Oh Angústia
se não a tivesse
sentia-me envolvido pelo rebanho
era igualzinho aos outros
não havia nada em mim
que me despertasse
que criasse a revolta interior
aquela que me faz escrever
o que escrevo
e não me obrigasse a fazer a pergunta:
para quê?

CONTRADIÇÕES


“O GOVERNO TEM DE FAZER O ESFORÇO e só ir gastar naquilo que for prioritário”, esta a frase que o ministro das Finanças lançou, precisamente agora, numa altura em que se apertam os perigos que grassam à volta de Portugal. E garantiu ainda Teixeira dos Santos que vão ser várias as medidas para se reduzir o défice estabelecido para este ano, não adiantando, no entanto, quais os pontos cruciais onde se verificará essa decisão governamental.
Porém, o que se ouviu já hoje da boca de Sócrates, no Parlamento (e eu esperei até esta hora para poder tomar contacto com essa sessão, no princípio), em que deu mostras de manter a sua sobranceria e em que, em confronto com o deputado do PSD, deu ideia de que nada tinha ocorrido no encontro que se realizou com o líder do mesmo Partido, essa atitude deixou-me perplexo e muito preocupado em relação aos efeitos benéficos que podem ser esperados da boa vontade e do acordo que teve lugar aparentemente em S. Bento.
Mas, apesar desse espectáculo do primeiro-ministro, não nos resta outra opção que não seja não levar em conta aquele ar de ter sempre razão. E vamos em frente, por agora e pelo menos aqui no blogue.
Terá sido importante que, finalmente, até mesmo bastante tarde, dê a impressão que tenha surgido nas cabeças dos homens que se encontram com a responsabilidade de gerir os nossos destinos, o espírito de enfrentar a situação, visão esta já tão propagada por diversas vozes que se levantaram avisando que se impunha que não prosseguíssemos numa enganosa vida de gastar sem ter onde ir buscar os meios, a não ser através de empréstimos exteriores, o que conduziu à posição em que nos encontramos.
E por muito que os portugueses se indignem por não assistir, por parte desses homens públicos, incluindo, obviamente José Sócrates, a um reconhecimento da sua falta de atenção perante as realidades que há muito tempo eram visíveis e palpáveis, o que importa, na situação actual, e tirando o maior partido do gesto de colaboração que o PSD apresentou, é fazer todos os possíveis para recuperar o que foi perdido em oportunidades que existiram e, mesmo que isso saia agora mais caro e que as portas dos emprestadores estrangeiros estejam nesta altura já retraídas e as suas condições em juros tenham subido bastante, por isso mesmo é que haverá que apurar o sentido das opções nos gastos que forem absolutamente necessários. E, nesse aspecto, o discurso que fez ontem o ministro da Obras Públicas, garantindo que os projectos em curso para a alta velocidade e para o novo aeroporto vão prosseguir, não podem deixar indiferentes os portugueses.
O pior é que, na área populacional – e não digo dos trabalhadores porque essa expressão tem sempre um sentido político, o que não tem de vir agora ao caso -, não se põem termo às greves, que são levadas a cabo para obtenção de melhoria de condições laborais, naturalmente com exigências de maiores salários, pois que por muito justas que sejam as queixas, o que é certo é que, pelo menos da parte do Estado, não existem meios financeiros que cheguem para, nesta altura, se satisfazer o que consta dessas greves. E se não existir a consciência dessa realidade, o que pode aparecer a seguir será muito pior do que o que suportamos hoje.
Eu bem alarmo aqui: atenção às reformas! Cuidado com o 13º mês e o subsídio de Natal! Se não tivermos o mínimo de compreensão no período que atravessamos, aquilo que pode vir a seguir será ainda mais penalizante do que nesta altura passa com os salários baixos.
Já não é o momento para outra Revolução do tipo militar, como foi a do 25 de Abril. Se se deparasse agora com outra revolta, essa seria de característica diferente mas sim social e não contava com a organização que, pior ou melhor, sempre se verificou na altura em que actuaram os chamados “capitães”.
Não quero ter razão. Não me alegra nada se acertar antes de tempo com o que pode ocorrer mais tarde. Mas, quem viveu bastante o antes e o depois de 1974, não tendo nada a perder com o que afirma neste blogue, não quer partir deste mundo e deixar um Portugal que não foi capaz de honrar o seu passado longínquo, o das descobertas e o da Lusofonia, perdendo agora o tento e não sendo capaz de encontrar uma solução inteligente.
Porque também eu afirmo, sem medo da repetição de vozes valorosas de tempos antigos, que, cada vez mais, sinto que a minha Pátria é a minha língua!...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONTENTE


Mesmo sem saber porquê
pois que tal não é preciso
é gostar do que se vê
e mostrar sempre um sorriso
contente,
contente
maravilha estar assim
sempre com ar de festim

Pode parecer doença
coisa física e mental
pois ter alegria intensa
lembra logo carnaval
contente,
contente
todos ao lado a chorar
quem ri a dissimular

Em época de tristeza
mostrar que é diferente
é p’ra já uma proeza
e que se anda a Poente
contente,
contente
será preciso inconsciência
ou deste mundo ausência?

Contente, contente
só com muita aguardente

BEM DISPOSTO?



ESTA É a pergunta habitual que se ouve em Portugal e que, sobretudo, em programas na televisão, naqueles em que existe contacto com o público, os apresentadores, na falta de outras coisas úteis para encher o tempo, dirigem com frequência. E a resposta que deveria ser dada era com outra pergunta: e temos razões para estar bem dispostos?
Entrando então no tema, face à situação económica e social – já nem me refiro à política – a que nos fizeram chegar, os portugueses, apesar da enorme dificuldade que tem a sua maioria em entender minimamente o que é isso do “rating” e das percentagens de défice que são repetidas aos cidadãos, a única coisa que compreendem é a dificuldade que se avoluma todos os dias para ir vivendo neste País, mas mesmo assim lá lhes entra na cabeça que, ao cabo de mais de uma dezena de anos em que temos sido governados com verdadeiro desleixo, chegámos ao ponto de termos conseguido ser um enorme devedor ao estrangeiro, pois o próprio Estado e as entidades financeiras, um para dar vazão à sua aventureira atitude de gastar mais do que era admissível fazer, sobretudo com obras faraónicas que deveriam ter aguardado pelos momentos apropriados e os segundos, os bancos, para poderem ganhar verdadeiras fortunas a emprestar ao Zé Povinho que, não podendo alugar andares, como antigamente, porque até desapareceram, a moda passou a ser a de se endividar para se constituir dono da sua própria casa, nem que levasse 30 ou mais anos a pagar.
E a bola de fogo foi-se avolumando, ao ponto de o negócio residir nos emprestadores bancários cometerem empréstimos no exterior com um juro favorável e efectuarem operações cá por casa, com outros juros mais elevados. E enquanto as coisas ia correndo sem grandes sobressaltos, aí sim, andava tudo bem disposto. Mas o que aconteceu há anos com o caso da “Dona Branca” repete-se agora de outra forma, em que, na hora de pagar o que se deve e em que o dinheiro fraqueja, quando os juros das dívidas sobem e o que era bom antes passou a constituir um inferno, nessa altura, quer o Estado quer os devedores nacionais, são forçados a adoptar medidas que, como diz o Povo, é ao “mexilhão” que cabe a vez de deitar as mãos à cabeça.
Mas nós temos a fama e o proveito de sermos uns desenrascados, mesmo que seja à custa de atitudes de salve-se quem puder. E, valha-nos isso, nesta altura verificou-se um procedimento que só honra uma parte, e que foi a sua estimuladora: a de o “líder” do principal partido da Oposição, Pedro Passos Coelho, do PSD, se ter prontificado a, pondo de parte as diferenças políticas que o separam do PS, colaborar com o Governo no sentido de serem encontradas soluções para, a bem de Portugal – como afirmou -, serem tomadas todas as medidas que sirvam para nos distanciarmos, em termos comparativos, com o que ocorre com a Grécia, que necessita mais de 100 mil milhões de euros para pôr as contas em ordem.
José Sócrates deve, por isso, ter respirado fundo. Mesmo não sendo afastado da responsabilidade que lhe cabe como principal motor da situação em que nos encontramos, pois que, ainda que vindo a origem de tudo de trás, de anteriores Executivos, a verdade é que, já em plena crise, não se verificou, na sua condução governativa, uma actuação reflectida e humilde que encaminhasse o Estado português em direcções diferentes das presunçosas seguidas, as quais contribuíram claramente para o esgotamento de fundos e para uma posição de fragilidade que nos pode conduzir ainda – ninguém garante o contrário – a uma situação muito próxima da banca rota.
Como eu tenho advertido repetidamente neste meu blogue diário, os perigos aproximavam-se e aproximam-se a uma velocidade assustadora. Para já vão-se limitar os subsídios de desemprego, pondo-se pôr fim a algumas “espertalhices”, chamemos-lhe assim, de muitos desempregados que não aceitam trabalho para se manter com aquela ajuda que todos os outros portugueses suportam. Mas, não desisto de sublinhar esse facto, o que ocorre com as reformas: será que conseguiremos salvar-nos desse descalabro, se suceder, e que poderá vir a constituir também uma medida que o Governo terá de enfrentar, com reduções e, quem sabe, com cortes drásticos? Todas essas greves que estão a multiplicar-se em diferentes áreas não serão abandonadas pelos seus autores sindicalistas, pois o perigo que é real não leva a que essas organizações reflictam sobre as consequências que todos pagarão devido às exigências que são feitas numa altura em que não é possível atender a benefícios, por mais justos que eles sejam… se forem?
Por agora, a atitude do PSD pode deixar-nos um pouco mais descansados. Se se verificarem resultados positivos da convivência agora estabelecida entre os dois Partidos, quem sabe o que resultará das próximas eleições? Mas isso e muito mais fica para mais tarde…

quarta-feira, 28 de abril de 2010

BUSCA DE ACALMIA


Mar que em mim existe revoltado
na busca continuada de acalmia
não consegue manter-se sossegado
no longo caminhar do dia-a-dia
e os ventos que sopram em redor
não deixam que as ondas me descansem
cada vez a angústia é maior
sem haver alguns que me esperancem

Os seis mil milhões que por todo o mundo
se movimentam cada um à sua
tendo de viver em cada segundo
desejando que nada os obstrua
uns conseguindo outros nem por isso
a grande maioria se debate
com o que na vida é grande enguiço
e torna o dia-a-dia em combate

Por isso se escuta tanta queixa
de gente p’lo desânimo tocada
a quem a felicidade não deixa
alegre marca da sua passada
as excepções existem, são bastantes
causando inveja aos que ao contrário
têm razão para ser protestantes
por sofrerem penas neste calvário

Eu, por mim, luto contra o mar revolto
as ondas permanentes que atormentam
vendo o vento que anda sempre solto
todos minha inspiração atormentam
num vai e vem de baixos e de altos
nos bons poemas, noutros um horror
em pensamentos, tristes sobressaltos
que deixam marca de enorme dor

Mas é esse, do poeta o martírio
encontrar o sítio e o momento
p’ralcançar conveniente delírio
em que se estando a sentir o vento
ele traga por vezes bons auspícios
e talento que quase sempre falta
e que provoca tantos sacrifícios
até fazer chegar algo à ribalta

Acalmia é coisa que se busca
bastante para o espírito sossegar
p’ra não haver aquilo que ofusca
o que esteja pronto para dar
mas quando por muito que se procure
a tranquilidade não aparece
não há ninguém que bem se aventure
porque o génio fugiu, não se merece

COMISSÕES? FOGE!...


É UMA PENA termos de chegar à conclusão que, cada vez que em Portugal se forma uma comissão, logo deparamos com um grupo de pessoas que não resolvem nenhum problema, que não conseguem chegar a uma conclusão e que só servem para empatar as decisões. Então não é o que se está a passar com esta Comissão Parlamentar para averiguar a verdade do que ocorreu com o caso tão falado da PT/TVI, incluindo a Taguspark e todos os grupos que fizeram parte de tal problema?
No fundo, a preocupação principal é a de apurar se o primeiro-ministro terá ou não mentido na Assembleia da República ao ter afirmado que desconhecia que a empresa dos telefones com participação do Estado estava a efectuar negociações com os espanhóis para a compra da estação de televisão, o que proporcionou a Manual Ferreira Leite ter chamado mentiroso ao chefe do Governo.
Quer dizer: movimentam-se várias criaturas, pagas pelo erário público, para se porem no lugar de polícias e fazerem interrogatórios repetitivos e arrastados a vários elementos que são considerados como eventuais participantes na referida operação, mas, no fundo o que sucede é uma “guerra” entre partidos políticos das Oposições, por um lado e o PS por outro. E, face a esse confronto, em lugar de a preocupação residir na descoberta da verdade, aquilo a que se assiste é a acusações sucessivas, uns a defender a todo o custo José Sócrates e outros a empregarem-se com denodo na busca de provas de que o responsável número um do Governo terá faltado à verdade, num lugar que tem de ser respeitado por todos os que intervêm naquele Hemiciclo.
É mais do que seguro que não se apurará a tal verdade, pois a falta de provas é evidente e apenas as aparências, por mais claras que sejam, é o que sairá no final do trabalho da Comissão.
Mas, a pergunta que se tem de fazer, face ao espectáculo a que se tem assistido nas transmissões televisivas das sessões dessas perguntas e respostas, é se valerá ainda a pena chegar a uma conclusão indesmentível, sabendo-se que José Sócrates, quando sair do lugar que ocupa não poderá gabar-se de nunca ter sido alvo de dúvidas, de desconfianças e de acusações por parte dos cidadãos que, mesmo sem provas, não deixam de manifesta-lhe reprovação por atitudes, promessas e afirmações que, segundo parece, claramente caíram mal num grande número de cidadãos.
Se a situação política nacional fosse outra, se tivessem já aparecido no panorama opções que permitissem aos potenciais votantes, na altura própria, efectuar uma escolha e retirar Sócrates de cena, então valeria a pena persistir numa campanha de “desprestigização” da personagem que conhece a situação e que, portanto, não dá ainda mostras de estar preocupado com a porta de saída. As eleições recentes no PSD talvez venham a constituir uma opção se, ao contrário do que se verifica nesta altura, o PS perder um número maior de aceitantes, como as sondagens ainda mostram. Até lá, se essa situação se mantiver, podem organizar-se as comissões que quiserem, fazerem perguntas repetitivas que entenderem e encher os ouvidos dos assistentes com um espectáculo chocante, porque tudo ficará na mesma.
Comissões, seja do que for, é coisa que não cabe no espírito “portuguesista” que é o nosso. Temos dificuldade em trabalhar em grupo. Não temos vocação para dar passagem aos outros e do que gostamos é de nos acotovelarmos, seja com palavras seja com o chega para lá que utilizamos em várias alturas.
O que é pena é que se perca tempo e dinheiro com estes ensaios de democracia. Não se é democrata por decreto. E cá volto eu: ensine-se essa prática desde os bancos da escola primária e talvez, no final dos próximos 36 anos, consigamos estar mais perto do seu uso natural. Por enquanto, não sabemos ainda utilizá-la.
Não vem completamente a propósito mas, já agora, vamos esperar para saber o que sairá de positivo do encontro que tem lugar hoje entre Pedro Passos Coelho e José Sócrates. Impõe-se que surja alguma esperança de que, face à situação periclitante que se atravessa, pelo menos se suspendam as quezílias que não ajudam nada a encontrar soluções para salvar Portugal do pior. E deixemo-nos de “comissionites”!...

terça-feira, 27 de abril de 2010

AMIGOS NOSSOS


Ter amigos nos humanos
quem não tem esse desejo?
Melhor ainda que manos
que nem sempre dão ensejo
ambição
é uma sorte encontrar
tamanha felicidade
porque sempre pode dar
prova de fidelidade
comoção
Mas nos homens é seguro
encontrar até demais
o que quero é com apuro
ter amigos animais
são seguros
que não pedem nada em troca
dão-nos inteiro amor
chega-lhes uma beijoca
para sermos seu tutor
como muros
O pior é quando humano
sem o mesmo sentimento
sem temer de fazer dano
não cuida do seu sustento
se desleixa
deixando de ser patrono
já não sendo novidade
o gesto é o abandono
mas que grande crueldade
sem queixa
Isso mostra afinal
que o homem é bem pior
do que qualquer animal
seja ele o que for
perverso
por isso prefiro até
amigo de quatro patas
tê-lo aqui bem ao pé
passando horas pacatas
e converso



AJUDAR SÓ A GRÉCIA?


A SITUAÇÃO actual da necessidade de ajudar a Grécia a sair da grave crise que está a viver, e em que já foi definido o apoio através da intervenção da União Europeia, a qual vai ser concretizada com a participação de dois terços do montante necessário pelos parceiros da Europa e um terço pelo Fundo Monetário Internacional, o que representa muitos milhares de milhões de euros, irá provavelmente criar condições novas de actuação de todo o conjunto, actualmente de 27 membros, apressando certamente, pelo menos é o que muitos desejam, a instituição de um núcleo denominado Estados Unidos da América. Eu, por mim, também gostaria que tal se concretizasse.
Na verdade, até agora, uma certa dispersão de atitudes – não se pode pôr de parte a exclusão assumida pela Grã Bretanha no que respeita à não aderência à moeda única, ao euro, o que, se se tratasse um país de menor importância, obviamente que teria constituído motivo para uma tomada de força rígida por parte de todos os outros participantes -, tem provocado um adiar sucessivo no que respeita à formação de um agrupamento que, em profundidade, obedeça a regras unitárias de actuação, ainda que conservando, como é natural, as características próprias de cada um, como a língua, os hábitos e costumes, os governos e todas as instituições adjacentes no que respeita à condução local de cada País.
Os anos que têm passado e a demora em chegar-se a uma comunhão perfeita de todos os participantes no capítulo de se poder afirmar estar a ser cumprida a regra de “um por todos e todos por um”, esse adiamento repetido, mesmo com as realizações de tratados sucessivos que procuram ir melhorando os relacionamentos, tal arrastar doentio, resultante das teimosias nas defesas de interesses próprios de alguns membros, essas tardanças só têm servido para que, aquilo a que se chama União Europeia, se encontre ainda na fase de aproximação da Europa desejada. O que, evidentemente, é bem distante àquilo que se impõe que constitua a concretização da ideia tal como ela nasceu na cabeça do seu fundador.
Por isso albergo agora alguma esperança de que a ajuda que a Grécia tanto necessita e que está em fase de concretização, com grandes probabilidades de vir também a ser pedida por outros parceiros que não se encontram muito longe da complicada situação grega, venha a servir para despoletar a fase seguinte de uma União Europeia que, como é sabido, corre actualmente o risco de ir perdendo consistência, em face de algumas atitudes pouco conciliadoras que têm sido mostradas perante casos concretos que vêm a lume assiduamente.
Nós, portugueses, bem podemos e devemos aspirar que tal não suceda. A unidade da Europa é fundamental para que, por cá, se consiga levar por diante uma política democrática que é essencial para que prossigamos com os desígnios do 25 de Abril, de que foi agora comemorado o seu 36º aniversário. Os ensinamentos que vierem do exterior e no nosso Continente poderão abrir as mentes daqueles que, convencidos das suas razões, como sendo as únicas certas, não têm ainda consciência de que o emendar erros faz parte da caminha do Homem e que ninguém se encontra incólume de os praticar.
A quem caiba esta advertência, que enfie a carapuça…

segunda-feira, 26 de abril de 2010

FUTURO - UM MISTÉRIO


Cheguei a uma altura
em que ando pelo mundo
sem saber para onde olhar
já não me interessa a figura
nem procuro ver o fundo
para onde vou ficar

Para trás foi o que foi
já nada será mudado
não vale a pena lembrar
e se agora algo dói
o melhor é pôr de lado
e o futuro adivinhar

Mas futuro? Que mistério!
Nesta ânsia de escrever
acumular prosa e verso
já não é nada de sério
mesmo dando algum prazer
serve tanto como um terço

E AGORA?


PASSADA que foi a comemoração de mais um aniversário do 25 de Abril, acontecimento esse que vale sempre a pena recordar, sobretudo por ter posto fim a um calvário que foi o anterior período político, na fase em que se encontrava já de desmedido desencontro com o que ocorria em quase todo o mundo, sobretudo como seguimento ao optado após o final da Grande Guerra Mundial que impôs a adopção de regimes abertos à Liberdade e em que os que ainda se mantiveram agarrados aos vários totalitarismos foram, salvo algumas excepções – dentro das quais umas tantas ainda se conservam teimosamente hoje -, aceitando, ainda que com diferentes nuances de democracias, que, mesmo a contragosto em certos casos, não tiveram outra alternativa, repito recordada que foi a referida data não devemos meter na gaveta o sucedido e antes dedicarmos algum tempo a memorizar o que ocorreu.
Pois, somos nós, sobretudo os que passámos pelo velho regime, primeiro sob a batuta de Oliveira Salazar e, após a morte deste, suportando a falta de vontade própria devidamente assumida de Marcelo Caetano, que se sujeitou às pressões de grupos conservadores, somos nós, sobretudo, quem pode fazer uma reflexão sobre o que teria sucedido em Portugal se a revolta militar, fossem quais fossem os fundamentos que a tornaram possível, não se tivesse efectivado. E vários cenários são imagináveis dependendo tais conclusões de factores diferentes, desde as inclinações políticas que cada um aceita até à percentagem de optimismo ou pessimismo que reside dentro dos portugueses.
Claro que tal hipótese é completamente impensável, mas com alguma boa vontade e grande dose de sonho poder-se-á admitir como se encontraria Portugal nesta altura se, de facto, não se tivesse passado a Revolução de Abril. Eu, pelo menos, já me tenho surpreendido com tal pensamento. E espanto-me perante os resultados que surgem na minha ideia.
Admitindo, pois, que não teria ocorrido a revolta dos militares e que, devido a isso, quer Américo Tomás, em Belém, quer Caetano, em S. Bento, ambos se manteriam nos seus postos, e que a guerra de África, em face disso, prosseguia durante mais algum tempo, com a implantação do então chamado Mercado Comum e a adesão que logo começou, progressivamente, de outros países europeus, a situação política portuguesa não poderia continuar como estava e impunha-se, mesmo contra a vontade de muitos conservadores cá ainda instalados, que aderíssemos ao sistema, caso contrário passaríamos a ser outra Albânia ainda que com características políticas completamente diferentes das seguidas naquela local no sul do Continente.
Agora, teria certa graça histórica assistir à mudança a que Thomás teria de se sujeitar, ainda que roendo as unhas, e observar o chefe do Governo de então a ser obrigado a negociar com os movimentos africanos, mesmo que encontrando-se em situação pouco cómoda por o tempo ter jogado a favor dos adversários nas ex-colónias. O que será mais difícil imaginar é se, já em posição incómoda, estaríamos em condições de discutir a permanência dos portugueses nos territórios do Ultramar, em igualdade de circunstâncias dos naturais e mantendo as suas actividades, sobretudo os que já tinha nascido naquelas paragens.
Que diferença se verificaria se esse sonho tivesse sido afinal uma realidade! Por muito que, nesta altura, as relações entre Portugal e os novos países africanos se possam considerar amistosas, a alternativa que teria lugar seria da maior utilidade para essas Nações neófitas mas, especialmente para nós, representaria uma enorme ajuda, pois o crescimento económico que se está a verificar, sobretudo em Angola, permitiria que não paralisasse a ida daqui de nacionais para aquele e outros territórios e o intercâmbio de actividades contribuísse para o nosso próprio desenvolvimento.
Não estamos bem no relacionamento actual com as antigas províncias ultramarinas? Estamos, mas, nessas circunstâncias, seria outra coisa!...

domingo, 25 de abril de 2010

REVOLTA


Que revolta
desconsolo
ansiedade
bem queria dar a volta
e ir até ao miolo
da minha obscuridade

Verdade
mistérios
respostas claras
estou pleno de vontade
que me mostrem factos sérios
sem inventos e sem taras

A suceder
a dar-se
ter fé como crentes
não terei o que temer
que usar qualquer disfarce
para me mostrar às gentes

Séculos passados
dois mil anos foram
sem provar
nem fanáticos nem letrados
nem aqueles que tanto oram
no que eu quero acreditar

Ter fé é preciso
querer saber
respostas das questões
terei de perder o siso
basta entregar-me ao crer
sem pôr quaisquer condições

Triste ignorância
querer aprender
com independência
só me restará a ânsia
de ir sem satisfazer
tão grande impaciência

Sacanices
e invejas
grandes perseguições
um mundo de aldrabices
só beatas nas igrejas
o perdão com confissões

É o céu
e o inferno
bondade e Satanás
desconfiam do ateu
e até o próprio Governo
sem fazer a marcha atrás

Ser sério,
honesto
frontal
não aceitar o mistério
há que não dar o pretexto
de sem saber dizer mal

Será assim
vida fora
sempre igual
pergunto à volta e a mim
mas não sei aonde mora
quem me dê algum sinal

Por isso
contrariado
temente
fechado no meu ouriço
sem fé e amargurado
não sinto o que outrem sente

No Além
fora do mundo
ali
será que haverá alguém
que me faça ver bem fundo
aquilo que nunca vi ?

25 DE ABRIL


ESTA DATA tem de marcar, todos os anos, uma mudança que deveria ter sido radical, em 1974, na vida de Portugal e dos portugueses. Sem ser necessário historiar o que é conhecido de todos, sobretudo os que viveram já crescidos o acontecimento na altura, mesmo assim, por se tratar do fim de um período excessivamente longo de uma ditadura e termos entrado, embora com defeitos, naquilo que se considerou então como ser uma época de Liberdade, sem recorrer a esse particular histórico basta que, nesta altura a que chegámos, façamos um balanço da vida que foi proporcionada aos portugueses. E, especialmente aqueles que viveram o antes, e com profissões como a minha, melhor satisfação tiveram de sentir na referida data memorável.
Mas não nos fica mal se reconhecermos que a Democracia bem executada, como a que já é um procedimento normal de alguns países onde esse regime tem alguns anos de prática – como a Grã Bretanha, por exemplo, que já leva mais de 300 anos de regime democrático -, essa experiência ainda não chegou ao nosso Rectângulo, sobretudo quando se sabe que são necessárias várias gerações para que, com a maior naturalidade, desde a infância, os habitantes não façam qualquer esforço para utilizar os meios que são fundamentais para que um regime desse tipo seja praticado.
Por isso, com enorme frequência se assiste a atitudes dos nossos nacionais, em que se incluem, obviamente, os políticos portugueses, as quais trazem ainda uma dose pesada de comportamentos herdados do passado de antes da Revolução. Ninguém consegue seguir naturalmente as regras praticadas nos países de regime democrático, pois são necessários muitos anos de aplicação antes de aceder sem pensar aos novos procedimentos, em particular esse, tão importante, de não interferirmos nas opiniões de cada um que nos rodeia.
E é por isso que, neste blogue, em mais de uma ocasião tenho proclamado a ideia de, tal como o José Sócrates foi tão entusiasta com os computadores Magalhães e com o ensino do inglês, o que também deveria passar a existir – e digo eu, com prioridade – tem de ser, nos primeiros anos da escola primária, que o ensino da prática democrática, incutindo nos mais jovens o espírito da humildade e da ânsia de ouvir dos outros alguma coisa que enriqueça os seus conhecimentos, deve aplicar-se.
Isso de dizer, como se ouve constantemente os deputados afirmarem com arrogância, que “não recebem lições de Democracia de ninguém”, essa demonstração de um fundo totalitário é que deveria desaparecer radicalmente, sobretudo dos mais responsáveis da política portuguesa. Aprender a ser democrata é uma experiência de que todos os portugueses necessitam, a começar, obviamente, pelos que não se devem nunca desviar de tal uso.
Esta comemoração, mais uma, da data fundamental do nosso novo regime político, não deveria servir apenas para deixar no calendário a marcação de um feriado e para no Parlamento se ouvirem os discursos habituais de circunstância que não adiantam nem atrasam aquilo que se passa em Portugal. Se existisse bom senso neste País e sobretudo consciência daquilo que é mais importante e separando isso do que é supérfluo, meter-se-ia indubitavelmente a mão na consciência e far-se-ia um exame dos múltiplos erros que se têm cometido ao longo destas três décadas.
Mas isso, para a nossa maneira de ser, é um acto de que não precisamos! Não cometemos asneiras, tudo é feito com total conhecimento dos nossos actos, que consideramos os melhores e não precisamos de saber mais! É essa a convicção mais corrente que reina entre nós todos. E só nos insurgimos contra o mal que os outros praticam, ignorando aquele que é da nossa própria autoria.
Não é que o José Sócrates não mereça todas as críticas que lhe são feitas, pois um primeiro governante deste Portugal tão sofredor não pode escapar aos “insurgimentos” que a população lhe dedica, sobretudo quando tantas asneiras saem da sua actuação. Mas também devemos observar bem aquilo com que a população nacional mais se encanta. Porque trabalhar com sentido da obrigação que nos cabe, sermos conscientes de que há que produzir o mais possível para podermos ter excedentes para exportar, não perdermos tempo com conversas no meio das nossas actividades, como se vê permanentemente, sobretudo quando se encontram mais de dois trabalhadores em actuação, se formos cumpridores dos nossos deveres, entrando e saindo a horas e não arranjando sempre desculpas para faltarmos às nossas obrigações, se isso suceder com naturalidade, então temos todo o direito de fazer as críticas aos outros, nem que seja ao Sócrates, que, por sinal, se anda agora a dedicar exclusivamente às inaugurações de acontecimentos sem o mínimo de valor, provavelmente para ocultar aquilo que seria importante fazer.
É que, se estamos como estamos, não é por acaso e bem podemos sair para a rua de bandeirinhas na mão a cantar louvores ao 25 de Abril, que só com isso não vamos a lado nenhum… E é aqui que reside a explicação por que digo, logo no início deste texto, que a mudança com o 25 de Abril “deveria ter sido radical” em relação a deixarmos ficar para trás todo o comportamento de tipo ditatorial. Será só por não ter havido tempo suficiente para tal?

sábado, 24 de abril de 2010

A ESFERA



Fala-se aí do futuro
do que vai p’ralém do muro
daquilo que não se vê
que hoje não está â mercê.
Daqui a mil anos, pois
do mundo nesse depois
bem se pode imaginar
e tudo fantasiar

Que o Homem, suponhamos
perdeu todos os seus ramos
desapareceu da Terra
a sua mão já não erra
e outros seres ficaram
e até se multiplicaram
libertos do ser humano
e de todo o seu dano

Ao deixar de haver humanos
desapareciam planos
aquilo que fosse, seria
com toda a assimetria
da força da Natureza
seria então a beleza
a nascer por sua conta
sem a mais plena afronta
de quem se julga melhor
e se arma em patrão-mor
de tudo à sua volta
causando a maior revolta
na Natureza calada
sujeita à mão desvairada
de quem de tudo é dono
e se arvorou colono
da Esfera terrestre, enfim
fazendo disso um festim

Quando o Homem for, em suma
o resto de coisa nenhuma
lembrança arqueológica
em que já não conta a lógica
talvez outra espécie venha
diferente, mas que tenha
um espírito melhor
eu seja mais consciente
que traga sempre na mente
defender tudo o que é belo
tratar com grande desvelo
aquilo que é natural
animal e vegetal
na terra como no mar
consumir sem desgastar
conservar o mais possível
mas sem chegar ao horrível
de extinguir o que existe
tornando a vida tão triste
já com tantas raridades
frutos das barbaridades
do Homem tão egoísta
e mais que o Papa, papista
quem vier em seu lugar
que aprenda com todo o mal
que quem estava deixou
e a tristeza cavou.

Esta é uma esperança
de quem crê que a herança
que os terrestres vão deixar
a quem tomar seu lugar
daqui a milhares de anos
já com distintos fulanos
com outra mentalidade
e plenos de puridade
aproveitando a ciência
mas usando-a com prudência
p’ra manter o Natural
entre Homem e animal
entre Homem e plantas
e muitas mais coisas, tantas.

Sim senhor, é optimismo
num futuro bem distante
pode chamar-se ateísmo
nenhum deus disse quejante
mas como este mundo está
a cair no precipício
o Homem já não vai lá
já nem vale o sacrifício

A Terra no infinito
ficará p’ra sempre à espera
venham outros com seu fito
dar à Esfera outra quimera

GRANDES DÍVIDAS


SABIDO QUE é que a leitura da sentença do julgamento final do tristemente célebre processo Casa Pia, já está marcada, para 9 de Julho que aí vem, respira-se de alívio pelos mais de 5 anos decorridos desde que começou toda a série já classificada como uma horrível telenovela com o desfecho ainda por ser conhecido. Não adianto, como é natural, se serão ou não castigados e com justiça adequada os intervenientes em toda a pouca vergonha que, nos tempos que correm, se considera como normal, pois até os membros da Igreja católica e alguns políticos de renome de todo o mundo têm sido apontados como também actores dessas malvadezas. Este o panorama que se vive nos tempos que correm, se bem que, como é historicamente sabido, já nos tempos recuados da Grécia e da Roma de então, essas práticas e outras teriam lugar. E os homossexuais também apontam essas origens para amenizar o que está agora na moda não esconder.
De facto, se nos entregarmos à análise dos problemas de enorme gravidade para os Homens dos nossos dias (e refiro-me ao caso português, que é o que mais nos interessa), tais situações passam para segundo plano, pelo menos ao nível da Justiça que temos por cá. E, às revoadas, vão aparecendo à superfície os casos que fazem esquecer os que ficam soterrados pelas novidades.
Tem primazia, por agora, a situação das contrapartidas na compra de pouco bom senso dos submarinos, pois que até aí se está agora a concluir que houve uma sobrevalorização do montante real que deveria figurar no contrato de compra aos alemães – uma autêntica trapalhada que deveria levar a julgamento quem interveio na operação, de cima abaixo -, mas daí se parte também para muitas dúvidas que pairam sobre outros contratos de compra de material militar, como os helicópteros e actividades de assistência indispensável, o que demonstra serem muito obscuras as operações que resultam de tais aquisições que, a partir do elemento mais graduado do Ministério, deveriam ser minuciosamente observadas por elementos da Polícia, pois que se trata, segundo se admite, de maquiavélicas acções de “dinheiro ao bolso”. Só que, quem poderá saber alguma coisa sobre tamanha embrulhada, não dá mostras de querer colaborar para que o nosso País, tão envolto em dívidas externas e internas, possa, no mínimo, recuperar alguma coisa do que constitui um encargo de grande dimensão.
Mas é apenas o Estado que tem sobre as costas enormes dÍvidas que não sabe como liquidar? Pelos vistos, até grandes empresas nacionais se vêem em palpos de aranha para solver os seus compromissos. A Sonae, por exemplo, tida como uma bem administrada sociedade de que é o patrão mor Belmiro de Azevedo, trouxe a público a notícia de que deve 1,2 milhões de euros a fornecedores, sendo que parte do referido montante ter transitado do ano anterior. Seguramente que esta holding sabe como resolver os problemas próprios, mas este caso só serve para provar que todo o País se encontra numa fase difícil. Por isso não admira que a TAP tenha declarado um prejuízo, referente a 2009, de 12 milhões de euros, o que, pelos vistos, este ano aumentará, agora com a ajuda da paralisação recente motivada pelo vulcão da Islândia.
Valha-nos a tal esperança a que os portugueses, desde D. Afonso Henriques, se agarram com unhas e dentes. Oxalá a Comunidade Europeia, se ela já estiver mais operacional e unida quando dela precisarmos, puder deitar-nos uma mão se for caso disso.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

À ESPERA


Aqui estou eu à frente do papel
à espera que a inspiração me chegue
olhando para a rua a ver passar
aqueles que não olham para a folha
em branco à espera de estar cheio
de letras, de palavras e de versos

Serão felizes esses que não puxam
por um génio que não lhes faz falta?
Quem sabe se não seria melhor
conhecer tudo sobre o futebol
preocupar-me só com o meu clube
e andar em dia com o jet-set?

Se fosse assim, poemas não fazia
e descansava quem viesse a ler
todos os versos livres e bem livres
porque de rima mesmo nada têm
e a cadência é o que lhes resta
mas mesmo assim encheram o papel

QUEREMOS TRABALHO!...


O DESEMPREGO em Portugal não pára de aumentar e os governantes, apesar de muitas promessas, não dão mostras de saber como inverter a situação. O número oficial já ultrapassa os 600 mil, mas a realidade ainda será pior, pois existe gente que não encontra trabalho e que, apesar disso, não recorreu ainda aos serviços montados para efectuar os seus registos. Trata-se, sem dúvida, de um perigoso elemento que pode alterar os comportamentos dos cidadãos atingidos, quer por via directa quer por influência de casos em redor.
As razões deste flagelo são conhecidas, pois que as empresas que ainda poderiam atrever-se a receber novo colaboradores, em face da crise que envolve todo o País não se arriscam a garantir por tempo indefinido a manutenção de empregados acabados de admitir.
No entanto, como costuma dizer o povo, quem não tem cão caça com gato ou, por outras palavras, em caso de extrema necessidade as regras têm de ser ultrapassadas. E, se é certo que os trabalhadores necessitam de ter os seus os seus lugares minimamente assegurados, não podendo ser despedidos sem razões que a lei admite, na situação actual e para se tentar pôr cobro à onda de desemprego que grassa pelo nosso Portugal, o que é forçoso encarar é se não será preferível a quem está desempregado conseguir ter actividade e remuneração, ainda que seja sem garantia de permanecer toda a vida no mesmo local, do que ver passar os meses e até os anos à busca de ocupação e, por outro lado, ter também o Estado que suportar o subsídio que é atribuído em tais circunstâncias. E são muitos milhões de euros que são gastos.
É bem sabido que, nos Estados Unidos da América, desde sempre que não se verifica essa norma de não poderem as empresas mudar de funcionários sempre que as circunstâncias o impõem. E o resultado que sempre se verificou, evidentemente quando a tal crise ainda não se tinha instalado, foi o de que os patrões, perante os seus funcionários cumpridores e úteis nas funções que desempenhavam, não desejavam perder a sua colaboração e até os compensavam com sucessivas melhores condições para os ir mantendo. Hoje, naturalmente não ocorre isso, posto que as baixas de vendas e as reduções necessárias de trabalhadores em cada local que sofre prejuízos obriga a que outros cuidados façam criar também lá o desemprego. Mas os tempos, espera-se, mudarão. E a normalidade que Obama parece estar a proporcionar talvez já não tarde assim tanto a ser presenciada.
Agora, no que se refere a Portugal, mesmo indo este texto levantar alguma celeuma, sobretudo junto dos sindicalistas inveterados, dos promotores das greves sejam quais forem as consequências para a economia, assim mesmo atrevo-me a apresentar esta sugestão que, obviamente, na fase em que ainda estamos não será atendida por ninguém… excepto pelos 600 mil desocupados com que deparamos a cada passo.
Se fosse aberta, por um período estabelecido, a possibilidade de, apenas nas situações novas – e é forçoso reforçar este princípio - não ser necessário fazer contratos a prazo, podendo os empregadores passar a admitir colaboradores por tempo não estabelecido contratualmente, a pergunta que faço é se essa medida não iria provocar um certo arrojo em todas as empresas no sentido de não terem receio de aumentar os seus quadros que, depois e perante a actuação positiva desses admitidos, poderia resultar em emprego seguro.
Mas se há quem prefira manter o panorama da paralisação, em vez de serem tomadas medidas que, por muito pouco seguras que sejam, sempre dará ocasião a que os que andam por aí a roçar-se pelas parede possam usufruir de um salário… enquanto dura, se é isso que os portugueses que se encontram à frente das organizações sindicais e aí têm os seus ordenados garantidos preferem, então que assumam a responsabilidade dos seus actos. E, quanto aos governantes, se não têm coragem para propor esta medida provisória à Assembleia da República, pois que dêem a cara e suportem as consequências.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

D. QUIXOTE DE LA MANCHA


Viver sonhando, cavaleiro andante,
fidalgo adormecido com leituras
acompanhado por seu ajudante
Sancho Panza, o homem das gorduras
foi pela pena de Miguel Cervantes
que nasceu Don Quixote de la Mancha
uma obra das mais extravagantes
que nos livros provocou avalancha.
Limpou armas velhas de antepassados
estudou nome para o seu cavalo
pôs nisso todos os melhores cuidados
passou a ser mais um fiel vassalo
Rocinante se veio a chamar
embora belo exemplar não fosse
também de princesa veio precisar
uma donzela com um fundo doce
e a uma moça de bom parecer
que pouco conheceu o cavaleiro
crendo que seria sua mulher
e que daria força ao guerreiro
Dulcinea de seu nome criou
e sem mais esperas, de corpo inteiro
os seus trajos de guerra enfiou
com os cuidados de homem solteiro
colocou a espada e a lança na mão
e sem ter de dar contas a ninguém
montando Rocinante com paixão
partiu por aqueles campos além.

São longas histórias do trajecto
com dormidas em casebres bem pobres
imaginando-se sob bom tecto
e crendo comer à mesa dos nobres
falando a sós com muitas fantasias
procurando os moinhos de vento
quais gigantes que eram manias
mais do que isso eram tormento
pois que as suas velas que giravam
eram para Quixote braços compridos
que aos cavaleiros ameaçavam
com seus rodopios e seus grunhidos
o escudeiro Sancho Panza, coitado,
bem procurava o amo acordar
pois não seria um qualquer malvado
mas apenas moinho em seu rodar.
E também em suas mulas dois frades
foram alvo do sonho de Quixote
que picou Rocinante com vontades
de dar aos dois monges um chifarote.
Vinham de preto duas criaturas
pareceram a Quixote malvados
sendo autores das mais negras loucuras
merecendo assim ser castigados.
Teve o escudeiro de acudir
mas mesmo assim acabou tudo mal
pois não foi nada fácil conseguir
convencer que era gente de moral
pelo que Quixote clamou aos gritos
por Dulcinea, flor da formosura
para que o salvasse dos atritos
a si mesmo, o da boa figura.
De tudo que ao fidalgo sucedeu
engenhoso de tristes aventuras
não se daria com qualquer plebeu
por maiores que fossem as bravuras.
Mas aos famosos também o fim chega
p’ra D. Quixote não houve perdão
e o Céu não lhe deu nenhuma achega
dando como finda sua missão
morreu rodeado de alguns amigos
de Sancho Panza e do seu barbeiro
e de outros que correram perigos
sofrendo alguns enganos do guerreiro
a todos confessou naquela hora
no mais belo e puro castelhano
pois devia afirmá-lo sem demora
que o seu nome era Alfonso Quijano
e D. Quixote já não se chamava
odiava histórias profanas
assim como uma atitude brava
com antigas manias espartanas.

Esta a confissão de Miguel Cervantes
depois do seu belo livro terminar
não era possível fazê-lo antes
mas foi uma atitude exemplar

CORAGEM DE CAVACO


CONFESSO que a minha reacção foi de não me incomodar excessivamente com o caso que ocorreu durante a visita de Cavaco Silva a Praga. Considerei a situação como uma excessiva má educação de um chefe de Estado de um País que o nosso Presidente visitava e não me preocupei em ir mais longe. Mas as coisas evoluíram, pelo menos por cá. Alguns cronistas de jornais não esconderam a sua fúria em relação, sobretudo, ao facto do nosso Presidente não ter sido capaz de reagir a uma má actuação de Vaclav Klaus, o “dono da casa” que recebia uma visita portuguesa. E aí, reflecti melhor e achei que deveria expressar também a minha opinião. Não podia ficar indiferente.
Enfim, no que diz respeito ao checo que entendeu dar ares de grande pregador, provavelmente por não ter perdido ainda o que constituiu um hábito naquelas áreas, no antigamente em que havia um que mandava e todos os outros obedeciam, com a imagem do Stalin ainda presente no seu espírito e querendo imitar também o novo ditador da Venezuela, no que se refere a um Vaclav fora de moda europeia não me apetece sequer fazer um comentário. Nem importa sequer avaliar se o que ele disse pode ou não corresponder a uma eventual realidade. O que sim tenho de deplorar é que o representante máximo de Portugal que se encontrava como convidado do “mestre-escola” praguiano, ao escutar a tradução simultânea das opiniões expressas pelo anfitrião não tivesse sido capaz de mostrar que não podemos admitir que, naquelas condições, tivéssemos de receber avisos e ensinamentos de alguém que não tinha o direito de se expressar naqueles termos.
Cada um de nós, português, pode e talvez até deva advertir de que o caminho que levamos não será o mais indicado para nos conseguirmos libertar de uma situação que nos pode conduzir a uma saída dramática, seja ela parecida ou não com a que a Grécia enfrenta hoje. Eu, aqui neste blogue, não escondo a preocupação com que vivo de, se não optarmos por outra via diferente da que o Governo de Sócrates segue, podermos vir a acordar um dia destes com a banca rota a bater-nos à porta. E faço os possíveis para advertir quem me lê que a nossa obrigação como cidadãos é a de tudo fazermos para colaborar das formas que nos forem possíveis para participar na salvação que depender ainda dos concidadãos. Uma delas, por exemplo, é a de não aderirmos a qualquer tipo de greves que façam paralisar por mais pequena que seja a máquina que contribua para enriquecer o nosso património. E que, também com o mesmo espírito, procuremos utilizar apenas produtos nacionais, para evitar os gastos com as importações. Mas tudo isso são comentários tidos dentro da nossa casa…
Agora, que venha um fulano qualquer, estrangeiro, e ainda por cima aproveitando-se da visita que lhe é feita por um nosso representante oficial, a “ralhar” connosco e a prevenir-nos de que estamos perto do que ocorre com a Grécia, pelo que devemos tomar medidas que façam baixar o nosso défice, por muita verdade que isso seja, ninguém fica satisfeito por ver o nosso Presidente da República engolir em seco, fazer um risinho amarelo e não responder como merecia quem teve um comportamento de tão baixo nível.
Quando o rei de Espanha respondeu ao homem da Venezuela “por que no te callas?”, ficou bem gravada na cabeça de todo o mundo que os espanhóis não se rebaixam, por muito mal que lhes corram as coisas. Era a altura de mostrar que também nós, por muito pequeno que seja este rectângulo, não nos submetemos a más criações de outros, nem que sejam os que estiveram um largo número de anos sob a alçada da então União Soviética, engoliram em seco e fizeram tudo que eles mandaram!...
Não sei se esta falta de coragem de Cavaco Silva não pesará na altura do povo se deslocar às urnas para deitar o seu voto para escolher se haverá reeleição ou se preferirá um Presidente novo. Nunca se sabe!...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

AGONIA


Os meus poemas são feitos com esforço
para lá mesmo do que posso
e insisto
e persisto
e quero convencer-me
que vale a pena.
É uma pena !
Não leiam, não,
faço questão
são um desastre.
Mas vou escrevendo
lá vou fazendo
e, se possível, com certa rima
que se aproxima
da perfeição
que é p’ra agradar
ao paladar
de quem os sabe saborear
devagar
p’ra não ter indigestão

Assim lá saem
maduros caem
triste figura
pobre do homem que não resiste
e que insiste
nesta falsura
de ser poeta
que é uma treta
digo eu, não sei,
se houvesse lei
que dominasse
e não deixasse
ser poeta quem não pode sê-lo
não estaria aqui a escrevê-lo,
e a lê-lo.

Poupava-os a este flagelo
Será que isso de ser poeta, cabe em mim?
Por fim !
Ou sou eu quem não cabe na poesia?
Que agonia !

VULCÕES



NINGUÉM PODE DIZER o contrário, de que eu não sou um crítico persistente em relação ao comportamento generalizado do ser humano, acusando-o de ser o causador principal dos acontecimentos que mais inconvenientes provocam no ambiente mundial. E, por ambiente, não me limito ao ar que se respira ou a todos os prejuízos que são provocados pela acção do Homem. Vou mais longe porque, como é bem sabido, muitos factores têm influência nas condições de vida de todos os habitantes terrestres, como sejam as guerras e guerrilhas que se criam em diferentes zonas do Globo, as agora tão frequentes acções com origem nos grupos que, não constituindo países, nem por isso deixam de causar enormes danos, como são os denominados terroristas ou com outras designações de iguala significado.
O tão falado aquecimento global, com origem, como é sabido, no excesso de utilização de combustíveis com origem no petróleo, o qual não se conseguiu ainda ser limitado, apesar da Cimeira de Copenhaga, pois acabou num fracasso quanto a um acordo generalizado, aguarda ainda por mais reuniões dos principais responsáveis para poder vir a ser enfrentado como uma necessidade imperiosa se queremos, na nossa Esfera, conseguir uma vivência mais adequada às nossas necessidades.
E, para não falar já da bomba atómica que, encontrando-se também nas mãos de pequenas Nações que não prestam a garantia de resguardar o seu uso só para fins pacíficos, essa arma destruidora constitui uma ameaça que paira sobre as nossas cabeças e ninguém está em condições de garantir que não acontecerá um dia o desastre nuclear cujos efeitos são incalculavelmente de enorme destruição (a propósito, a peça de teatro de minha autoria, com o título “E a Terra, indiferente, continua rodando”, foca este tema do fim do mundo e algum dia aparecerá ao público).
Pois é agora que cabe a alusão ao caos provocado pelos efeitos do vulcão que, na Islândia, desencadeou uma catástrofe provocada pelas cinzas que se espalharam por uma larga mancha na Europa, o que deu ocasião a que, cerca de 7 milhões de passageiros de carreiras aéreas, tivessem ficado retidos nos países de onde iriam partir para outros destinos, no que foram impedidos devido a dezenas de aeroportos terem sido obrigados a encerrar os seus movimentos. E foi praticamente uma semana que obrigou tanta gente foi obrigada a alterar as suas vidas, com os prejuízos muito avultados que tal representou.
Quer dizer, portanto, que a Natureza entendeu, uma vez mais e agora através desta forma de agressão, intrometer-se na actuação dos seres humanos, podendo-se portanto tomar consciência de que alguma existe que tem mais força do que a acção do Homem, por muito que se julgue ser o único senhor das decisões terrestres, tem de estar atento a situações que não dependem da sua vontade.
O que ocorreu recentemente em diferentes partes do Mundo, no Haiti, na Madeira e antes em outras zonas com os tsunamis, os ciclones, as inundações, os maremotos, os tremores de terra e os próprios terramotos, tudo isso são acções decorrentes de “atitudes” tomadas pela Mãe Natureza e aí o Homem não tem mais que procurar o remédio para atender às vítimas humanas que não têm a quem reclamar os efeitos dos acontecimentos.
Talvez seja caso para começarmos a pensar seriamente se se justificam as questiúnculas que se “armam” permanentemente, se todas essas invejas, preconceitos e egoísmos com que se depara no dia-a-dia por parte dos habitantes do nosso Globo. Pensemos bem nisso!

terça-feira, 20 de abril de 2010

QUANTOS




Não é fácil ir contando
o que na vida fizemos
e se vai avolumando
e chega a atingir extremos

Daquilo que desistimos
os erros que cometemos
até o que conseguimos
e aquilo que não demos

Felicidade perdida
quantos amigos morreram
o que ficou nesta vida

Quanto outros perderam
por falta de acolhida
que de nós não receberam

NÃO APRENDEMOS!


NA VERDADE já não se pode. A paciência tem limites. É que, neste País, os acontecimentos que se sucedem vão dando mostras de que não conseguimos, nós portugueses, quer sejamos elementos situados no poder ou estejamos a fazer parte da população geral, não somos capazes de ter a cabeça bem colocada no seu lugar e, especialmente numa altura em que temos para enfrentar situações bem difíceis que ninguém sabe se conseguiremos levar a bom porto, desperdiçamos toda a nossa capacidade em acções que não constituem a menor valia para lá chegarmos. E temos o ano de 2013 como limite imposto pelo PEC.
Na área da governação já nem é preciso pôr mais na carta. Quem lá está parece ter esgotado todas as medidas que nos podem levar a concluir que Portugal conseguirá ultrapassar a situação a que o fizeram chegar. Cada dia que passa é maior o número de especialistas em economia que asseveram que não seremos capazes de fugir de uma situação em tudo semelhante à que a Grécia já defronta.
Já há bastante tempo que, neste blogue, tenho vindo a lançar o aviso de que se impunha avançar com resoluções que ainda fossem a tempo de podermos escapar do pior. Mas não estive e cada vez estou menos isolado. Foram crescendo as intervenções que, sobretudo aos espectadores das várias estações de televisão, avisavam que o perigo estava à espreita. Apesar disso, nesta altura ainda há quem mantenha a esperança de que sairemos incólumes do desastre!
Será por isso que, especialmente por parte de algumas organizações sindicais, não param as reivindicações, sobretudo reclamando maiores salários, que, embora nalguns casos com justificação, na maioria das situações não olham às dificuldades que se atravessam e exigem o que parece impossível de conseguir. Por agora.
O que se passa com os professores, por exemplo, por muito que sejam aceitáveis as exigências que vão fazendo, será altura de fazer ver a essa camada populacional, sem dúvida com capacidade para avaliar concretamente como nos encontramos, que não podem continuar a ser conduzidos por elementos que, sendo sempre os mesmos, os estão a envolver numa onde de opinião pública que não se pode considerar benéfica para quem tem a seu cargo o ensino das diferentes classes de alunos.
Há que dizer que é preciso dar uma trégua a tais posições extremas. Já chega de greves e de manifestações de rua. E até a imagem que se dá lá fora, em que o nosso estatuto de Nação europeia se fica a assemelhar a outros países em que o bom comportamento cívico não faz parte das suas preocupações.
Era de supor que a FENPROF, sempre com Mário Moreira à frente das disputas – o que faz com que se levante a questão de saber se esse sindicalista não terá uma profissão que lhe garanta o ordenado mensal -, entendesse não basta ter razão (se é que a tem) para se criarem as movimentações que, nesta altura, repito, nesta altura, são completamente descabidas.
E o ter o sindicalista Carvalho da Silva aparecido a clamar que a diminuição claramente necessária do elevado número de funcionários públicos provoca uma diminuição de eficiência de serviços na Administração, essa teoria só podia partir de quem, tendo a sua remuneração garantida pelo ordenado que lhe paga a CGTP, não se incomoda muito em tomar consciência de que se encontra cada vez mais perto o momento em que o Estado não só não terá dinheiro para pagar os salários dos seus funcionários, pois o grande risco é que venha a ser muito mais profunda a carência.
Podem todos os Carvalhos da Silva deste País andar convencidos de que têm a solução para o problema em que nos encontramos envolvidos. Mas olhem para a Grécia!...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A CHUVA



A chuva molha a cidade
Fica mais triste, escurece
É duro, mas é verdade
É assim, quando aparece

Tocada a vento, então,
Mais agreste fica ainda
Nela o Homem não tem mão
Mas por vezes é bem vinda

Sim, há gente que a deseja
Que tanto implora por ela
É o pão da sua boca

Ela é sua benfazeja
Desponta como uma estrela
Toda a chuva será pouca

AI AS ESCUTAS!


QUEM TENHA chegado de uma longa estadia num País longínquo e tenha perdido o contacto com as situações que ocorrem e ocorreram nos tempos mais próximos em Portugal, seguramente que, ao pretender actualizar-se, se defronta com uma incompreensão dos problemas que parecem constituir as preocupações base deste nosso País. Sobretudo, se se ativerem apenas às notícias que a comunicação social divulga, neste caso a confusão ainda terá de ser maior e levará algum tempo até se identificarem com a balbúrdia que se instalou mas cabeças dos portugueses. Digo, dos nacionais que acompanham os noticiários que dominam a atenção de um grande número. E isso numa altura em que outras preocupações de extrema importância deveriam estar a figurar nos cabeçalhos dos jornais, pois que esses assuntos interferem directamente com a nossa vida ou até com a nossa sobrevivência…
Refiro-me ao que enche as colunas dos jornais e que tem em todos os títulos a palavra repetitiva que, em circunstâncias normais, é pouco usual. E é ela o substantivo “escutas”.
De há uns tempos para cá que não se lê outra coisa que não se refira às conversas havidas entre José Sócrates e Armado Vara, focando nessa comunicações telefónica temas que, segundo alguns, pecam por porem em causa o comportamento do primeiro-ministro, segundo parece por terem sido feitas afirmações que comprometem o chefe do Governo. Segundo parece!
A verdade, porém, é que, a partir do momento em que o caso se tornou em problema político, logo o aproveitamento dessa situação passou a constituir uma arma de arremesso da maior utilidade para quem está interessado em derrubar o primeiro-ministro, o que, naturalmente, é compreensível nestas coisas das lutas pelo poder. E quando se alargou o tema das tais chamadas telefónicas ao assunto em que Figo se encontra envolvido – mesmo sem o querer -, o do Taguspark, mais ainda ânsia de conhecer o conteúdo dessas escutas se tem feito notar.
Desde que o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, fez o primeiro despacho ordenando a destruição dos discos com as gravações, dado que transcrições dessas conversas circulavam por outros departamentos do Ministério Público, surgiram as ordens de várias origens para que não restasse um único documento que mostrasse o que tinha sido dito entre comunicações em que um dos protagonistas foi José Sócrates. Todos os cuidados foram tomados para que não restasse nem um único elemento comprometedor dos tais “desabafos”.
No entanto, há que ter em conta que estamos em Portugal. Neste País de “xico-espertos” que são capazes de todas as malandrices para fugir ao que fica estabelecido. E, devido a esta característica, eu por mim ainda tenho esperanças de que, um dia, lá mais para diante e quando o Governo mudar de mãos, apareça, por obra e graça de uma mão malandra, algum documento que pretenda soltar toda a verdade do que nesta altura reside num mistério. Vamos aguardar.
Porém, aquilo que apetece deitar cá para fora é apenas uma coisa bem simples: se, realmente, as referidas escutas não contêm nenhum elemento que ponha em má situação o José Sócrates, mesmo tendo sido usados palavrões que, entre amigos, não escandaliza que sejam ditos, qual o motivo por que o chefe do Governo não acabou com todas as dúvidas e não autorizou que fossem tornadas públicas essas trocas de opiniões telefónicas que tanta tinta têm feito gastar e que colocam o interveniente principal numa posição incómoda der ser julgado pela imaginação dos portugueses, que, nestas circunstâncias, tendem até em exagerar o que poderá ser a realidade.
Se, como disse Louçã no Parlamento, Sócrates está “mais manso” nas suas intervenções no Hemiciclo, até será ocasião para que dê mostras dessa mansidão e venha mostrar aos portugueses que não há motivos para duvidarem dele em qualquer comportamento que tenha tido e que nunca pôs a segurança, o bom nome, a actuação correcta como político em qualquer risco e que nada tem a esconder que mereça a crítica dos lusitanos.
O pior é se não é nada disso que se trata e que o esconder as “escutas” é a única maneira de não deixar passar para o exterior alguma coisa de certa gravidade. Saber-se-á um dia!...

domingo, 18 de abril de 2010

BUSCA DE ACALMIA

Mar que em mim existe revoltado
na busca continuada de acalmia
não consegue manter-se sossegado
no longo caminhar do dia-a-dia
e os ventos que sopram em redor
não deixam que as ondas me descansem
cada vez a angústia é maior
sem haver alguns que me esperancem

Os seis mil milhões que por todo o mundo
se movimentam cada um à sua
tendo de viver em cada segundo
desejando que nada os obstrua
uns conseguindo outros nem por isso
a grande maioria se debate
com o que na vida é grande enguiço
e torna o dia-a-dia em combate

Por isso se escuta tanta queixa
de gente p’lo desânimo tocada
a quem a felicidade não deixa
alegre marca da sua passada
as excepções existem, são bastantes
causando inveja aos que ao contrário
têm razão para ser protestantes
por sofrerem penas neste calvário

Eu, por mim, luto contra o mar revolto
as ondas permanentes que atormentam
vendo o vento que anda sempre solto
todos minha inspiração atormentam
num vai e vem de baixos e de altos
nos bons poemas, noutros um horror
em pensamentos, tristes sobressaltos
que deixam marca de enorme dor

Mas é esse, do poeta o martírio
encontrar o sítio e o momento
p’ralcançar conveniente delírio
em que se estando a sentir o vento
ele traga por vezes bons auspícios
e talento que quase sempre falta
e que provoca tantos sacrifícios
até fazer chegar algo à ribalta

Acalmia é coisa que se busca
bastante para o espírito sossegar
p’ra não haver aquilo que ofusca
o que esteja pronto para dar
mas quando por muito que se procure
a tranquilidade não aparece
não há ninguém que bem se aventure
porque o génio fugiu, não se merece

MELHOR NÃO LIGAR


ORA VEJAM LÁ se vale a pena andarmo-nos nós a escandalizar com os pagamentos equivalentes aos que ocorrem nos países de petróleo aos seus magnatas e que são feitos a alguns gestores de empresas portuguesas em que o Estado tem participação! Para que serve tanta conversa que tem sido gasta com o que dizem ser um escândalo nos ordenados e subvenções que são atribuídas aos Mexias e outros quejandos? Então não é que, em reuniões de Assembleias-Gerais da EDP e da PT, os accionistas votaram agora mesmo a concordância com a manutenção de tais atribuições monetárias?
Sendo assim, o melhor é deixarem os portugueses vulgares de querer dar opinião no que respeita a decisões tomadas por entidades situadas em plano superior, pois o que lhe cabe é apenas o pagarem as taxas que, por exemplo estas duas empresas de fornecimento em exclusivo de electricidade e de serviço telefónico, aplicam aos portugueses, que esses, mesmo em democracia, não têm mais remédio que não seja acatar o que lhes impõem, sem oportunidade de mudar de fornecedores.
Isto de ser possível que António Mexia, presidente da EDP, tenha metido ao bolso 3,1 milhões de euros pela sua actuação num ano, e que Zeinal Bava, presidente da PT, “só” lhe tenham cabido 2,5 milhões, a par de muitos outros “mandões” de empresas também comparticipadas pelo Estado não se fiquem muito longe, só quer dizer que vivemos num País onde a vergonha de quem é beneficiado e o desinteresse dos que podem mudar as circunstâncias e nada fazem, todos contribuem para que este barco que é Portugal se continue a afundar e que, como disse agora o presidente da Checoslováquia a Aníbal Cavaco Silva, não estaremos muito longe de alinhar com a situação da Grécia e que seria bom que nos precavêssemos em relação ao possível desinteresse dos restantes países da Comunidade Europeia em nos prestar auxílio, pois teremos que ser nós próprios, em primeiro lugar, a mostrar que tudo fazemos para não cair no buraco.
O que nos vale, neste caos da crise financeira e social que tem corrido o mundo e que tem alargado as suas asas por diversas frentes, incluindo a nossa, é que, na situação dramática que teve origem na Islândia e tem tapado quase todo o céu da Europa com a nuvem vulcânica, desta vez e até hoje – vamos a ver o que se vai passar ainda – conseguimos sair ilesos. Apenas o Presidente Cavaco Silva e a sua equipa sofreram os efeitos da impossibilidade utilizar a via aérea para regressar a Portugal da sua viagem nem por isso bem escolhida à República Checa. Em alguma coisa teríamos que ser favorecidos pelas decisões super naturais. Já que, no capítulo do excesso de chuva não nos podemos considerar muito felizardos este ano.
Mas também, lá vamos conseguindo disfarçar as poucas satisfações que as circunstâncias nos proporcionam. E, para isso, tudo nos serve para olhar para o lado a assobiar. As tolerâncias de ponto que o Executivo entendeu conceder por motivo da visita próxima do Papa Bento XVI a Portugal, sendo que, da parte da tarde do dia 11 de Maio, no dia 13 e da parte da manhã do sai 14, o trabalho de muita gente fica relegado para segundo plano. Isto numa altura de crise e de contenção, como diz o Bloco de Esquerda… mas nisto até terá alguma razão.
É por isso que faço a pergunta logo no início deste texto: valerá a pena andarmo-nos a amofinar com o que ocorre nesta Terra de gente do deixa andar?

sábado, 17 de abril de 2010

IMAGINAÇÃO

Bendita imaginação
que nos mostra o invisível
aonde não chega a mão
àquilo que é impossível
de alcançar
de agarrar
mas nos traz felicidade
porque dá p’racreditar
que não será p’la idade
que passou tempo d’amar

Imaginar tem defeitos
porque engana quem o faz
coloca tudo a preceito
convence do que é capaz
de fazer
de acontecer
torna os sonhos tão belos
quando acordado se está
imaginam-se castelos
tudo o que bom virá

Imaginar o terrível
coisa que não apetece
é transformar o visível
em coisa que não se esquece
só belezas
não tristezas
mesmo não sendo verdade
o que importa é a alegria
seja qual for a idade
nunca mostrar apatia

E aquilo que não temos
saúde, dinheiro e amor
importa é se parecemos
ter isso ao nosso redor
desfrutar
enganar
quem de nós tem certa pena
não sabendo imaginar
que nesta vida terrena
o bom é imaginar






MÉDICOS PRECISAM-SE


NÃO É A PRIMEIRA vez que tenho este tema como preferido no meu blogue. E, provavelmente, se ainda me restar paciência, saúde e dinheiro suficiente para ir aguentando os custos do papel e da tinta no computador, voltarei ao assunto, posto que, neste País, as deficiências, os maus procedimentos de quem nos governa, seja lá quem for, prolongam-se por tempos fora, sucedendo-se cabeças (?) que nos comandam e mantendo-se os defeitos sem que ninguém lhes presta a atenção suficiente para dar a volta aos problemas.
Há quantos anos, desde que sucedeu a Revolução – porque antes nem valeria a pena queixarmo-nos, porque o caminho era Caxias – se levanta o problema de que os estudantes que pretendem seguir o caminho da medicina deparam com a porta fechada da Faculdade respectiva, por só serem admitidos os estudantes saídos do secundário com notas muito elevadas, a rondar os 20 valores? Como se, para ser médico, para além da vocação, que essa sim, é necessária, e só se apura depois de se ficar a conhecer ao longo do curso superior, será realmente saber muito de matemática, de geografia e de outras disciplinas que não interferem na profissão que a rapaziada pretende seguir!
O resultado dos diferentes Executivos que têm tido o encargo de levar com o mínimo de sabedoria a governação de Portugal é de que não existiu, até agora, um só responsável que tivesse olhado para este problema com o mínimo de atenção. E o que acabou por suceder e agora constitui uma grave dificuldade, é a da falta de profissionais portugueses de medicina, sobretudo nos centros de saúde e nos hospitais, ao ponto de se estarem a contratar estrangeiros e de até aproveitar imigrantes vindos dos países de leste, por sinal bem formados, que estão a actuar em várias profissões, mas sobretudo na construção civil, para preencherem as falhas de que se queixam os utentes dos serviços médicos.
Depois, porque também está a ser divulgado, as condições de trabalho dos nossos clínicos ao serviço do Estado não são as mais desejáveis, quer no que se refere a material para ser executada uma actuação com eficiência, como no que diz respeito ao pagamento de serviços. Daí o terem saído, desde Janeiro deste ano, mais de 500 médicos com reforma antecipada, os quais, como seria natural, se prontificam a actuar nas áreas privadas.
O que todos ficamos à espera é da solução que o conjunto de Sócrates vai ser capaz de encontrar perante este dilema que nem necessita de grande competência para se chegar a uma conclusão. Esta é uma oportunidade para o socratianismo mostrar o que realmente vale. Vamos lá ver!
Andamos, nós ao que ainda dedicamos algum tempo a observar e a comentar os acontecimentos relacionados com a governação no nosso País, a dizer sempre o mesmo. Recordo-me que, há cerca de vinte anos, todos acreditávamos que iríamos ser em breve modernos, ricos e europeus. Contemplava-se o século XXI, que já se encontrava à vista, com uma esperança enorme de que Portugal iria alinhar com os mais adiantados parceiros europeus, mas já quando Guterres proferiu a declaração do “pântano”, em 1991, logo aí foi o início do declínio que veio sempre a acentuar-se durante todo o período que decorreu até aos dias de hoje. E, com Sócrates, a situação foi só a piorar. Não importa agora fazer o exame analítico dos erros cometidos.
Com isto não quero dizer que foi exclusivamente de Sócrates a culpa da quebra verificada neste nosso País, mas a ele cabe-lhe a maior parte da responsabilidade, sobretudo devido ao facto de nunca querer receber dos outros alguma imaginação que é o défice maior que se encontra no primeiro-ministro e por se considerar sempre o maior no panorama, já por si tão fraco, que domina a área política nacional.
Agora, deparamo-nos todos com o resultado de tantos erros cometidos e esse da falta de médicos é um daqueles que, se tivesse sido atacado a tempo, não faria com que se chegasse, nesta altura, a uma posição tão deplorável.
Mudar de Governo neste momento, embora seja o que apeteça, não é a medida mais apropriada, especialmente para não causar mau ambiente no exterior e fazer baixar ainda mais a confiança naqueles que nos observam atentamente, porque têm os seus créditos connosco e não podem perder o mínimo de esperança quanto à eventualidade de continuarmos a necessitar dos seus empréstimos
.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

SONHAR

Que bom é sonhar sonho agradável
Dormir acordado e ver o distante
O que se deseja e não é viável
Por muito que dure ou seja um instante

Sobretudo o sonhar acordado
O que se quis, tanto se desejou
Isso mesmo, o que andou ali ao lado
Por muito querê-lo se escapou

Porém o mundo é este em que vivemos
Ingrato, vingativo e bem maldoso
Só nos dá aquilo que não queremos

Porque tudo o que nos pode dar gozo
Isso escapa-nos das mãos e não vemos
Resta-nos sonhar em dia chuvoso

PROBLEMAS RELIGIOSOS


A ONDA que está agora a tomar foros de inquietação mundial, isto é, o número elevado de elementos pertencentes à Igreja católica que se têm entregado à prática da pedofilia, ao ponto do problema ter chegado já a obrigar o Papa a referir-se ao assunto e de se aguardarem medidas que ponham ponto final num crescendo preocupante, esta situação tem de provocar, como é natural, que alguns dos próprios seguidores da Religião católica se interroguem sobre a desconfiança que tem de existir em relação aos membros que se devem classificar como exemplares e que não se sabe, ao fim e ao cabo, se não farão parte desse número que vai sendo denunciado aqui e ali.
Pensando seriamente no problema com o mínimo de independência que é possível manter nestas circunstâncias, pois que, no capítulo das práticas religiosas, todas elas são originárias da imposição humana e, por isso, as opiniões que forem expressas são-no também por outros homens, há que ter sempre presente que cada uma das crenças religiosas utiliza os princípios e as práticas que os seus maiores entendem serem as adequadas e, se constituem uma regra, todos os seus seguidores lhes devem total obediência. Mas só esses.
Porém, quando extravasam para o exterior de cada comunidade os efeitos desses procedimentos, aí já se justifica que surjam pontos de vista que interfiram criticamente no seu comportamento. É o caso da actuação pedófila por parte de membros que se situam na escala hierárquica do Vaticano, seja ela qual for, como tem sido divulgado pela comunicação social de todo o Globo.
A pedofilia é um crime execrável e sobre isso não há que estabelecer discussão. Lá se a sua prática tem a ver ou não como a homossexualidade, como o afirmou o secretário-geral do Papado, essa já será uma discussão que, pelos vistos, merece concordância e discordância, conforme já se começou a verificar por partes antagónicas posições. Mas, seja ela praticada por quem for, mandam os princípios do Direito que se apliquem os castigos impostos pelos cânones legais da cada País. Essa tem de ser a regra.
Mas, em virtude de se ter levantado a questão, especialmente por parte de um grupo de homossexuais católicos, denominado Novos Rumos, de se pôr fim ao celibato dos padres, ponto este que já não é novo no ambiente da Igreja de Roma e cuja solução tem sido sucessivamente adiada, sabe-se agora que a Conferência Episcopal Portuguesa, reunida nesta altura em Fátima, irá divulgar a sua opinião por estes dias. Há que aguardar, uma vez mais, que a matéria em causa será objecto de solução ou se tudo ficará na mesma.
Seja como for, o que é importante referir é que cada organização religiosa, de todas as que existem no nosso Planeta, tem o direito de estabelecer as suas próprias regras de conduta e de actuação no interior do seu próprio território. Mas, da mesma maneira que, por exemplo agora em França, se levanta o problema de proibir a circulação, dentro do seu País, de mulheres muçulmanas com a cara tapada pela “burka”, todos os comportamentos públicos que se verificarem por grupos, religiosos ou não, que estejam legalmente constituídos, esses não podem fugir às reacções que provocarem nos cidadãos de cada localidade, se ferirem ou intervierem na regular vivência desse povo.
A crença religiosa é um direito que, especialmente nos países democráticos, é aceite sem discussão. A prática dos seus rituais também não deve oferecer contestação. E, sobretudo se, como parece ser o que acontece aos seres humanos, o seguimento desses princípios conduz a uma aproximação da felicidade, mais uma razão para que ninguém interfira em tais comportamentos. O que não quer dizer que sejam admissíveis quebras de legalidades, a coberto de qualquer protecção religiosa.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

RECEITA PARA HOMEM

Tome-se um homem qualquer
a viver numa casinha
junto da sua mulher
com vida sossegadinha
de manhã para o trabalho
o almoço contadinho
o cabelo já grisalho
o fato bem compostinho
como todos passa os dias
sempre iguais mas não se importa
não tem nenhumas manias
e com pouco se conforta
seu cigarrito lá fuma
de leitura pouco gosta
de futebol sim, em suma,
e no seu clube aposta
um cafezinho à saída
com os colegas de luta
altura de uma bebida
e também de uma disputa
p’ra defender suas cores
e jogar no totobola
que aliviaria as dores
e descansaria a cachola
dava p’ra pagar ao banco
a hipoteca malvada
talvez abrisse um estanco
passaria a ter criada
mas se isso não se der
que é o que se tem mais certo
lá continua a viver
sujeito a todo o aperto
de chegar ao fim do mês
com a carteira vazia
que isso de rigidez
é tal e qual a azia
depois de uma almoçarada
como aos domingos se passa
dia de não fazer nada
e de gozar a madraça
pois o dinheiro não dá
para ter outra opção
p’ra além daquilo que há
e que é ver televisão
já que na segunda-feira
de novo o mundo rola
e quer se queira ou não queira
filho segue p’ra escola
a mulher vai trabalhar
o autocarro está
como sempre a abarrotar
mas outro meio não há
para ao serviço chegar
repete-se assim a cena
tem sido igual toda a vida
também não há que ter pena
basta esperar a partida
com certa resignação
a velhice não perdoa
as doenças também não
por tal não se gasta à toa
prevenir o amanhã,
os amigos vão morrendo
já é pouca a vida sã
o remédio é ir vivendo
com certa resignação
à espera do seu caixão.

Este é o homem modelo
o que nasce, vive e morre
que não sendo pesadelo
faz o que pode e lhe ocorre
não é muita a ambição
e de ter mais bem gostava
não sai do que está à mão
quando pode desencrava
sem ser muito resoluto
já que tem muitas cautelas
norma que lhe vem de puto
evitando as mazelas
e conservando os empregos
não mudando de patrões
já que os desassossegos
é que causam confusões
mais vale pouco que nada
dizem os mais cautelosos
caem sempre em borrada
os que são gananciosos
casado, muito calminho
com um filho que consola
não sendo um coitadinho
tem casinha pachola
nos arredores da cidade
e p’ra ser feliz já dá
não vive da caridade
quem quer demais sofrerá.

Mas ser assim comedido
não ter ambições na vida
justifica ter nascido
e andar por cá de fugida?
Resposta eu cá não tenho
nem quero ser eu juiz
por isso me abstenho
não sei o que é ser feliz.
Homem modelo é assim
nunca desejar de mais ?
Eu falarei por mim
nem todos são iguais
mesmo sem ter o talento
dos grandes homens de génio
há que lutar cem por cento
ainda que falte oxigénio

Com o filho já crescido
que partiu p’ra sua rota
manteve o seu apelido
e é um rapaz janota
os seus estudos lá cumpriu
até onde quis chegar
e a uma moça pediu
para com ele casar
o trabalho o afogou
tinha o destino traçado
uma casa pois comprou
com o dinheiro emprestado
começou tudo de novo
está visto, tinha que sê-lo
é essa a sina do povo
claro, do homem modelo

De vez em quando vem um
que sai daquele padrão
não sendo assim tão comum
juntos fazem multidão
alguns de cabeças espertas
os que fazem por passar
por portas semi-abertas
onde tentam se esgueirar
e quando conseguem ficam
à frente dos que esperam
e assim sempre debicam
pois são eles que aceleram
e de carro ou a pé
de cotovelo em riste
fazem o seu finca-pé
mas que é triste, isso é triste.
Os outros, que poucos são,
sobressaem da manada
nasceram com o condão
de deixar obra do nada;
são os génios, os tocados
pelo dom da Providência
serão os iluminados
na escrita ou na ciência
ou também em qualquer arte
com trabalho e muito empenho
são os chamados aparte
os que mostram ter engenho.
Só que a regra geral
é que os espertos enricam
acumulam capital
como o fazem não explicam;
os outros, os geniais,
quase sempre até morrer
mesmo sendo os anormais
não conseguem convencer
e só depois da partida
e até passados anos
é então reconhecida
a obra de alguns fulanos
com estátua em jardim
ou numa rua o nome
pagando-se assim por fim
a alguém que passou fome.

É este o mundo que temos
em que o homem-modelo
mesmo que não aprovemos
é o que leva o selo
de cumpridor, direitinho
levando uma vida inteira
sem sair do seu caminho
sempre com eira e beira

Saudemos tal personagem
Prestemos-lhes a homenagem

Mas seguir o seu caminho
a mim não causa fascínio!











UNIDOSES


JÁ SABEMOS qual é a decisão do Governo no que respeita à venda de unidoses de remédios nas farmácias. Pelo menos as dúvidas estão ultrapassadas, posto que a ministra da Saúde, em entrevista concedida a Miguel de Sousa Tavares - o encarregado pela RTP de fazer agora o papel de interrogador de figuras mediáticas, o que, expresso a minha opinião, não lhe sai muito bem, e, quanto a isso, depois de assistir a mais umas tantas tarefas do mesmo tipo, não deixarei de referir o que penso concretamente sobre essa missão -, deixou bem claro que se trata de uma medida que apresenta custos muito elevados e que são os próprios laboratórios a dar mostras de não quererem aderir a essa alternativa.
Ora, era precisamente esse pormenor que justificava também um “aperto” por parte do entrevistador, dado que, há mais de 30 anos, por acaso em Londres, fui protagonista de uma situação em que um médico de um hotel requisitou, até pelo telefone, uma medicina para serem tomadas apenas duas doses, e as duas pastilhas apareceram numa frasco não original e com um rótulo colado no exterior e o nome do remédio escrito à mão. Isso, repito, ocorreu em 1970!
Por aqui se pode ver o estado de atraso em que nos encontramos no que se refere à Europa. Pelos vistos, na Grã Bretanha – e não só, pois há conhecimento de que outros países seguem o princípio da venda de unidoses de medicamentos – os laboratórios farmacológicos não têm o poder que por cá se verifica e não existirá uma associação dos farmacêuticos com a mesma força que tem a que domina a situação no nosso espaço.
Eu nem me sinto vocacionado para discutir a opinião da ministra da Saúde, pois cheira-me a sua tomada de posição a falta de coragem em enfrentar o finca-pé do “patrão” da instituição das farmácias, o que prova, sem necessidade de qualquer chapéu de chuva, que o mais cómodo é não levantar confrontos, mesmo que esses representem uma economia importante nos gastos públicos e, evidentemente, um gasto bem menor por parte dos doentes que, especialmente neste período de baixas de rendimentos, lhes calharia de forma bem positiva.
Cada um que pense o que quiser. Eu, com o meu blogue absolutamente independente de quaisquer interesses, só me permitindo apontar aquilo que já verifiquei lá fora, não me conformo e, quando vêm dizer que os próprios médicos não são partidários de receitar unidoses, como já foi dito na comunicação social, então ainda mais revoltado me sinto. E a única resposta que dou é de que não acredito que os tratadores da saúde pública levantem barreiras no que respeita a facilitar a vida dos mais necessitados.
Mas, ao mesmo tempo, fico a falar sozinho.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

OS BURROS


Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais