terça-feira, 30 de setembro de 2008

FAZER DE CONTA

Nem sempre o que é possível se consegue
fará falta algo, mesmo a fé
é preciso que o que se persegue
deixe de estar longe e fique ao pé

Muitas vezes tem que se dar o passo
ainda que não seja nosso agrado
há que manter fortes nervos de aço
e esquecer o que está ao lado

Por muito que se trate de uma afronta
aquilo que é preciso p’ra vencer
nada poderá ser de grande monta

Pois por mais longe que esteja pronta
o que queremos ver alvorecer
o importante é não fazer de conta


ALBERTO JOÃO


Não se trata de evidenciar regozijo por tomar conhecimento de que um compatriota foi condenado por uma condenação judicial. Mas, sabendo-se de quem se trata, de uma pessoa que usa e abusa dos termos menos apropriados para atingir outras personalidades políticas, sobretudo se pertencerem a grupos partidários diferentes do seu, pelo menos a mim, que não sou madeirense nem faccioso, esta condenação, confesso, provocou-me alguma satisfação.
Eu explico melhor: Alberto João Jardim, o tal desbocado que bem merece que, de vez em quando, seja chamado à colação para ver se consegue interiorizar que a responsabilidade do lugar que ocupa lhe deveria merecer um respeito mais visível pelo conjunto de intervenientes na política, quer se tratem de governantes quer se situem noutras posições menos valorizadas, esse ainda presidente da Madeira, foi agora condenado em 20 mil euros de indemnização a Edite Estrela, eurodeputada, por a ter difamado – é o que diz o veredicto -, chamando-lhe “delinquente”. E, caso curioso, foi o Tribunal Judicial do Funchal quem considerou que Jardim “se excedeu na crítica política”. A razão da fúria jardinista assentou no facto de Edite ter declarado que “a política regional madeirense se consideraria de fachada e sem sensibilidade social”.
Faço este exposição toda porque, primeiro, considero a especialista em língua portuguesa uma pessoa de trato agradável e, segundo, porque deveria a forma como ela usa a nossa língua ser exemplo a seguir pelo deslinguado Jardim, que não respeita ninguém, atirando pela boca fora os maiores despautérios, acabando sempre por perder até a razão, quando a tem, pois quando uma figura pública se exibe, deve ter o maior cuidado em não se exceder, utilizando termos que a população ouve e que, perante essa atitude, não se retrai também quando se confronta verbalmente com um parceiro. Os maus exemplos são mais fáceis de seguir…
Os madeirenses, que têm votado sempre na mesma personalidade política, poderão estar muito contentes com a governação que os dirige. Muito bem. Mas seria bom que levassem em conta que muito do dinheiro que tem contribuído para o progresso, sobretudo urbanístico da Ilha, vem dos cofres do Continente, o que não retira valor ao Alberto João, porque tem dado mostras que o utiliza bem. Mas, mesmo assim… a paciência tem limites!
Agora, o que está ainda para ver é qual a decisãodo Tribunal, perante o recurso com que Jardim respondeu à sua prima condenação. Eu não poria as mãos no fogo por uma decisão antecipada. Pode-se esperar de tudo!...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

SALA DE ESPERA

Estou na sala à espera
do médico para consulta
no estrangeiro, quem me dera
chegar atrasado é multa

Mas aqui nesta terrinha
onde tudo é ao contrário
dá tempo p’ra ladainha
rezar contas do rosário

Paga-se caro aos doutores
mas há que esperar que atendam
mesmo assim fazem favores
doentes que não se ofendam

Os que sofrem de maleitas
e por isso estão doentes
engolem suas desfeitas
são chamados pacientes

Em Portugal é sabido
ninguém tal pergunta faz
pois como certo é tido
de aguentar é capaz

Pergunta-se de rompante
mesmo sendo coerente
quem é o mais importante
o médico ou o doente?

Se se esperam sempre horas
que o médico faça o favor
descontemos as demoras
na consulta do doutor

Acabam-se logo as esperas.


PROBLEMAS RESOLVEM-SE ?









Julgo que não causará grande espanto que eu recorra, com frequência, à ajuda das notícias da Imprensa para encontrar assunto que preencha os meus blogues diários. O que vai acontecendo e que constitui motivo para os jornais tirarem partido dessas novidades, evidentemente por se tratarem de casos merecedores de serem assinalados, suscita-me a mim, que não perderei nunca este vício do jornalismo que pratiquei durante mais de cinquenta anos, a vontade de também dizer de minha justiça.
E isso sobretudo agora, que já lá vai há anos essa maldita Censura e que, neste momento, em que outra tesoura afiada também espreita na comunicação social, esta comandada pelos interesses capitalistas, publicitários e outros e que estão atentos às faltas de domínio nos rapazes das Redacções, pois que nem sempre se pode dizer a verdade, sobretudo quando ela briga com factores que contribuem para que interesses criados sofram moléstias, eu, pelo menos, neste blogue estou isento de tais intervenções.
Vamos então ao que saquei hoje da Imprensa que despertou a minha vontade de dizer de minha justiça: em primeiro lugar, não posso deixar passar um tema que se refere às câmaras municipais e que divulga a notícia de que os municípios de todo o País estão a “arder” com milhões de euros, em virtude das rendas sociais que não conseguem ser cobradas e de que pouco têm valido os planos de pagamento faseados e as acções em tribunais. Quanto a estas últimas, não causa a menor admiração, sabendo-se como se sabe como anda a Justiça neste nosso País. No caso do município lisboeta, a notícia é clara ao anunciar que o montante por cobrar atinge já os 13 milhões de euros e que muitas das rendas em dívida não chegam a uma centena por mês. E o escândalo maior é que se sabe que há famílias que não pagam as rendas das suas casas sociais mas têm rendimentos que ultrapassam o milhar de euros mensais e algumas delas ostentam à porta dos seus lares viaturas de alto custo.
Isto é um dos muitos casos que se podem apontar neste nosso belo País solarengo, em que a Justiça, quer para um lado quer para outro, anda de olhos, de ouvidos e de nariz fechados. Tudo dorme nos nossos tribunais, apesar das montanhas de papel que se descortinam nos seus corredores, cada vez que temos necessidade de entrar num desses edifícios. E não há ninguém, com “eles” no seu sítio, que seja capaz de, uma vez por todas, meter juízes, sistemas, leis, seja lá o que for na ordem.
Vamos agora ao segundo assunto: João Loureiro, o filho do outro, o major, deve 77 mil euros à Segurança Social. Tratam-se de quotizações retidas dos salários de trabalhadores do clube axadrezado, referentes ao período de Maio a Novembro de 2007. E a lista de ordenados sobre os quais recaem as faltas de pagamento pelo Boavista Futebol Clube, que vão desde os 6 mil até aos 84 mil euros mensais. Uma ninharia!... Claro que, também neste caso, a Justiça marca passo. E não é contras os devedores que se justifica este texto. É sempre e só para assinalar que o nosso Ministro da Justiça – este e os anteriores -, os serviços judiciais de uma forma geral, toda essa gente que, em muitos casos, funciona em verdadeiros palácios ou edifícios imponentes (veja-se o caso de Sintra – para não deixar de referir também, e em contradição, certos pardieiros onde o respectivo pessoal se movimenta), mas que, quanto a resultados são aqueles que todos os portugueses conhecem.
Finalizemos, então, com o derradeiro tema de hoje: é que há 4.287 médicos estrangeiros a exercer a sua profissão nos hospitais públicos portugueses, número este que vai aumentar, pois que os existentes não chegam para as necessidades. E são das mais variadas origens esses profissionais da medicina que cá estão a prestar a sua actividade, desde a América do Sul até à União Europeia e da própria Europa de Leste. Isto, enquanto se mantém por cá, teimosamente, a norma de exigência de uma média muito elevada dos alunos saídos do secundário, fazendo até que bastantes desses estudantes sejam forçados a seguir a carreira de medicina em Espanha, onde essa obrigatoriedade não se verifica. Isto que eu escrevo para aqui são assuntos que, de uma forma geral, os portugueses conhecem e comentam entre portas. Todos saberão? Não, os homens dos Governos que nos têm “governado”, esses andam por outros espaços, Não se dão conta de nada do que é mais urgente solucionar neste cantinho que se agacha aqui na Península Ibérica. Claro, que andam preocupados com os tais submarinos, com os novos aeroportos, com as TVG e com tudo que, por mais útil que seja… só não é o mais urgente. Pode esperar

domingo, 28 de setembro de 2008

CHULARIAS

Eu não brinco às escondidas
com tudo sério nas vidas
enfrento bem de frente, o tufão
por maior empurrão
vários por cá já passaram
que tristes marcas deixaram
ao apurar o saldo, qu' alegria
saber que nunca recebi alforria
sempre recusei alpista
na minha profissão de jornalista
isso grande desconsolo
dos que queriam o bolo
sobretudo dos favores
dos louvores
das honrarias
que lhes dão as chularias
de quem sobe à custa dos demais
e que quer sempre mais e mais.
Mas comigo, não
nunca fui mamão !

MÁRIO SOARES


Foi hoje publicada num diário uma extensa entrevista com Mário Soares. Aí, a frase de chamamento para a as perguntas e respostas é a de que “José Sócrates é o anti-Guterres”, realçando que o antigo primeiro-Ministro é um homem “que não sabe dizer não”.
Isto fez-me recordar tempos passados em que o que foi Presidente da República, antes de ocupar esse cargo e na altura em que exercia funções de chefe do Governo, proclamava à boca cheia que se considerava, perante os seus ministros no Executivo, como “uno inter pares”, o que, na altura, levantou até uma questão entre mim e o homem de Estado. Na verdade, tendo eu tido oportunidade de, na qualidade de jornalista e de director de um semanário, ter acompanhado Mário Soares em dez viagens que então foram efectuadas a diversas partes do mundo, sobre tudo na Europa, pois havia a preocupação, aliás bem sucedida, de convencer os parceiros do nosso Continente a aceitarem Portugal como futuro membro da Comunidade Europeia, como veio a suceder depois, pois foi numa dessas viagens, em que conversávamos bastante durante os trajectos, que eu mostrei o meu desacordo quanto a isso de um primeiro-ministro poder ser mais um parceiro do conjunto governamental, em lugar de exercer o exercício com plena autoridade sobre os seus colaboradores mais directos na governação, não tendo até complexos em substituir os que não estivessem a corresponder às funções que lhes tinham sido confiadas. Estávamos, portanto, em desacordo. Isso do “uno inter pares” com a responsabilidade de levar com competência as rédeas de um governo, poderia ser muito “porreiraço” mas não correspondia ao que um país exigia do seu principal governante. Sobretudo, se existisse no seio do seu grupo, um ou mais que não estivessem a ser capazes de executar as tarefas que lhes cabiam.
Logo, vir agora acusar Guterres de ter sido um governante incapaz de dizer não, a mim, que conheci bem Mário Soares naquela época atrás referida, parece-me um dos esquecimentos que também sei que lhe são muito correntes, numa memória seguramente muito preenchida com outros assuntos mais importantes do que este. Estou certo de que este meu Amigo já não se recorda que, uma vez em Nova Iorque, ao termos ficado instalados num hotel que eu já conhecia de outras visitas anteriores, sentindo-se ele muito aperreado pela segurança americana demasiado apertada, me mostrou o desejo de ir comprar uma camisa e não querer ser seguido por aqueles polícias. Foi aí que valeu eu conhecer uma porta do hotel nas traseiras que utilizámos, e lá fomos os dois a caminho das lojas na rua 7ª (parece-me) e quando regressámos com embrulhos, o meu Amigo Mário fez questão de utilizar a porta principal, onde se encontravam vários dos seguranças de serviço que, ao vê-lo vir do exterior, ficaram todos claramente surpreendidos. Foi uma verdadeira partida à Mário Soares, de que eu tenho outras para contar um dia, caso venham a talho de foice… O fim da minha longa actividade jornalística, antes e depois do 25 de Abril, provocou depois entre nós um afastamento que me deixa muitas saudades, pois eu posso assegurar que, como companheiro de viagem, é das mais interessantes figuras que tenho conhecido e vem-me sempre à memória um célebre jantar que tivémos um dia no aeroporto de Londres, quando o nosso avião, que se dirigia dalí a Washington, teve de voltar para trás por motivos técnicos. Que engraçado que foi tudo, apesar das contrariedades com o cumprimento de horários, sobretudo para o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Medeiros Ferreira...

sábado, 27 de setembro de 2008

ÁGUA

Já cá estavas quando eu nasci
bebi-te ainda sem saber quem eras
terei gostado, sim, gostei deveras
matando a sede, por isso sorri

Ó água pura que ainda existes
nem nisso pensam as gentes de hoje
se algum dia esse bem nos foge
será então que ficamos mais tristes

E esse dia terá que chegar
mesmo dizendo não os optimistas
é preciso não desviar as vistas
do mal que poderá todos matar

Água salgada, essa aumentará
mas tirar-lhe o sal é difícil cousa
na terra a que ainda repousa
virá o dia em que acabará

A Igreja chama-lhe água benta
e com esta baptiza as criancinhas
serão elas talvez, as pobrezinhas,
que terão de enfrentar tal tormenta

É ainda o líquido precioso
que tem servido para enganar
misturado no que se vai provar
pois é vício deste mundo enganoso

E na vida faz bem ter certa fé
é muito bom crer no que quer que seja
e em vez de água beber cerveja
como em seu lugar tomar água pé

Mas para ambas é essencial
essa água que não pode faltar
da mesma forma que não haver ar
é morte certa p‘ra qualquer mortal

Mas será que neste mundo em mudança
onde tudo se inventa cada dia
alguém conseguirá a utopia
de atingir a bem-aventurança?

Não sendo a água já tão necessária
ficamos nesse caso descansados
temos de olhar para outros lados
para outra coisa também primária

Porque não acabam as aflições
excesso de gente causa problemas
e serão tais os vários dilemas
que o melhor é não ter ilusões



ÁGUA POTÁVEL


Já cá não estarei em 2025. Logo, o problema não me diz respeito. Mas, de acordo com uma notícia publicada hoje, de que, nesse ano, Portugal e Espanha serão os dois países europeus mais afectados pelo aquecimento global, razão pela qual, segundo afirmação do periódico, não vai haver nessa altura água potável na Península Ibérica, levando em consideração previsões das Nações Unidas, o que justifica que vão aumentando as recomendações para se poupar, o mais possível, aquele precioso líquido, repito, aceitando esse prognóstico, temos todos de começar a estar preocupados, sobretudo os mais novos, levando em conta que essa altura fatídica apanhará em plena vivência milhões de cidadãos, quer os que habitem esta ponta da Europa quer os outros que, a pouco e pouco, poderão ir sentindo os efeitos daquela carência que, os que já atravessaram um deserto, conhecem bem o que significa escorropichar o fundo da garrafa e não sentir sair nem pinga dessa bebida inimitável que se chama água.
Claro que os do copo meio cheio vêm já afirmar que o Homem, com o seu poder de ir inventando soluções para os problemas, irá buscar, talvez mesmo aos oceanos, a resposta a tamanha catástrofe. Já se sabe que isso é possível, mas também se conhece que o custo e a escassez de quantidade que se pode obter hoje com essa operação, não conseguem dar resposta às necessidades do consumo de todos os habitantes da Terra.
Bem. Mas deixemos esse assunto para ser resolvido quando chegar a altura de ter de ser resolvido. Ainda faltam para aí uns dezassete anos. E as centrais de dessalinização que já existem serão certamente desenvolvidas para afastar o susto que muita gente irá apanhar. Por agora, ficamo-nos – e não é pouco – com a ameaça que cientistas já não escondem de que o degelo que se está a verificar vai aumentar o nível da água do mar cerca de sete metros. E que esta subida da água salgada irá invadir e contaminar os depósitos de água doce. Isto já chega, por agora., como susto.
Resta-nos esperar pelas frases de sossego dos optimistas, pois graças a eles diminuirá a preocupação que possa ir surgindo, não só nos que lêem este blogue mas em todos que fazem os possíveis para não andar distraídos neste mundo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

DESCOBRIR O ÍNTIMO

Fiquei surpreendido? Talvez nem tanto. Quem, no grupo em que me julgo poder incluir, de pessoas que, durante toda a vida ouviu mais do que disse coisas, já é possível aceitar afirmações de que o interior do próximo está à disposição de qualquer um, não constituindo segredo mesmo aquilo que nós próprios não temos muito a certeza de poder descrever sem erro, tomar conhecimento dessa opinião a nosso respeito pode-se aceitar e mesmo que não coincida muito com o que julgamos ser a realidade, é um gesto do próximo que, pelo menos a mim, não me deixa boquiaberto.
Vem isto a talho de foice porquê? Porque provoquei e, por isso, li aquilo que uma parente minha me enviou por mail, abrindo-se completamente num julgamento que, provavelmente, terá os seus laivos de razoabilidade.
Falou da tristeza das minhas prosas e, sobretudo, das minhas poesias que, sem o afirmar, poderá ter apelidado de choronas. Fez um elogio às minhas pinturas, mas mostrou desapontamento por eu não ser conhecido nesse campo artístico, e, no fundo, apesar da grande diferença de idades que nos separa, estudou uma estatística em que pretende provar que, ao longo dos meus 78 anos, uma grande percentagem foi de felicidade, o que não justificava os poucos momentos de alegria que ainda consigo mostrar.
Fiquei a pensar, o tempo que considerei bastante, nestas considerações e pus-me a esmiuçar grande parte dos momentos da minha vida passada. E cheguei à conclusão de que será excessivo pretensiosismo nós querermos analisar o íntimo dos outros e ainda mais concluir sobre a felicidade ou infelicidade que cada um acarreta no seu íntimo. E lembrei-me da história conhecida do rei que, querendo ele ser feliz, porque o não era, mandou analisar no seu reino quem se podia considerar como um súbdito que gozasse de plena felicidade. Ao virem-lhe dizer que tinha sido encontrado um homem que resplandecia felicidade, um pastor, mandou imediatamente que lhe fossem buscar a camisa que vestia, porque um mestre em seu redor lhe teria dito que devia vestir a camisa da felicidade para poder gozar dela. O desconsolo maior foi quando lhe vieram dizer que o tal pastor pleno de felicidade… não tinha nenhuma camisa!
Esta história, que não é nova, serve-me sempre para reflectir sobre a opinião que formamos dos outros, pretendendo entrar no seu mais profundo do íntimo, apresentando recomendações e remédios como quem se avia na botica, mas esquecendo que o que o próximo necessita não está à disposição de qualquer e não é por emprestar uma camisa que se transforma uma pessoa, de má em boa, de feia em bonita, de incompetente em sábio… e assim por diante.
Se souberem de alguém que disponha em excesso de talento, por favor tragam-me à minha presença para eu lhe pedir uma mãozinha, por mais pequena que seja, desse dom.

CERTEZAS E DÚVIDAS


Mas que bom é ter certezas
e nunca se enganar
é para dissimular
muitas de outras fraquezas

Não se pode acreditar
em quem se julga perfeito
porque um ser sem defeito
deve ser de agoniar

Por pequenina que seja
qualquer saída da norma
é ser-se de qualquer forma
alguém que às vezes graceja

Mas são assim os sisudos
e por certo convencidos
têm de ser atrevidos
e estar muito tempo mudos

Reconheço erros meus
não me deixo equivocar
estou-me sempre a enganar
tal qual sucede a Deus

Quando aceita homens desses
que se julgam infalíveis
o Criador baixa os níveis
e não ouve bem as preces

Ainda bem, eu cá digo
que as dúvidas não me deixam
como disso alguns se queixam
não será pois um castigo

Antes dúvida parece
para ajudar a saber mais
em abrir novos canais
e é prova do interesse

Gente, pois, só com certezas
e a isso um dom chamam
estão nos que as não proclamam
e não entendem as defesas

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

HÁ VELHOS E VELHOS!...

Vou agora tratar de dois temas que, entre si, aparentemente não têm nada a ver um com o outro. Mas, se pensarmos bem, talvez encontremos alguma ligação. Vamos a isso.
Primeiramente refiro-me a uma notícia dada à luz hoje por um diário que, embora nesta altura, se encontre longe da conquista de leitores, continua ainda a gozar de certa reputação, reputação essa que lhe vem do passado, até do tempo em que fazia todos os fretes ao situacionismo salazarista: o “Diário de Notícias”.
Muito embora se trate de um tema que nós, os que vamos estado atentos ao que nos rodeia no nosso dia-a-dia, sejamos despertados a cada passo com essa realidade, nem sempre paramos para pensar nas consequências respectivas. Trata-se desta triste verdade de que o Porto perde população e Lisboa envelhece a olhos vistos.
De facto, ainda hoje me pus a observar, da janela da minha casa, na capital, as pessoas que iam passando, e deparei com o que já me tinha despertado curiosidade, mas que, neste momento, depois de ter absorvido a notícia, me causou a maior das tristezas. A percentagem de gente de idade que passava aparentava ser superior à juventude e até mesmo a pessoas no meio da vida que por aqui circulavam. Tratando-se de uma capital que atingiu mais de 1 milhão e oitocentos mil habitantes – o que não quer dizer residentes na cidade propriamente dita -, se o estudo efectuado pela União Europeia não estiver muito enganado e se for certo que a percentagem de gente com mais de 65 anos que por cá se movimenta é de 24 por cento, isso quer dizer que a gente nova está a encontrar outros lugares para seguir a sua vida, o que também não é uma novidade muito surpreendente, pois sabe-se que as condições de vida por estes sítios não são de molde a convidar, quer os licenciados quer os que estão disponíveis para utilizar a mão-de-obra, a permanecerem na terra onde nasceram, porque as perspectivas de futuro não são suficientemente convidativas.
Esta, uma notícia que deve fazer pensar os governantes, os que estão e os que surgirem depois. Porque quer dizer que o futuro se apresenta tristonho. A menos que… e com estes três pontos, deixo a quem me ler a possibilidade de imaginarem tudo o que acharem mais adequado à situação.
Bem, vamos agora à segunda questão que, não se relacionando directamente com este País de velhos, alguma coisa a liga, dada a idade do visado na notícia que também surgiu hoje num diário. Trata-se do Ministério Público voltar a acusar o presidente do Município de Gondomar de prevaricação, no caso numa operação que envolve a compra e revenda de um terreno, num processo conhecido pela Quinta do Ambrósio, e cujo negócio permitiu aos intervenientes um lucro de três milhões de euros. Para além de Valentim Loureiro, foram também notificados mais dez arguidos e, ademais do crime de prevaricação, o major é ainda acusado de burla qualificada, participação em negócio como titular de cargo público.
É sabido que o antigo capitão que foi expulso do Exército por acusação de ganhar dinheiro com a compra de mantimentos para a tropa (pelo que passou a ser conhecido pelo “capitão das batatas”), acusação essa de que foi ilibado, recuperando a sua integração de novo na tropa e então com o posto imediatamente superior, o de major, tendo-se reformado posteriormente, este agora primeira figura do Município de Gondomar, cujo lugar ganhou pela segunda vez, não sendo um jovem e dando sempre mostras de uma ambição política que o coloca constantemente nas primeiras páginas dos jornais e nas aparições televisivas, exactamente pela força da idade atingida, que lhe proporcionou sempre não ser uma ignorada figura pós-25 de Abril, relaciona-se com a notícia do envelhecimento da população portuguesa, pois só muita experiência de vida poderá proporcionar a um homem como o Major, não se deixar abater perante situações, várias, que o têm feito desbravar e, pelos vistos, com sucesso e com fortuna.
É caso para perguntar: se houvesse muitos portugueses assim, já fora da altura da juventude, capazes de não se deixarem abater quando os revezes lhes colocam obstáculos, isso seria um mal ou, pelo contrário, uma vantagem que se ia buscar à velhice dos cidadãos nossos compatriotas?
Não respondo, está bem de ver.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

CORRUPÇÃO



A corrupção é um defeito que ataca o Homem desde que ele existe, talvez mesmo venha de épocas em que os primeiros seres humanos se viram confrontados com apetências de qualquer coisa que o parceiro detinha mas que não estava na sua posse. Roubar, matar, confrontar-se pela força para passar a ser possuidor desse bem desejado, essas foram, na verdade, as primeiras acções a que o animal tido como inteligente recorreu. Mas, com o tempo, descobriu que tinha possibilidade de conseguir o mesmo objectivo, recorrendo à utilização de outro parceiro mais bem colocado para o efeito, trocando favores, normalmente sem dar a conhecer essa habilidade. Assim, terá nascido a corrupção que, com o andar dos tempos, se foi estilizando, se foi aperfeiçoando, ao ponto de ter chegado até à nossa época que, lá muito de vez em quando, é detectada.
Por cá, com este Povo que começou muito cedo a especializar-se em tirar benefícios dessa artimanha, encontra-se neste momento a tirar partido dessa especialização de comprar favores através de manhas que, normalmente mais tarde, são detectadas.
Isto de ter saído a notícia de que há cerca de 925 inquéritos de corrupção pendentes nos Distritos Judiciais do País, boa parte dizendo também respeito a peculato e branqueamento, não estando incluídos nestes números os processos os caos relacionados com as investigações à Câmara Municipal de Lisboa, que têm tratamento autónomo, tal conhecimento do que se encontra em averiguações e, por isso, em segredo de justiça, com o risco de muitos ficarem pelo caminho, mostra perfeitamente como, entre nós, o uso e abuso da compra de influências, que vãodesde os favores para ocupar lugares estratégicos na administração pública, como o conseguir casas para morar, através de falcatruas, como tem sido divulgado todos os dias, tudo isso à custa, muitas vezes, de intervenções político-partidárias, toda essa actuação parece ser a única forma de se conseguirem até licenças camarárias, que nem precisam da actuação de grandes figuras, pois basta o acesso a uns fiscaisitos, que facilmente fecham os olhos, olham para o lado, assobiam uma marcha popular.
Não querer aceitar esta verdade que todos nós conhecemos e, provavelmente, até já nos servimos desses enleios para conseguir o que, pela via normal e correcta, não é possível obter, pôr a cabeça na areia é aceitar aquilo que somos e ficarmos satisfeitos com a realidade, é a maneira mais prática de continuarmos todos na mesma, com crise ou sem ela, satisfaitos com o que somos. E então, é bem feita!

GAVETA


Gaveta que guarda
segredos de outrora
é coisa que tarda
‘inda não é hora
de querer abrir
p’ra não recordar
e ter de engolir
o que a guardar
ficou na gaveta

Era então desgosto
mazelas d’antanho
hoje é já sol posto
papéis não apanho
reler hoje em dia
o que então guardei
isso não faria
nem jamais farei
não abro a gaveta

Não vou eu abri-la
falta-me a vontade
não quero senti-la
dar-lhe liberdade
outros que o façam
sem eu estar a ver
e que se desfaçam
não quero saber

Não estando presente
no mundo dos vivos
quem não vê não sente
nem dá mesmo ouvidos

Também não importa
não estarei p’ra ver
fechou-se a porta
que posso fazer?

Gaveta não puxo
falta-me a coragem
será mesmo um luxo
oferecer viagem
ao que há tantos anos
está encafuado
não causando danos
por estar olvidado

Não vejo agora
quem ficando cá
após minha hora
s’interesse quiçá
por ler o que fica
pois se enquanto vivo
não ligam nem nica
ao que é meu activo
de escrita, pudera,
que o outro se houvesse
seria quimera
seria benesse
bem apetecida
coisa que um poeta
ao longo da vida
não deixa em gaveta.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

MUNDO NOVO

Eu imagino um mundo todo novo
nada parecido com o que temos
albergando também outro povo
outro povo, porém com outros demos

Tudo nada igual ao que temos hoje
nem parecido sequer ao que há
se não, quero um sítio que m’aloje
que me acolha ou me acolherá

No futuro talvez isso aconteça
quem sabe se será a salvação
não é que a geração d’hoje mereça
outro planeta com melhor visão

Mas se não se der tamanho abanão
se tudo se mantiver como agora
nesse caso o que temos então
será a terra sumida de aurora

O ocaso põe-se todos os dias
lembrando os mortais no fim da vida
e que bom seria se as alegrias
sarassem de vez todas as feridas

As feridas com que o homem briga
As doenças, os desgostos, enfim
todos esses males que o obriga
a ser perverso e a ser ruim

Somente com homem diferente e novo
será possível um mundo melhor
podemos esperar algo de um povo
que lhe seja igual ir p’ra onde for ?

Borrar la pizarra y empezar de nuevo
dizem os espanhóis para animar
será que isso pode ter relevo
e a solução é essa: começar!

Segundo as Escrituras foi assim
Deus criou as coisas bem a seu gosto
haverá opiniões e por fim
faz falta ter um mundo mais composto

Já basta de castigo por pecado
oh! Maldita maçã que foi mordida
Eva e Adão pertencem ao passado
Não se quer a História revivida

Gritarão os ventos que a memória
faz parte do viver dos nossos dias
mas por mais que não se esqueça a História
não se pode viver só de agonias

Por mais certo que seja o Testamento
tantos milhões de anos que passaram
justificam que a força do vento
arraste as ideias que pararam

Há que pedir agora ao Senhor
com fé ou sem ela, mas com despacho
que Deus ordene o Paraíso pôr
onde ele faz falta, cá em baixo

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO !


Com frequência arrima-se-me ao pensamento a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: francamente, será que eu gostaria de ter a característica dos fingidores? E, neste particular, sobretudo a de ser capaz de transmitir a ideia de que aquilo que acabou de me ser dito e que não dá sinais de ter o mínimo interesse para sustentar uma conversa, essa palavra ou frase não foi ouvida por mim, dando eu os ares de ouvir com dificuldade? Serei eu, portanto, capaz de fazer o papel de surdo, quando isso me convém?
Eu, por mim, já dei com pessoas que utilizaram esse truque comigo. Sobretudo quando, fazendo uso da minha condição de ser mais velho e de evidenciar mais saber que o meu interlocutor, pretendendo fazer uma correcção no discurso que estava a ser proferido pelo outro, avancei com uma sentença e deparei, depois disso, com o tal ar de quem não tinha entendido uma palavra que fosse possível extrair da minha fala.
Agora, da minha parte, nunca recorri a essa fuga para não ter de alimentar um diálogo que não merecia o menor segundo de atenção. Sempre caí na tentação de dar réplica, de alimentar a asneirada, de deitar achas para a fogueira do disparate. Replicar, tentar convencer o parceiro de que aquilo que ele acabou de dizer não tem ponta por onde se lhe pegue, esse é o meu hábito, talvez possa considerar de mau hábito…
Porque eu tenho considerado que o mais natural, o mais lógico e até mesmo o mais humano é fazer frente ao que acaba de ser proferido e tentar ser didáctico, corrigindo, argumentando com lógica, mas não deixando que persista o erro que grassa no outro. Só que, na maioria dos casos, este sinal de boa-vontade, este interesse em ajudar não é bem acolhido pela outra parte, criando-se até uma situação de mal-estar e de indignação por parte de quem é corrigido. E o mais sensato nestes casos é deixar passar e não intervir com propósitos de corrector.
No meu caso, porém, tenho grande dificuldade em fazer de fingidor. A minha cara não condiz com o gesto. Pôr o ar de quem é surdo, tendo ouvido perfeitamente o que me foi dito, não é fácil. Não tendo o espírito do enganador, será necessário muito treino e, mesmo assim, não há garantia de sucesso com essa interpretação de palco. Fazer de conta necessita de muito treino, para além da forma de ser própria que alguns cultivam. E quando me atiram com expressões como “espectacular”, por tudo e por nada, e intercalam no meio das frase aquele “digamos” que não vem nada a propósito, nessas ocasiões não há fingimento que resista.
Bem me apetece, por vezes, fazer o tal papel do surdo, de deixar correr o discurso do outro sem a menor intervenção da minha parte, de pôr até um sorriso simpático de quem está a apreciar muito a conversa. Mas sinto que não sou convincente. Fico até com a impressão de que deixo um rasto de falsidade que saberá ainda pior do que a franqueza que pusesse nas minhas observações.
Mas a vida é assim. Ingrata. Fomentadora de enganos e deslealdades. Há, pois, que suportá-la tal como ela se nos apresenta. Se não nos adaptamos às suas circunstâncias e procuramos fazer intervenções correctivas à nossa maneira, o menos que nos pode acontecer é ficarmos isolados do mundo, sendo tidos como seres insociáveis.
Ao fingimento, então!...


domingo, 21 de setembro de 2008

SEMPRE LISBOA, SEM DESCANSO!




Eu tenho a pretensão de pensar que, ninguém que me conheça pelos escritos que divulgo há anos, muitos, se admirará pela persistência que demonstro em temas que considero merecedores de uma atenção especial e em ocasiões específicas. A minha paixão por Lisboa, a tal que tem sido motivo de inúmeras crónicas saídas em diferentes órgãos de comunicação, vem à baila sempre que me surge uma oportunidade de chamar a atenção dos que se encontram em condições de fazer algo de positivo por esta cidade, que muitos outros países, bastante mais ricos do que o nosso, bem gostariam de poder considerar como sua e que, nesse caso, tirariam um enorme partido das belezas naturais e da situação geográfica, com um Tejo a seus pés, de que goza.
Quando ontem e já antes me referi a Helena Roseta que aceitou o convite que lhe foi dirigido por António Costa para tomar a seu cargo a função de terminar com as casas a cair de velhas que, ou abandonadas ou ainda com inquilinos, enxovalham a vista de quem gostaria de ver a capital, com o seu tipicíssimo, isso sim, mas sem o ar de abandono como chegou até agora, quando escrevi há 24 horas estava longe de imaginar que a vereadora já tinha concedido uma entrevista ao “Diário de Notícias”, a que foi publicada hoje e que li com a maior atenção.
Basta-me acrescentar neste espaço que, de uma forma geral, me congratulo com a minha posição de sempre em relação à capital, pois o que Helena Roseta diz de essencial na referida entrevista coaduna-se com o meu pensamento. Só que eu talvez tenha ido mais longe ao apresentar uma hipótese de solução, embora compreenda que a vereadora não poderia abrir tanto o jogo. Até a questão da Banca poder contribuir para a solução do problema, até aí coincidimos. E, quanto à criação de uma Lei de Bases da Habitação, também aí parece que estivemos a conversar sobre o assunto.
Agora, só resta ver o que sai para além das afirmações d entrevistada. Se andamos para a frente e depressa, porque não há tempo a perder, ou se, como é hábito deste País de molengões, ficamos todos satisfeitos com o enunciar soluções, mas depois, dar os passos decisivos doa a quem doer, isso já é outra tarefa que, de uma forma geral, se tem medo de desagradar a este ou àquele e aí, metem-se as mãos nos bolsos e assobia-se para o lado.
Eu, por mim, por muito que me chamem derrotista, não temo tal apodo. O que quero é ver, ainda em vida, alguma coisa a mudar no meu País. E não só em Lisboa. Obviamente no bom sentido.

PENSAMENTO DE ÚLTIMA HORA



A FORÇA PODE AUMENTAR COM A UNIÃO;

O QUE NÃO GARANTE É A RAZÃO

sábado, 20 de setembro de 2008

É A HORA!


Já Pessoa alto gritava
Sua Mensagem divina
Que esta Pátria mal andava
Que navegava à bolina
Sujeita a toda a rapina
De quem bem se colocava

É a hora, dizia ele
P’ra sair do nevoeiro
Surgir a força que impele
Em momento derradeiro
Que transforma o fel em mel
E que venha um novo obreiro

Mas atenção, olho alerta
Que seja alguém desta terra
Que não tenha ordem por certa
Que fuja de qualquer guerra
Sendo denso o nevoeiro
Liberdade por inteiro
É sempre janela aberta

Se Pessoa ‘inda existisse
Cantando a sua “É a Hora”
Diria o que então não disse
Deitava p’la boca fora
Que em lugar de um Bandarra
De alguém com força e mão dura
Seja quem com uma fanfarra
Toque contra a ditadura

Outro rei Sebastião
Mas sem ares de salvador
E com determinação
Que se empenhe com rigor
Na governação do País
É o que se espera afinal
Para um futuro feliz
Desta Pátria: Portugal

VELHINHA LISBOA

Quando um semanário, saído hoje, com uma tiragem que, pelo menos, justifica a aceitação que merece do público, apresenta em letras garrafais a informação de como “Portugal vai fazer para resistir à crise”, o que demonstra a tentativa de criar ilusões aos crentes nas medidas que são indicadas, pois, quanto a mim, nenhuma das medidas apresentadas vai fazer o “milagre” de obrigar a crise mundial a passar em redor do nosso País e não nos atingir minimamente, embora, devo dizê-lo, qualquer das quatro principais actuações previstas, não sejam pior do que não fazer nada, repito, quando um jornal semanal chama a si a responsabilidade de apontar medidas que considera serem remédios para a situação dramática que temos vivido e que dá mostras de se agravar ainda alguma coisa, encho-me eu de coragem e aponto também, embora mais modestamente, a forma de acabar com a horrorosa demonstração de velhice crónica que é o espectáculo dos prédios a cair de velhos que existem em Lisboa.
É verdade, este tema tem sido debatido por mim em diferentes ocasiões. Muito antes até de existir este meu blogue, mas, como a solução que eu defendo não tem custos elevados para o erário público – neste caso para os cofres do município da capital, atrevo-me a expor aqui o que eu faria se me chamasse Helena Roseta e me calhasse a responsabilidade de resolver um problema que, há anos, muitos, pede uma atitude positiva da Câmara. Mas, acima de tudo, requer muita imaginação, força de trabalho, honestidade absoluta para não aproveitar uma ocasião que pode dar ganhos a quem não for completamente isento de abusos, em obviamente, apoio de toda a Edilidade, pois que sozinho, contra más vontades políticas de outros sectores, não é possível levar avante tamanha tarefa.
Passo a explicar em teoria o que se poderia fazer para obter bons resultados em tempo aceitável: Suponhamos uma situação modelo. Uma velha casa, de dois andares, onde ainda vive uma família de gente idosa e bastante pobre. O senhorio, também idoso e desprovido de meios para fazer obras na moradia, recebe uma renda de 100 euros mensais. E isto acontece há anos, com a teimosia do dono da casa que não quer vendê-la por ter amor a uma casita que já era dos seus avós.
Faço este cenário, para mostrar como no meio deste cenário todo entra uma certa compaixão. Nem se podem pôr na rua os inquilinos, nem é possível obrigar o senhorio a fazer obras. E é aqui que, com uma lei ajustada às circunstâncias – que se não existe deveria ser estudada rapidamente para permitir solucionar situações como esta -, deveria a Câmara Municipal substituir-se ao inquilino, continuando a entregar os 100 euros ao senhorio, arranjando residência provisória aos inquilinos que eram obrigados a sair do prédio em ruínas e dando início, de imediato, ao arranjo da casa velha, podendo até aumentar a sua área, em largura e em altura, pouca, para, dentro de um prazo aceitável, receber os inquilinos afastados, num espaço estudado pelos arquitectos que tivesse as condições mínimas de vivência, continuando estes a pagar a renda que tinham ( e enquanto fossem vivos os idosos) e dispondo o Município do resto do espaço do prédio para alugar a gente jovem, por forma a restabelecer a vivência que falta sobretudo no centro de Lisboa e nos bairros típicos, como Alfama, Mouraria e até a Baixa de uma forma geral.
Claro que haveria um período em que o Município teria de despender alguma coisa com as obras, mas é para isso que também servem os Bancos, que fariam um acordo no sentido de dar a sua contribuição para remodelar a cara e a vida da Capital.
Aí está, pois, uma ideia que mantenho há muito tempo quanto a não ficarmos a olhar, de braços cruzados, para o abandono e envelhecimento degradante de grande parte de Lisboa de outras eras. Claro que os empreiteiros de “monstros” de cimento, desses que se encontram em excessiva abundância e que retiram o carácter tão específico da nossa querida Lisboa, Mas, já basta de famílias encravadas, das que não têm possibilidade de pagar aos bancos os juros e as prestações que lhes caíram em cima, sendo agora obrigados a vender e a não encontrar quem lhes queira ficar com esse bem que foi adquirido sem prever o que aconteceria, anos mais tarde, de subida dos custos, dos desempregos e de toda a crise que se alastra por este País fora.
Chamem a esta proposta o que quiserem. Eu, por mim, farto de, ao longo dos anos, ter deixado pelo caminho propostas e soluções para que a nossa linda Lisboa não se continue a transformar numa cidade que só mostras as suas rugas de velhice e não encontra um Município que lhe preste as operações de rejuvenescimento, por mais cansado que esteja, enquanto me sentir com cabeça para opinar, não deixo de o fazer.
Por pouco que valham os meus gritos!...

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

HELENA ROSETA


Não há nada mais claro para demonstrar a capacidade dos que assumem a responsabilidade de exercer uma função pública, do que ser anunciada a entrega dessa responsabilidade e, tempos depois, analisarmos os resultados do trabalho executado. Os que não são distraídos – e esse, por enquanto, ainda não é o meu estado – avaliam com atenção aquilo que resultou da actividade que a personalidade pública aceitou tomar a seu cargo.
É o caso do que se passa agora com Helena Roseta que, depois de ter desistido da tarefa de reconstruir a chamada “Baixa-Chiado”, se propôs agora apresentar um programa de habitação da capital e isso ainda este mês.
Não é um compromisso fácil de levar a cabo, temos de reconhecê-lo, mas como a vereadora de Lisboa se compromete a submeter esse trabalho a debate público – vamos a ver como -, pelo menos terá a possibilidade de efectuar alterações naquilo que a opinião dos cidadãos não for a mesma da autora do documento.
Como eu tenho afirmado ao longo de vários anos em que dedico, nas minhas escritas, profunda atenção ao que nos mostra Lisboa e o que deveria ser se houvesse alguém que se entregasse de alma e coração a efectuar a enorme transformação que a capital pede, é urgente, há muitos anos, introduzir vida nesta cidade que, a partir de certas horas do dia, se apresenta como que um local abandonado pelos cidadãos. E isso, sobretudo porque na parte pombalina – mas não só – os prédios estão abandonados de famílias, substituídos por escritórios, e as velhas casas, a cair aos bocados, não merecem sequer ser olhadas.
Logo, o que há a fazer é muito. Basta haver bom senso e disposição para levar por diante uma tarefa que, no que a mim diz respeito, me daria enorme satisfação de levar a cabo, muito embora seja necessário contar com um apoio profundo de toda a Edilidade e conseguir que algumas leis dos tempos do era uma vez sejam modificadas, por forma a não se perder tempo com as reivindicações dos velhos senhorios, se bem que estes, que não possam efectuar obras, tenham de ser compensados justamente.
Daqui envio a Helena Roseta o estímulo para que faça aqui em Lisboa aquilo que não fez em Cascais, quando lá foi presidente. Mas o tempo que passou deve-lhe ter servido para alguma coisa.

LOUCOS


Tu, que és louco
louco como te chamam,
que vives no teu mundo
isolado do resto da maralha
falando contigo mesmo
respondendo às tuas questões,
que és o interlocutor de ti próprio,
para ti não há vida.
E morte?
talvez também não
pois se não te calhou tal sorte
e, como Pessoa diz,
nem Deus,
tudo se passa ao lado,
és prisioneiro de ti próprio
mas não dás por isso,
os outros, os que te olham,
surpreendidos,
dizendo-se pesarosos,
esses não compreendem,
como têm os seus problemas
não sabem quais são os teus,
não descortinam se, no fundo,
isso em ti é felicidade,
se aquilo que é a tua imaginação,
até a tua capacidade
de seres outro,
diferente,
real ou inventado,
te transporta a uma vida etérea,
a séculos atrás,
a anos passados
ou ao futuro sonhado.
Que sabem os que te miram,
que se passa no teu íntimo?
Se é melhor que te droguem
ou que te deixem flutuar
nos teus sonhos,
nas tuas maravilhas,
nas tuas reflexões?
Que, desde que não interfira no mundo,
seria preferível
não te transportar até ele
esse que se afirma ter justiça,
a dos homens,
a dos não loucos,
a dos sapientes.
Tu, que és louco
como te chamam
deixa-te ficar
não ligues àqueles
que te atafulham
de pastilhas,
que te metem na cama
a horas certas,
no mesmo sítio,
que te dão de comer
a horas certas,
no mesmo sítio,
que te acordam
a horas certas,
no mesmo sítio.
És tu o louco, afinal?
Ou isolas-te da loucura do resto?
Dos das horas certas,
Dos do mesmo sítio.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

D.QUIJOTE DE LA MANCHA



Viver sonhando, cavaleiro andante,
fidalgo adormecido com leituras
acompanhado por seu ajudante
Sancho Panza, o homem das gorduras
foi pela pena de Miguel Cervantes
que nasceu Don Quixote de la Mancha
uma obra das mais extravagantes
que nos livros provocou avalancha.
Limpou armas velhas de antepassados
estudou nome para o seu cavalo
pôs nisso todos os melhores cuidados
passou a ser mais um fiel vassalo
Rocinante se veio a chamar
embora belo exemplar não fosse
também de princesa veio precisar
uma donzela com um fundo doce
e a uma moça de bom parecer
que pouco conheceu o cavaleiro
crendo que seria sua mulher
e que daria força ao guerreiro
Dulcinea de seu nome criou
e sem mais esperas, de corpo inteiro
os seus trajos de guerra enfiou
com os cuidados de homem solteiro
colocou a espada e a lança na mão
e sem ter de dar contas a ninguém
montando Rocinante com paixão
partiu por aqueles campos além.

São longas histórias do trajecto
com dormidas em casebres bem pobres
imaginando-se sob bom tecto
e crendo comer à mesa dos nobres
falando a sós com muitas fantasias
procurando os moinhos de vento
quais gigantes que eram manias
mais do que isso eram tormento
pois que as suas velas que giravam
eram para Quixote braços compridos
que aos cavaleiros ameaçavam
com seus rodopios e seus grunhidos
o escudeiro Sancho Panza, coitado,
bem procurava o amo acordar
pois não seria um qualquer malvado
mas apenas moinho em seu rodar.
E também em suas mulas dois frades
foram alvo do sonho de Quixote
que picou Rocinante com vontades
de dar aos dois monges um chifarote.
Vinham de preto duas criaturas
pareceram a Quixote malvados
sendo autores das mais negras loucuras
merecendo assim ser castigados.
Teve o escudeiro de acudir
mas mesmo assim acabou tudo mal
pois não foi nada fácil conseguir
convencer que era gente de moral
pelo que Quixote clamou aos gritos
por Dulcinea, flor da formosura
para que o salvasse dos atritos
a si mesmo, o da boa figura.
De tudo que ao fidalgo sucedeu
engenhoso de tristes aventuras
não se daria com qualquer plebeu
por maiores que fossem as bravuras.
Mas aos famosos também o fim chega
p’ra D. Quixote não houve perdão
e o Céu não lhe deu nenhuma achega
dando como finda sua missão
morreu rodeado de alguns amigos
de Sancho Panza e do seu barbeiro
e de outros que correram perigos
sofrendo alguns enganos do guerreiro
a todos confessou naquela hora
no mais belo e puro castelhano
pois devia afirmá-lo sem demora
que o seu nome era Alfonso Quijano
e D. Quixote já não se chamava
odiava histórias profanas
assim como uma atitude brava
com antigas manias espartanas.

Esta a confissão de Miguel Cervantes
depois do seu belo livro terminar
não era possível fazê-lo antes
mas foi uma atitude exemplar

AJUDA POR UM LADO, DESPERDÍCIO POR OUTRO


Surgiu a notícia de que Portugal recebeu este ano 12 milhões e meio de euros para dar comida aos pobres., dentro do Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados. E esclarece que, com esta verba, devemos adquirir várias toneladas de cereais, leite em pó desnatado e arroz para distribuir por instituições de solidariedade social.
Ora, não me cabe ter dúvidas quanto à isenção e honradez posta nas entidades que se situam no centro da recepção e na distribuição daquilo que surge por ordem de Bruxelas e se destina aos mais necessitados. Mas que, perante tanta falta de honestidade que todos os dias chega ao conhecimento da população, é compreensível que surjam dúvidas, pois que se é comunicado que recebemos o auxílio, o natural é que a distribuição também fosse motivo de notícia, e isso, com toda a clareza, não constitui preocupação para os que têm a seu cargo p mais importante da acção, que é o fazer chegar os produtos às mãos dos necessitados.
Poderão chamar a isto desconfiança excessiva. Será. Mas quem não deve não teme e por isso levanto aqui a situação, como o faria nas páginas de um jornal que, como aconteceu tempos atrás, tinha â minha disposição.
Mas, para não me ficar por aqui, aponto ainda outro assunto que, não sendo a primeira vez que constitui motivo dos meus escritos, por continuar tudo na mesma nesta cidade de Lisboa, me causa a maior das indignações, sobretudo quando um Município como o da capital se mostra tão débil de finanças. Trata-se da actuação da EMEL que, tratando-se de uma empresa dependente da Câmara Municipal, deveria actuar com toda a eficiência.
Como é sabido, em grande parte das ruas lisboetas, onde existem os postos de pagamento do tempo utilizado como estacionamento de automóveis, esses aparelhos não funcionam, até porque se montou uma máfia de arrombadores das caixas com o dinheiro que ali é posto pelos automobilistas cumpridores. Daí que a própria EMEL se conforme e não faça a fiscalização dos carros que não exibem nos para brisas os bilhetes com a indicação da hora a que têm de voltar a pagar.
A pergunta a fazer é esta: então não se preocupa a C.M.L. em tornar rentável uma disposição que, para além de tudo, proporciona aos residentes em ruas estabelecidas que tenham lugar para aparcar as duas viaturas, dado que, numa autêntica anarquia, existem carros que permanecem meses sem conta a ocupar espaços como se se tratassem de estacionamentos definitivos? E ao Município não lhes faz falta esse dinheiro?
São muitas destas ineficiências por parte daqueles que têm o mando na mão que nos deixam boquiabertos. E nós temos de suportá-los, sem nada poder fazer para os acordar do torpor em que os mantém sentados nos seus cadeirões.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

DIREITOS E DEVERES


O Homem tem seus direitos
os gregos foram primeiros
e a demo com seus defeitos
teve aí os seus obreiros

Os romanos se seguiram
as Doze Tábuas criaram
mas os plebeus não se riram
longe dos nobres ficaram

A Revolução Francesa
fez algo p’lo cidadão
trouxe alguma firmeza
na sua Declaração

Mas só a França lucrou
a Europa estava fora
e o mundo nem se atinou
com tais sinais de aurora

Foi precisa uma guerra
que espalhou p’lo Universo
malefícios de quem erra
mostram o Homem perverso

No fim as Nações Unidas
lá do Homem se lembraram
p’ra tapar muitas feridas
a Declaração criaram

A segunda, a que existe
extensiva a todo o mundo
mantendo o dedo em riste
mas pouco eficaz no fundo

Muçulmanos, por exemplo
tolerância não conhecem
e mesmo crentes no templo
as mulheres só obedecem

Respeitar opiniões
é coisa que não aceitam
provocando explosões
aos que o Islão rejeitam

Porém há tantos que tais
que aos outros não dão direitos
e mandando querem mais
julgando-se até perfeitos

Pois todas as ditaduras
de quaisquer ideologias
têm as mesmas posturas
de severas tutorias

Mas de direitos falando
úteis p’ra todos os seres
é bom não ir olvidando
que também há os deveres

Uns e outros são irmãos
até gémeos por sinal
e todos os cidadãos
devem ter esse ideal

Direitos têm de haver
essa regra é de ouro
mas deveres não esquecer
fazem parte do tesouro

Nunca é demais lembrar
quem os direitos quer ter
que os deveres têm de estar
ao lado de cada ser



NÃO MUDAM ALGUNS MINISTROS'?


Têm razão se me chamarem a atenção para o facto de dedicar excessivo espaço ao tema da justiça em Portugal. Mas, por mais que eu me queira afastar deste assunto, ninguém me convenceu ainda que, de todos os males que nos envolvem no nosso País, este de termos uma actuação do tribunais que não se coaduna com as necessidades de contarmos com uma justiça justa, bem aplicada, dentro dos tempos que se consideram essenciais para que não chegue quando os casos já e encontram na área do esquecimento dos acontecimentos, numa palavra, numa aplicação de leis que se ajustem com a realidade da vida.
Não me canso de sublinhar: não é isto que ocorre cá dentro das nossas fronteiras e as consequências fazem-se sentir em todas as outras áreas da nossa sociedade, logo, em praticamente todas as zonas cobertas pelas diferentes zonas governamentais.
É possível haver uma educação perfeita, uma administração interna correcta, uma economia bem organizada, uma saúde que satisfaça os cidadãos, um ambiente aceitável, uns transportes correctamente orientados e todas as outras actuações sob orientação governamental que necessitam da maior perfeição, se o sector da justiça se encontra longe da perfeição e faz gala dos atrasos imensos com que soluciona os problemas que tem em mãos?
Discute-se por aí se a culpa é dos juízes ou é das leis. Uns “sábios” dizem umas coisas e outros optam por opinião diferente. Mas o que é verdade é que se assiste a crimes sem prisão, que nem os tiros dentro das esquadras policiais merecem um julgamento severo, que são libertados autores de procedimentos que o cidadão normal se interroga se isto anda agora ao Deus dará, ao apetite dos juízes, que nunca se atingiu uma tão elevada onda de assaltos, já não só em bancos mas em qualquer lojeca que, ao fim do dia, poderá ter umas poucas centenas de euros na gaveta.
A pergunta que cabe fazer, nesta altura e a propósito do agravamento das situações por resolver, é se. De facto, o Governo não está a pedir uma renovação de alguns dos seus membros. Será que Sócrates quer chegar até ao fim do seu mandato com os mesmos fulanos que já deram provas bem nítidas de que são incapazes de levar o seu barco a bom porto?
Talvez pague caro essa teimosia. As eleições já se começam a aproximar e o descontentamento dos portugueses quanto a casos que ainda têm remédio – não me refiro, evidentemente, à crise financeira e económica que abala grande parte do mundo -, esse desagrado tem vindo a acentuar-se. Atenção, pois, sobretudo porque o principal partido da oposição ainda anda à procura de uma orientação, mas pode reabilitar-se de repente!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O MEU JARDIM


Que lindo é o meu jardim
Todo feito sem esforço
Com seu cheirinho a jasmim
E cavado sem remorso

Os gatos do meu vizinho
Vêm dormitar ao sol
Há odor de azevinho
E lá vai um caracol

As rosas quando florescem
Fazem esquecer os espinhos
Aqueles que as conhecem
Procuram-nas pelos caminhos

Buganvílias lindas são
E há-as de várias cores
Caem folhas para o chão
Mas são sempre os meus amores

A terra e o seu cheiro
Que o estrume agudiza
Preenchem cada canteiro
E refrescam mais a brisa

De manhã, de manhã cedo
Ouvem-se as avezinhas
Não posso mexer um dedo
Que não se assustem ‘tadinhas

Minha mulher cuida delas
Das ervas de cheiro, úteis,
O seu fim são as panelas
Não se diga que são fúteis

Com a pazinha de cabo
E o sachinho de furar
Lá se mandam p’ró diabo
Ervas daninhas danar

Os cactos que alguns não gostam
São afinal bem bonitos
Coitados, até se encostam
Aos que acreditam em mitos

Quando chega o fim do dia
Meu jardim é uma festa
Um melro co’a sua cria
Ao nosso enlevo se presta

Que lindo é o meu jardim
Não me canso de cantar
Se o perdesse, então sim,
Alguém me via chorar


DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Parece-me que, noutro escrito, já me referi a este tema. Se sim, como não releio o que redijo, para não me arrepender e dar o dito por não dito, não posso confirmá-lo. Mas, também não me importo de repetir. A insistência dará o seu resultado. Já lá diz o ditado que “água mole, em pedra dura…”
A questão é a de esta nossa capital mostrar uma plena aversão às flores. Não será a cidade, ela própria, mas sim quem dispõe de poder para interferir no seu aspecto e na sua funcionalidade. Alguma coisa de útil, de belo, de imaginativo. Que, sem mexer muito nos cofres da Edilidade, seja digno de aplauso por parte dos lisboetas.
E quando me refiro à ausência de canteiros, vasos com flores e tudo que possa servir para exibir plantas lindas, não quero dizer apenas o acto de as plantar, mas também manter uma equipa de jardineiros que cuide regularmente da sua manutenção.
Mas não só isso. É imperioso educar os cidadãos, de modo a respeitarem o que está florido. Dizer-lhes, por todas as formas que a comunicação oferece, que as flores pertencem-lhes, que estão ali para agrado da população.
E essa educação, como tantas outras, começa no ensino primário. Entusiasmando e premiando as escolas que fomentem, como já se tem visto nas praias, a limpeza dos espaços floridos. Retirando os restos de cigarros, os papéis e tudo que esteja a mais.
As Juntas de Freguesia deviam ter essa preocupação em cada zona a seu cargo. Era dividir o trabalho pelas aldeias…
Mas, que fantasia a minha! Como isto que se escreve com a maior facilidade, pudesse ser acolhido de bom grado por aqueles que lhes custa viver em comunidade. Eu, por mim, dou uma ajuda. Sugiro. Já é alguma coisa.
E se me refiro a Lisboa, que é o que tenho à mão, estendo esta observação a todo o Portugal. Porque a carapuça serve a quem a enfiar. Ou a quem, podendo mudar as coisas, não faz nada pela terra onde vive. Se este texto vier a figurar num livro e esse chegar a diversos pontos do País, então que os que o lerem metam a mão na consciência. E digam se não fica mais bonita a aldeia, a vila ou a cidade onde residem, com flores espalhadas e cuidadas. Claro, bem cuidadas!...


segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A CABALA



A palavra tem andado, há uns tempos para cá, muito nas páginas dos jornais. E alguns políticos utilizam-na com excessiva frequência, talvez sem cuidarem de saber exactamente qual a sua origem e menos ainda o seu significado, mas, seja como for, sobretudo o caso que se tem arrastado há anos, o da Casa Pia, é que apelou ainda mais ao uso daquela designação.
Trata-se da palavra cabala que, na interpretação mais vulgar, significa maquinação, tramóia e maledicência saída de grupos formados para destruir alguém ou alguma coisa. Daí vem a expressão tão usual agora de “cabala na Casa Pia”, aplicada nas situações de prisões preventivas, quer para as justificar quer, pelo contrário, para defender vítimas dessa aplicação legal.
Mas adiante. O que eu aproveito é para esclarecer quem eventualmente não saiba, que a palavra resulta de uma interpretação hebraica, mística e alegórica do Velho Testamento e, segundo um bom dicionário, significa a arte imaginária de comunicar com espíritos e, a partir do século X, a cabala considerou-se como uma ciência secreta e misteriosa dos judeus. Logo, há que ter algum cuidado e atenção quanto a haver pretensões de se considerarem cabalistas todos os que usam a expressão por dá cá aquela palha.
Seja como for, acho curioso que, num processo que constitui uma verdadeira demonstração da ineficiência da nossa Justiça, no sentido geral da expressão, que ninguém sabe como é que vai terminar aquele “folhetim” vergonhoso, quando se vêm já em plena movimentação figuras que, durante um largo período, se mantiveram encarceradas, é estranho, no mínimo, ter mais importância uma palavra de que poucos conhecem a origem e o seu significado do que a explicação dos motivos do arrastamento do processo – e dos seus custos que todos nós suportamos – e a demonstração pública de que há que fazer alguma coisa numa área que é das mais mal tratadas do conjunto de problemas que afectam o nosso País.
Deixemos, pois, a cabala e façamos todos algo para que passemos a ter em Portugal uma Justiça justa, rápida e eficiente. Ámen.

domingo, 14 de setembro de 2008

ATÉ OS CABELEIREIROS1...




Aparecem agora as opiniões dos magistrados que criticam a legislação aprovada pelo Governo há um ano, em que apontam o dedo dizendo que os crimes subiram com essa reforma penal.
Da parte do Executivo, obviamente do Ministro da Justiça, não se ouviu ainda uma resposta a esta grave acusação, sobretudo quando a magistratura afirma, alto e bom som, que o número de presos desceu e a criminalidade aumentou.
Uma coisa é certa: as consequências da dita reforma estão à vista. O clima de insegurança que paira em Portugal, a série de assaltos à mão armada que são anunciados todos os dias e as centenas de presos que foram libertados criando um clima de impunidade para certo tipo de criminalidade, tudo isso faz com que este nosso País, antes considerado como modelo, sobretudo para o turismo que nos visitava com a maior tranquilidade, seja agora olhado com desconfiança e os resultados nas receitas turísticas e as vagas nos hotéis até na última época alta, tudo isso contribua para que a nossa situação económica vá piorando e, pelos vistos, não se descortinam atitudes do Executivo que mostrem estarem a caminho medidas que ponham cobro a tamanha avalanche criminosa. Imagine-se que, a notícia mais recente é a de que um cabeleireiro em Sesimbra foi assaltado à mão armada em pleno dia, na hora de movimento de senhoras a cuidar da sua aparência e, para além do roubo dos valores pessoais das clientes, um dos assaltantes atingiu uma cliente com uma bala.
Já nem podem as tristes senhoras ir cuidar da sua aparência!

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

A futilidade é a característica dos simples.
Ser simples, é não complicar as coisas.
Não complicar é viver na harmonia.
Sendo assim, o fútil é o que está mais perto da felicidade.

EU...



A 19 de Março
nesse mês de Primavera
sou Peixes e não disfarço
nasci eu, nasceu a fera

Foi na década de trinta
já lá vão bastantes anos
muita coisa já extinta
belezas e desenganos

Lá nas Caldas da Rainha
minha mãe me deu à luz
só não fui um alfacinha
era essa a minha cruz

Desigual de muita gente
não subi no pedestal
talvez roçasse a tangente
mas nada de genial

Escrita e poesia
pintura também saiu
música eu bem queria
mas tal não me acudiu

Sei o que é ser conformado
com o patamar que tive
menos mal por ter chegado
ao alto de um declive

Afinal e em resumo
perto de chegar ao fim
há que dizer com aprumo
eu nunca gostei de mim


sábado, 13 de setembro de 2008

FAZER FILHOS... MARCHE!


Quem se preocupa com o futuro do mundo, com aquilo que irá ser esta bola em que todos nós, os vivos, nos movimentamos, fazemos os nossos projectos, procuramos que o que vem a seguir não seja assim tão desastroso como muitos dos “adivinhadores” do porvir alvitram, quem ainda dedica alguma espaço do seu tempo a tentar descobrir as mudanças que inevitavelmente surgirão, mas conservando no seu íntimo ainda alguma esperança de que os homens conseguirão suplantar as dificuldades que surgirem, quem assim procede, mesmo perante as más notícias que nos chegam constantemente lançadas pelos físicos, como é o caso do aquecimento global que, segundo se verifica, não está a perdoar e vai derretendo o gelo polar, apesar disso não se deixa abater e é bom que assim seja, pois que o deixar cair os braços à espera do descalabro não resolve nenhum problema.
Será assim, pois será. Mas que não podemos, nem devemos tentar ignorar os acontecimentos, antes, sem desnecessários pessimismos, os temos de encarar e, se estiver nas nossas mãos, fazer os possíveis para que se verifique uma reviravolta, esse será o mínimo que nos cabe fazer, caso o nosso esforço tenha alguma utilidade.
O caso que sublinho hoje, retirado das notícias publicadas, é o de que já está apurado que, em 2007, em Portugal ocorreram mais funerais do que nascimentos de cidadãos. Desde 1918 que não ocorria esta comparação e nos estudos efectuados chegou-se à conclusão de que, entre nós, as pessoas com idade superior a 65 anos já são mais do que as que se situam no espaço até aos 15.
Pois bem, para quem tinha dúvidas quanto a que estamos a ficar um “País de velhos!”, podem agora tirar as suas conclusões. E é bom que se fixem no problema das reformas. Se for superior o número dos que recebem comparados com os que pagam, é bom que os portugueses se despachem a fazer filhos de enxurrada, e não é preciso que seja por gosto… para referir a canção, mas sim por necessidade, que é o que aconselha a estatística.

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Não são poucas as vezes que me chega ao pensamento um futuro em que, com a idade que já atingi e a que, provavelmente, venha a alcançar, não possa vir a dispor de mim com a agilidade que me caracterizava na época de pujança física, embora nesta altura a contar ainda com uma cabeça a funcionar em pleno.
Não me assusta morrer. Tenho é pavor de ficar entre o cá e o lá, numa meia vida. Como já ouvi dizer a alguém, o ideal é acordar uma manhã morto. Não passar por esse martírio de ir ficando sem vida aos poucos. Lentamente. Se tem de ser, pois que seja, mas depressa.
Nada pior, penso eu, do que estar inutilizado e ter a memória em pleno. De só poder lembrar-se do que se fez, emendando o que saiu mal e recriminando-se por aquilo que poderia ter seguido outro percurso. Deve ser horrível tal situação. As imagens televisivas que já foram mostradas de enfermos completamente inutilizados por incapacidade absoluta de poderem mover qualquer parte do corpo, mas conservando a cabeça em funcionamento, rogando encarecidamente para alguém, especialmente um médico, pôr termo a tamanho sofrimento, a visão de tais desgraças revolta-me, como se, neste mundo de guerras, de mortes em catadupa provocadas por exterminadores sanguinários, como também de abandono à morte de multidões de famintos por esse planeta fora, ter a caridade de praticar a eutanásia com um infeliz que pede aos vivos que façam com que a sua pseudo vida termine, considerar os que têm compaixão de tamanha amargura devem ser julgados como criminosos é uma atitude de um grande número de seres humanos que obedece a regras judiciais e/ou religiosas que, no meu conceito, não merecem sequer classificação de nenhuma ordem.
Pode-se matar às centenas de uma só vez, e isso está a acontecer praticamente todos os dias por esse mundo fora, mas não é permitido livrar do pesadelo do sofrimento um só pobre ser que clama por compaixão porque não aguenta mais manter-se naquela inutilidade de existência.
Penso neste mundo hipócrita e revolto-me. E assusto-me. E indigno-me. Oxalá o meu adeus não seja o de ter de implorar que me apliquem uma injecção letal ou que desliguem a máquina.
A caridade humana na maioria dos países fica-se por não ser autorizado praticar a eutanásia. Matar só um, mesmo que se encontre no momento decisivo da sua vida e a seu pedido, é crime. Fazer explodir petardos no meio de dezenas de pessoas indefesas, isso já é um acto de heroicidade. É tudo uma questão de ponto de vista. Religioso ou não.
A vida de cada um pertence exclusivamente a esse um. Não tem de ser pedida licença a ninguém para morrer. Já basta não ter sido chamado para autorizar o nascimento. Claro, isso não é possível. Então…



DESPERCEBIDO


Passar na vida sem nada acontecer
desde que saiu da mãe e até morrer
é algo de no túmulo se gravar
mas não é raridade, antes vulgar

Passar despercebido, ser boa gente
ser alguém entre muitos que ninguém sente
falar, falar às vezes e não ser ouvido
passar entre os homens e não ser sentido

Após morrer, chamarem boa pessoa
incapaz de ser alguém que atraiçoa
ninguém aponta um único defeito
mas também não se conhece qualquer feito

Eis o modelo de gente entre milhões
igual aos que não saíram dos padrões
mas a dúvida é ficar sem saber
se aquilo foi viver ou apodrecer

Quem não consegue viver em plenitude
anda por cá e não faz que algo mude

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

DESENCANTO...POR ENQUANTO!


Ganhei um amigo. Inesperadamente. Caído do Céu. Apareceu-me com mansidão. Observando-me para tirar dúvidas. Via-se no seu olhar um certo ar interesseiro. Encostou-se a mim. Deu uma vista de olhos pelo ambiente que o rodeava. Pareceu não lhe desagradar. Sentou-se, Cheirou-me e deu ao rabo.
Pois é isso. Foi um cão que se aproximou da mesa do exterior do café onde costumo escrever. E, nessa manhã, já pouco fiz, porque o Fidel, nome que lhe pus por minha conta, por ter acabado de ler que o ditador cubano tinha adoecido. E Fidel dá para nome de cão, por representar aquilo que é característico desse animal – a fidelidade.
Mal me sentei e estendi sobre a mesa o material da escrita, senti que algo fungava junto às minhas pernas. Era ele. Grandinho, de pelo acastanhado claro, com uma mancha mais escura no peito e sem coleira. Não teria dono, deduzi.
Nesse dia, não sendo meu hábito, estava a mastigar um desses bolos de arroz, que enchem e são honestos de fabrico. Reparti um pedaço com o meu inesperado companheiro e verifiquei que lhe tinha sabido bem. Acabei por ficar eu com a mínima parte.
Dediquei-me ao meu trabalho e constatei que o Fidel se deitou ali ao lado. Volta não volta levantava uma pálpebra e confirmava que eu estava no mesmo lugar. Mirava-me, o malandrão. Ganhou, com isso, uns carinhos, que aceitou de bom grado. E ficou por aí o relacionamento.
Na manhã do dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, aproximei-me do meu poiso habitual. E qual não foi o meu espanto, quando contemplei o Fidel deitado precisamente no mesmo sítio onde tinha estado na véspera. Mal me viu aproximar, levantou-se com rapidez e veio ao meu encontro, dando depois uma volta e encaminhando-se para o lado da mesma cadeira do dia anterior.
Não podia acreditar em tamanha sagacidade. Claro que a sua apetência era a do bolo de arroz. Por isso, com o café encomendei um desses roliços doces. E já sem preocupação de repartir, regalei-me a vê-lo apreciar o petisco. E o cachorro voltou a estender-se ao lado da minha cadeira.
Esta cena passou a repetir-se diariamente, à mesma hora. E, de tal forma, que já saia de casa a olhar para o relógio. Não fosse atrasar-me! E, caso curioso, esta amizade, mesmo interesseira, fez bem à minha imaginação. Deu a impressão que aquela dedicação com horário me transmitia maior sensibilidade e uma certa condescendência com a maldade dos homens. Só me vinha à cabeça atitudes humanas que nem por sombras eram comparáveis à dedicação canina.
Porém, este bem-estar não durou mais do que escassas duas semanas. Um dia, procurando de longe, como sempre fazia, o aparecimento do Fidel, dei por mim com alguma ansiedade. Não apareceu. Fiz o que tinha de ser feito, perguntei à volta se tinham visto o meu amigo. Ninguém tinha ideia. E esperei por ele até à hora do almoço.
Voltei à tarde, não fosse o companheiro ter trocado as horas. Repeti a busca em dias seguidos, sem resultado. Até que um vizinho do café, mais atento, me deu a informação que eu tanto temia: o Fidel tinha sido apanhado umas noites antes pelo carro da Câmara.
Não me fiquei. E dirigindo-me ao canil municipal, ainda acalentei a esperança de ir a tempo. Não foi fácil, mas lá consegui a informação, seca e dura, de que a “cãozoada” tinha sido toda morta na véspera.
Não consigo descrever o que senti. Tinha perdido um amigo. De recente data, é verdade, mas que me deixou profundas marcas. E, inevitavelmente, pus na balança o homem e o cão. Cada um no seu prato. E lembrei-me de Auschvitz, dos fornos crematórios dos seres humanos e, inevitavelmente, fiz a comparação. Se o homem é capaz de actuar daquela maneira com o seu semelhante, que lhe custa dar desbasto a uma porção de canídeos? Se, nos matadouros, os animais, que depois são comidos, giram pendurados num gancho por uma perna e de barriga aberta, que diferença faz acabar com a vida de uma dezena dos nossos melhores amigos?
Cada vez mais me aproximo do vegetarianismo. Falta-me é coragem para arredar das refeições as iguarias proporcionadas pela gastronomia animal.
Sou, por certo, um malvado. Não tenho o direito de criticar os outros, os que maltratam os irracionais, se eu os como! Que falta de caridade!...



quinta-feira, 11 de setembro de 2008

PAZ



Anda este mundo às avessas
Os homens nunca se entendem
Estão as cabeças possessas
Que do mal não se arrependem

A guerra está-lhes no sangue
Ambições, ódios primários
Deixar o povo exangue
Fazer das vidas calvários

Matam-se por guerras santas
Ao gosto de Satanás
Nem lhes doem as gargantas

De gritar qual Ferra Brás
E pergunta-se aos jamantas
Que é preciso pr’haver paz ?

MATAR É PRECISO!



Como o tempo passa! Faz hoje sete anos que ocorreu o horroroso caso dos aviões conduzidos por terroristas que fizeram desmoronar os dois enormes arranha-céus gémeos, em Nova Iorque. A quem aconteceu, como eu, ter assistido na hora, por casualidade, na televisão, a tão inqualificável acontecimento, ainda se perguntará como é possível ter passado já todo esse tempo, quando temos ainda na ideia o espectáculo que presenciámos.
De facto, o cérebro é mais capaz de guardar as cenas desagradáveis do que manter em resguardo situações que, pela sua beleza, seria natural que surgissem à recordação sempre que apelássemos pela sua presença.
Eu dou um exemplo que me salta neste momento como modelo: quando tive ocasião de visitar o Taj Mahal, na Índia, por sinal como apreciador isolado pois encontrava-me como convidado do Governo indiano, pude deslumbrar-me com tanta beleza, apalpar aqueles mármores quase transparentes e apreciar o jardim frontal em perfeita à vontade. Logo, o normal seria que, de vez em quando, aquela ideia deslumbrante me soltasse do cérebro para compensar imagens negras que todos nós remos, com mais ou menos frequência, de contemplar nesta vida. Pois não! Nunca me aconteceu isso. Quer dizer, o momento desagradável à vista que, no meu caso, surge em qualquer ocasião, não teve, até agora, a compensação de ser substituída pela beleza, a do Taj Mahal ou outra, já que felizmente tive várias, igualmente deslumbrantes, que conservo na minha caixa craniana.
Há que tirar alguma conclusão deste facto? Confesso que não sou muito dado a fazer conjecturas relacionadas com situações que podem servir para formular decisões mais ou menos acertadas. As minhas dúvidas permanentes não me deixam atingir tal ponto. Prefiro registar os acontecimentos e fico-me por aí.
O que é certo é que se cumprem hoje sete anos sobre a data que ficou marcada por uma destruição material e uma enormidade de mortos, isso no País que se julgava invulnerável, e que nós, os que já existíamos na altura, ficamo-nos nos nossos lugares, pendentes do que possa ainda passar-se e tendo de aceitar como possível todos os actos, por mais inverosímeis que possam parecer.
Um “carjacking” em plena baixa lisboeta? O que é isso comparado com um gesto de algum desses indiferentes à vida dos próximos que, com uma artimanha dessas que fazem ir pelos ares toda uma cidade, não hesitam em dar azo à sua malvadez, ao seu ódio religioso, à sua ambição nacionalista ou o que quer que seja. Matar é preciso!...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

REPOVOAR LISBOA




É por demais sabido que, em comparação com muitas cidades europeias, sobretudo as espanholas, Lisboa, apesar de ser uma capital, é um burgo que, a partir de umas certas horas avançadas da tarde, surge como que vazia de população, triste, despegada daquele movimento que torna uma cidade interessante de percorrer para se identificar com os seus cidadãos, sobretudo na zona denominada por “baixa”- E isso tem vindo a agravar-se desde há vários anos, dada a substituição progressiva dos alugueres a famílias pelos clássicos escritórios, o que, naturalmente, a partir da hora dos encerramentos dos serviços, desumanizam as áreas que ocupam.
E há ainda outra razão para tal vazio de pessoas nos locais agora entristecidos. É que, nas áreas conhecidas como pombalinas e nos bairros clássicos que não têm nada a ver com a invasão do cimento, os prédios antigos vão pagando o preço da idade, ficando abandonados ou apenas ocupados por gente velha que não tem mais remédio que não seja ir tapando buracos e aguardar pelo momento em que a sua mudança lhes está destinada para um cemitério.
Ora bem, apareceu agora a notícia de que o presidente da Câmara Municipal encarregou a vereadora Helena Roseta de “repovoar Lisboa”. Foi este o título que deu ao cargo que lhe atribuiu.
É, de facto, uma missão que tem de caber a alguém que esteja disposto a arregaçar as mangas e a pôr a imaginação a funcionar. Porque trabalho não lhe falta.
Eu, por mim, que desde há muitos anos, como jornalista, me preocupo com o estado a que tem vindo a cair na nossa capital e alguns se lembrarão das minhas crónicas semanais no “Diário de Notícia”, com o título genérico “Esta Lisboa que eu amo”, tenho um plano aturadamente estudado quanto ao que há a mexer na nossa capital e, sobretudo, quais as prioridades que há que ter em conta, dado que todos sabemos que dinheiro é o que não sobra por aí. E, uma das coisas que se impõe implantar, quanto antes, é uma legislação que permita que mãos honestas situadas no Município (e esse escrúpulo tem de existir) apliquem a obrigatoriedade de todos os prédios caducos que existem às centenas sejam sujeitos a obras e que os novos ocupantes venham a ser de famílias, especialmente jovens, para modificar a imagem de decadência que se vive na capital.
Claro que as leis têm de surgir por forma a que, se os proprietários actuais dos caducos prédios não tiverem meios para efectuar as obras necessárias, nesse caso poder o Município pôr a leilão o espaço e dedicar uma percentagem da venda aos antigos donos do prédiozinho condenado, mais dia menos dia, a desmoronar-se. Mas tudo isso sem burocracias medíocres, que é o que logo surge quando há que executar medidas que saiam do tradicionalismo lusitano.
Não, não é um sonho. É perfeitamente possível pôr em prática esta medida. O cuidado a ter é com os “xicos espertos” que andarão à espreita para tirar algum proveito das vendas e das buscas de novos proprietários. Pois isso é o que mais existe por aí e bem se sabe quantos funcionários antigos de todos os municípios que enriqueceram à custa das suas entradas em negociatas que, geralmente, acabam por ficar no silêncio dos burlões. Lembram-se do caso da Lanalgo? pois, iquais a esse, muitos deram fortunas a toda essa gentalha que, como é sabido, sairam do serviço municipal com os bolsos a abarrotar...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

DERRAPAGENS... NUNCA MAIS!


Claro que José Sócrates tem razão quando se refere que há muita gente que se delicia a dizer mal do que é feito pelo Governo, pois que criticar é muito fácil, o que custa é indicar os caminhos certos e, nesse aspecto, no que diz respeito às oposições, não se vê saírem das suas bocas indicações precisas das vias que seriam tomadas pelas mesmas se lhes coubesse o papel de governar.
Eu, por mim, dou razão ao primeiro-ministro no que se refere a não ter qualquer ajuda dos outros grupos partidários. Segundo as suas queixas, o que Sócrates gostaria de ouvir era conselhos sobre a forma de governar, para que ele, depois, optasse por tais propostas. Dá um pouco vontade de rir, mas segundo as queixas que são feitas, o Executivo actual receberia, com grande entusiasmo, as normas que o PSD, o CDS, o PCP, o Bloco de Esquerda e mesmo outros grupos políticos usariam em cada situação que requeresse a intervenção governamental.
Isto dá ideia de se tratar de uma anedota e teria graça se não vivêssemos numa situação do País que só nos dá para chorar. Mas também não sei que medidas seriam propostas que, sendo de Esquerda, de Direita e até de extremos como há por aí, pudessem coincidir entre si. Tudo isto, para além de que, quem tem as rédeas do Poder é que tem a responsabilidade de decidir e, se não o fizer da melhor maneira, que seja castigado nas eleições que se seguirem. Isto é a Democracia e não é preciso pôr mais na carta!...
Só que estas regras não anulam o direito de qualquer cidadão, com os meios legais que puder dispor, critique aqueles que se dispuseram a ocupar lugares de destaque nas governações, pois que, se utilizam as regalias e as benesses que o poder lhes põe à disposição, do que não se podem livrar é de serem chamados de incompetentes, de presunçosos, e até de abusadores do poder de que lhes é posto à disposição. E, se fosse nalguns países que não perdoam maus actos, também lhes poderia caber o papel de serem julgados, não só na praça pública como eventualmente nos tribunais.
Por agora e rapidamente, só vou referir o caso das 207 reformas milionárias que couberam este ano a outros tantos felizardos que já estão a receber, mensalmente, entre 4.000 e 8.000 euros. Não indico aqui os nomes dos felizardos, mas posso dizer que todos eles eram funcionários públicos ou actuavam em empresas públicas, com lugares de destaque e isso chega para podermos ajuizar do critério utilizado pelas forças que decidem estes casos.
Se acrescentarmos a este dispêndio aquilo que o próprio ministro das Obras Públicas deu a conhecer esta semana, quando garantiu (podemos bem acreditar!) que as chamadas derrapagens nos custos das obras não voltarão a acontecer, tendo-se tomado conhecimento, na altura, que o que foi pago a mais pelo Estado nos últimos seis meses, em obras da sua responsabilidade, atingiram a incrível verba de 830 milhões de euros, no túnel do Rossio, na Ponte Europa, na Casa da Música, na Linha do Norte, no túnel do Terreiro do Paço e na Linha Amarela do Metro, a partir destes números todos podemos agora começar a confiar no ministro Mário Lino. Sim, esse do “jamais”, o que garantiu o que não podia.
Por isso, José Sócrates, não é possível um chefe do Governo enxofrar-se todo contra os que dizem mal. Deixe-os continuar a mostrar as suas opiniões. O que é preciso é não dar razão para descontentamentos ou… evitá-los, o mais possível. E iso, sim, é difícil.