quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

RIR

O rir é o contrário do chorar
por vezes nem um nem outro com sentido
são desabafos, solturas do perdido
melhor é não tentar interpretar

Mas o rir também pode ser de pena
de dó por ver aquilo que outros fazem
quando constroem ou quando desfazem
se a obra é grande ou até pequena

O mal é se quem paga é Portugal
se é dos políticos que nos rimos
daqueles que nos deixam mesmo mal

Nesse caso, a rir perdemos todos
visto que quando votámos não vimos
que íamos ser levados em engodos


DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Por vezes interrogo-me, na solidão dos meus pensamentos, sobre aquilo que aprecio e o que detesto. Faço um risco ao meio para separar bem as duas coisas e dou comigo a ser condescendente, uns dias, e severo, outros. O homem é assim, digo eu, tomando-me como modelo de uma maioria.
Não será sempre igual. É volúvel, de acordo com os humores, o tempo que faz, as circunstâncias em que nos encontramos, os contactos que mantemos com os outros, o ambiente que nos rodeia e tantas outras motivações.
Se penso no que fiz pela vida fora, no que vivi, no que aproveitei, no que me saiu razoavelmente bem, aí sinto-me satisfeito, relembro os momentos agradáveis e dou por bem aproveitado o tempo que vivi. Mas se, pelo contrário, rememoro as situações negativas, as quebras de estímulo, os bocados mal vividos, por minha culpa ou por intromissão alheia, se me castigo a recordar traições de falsos amigos, más escolhas das vias utilizadas, falta de interesse em persistir na luta, regressos aos princípios, aos pontos onde estava antes de iniciar uma caminhada ou até pior, opto por fazer voltar à memória o que correu mal no meu passado e faço então contas quanto ao futuro que me espera e sobretudo ao tempo que me falta para conseguir ainda fazer algo que valha a pena. E se chegar à conclusão, nos dias de total pessimismo, que não atingirei esse objectivo, aí, a solidão em que me encontrar parece mais pesada do que ela é. E afinal nem é.


FELICIDADE PRECISA-SE



Isto de estar com uma gripe que me deixa de rastos, mas, ao mesmo tempo, não querer deixar de preencher o meu blogue tratando-se, sobretudo, de um dia que marca o fim de um ano que, na maioria dos casos, não deixa saudades, não é tarefa muito fácil de levar a cabo, mas, ao mesmo tempo, é bom que me faça levantar da cama e que me chame a atenção para a necessidade de não nos deixarmos dominar pela atracção do leito que, quanto mais tempo lá se permanece, mais difícil é assistir a uma recomposição da saúde.
Encaremos, pois, o que aí vem. E, passada a meia-noite com as tradicionais passas e o jantar com família e amigos, o que se torna obrigatório é não perder a esperança e enchermo-nos de força para enfrentar o bom e o mau que se apresentar na caminhada que tivermos de fazer. E, não festejando como eu acabei de ler num jornal, dito pela boca de uma considerada “rainha da etiqueta” e também alcunhada de “escritora” – lê-se no referido periódico – num local “glamouroso” onde estarão presentes as caras conhecidas só por serem as convidadas de sempre pelos estabelecimentos que necessitam de promoção, neste nosso ridículo sítio onde temos de habitar, graças a isso passarei tranquilamente a hora da mudança sem grandes festejanças. Só o essencial.
Mas lá por eu não ser muito dado a datas estabelecidas para exteriorizar alegria, não quer dizer que não deva recomendar, a quem me siga no blogue, que não perca a esperança de que melhores dias virão e que, mesmo contrariando as opiniões de vários comentadores ligados à vida política, não pode durar sempre a crise que se espalhou pelo mundo. Acreditar é uma marca de felicidade. Não se deixar abater por perspectivas que têm a aparência de vir a ser negras, é uma forma de conseguir abrir o peito ao que surgir de menos agradável.
Aí está o que, sacudindo a minha gripe, consigo tentar transmitir aos seguidores do meu blogue – que já são perto de 2.000, segundo a indicação que recebo no meu computador – algo de animador. Vou fazer todos os esforços para, em 2009 manter um semblante de alegria, ao contrário do que me dizem que é o meu aspecto facial.
Coragem, pois, boa cabeça, não fazer grande caso das notícias menos agradáveis e ir alimentando expectativas de que não há mal que sempre dure.
Estão a ver como eu consigo ser um bom mentiroso?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

OUVE BEM

Ouve bem, por favor, o que te digo
Não tapes os ouvidos quando falo
Talvez não seja sempre um livro aberto
Mas, por certo,
Não é só quando calo
Que podes aparecer ao postigo

As coisas que eu tenho p’ra dizer
Julgo eu, não são despiciendas
Algo terão de importância
São a ânsia
De fazer com que entendas
Até onde vai o meu querer

Mas se convencer-te eu não consigo
Se não é bastante o meu esforço
Fico-me por aqui e não avanço
Não alcanço
Também se não atinjo não me torso
Só pode ouvir-me quem é meu amigo

DESENCANTO... POR ENQUANTO1


Tenho medo de acordar a meio da noite e verificar que não tenho mais sono. Aí, por mais que feche os olhos com todas as ganas, permaneço acordado e com todos os sentidos em pleno funcionamento. Apavoro-me. Faço por não pensar em nada. Procuro desligar o interruptor do acordar, mas não consigo encontrá-lo. E aí, não tenho mais remédio que não seja isso: ficar a pensar.
Vêm-me à cabeça frases, temas, assuntos. Até rimas exóticas. Às escuras, aos apalpões, escrevo, o que me parece merecer ser guardado, num bloco que conservo ao lado. Já experimentei tentar manter na memória, mas, de manhã, ao acordar, não tenho a menor ideia do que julgava que não escaparia.
Na verdade, o despertar a meio do sono e não conseguir entregar-se de novo nos braços de Morfeu, constitui um autêntico suplício. Isso de acordar e conseguir voltar, de imediato, a dormir é uma bênção.
A mim, quando isso de despertar, em pleno sono, me sucede, vem-me à cabeça, sobretudo o que fiz de mal. Confesso que o que ocorreu de bem não tem grande apetite de aparecer. E martirizo-me a fazer projectos sobre aquilo em que me devo empenhar no dia seguinte. Mas, de manhã, não me recordo de nada.
É caso para perguntar se essa coisa do sono dos justos é algo que, de facto, existe. Que responda quem sabe.


O FIM DO ANO


É já amanhã o último dia deste ano de 2008. Passaram num instante os 366 dias que, a um e um, preencheram o espaço de 12 meses. Doze meses que me deram a impressão de se terem esfumado num abrirem e fechar de olhos. E só me ficaram na lembrança as desgraças que se sucederem no decorrer deste tempo, tantas foram as que foram dadas a conhecer por esse mundo fora. Sim, porque os homens, não tendo saído dos seus hábitos de todos os tempos, parece que preencheram todo o período de 2008 com conflitos, com confrontos e até com a crise económica e financeira, tudo que marcou uma época que não deixa saudades a ninguém. Com excepção de uns poucos a quem lhe terá saído qualquer totoloto ou totomilhões, mas esses são as excepções que, se tiverem saúde, têm motivo para comemorar as 52 semanas que terminam agora.
E a fechar a porta do período do ano, todo o Planeta assiste confrangido a mais uma das habituais desavenças entre islamitas e israelitas, conflito que vem de longe e que, por teimosia e facciosismo religioso, sobretudo por parte dos muçulmanos, volta não volta surge e daí resultam muitas mortes e enormes destruições. É o que está a acontecer nesta altura na parte sul da Faixa de Gaza, em que, como resposta aos seguidos “rockets” enviados pelo Hamas contra o território israelita, desta parte as respostas são precisas e deixam em pedaços locais antecipadamente determinadas pelas forças judias que, nestas coisas de guerra, são peritos e têm boa pontaria.
O conflito pode ser interrompido, como sucedeu já noutras ocasiões, mas, na primeira altura, do lado maometano não é possível suster o ódio e salvaguardar a paz que os civis de ambas as partes tanto precisam. Não conseguem respeitar as ideias dos outros, dos que não seguem a sua religião, daqueles que têm outras ideias. Quem não como eu é contra mim! É a forma de pensar dos chefões do Hamas.
Eu, que já estive várias vezes em Israel, percorrendo todo o território de Norte a Sul, que convivi muito de perto com várias camadas de israelitas, que me dei com os civis que formam parte das tropas do País quando são chamadas a intervir, tantos homens como mulheres, formei uma opinião no que diz respeito á sua capacidade de levar a cabo uma missão e verifiquei que quando actuam é para ter um desempenho sem erros. Quero dizer: quando dão um tiro é para acertar no alvo e não gastam munições para o ar. Para além disso, antes de apertar o gatilho, seja ele qual for, numa fase anterior têm o alvo devidamente estudado. E se morrem civis que estão fora do conflito é porque se encontram na hora errada e no local incerto.
Seja como for, é sempre a mesma coisa: os homens estão sempre contra os outros homens. O Natal daqueles em guerra não é este nem agora, mas, mesmo que fosse, nada impediria que se andassem a matar de um e de outro lado.
É por isso que eu sou um irremediável amigos dos animais… dos irracionais.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

QUERER

Querer e não ser capaz
é mal de que se padece
não gostar do que se faz
é triste mas acontece

Tentar fazer o melhor
é um desejo agradável
porque de tudo o pior
é fugir de ser notável

Lutando pr’a conseguir
vendo sempre o pelourinho
provoca a frustração

O remédio é resistir
não ficar pelo caminho
não aceitar exclusão


DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Por muito que consideremos anacrónica tal situação, o certo é que se podem dizer coisas, mesmo sem ter nada para dizer. Da mesma forma, podem-se escrever frases sem as ler alto depois, para não se correr o risco de deitar o escrito para o lixo.
Quanto a mim, se bem que não seja muito de falar por falar, já no que se refere ao escrever, aí dá-me jeito depositar no papel aquilo que me vem à cabeça… se bem que, na verdade, depois me custe reler o que fiou gravado pela caneta. Será por falta de amor-próprio, por não me deslumbrar com aquilo que faço, de considerar que é um risco grande que não vale a pena correr, como não sou partidário do “falem de mim ao menos mal”, será por tudo isso mas o facto é que não me entusiasma contemplar o que escrevi.
No íntimo, esta será a verdade, há sempre a esperança de se ser melhor do que aquilo que se parece, em contradição com os que parecem ser melhores do que aquilo que realmente são e que, creio eu, serão os que se encontram em maioria. Mas como a esperança só se perde no derradeira momento da existência, viver com tal ilusão tem a vantagem de alimentar um certo ego, por mais escondido que ele se encontre.
Isto, por mais que se tropece por aí com quem exalte o ego a torto e a direito. E, curiosamente, com verdadeiro sucesso!



AVANÇAMOS ALGUMA COISA. UM SEGUNDO!



Chegados que estamos a este final de ano que, por sinal, à maioria dos habitantes do mundo não deixará grandes saudades, e as excepções só confirmam a regra, a conclusão a que eu chego, frente ao computador e com a vontade habitual de marcar posição com alguma coisa que valha a pena ser lido por outros, é de que parece que está tudo dito e o que for agora acrescentado é só repetição do que já foi expresso de diferentes maneiras. Com efeito, a já cansativa crise que se instalou no mundo e que, parece, não vai ser resolvida em 2009, a mesma teima em querer ser o tema que continua a vir a talho de foice daqueles que, como eu, só pretendem e podem deixar em letra de forma os comentários às desgraças que tomaram conta de todos locais onde existem seres humanos, sejam quais forem as suas cores, religiões e nacionalidades, tudo isso deixou de constituir notícia.
Neste momento e embora não se trate de uma novidade inesperada, o confronto entre israelitas e o movimento islamita conhecido por Hamas, que tem a sua sede também na Faixa de Gaza, segundo os primeiros pelo facto dos bombardeamentos contra o país dos Judeus com rockets, contrariando o acordo de cessar fogo que tinha sido estabelecido, o que causou já centenas de mortos na parte árabe, esse ajuste de contas parece que vai prosseguir com a invasão por terra pela parte melhor preparada, como ficou demonstrado na bem conhecida “guerra dos seis dias”, em que os judeus deram mostras de serem capazes de pôr no seu lugar os vizinhos que os odeiam e que, sendo sempre em maior número, nem por isso conseguem levar de vencida os moradores na Terra Santa.
Isso, o que ocorre lá por fora e que é merecedor de uma referência neste blogue sem pretensões. Porque, cá pelo burgo, a assinalar existe o facto de as pequenas lojas estarem a dar mostras de enorme fragilidade e nem os saldos, apesar da assinalável afluência verificada, estão a salvar a situação. É que os enormes descontos que estão a ser proporcionados, chegando aos 70 por cento do preço antes fixado, essa perca de lucros consegue a atingir vendas com valores abaixo do que custaram aos lojistas. Isso, só para realizar entradas de dinheiro que possam suportar as obrigações que cada comerciante tem de cumprir, sobretudo com o 13.º mês dos empregados.´
Mas, o que constituiu exactamente agora algo de inesperado foram as declarações que acabaram de ser ponunciadas por Cavaco Silva, mesmo à hora de jantar e que as teveisões transmitiram em pleno. O assunto era o mesmo da intervenção feita em Agosto passado, aquele que, por se tratar da altura que era e por não ter sido suficientemente claro naquilo que apresentou ao País, passou em claro e foi até alvo de algumas desconsoladas afirmações dos observadores. Afinal, o Presidente da Republica só pecou por falta de um texto que fosse devidamente esclarecedor, como agora foi, e também porque deveria aguardar por uma data mais adequada à atenção dos portugueses que, naquela altura, gozavam de férias e não queriam ser incomodados com causas menores. Parecia.
Mas há que dar a mão à palmatória. Na verdade, o Governo e, neste caso o Partido Socialista - que contou também com certa benevolência do PSD - criaram uma situação de desentendimento entre dois poderes nacionais que, sobretudo na fase que atravessamos, necessita mais do que nunca de uma perfeita harmonia para se enfrentarem os problemas que nos afligem, E a questão de se terem retirado poderes ao PR, nos Açores, ficando-se com a dúvida de saber se essa posição contraria os ditames da nossa Constituição, vamos a ver mais adiante se assim é de veras, e com Alberto João Jardim debaixo de olho para constatar se se mantém à espera, para também ele, querer fazer as suas exigências
Terei de voltar a este problema, talvez amanhã. Logo que sejam ouvidos os comentários de alguns daqueles "sábios" que surgem sempre com análises "indesmentíveis".
Mas que Cavaco Silva mostrou desagrado com a situação, sobre isso penso que ninguém admitirá o contrário.
Por agora e a esta hora da noite, fico-me por aqui. Tenho de reflectir bastante sobre o sucedido.
Ah! È verdade. Não nos podemos esquecer de adiantar os nossos relógios um segundo, quando der a meia-noite do dia 31, pois a rotação da Terra está mais lenta do que antes sucedia.
Quem estava à espera de boas notícias, aqui tem uma!... Avançamos alguma coisa: um segundo!...

domingo, 28 de dezembro de 2008

SONHAR

Que bom é sonhar sonho agradável
Dormir acordado e ver o distante
O que se deseja e não é viável
Por muito que dure ou seja um instante

Sobretudo o sonhar acordado
O que se quis, tanto se desejou
Isso mesmo, o que andou ali ao lado
Por muito querê-lo se escapou

Porém o mundo é este em que vivemos
Ingrato, vingativo e bem maldoso
Só nos dá aquilo que não queremos

Porque tudo o que nos pode dar gozo
Isso escapa-nos das mãos e não vemos
Resta-nos sonhar em dia chuvoso

DESENCANTO... POR ENQUANTO1...


Quando chegamos à conclusão que a vida já nos deu aquilo que tinha para nos dar, entramos na fase da resignação. Contas feitas, já não há nada a pagar nem troco a receber. E, ao não se apurar saldo para nenhum dos lados, só resta aguardar o momento do encerrar do negócio.
Se fosse música, dava-se por finda a sinfonia, depois de se ter andado uma vida a preencher as pautas e a lutar para encontrar a melodia que tinha surgido em certa altura na inspiração. E, ao conclui-la, ficar-se-ia somente à espera que alguém a colocasse nos instrumentos de uma orquestra. Se não fosse em vida, pelo menos, mais tarde, como sucedeu tantas vezes com os grandes compositores que deixaram obras póstumas.
Mas, ao tratar-se de obra escrita, o conformismo com a falta de visibilidade pública daquilo que se produz, essa resignação também serve de conforto. E a obscuridade em que fica o que foi produzido tem a vantagem de não ser alvo de críticas dos que, em seu pleno direito, exercem essa função de julgamento do que os outros fazem e mostram.
Este estado de alma já eu demonstrei em vários textos que tenho redigido. É uma espécie de ladainha que parece contradizer a aceitação conformada a que me entrego. É que, no fundo, ainda transporto em mim a esperança de que a vida não me deu, afinal, tudo o que tem reservado para mim. Todos os dias vistorio a minha caixa de correio, na esperança de que algum editor me faça a surpresa de me mostrar a sua disposição em lançar os inéditos que tenho para oferecer à estampa.
Não será mau que a resignação, ao fim e ao cabo, esteja sempre acompanhada, mesmo que encoberta, por uma certa esperança. São duas posições opostas que, intercaladas, acabam por se dar bem.


TERREIRO DO PAÇO



Atravessamos uma tremenda crise económica e financeira? Pois ninguém diria. Pelo menos cá no nosso País. Então não é que os registos pelo organismo que controla estas coisas, o SIBS, feitos no capítulo dos cartões de crédito utilizados entre os dias 1 e 25 de Dezembro, apontam para um montante de 4,2 mil milhões de euros, ou seja mais 1 por cento do que ocorreu no ano passado?
Sendo assim, não vale a pena os observadores andarem de mãos na cabeça, pois a população portuguesa contraria todas as opiniões pessimistas que são feitas quanto à situação actual, logo, também não será caso para nos inquietarmos no que se refere ao 2009 que aí está a chegar. Os nossos compatriotas são uns felizardos, não se preocupam com o amanhã e toca a gastar hoje e a pagar com cartões de crédito, que depois logo se vê…
Na verdade, este País e os seus habitantes, governantes e todos que tais, assobiam sempre para o lado e não se importam grandemente com as consequências dos actos que praticamos em determinada altura. Amanhã é outro dia e não vale a pena preocuparmo-nos com o que possa vir depois. Agora está resolvido, quando chegar a altura de nos afligirmos, nessa altura, então, se encontrará forma de nos desenrascarmos!...
Se não é assim, pois que alguém me explique uma situação que não se encontra forma de ser entendível por qualquer cabeça que se dê ao trabalho de pensar:
Há já muito tempo e até me parece que é uma determinação da Câmara Municipal de Lisboa ainda na sua anterior presidência, que aos domingos, entre as 14 e as 17 horas, não é permitido que o trânsito de automóveis particulares seja feito na Praça do Comércio. Portanto, os carros que têm de passar do Cais do Sodré para o lado de Alfama e vice-versa, são obrigados a dar uma volta que extravasa a capacidade das ruas escoarem o movimento que se acumula nos dois lados.
Fui obrigado, vindo de Alcântara, a ir comprar um bilhete de comboio a Santa Apolónia. Pois, quando cheguei ao fim da avenida 24 de Julho, a fila de automóveis já se estendia a perder de vista. E o único caminho possível era meter pela rua dos Bacalhoeiros e atravessar uma zona que não costuma estar aberto aos carros, mesmo junto à porta principal da Câmara. Daí, sempre em marcha lentíssima, lá se podia ir pela rua de S. Julião. Este trajecto levou 25 minutos, sendo enorme também a fila que corria ao contrário.
Mantenho, por isso, a pergunta ao presidente do Município lisboeta: qual a razão por que continua a manter-se esta mania (porque só pode tratar-se de uma mania), de fechar ao trânsito automóvel o Terreiro do Paço, aos domingos e entre aquelas horas? Expliquem-se. Prestem contas à população, que é essa a vossa obrigação. E não estabeleçam normas estranhas, só porque um senhor que tem poder para isso acordou uma manhã com uma ideia e, zás!, passou-a pêra um papel tal como eu faço este blogue.
Só que, o que aqui digo não causa transtornos a ninguém!...

sábado, 27 de dezembro de 2008

BURRICES



Hoje apetece-me o silêncio. Não ouvir nada nem ninguém. O dia surgiu como deve ser nesta época. Chuvoso. Feio. Macambúzio. Nem dá vontade de sair de casa. E até serve de desculpa para não ir comprar os jornais. Também aí descanso. Porque a leitura das notícias e a escuta dos noticiários só servem para envinagrar ainda mais o ânimo que, por sinal, já é pouco.
Que importância se pode dar a termos ouvido o José Sócrates, no seu discurso de Natal, afirmar que o Governo ia aumentar o salário mínimo para 450 euros mensais, quando os espanhóis já o fixaram em 621? Que revolta podemos sentir por o mesmo Executivo não ser capaz de impor que os medicamentos em pastilhas possam ser vendidos com receitas médicas que permitem pequenas doses, em lugar de frascos inteiros, como acontece por essa Europa fora há imensos anos, e que depois sobram com os custos inerentes? Qual a indignação bastante que podemos ter quando nos deslocamos nas ruas e estradas do nosso País plenas de irregularidades, esburacadas, mantendo-se assim eternidades, enquanto se anunciam obras caríssimas para auto-estradas novas? Vale a pena qualquer crítica pelo facto de existirem muitos mais generais do que o que seria admissível numas forças armadas como as nossas, ao ponto de calhar cada general para 224 praças?
E por aí fora iria, se não se desse o caso de eu hoje só desejar o silêncio e nem o bater das teclas do meu computador me apetecer escutar.
O que este País está a pedir é isso mesmo: mutismo. Que nos calemos todos e digamos aos homens do poder e aos das oposições para não abrirem o bico. Já basta de burrices – que me perdoem os jericos -, de asneiradas, de falsas promessas, de incompetências. Se é isso que temos de ter por vontade já nem sei de quem, ao menos que não façam barulho.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

MUDAR O POVO

Eu sofro tanto por ver
em cada dia que passa
este País a morrer
entregue à sua desgraça

Foram tantas eleições
muitas escolhas, mudanças
houve várias opções
e outras tantas alianças

As disputas foram várias
zangas também um fartum
e promessas como árias
ninguém augurou jejum

Na escolha de quem governa
que desde setenta e quatro
se tem visto como alterna
que nem cenas de teatro

Sucedem-se Presidentes
todos prometem mudar
mas nenhum trouxe presentes
que apetecesse cantar

Nesta altura de mudança
com Cavaco a presidir
nasce mais uma esperança
de que se vai progredir

Mas então mudar Governo
votar outro Presidente
vai fazer com que este inferno
altere assim de repente?

Eu por mim julgo que não
não digo nada de novo
é precisa a opção
de trocar cabeça ao povo

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Ter ilusões é ter uma espécie de esperanças. É sonhar com certa coisa de bom que se deseja ardentemente. É contar com o que virá no futuro. Porque ninguém aspira um amanhã desagradável. Não é normal que alguém ande iludido com um porvir que não corresponda ao que se aspira. Ter ilusões de que se consegue obter o amor de alguém, de que uma nova actividade desejada surgirá, de que a doença que nos atormenta ficará curada, no fundo, a ilusão é algo que transmite força para suportar os maus momentos.
Há, no entanto, que refrear as ilusões em excesso. Se são muitas, provocam cansaço. Sobretudo, pela espera que esses desejos inevitavelmente provocam. Chegar à conclusão que foi inútil manter uma ilusão, por vezes durante muito tempo, e de que o que aspirava não se realizou, é pior do que do que nunca se ter iludido. A mágoa de ter tido ilusões que se foram, que se perderam, é maior do que não conseguir iludir-se, de ser um conformado com a má sorte que não arreda pé.
Mas, percorrer uma vida sempre iludido, a pensar que tudo se resolve a contento, que o mal não quer nada connosco, podendo ser uma forma de abraçar à força a felicidade é, isso sim, viver em equívoco, andar enganado consigo mesmo e com o mundo que o rodeia.
Eu, por mim, já tive ilusões. Foram ficando pelo caminho. Também não estiveram presentes na minha vida de uma forma permanente. Tive dias. Dependeram das ocasiões. Acabaram por se desvanecer. Uma a uma. Chego agora à conclusão de que talvez me tenha iludido demais. Aspirei o impossível.
Se estou a escrever, como agora, e se não sustento a ilusão de que, numa dada altura, alguém lerá o texto que me sai da caneta, não vale a pena esforçar-me. Fico-me onde vou. Logo, neste caso, a ilusão é uma força. É útil mantê-la, para prosseguir na escrita. Se não admito que me pode sair a lotaria, não vale a pena comprar jogo. Quem perde é a Santa Casa. Se abdico da confiança de que um determinado remédio me pode fazer bem, ponho-o de parte.
Por isso, defendo o princípio de que, em certas ocasiões, é útil alimentar as ilusões. Só que devem ser controladas. Racionais. E não se devem manter durante muito tempo. Nem serem sempre as mesmas. Isso cansa. E quem espera… desespera!

HÁ OUTROS AINDA PIORES...



Aquela expressão do Rei de Espanha, dirigida ao Presidente da Venezuela, que correu mundo e ainda hoje se aplica sempre que vem a talho de foice, a do “por que no te callas?”, apetece repetir nesta ocasião em que José Sócrates quis aproveitar a ocasião do Natal para se dirigir ao “seu” povo.
Não é que a figura venezuelana não tivesse merecido a pergunta, dado o seu comportamento só tem comparativo como o de Alberto João Jardim, que não sabe também o que é ter tento na língua, mas, pelo menos pela graça que provocou, não vem mal ao mundo que, volta não volta, seja recordado por isso.
Ora, que o responsável interno número um daquilo que ocorre na situação em que se vive em Portugal – repito, interno, porque há muitas consequências que chegam de fora e das quais não temos forma de fugir -, que esse que tem nas mãos algumas soluções que nem sempre dá mostras de saber utilizar, tivesse querido surgir mais uma vez perante as câmaras de televisão, a propósito do período natalício, pensando que, com isso, ganharia pontos no que diz respeito a um reforço de aceitação na opinião pública portuguesa, que é como quem diz, reforçaria o número de votos de que necessita nas próximas eleições, pois Sócrates, quanto a mim, teria feito melhor figura se não se quisesse armar em Chefe do Estado, que esse, como é usual, dirige-se aos portugueses e deixa-lhes algumas palavras de conforto e de esperança.
O que o chefe do Governo fez foi, em primeiro lugar, lambuzar-se com os as medidas tomadas pelo seu Executivo, todas excelentes como, claro, não podia deixar de ser, mas não apresentando quaisquer desculpas por alguns erros que tenham sido cometidos e muito menos garantindo que, de futuro, se iriam empregar todos os esforço para que ele e os seus membros não desmerecessem dos poderes que lhes são confiados, isto é, tivessem a noção das prioridades das acções que, nesta altura, têm de ser consideradas acima de tudo, precisamente porque nos encontramos numa fase em que os fundos são escassos e é forçoso saber ter consciência precisa para não gastar dinheiros públicos em coisas menos urgentes.
Não senhor. Nada disso surgiu na boca do contentinho da silva, que é o nosso primeiro-ministro. Sempre o que foi de sua autoria foi o máximo, ninguém faria melhor, nunca se engana, não tem erros a emendar, não é um ser humana, mas um deus acima de todas as outras pessoas.
Eu, que até votei PS e, nesta altura, se houvesse eleições, me debateria perante a dificuldade de encontrar quem o substituísse com vantagem – por que são todos medíocres, embora por razões diferentes -, não deixo de me irritar quando oiço e vejo o Sócrates que temos com aquele ar de que nunca se engana e nem tem dúvidas. Tal como o outro, que até é agora o nosso Presidente da República.
E é com todos estes portuguesinhos convencidos que chegámos onde estamos, na cauda das caudas da Europa, mas sempre contentes por haver outros ainda pior!...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

HOJE, DIA DE NATAL, DOU AS BOAS-FESTAS A MIM MESMO.
NÃO FAÇO O MEU HABITUAL BLOGUE.
TAMBÉM TENHO DIREITO A UM DIA DE FOLGA.
QUE DESCANSEM AQUELES QUE COSTUMAM
LER-ME.
PASSAR BEM.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

NATAL


A data chega, infalível
cada ano, sem faltar
com festejos, consumível
dizem ser tempo de amar
sem ser com amor carnal
distribuir amizade
pelo menos no Natal
porque s’afasta a maldade
como manda o calendário
25 de Dezembro
como se fosse um notário
se tu t’esqueces eu lembro
boas-festas p’ro vizinho
seja amigo ou nem isso
há que parecer bonzinho
para depois dar sumiço.
Antes da data festiva
às compras se tem de ir
gastar pouco é missiva
faz falta é iludir.

Mas se no dia seguinte
for preciso fazer mal
com o máximo requinte
já se esquece o ideal
isto de ser comandado
pela folha da agenda
cumprindo sempre o feriado
como sendo uma encomenda
é caso p’ra perguntar
s’aquilo que está marcado
é que tem de se levar
até estar realizado

Cumpramos o estabelecido
façamo-lo tal e qual
será ele parecido
com todo e qualquer Natal
Oxalá não deixe atrás de mim um rastro insuportável.
Mas, a minha única defesa é a resposta que deu Picasso a uma das suas mulheres, quando esta o acusou de ser mal disposto com os amigos e este lhe respondeu: “é que com os outros, não me interessa o que pensem de mim; nem me dou conta de que existem!”
Será uma desculpa.
Cada um arranja a sua.

ZÈ POVINHO



Não vou dar novidade nenhuma. Hoje é véspera de Natal, Há muitos anos que sinto esta mesma sensação: a de me virem à memória acontecimentos tristes, por maia recuados que tenham ocorrido. Não consigo rebuscar alegrias que suplantem as que persistem em atormentar-me.
Mas também, na fase que estamos a atravessar, não consigo vislumbrar motivos que me levem a sustentar uma felicidade a que um ser humano deve ter direito. Sobretudo se a consciência não lhe pesa por ter sido autor de malfeitorias de grande monta, porque uma ou outra falha no comportamento todos nós temos e tivemos ao longo da nossa existência. Quem não reconhece esta verdade, ou é um santo à espera de ser venerado ou é portador de uma inconsciência arrasadora que, à força, o torna uma pessoa feliz.
De facto, a época de crise que se instalou e a que o mundo já se está a aclimatar, no que se refere a Portugal, que é o que está à nossa porta e por isso toca na pele da maioria da população, deixando de fora todos aqueles que, tendo tirado partido das benesses que conseguiram obter, na política, na banca e nas reformas vultuosas que a sua esperteza conseguiu alcançar, não fazendo referência a esses, todos os demais carregam uma preocupação no que a cada um diz respeito e, sem dúvida, quanto ao País que se deixa aos mais novos, que nem a vantagem de ter ainda a juventude que lhes dá alguma força, mesmo isso não vai chegar para fazer navegar o barco que se encontra já na fase de meter água por todos os lados.
Que dizer, hoje véspera do Natal, o Zé Povinho, que Bordalo Pinheiro criou e que até deu motivo a ter sido criada uma fábrica de loiças nas Caldas da Rainha – por sinal a cidade onde eu nasci por casualidade – fábrica essa que comercializa em exclusividade a figura do Chiça, aquela que apetece dirigir a quem nos pretende impingir histórias da carochinha, como são as que os políticos espalham por toda a parte, pois essa fábrica, à míngua de clientes vai suspender a sua actuação até data em que as encomendas voltem a aparecer.
Quem havia de dizer que, precisamente em altura de tanta solidariedade anunciada, também esta produtora, que exportava sobretudo para a América, vê os pedidos daquela origem serem reduzidos a zero e não tem outra coisa a fazer, senão colocar a imagem de marca à porta das suas instalações.
O que apetecia era que a população do País inteiro – excluindo aqueles mesmos a que me refiro atrás – colocasse, em plena Praça do Comércio, à frente da Assembleia da República, em Belém e na rua da Imprensa à Estrela, à porta do palácio do Governo, um grande CHIÇA como prenda de Natal.
E o melhor é guardar, bem guardadinho, o mesmo Zé Povinho, para o Executivo que vier a seguir, pois ninguém garante que, sendo o mesmo ou outro qualquer a qualidade dos governantes surja mais qualificada
.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O MUNDO

Contemplo este mundo e com desgosto
Perco vontade de dele fazer parte
Vendo o que faz basta gente sem rosto
Que teima em tornar da desgraça arte

O que podia ser um mar de rosas
Se os homens não fossem o que são
Daria para cantar tantas glosas
E para consolar vasta paixão

Mas não, esta bola que Deus criou
Foi erro de cálculo, não previa
Que quem pôs aqui dentro saísse assim

E todo aquele que por cá andou
E que fez toda essa travessia
Tem de saber qual será o seu fim

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Pergunto-me, com frequência, se eu, de facto, sou invejoso. Se sinto inveja de alguém. Se gostaria de ser ou de ter o que outro é ou possui.
E, francamente, não consigo descobrir em mim tal sentimento. E, aqui neste escrito, procuro descortinar o motivo.
Primeiro, porque não conheço ninguém que, no seu todo, me desperte o apetite de ocupar o seu lugar.
Há, em todos, sobre os quais lance a minha análise, alguma coisa que não aprecie, embora, por outro lado, possa reconhecer qualidades, que essas gostaria de possuir.
Mas como não é natural invejar apenas parte, no todo não me trocaria por ninguém.
Prefiro sonhar e viver os meus sonhos.
E esses não me levam a substituir-me por um outro.
Conduzem-me, sim, a ver os meus anseios realizados. Só por mim.

SOMOS COMO SOMOS




Estou cada vez mais farto de ainda ter que aguentar com tudo que este mundo, que alguns chamam “de Cristo”, nos oferece por culpa exclusiva do ser humano, essa criatura que, conforme eu costumo dizer, quando foi inventada o autor da receita enganou-se nalgum produto que a compõe e lá introduziu algo que não devia fazer parte do conjunto. Depois de composto o elemento final é que se constatou que o resultado não seria bem aquele que era esperado e, provavelmente, até foi no q.b. que se verificou o erro.
Bem, mas posta de lado a gracinha que alguns crentes religiosos não estão dispostos a aceitar, no caso lusitano também se pode admitir a tese de que as misturas de sangue que foram formando o Homem que se instalou nesta Terra, as visigóticas, as celtas, as iberas e tantas outras que por cá passaram, para além das invasões francesas que também contribuíram para fazer filhos, sobretudo nas nossas Beiras, tudo isso acabou por formar isto que hoje circula na Pátria portuguesa e que mostra bem daquilo que somos capazes.
Que me desculpem os que são apaixonados inveterados pela raça que representamos, mas eu, na minha idade e não tendo tido nunca papas na língua, não chego a esta altura mascarando aquilo que eu sinto e aquilo que julgo ver.
Quando criticamos os políticos, incluindo os que estiveram nos múltiplos Governos e os que lá se encontram agora, os que se arrastam pelos partidos políticos, nas Assembleias que são uma garantia de boa vida e melhor recompensa, tanto antes do 25 de Abril como após a Revolução, não deixando de referir toda a marquesada que se encheu de mordomias na velha Monarquia, todos, de cima a baixo, o que quer dizer, não deixando de fora a população portuguesa em geral, constituímos uma espécie que, penso eu, não foi por acaso que se fixou nesta ponta da Europa.
Agora, que a crise tomou conta das economias, finanças e situações sociais do mundo inteiro, não se prevendo melhorias nos próximos tempos, será a altura mais adequada para reflectirmos seriamente sobre tudo o que foi feito no passado e, obviamente, como está a ser encarado o problema no nosso dia-a-dia, reservando a nossa atenção para a Casa onde nascemos e vivemos. E, sem receios nem complexos de apontar erros, pois só assim é que seremos mais conscienciosos, cada um, à sua maneira e com os meios de que dispõe, poderá ou deverá contribuir para que esta trampa de enredo em que nos encontramos vá sendo moderado, dentro das difíceis condições de que já dispomos.
E, como é meu hábito, como a Espanha se encontra encostada a nós, é natural que as comparações surjam com mais frequência com essa vizinha. Por exemplo, as Estatísticas oficiais de ambas as partes dizem que os espanhóis vivem mais tempo do que os portugueses, mas têm menos mestres e doutores. Por outro lado, o abandono escolar bate aos pontos na área portuguesa, assim como nascem por cá mais filhos fora do casamento do que do outro lado da fronteira.
No que certamente também ganharemos é nas penhoras aos contribuintes que o nosso fisco efectuou em 2007: 180 mil! E, quanto a dívidas do Estado a fornecedores, no mesmo ano atingiu 1,5 mil milhões de euros.
E digam lá que os portugueses, cidadãos comuns e responsáveis pelo Poder, não fazem parte de uma espécie que andou a catar defeitos por tudo que foram os nossos invasores de antanho!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O que é ter esperança
e ter fé no amanhã ?
é voltar a ser criança
agarrar-se ao talismã

E nas cartas esse crer
como nos búzios, nos astros,
é bom que se queira ver
o que está preso por nastros

Ler nas borras de café
e na redondinha bola
o que é preciso é ter fé
ver coelho na cartola

Não se deve criticar
nem que seja um aprendiz
que conjugue o verbo azar
pois só quer é ser feliz

Deixemos, pois, os mais crentes
iludir-se, pois então,
serão sãos, serão doentes?
uns dizem sim, outros não

Afinal, por esse mundo
vai-se vivendo de enganos
mas somando, lá no fundo,
muitos dias fazem anos

Isso é que é bem real
o resto são só histórias
mas o que é anormal
é ter apenas vitórias

Seja, porém, como for
cada um é como é
a mim não me falta amor
o que tenho é pouca fé



DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Parece que, por cá, a coisa ainda não é aceite em plenitude. Por esse mundo fora e até em países europeus, é considerada em absoluto pela classe médica. Mas, em Portugal, onde se mantém a convicção de que é terra de gente muito conhecedora em todas as áreas, a acupunctura é vista pelo canto do olho.
Os milhares de anos que têm servido para os orientais recorrerem àquela ciência e com sucesso, não chegaram para nos convencer da sua validade. Ainda é praticada, entre nós, à revelia de muitos profissionais médicos que, no entanto, se se vêm muito castigados por enfermidades que a medicina convencional não resolve, às escondidas acorrem à acupunctura.
Abordo este assunto por experiência própria. Até resisti a recorrer a tal ciência, pois fui antes operado a uma hérnia discal, mas, em face do problema mal resolvido com que me debati, perante o conselho que me foi dado à boca pequena, fui cair nas mãos do japonês. Atrevi-me. Deu resultado. Agora, aconselho a acupunctura até a amigos médicos. E faço-o também por provocação.
Continuamos a lastimar o facto de não conseguirmos uma aproximação, maior e mais rápida, quanto ao espaço europeu associado. Pudera, enquanto não dispusermos da coragem de reconhecer que, imitar as experiências realizadas por outros, sendo bem sucedidos, não é uma atitude desprestigiante, antes constitui um acto de bom senso, enquanto não nos despirmos de preconceitos não passaremos da cepa torta.
O Estado português – ou, por outras palavras, os governantes - que, por exemplo, gasta fortunas com remédios tradicionais, aqueles que ainda não se receitam em doses individuais, mas sim em embalagens, cujo conteúdo excede o necessário para o tratamento -, esse Estado é excessivamente lento a mudar o que lhe está implantado nos hábitos. E nós, os que cá andamos para pagar e para obedecer, não temos mais remédio do que sermos “pacientes”.
Pacientes de duas maneiras. Porque sofremos as doenças e temos de nos encher de paciência para suportar esta cambada que chega sempre ao poder e não é capaz de emendar o que está errado.

PROCUTRADOR-GERAL ADJUNTO



Não, eu não me calo em relação à Justiça que temos por cá e aos olhos fechados que fazem todos os que mandam para não mexer uma palha na vergonha que se verifica na condução dos processos que se amontoam nos Tribunais. Digo isto assim, de rajada, porque a desvergonha que se fixou no sector, não só agora, porque todo o mal, que vem de muito de traz, não permite nem sequer colocar uma vírgula para amenizar o texto, mas, na verdade, seja Natal ou outra data qualquer, por mais que surjam críticas de diferentes sectores, não há Presidente da República, Governo, Magistrados com poder, ou seja quem for que consiga dar o murro na mesa e gritar Basta!!!
Vá lá que o Procurador-Geral adjunto, António Cluny, resolveu soltar pela boca fora aquilo que sente sobre o problema e, não podendo eu afirmá-lo, dá a impressão que o fez por se encontrar no último mandato à frente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Seja como for, o importante é que se trata de uma voz com autoridade e que, em entrevista, respondeu com clareza às perguntas pertinentes que lhe foram feitas.
Afirmou que está desiludido com os caminhos que a Justiça está a percorrer, acrescentando que a crise, nesta altura, serve para desculpar tudo, mas que no nosso caso é o sistema que precisa de ser alterado e, quanto à actualidade, aos crimes que envolvem corrupção, não escondeu que a nossa Justiça não está preparada para actuar nessa área e deseja-se que continue assim para não punir os poderosos.
Quando é uma figura com a posição do referido magistrado que faz estas afirmações, que posso eu acrescentar que tenha mais valor e seja mais convincente? Temo-nos de conformar com este estado de coisas, muito embora, pelo menos da minha parte, não deixe de usar os meus blogues para não esconder tudo aquilo que me escandaliza. Se eu, já quando fui director de “o País”, nunca deixei de, com absoluta independência, apontar os erros, e foram muitos, que ocorriam em Portugal, isto no tempo perigoso do Vasco Gonçalves (por isso me puseram uma bomba nas instalações do Jornal), não é agora, ainda que apenas num blogue, me vá calar.
E já agora, apenas num apontamento rápido, deixo aqui, para reflexão de quem me lê, a notícia rápida e sem comentários de que a filha do Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, anda a comprar tudo por aí, desde grandes posições nos bancos portugueses – e ainda bem que o faz! – até a quintas sumptuosas, como é o caso do Palácio de Santar que, durante séculos pertenceu a familiares dos reis portugueses.
Enfim, há quem não precise que lhe saia um totoloto chorudo para dar mostras de riqueza farta, e muito menos somos nós, antigos colonizadores do território angolano, que vamos fazer qualquer comentário nesta altura. Nem por sombras!

domingo, 21 de dezembro de 2008

DIZER MAL

É fácil ver os defeitos
dos outros, claro está
podem-se tirar proveitos
pois dar é que ninguém dá

Alguém de que não se gosta
ou que não se simpatiza
fica logo bem exposta
a ser alvo da brisa

Ter língua muito afiada
não é raro, não senhor
serve para a punhalada
dada de longe, sem dor

Dizer mal mesmo sem bases
metendo dedo na ferida
mostra do que são capazes
os filhos da malparida

Não se dão conta, porém
de que o veneno que espalham
tem voltas de vai e vem
por vezes os amortalham

O pior é quem diz mal
do outro se diz amigo
afirmando-se leal
retira-lhe o abrigo

Amigos assim, meu Deus
bem melhor ter inimigos
são como os fariseus
só representam perigos

Mas há quem diga também
em forma de ideal
desprezando até o bem:
falem de mim, mesmo mal!





Reajo mal em relação aos que querem convencer-me de que uma mentira, dita por eles, com aquele ar de que não pode prestar-se a dúvidas, passa a ser verdade.
Por isso me dou mal com os políticos.
Mas, mentirosos não são apenas esses…

INGRATOS!




“Há sempre gente que não acha nada suficiente” – esta a frase que José Sócrates soltou aquando da cerimónia de lançamento da primeira pedra do Espaço Miguel Torga, na terra natal do saudoso poeta e escritor, que também foi médico em Coimbra e que, enquanto vivo, sempre foi ele próprio a editar os seus livros que, após a sua morte, já mereceram a atenção de editores profissionais.
Mas falemos do primeiro-ministro. As minhas críticas ao detentor do cargo máximo do Executivo vão dirigidas, acima de tudo, às suas declarações cada vez que resolve botar “faladura” e cujos tons e palavras, tenho que reconhecer, brigam com o meu sentido de estética. Bem sei que, no lugar que ocupa, não é fácil agradar a todos e também há políticos que dominam a arte de expor as suas ideias e nem por isso são acolhidos por maiorias de eleitores. Lembro-me, por exemplo, de Paulo Portas que, inegavelmente, tem um grande poder de palavra, mas que cada vez conta com menos adeptos ao seu Partido.
Mas, já que Sócrates goza de boa pontuação nas sondagens que têm sido feitas quanto à sua posição na escala dos mais admirados, até por isso deveria ter alguém que o aconselhasse a não ser tão admirador de si mesmo e do seu Governo, pois na situação actual do País, no plano financeiro e económico, para não falar no social, reconhecer que se praticam erros, que nem sempre se acerta nas decisões tomadas e, acima disso tudo, ter a maior das atenções quanto ao que fazem e dizem alguns dos seus ministros, todo esse conjunto de actuações não ficariam mal, antes pelo contrário, ao que exerce as funções de responsável máximo pelo bom e pelo mal que, politicamente, ocorre no nosso País.
Sócrates faria bem em tomar atenção às críticas que lhe são dirigidas e, caso fosse isso, reconhecer, aqui e além, que as Oposições têm a sua utilidade e seria até muito simpático se surgisse, de vez em quando, a dar, publicamente, a mão à palmatória, aplaudindo esta ou aquela ideia que tivesse origem fora do seu grupo governamental.
Mas isso, tenho de o reconhecer, é uma postura que os portugueses raramente tomam. Custa-lhes muito abdicar dos seus propósitos e agarrar as sugestões que não venham do seu próprio umbigo.
Por isso, talvez tenha a sua utilidade não se ser sempre vencedor em política. Só que não se vislumbra, no panorama actual dos partidos, quem esteja em condições de tomar conta deste barco que mete água por todos os lados. E os portugueses lá continuarão a fazer esforços para alimentar as esperanças, embora cada vez mais ténues, de ainda poderem gabar-se um dia de contarem com governantes de uma Pátria onde vale a pena viver.

sábado, 20 de dezembro de 2008

AMANHÃ

Chegado aqui
a esta hora da vida
já percebi
como foi triste a corrida
desenfreada
cheia de baixos e altos
desencantada
não faltaram sobressaltos
só compensada
pelo intercalar de sonhos
na busca imensa
da fuga dos enfadonhos
e com descrença
contemplo esta vida chã
e no escuro
não me censuro:
pois bem temo o amanhã!...

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

No meu bairro lisboeta, num jardim frondoso, existe um espaço que é dedicado às crianças. É ali que elas se regalam nos baloiços, nos escorregas e na areia da praia que serve para fazerem os seus castelos e brincar aos pasteleiros com as suas forminhas fingidas.
Sento-me, algumas vezes, num banco, dos que rodeiam o espaço infantil e procuro transportar-me a esse mundo da ingenuidade. Faço esforços para me sentir, também eu, menino da idade dos que estão ali e tento recordar o período da minha infância, em que poderia estar a gozar as fantasias que lhes são próprias. Não me chega à memória nenhuma sensação do prazer conseguido num jardim infantil. Será porque, nessa altura, não havia estes espaços. Não existia a preocupação de cuidar da juventude, da primeira. Ou, se havia, nunca ninguém lá me levou.
Procuro descobrir a sensação que a miudagem sente, quando pede aos pais para a deixarem ir brincar com os outros meninos naquele espaço. E mais ainda quando se põem a deslizar nos escorregas e a baloiçar-se naqueles assentos com cordas.
Claro que, por muito que me esforce, não consigo chegar lá. Não atinjo o meu desejo, Não pode um adulto, muito adulto, transportar-se até à idade da inocência. É um recuo impossível de fazer. A mim, talvez me tenha feito falta não ter passado por esse período das correrias, dos jogos inventados por cabeças virgens de maldade.
O que eu não sei é se os adultos, com menos idade do que eu, que tenham beneficiado na infância de tal experiência, são agora pessoas mais bem formadas, mais cuidadosas com a pequenada, verdadeiramente preocupados com a instrução, que fará dos homens de amanhã cidadãos melhores do que aqueles que hoje se confrontam com o mundo.
Deixo a pergunta porque, com o andar dos tempos, não tenho conseguido verificar que a miudagem de hoje é mais bem comportada, mais consciente, mais desejosa de ser gente capaz, do que aquela que, em épocas passadas, aprendia bastante na instrução primária e, com reguadas ou sem elas, entrava nos liceus a saber já bastantes coisas.
Convençam-me que estou enganado. Quem me dera!...

JUSTIÇA Á PORTUGUESA



A cinco dias da data natalícia, para mim com o peso pouco confortável de uma época que me entristece, e ainda por cima, por se tratar do dia em que fazia anos o meu pai, ao ter tomado conhecimento das notícias que, como está a tornar-se habitual, não se apresentam nada animadoras, por tudo isso e havendo ainda uma folga até ao dia 25, cá vou eu assinalar situações de tristeza que, tratando-se de ocorrências dentro do nosso País, por mais que se queira recorrer a uma certa abstinência de crítica não podem ser deixados em branco casos que não permitem, a mim pelo menos, meter a cabeça na areia e deixar passar.
É conhecido que um dos temas que mais afluem a este meu blogue é a complacência que se verifica, por parte das forças que têm poder para dar a volta ao assunto, no que respeita à actuação do sistema judicial português., e que nada fazem nesse sentido. E não são só as demoras escandalosas com o andamento dos processos – para não falar no julgamento Casa Pia que é exemplar no mau sentido –, mas também as decisões que saem dos meritíssimos juízes que, por mais razões técnica que apresentem, não podem deixar de pôr os cidadãos em completo alvoroço. E ainda se podem ler frases saídas da boca de pessoas mediáticas, que tem espaço nas páginas das revistas, como aquela lida hoje de um actor que não esconde a sua revolta com este dito “um país com uma justiça como a nossa, deveria ser rifado ou doado a quem dele precisasse”. Bem sei, é uma expressão pouco intelectualizada, mas dá bem mostras daquilo que o povo português pensa dos nossos tribunais.
Mas repitamos então aquilo que foi notícia hoje em vários órgãos de informação da nossa Terra. A que salta logo à vista, com um título a toda a largura da página, é de que o Ministério Público perdoa 20 empresas da “Operação Furacão”, acrescentando que pagaram 60 milhões de euros ao Estado e deixaram de ser arguidos. Isto, ao cabo de 3 anos de investigação.
Noutro periódico, lê-se que “juiz espanhol prende suspeito de tráfico de imigração ilegal que, em Portugal, tinha sido libertado”. E essa rede que operava desde a Ucrânia, passando pela Hungria, Itália e Espanha, nesses países fora alvo de condenações. Só aqui encontraram um El Dourado”.
Enquanto isso, a pequena Esmeralda, que foi acolhida e tratada com imenso amor como filha, por o pai biológico se ter recusado, à nascença, a reconhecê-la agora nessa qualidade, já com seis anos de idade e agarrada a quem só aceita como únicos pais, viu a decisão da juíza (ainda por cima uma mulher) de a obrigar a passar o Natal com aquele que a tinha recusado na altura na época pós-nascimento.
Então, lá por ser recomendado pela Igreja Católica que o Natal tem de ser um período de reconciliação e de boa-vontade entre os povos, deve-se fechar os olhos à realidade e não gritarmos bem alto a nossa indignação contra as misérias humanas?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

SANTA TERRINHA

Que pena que eu tenho de não ter uma terra
Onde pudesse voltar p’ra matar saudades
Fosse na planície fosse em qualquer serra
Daí onde tiraria grandes verdades

Mas não, apego não sinto a um local
Em que as origens fossem todo o meu ser
A razão de existir, a fonte do caudal
Que desaguei por aí, sem eu querer

Ir visitar a casa onde eu nasci
Passar pela rua que me levava à escola
Contemplar as árvores onde não subi
Ver se ainda lá estava o campo da bola

E a velha mercearia de um senhor Manuel
A igreja barroca com seus sinos sonoros
As colmeias no campo cheinhas de mel
E o belo ribeiro em que passaria horas

Tudo isso me falta, agora que eu penso
Como seria diferente a minha vida
Se algo de calmo, como cheiro a incenso
Tivesse encarnado na minha nascida

Essa marca forte de uma santa terrinha
Tal apego ao sítio que nos viu nascer
É sorte de outros mas que não é minha
Algo que me faz falta, enquanto eu viver

Só se eu voltar em outra encarnação
Se é que isso existe, como dizem tantos
Poderei assim obter a confirmação
De que, por fim, me calhariam tais encantos




DESENCANTO... POR ENQUANTO!

O nariz, nos seres vivos, tem uma função muito importante no nosso dia-a-dia. O olfacto exerce uma influência extraordinária no comportamento dos homens e dos animais. O cheiro atrai ou repele, satisfaz ou provoca mal-estar, mas não deixa ninguém indiferente perante os seus efeitos. Até a dormir, um odor estranho e pouco habitual, identificado ou não, o ar pestilento ou delicioso interfere com o repouso e desperta o mais ferrado dorminhoco.
Nas relações humanas, um mau hálito, por exemplo, provoca um afastamento rápido de quem se encontra perto, por muito atraente que seja o que escutamos e o que vemos. Os maus efeitos soporíferos têm igual efeito, claro.
Logo, o nariz humano comanda as relações, independentemente daquilo que a vista nos oferece. Podemos estar muito emocionados com um panorama, com uma obra de arte, com qualquer coisa que seja agradável contemplar, mas se, no lugar onde esse prazer é facultado, existir um odor repelente, não se perdoa o mal que se sente pelo bem que faz à vista. E o mesmo se passa com os ouvidos. Escutar uma bela melodia num ambiente onde o mau cheiro impera, por muito que se tape o nariz constitui um martírio difícil de suportar.
Daí se conclui que, se os olhos também comem, como se diz perante a beleza de um prato, e os ouvidos recusam os ruídos excessivos, no que diz respeito ao outro sentido, o do olfacto, homens e animais reagem rapidamente aos efeitos dos odores, quer os desagradáveis quer os que são dignos de ser apreciados.
Os irracionais então, com os seus sentidos muito mais apurados, aproveitam o efeito do vento para interpretar a sua origem e a distância a que se encontra a coisa que lhes provoca o cheiro que lhes entra pelas narinas. Se se passasse com os racionais tal fenómeno, conhecia-se à distância quem estava a chegar e evitava-se o contacto.
Este mundo caminha com grande rapidez para um outro que se mostra cada vez mais mal cheiroso. Enquanto a água chegar para limpar a sujidade provocada pelos seres humanos, lá iremos repelindo os maus odores. No futuro, perante o aumento demográfico excessivo, o que parece inevitável, o amanhã dirá como se resolverá o problema. Haja esperança de que o Homem, entretanto, ganhe consciência do que o espera. E tome precauções.



MERECER HONRARIAS



Todos nós, que tivemos algum contacto com dizeres de filósofos gregos, fixámos algumas frases que foram ficando ao longo dos séculos e que, nos dias de hoje, continuam a ter cabimento na nossa vida. Aristóteles, por exemplo, foi fértil em frases sábias, o que demonstra que a necessidade do ser humano reflectir na sua actuação do dia-a-dia não é só de hoje. Será até desde que o Homo Sapiens se empertigou e o seu comportamento ficou bem definido no contacto com os seus parceiros. A mim, não me custa supor que o Homem, desde o seu aparecimento, seja qual for a origem e o modo de ter dado mostras da sua existência, não teve um relacionamento, com os outros e com a própria Natureza, em moldes de poder ser considerado um bem absoluto e merecedor de elogios.
Bem, mas vamos lá a Aristóteles e a um dos seus ditos. Este, por exemplo: “A grandeza não consiste em receber honrarias, mas em merecê-las”.
Na época em que vivemos, a busca de honrarias, a aspiração por receber graduações de qualquer espécie, a ânsia de sermos reconhecidos com manifestações de aplauso, essa busca de nos colocarmos no pedestal é de tal forma doentia que nem nos interessamos em reconhecer se estamos em condições de superioridade que justifique o elogio dos que nos rodeiam.
Há prémios que, em face da classificação que atingiram e da formação de julgadores que se congregam não deixam dúvidas de que são merecidos. Por muito que a nossa opinião seja diferente, temos que aceitar a atribuição. Os Nobel, por exemplo, situam-se na categoria das escolhas sérias e, sobretudo nas classes que estão mais ao dispor da opinião pública generalizada, como é a da literatura, porque se encontra à mão fazer um juízo e, daí, gostar ou não gostar é coisa que cabe a cada um expressar, mas a verdade é que só ficam verdadeiramente revoltados os escritores que não foram galardoados com tal honra.
Voltando a Aristóteles, essa de ter capacidade para ser feito um exame de consciência profundo para analisar se se merece ou não determinada posição de grandeza, aí é que é mais custoso chegar, porque a maioria da gente tem-se a si próprio como acima da média, quando não se julga estar no cimo do poleiro, a ver todos os outros lá por baixo.
E a culpa, muitas vezes, também é de certos atribuidores de honrarias que são despidos de qualificação para esse gesto.
Estou-me a lembrar de algumas comendas que são atribuídas por alguns Presidentes da República e que deixam ficar os portugueses a perguntar-se o motivo de tal exagero.
Mas fico-me por aqui. É maisprudente.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

VERSOS LIVRES

Aqui estou eu à frente do papel
à espera que a inspiração me chegue
olhando para a rua a ver passar
aqueles que não olham para a folha
em branco à espera de estar cheia
de letras, de palavras e de versos

Serão felizes esses que não puxam
por um génio que não lhes faz falta?
Quem sabe se não seria melhor
conhecer tudo sobre o futebol
preocupar-me só com o meu clube
e andar em dia com o jet-set?

Se fosse assim, poemas não fazia
e descansava quem vier a ler
todos os versos livres e bem livres
porque de rima mesmo nada têm
e a cadência é o que lhes resta
mas mesmo assim encheram o papel

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Para estar vivo, ajuda muito o querer-se.
Para tratar as doenças, pelo menos algumas, é importante acreditar-se na cura, começando por crer no curador.
As longas esperas nos consultórios e pior ainda nos hospitais públicos, seguidas de um certo atendimento cansado, distraído, até mal-humorado será a causa dos pouco resultados obtidos com muitas medicinas que não conseguem debelar as enfermidades.
Por vezes, as mesinhas recomendadas por curandeiros sem diploma conseguem efeitos positivos, apenas e só porque a freguesia que frequenta tais locais de consulta enfrenta a situação com muita fé, por ter conhecimento de resultados positivos noutros felizardos.
Em Portugal, onde há cada vez mais escassez de médicos, devido, em grande parte, às dificuldades postas para a entrada de alunos na faculdade respectiva, faz com que, com aumentos sucessivos, os clínicos espanhóis exerçam a sua profissão neste lado da fronteira.
Só que por aí não vem mal ao mundo. O pior advém das razões dessa realidade.
É, de facto, desconsolador verificar-se que, em Portugal, tardam muitos anos a solucionar-se problemas que estão à vista de toda a gente as formas de dar a volta.
Neste caso, sabendo-se que um médico demora seis anos a ser feito, ainda que no início da carreira, como é possível assistir-se à partida da nossa juventude para o estrangeiro, para Espanha principalmente, para poder obter a carteira médica?
Quando a História, daqui a anos, referir este facto, será difícil entender o que passou na cabeça dos sucessivos governantes que permitiram tal anomalia…
Por agora, que se enfrenta esta situação, resta fazer coro com os optimistas quando dizem que “enquanto há vida há esperança!”
O pior é quando acaba a vida sem ver a esperança transformar-se em realidade.

PARQUE MAYER



Que bom que é saber que o Parque Mayer vai ter de novo a vida que lhe era conhecida de tempos idos, agora, naturalmente, com novos moldes, mais modernos, com teatros de revista confortáveis e amplos e com um pouco de diversões que não terão que ser obrigatoriamente as dos tirinhos e a dos carros dos empurrões e, com toda a certeza, recheado de restaurantes de todos os tipos, mais baratos e o contrário, parqueamento e tudo que a imaginação for capaz de lá meter.
É uma satisfação tomar conhecimento de que, de novo, o Parque Mayer caiu nas intenções de lhe ser dada vida, depois de tantos anos abandonado e a cair aos pedaços, como tudo que acontece em Portugal sempre que se encerra alguma coisa que antes, mal ou bem, sempre dava mostras de existir.
Depois daquela loucura de Santana Lopes, que deu o primeiro passo mas logo esbarrou na megalomania, entregando o projecto a um arquitecto americano, tão famoso de nome como de preço, o que acabou por ficar-se pelos projectos com a Câmara a olhar para a caixa vazia de dinheiro, após esse inútil passo, se estava mal o Parque ainda ficou pior. Parado!
Pois bem, se a alegria agora surge com a notícia de que dois arquitectos portugueses venceram o concurso público internacional para requalificação do Parque Mayer e a zona envolvente, tendo sido esclarecido que o Jardim Botânico, que vem desde a rua da Escola Politécnica, tudo numa área de 32 mil metros quadrados e vindo até à avenida da Liberdade, será a área que virá a ser ocupada com um hotel, salas de espectáculos, biblioteca, livrarias, artes plásticas e residências de artistas, para além de outros usos, funcionando tudo como um grande espaço público e apenas acessível aos peões, com escadas rolantes e ascensores para vencer os grandes desníveis que apresenta todo o terreno, se isso acontecer ficamos de parabéns.
Vamos lá a ser optimistas. Admitamos que para tamanha e sumptuosa alteração do que foi o velho Parque Mayer existem fundos que cheguem para toda a obra, sem ter de a interromper a meio à espera de auxílios que são sempre jeito. Tenhamos esperança de que o prazo que for estabelecido para todo o trabalho não seja ultrapassado para o dobro ou para o triplo, coisa a que estamos habituados por cá. Acreditemos que o projecto que for aprovado não venha a sofrer alterações, por se verificarem impossibilidades práticas do que a teoria admitiu.
Se tudo correr como é, certamente, o desejo de todos os lisboetas, Se os mais velhos conseguirem ainda assistir à inauguração de um espaço que se encontra na memória dos frequentadores habituais do antigo Parque Mayer, então será caso para dizer que ainda há quem cuide de olhar por Lisboa e não a deixe prosseguir na decadência que tem ocorrido desde há uns anos largos para cá. Corresponda o projecto àquilo que a maioria de nós gostariamos de ver, mas mais vale alguma coisa do que o triste vazio de agora
Vamos lá a ver o que se vai passar com a nova equipa que irá tomar conta da Câmara, após as eleições que se aproximam. Também nisso é necessário ter alguma esperança.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

TODO O TEMPO DO MUNDO


Ter todo o tempo do mundo
Dizem os não apressados
Mas no fundo, bem no fundo
Vivem algo amargurados

Dão ares de quem não corre
Fleumáticos no aspecto
Mas à pergunta quando morre
Treme-lhes todo o esqueleto

Ir devagar e sem pressas
No relógio confiados
Faz com que peçam meças
Até aos mais apressados

No fundo abraçam o lema
De que fizeram certo alarde
E repetem como tema
É cedo para ser tarde





DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Andei, um dia destes, às voltas para encontrar uns apontamentos que me lembrava de ter escrito e que me apetecia reler. Às vezes tenho destas coisas.
Procurei por toda a parte, revolvi gavetas, desmanchei pastas, meti as mãos em cacifos onde não seria muito normal encontrar-se o que procurava e foi aí, afinal, que acabei por descobrir uma quantidade de outros manuscritos que já nem tinha a mais leve ideia de que tinha sido eu o autor.
É sempre assim: a maneira mais rápida de encontrar algo inesperado é procurar e encontra-se quase sempre aquilo que não se procura.
Pois, no meio da papelada que não tinha estado na preocupação da minha busca ao guardado, fui dar com um papel amarrotado, que nem consigo perceber o motivo por que não foi parar ao caixote do lixo. E, com surpresa, apesar do muito tempo que tinha de arrecadado, despertou-me a atenção, fui reler, e fiquei surpreendido com a qualidade do texto que tinha produzido. Afinal, parece que, como o vinho, o manter em sossego certa produção artística acrescenta-lhe qualidade, adiciona-lhe fermento ou seja lá o que for que, tempos mais tarde, lhe provoca um certo sabor que antes passaria despercebido. Será por isso que os pintores, de uma forma geral, não começam e acabam um só quadro de enfiada, antes vão desenvolvendo o seu trabalho, vão fazendo, pondo de parte para voltar a ele noutra altura, mais tarde, quando a inspiração lhe indica o caminho a seguir.
O apreciar um escrito também tem uma dose parecida. Pode ser produzido de rajada, como, de igual modo, não será pior que fique algum tempo “de molho”, ganhando paladar, para se mastigar melhor e ser mais digerível.
Não é, nem pode ser, uma regra. Há prosas e poesias que têm o seu tempo. Como há ocasiões em que o que se lê mais tarde soa a azedo, diferente da qualidade que terá parecido ter na hora de ser produzido. Nem sempre é a idade que melhora a escrita.
Comigo, o que se passou foi que não encontrei um texto e acabei por dar com outro que ganhou com a arrecadação no meio dos papéis perdidos. Isto há cada coisa!...

QUE FESTAS1...



Por muita vontade que tenha de não estar sempre a encontrar defeitos nos acontecimentos que ocorrem no nosso País, por mais contrariado que me encontre cada vez que faço um escrito em que a maior parte do espaço ocupado se confina aos erros praticados neste cantinho, não consigo disfarçar, passar em branco os erros que por cá ocorrem e apenas glorificar-me com as coisas que merecem elogio. Não consigo.
Pois, nesta época de festas natalícias, dentro da tradição que vem de tempos muito recuados, até dá a impressão que as notícias que surgem, em Portugal mas não só, servem para ficarmos ainda mais desgostosos com as maldades humanas. Sim, porque é da parte dos homens que se verificam os maus comportamentos que merecem repreensões e castigos. Vou fazer uma lista dos casos que se encontram actualmente bem à mostra nos noticiários de todas as origens:
No exterior, as coisas não andam boas. E não é só a tal crise que traz o mundo apreensivo, embora isso já chegasse para pormos os olhos no chão. A “moda” dos terrorismos pegou em toda a parte e as cinco bombas que foram desactivadas e que se encontravam no conhecido Printemps, de Paris, são a prova inegável de que nem se pode já fazer turismo em locais antes bem protegidos e agradáveis. Sair de casa é um risco, se bem que ficar metido nela também não constitua protecção absoluta.
Em termos caseiros, as coisas são mais folclóricas. Imagine-se que se tornou público que Dias Loureiro recebeu, em 2002, 7,14 milhões de euros do BPN, por ter vendido as suas acções da empresa proprietária daquele banco, quando deixou de ser administrador daquela sociedade. Um homem que tinha vindo da terrinha com as mãos a abanar, bastou-lhe passar por um governo para poder ficar milionário!
Manuel Sebastião, mal tomou conta do lugar de presidente da Autoridade da Concorrência, renovou o seu carro de serviço, pois que isto de tomar posse de um cargo novo impõe também estrear automóvel… e dos caros! Terão alguma coisa a ver as mordomias com a contemplação dos preços dos combustíveis levarem tanto tempo a baixar, quando nas subida eram imediatas? Pode ser que não, mas dá que pensar!
As grandes empresas estão a fechar com preocupante rapidez e agora foi a Mabor que sente os efeitos da crise e vai mandar para casa os seus 1.500 trabalhadores. Dizem que é uma “paragem”, e oxalá seja só isso.
Finalmente, parece que os grandes da finança começam a ver as suas costas menos quentes. Os ex-administradores do BCP vão ser acusados de prestação de falsas informações ao mercado para esconder operações financeiras. Vamos a ver como isto tudo fica no final, porque, por agora, cada um segue a sua vidinha!
Mas também os grupos partidários atravessam um período de alguma conturbação. O PS, como se sabe tem para resolver a situação de Manuel Alegre que, desde há certo tempo, dá mostras de não seguir fielmente os passos de Sócrates e parece querer independentizar-se politicamente.
No PSD, a confluência em redor de Manuela Ferreira Leite não está firme. Há quem conteste ou o seu silêncio ou as intervenções que tem tido. E aquela do Santana Lopes vir a ser candidato à Câmara de Lisboa!...
No CDS, já são cem os militantes que anunciam ir bater com a porta, contra o seu Paulo…
Com tudo isto cá me fico. Mas como eu também, como já disse, não permaneço muito feliz na época do Natal, não é com tudo isto que me estragam ainda mais o período.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Todos temos uma opinião inabalável, imutável, perdurável?
Aquilo que afirmamos hoje, será válido daqui a dez anos?
E dentro de pouco tempo é sustentável ainda um ponto de vista expresso antes? Nunca mudamos de parecer?
O que estou a escrever hoje, redigiria. da mesma forma, daqui a alguns meses? Introduziria alterações ou deixaria tudo na mesma?
Não sei responder com exactidão a todas estas interrogações.
Mas, o mais provável é que não seja tão constante como talvez gostasse de ser.
Como também admito o contrário, que é saudável que se vá mudando de pontos de vista, de gostos, de sentimentos.
O não ser estático nas posições anteriormente tomadas, demonstra que a inflexibilidade é causadora da monotonia.
É por isso que, ao escrever, nunca leio as linhas que vão ficando para trás.
Tenho receio de as riscar todas. De as reescrever de alto a baixo.
De não deixar que alguém as chegue a ler algum dia.
Mesmo podendo ser um ganho para todos. Que pretensão!...


FUTURO

Neste País onde estamos
onde nascemos, vivemos
ainda nos conservamos
temos aquilo que temos

E é pouco, coisa pouca
e cada dia é menos
a caixa vai estando oca
à fartura só acenos

Mas que podemos fazer
que nos resta nesta hora
em que é enorme o muro?

Já nem se pode crer
não serve ir para fora
não me apetece o futuro


FRIOZINHO



O Instituto Nacional de Estatística, volta não volta surge com dados que nos deixam informados mas, ao mesmo tempo, também com maiores preocupações dos que as que já sentimos na nossa vida diária. Desta vez veio pôr-nos ao corrente de que 18 por cento dos portugueses vivem com 379 euros por mês, ou seja cerca de 12,5 euros por dia.
Por aqui se vê como anda tanta gente neste País a arrastar-se, sem ter a noção do que é viver, nem sequer medianamente, e a tomar conhecimento de que uma porção, pequena embora, de bem-aventurados aufere verdadeiras fortunas todos os meses e regala-se com a excessiva abundância em que se movimenta. Se há Justiça divina ou seja lá aquilo que for, pergunto-me como é possível admitir-se que as desigualdades atinjam foros tão monstruosos e que os mais desfavorecidos sejam aqueles que mais oram a agradecer as graças vindas do Alto.
E, nesta Terra onde habitamos, a revolta ainda tem de ser maior, sobretudo quando se toma conhecimento, por um lado, das faltas de meios mínimos para manter uma existência reduzida mas sofrível e, por outro, receber a informação de que os produtos mais essenciais aumentam constantemente de preço, como é o caso hoje anunciado de que a electricidade sobe 4,3 por cento, o que constitui a obrigação de diminuir drasticamente os gastos com a luz, isto é, apagarmos as lâmpadas quando não são necessárias e, nem por sombras, ligarmos o aquecimento para além do mínimo dos mínimos.
É assim. Tendo-se Portugal como um País de clima temperado, a verdade é que se sofre mais de frio por cá do que noutras Terras com temperaturas abaixo de zero. Porque, por lá, o aquecimento está sempre ligado, dia e noite, o que não é hábito pelos nossos sítios.
Aguentemo-nos, pois, que já é o costume nacional!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

QUANDO

Quando cedo nasce o sol
e a vida se prepara
para desfiar o rol
há que olhá-lo na cara

Quando se enfrentam os males
e bens, pois é tudo igual
pedindo nossos avales
aí há que ser curial

Quando surgem os problemas
Que o dia-a-dia nos traz
há que enfrentar os sistemas
e resolvê-los em paz

Quando são as alegrias
que de tudo nos compensam
há que tirar mais valias
aceitá-las como bênção

Quando tão rebelde o mundo
nos prega uma partida
há que ir até ao fundo
procurar uma saída

Quando o dia está escuro
bem triste se nos depara
há que pensar no futuro
pois com fé sempre aclara

Quando nos amores se acaba
final que se tinha em vista
nem o mundo se desaba
nem isso é o fim da pista

Quando o vento é a favor
quase tudo corre bem
não há ódio nem amor
que constitua um porém

Quando a sorte bate à porta
e aparece de surpresa
cuidado que a vida torta
essa sim não dá defesa

Quando um artista afamado
tem momentos de secura
se a arte está noutro lado
sentirá grande amargura

Quando para o quadro encher
com tintas luta o pintor
acaba por entender
que toda arte tem dor

Quando num parto custoso
vem a surgir outro ser
pode que seja um famoso
o crio que vai nascer

Quando, quando se interroga
e nem sempre há resposta
é como tomar a droga
ou não ganhar uma aposta

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Cada vez mais tenho a sensação de que, para os outros, fui sempre alguém do lado de lá. Não só para os mais afastados, mas também para os parentes. Quanto mais tempo vivo, mais me convenço desta realidade, E, nesta altura, não vale a pena disfarçar que não é assim. A culpa, se é que se pode querer descortinar culpado nesta situação, terá de ser atribuída apenas a mim. Porque não serei abertamente comunicativo. Porque não pertenço àquela maioria de pessoas que mostram dar grande importância ao que os outros dizem, sobretudo quando internamente não atribuem valor suficiente para isso. Será por não ter esse sentimento de interesse demonstrativo, que tanto agrada aos outros interlocutores. Será por isso. Mas, seja pelo que for, a realidade é essa: Provoco pouco sentimento de intimidade nos outros.
E a verdade é que nem sei se sinto falta dessa intimidade. Dessa cumplicidade. Mesmo no que diz respeito aos amigos mais chegados, nunca senti esse entrosamento, daqueles que dá para trocas de confidencialidades. O meu íntimo sempre foi resguardado e, talvez por isso, o dos outros nunca me foi revelado. Antes assim.
Aquilo a que se chama “abrir-se” com alguém, foi coisa que nunca fez parte dos meus costumes. Sobretudo, porque não creio que interesse ao próximo saber o que vai no meu íntimo. Poderão, por simples curiosidade, escutar o que lhes transmitisse de muito privado que existisse no meu âmago, mas mais do que isso não se passaria.
Estar do lado de lá é, pelo menos, estar nalgum sítio. Digo eu, para justificar o meu ponto de vista. Estar em todos os lugares, do lado de cá e do lado de lá, mostrar abertura e até entusiasmo quanto ao que se escuta numa conversação, é uma forma de estar na vida para além de ser cómodo. E não importa averiguar o grau de verdade que existe em tal posição. Se eu fosse assim, só tinha a ganhar no capítulo da apreciação dos outros a meu respeito.
Mas, quanto à apreciação de mim para mim próprio?

MANUEL ALEGRE



Este acontecimento, que está a ser tão divulgado, do deputado socialista Manuel Alegre admitir formar um novo partido de esquerda, deixando, por isso, de fazer parte do PS, leva-me a colocar aqui algumas notas que se relacionam com o poeta, homem que eu, particularmente, estimo e considero.
Ora bem, eu acompanhei bastante do seu exílio na Argélia por via de um outro grande amigo meu, com quem convivi largos anos, desde que foi expulso do PCP, Fernando Piteira Santos, que, por sinal, também fugiu de Portugal, em boa parte com a ajuda que lhe prestei na altura em que estava a ser perseguido pela PIDE e que, por isso, não foi mais uma vez preso e conseguiu partir para o mesmo destino, e esse conhecimento de como andavam as coisas lá por Argel deveu-se à correspondência, via Paris, que mantivemos ao longo de todo esse exílio.
Depois do 25 de Abril, era eu director do semanário independente “o País”, que mantinha uma coluna chamada da Direita e outra denominada da Esquerda, nesta onde escreviam Jaime Gama, Piteira Santos e Manuel Alegre, como prova de que a Democracia tinha que dar sinal de vida também na Imprensa, nessa altura, num encontro que tivemos, por sinal na inauguração da sede do PS no largo do Rato, Alegre, assistindo a esse gesto o próprio Mário Soares, dirigiu-se-me, com aquele vozeirão tão característico, a avisar-me de que, se eu continuasse a aceitar no meu Jornal “aqueles fascistas do Henrique Mendes e Artur Agostinho”, que escreviam na coluna da Direita, ele deixava de prestar colaboração na coluna da Esquerda.
Perante este ultimatum - e eu nunca aceitei imposições - de imediato tive a reacção que me custou muito tomar: “pois muito bem, ficam os colaboradores da Direita!”, foi a minha resposta e assim procedi, muito embora não fosse amigo de nenhum dos que escreviam em tal posição.
Passou-se tempo e, de novo, estive com o Manuel e, a propósito de qualquer coisa, lembrei-lhe a atitude que tinha tomado anos antes. Ficou surpreendido e largou-me: “Eu fiz isso? Que disparate!...” E ficámos por aqui.
Ora, esta possibilidade de vir a surgir um novo partido por inspiração de Alegre, eu, por mim, compreendo a insatisfação com a liderança de Sócrates, porque também a sinto, sobretudo no que se refere à forma como o primeiro-ministro fala para o País. Mas, em consciência, não vejo que outro grupo partidário esteja em condições de ocupar o lugar do Governo. Do PSD, nem é preciso falar. Os restantes não têm eleitorado que chegue para lhes prestar ajuda. Quem pode perder a maioria são os socialistas, mas, ainda que governar nessas condições seja muito difícil, não é de crer que venha a ser mostrado por Sócrates capacidade para ultrapassar a situação complicada em que Portugal se encontra. É que o actual chefe do Governo não sabe ouvir. Julga-se sempre dono da verdade. E não há ser humano que seja detentor da razão em todas as decisões que toma. E é uma pena que tenhamos, nas próximas eleições, que ficar na mesma.
Mas, Manuel Alegre, penso eu, não irá conseguir apoiantes que cheguem para formar um partido de Esquerda que sirva para alguma coisa. Ficar dentro do PS e, no seu seio, fazer todos os esforços para conseguir chamar o líder à realidade, isso sim seria da maior utilidade. E mostrar no exterior que existe Democracia dentro do Partido e não um socratismo que só prejudica o próprio.

domingo, 14 de dezembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Gosto de ver as minhas mãos despidas de anéis.
Nunca tive e não me fizeram falta nenhuma.
Se fosse rico continuaria a manter os dedos despidos de enfeites.
As mãos limpas de sujidade e de adereços, sejam eles quais forem e com o valor monetário que tiverem, são mãos que significam pureza, nem que seja apenas exterior.
Se à tal limpeza à vista se puder juntar, por pouco que seja, alguma pureza íntima, então o ser humano tende a aproximar-se, mesmo que longinquamente, da perfeição.
Hoje deu-me para aqui: os dedos sobrecarregados de anéis, agridem. Pelo menos a
vista.

JÁ NÃO TENHO IDADE

Já não tenho essa idade
passou o tempo de a ter
perdi também a vontade
de pensar que vou morrer

Já não tenho tal idade
para incómodos fatais
p’ra merecer caridade
até dos que estão iguais

Assim faço eu na vida
quieto aqui no meu canto
passou tudo de fugida
e nem sequer fui um santo

A aguardar p’la minha hora
penso bem no tal momento
no velho por quem se chora
no que sou e me contento

Quando passa essa idade
p’ra outras coisas fazermos
obrigar-nos é maldade
podemos ficar enfermos

Há aqueles que não crêem
que a idade muito pesa
pois coitados não se vêem
ao espelho, é só beleza

Passada a idade bela
quando é tão fácil tudo
agora toda a cautela
me torna mais façanhudo

Não senhor, não tenho idade
p’ra fingir que não sou velho
quer no campo ou na cidade
o que me sinto é bem relho

Relembrar tempos antigos
antes de haver liberdade
enfrentando os perigos
para isso tinha idade

Muitos amigos de então
recordo-os com saudade
mortos ou velhos estão
já passaram a idade

A juventude de hoje
gozando a mocidade
já não se esconde nem foge
como eu com a sua idade

Nem p’la cabeça lhes passa
sequer a dor a metade
hoje pode até ter graça
não tinha naquela idade

Mudou muito cá a vida
de voltar não há vontade
p’ra enfrentar tal ferida
eu já não teria idade



CENTENÁRIO? NUNCA!



Cem anos! Que horror! Cumprir essa idade, mesmo que, excepcionalmente, como é o caso do realizador Manuel de Oliveira que chega a tal ponto com invejável agilidade mental, porque a física, essa, como não podia deixar de ser, tem de ficar para trás, atingir um ser humano tal situação é coisa de que não tenho a mais pequena aspiração, sobretudo quando me faltam apenas vinte e dois para apanhar essa carruagem da vida.
Falo por mim, como é óbvio, pois não aspiro a restar um peso morto para os outros, especialmente se não conseguir exercer em pleno aquilo que mais prezo, que é poder escrever sem restrições de qualquer espécie, e não ter capacidade para ler os meus livros, os novos e os antigos, de fazer os meus poemas e de pintar os meus quadros... tudo para ficar para depois.
Por isso, o ideal é, na hora do fim da caminhada em pleno, dizer adeus e passar para outro lado, seja ele qual for, mesmo que não seja nenhum. O acordar morto é o maior bem que pode suceder a quem já cá não anda a fazer nada!
Por enquanto, a consolação ainda é a de ver amigos da nossa geração que continuam a mexer-se, alguns fazendo esforços para se mostrarem em forma, sobretudo se, ao longo da sua vida, deram sinais de saliência em qualquer actividade que desempenharam. Vem-me ao pensamento um actor que, como uma idade igual à minha, me deu o prazer de ter participado na sua estreia, na primeira actuação em que participou e em que ganhou ao primeiros tostões: Raul Solnado. Eu conto, com brevidade:
Na minha juventude, por ser amigo do dono do cabaret Maxime, Carlos Cabeleira, tio do agora muito conhecido pianista e maestro de conjunto José Cabeleira., alí ia com frequência como quem se reúne num café com os amigos. Assim lá ia e sentava-me à mesa com o Carlos, até que um dia surgiu a ideia de se introduzir uma actuação de estilo nacional, para descansar um pouco dos ballets com espanholas que enchiam o palco todas as noites. E aí nasceu a possibilidade de eu entrar a pôr a iniciativa de pé e, numa penada, escrevi um texto que se intitulou “O Sol da meia-noite” e em que o protagonista único era um amolador de tesouras, para o que foi convidado o ainda não actor profissional José Viana, que frequentava o centro de amadores de teatro chamado Guilherme Cossoul.
Mas, a actuação do depois grande José Viana, por culpa do seu isolamento em plena pista do Maxime, não resultou como se desejava e foi aí que se entendeu transformar em diálogo o que até aí era apenas um monólogo. E foi o Zé quem aconselhou a contratação de um jovem que andava também na Academia – o Raul Solnado.
E lá apareceu um rapazinho que, por sinal dava sinais de gaguejar. E foi para ele que tive de acrescentar o texto, cuidadosamente para que as frases não fossem muito extensas. Foi a sua primeira actuação a ganhar dinheiro, por sinal 50 escudos por noite. E até me contou, anos mais tarde, que entretanto tinha sido aumentado para 70 escudos.
Vale a pena chegar a esta altura e ainda ter memória para este tipo de recordações. Mas ir até aos cem anos e não ser capaz de, por exemplo, escrever este texto, isso eu não desejo!