sábado, 31 de outubro de 2009

DESCONSOLADO

Aqui estou eu, desconsolado
a ver passar o mundo
à minha volta
sem que nele interfira
sem que o melhore
mas também pouco
o piorando.
Sou mais um
dos milhares de milhões
que por cá andam
a consumir o ar,
a água, o ambiente,
o espaço e que contribui para que o amanhã
seja muito pior,
mais escasso de tudo,
menos belo,
menos natural.

Aqui estou, enfastiado
já sem me importar
com o que vem a seguir,
com o que vai ser o futuro,
aquele que não me vai encontrar...
para me desconsolar

FACE OCULTA



EU BEM tomo conhecimento dos comentários que me enviam e, tirando aqueles, felizmente bastantes, de aplauso quanto ao que escrevo, surgem também os que tomam a posição de me acusar de ser excessivamente pessimista. Mesmo tratando-se de opiniões pouco frequentes, não deixo de me inquietar porque tomo sempre atenção ao que os outros opinam e tenho de levar em conta a razão que lhes poderá assistir.
Porém, como ainda hoje sucedeu, ao dar a volta a todas as notícias que busco nos vários meios de que disponho, por mais que quisesse encontrar assuntos que dessem para transmitir alguma satisfação, um certo optimismo, a verdade é que nada me chegou que pudesse nesse sentido aproveitar no meu blogue. E, bem ao contrário, os noticiários deram grande relevo ao caso dito de corrupção que envolve empresas com participação do Estado e a constituição de arguidos suspeitos de estarem envolvidos no que tem já o nome de “Operação Face Oculta”.
Poderia passar por cima, ignorar este caso e, para não dar assunto aos que me acusam de falta de optimismo, ir directamente às situações que também surgem nas primeiras páginas dos jornais e que dão grande relevo aos casamentos desfeitos, aos namoros que se interrompem, às gravidezes que algumas figuras mais ou menos conhecidas assumem e ficam satisfeitas de tornar públicas, assim como a outros assuntos de igual menoridade noticiosa. Mas não foi por aí que entendi seguir na preparação do texto que dou a conhecer. Não pude fugir de considerar como tema principal aquilo que está a ocupar o sector de investigações, policiais e já mais adiante, posto que a corrupção, num País como o nosso em que a situação social se encontra tão melindrosa, tem de ser devidamente apontada não permitindo que passe despercebida, já que o andamento nos Tribunais se encarrega sempre de fazer esquecer na opinião pública os problemas que deveriam ser mais rápidos a merecer os respectivos julgamentos.
Não vou demorar-me, por hoje, neste caso. Deixo para mais tarde referir-me ao que começar a sair como esclarecimento de quem são os envolvidos numa situação que cheira a milhões de euros, posto que situações deste tipo envolvem sempre quantias muito altas e beneficiados que pertencem ao grande grupo de figuras que se sabe que têm um nível de vida muito acima do normal.
Mas, sem entrar numa área por agora muito sensível, basta que deixe aqui referido o caso de Armando Vara, que não sendo uma excepção, antes pertence a um grupo de gente que muito tem beneficiado com a situação política que se tem vivido por cá, fará reflectir bastante os portugueses comuns, pois que a sua ascensão foi tão rápida e tão satisfatória para o próprio que leva a perguntar se não existe forma de impedir que casos semelhantes e tão extravagantes sucedam com tanta frequência. Este felizardo, que passou de funcionário simples da C.G.D. lá no interior do País, inexplicavelmente para a função de vice-presidência do BCP e que, não só isso, pois beneficiou da subida rápida de escalão dentro do Banco público, o que lhe dá uma reforma, a seu tempo, que excede enormemente o que os seus colegas antigos vão auferir quando chegarem a essa situação de reformados, pois tudo isso lhe sucedeu graças ao caminho que tomou dentro da política e que, como a tantos outros, permitiu acumular benesses verdadeiramente escandalosas.
Graças a António Guterres, conseguiu chegar a lugares no Governo, como secretário de Estado e como ministro, até que, no ano 2000, se viu envolvido por um escândalo que merece outro texto para o lembrar. Não lhe foi atribuída qualquer responsabilidade e Armando Vara, não sendo uma excepção, conseguiu sobreviver a todas as situações e coube-lhe agora uma nova referência a um caso que promete.
Promete o quê? Pois será mais uma situação que, se não for uma raridade de tudo a que estamos habituados a assistir, ficará nas conhecidas “águas de bacalhau”.
Sou pessimista? Digam que sim, digam… mas depois não se queixem!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DIVERSOS

Muito amor diz-se eterno
são juras de namorados
ninguém diz que tais amados
mandam juras p’ro Inferno

Um bom livro é bom amigo
por muito mau que ele seja
também provoca inveja
se escrever eu não consigo

Ter a certeza é banal
naqueles que poucos sabem
e na dúvida não cabem
dentro do erro fatal

São sempre os negativos
que nunca dizem que sim
não concordam com o fim
usam mal os adjectivos

Sou daqueles que acredita
que quanto mais estudamos
mais ignorância alcançamos
descobrindo tal desdita

O tempo tal corredor
mesmo sendo conselheiro
acaba por ser coveiro
de tristeza ou grande amor

E quem não quer fazer nada
mas critica quem bem faz
fecha os olhos e zás-trás
desembainha a espada

Oposições aos Governos
estão lá mesmo p’ra isso
p’ra prestar um bom serviço
demitir os estafermos

PRIORIDADES



A NOTÍCIA não causou surpresa, mas assim, com números e tudo, não pode deixar de interferir na nossa preocupação, pois que portugueses continuamos a ser, à falta de outra alternativa que nos seja apresentada, e por isso cabe-nos enfrentar aquilo que constitui o panorama que nos envolve. Refiro-me à divulgação dada pela Imprensa de que a pobreza já atingiu por cá a casa do milhão e oitocentos mil cidadãos, mais de dez por cento da população total desta nossa Terra.
Eu tenho consciência de que os dinheiros do Estado – e, por outras palavras, o que é nosso – não podem chegar para tudo e muitas vezes, ao presenciar a divulgação de um investimento que o sector estatal resolve tomar, me pergunto se tal decisão será prioritária na lista de urgências ou se conviria antes dar aplicação, às verbas correspondentes, a outra iniciativa muito mais premente. E, não o escondo, com frequência o meu ponto de vista não coincide com a que é tomada pelas forças públicas, quer as que se situam no topo da pirâmide quer as que são provenientes de sectores médios e secundários, como os municípios, por exemplo.
A tarefa, que deveria ser generalizada, de fazer frente à pobreza que grassa por aí não é coisa que se resolva por simples decreto. E se os cofres oficiais não conseguem suportar o bastante para apoiar todas as necessidades, então há que descortinar outras formas de, pelo menos, reduzir as situações mais graves que sabemos existirem em Portugal.
Nesta altura, em que o XVIII Governo acabou de tomar posse, o ter apontado que uma das medidas que vai tomar é legalizar o casamento dos “gays”, sem me caber entrar no pormenor de discutir se se trata de uma decisão justa ou não, o que julgo importa é avaliar se existe realmente urgência em enfrentar esse problema.
E, no capítulo da pobreza, não sendo original, permito-me sublinhar o princípio de que, no caso da miséria que invadiu o nosso País, é preferível facilitar a cana de pesca do que distribuir peixe pescado, o que se traduz, na prática, na conveniência de o novo conjunto governamental dever colocar em posição ultra-prioritária o efectuar todos os esforços para diminuir drasticamente o desemprego no nosso País, criando condições favoráveis às empresas para procederem a admissões de novos funcionários em lugar de se sucederem os despedimentos.
Esta é apenas uma indicação, um desejo que os portugueses trarão na ponta da língua, e, por conseguinte, uma proposta que um Governo que acaba de tomar posse deveria situar na primeira linha do seu programa. Agora, aquela de defender a prioridade de legalizar o casamento dos “gays” numa altura destas, nem merece mais do que uma exclamação, na falta de uma gargalhada que não apetece a ninguém dar nas circunstâncias actuais.
A menos que o número de casos de pares nas tais condições seja assim tão grande que chegue a ultrapassar a quantidade de pobres que fazem parte das estatísticas oficiais. Será que o Sócrates tem consciência disso?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PERGUNTO

O que é isto afinal
esta coisa onde ando
não agora, mas de há muito?
Será que me dão sinal
e se sim, como e quando
respondendo ao meu intuito?
Quem me dera p’ra mudar
e saber por onde andar

Eu pergunto: vale a pena
que se ganha em esperar?
É bem grande o desengano
em toda a vida plena
na ânsia de retirar
a mancha suja do pano.
Eu bem quero, bem insisto
mas não saio nunca disto

Sei onde e como estou
e como cheguei aqui
o que andei até vir
mas não sei p’ra onde vou
se algo eu aprendi
se tem valor p’ro porvir
agora só o talento
me pode levar ao vento

Mas como esse só foge
e não consigo agarrá-lo
m’escapa cada segundo
não faço com que s‘aloje
muito menos amarrá-lo
p’ra m’ajudar neste mundo.
Assim fico cada dia
nesta profunda agonia

DESENCANTO POR ENQUANTO...

As mesmas caras, as mesmas vozes, as mesmas frases, o mesmo comportamento, tudo igual há 30 anos neste País.
A monotonia instalou-se, o grupo de privilegiados é sempre aquele, desinteressante, enfastiador, repetitiva.
Por isso nada muda, nem melhora. Portugal continua igual a si mesmo, mas sempre há aqueles que se sentem satisfeitos com o que os rodeia.
E fazem o possível para manter o status quo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

VISITAS

Se Camões aqui descesse
e surgisse em minha casa
mostrava-lhe os meus poemas
e talvez lhe apetecesse
fazer logo tábua rasa
colocando-me algemas
p’ra não mais poetizar
e a minha vida mudar

Nem a tal Lusofonia
com que tentei imitá-lo
lhe deu pr’aconchegar-se
e mostrar a simpatia
e certo ar de regalo
surgiu para mostrar-se.
Nada disto tem valor
disse Camões com ardor

Procurei outra visita
desta vez foi o Pessoa
que eu adoro e releio
tentando qu’a minh’escrita
podendo ser algo boa
atingisse o meu anseio
mas Fernando não gostou
também me desconsolou

Quis ouvir um mais moderno
o Ary talvez pudesse
não que um seu fã eu fosse
mas talvez com ar fraterno
alegrar-me já quisesse
como quem me dá um doce
pois convivemos em vida
mas também não deu saída

O da Silva, o Agostinho
que em vida no jardim
da sua casa bem perto
com seu ar de desalinho
me fazia ir ao fim
procurar caminho certo
nem esse qu’eu trouxe a ler
os meus trabalhos quis ver

Desisti, não procurei
outras figuras com fama
p’ra me dar opinião
à conclusão eu cheguei
do que melhor que um drama
é guardar em alçapão
o que tem computador
durante o tempo que for










POLUIÇÃO

Da obra "DESENCANTO POR ENQUANTO" que se encontra por publicar)

Neste País de clima temperado, como dizem, talvez seja onde se sofre mais quer com o calor quer com o frio. Precisamente porque se assume que não há temperaturas do ar, nem muito altas nem demasiado negativas.
No Inverno, nos dias em que baixa um pouco mais a temperatura bate-se o queixo, nas ruas, nos estabelecimentos comerciais e até em casa de cada um que não possua um regulador de graduação do ambiente. A falta de convicção de que não fazemos assim tanta diferença com o que ocorre noutros países, leva-nos a que descuremos o aquecimento artificial, por exemplo o eléctrico, que é imprescindível para resistir ao desconforto dos arrepios. Claro que é sempre uma questão de poder económico da população.
No Verão, passa-se o contrário. O ar condicionado ainda é, entre nós, um artigo que só está ao alcance dos mais favorecidos. Já são muitos, mas estão bastante longe de serem todos. Verifica-se uma grande diferença com o que ocorre já hoje em dia nos países que gozam de um nível de vida muito superior aos dos portugueses. E depois, continuando-se a considerar Portugal como um País temperado…
A notícia que tem sido divulgada é de que o ar que se respira na nossa Terra, especialmente nalgumas cidades e com destaque para Lisboa, está carregado de poluição, provocado sobretudo pelo trânsito automóvel. Divulgaram os cientistas que, não se podendo evitar o crescimento da circulação de motores que provocam os gases, é essencial beber muita água. Sempre compensa, ainda que pouco, os males provocados pelo óxido de azoto e pelo ozone.
Leio os alertas saídos na Imprensa e quedo-me preocupado então, com o aumento demográfico acelerado que se verifica em todo o mundo – não podendo deixar de levar em conta a idade cada vez mais tardia do fim da vida humana (e mesmo descontando o efeito das doenças que surgem e que tardam em ser atacadas por medicinas que também se vão descobrindo) e o facto de não se conseguir estabilizar um número razoável de habitantes da Terra. Basta ter-se em conta que, no fim da II Guerra Mundial, a população total do Globo era de pouco mais de dois mil milhões de habitantes, e que se verifica agora sermos mais de seis mil milhões, tendo em cinquenta anos triplicado a população da Terra. Se este fenómeno voltar a repetir-se, a conta a fazer é a de multiplicar por três o número dos que somos hoje.
Não irão caber os que cá estiverem! – não me canso de advertir.
A nossa imaginação pode funcionar na busca de uma possível solução. E uma delas, digo eu, poderá ser a de encaminhar todos os sobrantes para um planeta que tenha condições para proporcionar possibilidade de vida em aceitável, até melhor se possível, da que têm sido usufruída na nossa Bola. Será isso possível?
De uma coisa ninguém deve ter dúvidas: aproxima-se a data em que escassearão muitos dos géneros que hoje são considerados essenciais. O petróleo, não faltará assim tanto tempo para que se esgotem os poços que hoje provocam tantas guerras, a água potável vai ser um dos grandes sustos que provocará o seu racionamento inevitável, e até o ar que se respira obrigará a que se faça uma reconversão geral dos gases que os homens produzem na ânsia de aproveitar todas as tecnologias avançadas e, caso não se consiga, nem valerá a pena pensarmos nas consequências de tal facto.
Penso nisto e não tenho coragem de deixar passar este meu pessimismo para os outros. Fica apenas nestas linhas que ninguém lerá. Será ainda o melhor.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

CONTEMPLO


Olho o Céu, contemplo
que estará p’além do que se vê
algo que servirá de exemplo
aquilo em que muita gente crê?
Mas partirei sem nunca saber
ninguém me diz p’ra meu sossego
os crentes, a ciência, quem quiser,
esta ignorância que eu carrego.
Este não saber que tanto insiste
podem não crer, mas p’ra mim é dor
já que o que por este mundo existe
já eu sei, não me provoca louvor
o panorama é por demais bem duro
e o Homem tem vindo a piorá-lo
pelo que o que virá no futuro
não dará motivo para amá-lo.
Hà os que acreditam que mais tarde
de cima para baixo lá verão
e disso fazem enorme alarde
e com tal provocam mais confusão.
Oh, quem me dera ter tamanha crença
podia esperar pelo final
e sendo a curiosidade imensa
aprendia no local divinal.
Mas perdi já todas as esperanças
de tamanha ânsia satisfazer
não será durante minhas andanças
que virei algum dia a saber.
Contemplo pois o azul e lindo Céu
com as nuvens passando e repassando
e o que o astronauta conheceu
não mostrou nada do onde e quando.

Continuo assim a contemplar
restam sem resposta tantas perguntas
perdi as esperanças de alcançar
saber de uma só ou todas juntas

O MURO DE BERLIM



VEIO-ME cair nas mãos um jornal espanhol – El Pais – que trazia a memória de um acontecimento vergonhoso e de que o mundo inteiro não se devia esquecer, muito embora, em consciência, haja que reconhecer que o Homem não deseja aprender com os erros que foram cometidos para trás e mantenha essa maledicência doentia de não ser capaz de tudo fazer para que a paz se instale em todo o Planeta e a concordância e a ajuda fraterna sejam o mote principal e até único que poderia trazer alguma felicidade a todos os seres humanos. Refiro-me a esse chamado Muro da Vergonha que foi instalado para dividir a Alemanha.
Vale a pena trazer à memória esse acontecimento, mesmo com datas. Pois foi a partir de Junho de 1948 que, durante 10 meses e 23 dias, as autoridades soviéticas impediram que dois milhões e meio de berlinenses ficassem sem acesso terrestre ao lado oeste e foi uma greve provocada pelos operários que tinham levantado a divisória berlinense que provocou, em 17 e Junho de 1953, depois de uma actuação feroz por parte do exército vermelho, que, na noite de 12 para 13 de Agosto de 1961, Berlim Oriental se converteu num cárcere para todos os habitantes daquele lado da que já era denominada República Democrática da Alemanha e foi na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989 que se começou a erigir aquele muro que acabaria por ter 160 quilómetros de comprimento e que levou onze meses a ser construído, tendo dividido em duas a Alemanha que antes se conhecia.
Durante 28 anos e 88 dias, os alemães estiveram divididos e os 17 milhões que viviam no lado oriental puderam terminar com a frustração do impedimento de sair dessa prisão e de poder conviver com os parentes, os que os tinham, que residiam do outro lado do muro.
Eu ainda tive ocasião, na minha profissão de jornalista, de, durante a existência dessa divisão controlada, poder passar a Porta de Brandenburg, visitando o outro lado, depois de ter sido sujeito a um estudo profundo do meu passaporte e da minha fotografia lá colocada e de ter aguardado largos minutos até me ser permitida a passagem para o outro lado (tendo que cambiar uma quantia de marcos da Alemanha de Oeste por uma quantidade ridícula de marcos de Leste, que valiam quase nada).
Ao ter entrado na larga praça que surgia logo a seguir ao arco lindíssimo que separava as duas zonas de Berlim e tendo percorrido a pé umas ruas que desembocavam no local, deparei com uma população muito metida consigo, triste e vestida de forma bem diferente do que se via do lado donde eu chegava.
Dizem-me que a cidade de Berlim de hoje é muito diferente do que era na época triste em que visitei o lado Leste. Toda a capital alemã recorda um pouco o passado mas faz questão em construir o seu presente. A cultura mantém-se na base de toda a sua existência. Ainda se conservam, propositadamente, alguns pedaços do muro, em locais estudados. Essa memória não há que a perder. Nem parece que se trata de uma cidade que passou pelo martírio que lhe foi imposto, pois renasce com entusiasmo. Os nossos arquitectos e os construtores civis que temos deviam ir tomar conhecimento de como a vontade de uma nação produz milagres e ultrapassa as dificuldades. Bem se poderia modificar a tristeza da nossa cidade de Lisboa e ser-lhe dada uma imagem que acabasse de vez com a velharia que se mantém e que poderia e deveria ser aproveitada para, tirando partido do antigo, incutir-lhe uma ligeireza de cores, dado que, afinal, o rosa velho até é um tom de que muito gostamos.Mas qual!... Nós não temos nada a aprender com ninguém

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

GRIPE

Há os que provam de tudo
nem perdoam acepipe
falar muito sem ser mudo
assim se apanha a gripe

Pandemia nos assusta
a doença faz razia
tudos isso bem nos custa
mesmo sendo só mania

Para aos outros não pegar
ficar em casa é melhor
porque indo trabalhar
contagia-se ao redor

A “baixa” é bom remédio
já estando ou vindo a estar
por muito que cause tédio
o não poder trabalhar

É útil o bom motivo
para ao trabalho não ir
mesmo ficando activo
é fazer por distrair

Para quê ser produtivo
se os outros fazem pouco
é preciso um incentivo
basta receber um troco

A gripe veio a calhar
chegou na melhor altura
se o emprego não falhar
é bem bom enquanto dura


SARAMAGO OUTRA VEZ...



DEPOIS do que escrevi ontem sobre esta personagem fiquei convencido de que não voltaria ao assunto, pelo menos tão cedo. Mas, afinal, tendo sido atraído pela leitura de mais umas páginas do seu livro “Caim” e dado que as entrevistas que o Prémio Nobel tem concedido largamente a tudo que são jornais, revistas e televisões não dão sossego e desafiam o jornalista que reside em mim, não me conformo com o pequeno resumo que apresentei no blogue passado e entendo que o assunto em si merece mais alguma reflexão e um certo desabafo, seja de aplauso seja de discordância em relação à forma como o livro foi escrito. Porque, no capítulo que tem sido objecto de tanta discussão, ou seja no que se refere ao ser a favor ou contra as apreciações saramaguianas em relação à Bíblia, o que eu sou é fervorosamente seguidor da liberdade de pensamento e de considerar que cada um tem o direito de expressar as suas opiniões, deixando aos outros a possibilidade de evidenciarem o seu ponto de vista, pois que é dessa forma que se confrontam as diferentes ideias e é daí que, com bom senso, boa educação e respeito por aquilo que os demais pensam, se constrói uma vivência respeitosa. Ninguém pode ser obrigado a seguir os princípios que sejam propagandeados.
No que me diz respeito, eu, que tive uma infância muito ligada às práticas seguidas pela Igreja Católica, tendo cumprido todos os cânones que o catolicismo aplica à juventude, incluindo a missão de ter sido várias vezes acólito de missas, ainda em latim, por acaso proferidas pelo venerando Padre Cruz, não me posso considerar ignorante das regras que a referida religião segue. E, no capítulo familiar, o ambiente que me rodeia é o de uma veneração convencida dos preceitos impostos por Roma.
Mas, a vida levou-me a reflectir profundamente sobre tudo o que o Homem tem procurado impor considerando-se mensageiro de forças superiores, e, como não poso evitar a prática do julgamento, para mal dos meus pecados, nem sempre alinho nas definições que uns tantos pregadores entendem que devem espalhar, seja porque obedecem honestamente ao que lhes dita o seu íntimo ou porque se aproveitam das circunstâncias e entendem que podem tirar partido da sua habilidade em convencer as massas. Porque não é a primeira vez que se descobre que uns tantos inventores de religiões acumulam fortunas com as propagações de milagres que os ingénuos aceitam sem discutir.
Mas não sou eu quem vai aqui deixar expresso quem, de toda a História de milhares de anos das múltiplas religiões que se propagaram pelo mundo e ainda hoje vão aparecendo, cumpriu meticulosamente com as regras da verdade e da decência. Não me sinto competente para tanto.
O livro Caim, quanto a mim, peca por não cumprir, aliás como todos os anteriores de Saramago (embora se venha a verificar, de obra em obra, uma melhoria no cumprimento de regras), com os princípios de uma escrita escorreita e que segue as normas de pontuação que servem para ajudar os leitores na sua leitura. E, no que diz respeito a ter-lhe sido atribuído, tempos atrás, o Prémio Nobel, temos de levar em conta que os críticos que seleccionam essa escolha não lêem os originais, mas sim traduções. E, como dizem os italianos, “traduttore, tradittore”, essa mudança pode representar rectificação que talvez tenha beneficiado a apreciação. Para mim não há outra explicação, embora tenha ficado satisfeito com a circunstância de um escritor português ter sido distinguido com tão importante honraria.
Mas volto ao mesmo: no capítulo religioso, as considerações que Saramago faz quanto às ocorrências passadas no Éden e as fantasiosas conversas de Deus com Adão e Eva e até às suas maneiras imperiosas de se dirigir a terceiros (e eu coloco estes e outros nomes em maiúscula, o que ele não faz), não se deve interpretar isso senão como uma fantasia literária, pois ir além dessa manifestação é querer entrar na discussão que só pode beneficiar o autor do livro que, com os seus 86 anos, se vangloria por dentro por ter conseguido criar tanta celeuma em volta do que escreveu.
Nesse aspecto, temos de concordar que o escritor tem olho para a promoção!…

domingo, 25 de outubro de 2009

PRIMEIRA VEZ

É frequente lembrarmo-nos
de quando ocorreu tal coisa
que foi a primeira vez.
Será de envergonhar-nos
e o tal acto repousa
no fundo da timidez?

Antes um grande mistério
era imaginação
tal coisa não se dizia
por ser obra de galdério
que não merece perdão
por viver em heresia

Só que sucede a primeira
da mesma ninguém escapa
assim se começa a vida
pode não ser grande asneira
e tudo feito à socapa
é de facto a partida

Nem sempre vem à memória
essa tal primeira vez
o tempo que já passou
faz-nos olvidar a história
e com pouca nitidez
vemos o que então voou

Porém, a vez derradeira
essa está mais presente
por se encontrar bem mais perto
tendo sido ou não asneira
mantêm-se sempre na mente
como sendo acto certo

Porque chega a todos isso
o de não lembrar sequer
como foi última vez
se se fez um bom serviço
se constituiu prazer
se repetia o que fez

É bom lembrar cada vez
a primeira longe está
a última já mais perto
e o que é malvadez
é que o que já não há
é como vida em deserto

Mas mesmo com mais idade
há sempre primeira vez
de algo que nunca antes
lá permitiu a vontade
de que com certa sagez
nos deixasse radiantes

Até a morte, afinal
quando chega é a primeira
e a última também
seja por bem ou por mal
quando chega à nossa beira
leva-nos para o Além






APRENDER



SUCEDE constantemente ouvirmos sair das bocas dos políticos, especialmente quando contestam opiniões de adversários, que “não precisam de receber lições de ninguém”. E isso provoca-me a maior das interrogações. Então, haverá alguém que possa afirmar conscientemente que não tem nada a aprender com os outros, sejam eles quais forem?
No que a mim toca, confesso que me custa a admitir que aqueles que fazem tal afirmação sintam profundamente aquilo que garantem ser o seu princípio de vida. Embora eu não possa nem queira servir de exemplo a ninguém, sinto-me diminuído porque uma das preocupações que mais me persegue é exactamente a contrária, ou seja a de ter a sensação de saber pouco e de, cada vez que absorvo mais algum conhecimento, constatar que continua a ser grande a distância que me separa da sapiência.
Quantas vezes eu me questiono se não contribuirá para me distanciar cada vez mais da felicidade - a tal impossível de alcançar em pleno - a ânsia de ir aprendendo o mais que posso nas diversas áreas de conhecimento que a vida apresenta. Não sei se o saber pouco não ajudará a não nos darmos conta do grau de ignorância que mantemos. E ficarei sempre com esta dúvida.
Aquilo que é ensinado hoje à miudagem quando ainda frequenta os primeiros anos da escola, nas antigas 3.ª e 4.ª classes, cada vez mais se afasta do que seria rigorosamente necessário que fizesse parte da aprendizagem que corresponde ao princípio de que é de “pequenino que se torce o pepino”. E repito aqui o que já referi em blogue anterior, de que uma classe de Democracia seria da maior importância para preparar os futuros adolescentes e adultos a saber respeitar os outros e ter vontade de ouvir. Pois acrescento agora que também seria da maior utilidade se não faltasse uma cadeira que incutissem nos alunos a consciência de que é raro saber-se muito e nunca se sabe tudo…
Talvez desta forma os homens que ocupam e venham a ocupar lugares na política não insistam em fazer afirmações de que não precisam de lições de ninguém. E, com essa modéstia, desde que seja autêntica, terão capacidade para escutar pontos de vista diferentes e até antagónicos dos seus que, quem sabe, não ajudarão a encontrar soluções que, quando se encontram fechados nas suas convicções, não satisfazem os objectivos que são essenciais para fazer andar o País no bom caminho.
O que eu não tenho é nenhuma esperança de que um José Sócrates qualquer, um que venha a ocupar o lugar de chefe de um Governo que surja, leve em conta a minha proposta. E ficaremos pelos Magalhães e pelo Inglês, sendo cada vez mais ignorantes na nossa própria língua. Até a língua francesa, de origem latina como a nossa, era, no meu tempo, a que se tinha de aprender e agora está completamente posta de parte.
Cada vez aumento mais as minhas dúvidas no que respeita à instrução escolar que se segue nesta época. Os velhos ditados e as redacções que éramos obrigados a fazer sem erros – porque cada um correspondia a uma palmatoada (que não matava ninguém) -, tudo isso hoje desapareceu. E o resultado está à vista.
Ai que Velho do Restelo em que me estou a transformar!”…


sábado, 24 de outubro de 2009

POETAS RESISTEM

Já foi tempo, isso já foi
em que a poesia invadia a vida
o que se dizia
aquilo que se escrevia
o que se vivia
estava cheio de poesia
e hoje que tanto se destrói
não há quem lhe dê guarida

Com toda a tecnologia
A velocidade, os avanços
O que se diz
Neste País
Não faz feliz
Não tem cariz
por isso a poesia
é só pr’os tanços

Porém, que pena
que tal texto doce
tenham partido
fugido
sumido
sem um gemido
saindo de cena
um bem escapou-se

Hoje o que mais importa
são as novas descobertas
várias
revolucionárias
originárias
imaginárias
é assim a vida torta
sempre com novos alertas

Mas a poesia, essa pobre
poucos lhe dão importância
desgraçada
escorraçada
desprezada
arrumada
perdeu o seu ar de nobre
mas nunca sua elegância

Enquanto houver quem a ame
mesmo que poucos existam
ainda que lhes chamem patetas
e lhes façam caretas
e só lhes paguem umas chetas
os poetas
nem impondo-lhes grosso açame
impedem qu’eles persistam






OS CAINS DE SARAMAGO



NÃO TENHO o costume de me referir a alguma coisa sem antes procurar inteirar-me, o melhor possível, do que se trata e, mesmo contrariado, colocar-me do lado do que pretendo observar. Isso de dizer não gosto, sem antes efectuar a prova para não deixar de ter razão fundamentada, é situação que sucede com muita gente mas que, neste caso, retira argumentos e força para demonstrar que todos têm direito a manifestar a sua opinião.
Esta questão que tem sido debatida largamente para gozo e prazer do apontado, com as televisões a trazer continuadamente o assunto à baila e os periódicos a publicarem sucessivamente a sua imagem e as suas declarações, essa propaganda que, sem ser paga, tem sido difundida, tem contribuído para que o tema focado obtenha o privilégio de ser largamente espalhado. E, sendo assim, também se coloca na posição ideal para ser criticado.
Refiro-me, julgo que foi entendido, a José Saramago e ao seu último livro intitulado “Caim”.
Desde que este escritor foi distinguido com o Prémio Nobel que passei a interessar-me pela leitura das suas obras. Não podia ficar-me pela primeira impressão que tinha tido antes e que não era de molde a considerá-lo um autor de craveira superior. Mas, perante as referências elogiosas que foram largamente divulgadas em redor da sua obra e da sua personalidade, levei tempo a formar a minha opinião definitiva e não deixei de ir seguindo os livros que foram aparecendo e de ter analisado as múltiplas rectificações que iam surgindo, até mesmo no capítulo da pontuação, que era o que saltava logo à vista na leitura do que ele escrevia. Mas os assuntos referenciados também não contribuíam para atrair a minha preferência.
Eu, que tinha seguido à distância a caminhada de José Saramago, quer na área política como na vida profissional que, depois do 25 de Abril, foi desenvolvendo primeiro no campo da publicidade e depois numa carreira dita jornalística que a sua participação no Partido Comunista lhe facilitou, ao ponto de ter chegado, incompreensivelmente, a dirigir o “Diário de Notícias”, onde deixou bem marcada a sua presença com uma atitude que, essa sim, me fez arredar da sua proximidade, a de ter despedido 22 jornalistas só porque não faziam parte da área política que o atraia a ele, pois foi precisamente o seu comportamento que também contribuiu para que, depois do galardão recebido em Estocolmo, não quisesse perder uma só das suas produções literárias para não cair na crítica ao seu trabalho sem ser por razões estritamente literárias.
Pois vem agora a motivo deste blogue o referir-me ao tal “Caim” que tem provocado tanta celeuma e propaganda. Começo por apontar a forma como o nome do dito filho de Abel é escrito, sem acento, e igualmente ao seu hábito de não escrever os nomes de participantes nos seus escritos sem ser com letra maiúscula. Quanto ao resto, não discuto se se trata de um trabalho que interfere na verdade ou não verdade de um tema que, apesar de não constituir leitura muito lida, não deixa de ser largamente conhecida, a Bíblia, nos seus dois Testamentos.
O que me deixa a mim a convicção é que Saramago é um excelente propagandista e a escola que fez nas agências de publicidade tem-lhe servido para, por tudo e por nada, divulgar largamente o que produz lá na ilha espanhola onde se instalou. Quanto a este livro último, eu, que contribui para aumentar a sua receita de direitos de autor, sinto-me confortado para poder afirmar que fiz um grande esforço para ultrapassar a página 40, que é onde, geralmente, me fico nos outros livros que lançou antes no mercado.
Que ele é o mais vendido, lá isso é. Agora que também será o menos lido… nesse aspecto igualmente não se andará muito longe da verdade. E isto não tem nada a ver com o assunto que escolheu, pois toda a gente tem o direito a opinar sobre o que lhe apetece – desde que tenha editor, claro está, e isso não lhe falta, pois as empresas respectivas o que querem é produto que se venda, seja ele de Sócrates ou de qualquer Carolina. Ao que é obrigado é a escrever bem e a usar correctamente a língua portuguesa, seguindo todas as regras da escrita, incluindo as pontuações, que essas são uma autêntica desgraça, próprias de um principiante. E nisso, o Prémio Nobel português, ainda que tenha vindo a melhorar bastante, ainda se situa muito longe do que a qualquer iniciado nessa arte é imposto. Mas se os editores gostam assim!...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FUTURO

Neste País onde estamos
onde nascemos, vivemos
ainda nos conservamos
temos aquilo que temos

E é pouco, coisa pouca
e cada dia é menos
a caixa vai estando oca
à fartura só acenos

Mas que podemos fazer
que nos resta nesta hora
em que é enorme o muro?

Já nem se pode crer
não serve ir para fora
não me apetece o futuro




NOVO GOVERNO


Por fim, com a maior das discrições, Sócrates lá levou ao PR a lista do novo Executivo que, na próxima 2.ª feira, ao meio-dia, tomará posse em Belém. A demora que causou grande preocupação no meio político e também, provavelmente, em muitos atentos cidadãos que vivem e sentem os acontecimentos políticos nacionais, acabou por não provocar assim tantas surpresas, até porque, de facto, não havia excessivas expectativas em relação às figuras que iriam ocupar os lugares daqueles que deixaram as pastas e de que, em parte, se tinha a convicção de que não repetiriam funções executivas.
Cinco mulheres foram incluídas no grupo, o que, não sendo nada de estranhar, pois o género feminino tem vindo a impor-se nos lugares de importância nos vários sectores portugueses (e não só), no que diz respeito ao nosso caso sempre se trata de alguma coisa que pretenderá dar mostras de modernidade. Oito ministros foram mantidos, ainda que alguns com pequenas mudanças nos títulos dos ministérios e outros alterando as tutelas que mantinham. Portanto, no capítulo da confiança de Sócrates a tais figuras, esta conserva-se.
Agora, assim de imediato, pouco há a referir no que respeita ao novo Governo. Temos de esperar por resultados e, no capítulo da Educação, como não podia deixar de ser, saiu a “governanta” que tão mau serviço prestou e que é difícil de entender como é que foi mantida até ao final. Só se espera que, desta vez, o Sindicato dos Professores mostre alguma condescendência, caso sejam alterados os motivos que levaram a tanta reclamação. Também, na pasta da Justiça, saiu um elemento que esteve ali a contemplar sorrateiramente o exercício dos Tribunais de que tantas demoras e maus resultados deram mostras, sendo outro que bem merecia ter saído a tempo, pois o detentor do lugar nada fez para modificar a situação e nem uma palavra de desagrado foi capaz de expressar. Só por isso, do novo detentor do cargo se espera alguma coisa de proveitoso.
Cá ficamos, pois. Mais uma vez temos de esperar sentados, pois que José Sócrates parece ter tomado o gosto por criar um “suspense” nos cidadãos, e, por outros lado, naturalmente não vai ser rápida a mudança, sobretudo também porque um governo que não é maioritário tem de saber mover-se no meio de partidos que espreitam as suas oportunidades e que não parecem dispostos a identificar-se mais pelo interesse nacional do que pelos seus próprios propósitos partidários.
Esta é a realidade que os portugueses têm de suportar já a seguir, juntando as consequências de uma governação difícil à crise que, digam o que disserem, cá continua a provocar o desemprego que não pára de subir.
Que vai haver muito para dizer, lá isso vai. E a seu tempo tudo saltará cá para fora.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CANTEMOS Á CHUVA

Chove lá fora, ai chove
depois de uma longa seca
será a prova dos nove
dos que molham a careca

Primeira chuva é tão bom
lava as ruas, lava a alma
dá gosto ouvir o seu som
e até o calor acalma

Há que sair com chapéu
e que fugir das goteiras
com alegria Deus meu
vêm aí as janeiras

Depois das primeiras águas
nas cidades são bastantes
pois surgem depois as mágoas
queixam-se os lamuriantes

Mas para ter sol na eira
e a chuva no nabal
há que ir pedir à feira
à bruxa do arraial

Chuva, chuva venha ela
contratempo não será
pode-se ver da janela
e o sol depois virá

Cantemos portanto à chuva
à sua força de vida
assenta como uma luva
quando com conta e medida

ESTABILIDADE PRECISA-SE


Não tenho nenhuma certeza. Como em tantos assuntos que se nos deparam pela vida fora, não consigo ultrapassar certas dúvidas que não me deixam tomar partido por um caminho de entre vários que podem ser seguidos. E esta é uma delas.
Refiro-me à questão de defender o ponto de vista de que devemos chamar a atenção para os problemas com que o nosso País se debate ou se é preferível pintar cor de rosa as situações que, sendo reais, é bom que disfarcemos o panorama para não espalhar o pessimismo que pode provocar um desinteresse pela luta para melhorar o que existe.
Ninguém pode garantir qual seja a medida mais apropriada e eu, por mim, prefiro não olhar para o lado a assobiar, posto que, por mais negra que seja a situação em que vivemos, considero que devemos chamar a atenção para o que nos envolve e procurarmos contribuir para, dentro das nossas limitações, para dar uma volta por cima, para utilizar uma expressão abrasileirada.
Sendo assim, vou referir-me àquilo que fez parte dos noticiários de hoje e que, sendo conhecido o seu conteúdo, não é demais rebater uma situação que nos deve preocupar a todos nós, portugueses, pois está em causa o nosso futuro e, sobretudo, o dos nossos descendentes: trata-se do défice do Estado que já atingiu os 20 milhões de euros por dia, sim por dia(!), o que quer dizer que se Portugal fosse uma empresa se encontrava em situação de falência profunda, pois o que entra em fundos nos seus cofres não chega para suportar os gastos e vai-se, diariamente, diminuindo o activo… enquanto ele existir!
Pois, ao mesmo tempo que o panorama económico nos dá esta imagem tão preocupante, ocorre o problema da próxima votação no Parlamento do Programa e do Orçamento do novo Governo ainda por constituir e cuja composição vai dar bastante que falar. E o que se espera que suceda é que os partidos políticos com assento na Assembleia da República não tomem a medida perigosa de chumbar, na maioria, tais propostas, o que fará, seguramente, com que José Sócrates respire de alívio e anuncie a demissão do seu conjunto. E como o Presidente da República está impedido de convocar mais outras eleições legislativas até Abril de 2010 e o Parlamento não pode ser dissolvido por se encontrar dentro do prazo de seis meses após a sua eleição, o provável é que um novo Executivo teria de sair da iniciativa presidencial.
Que lindo panorama! Que trapalhada resultaria desta medida provocada pela falta de senso daqueles que podem ser responsabilizados pelo caos que isso representaria! É preferível esconder esta probabilidade de tornar-se real?
Cada um julgará como entender. Achará que é preferível não apontar os erros que podem sair das cabeças de gente que, estando colocada nas primeiras filas dos agrupamentos políticos, não é por isso que garantam ser capazes de tomar as decisões mais aconselháveis face ao País que temos e como o temos.
Que se dê, ao menos, a possibilidade de José Sócrates, apesar de não ter dado provas no exercício que findou, de boa actuação e de capacidade para enfrentar os problemas com competência e humildade, poder agora remir-se do mau de antes e dar mostras de que está em condições de actuar de forma adequada ao que o País necessita. Libertar-se assim do problema e partir para outra é que não me parece adequado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

VIVER A VIDA

O que é isso de viver
é ocupar uma data
devagar ou a correr
tormentosa ou pacata?

Deve ser algo de mais
ter até certa razão
com risos e com uns ais
a vida é uma ilusão

Que bom que nos iludamos
dá força p’ra sustentar
aquilo que nós amamos

e com o que dá azar
sempre nos aguentamos
com ilusões a pairar

TECNOLOGIAS SEMPRE NOVAS



O MUNDO está cada vez mais dominado pela tecnocracia. A cada instante surge um novo avanço da complexa aparelhagem que já existe, que se encontra à mão do homem comum e que os facciosos pelo acompanhamento das descobertas que são divulgadas não deixam passar em claro, não perdendo ocasião para tomarem contacto directo com tais novidades.
Imagino muitas vezes a eventualidade de cidadãos que já nos deixaram há meio século e que teriam feito uma visita ao mundo de hoje. E penso no espanto que causaria a esses visitantes o presenciarem o número enorme de modernidades que hoje são consideradas indispensáveis e que não queremos nem admitir a hipótese de deixarem de estar ao nosso dispor. E uma dessas invenções é, indiscutivelmente, o telemóvel.
Alguém, da maioria esmagadora da população de hoje, admitiria dispensar o uso desse aparelho mágico que permite, em qualquer momento e em diferentes locais, transmitir e receber mensagens, ouvindo e dando a ouvir falas e todo o tipo de sons? E a interrogação dos jovens de hoje é como é que os antigos podiam viver sem recorrerem a este telefone portátil.
E o mesmo se passa com os mais diversos tipos de tecnologias que, prestando os mais imaginativos e úteis serviços ao Homem de hoje, quando entram no uso corrente logo fazem esquecer o que era utilizado na véspera. E a transição passa a constituir um fenómeno natural que a ninguém espanta.
Mas não há bem que não tenha os seus inconvenientes. E um deles é o abuso de alguns instrumentos que tornam o ser humano escravo da sua utilização, exagerando-a e criando logo vícios que bem podiam ser evitados. Refiro-me, como já terão imaginado, à utilização permanente, seguida, cansativa do telemóvel. Há gente que passa o dia de aparelho agarrado ao ouvido, não trabalhando e não deixando que os outros também façam alguma coisa. Os portugueses são assim, já sabemos. Têm uma paixão doentia pelo telefone e, agora que até dispõem do aparelho que levam para todo o sítio, não descansam um momento e até a conduzir, que é proibido e bastante perigoso, não são capazes de colocar por momentos no bolso essa atracção doentia.
E cá estamos para assistir e utilizar o muito que certamente virá por aí e que fará pôr de parte o que ainda hoje consideramos como indispensável.
O Homem, na verdade, tem aproveitado estes últimos cinquenta anos para revolucionar com novidades técnicas que, ate na juventude dos mais idosos que ainda por cá andam, era inimaginável admitir que seriam postos ao serviço dos habitantes do mundo de hoje.
Somos, por isso, mais felizes? Essa a pergunta que vale a pena fazer. Não seriamos capazes de caminhar na vida se não se tivesse operado essa revolução tecnológica? Não tem, de facto, grande importância o poder-se dispor hoje do computador e das suas avançadas ajudas nas mais diversas áreas em que o Homem se movimenta?
Como sempre fica aberta a discussão.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

e vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

JUSTIÇA Á PORTUGUESA



Numa entrevista dada pelo bastonário da Ordem dos Advogados ao Jornal 24 Horas de ontem, em que foi entrevistadora Luísa Castel-Branco, este frontal Homem que não esconde as suas declarações por detrás de sofismas ou de desculpas não convincentes, não hesitou, como tem feito noutras ocasiões, em acusar aqueles que, sendo personalidades com responsabilidades públicas, praticam frequentemente faltas que acabam por vitimizar os cidadãos, que são sempre os últimos a sofrer com as consequências.
Marinho Pinto, pois é dele que se trata, não deixou por meias palavras aquilo que teve a dizer e não se recusou a fazer referência ao detentor da referida pasta, afirmando que esse actual responsável é “de papel e de palha”, deixando claro que, de uma forma geral, “os ministros da Justiça não têm capacidade de influir em muito daquilo que está mal”.
Ora, numa altura em que se aguarda a mudança de vários membros que exerceram a sua actividade no Governo de Sócrates que está de saída, o que nos falta ver é por quem é que o chefe do Executivo substitui aquelas figuras que prestaram um mau serviço à Nação e de que não existiu a coragem de os substituir mesmo na altura em que se encontravam em funções. É o mal de um responsável maior pelo Governo que está em exercício não ter visão suficiente para verificar que alguns dos elementos antes escolhidos representam erros que deveriam ser rectificados logo que deram mostras da sua falta de competência.
Não é necessário reafirmar aqui que um País com uma Justiça deficiente, demorada e sem fiscalização sobre as decisões proferidas em Tribunais, não sendo alteradas as circunstâncias em que funciona, pode ter boas actuações nas outras áreas mas peca sempre pelo principal que é a ausência de confiança da população no que respeita a ser protegida face às injustiças que possam ser praticadas.
Marinho Pinto põe o dedo na ferida dizendo, de forma clara, que “há irresponsabilidade a mais nos nossos tribunais” e que “os magistrados não prestam contas a ninguém, a não ser a si próprios”. Acrescentando que “as suas prerrogativas funcionais acabaram transformadas em privilégios pessoais; todos são independentes, irresponsáveis, vitalícios, inamovíveis; escolhem-se uns aos outros, avaliam-se uns aos outros, nomeiam-se uns aos outros e, quando lhes convém, fazem greve em conjunto”. E deixa a pergunta: “neste quadro, qual a capacidade dos ministros da Justiça mudarem esses estado de coisas?”.
Ora aqui está o que um Bastonário da Ordem dos Advogados, falando daquilo que conhece, deixa bem claro o estado em que se encontra a Justiça portuguesa.
Será que, face a tão claras acusações, não existe em Portugal nenhuma força com capacidade para solucionar de vez o problema? Temos de viver nestas condições toda a nossa vida?
Talvez a resposta caiba ao Presidente da República, que em vez de se preocupar com discussões de pátio, possa interferir na busca de uma solução que urge ser encontrada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O QUE VEJO

Aquilo que vejo
que atrai meus olhos
que me causa ensejo
mesmo sendo aos molhos
eu acredito?
É verdade pura?
Não será um mito?
Uma desventura?
Mas vejo e pergunto:
poderei eu crer
constitui assunto
para eu ver
e aquilo que é dado
algo como queixa
será um recado
que a vida me deixa
uma prevenção
com certa importância
chama-me a atenção
provoca-me ânsia
abre-me o sentido
mas olho parando
e o despercebido
agora pensando
com calma observo
a ideia apurada
por fim lá conservo
a vista do nada
e aquilo que eu via
e que os olhos liam
tinha mais valia
e todos deviam
cá por este mundo
ter algum rigor
olhar sempre a fundo
que tudo tem valor
Por isso m’interrogo
procuro resposta
faço-o como um jogo
é quase uma aposta
tudo por que passo
e atrai minha vista
se causa embaraço
constitui uma pista?
Como em tanto assunto
não sei responder
até ser defunto
terei de aprender



O MUNDO A ACABAR


Sim senhor, já me referi a este tema em blogue anterior e, ao longo da minha actividade jornalística, abordei em várias ocasiões o tema por o considerar, não uma longínqua hipótese, mas algo que pode muito bem ocorrer como sendo uma enorme fatalidade que o mundo corre o risco de vir a suportar, pois o Homem é um ser imprevisível e ninguém está em condições de garantir que um desses mandões de uns países que já deram mostras de grande irresponsabilidade, não dará ordens para que seja carregado o botão.
Todos nós desejamos que isso nunca venha a acontecer, mas uma coisa é a esperança de que o bom senso vencerá as raivas e os ódios que pululam nalguns chefes de governos e outra, bem diferente, é a garantia de que nunca ocorrerá tamanha calamidade.
As situações criadas na Coreia do Norte, cuja ameaça passou de pai para filho e não se sabe se o neto, prestes a tomar posse, como tratando-se de uma monarquia dinástica, não virá a seguir as pisadas da família, assim como as afrontas que são oriundas do Irão, desconhecendo-se se outros países de religião muçulmana não dispõem do conhecimento do poder nuclear, posto que o permanente confronto que mostram em relação às nações com credos diferentes não deixa tranquilos todas as restantes nações, vizinhas ou mais distantes. Israel, por exemplo, podará vir a ser a primeira vítima desse ódio e, se tal acontecer, a resposta não se fará esperar e aí existe o risco de ser um início do uso generalizado da terrível bomba atómica.
Mas, já que estou a referir-me a um acção malévola do ser humano, entendo que, tal como a preocupação com a crise que envolveu todo o Planeta foi alvo de uma atenção generalizada para tentar-se pôr cobro a esse vírus económico com consequências sociais terríveis, os povos deveriam estar atentos ao renascimento de uma onda de juventude, mas não só, de adeptos que cultivam os princípios tidos como fascistas, com grupos que se vêem em estúdios de futebol, bandos de rock, subscritores de atitudes agressivas contra os estrangeiros nos seus países, negros, homossexuais, etc., os quais já deram mostras de existência em França e que, agora em Itália, não escondem que seguem com entusiasmo esse princípio hitleriano. Até na Polónia já surgiram tais manchas de adeptos, imagine-se…
Pois é isto tudo que não deve ser escondido, ignorando-se a sua existência só porque é incómodo e não desejamos ver por perto. As Democracias têm esta fraqueza de não serem suficientemente severas com as forças que pretendem terminar com a Liberdade. E elas sabem que, se implantarem a sua ideologia totalitária, não deixarão que regresse a possibilidade de se discordar e as revoluções não são fáceis de levar a cabo.
Não devia escrever isto? Eu, por mim, que não corro o risco de vir a assistir a este descalabro, pois o tempo ainda decorrerá durante algum tempo suficientemente longo até esse perigo ocorrer, se ficasse calado só tinha a ganhar. Mas manda a consciência que não proceda assim. E oxalá nunca venha alguém dizer, daqui a uns tantos anos… tinha razão aquele José Vacondeus, quando alertou para o que está a decorrer.

domingo, 18 de outubro de 2009

Fazer fortuna facilmente é uma questão de sorte, de engenho e, por vezes, de processos inconfessáveis para o conseguir.
Fazer obra genial já não depende de subtilezas da vida.
Quem faz fortuna, goza-a; quem é génio, quase nunca o aproveita em vida.

CENTENÁRIOS



JÁ é uma realidade dos nossos dias. Nos sítios onde vivemos, seja qual for a cidade, a vila, a aldeia, quer isso ocorra em Portugal ou em qualquer outro país do mundo, com excepção de várias partes de África em que as crianças abundam mas em que se assiste à sua mortalidade em magotes, quer por doenças quer pela própria fome, aquilo a que se assiste é ao predomínio de gente idosa. Ora reparem a partir de agora se, na mesma direcção na sua rua ou em sentido contrário, não abundam as pessoas isoladas ou aos pares que atingiram já uma idade que ultrapassa bastante a sua.
E, a ser verdade o que veio publicado recentemente na revista médica “The Lancet”, todos os nascidos a partir do ano 2000 vão durar bastante para lá dos 75 anos, o que não provoca nenhuma estranheza posto que, já hoje, essa idade não é considerada como tratando-se do fim da vivência, então teremos que antecipar o que se passará no século seguinte ao nosso, em que os centenários abundarão por esse mundo fora. E isso devido ao desenvolvimento da ciência médica que torna capazes os de muitos anos de vida de aguentarem esse prolongamento sem os incómodos tão visíveis que ocorrem com os que ainda resistem por aí e que se arrastam até ao dia final.
Nem quero fazer contas e entrar no plano económico, em que os reformados se manterão a receber as suas participações nos montantes que lhes cabem por terem trabalhado até aos 65 anos e que esses encargos caberem aos mais novos de serem pagos. Os que cá estiverem na altura que resolvam a questão, pois que, dando voz aos optimistas, existirá sempre uma solução para os mais agudos problemas.
O que aflige também, porque me pode caber a mim enfrentar tal situação dos 100 anos, é pensar na inutilidade de tal prolongamento da existência, pois a rapidez das novas técnicas que invadem os mercados não dão sequer tempo aos mais velhos de se actualizarem e, desse modo, ficam com a sensação de que pertencem a outro planeta. É o caso dos computadores que, já hoje, deixam muita gente de fora por se convencer de que é demasiado tarde para entrarem nos meandros de uma “confusão” que têm dificuldade em aceitar.
Fazem mal, digo eu, pois que, enquanto de tem um palmo de cabeça, não se deve deixar de procurar acompanhar a evolução das tecnologias correntes. Mas não é essa a generalidade dos seres humanos que se situam para lá dos 70 anos. O que ajudará alguma coisa será a compreensão da gente nova que, sendo muito sapiente no que respeita a todas estas maquinetas que invadem o mercado, no capítulo do conhecimento do que constitui a história, os costumes e usos que vêm de trás, de alguma ciência que a velhice transporta, sobretudo no que diz respeito ao bom senso e à preparação para enfrentar o futuro, nisso é importante que os novos levem em conta e aproveitem a sabedoria dos antigos. Foi o que sucedeu connosco, com alguns que tiveram a felicidade de poder ouvir os mais velhos e com eles terem aprendido alguma coisa

sábado, 17 de outubro de 2009

IGNORÃNCIA

Feliz é a ignorância
dos que não sabem que a têm
nunca lhes chega a ânsia
porque não sentem nem vêem

O mal é se por isso dão
e alguém lhes faz notar
que não sendo sabichão
poucos lhe podem ligar

Pois quando algo já sabem
lá falha a felicidade
não têm do que se gabem

Enfrentam a realidade
os saberes que acabem
infelizes com verdade

A INFELICIDADE



SERÁ que nós, os que atravessamos esta época de um mundo acabrunhado e, particularmente, um País que, embora habituado por séculos de poucas felicidades, suporta nesta altura uma das maiores crises económicas, financeiras e sociais que já teve ao longo da sua História, será que a geração a que pertenço e de que sobram ainda muitos cidadãos, aquela que, ao longo de várias décadas, viveu sob o jugo de uma ditadura que deixou as suas marcas de que, por sinal, ainda muita gente não se desabituou, repito ainda, será que não teremos a alegria de vir a contemplar um Portugal, ainda durante a nossa vivência, que seja uma Nação que só terá razões para se regozijar com o que oferece aos seus cidadãos? Pergunto de novo: acabaremos todos por partir com a mágoa de nos ter sido oferecido um espaço de nascimento em que os desgostos e as dificuldades preencheram todo o tempo em que nos movimentámos como portugueses?
Já sabem os que me lêem desde sempre que eu não costumo cantar hossanas só para mostrar que anda tudo bem, que não têm os nacionais razões de queixa no que diz respeito ao ambiente em que são forçados a viver, não só quanto às determinações políticas superiores como igualmente ao comportamento de outros cidadãos e até de empresas, sobretudo as estatais, que não se habituaram ainda a cumprir os seus deveres, com competência e como é obrigação de quem tem de atender a sua clientela com competência.
Todos nós sabemos que, na vida quotidiana que somos forçados a acompanhar, frequentemente deparamos com o desleixo, com a ausência de atenção no trabalho, com o desinteresse dos funcionários, sejam eles públicos ou privados. Há, na verdade um número aflitivo de desocupados em Portugal, mas o que falta, por outro lado, é gente, portugueses, que sejam aprumados no cumprimento das suas obrigações na actividades que exercem.
Não é verdade que todos nós, enquanto consumidores, temos repetidamente razões de queixa no que diz respeito à forma como somos tratados, especialmente pelas empresas públicas, quando deparamos com faltas de bom atendimento, de rapidez nas execuções, de boa vontade em solucionar os problemas?
Quem vê diariamente o programa na RTP, com o nome “Nós por cá”, em que são denunciadas situações escandalosas de incompetência, de ausência de cumprimento de obrigações, de verdadeiro desleixo na execução de erros que têm obrigação de ser rapidamente ultrapassados e que levam tempos infinitos em ser atendidos, nesse programa, que merece o louvor de todos nós, assiste-se a escândalos do tal portuguesismo não operativo, que começa nos responsáveis superiores e que logo se transmite a toda a escala de operacionais.
As Brisas, as Estradas de Portugal, as companhias de água, electricidade, e por aí adiante são a prova provada de que actuam à solta e criam a imagem daquilo que todos nós somos: uns “deixa para lá”, uns não apressados que preferimos estar ao telefone todo o dia do que cumprir com rigor o trabalho para que somos pagos, uns ditos trabalhadores que fazemos horas extraordinárias porque, durante o horário estabelecido, nos entretemos com outras coisas… e por aí adiante. É que, nesta Terra ninguém é assume as suias responsabilidades, são sempre os outros os culpados. E é com esse sacudir a água do capote que lá vamos vivendo... mal mal!
Fico-me por aqui, porque a lista de casos que tenho para contar é de tal forma extensa que, seguramente, enfastiaria o leitores que estarão cansados de saber que tudo isto é verdade, mas que preferem fingir que não é tanto assim. Eu é que tenho este costume de não andar a fingir que estou vivo e, por isso, pago com as queixas que faço a mim próprio.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A EUROPA QUE QUEREMOS



Essa Europa de que tanto se fala
e de que muitos querem fazer parte
não encontrou ainda o caminho,
anda confusa,
anda perdida,
está a gastar tempo,
está a correr o risco de ficar pelo caminho.
A Europa das Nações é um sonho,
ter um objectivo comum
uma Constituição para todos,
um governo geral,
uma moeda igual – que já tem,
com línguas diferentes
costumes desiguais
bandeiras distintas
regiões autónomas,
conseguir tal objectivo, não é fácil.
E porquê,
se todos desejam fazer parte do grupo?
A resposta é simples:
é que a Europa é constituída por seres humanos,
também ela
como o resto do mundo
e é por isso que o entendimento,
a comunhão de ideias
e de interesses,
a capacidade de não exigir o comando,
o desprezar interesses pessoais,
o atender ao bem geral,
tudo isso falta ao Homem.
Querer ser o chefe,
o que manda,
desejar a melhor parte
é isso que destrói as comunidades,
é por aí que se partem as uniões.
A Europa chegou até onde está,
conseguirá avançar mais um pouco?
Mas quando?
E por quanto?
Até que ponto resistirá às discordâncias?
Ficará num mito?
Abdicarão os homens do muito mal pelo pouco bom?
E as regiões que, por essa Europa,
lutam por independência
estão a passar de moda?
Já eram?
Que isso de querer ser dono da sua rua
deixou de ter razão de ser?
Pois não parece…

E a emigração de que este Continente
está a ser alvo?
Os milhões de populações não europeias
que já entraram
e os milhões que virão a caminho,
instalando-se
tendo filhos,
muitos,
o dobro,
o triplo,
o quádruplo
dos naturais da Europa,
que mudança já provoca
e muito provocará
ainda mais
nos hábitos, costumes, língua,
cor da pele
na tradição europeia?
Daqui a cinquenta anos
quem cá estiver
e os que venham a ocupar
as terras europeias,
Paris,
Londres,
Madrid,
Berlim
todas as grandes cidades
deste Continente,
não encontrará nada igual ao que existe hoje.
Os adivinhos
que tenham a capacidade de ler no futuro
que desvendem esse mistério.
Talvez seja preferível, agora,
não saber…

Contemplando os homens de hoje
não será inevitável fazer
um exercício de reflexão
cauteloso?
E a pergunta impõe-se:
Como é possível existir uma Europa
com este material humano?
Essa Europa do todos por um
e do um por todos,
que vem nos livros
e se coloca nas bandeiras dos clubes
é uma forma de actuar
à moda antiga,
Porque a realidade de hoje é outra.
Afinal podemos ter esperança?
Será melhor persistir na Europa
ideal,
unida,
sonhada para ser eficiente,
capaz de juntar vontades,
interesses,
forças?

Deixo aqui a pergunta
esta e todas
e sei que há duas respostas,
antagónicas,
contrárias.
Uns, os crentes por natureza,
acreditam no êxito,
têm fé que os homens
encontrem o bom senso.
Outros, nos quais me incluo,
perderam a esperança.
Andamos a enrolar o tempo,
assistiremos aos altos e baixos,
aos avanços e aos recuos,
às reuniões,
aos banquetes
às discussões,
aos abraços,
às viagens para um e para outro lado,
aos discursos inflamados,
aos processos de intenções,
aos amuos,
aos sorrisos forçados,
às fotografias de grupo
todos em bicos de pés,
mas não passará disso,
ficará sempre nisso…

Europa unida,
em bloco
toda igual,
vivendo todos bem, os europeus?

Que sonho mais lindo!

JAMAIS


É VÊ-LOS deixar o que faziam e regressar uma vez mais à vida política profissional, isto é com remuneração adequada que, bem vistas as coisas, de uma forma geral, é sempre superior à normalidade dos pagamentos que se praticam por aí por qualquer actividade que se tenha. O que foi agora tornado público é que uma série de indivíduos que já são conhecidos pelas suas intervenções que os “media” transmitem, essas caras surgem de novo no ambiente partidário e, em particular, como deputados na Assembleia da República.
Vou enumerar alguns deles, por serem os mais visíveis desde há bastante tempo, pois nunca se afastaram completamente dessa área e agora, por razões que os próprios poderão esclarecer, fazem uma reaparição. São eles: Pacheco Pereira, Maria José Nogueira Pinto, Francisco Assis, José Ribeiro e Castro e João de Deus Pinheiro (este, à última hora, renunciou ao mandato, talvez porque o golfe tenha falado mais alto!). Haverá ainda outros, mas passarão mais despercebidos.
A pergunta que se poderá fazer, dado que ter dúvidas e querer ser informado é uma atitude absolutamente respeitável, é se, então, pessoas que já deram mostras do que foram capazes no mundo da actividade partidária, e tendo sido afastadas ou tendo dado esse passo por vontade própria, acham que nesta altura o País necessita assim tanto da sua nova intervenção. O preferível, de facto, é que caras não conhecidas – o que, aliás, acontece também agora nesta nova Legislatura, com 105 rostos que se estreiam -, apareçam a querer mostrar que um sangue novo será capaz de modificar muitos dos vícios que estão instalados na vida política e, sobretudo, na partidária, ao ponto de passar a existir um maior e melhor entendimento entre adversários, pois que a Democracia portuguesa carece de fazer uma análise do seu comportamento e de confessar que não existe por cá a capacidade de ouvir as opiniões dos outros e de admitir que as nossas ideias nem sempre são as melhores.
É evidente que José Sócrates, recolocado no lugar de primeiro-ministro de um Governo minoritário, tem de dar mostras de ser, desta vez, capaz de apelar para a modéstia que lhe faltou no período terminado, isto se quiser que o nosso País não paralise perigosamente por falta de condições para serem executadas as disposições tomadas governamentalmente. Estamos todos cá para observar se o resultado da votação que ocorreu se justifica e se o Povo é tão sábio como se diz muitas vezes. E também estamos ansiosos por verificar se Sócrates tem desta vez capacidade para dirigir uma equipa ministerial que, se der mostras, um ou outro dos seus membros, de não se adaptar às circunstâncias, o que deve fazer com a maior rapidez é encaminhá-los para a saída, pois que os dinheiros públicos não se compadecem com desperdícios de pagamentos de ordenados a políticos incompetentes.
Neste particular a actuação do chefe do Executivo tem de ser de rigor e sem contemplações com amizades e com compromissos. Será que, desta vez, vamos encontrar uma personalidade diferente da anterior?
É preciso gritar bem alto “Jamais” a ocupantes de lugares ministeriais que não sirvam o País e que lá se mantenham não obstante as manifestações públicas que têm lugar e a que o chefe do Governo, como sucedeu no mandato findo, fez vista grossa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

PENSAMENTO

Há tantos burros a mandar em
homens inteligentes que,
às vezes, penso que a burrice
é uma ciência.

É preciso fingir que se é burro
para se vencer na política

PECADOS

Confesso os meus pecados
que são muitos sem ter conta
os piores estão bem guardados
do princípio até à ponta

Que faço p’ros destruir?
Nada, são erros de origem
o que me resta é fugir
mesmo causando vertigem

As falhas que eu escondo
p’ra não verem um só erro
algum sorriso vou pondo

E dentro de mim encerro
faltas pelas quais respondo
até dia do enterro

MAITÉ OPINA



SE NÃO vivesse nesta País, se não estivesse completamente conformado com muitas das nossas manias e preocupações infantis, se me tivessem contado o que ocorreu esta semana como tratando-se de acontecimento que merecia a maior divulgação e escândalo por parte dos portugueses, não acreditaria que tal fosse possível. Mas, ao contrário do que seria razoável, sim, passou-se. E nem um terramoto que tivesse destruído cidades, ou algum ataque terrorista ou mesmo um caso de origem política que tivesse alterado profundamente a regra que estava implantada, nem tudo isso faria tanto alarme no seio do nosso povinho que, como é natural, é muito conduzido por aquilo que a comunicação social considera merecer alarde bastante e até exagero naquilo que divulga.
A que me refiro? Pois bem, ao noticiário repetido, cansativo, fora de propósito que surgiu acerca do mau gosto demonstrado pela artista brasileira Maité Proença.
As televisões, todas elas, repetiram em edições sucessivas e em dias seguidos o espectáculo, feio e triste, que deu a protagonista de várias telenovelas do outro lado do Atlântico. E digo feio e triste, não por ser apenas uma espécie de gozo à maneira de ser dos portugueses – segundo sua interpretação própria -, mas, na realidade, por constituir uma intervenção desprovida de graça, pois que se se destinava a fazer rir os brasileiros, não me parece que tenha atingido esse objectivo, tanto mais que não faltam nos arquivos dos humoristas motivos muito graciosos acerca das várias formas de ser dos naturais desta terra lusitana. Aquele cuspir desajeitado e a história que contou com o que se passou num hotel lisboeta, não dão ideia, de longe ou de perto, do comportamento do nosso burgo.
Este acontecimento recorda-me um caso, ocorrido com Raul Solnado, numa altura em que este saudoso artista e amigo esteve no Brasil e em que, num jantar, em que se contaram muitas histórias picarescas acerca dos portugueses que vivem naquele País, lhe perguntaram se nós, por cá, também troçávamos dos naturais das terras de Vera Cruz, o nosso Raul, naquele seu estilo muito próprio, respondeu: “nós, lá em Portugal, quando falamos de brasileiros, desatamos logo a rir!”
Bom, mas na verdade, pondo de lado a ausência de graça de Maité, que, de resto, nem é uma das mais valiosas artistas no seu País – e não afirmo isto por pura vingança, que seria descabida -, não constitui a mais pequena ofensa que, quem quer que seja no estrangeiro, deixe escapar comentários sobre os portugueses. Eu, nestes casos, repito aquela afirmação do “falem de nós, ao menos mal!”. E, por muito que não fique satisfeito quando as críticas ao que somos vêm de fora – porque nós, isso sim, não devemos deixar passar despercebidas todas as críticas que entendamos fazer -, aceito que todo o mundo tem o direito de expressar as suas opiniões e a nós compete-nos apenas verificar se têm razão e, nesse caso, emendarmo-nos, não levando a peito como ofensa máxima o que encontram e fazem graça com isso.
Agora, o exagero em que caímos, sobretudo a comunicação social lusitana, de levantar lamúrias exageradas e de nos arrepelarmos contra uma figura que pouco conta no panorama geral (imagine-se o que seria se tem sido Barak Obama a dizer aquelas coisas!), essa choraminga de pátio é que dá motivo para outro gozo.
Pensemos nos nossos problemas e arreganhemo-nos para os tentar resolver, sobretudo o novo Governo que tem matéria para lhe ocupar todo o seu tempo. Talvez assim deixasse para oportunidade mais própria essa de se incomodar com os animais selvagens que, sendo bem tratados nos circos, motivaram a saída, nesta altura, da portaria que não deixa que procriem nesses locais de trabalho. Fica para depois este assunto.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

MENTIRA

Espalhar uma mentira
sempre com um ar sisudo
provocará certa ira
e deixa o da verdade mudo

Tanto se espalha uma peta
convencendo os que a escutam
que ninguém diz que é treta
e até quase a desfrutam

A mentira construída
com jeito e habilidade
é como uma ferida

Que só tratada a metade
provoca uma recaída
e nem se salva a verdade

PROMESSAS HÁ MUITAS!



SÃO BASTANTE conhecidas as afirmações feitas pelos políticos, quando desejam receber das populações o seu apoio para obterem algum proveito em competições em que se encontrem envolvidos e que dependa da força do voto. Nisso há até campeões, dos que não hesitam em garantir feitos futuros, dos mais difíceis de conseguir, sem levarem em conta de que o que prometem não têm maneira de concretizar. Mas como fazer promessas não custa, bastando apenas ter a chamada “lata”, é esse o procedimento de muitos dos que sobem ao palanque para lançar esperanças infundadas que depois logo se vê se o povo se lembra do que foi dito.
Cada vez que se realizam eleições, nos períodos chamados de campanhas, surgem variadíssimos ofertantes de benesses que não têm receio em afiançar que o que fica prometido é para depois ser cumprido. E a verdade, dura e crua, aparece depois e o desconsolo também. Mas, segundo um princípio político, quem não promete não ganha eleições e não consegue ser aplaudido pelos cidadãos.
Não vou aqui apontar casos que retenho na memória e que, ao longo da minha vida jornalística, roçaram por mim e me deram para receber vários piscar de olhos de prometedores que sabiam, tal como eu, que não se tratava de algo para ser levado a sério. Por agora, quero somente enumerar a lista que António Costa tornou pública e que se diz disposto a levar a cabo.
São as seguintes: criação de uma rede de eléctricos rápidos, com ligação a Alcântara, Ajuda e Restelo; instalar, por toda a Lisboa, mil postos de abastecimento de automóveis eléctricos; plantar cinco mil árvores por ano em arruamentos e a criação de parques e hortas urbanas em diferentes pontos lisboetas; criar 76 novas creches; criar o programa Apoio/Lisboa, para atender, 24 horas por dia, serviços para pequenas reparações domésticas; dinamizar o mercado habitacional de Lisboa para garantir casas mais baratas para jovens casais; um projecto-piloto para que defenda um comércio étnico na avenida Almirante Reis, com uma feira semanal no largo do Intendente e no Martim Moniz; projectar Lisboa no mundo, fazendo da capital uma cidade Erasmus, para atrair estudantes universitários, de forma a fazer “novos embaixadores” das tradições lisboetas pelo resto do mundo; através de uma aplicação na Internet, chamada “Na Minha Rua”, onde se poderá assinalar a necessidade de intervenção dos serviços municipais; por último, requalificar o Mercado da Ribeira, através de bancadas que dignifiquem os produtos para venda.
E aqui fica o que foi tornado público por António Costa, ao qual não faço comentários, nem de apoio nem de repúdio. Basta-me ver se a palavra dada pelo repetente Presidente camarário vai ser cumprida.
Mas, não resisto a sublinhar o aspecto de que Costa não dedica nem uma só palavra ao que se encontra num completo abandono e que são as ruas de circulação de automóveis e os passeios em que os peões sofrem autênticas torturas. Não repito aqui o que tem sido uma constante nos meus escritos. Quem me lê sabe a que me refiro.
Por sinal, também Santana não se esqueceu de fazer menção destes “pormenores”. Por aqui se vê como andam distraídos os nossos autarcas.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

CONFIANÇA

Levar a vida sem ela
a mínima, a que chega
é andar de pé atrás
é nem chegar à janela
é jogar à cabra cega
e de pouco ser capaz

E mesmo a que se tem
sendo pouca até dá jeito
algumas dúvidas deixa
nem sempre se diz ámen
o que pode ser defeito
e provoca certa queixa

Quando se tem com fartura
com ela se entrega a alma
nenhuma dúvida resta
se mostra a maior candura
vive-se em completa calma
cada dia é uma festa

O que é isso afinal
que tão feliz torna o mundo
e lhe provoca esperança
será só um ideal?
Vistas as coisas a fundo
descobrimos: confiança




O DIÁLOGO


Agora que o Presidente da República já atribuiu a formação de Governo ao Partido Socialista, cabe de novo a José Sócrates a responsabilidade de escolher a sua equipa e de colocar-se à frente do Executivo que, não sendo agora maioritário, enfrenta uma situação que difere completamente da que dispunha na fase anterior às eleições legislativas. Mas, sobre isto, já se falou o suficiente para não ser necessário repisar quanto às dificuldades que se deparam na fase actual.
O professor Adriano Moreira, ouvido recentemente numa entrevista conduzida na televisão, deu mais uma vez demonstração da sua capacidade de raciocínio e de exposição, o que demonstra que, apesar da sua idade, não perdeu nada das suas características de docente universitário e de pensador político, fruto de uma experiência que vem bastante de trás e que só pode ser também atribuída ao professor José Hermano Saraiva, este igualmente com bastantes anos de vida e que fez parte igualmente de um governo do Estado Novo. Pois Adriano Moreira, que acaba de publicar um livro de análise em relação aos tempos actuais da política nacional, referiu-se ao que se torna rigorosamente necessário ser levado às últimas consequências na circunstância em que o País se encontra no aspecto político: o diálogo entre o Governo, que tem de lutar com as outras forças se pretende manter-se no seu lugar, e os adversários que, nalguns casos, já declararam que não podia haver consonância possível com o PS. Não vai ser tarefa fácil.
É certo que o professor não deu qualquer novidade, mas dito por si torna mais forte a convicção de que, como diz o povo, há que engolir muitos sapos vivos se José Sócrates quiser manter as portas fechadas para uma saída abrupta do cenário da governação.
Nós, portugueses, que isso de saber ouvir as opiniões dos outros e de sermos capazes de dar razão aos que se opõem às nossas convicções é coisa que não cabe no comportamento enraizado na nossa Terra – e bem recordo eu o que tenho escrito sobre a necessidade de ser iniciada na instrução primária a classe de Democracia, para que, ainda crianças, se formem as mentalidades sobre isso mesmo: o diálogo -, pelo que haverá razões para não se estar muito optimista quanto aos resultados que serão obtidos nas buscas de consenso com os adversários políticos.
Há, no entanto, que acreditar em milagres e ter fé em José Sócrates que werá capaz de modificar totalmente o seu comportamento anterior e passar a saber ouvir os outros e a não declarar que tem sempre razão. Só assim se constitui um diálogo profícuo e os resultados podem aparecer para benefício de Portugal.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

COMO, QUANDO, PORQUÊ

Nós, que apenas povo somos
que só nos cabe aceitar
do País só nos dão gomos
e bastantes de amargar
há também quem descrê
e bem pergunta porquê

Sempre aguardando resposta
e nunca ninguém lha dando
sabe quem perdeu a aposta
conformado vai ficando
em nada e em ninguém crê
para saber para quê

Neste mundo foi cá posto
e não deu opinião
e agora a contragosto
bem pode gritar que não
mesmo com certo assomo
se interroga: e como?

Se há que seguir em frente
pois parado é morrer
tem de fazer de inocente
dar mostras de não saber
esperar por quem responde
e lhe diga para onde

E não serve qualquer hora
há momentos ideais
quando se quer ir embora
nem todas são mesmo iguais
há que ir até andando
a questão é saber quando

Ir sozinho é um dilema
sempre é bom ter companhia
para defrontar problema
mesmo o do dia-a-dia
mas p’ra pedir a alguém
tem sempre de saber quem



VOTOS DE DOMINGO



Não consegui aguentar até altas horas da noite para poder tomar conhecimento dos resultados das eleições autárquicas, as quais constituem o final da série de consultas aos cidadãos no que respeita a três diferentes objectivos.
Sabido que já é, na altura em que escrevo este início de blogue, que, nos casos de Lisboa e Porto, sem dúvida as duas forças políticas mais destacadas são as que atraem mais a atenção política e que, logo no início, por via das sondagens, se constatou a melhor posição de António Costa, na capital, e de Rui Rio, na cidade Invicta, talvez se verifique um maior desapontamento pelo facto de Pedro Santana Lopes não ter conseguido dar mostras de uma projecção mais destacável, face ao combate que foi mantido e as promessas do candidato social-democrata no que diz respeito a não dar seguimento aos projectos “Costista” de manter a acumulação de contentores nos cais lisboetas e de prosseguir com uma obras contestáveis. Mas, por seu lado, Santana também não conseguiu convencer os cidadãos alfacinhas de que a sua actuação provocaria uma alteração profunda da imagem que Lisboa nos dá, tendo ainda muito presente a “borrada” feita com o Parque Mayer.
Seja como for, o que é fundamental ser deixado claro, nos casos das eleições nas autarquias, é que os partidos políticos, na maioria das situações, têm pouco a ver com os resultados conseguidos, sobretudo nas povoações mais pequenas, pois o que conta são os indivíduos que se apresentam para presidir a cada local de escolha, com predominância para as Juntas de Freguesia, como é natural, e mesmo nas Câmaras Municipais, conta bastante a simpatia pessoal para que a escolha recaia neste ou naquele candidato.
Não vale a pena, pois, nesta altura, referir-me aos grupos partidários que, através das declarações que estou a ouvir nas televisões, se encontram cada um que conseguiu uma boa posição, a arvorar-se em grande vencedor como ideal político.
Acabaram as deslocações da população às mesas do voto, depois de uma fartura de demonstrações de que a Democracia está já instalada em Portugal com profunda convicção de todos os naturais do nosso País. É verdade que, pelo menos no que se refere ao gesto de pôr as cruzinhas nos boletins que são apresentados para fins das opções de cada um, esse acto reveste-se de um significado que não pode ser desvirtuado. Mas, daí a concluir-se que o povo português, passados 35 anos sobre a mudança de regime, já se encontra absolutamente inserido no espírito da Democracia, isto é, o aceitar as opiniões dos outros sem brigas e o não limitar as suas relações às posições políticas, religiosas, até desportivas dos outros cidadãos, sabendo ouvir e não temendo dar razão aos adversários, se essas opiniões podem ser sustentadas com razoabilidade.
É por isso que eu tenho repetido sem me cansar que é nas escolas primárias que se deve começar a instruir as crianças a entender o que representa essa prática do dia-a-dia. Oxalá os políticos no poder entendam esta recomendação.

domingo, 11 de outubro de 2009

PASTOR

Se tivesse que ser outra coisa
na vida
e me dessem a escolher
logo à partida
se soubesse o que sei hoje
por pouco que seja
esteja como esteja
talvez tivesse optado por ser pastor
por certo estranho
junto do meu rebanho
para os outros que me olhariam
andando por montes e vales
entregue ao não te rales
mas sempre com papel e caneta
a inspirar-me na Natureza
e a reproduzir sua beleza
e só pensar nos bons actos
que o ser humano poderia fazer
e pondo bem longe a hora de morrer

Que bom seria ser pastor
viver isolado das maldades
ser feliz
de raiz
ouvir apenas os balidos
das minhas companheiras
as ovelhas
e de vez em quando os ladridos
do fiel amigo
sempre atento ao perigo
que possa existir
de alguma fugir
do grupo que me dá
esta profissão de pastor

De manhã à noite
ter a imaginação
sempre em acção
ver passar as estações do ano
todas elas úteis e benéficas
sentir o sol e o vento,
mas ter presente o talento
beijando cada flor do caminho
cuidando em raízes não pisar
e deslumbrando o olhar
sem ambições, sem maldades
pegando no cordeirinho
que também quer o seu caminho
e, de vez em quando,
fazendo saltar os poemas
agarrado ao cajado
que também puxa pelos temas
sem pretender compreender
o mundo que se atravessa
e que desde ali não se pode ver

E à noite, recolhidas as ovelhas,
abrigado no curral, pensar
à luz do petróleo, sonhar
lembrar-me que os ricos
sofrem por querer mais
que eu com os meus nicos
sou feliz, por demais.

Ser pastor neste mundo
é o que eu queria no fundo.






OBAMA, NOBEL DA PAZ... JÁ?


Eu confesso que, desde que foi eleito o actual Presidente dos Estados Unidos da América, tenho tido um grande apreço pelo homem que conseguiu substituir o seu tão mau antecessor, George Bush, por muitas razões e sobretudo porque, tendo lutado num País que mantêm bem enraizado o espírito de separatismo em relação à raça negra, obteve, desde o início do seu mandato, uma larga mancha de admiradores e, no que diz respeito à população geral do mundo, também se tem verificado uma adesão de simpatizantes por Barak Obama, de seu nome.
Com excepção dos grupos de religião muçulmana, especialmente aqueles que seguem cegamente os princípios ditos sagrados da sua fé e que, por tal motivo, aplaudem as acções que andam próximas dos ataques terroristas que deflagram por toda a parte, tirando esses e uns tantos outros naturais de diferentes países que nunca alimentaram uma grande admiração pelos chamados “americanos”, pode-se dizer que Obama tem merecido uma especial consideração do exterior da sua Pátria, e isso devido a um estilo de compreensão e simpatia que, nestas coisas da política, são fundamentais para que a imagem caia bem à primeira impressão.
Há que reconhecer que o seu ar de não pretender mostrar que sabe muito e de que tudo que decide é o melhor, sendo ou não autêntica esta compostura – só os mais íntimos podem garantir -, tal comportamento público tem-lhe trazido uma onda de apreço que pesa favoravelmente na balança da sua análise.
Posto este preâmbulo, vou agora referir-me ao Prémio Nobel, visto que acaba de lhe ser atribuído o referente à Paz e essa distinção merece que, da minha parte e sem ter certezas de nada, faça uma reflexão que tem a importância que tem mas que, em virtude de poder dispor deste blogue que alguns interessados acompanham e me enviam os seus comentários, é o espaço de que disponho agora e que serve de escape às minhas reflexões.
No que diz respeito ao propriamente dito Prémio Nobel, tratando-se de um galardão de enorme prestígio e que tem sido atribuído, ao longo dos anos, a personalidades que deram mostras claras e indiscutíveis do seu merecimento, em certas ocasiões, sobretudo no capítulo da literatura, a sua entrega tem motivado interrogações e certas dúvidas que se relacionam com inclinação politica dos premiados. Aqui fica o reparo.
No capítulo da característica da Paz, haverá que apontar a ausência de atribuição do Prémio a figuras que, tendo dado grandes provas de contributo mundial para diminuírem os confrontos guerreiros, embora esse facto não diminua a importância e a honraria que significa serem homenageados os contemplados.
Agora, falemos de Barak Obama. Será que ele merece a distinção com que acabou de lhe ser atribuída? Vou ser franco: provavelmente, dentro de um ou dois anos, se se concretizarem aquelas que parecem ser as intenções do desejado interveniente no capítulo de moderar bastante do que se passa de condenável na Esfera terrestre, no que se refere às relações entre os povos, se o Afeganistão deixar de ser um espaço de confronto bélico, se entre Israel e a Palestina for posto ponto final na agressividade que dura há demasiado tempo, se, por sua influência e exemplo, forem afastados os desentendimentos de que o ser humano é o principal culpado – e não vale a pena apontar aqui os múltiplos exemplos em que o E.U.A. podem contribuir para pôr alguma serenidade onde ela não existe -, se isso vier a verificar-se e Obama tiver a mínima influência nos êxitos que se esperam, então sim, o Prémio Nobel da Paz caber-lhe-ia que nem uma luva e o mundo inteiro aplaudiria, até provavelmente os que não apreciam em demasia o Presidente negro.
Mas já está. Quiseram pôr o carro adiante dos bois. E o Homem agora fica com a responsabilidade de dar mostras universais de que é merecedor de tal honraria. Oxalá o consiga. E eu nem quero admitir a hipótese de virmos a assistir a uma frustração mundial!...