quarta-feira, 30 de setembro de 2009

NOVOS E VELHOS

Nada como um velho para contar
Aquilo que se fez enquanto moço
Mesmo que muito deva olvidar
É como a água fresca do poço

Os novos muito têm a aprender
Se souberem seguir tanta ciência
Porque a vida levada a sofrer
Dá saber e dá muita paciência

Os jovens, por muito insatisfeitos
Por mais impacientes que eles sejam
Não é aí que perdem os direitos

Não é por aos mais velhos atender
Não é por muito apressados que estejam
Que não lhes sucede o mesmo, que é morrer

TUDO PODE ACONTECER



E andamos nós, por cá, preocupados com os resultados das eleições, as legislativas e as autárquicas, e também com uma série de acontecimentos a que dedicamos grande importância, como sejam os tabus das escutas tanto na Presidência da República como no Governo – e a ser verdade tanto faz -, como, salvaguardadas as devidas distâncias, nos afligimos imenso com os resultados no futebol, sobretudo se o nosso clube preferido não alcançou a tal vitória, bem como, e nisto com alguma justificação, com as inúmeras dificuldades com que nos defrontamos no dia-a-dia, como sejam com o desemprego que representa, na verdade, um flagelo que nos toca dolorosamente na pele, e, para além dessas dores de cabeça que sustentamos, confrontamo-nos nós, em Portugal, com tantos problemas que não conseguimos ver resolvidos que nem temos ocasião para analisar, com a devida serenidade, aquilo que, muito provavelmente, nos obrigará a colocar em posição subalterna todo esse alvoroço de situações que, nesta altura, constituem assunto para ser tão debatido sobretudo em todas as televisões nacionais.
A que é que me refiro quando me questiono sobre a importância relativa dos casos que ocasionaram toda a barafunda que, digam o que disserem, causa, é certo, um certo mal estar entre as duas forças maiores do panorama político nacional e, em vista disso, o discurso do Presidente da República e todas as “sábias” intervenções dos chamados “politólogos” que foram chamados a dar as suas opiniões?
Pois, não deixando de atribuir alguma importância ao ocorrido, a realidade chama-nos para as notícias que invadem, já há algum tempo, as informações jornalísticas e que, a passarem a constituir uma realidade, não deixam oportunidade aos habitantes do mundo inteiro – e não só a nós, portugueses - de se inquietarem com as situações que, em cada parte do Globo, servem para abalar a vivência dos seres humanos. Avanço, pois:
O caso dos testes nucleares que estão a ser levados a efeito nalguns países que merecem pouco respeito e confiança no capítulo de serem governados por indivíduos que tenham dado garantias de não ultrapassar os limites admissíveis, essa repetição de lançamento de mísseis, cada vez com maior alcance, não podem deixar tranquilos os parceiros, também possuidores do vulgarmente conhecido por armamento atómico, pois, até a descoberta agora de que o Irão possuía mais uma central de enriquecimento do urânio, no que é acompanhado pela Coreia do Norte e, provavelmente, por outros países que se admite que escondam que já dominam cientificamente aquela área, toda essa situação não pode transmitir tranquilidade a todo o Globo, tanto mais que se sabe que, no caso de Israel, país que é apontado como alvo de um eventual primeiro ataque atómico dos muçulmanos e que dispõe do mesmo tipo de armamento, se verifique uma resposta de idêntico calibre constituiria um envolvimento alargado numa guerra cujas consequências estão longe de ser imaginadas.
Por mim, que até já escrevi uma peça de teatro, intitulada “E a Terra, indiferente, continua girando”, e em que as cenas decorrem num ambiente de um mundo completamente destruído por uma loucura humana em que todo o Globo fica destruído, não me espanto com o que poderá suceder se o Homem não conseguir dominar os seus ódios de toda a espécie e tomar consciência dos efeitos devastadores que sairão das suas próprias mãos se não conseguir dominar um qualquer acto de loucura.
Por isso, embora tendo aguardado com o maior interesse as palavras que Cavaco Silva anunciou que pronunciaria ontem, ao ter concluído que se tratou de uma espécie de “briga de pátio” todo aquele conjunto de escuta aqui e escuta ali, ainda mais fortifiquei o meu ponto de vista de que os portugueses têm problemas muito mais importantes para levar por diante a sua vida do que ficarem agarrados a pequenas questiúnculas que, embora sejam inquietantes por porem de mau humor Belém e S. Bento, não significam a quebra da continuação da vida. Para além disso, não posso deixar de referir que a forma como Cavaco Silva geriu este assunto, desde o seu início e agora nesta fase, foi a pior que eu esperava que saísse da sua forma de conduzir o País.
Estejamos atentos a como vai ser constituído o novo Governo. Analisemos a forma como o Executivo conseguirá entender-se com os outros partidos e inquietemo-nos quanto à eventualidade de não existirem possibilidades de governação no período mais próximo. Tudo isso vai revestir-se de importância nacional que serve de plataforma para os passos que se seguirem politicamente falando.
Isso, por cá. Porque, quanto ao resto, não está nas nossas mãos interferir.

Eu sei, este texto é excessivamente pessimista. Mas já há que chegue quem ande a garantir situações felizes à Humanidade. É bom que alguém previna no que respeita a possibilidades contrárias.


terça-feira, 29 de setembro de 2009

GRATIDÃO

Quantas vezes, vida fora
alguém nos deita uma mão
e se chora?
talvez não
pois ser grato é coisa rara
e olvidar os favores
é ferida que não sara
mas há coisas bem piores

Esquecer o bem que alguém
fez só para ajudar
tem porém?
faz mudar?
seria bom que assim fosse
e que no fundo marcasse
tivesse sabor de doce
que nunca mais se largasse

Mas isso da gratidão
por aí não se vê bem
com razão?
ainda há alguém?
o vulgar é esquecer
quando muito disfarçar
recordar não dá prazer
partir p’ra outra e andar

O Homem tem qualidades
mas não lhe cabe ser grato
vaidades?
ter pouco tacto?
algo será mas não gosta
de ter de dever favores
e não poder dar resposta
bem menos tecer louvores

Obrigado lá se diz
no momento do favor
ar infeliz?
de actor?
mostrando submissão
logo cai no esquecimento
dando grande safanão
que tudo leva o vento

Não tenhamos ilusões
ser grato p’ra toda a vida
sem paixões?
sem ferida?
não passa no Planeta
ver fiel agradecido
no Homem é pura treta
melhor cair no olvido


ELEIÇÕES - PERSPECTIVAS



Ao contrário do que talvez bastante gente suporia – e eu incluído – a soma dos votos do PS com o Bloco de Esquerda não conseguiu alcançar o mínimo necessário para que uma decisão governamental possa, a partir de agora, passar no Parlamento. Com efeito, os 117 que se impõem para que, perante uma Assembleia completa, os socialistas façam aprovar uma determinada lei que saída por decisão do Governo, somando os resultados do BE com os 96 do PS o total fica-se em 112, o que não chega para atingir tal objectivo. A verificar-se um entendimento desse lado do Hemiciclo, entre o PSD e o CDS, a junção dos 78 sociais democratas com os 21 cristãos democratas permitirá vetar todas as decisões que saiam da bancada socialista, pelo que este partido necessita entender-se com os opositores que dêem mostras de maior adversidade, isto se quiser mostrar obra nas suas funções governativas.
Em resumo: o CDU, com os escassos 15 elementos de que dispõe, mesmo juntando-se ao Bloco de Esquerda, o que parece impensável, e consiga totalizar 31 deputados, não fica em condições para bater o pé a nenhuma das outras presenças parlamentares. Isto é o que a matemática explica.
Sendo assim, como é, o panorama a que se vai assistir a partir desta altura é o de que José Sócrates é o grande derrotado decorrente das votações ocorridas no domingo. Continua a ocupar o lugar de primeiro-ministro do Executivo que venha a ser nomeado, mas a maneira de actuar muda completamente. De um chefe de Governo arrogante e sempre certo das suas decisões, passaremos, será o desejo da maioria, a ter um dócil e subalternizado condutor do novo grupo de ministros. E, quanto a estes, também se assistirá a um elenco diferente, espera-se, pois que os que se encontravam nesses lugares, a maioria deles, não têm possibilidade de prosseguir com as orientações que deram aos seus ministérios, não sendo sequer necessário mencionar aqueles que não podem manter-se ao lado do antigo chefe.
Quanto a ser conseguido prosseguir na tentativa de resolução dos inúmeros problemas que são transportados do Executivo anterior, lutando contra a crise avassaladora, externa e interna, o desemprego que não para de aumentar, a enorme dívida externa que nos compromete agora e no futuro, as situações inadmissíveis com a Justiça que temos, os problemas que se mantêm por resolver na área da Educação, a urgente necessidade de alargar os cuidados de saúde aos portugueses, sobretudo aos de categoria social mais débil, o enfrentar-se com realismo o estado a que chegou a nossa agricultura e, também importante, não deixar que se mantenhas as benesses inaceitáveis que são concedidas aos detentores de lugares oferecidos aos amigos do sistema, tudo isto entre uma enormidade de problemas que não podem continuar a existir num País que já merece, há muito, fazer parte dos mais desenvolvidos da Europa.
José Sócrates venceu? Não é esse o meu entendimento. Mas oxalá esteja equivocado. E passemos a assistir a um governante que entendeu, por fim, que não é com arrogância que se convence um povo. E que, pelo contrário, é admitindo os enganos, reconhecendo dúvidas, pedindo desculpa quando as coisas não correm bem, é com essa modéstia que, sobretudo com estes portugueses que estão sempre dispostos a desculpar, que se poderá, talvez - quem sabe? -, atravessar o período tão difícil que se apresenta a S. Bento.
Ainda aí vêm as eleições autárquicas e essas, sendo importantes, não interferem directamente na governação do País. É outro assunto a que voltarei.
Já quanto ao Presidente da República, por enquanto mantém-se tudo numa incógnita. E será bom que não se criem mistérios, que não ajudam nada a animar os portugueses.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

GÉNIO E TALENTO

Quem não tem génio e talento
E sabe que assim é
É um conformado
Desconsolado

Quem não tem génio e talento
Mas luta pata os ter, sem conseguir
É um destroçado
Um infeliz

Quem tem génio e talento
Mas não acredita
É um desconsolado
Um mártir

Quem tem génio e talento
E os outros o festejam
Não sente nada
Já está morto

AMORES E DESAMORES



Hoje, em que o assunto principal é o do resultado das eleições de ontem, com os sociais-democratas bastante surpreendidos com a posição secundária que obtiveram e os do PP a congratularem-se por terem ficado à frente do Bloco de Esquerda, o tema que escolhi para preencher o meu blogue diário foi o de focar duas figuras que, tanto na política como no futebol, provocam amores e desamores que, se fossem alvo de um escrutínio nacional, obteriam também posições que surpreenderiam muita gente.
Vamos, pois, ao assunto:
Tenho a impressão que já escrevi isto numa outra altura. Mas como, quando mantenho uma opinião, só quando me convencem do contrário é que altero ou rectifico – porque nunca digo que não mudarei nada de mim, haja o que houver -, por isso volto a referir aquilo que continua a fazer parte do meu ponto de vista. Refiro-me a duas pessoas do nosso País que, cada vez que divulgam os seus pontos de vista, utilizando uma linguagem e uma posição que não se pode considerar como sendo pacíficas, mais me colocam à distância, ainda que, confesso, com reservas.
Eu explico. Tratam-se de Pinto da Costa, sempre referido, nem sei porquê, nas televisões pelo seu nome completo, e de Jardim, também, seguramente por casualidade, denominado desde o primeiro nome e até ao apelido final.
No que se refere a Jorge Nuno Pinto da Costa, o seu porte e a arrogância – que, por sinal, não constitui um exclusivo seu, pois outras figuras mediáticas também dão mostras desse comportamento – tais formas de surgir perante os outros constituem tanta certeza sobre aquilo que dizem que não hesitam em fazer o seu elogio próprio à custa de achincalhar os adversários, no caso os outros clubes que competem com o Futebol Clube do Porto.
Quanto a Alberto João Jardim, este político utiliza igual forma de mostrar o seu próprio valor atacando os outros que não comungam das suas ideias e, o que é grave, evidenciando um confronto doentio em relação ao Continente.
Não vou entrar em pormenores no que diz respeito aos dois casos. O que sim reconheço é que, em ambas as situações, as duas personalidades têm feito obra que agrada aos que são seguidores das suas lideranças, o clube nortista consegue fazer frente, sobretudo no futebol, aos seus parceiros de todo o País e, como se verifica, tem saído vencedor de um grande número de campeonatos que têm lugar no nosso País e até fora.
Por isso, eu tenho de reconhecer que, se fosse partidário do F.C. Porto, é natural que também tivesse uma grande admiração pelo Pinto da Costa. Isto, naturalmente, se também tivesse outra ideia acerca da forma como os cidadãos se devem comportar, seja qual for a sua cor partidária, desportiva, social, etc.
No que diz respeito ao Jardim, o que conheço da Madeira pelas várias vezes que ali me desloquei mostra-me que, na realidade, grandes melhorias se têm produzido, sobretudo no capítulo das obras públicas. E, embora se diga que a maior parte foi feita com dinheiro ido do Continente, mesmo assim há que reconhecer que o homem se tem interessado em fazer progredir a sua terra. Mas isso não lhe dá o direito de ter uma língua e um ar de majestade que só lhe tira razão naquilo que afirma. E esta última de que está “farto da ocupação colonial” só mostra como o político não sabe respeitar o lugar que ocupa.
Mas aqui também me dá para afirmar que, se eu fosse madeirense, provavelmente votava sempre em Jardim, por muito que me desagradasse a forma como a primeira figura da Madeira faz frente aos que lhe desagradam, com razão ou sem ela.
Tanto um como outro, dos dois aqui referidos, têm resultados positivos com as suas actuações. O que desagrada é o não serem capazes de, precisamente por terem ganho muitas vezes as votações a que se sujeitaram, conseguirem conservar simpaticamente e sem raivas os lugares que ocupam. Não há ninguém perfeito!...

domingo, 27 de setembro de 2009

DEIXAR DE ESCREVER

Se eu não escrevesse o que faria?
Se não pudesse passar ao papel
o que arde dentro e faz azia
seria de mim próprio infiel
estoirava
acabava
guardar só p’ra mim sem desabafar
recalcar no fundo as amarguras
já porque quem não gosta de falar
nas letras se vinga e nas pinturas

Quem escreve debita desalentos
em texto simples ou mesmo poemas
é uma forma d’abrir sentimentos
e igualmente de quebrar algemas
libertar-se
superar-se
no dia em que deixar de escrever
quando vier a sentir-me incapaz
é então a hora de perceber
que o que resta nada me traz
melhor é partir
deixar de existir
e quem cá ficar que faça as contas
que julgue os que primeiro partiram
e se conseguir que agarre as pontas
dos que quiseram mas não conseguiram

São assim os alcatruzes da vida
sobem p’ra encher descem e despejam
mesmo aqueles que passam de corrida
sem tempo que chegue p’ra o qu’almejam
mas génio mostram
mais tarde gostam
depois de cá não estarem p’ra ver
e de não lhes chegar a admiração
não tendo já por isso o prazer
de merecer especial menção

Enquanto por cá eu puder pensar
e possa escolher o que mais gosto
ao menos que não tenha de guardar
p’ra mim e tenha de esconder o rosto
envergonhado
culpado
por isso o qu’escrevo, o que pinto
melhor ou pior é para mostrar
porque o que deixo é bem o que sinto
outros que guardem ou queiram queimar

O HOMEM E AS CIRCUNSTÃNCIAS



Em dia de eleições, não me cabe falar do tema que vai estar na cabeça da maioria da população deste País. Por isso, para preencher este blogue diário para o que faço questão de não deixar em branco, ocorre-me deitar a mão a um caso que merece ser divulgado e que dá que pensar, por isso considero propositado para preencher o tempo que os portugueses têm hoje a aguardar pelos resultados que as televisões, lá para a noite, começam a divulgar. Aqui deixo, pois, o tema:
O ser humano divide-se em variadíssimas categorias e, pelo menos graças a isso, não constitui uma amálgama de indivíduos, todos a pensar da mesma forma e a ter as mesmas reacções. São as regiões onde habitam, os hábitos e costumes que influenciaram o seu crescimento, o grau de instrução que conseguem obter, a língua, a cor da pele, a religião que segue, o ambiente em que estão envolvidos, a profissão em que estão incluídos, as condições climatéricas que criam os hábitos de vivência, o núcleo familiar a que pertencem, tudo isso forma os indivíduos mas, acima de todos, são as circunstâncias que originam as práticas e os confrontos das condicionantes que a vida apresenta a cada um dos habitantes da Terra.
Ortega y Gasset foi o filósofo que defendeu com insistência esta teoria e, ao segui-la sempre que posso, concluo que, na verdade, o Homem está mais dependente das oportunidades que se deparam perante cada um dos viventes do que, em muitos casos, da estafada perseguição de objectivos que se pretendem alcançar.
É certo que o trabalho é muito importante para se tentarem obter os resultados que se aspiram e esse trabalho custa suor, esforço, persistência e, seguramente, contrariedades e, por vezes, lágrimas. E é precisamente essa tarefa que leva, em muitas ocasiões – para não dizer quase sempre – a que o ser humano proporcione e se confronte com as más intenções que constituem a normalidade do animal racional que todos nós somos.
E é este o destino: ou conformado com o que nos calha na estrada da vida, não levantando por isso obstáculos e não obstruindo os outros, ou ser batalhador e, aí, acotovelar, empurrar, pregar rasteiras. Venha o Diabo e escolha!
É evidente que o Homem, com muita regularidade, perde as ocasiões que se lhe deparam, não aproveita todas as oportunidades que surgem, por desconfiança quanto a resultados, por temor a mudanças, por simples mandria ou seja lá pelo que for, entende que o lugar onde a caminhada da vida o colocou é aquele que deve conservar e assim permanece até ao último dia. Mas existe o outro, o irrequieto, o desconsolado com o que lhe saiu na rifa, o aspirante a melhor ou simplesmente a diferente do que tem e esse busca todas as oportunidades que se lhe depararem. É o que aproveita as circunstâncias, as que saltam ao caminho. E essas podem ser boas ou piores do que a maneira de viver que seguia então.
Daí nasceu o princípio de que o ser humano, sem as circunstâncias que busca ou que se lhe deparam, não seria aquilo que, cada dia, aparece no panorama. Um pastor que, desde pequenino, exerce esse ofício e assim permaneceria até à velhice se não deparasse com uma oportunidade que lhe foi proporcionada em determinado momento. E essa ocasião pode ser, por exemplo, a de encontrar no alto da montanha, por uma casualidade espantosa, um citadino que, tendo apreciado a esperteza do garoto, o levou para a cidade e lhe proporcionou os estudos idênticos aos dos seus filhos e daí ter surgido um cientista de renome. Então, se não fosse essa circunstância, não se teria perdido um cidadão de grande craveira?
E o contrário também ocorre: o fulano bem comportado, com família decente, que, tendo encontrado circunstancialmente um malandrão que lhe meteu no corpo o hábito de roubar e que se transformou, de um dia para o outro, num fora da lei a contas com a polícia. No caso dos drogados, então, esta transformação circunstancial é mais do que infelizmente corrente.
Há quem dê outro nome às circunstâncias da vida. Sorte ou azar. Mas é ser simplista demais ficar-se por esta classificação.
Ora, as eleições fazem parte do número das circunstâncias que são proporionadas ao Homem . E elas constituem uma forma de se alterar o sistema em que se está inserido ou o de se ficar na mesa, que também constitui uma maneira de se prosseguir, não mudando nada.
O dia de hoje, para os portugueses, representa o termos de aceitar o que as circunstânciass políticas facultam aos cidadãos. Mais tarde se verá.

sábado, 26 de setembro de 2009

O QUE NOS FALTA

Se medirmos bem o que nos falta
Se fizermos contas ao que nos sobra
Concluiremos que muita malta
Acha que a vida é um bico de obra

É essa malta angustiada
Que ambiciona o bem alheio
Que julga sempre que não tem nada
E não lhe agrada ficar no meio

Tudo que não presta deita fora
Sem cuidar saber qual o destino
Porque ainda não chegou a hora
De ter razão pr’a tocar o sino

Preciso é ver quanto nos resta
Olhar bem os que não têm nada
Aquilo que para nós não presta
Para outros é conto de fada





CADASTRO



Digam-me lá se este Portugal que é nosso desde o ano de 1143, quando Afonso Henriques resolveu separar-se da mãe e seguir o seu caminho desde o sul da Galiza e na conquista aos mouros do que estava para baixo, este território que se afirma ser a Nação mais antiga do espaço europeu já se pode considerar como consciente do que é, do que tem e a quem pertencem todas as terras que estão incluídas no rectângulo que se situa na ponta extremo oeste do Continente Europeu.
Esta pergunta justifica-se porque, em pleno século XXI, no ano de 2009 em que nos encontramos, não se sabe a quem pertence um quinto do País. É isso que vejo afirmado no “Expresso” da passada semana, em que se descreve que o levantamento cadastral do espaço geográfico que é nacional custará perto de mil milhões de euros e, se for feito, só depois é que se fica a saber quem são os verdadeiros donos de terrenos que não estão inscritos nas várias conservatórias do registo predial.
Por outras palavras, chegou-se à conclusão de que vinte por cento daquilo que constitui o território de Portugal não tem dono legítimo, devidamente registado. Trata-se de uma questão que é, simultaneamente, dramática e gargalheante. Só cá é que poderia acontecer isto! Nos casos dos incêndios que ocorrem com frequência nem sequer sabemos quem tem os prejuízos. Quanto a serem pagos impostos pela posse de haveres terrenos, nesse particular o Estado não tem possibilidade de actuar fiscalmente. E, quanto a serem cuidadas as florestas, limpando-as para prevenir contra os fogos que lá surgem, não há a quem pedir tais responsabilidades.
Dizem os técnicos que efectuar o trabalho do cadastro para serem definidos os proprietários dos terrenos sem “paternidade” custaria cerca de mil milhões de euros, mas que esse investimento provocaria, por outro lado, uma entrada no fisco de cerca de 300 milhões por ano para além de que essa tarefa criaria cerca de 3.700 empregos, a maioria dos quais de gente bem qualificada. Isso, para não falar no que se pouparia em litígios nos tribunais para a disputa de propriedades cuja posse provoca a briga entre vizinhos.
Mas, pondo de parte toda esta situação e suas consequências, o que não se pode admitir numa Nação devidamente demarcada é que se viva, ainda nos dias de hoje, com a ignorância oficial de quem é dono do quê. Uma vergonha!
E agora a interrogação: assistiu-se, durante a campanha eleitoral que terminou ontem, a algum partido ter tomado em mãos este problema e, perante os cidadãos, tenha assegurado que iria constituir uma das suas funções pôr ordem nesta desordem das propriedades em todo o País? É evidente que não. Nem os que são considerados os maiores, nem os outros, os pequenos, que tinham aí oportunidade de mostrar interesse pelos temas que não são levados em consideração pelos tidos como grandes. Nesta altura já é tarde para rectificar o que tenha saído mal. E esta crítica também não vem adiantar nada.
Mas, pelo menos cabe-nos apontar esta falta, no meio de tantas ocorridas. E verificar, constrangidos, que estamos todos bem entregues a uma gente que nem sabe escolher assuntos que precisam urgentemente de quem lhes deite a mão!... Nem mesmo num período de propagada eleitoral se viu um assunto como este referido por ninguém. E, para além deste, tantos temas que mereciam ser tratados pelos concorrentes acabaram por ficar no esquecimento! Só lhes interessou atacarem-se uns aos outros e falarem do passado.
Vamos lá amanhã escolher. Entre maus e péssimos há de tudo. Mas a nossa obrigação é não faltar na mesa dos votos. Isso de votar em branco ou ficar em casa são atitudes que um interessado na sua Pátria não tem o direito de fazer.
Sobretudo para que não apareçam depois os espertos da companhia a afirmar que as abstenções eram escolhas que lhes cabiam…

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

CONHECER-ME POR DENTRO

Gostava de me conhecer bem por dentro
fazer como se faz a qualquer fato
esmiuçar
desencantar
abrir as bainhas
tirar as linhas
ir fundo avançar até ao centro
não deixar qualquer coisa ao desbarato

Tudo aquilo que mostro cá por fora
o que está à vista vêem todos
É bonito?
É esquisito?
Será que agrada?
É só fachada?
é apenas o que eu tenho agora
o que não quero é causar engodos

Porém, as minhas dúvidas persistem
eu próprio como sou não saberei
pergunto-me
consulto-me
bisbilhoto as entranhas
p’ra descobrir coisas estranhas
todas as portas fechadas resistem
e respondo a mim mesmo que não sei

No entanto, há dias em que acerto
será quando não ando angustiado
aceito-me melhor
dou-me mais valor
pareço-me normal
nada encontro mal
e sobretudo quando eu desperto
não sinto ânsias de olhar p’ro lado

Mas nada disto assim me dá resposta
fico sem saber o que tanto quero
conhecer-me
entender-me
saber tudo sobre mim
não ter dúvidas assim
saber se existe alguma proposta
que me tire todo este desespero

Para ser o juiz de própria causa
sendo muito suspeito no apreço
não serei eu
a tirar o véu
não será honesto
pois darei pretexto
a que esse gesto provoque náusea
e não tenha jus a qualquer sucesso

Que gostava de me conhecer fundo
lá isso dúvidas não oferece
não desanimo
por isso primo
enquanto cá ando
não perco o mando
já que faço questão de neste mundo
perseguir tudo que tem interesse

Se não o que me resta é esperar
espreitando de lá do outro lado
onde estiver
hoje sem crer
se vê depois
lá direi pois, pois
aceitando o real e tolerar
seja ou não seja do meu agrado





ELEIÇÕES Á VISTA




Neste último dia de campanha eleitoral, já pouco há a opinar. O que suceder no próximo domingo terá que ser aceite pelos portugueses e, gostem ou não dos resultados, é com isso que há que viver. Durante o tempo que for possível segurar o Governo eleito. Mas, por hoje, ainda se pode acrescentar alguma coisa, apenas como desabafo. Isto, por exemplo:
“Digam o que disserem, mas ainda está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor do que eu fiz…” – esta a frase que José Sócrates entendeu que caía bem num almoço em que esteve presente há umas semanas e no qual, como é seu hábito, no discurso proferido alargou-se em elogios à actuação do seu Governo.
Por aqui se pode concluir que, afinal, o responsável pelo Executivo não alterou nada do que foi sempre o seu estilo de arrogância, de vaidade própria, de elogios em boca própria. Não tem remédio aquele que, mesmo tendo à vista a possibilidade de não repetir o mandato maioritário de que tem gozado, apesar disso e talvez porque não admite encaixar na sua mente essa alternativa, José Sócrates não quis ouvir eventuais conselhos que lhe sejam dados por gente por perto e muito menos ligou às críticas que lhe foram dirigidas em muitos órgãos de Informação. E uma maneira de ser e ninguém vai conseguir mudar de um dia para o outro.
Mas, se nos pusermos a pensar seriamente no que diz respeito ao que se vai passar depois de domingo, não sei se estará para nascer quem faça melhor do que ele, mas o que seguramente aquilo a que assistiremos é a uma luta titânica para ser conseguido começar tudo de novo e desta vez com viabilidade de vir a ser melhor do que antes. Mesmo que lhe calhe a ele voltar a pegar no leme. Como dizem as sondagens.
Cada um que se agarre às suas crenças e aspire para que não sofre desilusões. Só com fé se lá irá. Por agora, basta deslocarmo-nos no domingo, ao local que nos está destinado para metermos o voto na urna. E depois, não se tratando de um dia de trabalho e havendo ainda tempo para a maioria da população poder reflectir sobre o que terá acontecido, poderá ver um pouco de televisão, mastigar os textos dos jornais, acabar de ler o livro que ficou em meio e, à noite, lá pelas 22 horas, começar a contemplar os primeiros resultados. Todo esse período permitirá uma de duas coisas: ou conformar-se ou arrepelar-se por não ter saído o que alimentava como esperança.
Depois, há que ir para a cama, que no dia seguinte é novo dia de trabalho (para os que não estão desempregados, os mais de quinhentos mil), e deve procurar não ter uma longa insónia. É que o andarmos de olhos bem abertos até que seja decidido o nosso futuro, disso é que ninguém nos livra.
Ninguém? Quem sabe se não surgirá uma surpresa que nos faça abrir a boca de espanto!... Tudo é possível neste mundo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

BLÁ, BLÁ...

Isto de ouvir os outros falarem
dizerem aquilo que não sabemos
nossos conhecimentos aumentarem
acrescentar algo ao que já temos

Acumular no cérebro matéria
juntar ao que já lá está guardado
melhor ainda se for coisa séria
que ajude a levar o nosso fado

Porém, não é bem o que sucede
muito do que ouvimos é sabido
ter de escutar o que não se pede

Por isso é muito o tempo perdido
é como bater contr'a parede
e apenas cansar o nosso ouvido

QUAL É O MELHOR'?



“Digam o que disserem, mas ainda está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor do que eu fiz…” – esta a frase que José Sócrates entendeu que caía bem num almoço em que esteve presente há umas semanas e no qual, como é seu hábito, no discurso proferido alargou-se em elogios à actuação do seu Governo.
Por aqui se pode concluir que, afinal, o responsável pelo Executivo não alterou nada do que foi sempre o seu estilo de arrogância, de vaidade própria, de elogios em boca própria. Não tem remédio aquele que, mesmo tendo à vista a possibilidade de não repetir o mandato maioritário de que tem gozado, apesar disso e talvez porque não admite encaixar na sua mente essa alternativa, José Sócrates não quer ouvir eventuais conselhos que lhe sejam dados por gente por perto e muito menos liga às críticas que lhe são dirigidas em muitos órgãos de Informação. E uma maneira de ser e ninguém vai conseguir mudar de um dia para o outro.
Mas, se nos pusermos a pensar seriamente no que diz respeito ao que se vai passar depois das próximas eleições, não sei se estará para nascer quem faça melhor do que ele, mas o que seguramente aquilo a que assistiremos é a uma luta titânica para ser conseguido começar tudo de novo e desta vez com viabilidade de vir a ser melhor do que antes. Mesmo que lhe calhe a ele voltar a pegar no leme.
Cada um que se agarre às suas crenças e aspire para que não sofre desilusões. Só com fé se lá irá. Por agora, basta deslocarmo-nos no domingo, dia 27, ao local que nos está destinado para metermos o voto na urna. E depois, não se tratando de um dia de trabalho e havendo ainda tempo para a maioria da população poder reflectir sobre o que terá acontecido, poderá ver um pouco de televisão, mastigar os textos dos jornais, acabar de ler o livro que ficou em meio e, à noite, lá pelas 22 horas, começar a contemplar os primeiros resultados. Todo esse período permitirá uma de duas coisas: ou conformar-se ou arrepelar-se por não ter saído o que alimentava como esperança.
Depois, há que ir para a cama, que no dia seguinte é novo dia de trabalho (para os que não estão desempregados, os tais quinhentos mil), e deve procurar não ter uma longa insónia. É que o andarmos de olhos bem abertos até que seja decidido o nosso futuro, disso é que ninguém nos livra.
Ninguém? Quem sabe se não surgirá uma surpresa que nos faça abrir a boca de espanto!... Tudo é possível neste mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

GRATIDÃO

Quantas vezes, vida fora
alguém nos deita uma mão
e se chora?
talvez não
pois ser grato é coisa rara
e olvidar os favores
é ferida que não sara
mas há coisas bem piores

Esquecer o bem que alguém
fez só para ajudar
tem porém?
faz mudar?
seria bom que assim fosse
e que no fundo marcasse
tivesse sabor de doce
que nunca mais se largasse

Mas isso da gratidão
por aí não se vê bem
com razão?
ainda há alguém?
o vulgar é esquecer
quando muito disfarçar
recordar não dá prazer
partir p’ra outra e andar

O Homem tem qualidades
mas não lhe cabe ser grato
vaidades?
ter pouco tacto?
algo será mas não gosta
de ter de dever favores
e não poder dar resposta
bem menos tecer louvores

Obrigado lá se diz
no momento do favor
ar infeliz?
de actor?
mostrando submissão
logo cai no esquecimento
dando grande safanão
que tudo leva o vento

Não tenhamos ilusões
ser grato p’ra toda a vida
sem paixões?
sem ferida?
não passa no Planeta
ver fiel agradecido
no Homem é pura treta
melhor cair no olvido

SOARES DISSE...



Soares foi bem claro, quando entendeu dever participar na campanha eleitoral do seu PS e, em Matosinhos, declarou que “não lhe repugnava que, no cenário de coligação pós-eleições, os socialistas se juntassem com o Bloco de Esquerda”, perante a necessidade de encontrar uma maioria com dimensão suficiente para governar. Já o difícil será acreditar que os bloquistas aceitem tal possibilidade, dado que Francisco Louçã tem repetido a sua decisão de não fazer alianças com ninguém.
Claro que, na ânsia do CDS desejar participar num novo governo, convém-lhe que corra por aí a ideia de ser possível operar-se uma coligação dos socialistas com os cristãos-democratas, mas, se for bem analisada tal eventualidade, custa a acreditar que José Sócrates venha a aceitar no eventual executivo que possa formar uma personalidade tão imperativa como é a de Paulo Portas.
Aquilo que eu, num blogue passado, considerei como sendo de admitir uma surpresa vinda da Esquerda no panorama governativo pós-eleições, talvez comece a não ser tão grande estranheza, pois que o PS sozinho, como começa a ser admitido que suceda, é que não conseguirá solucionar os problemas graves, económicos e sociais principalmente, que Portugal enfrenta.
Resta saber se o desejo apresentado por Mário Soares será levado em conta pelos superiores do BE, isto caso o PS consiga obter o primeiro lugar no dia 27 tão à vista. E, admitindo tudo correr no sentido afirmativo, se o entendimento entre duas esquerdas, uma muito moderadinha, como é o caso da comandada por José Sócrates e a outra bastante arrojada, se essa associação reúne condições para levar por diante as decisões que vierem a ser tomadas em Conselho de Ministros.
Tudo isso, claro está, aceitando que o PSD não será o partido vencedor, que é o que as sondagens indicam – mas não é prudente confiar excessivamente nos prognósticos dos sabichões.
E, a tão pouco tempo de distância do domingo próximo, o que nos resta é esperar. E, até lá, o melhor é não termos grandes certezas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ERRAR

Quem não fez ainda isso ?
Que erro não praticou ?
Só não fez esse serviço
Quem a vida não gozou

Há uns que mais, outros menos
Mas um homem sem pecado
Só p’ra fugir aos Infernos
É que escapou desse fado

Há que perder petulância
Evitar que se atropele
D' errar é tal abundância

Que há que escrever na pele
O erro ganha importância
Quando se aprende com ele

ASSESSOR - UM DRAMA!...




Portugal não tem, de facto, problemas graves que precisem de ser solucionados. Tudo corre às mil maravilhas, não há desemprego, o País não deve muitos milhões de euros ao estrangeiro, as empresas, a grande maioria delas, vivem um período de grande sucesso e não encerram diariamente por falência, o povo anda em grande euforia com todo o ambiente que o rodeia. Nem as próximas eleições são motivo para preocupações quanto ao que se vai passar a seguir.
Por isso, o despedimento do assessor de Imprensa do Presidente da República tem de constituir uma dor de cabeça a todos nós e justifica-se perfeitamente que toda a comunicação social dedique largos espaços ao assunto. E agora? Pergunta-se. O que vai ser de todos nós com o Fernando Lima afastado de Belém? E o Cavaco Silva nem dorme perante um caso de tão grande gravidade? Será que vai cair o Governo?
Eu procuro colocar-me no lugar da maioria dos portugueses que, por esse País fora, no litoral e no interior, andam seriamente apreensivos por o principal Magistrado da Nação ter tomado decisão tão séria. A senhora Maria, o António das alfaces, o Joaquim que tem a seu cargo a oficina lá da terra, o Alberto, que não se descuida com as escritas no escritório, a Teresa, que atende diariamente ao balcão da sua loja, todos eles vivem numa aflição desde que tomaram conhecimento que Belém deixou de ter assessor de Imprensa que lá estava já há anos.
Se eu fosse ainda director de um Jornal, por certo que dava instruções para que a capa do meu periódico ser toda ocupada com uma grande fotografia e a tal notícia de tamanha importância para o futuro de Portugal. Todo o mais iria para o interior, para rodapé, para noticiário secundarizado. Não tinha a menor importância jornalística.
Realmente, eu já não pertenço a este mundo!...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

QUAL VERDADE?

Que é isso da verdade?
Existe?
Resiste?
Tem alguma validade?
Cada um chama-lhe sua
e os outros também
há os que lhe chamam falcatrua
encaram-na com desdém
nem a minha nem a tua
afinal
o que é real
é que há outra verdade
a que tem tudo a ver
com a realidade
e ser a única a merecer
por estar limpa de interesses
a que é independente
que não recebe benesses
a única que não mente.
Mas, por fim,
é tão difícil assim
saber onde verdade está?
Se mais longe ou mais perto
se aqui ou acolá
talvez só no deserto
onde o Homem não se encontra
onde não pode inventar
onde não existe montra
que serve para se mostrar

DESEMPREGADOS



Ainda nos encontramos a caminho das próximas eleições legislativas, essas que, sem sombras de dúvidas, sejam quais forem os resultados e portanto não interessando conhecer, para este efeito, qual o partido político que se vai colocar em primeiro lugar no número de votos, mesmo neste fase podemos dar-nos ao luxo de colocar a imaginação a trabalhar e anteciparmos alguns acontecimentos que resultarão da tomada de posse de um novo Governo, seja uma repetição dos socialistas ou quer se trate de uma mudança para outra força política, só ou em coligação.
Explico melhor: depois do próximo dia 27, conhecida que seja a posição dos vários movimentos políticos que concorrem ao lugar cimeiro, haverá apenas que aguardar pela formação do novo Executivo, dado que os membros superiores dos ministérios actuais terão de encarar a saída dos respectivos lugares e, sendo o PS o partido vencedor, a aguardar que José Sócrates os renomeie ou, pelo contrário, os substitua por quem julgar mais conveniente. O mais natural, por certo, é que, nesta altura só tenham uma vaga ideia do seu futuro imediato.
Mas, tratando-se de uma amostra seguinte que seja consequência dos socialistas não obterem o lugar cimeiro nas votações dos portugueses, nesse caso pode-se considerar como absolutamente certo que os detentores actuais dos lugares no Conselho de Ministros, todos sem excepção irão à sua vida, pelo que abandonarão os cadeirões onde se têm sentado ao longo da vigência do Executivo que tem estado em funções.
Perante a nova situação que surgirá em qualquer das circunstâncias apontadas, a pergunta que tem lógica ser feita é a do que vai acontecer aos actuais governantes, se ficarão desempregados, como sucede a qualquer trabalhador que é despedido ou foi vítima da falência da empresa onde actuava, ou já tem em vistas um “lugarão”, daqueles que se preparam para a eventualidade de correrem mal as coisas no sítio onde se encontrava.
Pelos exemplos a que temos assistido por cá ao longo dos trinta e tantos anos de Democracia em Portugal – não que este regime tenha a culpa, mas porque as circunstâncias permitem que as coisas sejam favoráveis aos arranjinhos dos amigos, camaradas ou parceiros que se ajudam uns aos outros -, tendo em vista o que se têm passado, é de esperar que os vários participantes no Governo de Sócrates já contem com boas posições em administrações de empresas de grande porte, na maioria dos casos públicas, e em que as suas remunerações até serão bem mais acolhedoras para os próprios.
Alguém tem dúvidas quanto a este prognóstico?
Vão ficar os coitadinhos todos nas ruas da amargura, sem emprego e sem modo de vida?
Vai o Fundo de Desemprego ter de actuar no sentido de dar protecção aos que, tendo feito tão bons lugares e contribuído para o progresso do País e dos portugueses, passam de um dia para o outro a não ter como sustentar as suas famílias?
Era para me referir hoje ao problema agora trazido à liça do confronto institucional entre Belém e S.Bento, no que se refere a escutas que abalam a segurança que fica abalada por suposições que, afinal, já vêm desde Agosto passado mas que foi considerado ser agora o momento ideal para criar a desestabilidade política. Por mim e enquanto o assunto não estiver devidamente esclarecido não aceito essa guerra com valor suficiente para me pronunciar. Lá irei.

domingo, 20 de setembro de 2009

ENCHER O PAPEL

Aqui estou eu à frente do papel
à espera que a inspiração me chegue
olhando para a rua a ver passar
aqueles que não olham para a folha
em branco à espera de estar cheio
de letras, de palavras e de versos

Serão felizes esses que não puxam
por um génio que não lhes faz falta?
Quem sabe se não seria melhor
conhecer tudo sobre o futebol
preocupar-me só com o meu clube
e andar em dia com o jet-set?

Se fosse assim, poemas não fazia
e descansava quem viesse a ler
todos os versos livres e bem livres
porque de rima mesmo nada têm
e a cadência é o que lhes resta
mas mesmo assim encheram o papel

GATOS FEDORENTOS



Como não podia deixar de ser tenho assistido às entrevistas feitas por um dos Gatos Fedorentos (peço desculpa mas não fixo os nomes) aos líderes dos partidos principais que concorrem às eleições legislativas (e não só) que estão aí à porta e, talvez ao contrário do que serão as opiniões gerais, tenho ficado com água na boca, isto é, esperava que as questões postas, tanto mais que são preparadas com antecedência, se revestissem de maior interesse e até proporcionassem um grau elevado de dificuldade aos entrevistados, tudo, já se vê, dentro de um espírito de gozo, que é o que se pretende com tal programa televisivo.
É que, em boa verdade, qualquer das figuras que aceitaram estar presente nesse espaço que se dedica à ironia – e, quanto a isso, há que reconhecer que os participantes, embora não pudessem fazer outra coisa que não fosse comparecer, pois a falta de um deles constituiria uma prova de ausência de humor e tiraria votos no próximo dia 27 –, qualquer deles já sabia ao que ia e, por muito ar aparente de alegria que tivessem mostrado, no fundo não estariam a achar graça nenhuma e bem prefeririam andar pelas ruas a distribuir sorrisos e papeis de propaganda a quem não lhe pusesse questões.
Mas, numa passagem breve de apreciação no que diz respeito à ideia do programa em si, tenho de elogiar quem tenha sido o autor, mas, como me compete na qualidade de espectador e de cidadão, confesso que cheguei a admitir que se ia tratar de um espectáculo que faria com que alguns dos interpelados dessem mostras de bastante incómodo, pois as questões que se podiam pôr numa sessão como estas são, sem a responsabilidade de se ser excessivamente sério e escondendo por detrás da graciosidade algumas rasteiras daquelas que até fazem corar os perguntados. Mas isso não sucedeu na generalidade com a dimensão que se poderia aguardar. Terá sido por ausência de génio no grupo que preparou as perguntas ou foi porque se revestiu de certo receio em abarcar temas que, de uma forma geral, andam no pensamento dos próximos votantes e até, ou sobretudo, na cabeça daqueles que não fazem tenção de participar na votação, mas que poderiam levar a atitudes incómodas por parte de quem manda e que, como se tem verificado – pelo menos fala-se nisso – toma atitudes que não são muito meigas?
Não vou deixar aqui nenhuma pergunta que eu faria. Não posso, não me cabe interferir na orientação de um esquema que foi posto de pé com as possibilidades de que dispunham os seus responsáveis. Mas marco o meu desapontamento. Esperava muito mais. Perdeu-se uma oportunidade que ficaria gravada na memória dos que ainda assistem aos preâmbulos de uma eleição de importância, como é a que vai ocorrer em 27 de Setembro.
Quem cá estiver que aguarde por uma ocasião que permita repetir a experiência. E até, quem sabe, nem seja preciso esperar assim tanto tempo…

sábado, 19 de setembro de 2009

ESCRITOR

Isto de ser escritor
porque muito escreve
com fervor
e se atreve
e o querer ser poeta
sem desistir
e de uma forma secreta
persistir
este afã, tal teimosia
como agora é o que faço
na esperança de que algum dia
me compensem o cansaço
e tenha valido a pena
por exemplo
ter afastado a pintura
que era um outro templo
a pertencer à tortura
só espero que o meu fim
seja no momento exacto
sem toques de clarim
e não firmando contrato
não ficando texto a meio
nem verso por acabar
p’ra não haver remedeio
e ser outro a emendar
o que estava feito antes
com susto e suor
e surjam alguns pedantes
a roubarem o autor

Mas isto de ser escritor
e de pouco génio poeta
se não o fez com primor
e usou mal a caneta
em vida
despercebido
não teve boa guarida
e mal foi ouvido
resta ainda a boa esperança
de passados muitos anos
tenha a bem-aventurança
de reconhecidos enganos
porque isso já se passou
com figuras conhecidas
e foi algo que marcou
algumas vidas sofridas
entre elas bem destaco
alguém que por Lisboa
consumiu muito tabaco
esse Fernando Pessoa
que deixou a papelada
espalhada por gavetas
que só depois foi juntada
e inspirou mais poetas
como sucedeu comigo
que o tenho sempre presente
e bem alto eu o digo
e nisso eu sou um crente
por um Pessoa ter havido
reconhecido só depois
se agora sou desvalido
mais tarde seremos dois

Se há quem tanto se gabe
sem razão para o fazer
não sei se a mim me cabe
gozar de tal prazer
presunção
e água benta
isso está na nossa mão
basta que nos dê na venta

Pois isto de ser escritor
e de também versejar
o preciso é ter amor
e em si acreditar
boa escrita
bons poemas
é tudo uma desdita
dificuldades extremas
à espera que um editor
jogue na carta certa
e acredite que o autor
é uma sua descoberta
que valha a pena
apostar
que nesta vida terrena
para mais tarde ganhar
o respeito dos leitores
que são sempre os julgadores.



GATOS E RANGEL



E digam lá se nós, portugueses de gema, não somos uns complicadinhos da silva, gostando de complicar o que, só por si, já oferece dificuldades de resolução mas que, não chegando para criar um drama, lhe acrescentamos algumas parcelas de problemas para enredar ainda mais o panorama. É o que está a ocorrer nesta fase bem perto das eleições legislativas, e em que alguém se lembrou de lançar na discussão política o mote das escutas que estarão a ter lugar na Presidência da República por conta do Governo de Sócrates.
Pois, nem mais nem menos. A uma semana do fim da campanha eleitoral, embora o assunto já venha desde Agosto, a verdade é que é precisamente nesta altura que alguém achou conveniente fazê-lo saltar para a discussão pública. Casualmente? Ou, como já não é a primeira vez, nos momentos em que a população está preocupada com temas que absorvem a sua atenção, convém causar a confusão e há que divulgar alguma coisa que a deixe ainda mais baralhada?
Não vou por aí além. E, já agora, aproveitando a circunstância de ter calhado ontem a Paulo Rangel o ter sido a figura ouvida pelos Gatos Fedorentos, sempre reafirmo o que já era minha opinião: a de que os cómicos da SIC não têm aproveitado bem o tempo que lhes é concedido por aquela estação televisiva, pois havia tanto para “enrascar” o deputado europeu do PSD e aquilo a que se assistiu foi a um diálogo sonso e desinteressante. No meu blogue de amanhã referir-me-ei aos “Gatos”. Há que esperar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ENVERGONHADOS



Já sei que os “conformadinhos da silva” desta nossa Terra saltam à liça para me acusar de pessimista e de estar sempre a depreciar as nossas características, pois o serem os portugueses – e não os estrangeiros, que esses, sim, é que eu não gosto – a criticar significa, para tal gente, isso representa um sinal de falta de patriotismo. Claro que eu não penso assim. E entendo mesmo que o facto de apontarmos a nós próprios, os defeitos que podem ser solucionados, é uma forma de pretender rectificar o que está mal e contribuir para que Portugal, ao cabo de tantos séculos de existência, deixe de olhar só para o seu umbigo e tenha a humildade suficiente para reconhecer aquilo em que anda errado.
Não me canso, é certo, de referir a vergonha a que chegou o nosso sistema de Justiça, pois que não sendo nada que só agora é que se revelou ineficiente, chegou a um ponto em que não é possível andarmos a fazer papel de distraídos e a permitir que tudo continue na mesma… até um dia!
Também já constituiu matéria dos meus blogues, o caso denominado de “Casa Pia”, em que o julgamento em causa dura há 56 meses, nada mais nada menos do que cerca de 5 anos. E, até à data, ainda se permanece a aguardar que seja marcada a sessão final, em que se apurarão quem são os réus condenados ou se, pelo contrário, tudo fica na mesma, sem responsáveis a ter de cumprir o que quer que seja.
O longo período em que os dinheiros públicos têm sido desbaratados com a extensão do julgamento em causa, foi ocupado com 440 sessões, até agora, em que foram ouvidas 990 testemunhas em 1722 horas úteis de audiências, todas registadas em 1055 CDs, tudo guardado em 265 volumes.
Quanto custou tudo isto ao erário público é uma operação que não sei se já foi feita, mas que não será uma verba insignificante, quanto a isso não deve haver grandes dúvidas.
A pergunta, pois, a fazer ao Governo que já Sócrates anunciou que vai modificar se vencer as próximas eleições, termine por isso no próximo dia 27 e, concretamente ao ministro da Justiça que ocupou esse lugar durante todo este tempo, a pergunta é se não existiu a menor preocupação nas cabeças dos respectivos responsáveis, ao ponto de, pelo menos, terem aparecido em público a demonstrar a sua inquietação por se estar a passar tal situação e tivessem dado mostras de querer meter mão numa vergonha que dá a pior imagem daquilo que somos e do que fazemos.
Eu não entendo como essa gente que governa e que tem influência na resolução dos problemas graves com que nos defrontamos, como é que tais pessoas não se revoltam por dentro e não conseguem dar mostras de querer acabar de vez com as múltiplas vergonhas que deviam fazer andarem todos de carapuça na cabeça.
Tudo isto vai mudar alguma coisa? As eleições alteram o que está mal? As esperanças de uns e as contrariedades de outros depararão com o assistir-se a continuar tudo na mesma?
Ainda será cedo para encontrar resposta inequívoca a estas dúvidas. E cá ficamos nós, portugueses, como sempre, a manter, ainda que com muito custo, a esperança no dia melhor que alguma vez virá. O que se deseja é que seja, connosco ainda vivos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

PENSAR



Deixem-me pensar, ter memória
E calar o mundo ao redor
Matutar na minha história
Quero silêncio por favor

Coisas tristes e coisas belas
Numa corrida infernal
Apressado ou com cautelas
Tal o trajecto afinal

Parar para pensar, que bom
Se somente a nós pertencemos
Não se escuta nenhum som
E névoas é o que vemos

Se tudo o que passou por mim
E que guardei cá bem no fundo
Teve um princípio e um fim
É porque se deu neste mundo

Morrer a pensar bom será
Sobretudo em coisas belas
Pois quem cá ficar ficará
A acender as suas velas

PAULINHO DAS FEIRAS



Tenho evitado referir-me neste meu blogue aos manos Portas, cada um situado no seu extremo político. E o motivo é simples: é que a consideração e amizade que mantenho com a sua Mãe, a economista e nisso minha colega – embora eu nunca tivesse exercido -, Helena Sacadura Cabral, não permite que eu me abra em considerações, ainda que apenas de aspecto político, sobre o modo de estar dos dois participantes em atingir a posição de chefe de um Governo de Portugal.
Vou deixar, por agora, Miguel Portas, pois que este não se tem defrontado com adversários nos frente-a-frente que se têm realizado nas televisões. Faço, pois, uma simples passagem, tão cuidadosa quanto possível, em relação ao presidente do CDS.
Tenho-me debatido comigo mesmo e até porque não obtenho em minha casa a concordância total com o que opino, no sentido de procurar ser o mais independente possível e não levar em conta as teses que são defendidas por este líder da Direita. Mas, já me coloquei, em mais de uma vez, na posição de oponente nos confrontos a que tenho assistido e, apenas com tal papel, não posso deixar de constatar que Paulo Portas, no aspecto de seguidor dos princípios democráticos, não conseguiu fugir da luta das palavras e do desrespeito pelo tempo concedido a cada um dos intervenientes. E já nem vale a pena apontar as caras que fez sempre que, no outro lado da mesa, surgia um ponto de vista com o qual não concorda e dos risinhos de gozo, de complacência, de desculpa a quem não sabe do que fala que se nota no comportamento do Paulo. Mas, há que dizê-lo, que, neste aspecto, pode ser feito o paralelo com o comportamento de José Sócrates nas mesmas circunstâncias, posto que este, também mau seguidor das regras democráticas, até na troca de palavras com Manuela Ferreira Leite, marcou claramente as formas de desatenção quanto ao respeito pela opinião dos outros.
A forma autoritária que cada um utiliza nos seus discursos não pode servir de padrão em democracia. Enquanto uns, poucos, são mais tranquilos a expor os seus pontos de vista, outros sacam de toda a força da sua voz para não deixar dúvidas de que o seu pensamento é o autêntico e não admite réplicas. Mas o que tem de ser criticado e é isso que faço agora é o ter sido utilizado o tempo que corresponde ao oponente para o desmentir, para expressar o contrário, para não o ter deixado ser dono do que lhe cabia nos minutos que lhe eram atribuídos.
Nisso, meu caro Paulo Portas, não posso deixar de o acusar de dar mostras de dificuldade em aceitar as regras democráticas e, por isso, eu recear que um mandato político que lhe viesse a calhar seria utilizado para não ouvir as opiniões dos outros, só aceitando as suas como as autênticas. E, nisso, já nos basta ter de suportar o José Sócrates.
Vou agora dizer uma coisa de que o Paulo provavelmente já nem se recorda: quando se foi oferecer ao semanário “Tempo”, para ali se poder estrear no jornalismo, ainda eu era seu Director Adjunto, deixei o chefe de Redacção Peixe Dias atendê-lo e dar-me depois uma opinião. Foi, de facto, esse profissional que contou muito para a sua entrada na Imprensa, pois eu, que já estava de saída para fundar outro semanário, “o País”, não quis interferir nessa tomada de posição. Mas recordo-me de me ter sido dito que o “rapaz que se propunha ser jornalista” mostrava um grande sentido de confiança em si próprio e debitava já muitas opiniões que lhe foi dito que era conveniente resguardar para si, se queria ser um jornalista com sentido de independência. Mais tarde fundou um semanário com um título que dizia tudo - o Independente” -, mas sobre essa característica não me quero pronunciar. É que o meu ponto de vista sobre a ética profissional do jornalismo já foi aqui expresso e julgo que os meus colegas sabem bem o que penso.
Desculpa-me, minha querida Helena Sacadura Cabral, se não me expressei em completa defesa da actuação do teu filho Paulo, mas eu adiei o mais que pude este comentário e quem se expões tem de se sujeitar às opiniões dos outros. Mesmo que não condizentes.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

DEIXAR ALGUMA COISA

Há quem não se preocupe com isso
que o depois não seja um problema
se a vida já é algo tão maciço
para que serve aumentar o tema
o depois pertence ao infinito
a esse campo do desconhecido
porquê então andar por cá aflito
se o que a vida dá é bem sabido
e chega p’ra ocupar atenção
façamos bem o que há que fazer
e deixemos a preocupação
de pensar no que vem após morrer
lá está a cova e um caixão
e se acabou é só esquecer
também há quem prefira a cremação
pois por cá há bastante que fazer
e não dar que fazer é o melhor
aos outros depois de dar a partida
seja qual o caminho seja qual for
não há volta é apenas a ida
o melhor p’ra eles é esquecer
a vida vai seguindo cá no mundo
por grande que seja o desprazer
porque afinal no fundo, bem no fundo
ninguém se lembra nem na nossa rua
pois o tempo é o melhor remédio
cada um cá na vida continua
para matar saudades e desgostos
porque também propriamente o tédio
é coisa que muito foge dos rostos
Vale a pena deixar alguma cousa
que depois já não estando por cá eu
não se sabendo onde a alma repousa
se no tal Inferno ou se no Céu?
Isso para todos que têm fé
que acreditam que um depois existe
conhecendo-me a mim José
por certo mostram um semblante triste

Porque todos os outros, a maioria
raramente o que fui recordam
estavam bem longe do que eu sentia
por isso também depois não discordam
essa a razão por que quero deixar
alguma coisa que dê a ideia
do que procurei ser e sem mostrar
o que ocupou uma vida cheia

Antes papeis jaziam nas gavetas
cheios de bolor, grande confusão
era no tempo do uso das canetas
quando ainda não havia a paixão
por internet e computadores
porque hoje fica tudo no disco
que conserva bem todos os labores
durante anos sem menor belisco
aí fica o que hoje produzo
à espera de mais tarde ser visto
a menos que surja algum intruso
que não seguindo as regras de Cristo
entenda destruir só por maldade
ou até nova ciência humana
a tecnologia d’hoje altere
reapareça outra traquitana
que nem disco gravado recupere

Mas não, há que manter a esperança
de que algo de meu sempre resista
e de que certa bem-aventurança
permita que seja feita justiça
e que daqui a anos, muitos mesmo
o meu nome passe a ser falado
que não como um qualquer aventesmo
jornalista, escritor, poeta honrado

A esperança é grande desidério
e o seu fim é só no cemitério

GAFFES



Já não nos devíamos admirar das “gaffes” cometidas pelos nossos políticos, por aqueles que são considerados os principais da cena que nos é apresentada permanentemente, pois aquilo a que nos é dado assistir só tem servido para, cada vez mais, perdermos a confiança no futuro aceitável do nosso País.
Ainda haverá quem tenha esperanças de ver Portugal ascender à fasquia dos menos mal situados no panorama europeu. E, por isso, considere que todos os avisos e até desconsolos que sejam evidenciados por compatriotas só representem falta de amor à Pátria. Pois eu entendo exactamente o contrário. Quando nós, em nossa própria casa, no seio da nossa família não somos capazes de reconhecer os erros que praticamos e avisar para procurar emendá-los, quando preferimos fingir que tudo corre bem e silenciar, nesse caso, digo eu, é que não contribuímos para que a situação se altere.
Lá ouvir os de fora apontar os nossos erros, isso é que custa. Ninguém fica agradado ao escutar um estranho indicar-nos os defeitos que temos. Mas se somos nós os primeiros a interferir para que as asneiras não se voltem a repetir, nesse caso é bom que isso se verifique.
Vem a propósito tal desabafo em face dos erros praticados pelos concorrentes às próximas eleições legislativas e, em particular, por Manuela Ferreira Leite, quando se referiu ao TGV e introduziu as relações nacionais com a vizinha Espanha no frente-a-frente que manteve com José Sócrates e em que deu mostras de uma agressividade aljubarrotista que já está completamente fora de moda há muito tempo.
É certo que a nossa situação financeira nesta altura obriga a que façamos bem as contas antes de nos metermos em dispêndios que podem aguardar por momento mais adequado. É o caso dos tais submarinos que devia calar o Paulo Portas quando ele surge a atacar os concorrentes na fúria eleitoralista que faz com que não se pense bem nos telhados de vidro de cada um. Mas, no que diz respeito a tudo fazermos para que não fiquemos acocorados nesta ponta da Europa, nessa situação, por muito que tenhamos que pedir mais emprestado, não podemos aceitar que nos assemelhemos agora à Albânia de que ainda nos lembramos, nesta ponta extrema da Europa.
E o TGV, não na ligação ao Porto, mas quanto a ficarmos em comunicação moderna com os outros países do nosso Continente, nesse aspecto não podemos hesitar.
É que não se trata de defender os interesses dos espanhóis, como afirmou a presidente do PSD, mas sim lutar abertamente pelo que a nós diz respeito, não só porque cria postos de trabalho essa abertura de portas à alta velocidade, como as infra-estruturas nacionais que têm de ser utilizadas representam dar que fazer à industria pesada portuguesa.
Levantar questiúnculas com os nosso vizinhos, numa altura em que o bom convívio constitui um imperativo de toda a família europeia, pois é com a união que todos poderemos lutar contra a crise que abalou e abala as economias não só do nosso Continente, mas também, tomar essa posição não representa uma medida ajustada à situação que se vive.
Esta “gaffe” de Manuela Ferreira Leite não deu votos à concorrente ao primeiro lugar nas eleições que se aproximam. E, se for o partido dela a ficar na primeira posição, como chefe de um governo terá que emendar a mão e justificar-se perante os vizinhos. A ver vamos!...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

APODRECER

Como ele passa, o grande atrevido
Nem nos dá descanso para pensar
O que fica p’ra trás cai no olvido
Tudo se conjuga no verbo amar

Mas esse tempo, o tão necessário
P’ra levar a vida que nos impõem
Acaba por ser enorme calvário
Da via que os outros nos dispõem

Tal como um verme, roe-nos e tortura
Vai corroendo a carne e a alma
Quase nos tira o que é bom de viver

E é do lado de cá da sepultura
Com o seu tempo e sem perder a calma
Que nós começamos a apodrecer


TODOS IGUAIS



Todos têm que se lhes diga. Uns são convencidos de que aquilo que fizeram foi tudo perfeito. Outros que o que propõem efectuar será o melhor para o País. Há os que repetem o de sempre, sem capacidade para acompanharem o evoluir do mundo. Da mesma maneira que deparamos com aqueles que gritam “eu quero”, como se fossem donos de tudo e todos, enquanto assistimos também aos que se baralham nas questões e têm pouca habilidade para expor os seus pontos de vista. Ao contrário, há os que se mostram muito explícitos e lá vão fazendo esforços para tentar convencer os mais assustados com as teses que defendem. Têm sido variadas as características dos vários concorrentes às eleições legislativas que estão à vista.
Há de tudo. Mas não assistimos à demonstração por parte de um só desses participantes a formar governo que tire as dúvidas quanto à dificuldade que vai surgir logo a seguir ao dia 27, isto em relação a reunir um consenso mínimo que lhe permita fazer funcionar um executivo. De igual modo, também não existiu oportunidade de constatar a existência de um só proponente que tivesse a coragem, para não dizer a honestidade, de evidenciar que não tem certezas absolutas e que, pelo contrário, será eventualmente com alguns erros que se conseguirá encontrar o melhor caminho para o Portugal que temos. E, quando os equívocos se praticam, o que há a fazer é reconhecer de seguida os erros e tentar emendar a mão. Isto ninguém é capaz de afirmar. É demais para o nosso feitio.
Como é sabido e disso tivemos larga experiência, em ditadura não há ninguém que se engane e que reconheça as faltas publicamente. E toda a população tem de aceitar e de bico calado. Agora, em Democracia, fica bem que, quem escolheu ou foi escolhido para exercer as funções de primeira figura, assuma os maus passos dados e o diga com clareza. Quando aparecer o primeiro a demonstrar isso, seguramente que obterá a maior simpatia por parte da população. Foi assim que Obama alcançou tanta popularidade, não só nos E.U.A. mas em todo o mundo.
Afinal, só temos cá 35 anos de regime democrático. É pouco. Serão necessárias, pelo menos, mais quatro gerações a viver nestas circunstâncias, com a pequenada a aprender desde o berço o que é respeitar a opinião dos outros, para sermos capazes de reconhecer os nossos erros e não pensarmos que a razão está sempre do nosso lado. Há que esperar!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

AGONIA


Os meus poemas são feitos com esforço
para lá mesmo do que posso
e insisto
e persisto
e quero convencer-me
que vale a pena.
É uma pena !
Não leiam, não,
faço questão
são um desastre.
Mas vou escrevendo
lá vou fazendo
e, se possível, com certa rima
que se aproxima
da perfeição
que é p’ra agradar
ao paladar
de quem os sabe saborear
devagar
p’ra não ter indigestão

Assim lá saem
maduros caem
triste figura
pobre do homem que não resiste
e que insiste
nesta falsura
de ser poeta
que é uma treta
digo eu, não sei,
se houvesse lei
que dominasse
e não deixasse
ser poeta quem não pode sê-lo
não estaria aqui a escrevê-lo,
e a lê-lo.
Poupava-os a este flagelo

Será que isso de ser poeta, cabe em mim?
Por fim !
Ou sou eu quem não cabe na poesia?
Que agonia !

POLITÓLOGOS



Esta designação apareceu recentemente para classificar alguns interventores opinativos nas televisões, sobretudo em relação aos confrontos que têm existido entre responsáveis partidários que concorrem às próximas eleições legislativas. Seguramente que a dúvida que eu levanto no que respeita a esta denominação dada pelas direcções televisivos também será levantada por muitos dos que seguem tais programas e que foram apanhados de surpresa com uma profissão que nunca foi utilizada entre nós.
Seja como for, esta ridicularia só poderia acontecer no nosso País, onde a política serve para tudo e existe uma camada apreciável de população que tudo faz para se situar nas redondezas dos partidos, na esperança de que possa surgir uma ocasião em que alguma migalha dos ganhos que se obtêm naquelas áreas possa saltar inadvertidamente para o seu colo.
Não teria excessiva importância que se tivesse inventado tal designação – que não consta em nenhum dicionário da língua portuguesa dos muitos que existem e que foram consultados quase todos, muito embora o sufixo de origem grega “ólogo” seja aplicado com justificação gramatical, como as palavras “homólogo”, “astrólogo” e outras -, se não ficasse nitidamente à vista que a razão por que algumas televisões as puseram nos écrans se deve ao simples facto de pretenderem justificar o motivo pelo qual pretenderam criar audiências com opiniões de conhecidos e desconhecidos e que aparecem para contribuir para causar ainda mais confusão nas cabeças dos cidadãos que, já por si, se encontram bastante baralhados.
E é pena que valha tudo para pretender mostrar que existem critérios honestos para ajudar a população a alinhar os seus pensamentos numa altura tão crucial como é esta de formar opinião no que respeita a colocar a cruz na lista de votos no próximo dia 27.
Isto de andar a insistir nas posições dos dois partidos mais conhecidos, o PS e o PSD, nas sondagens que garantem servir de orientação para os desnorteados, pode muito bem resultar, como já aconteceu antes, numa demonstração de que o povo não se decida muitas vezes senão na altura em que se encontra perante o boletim de voto.
Eu, por mim, continuo a insistir nalguma surpresa que pode muito bem sair no final da contagem. Que não vai aparecer um grupo partidário com maioria absoluta, por forma a conceder-lhe inteira força para formar Governo e que tenha capacidade para exercer a sua vontade sem o auxílio de um outro, quanto a isso julgo que não terão dúvidas nem mesmo os protagonistas dos referidos dois partidos. Logo, aquilo com que os portugueses se vão deparar é com o passo que são obrigados a contemplar a seguir a serem conhecidas as somas dos votos. E esse passo, seja para o PS seja para o PSD, vai criar muitos amargos de boca. Vão ser engolidos sapos vivos, como se costuma dizer. Aquilo que foi assegurado de que não seriam feitos acordos entre este e aquele, essa relutância em serem enfrentados juntos os problemas que, de outra forma, não têm forma de andar, isso vai cair no esquecimento. E o que os políticos melhor sabem fazer é olhar para o lado e esquecerem as promessas declaradas em período de eleições.
A ver vamos

domingo, 13 de setembro de 2009

ESFERA


Fala-se aí do futuro
do que vai p’ralém do muro
daquilo que não se vê
que hoje não está â mercê.
Daqui a mil anos, pois
do mundo nesse depois
bem se pode imaginar
e tudo fantasiar

Que o Homem, suponhamos
perdeu todos os seus ramos
desapareceu da Terra
a sua mão já não erra
e outros seres ficaram
e até se multiplicaram
libertos do ser humano
e de todo o seu dano

Ao deixar de haver humanos
desapareciam planos
aquilo que fosse, seria
com toda a assimetria
da força da Natureza
seria então a beleza
a nascer por sua conta
sem a mais plena afronta
de quem se julga melhor
e se arma em patrão-mor
de tudo à sua volta
causando a maior revolta
na Natureza calada
sujeita à mão desvairada
de quem de tudo é dono
e se arvorou colono
da Esfera terrestre, enfim
fazendo disso um festim

Quando o Homem for, em suma
o resto de coisa nenhuma
lembrança arqueológica
em que já não conta a lógica
talvez outra espécie venha
diferente, mas que tenha
um espírito melhor
eu seja mais consciente
que traga sempre na mente
defender tudo o que é belo
tratar com grande desvelo
aquilo que é natural
animal e vegetal
na terra como no mar
consumir sem desgastar
conservar o mais possível
mas sem chegar ao horrível
de extinguir o que existe
tornando a vida tão triste
já com tantas raridades
frutos das barbaridades
do Homem tão egoísta
e mais que o Papa, papista
. quem vier em seu lugar
que aprenda com todo o mal
que quem estava deixou
e a tristeza cavou.
Esta é uma esperança
de quem crê que a herança
que os terrestres vão deixar
a quem tomar seu lugar
daqui a miles de anos
já com distintos fulanos
com outra mentalidade
e plenos de puridade
aproveitando a ciência
mas usando-a com prudência
p’ra manter o Natural
entre Homem e animal
entre Homem e plantas
e muitas mais coisas, tantas.

Sim senhor, é optimismo
num futuro bem distante
pode chamar-se ateísmo
nenhum deus disse quejante
mas como este mundo está
a cair no precipício
o Homem já não vai lá
já nem vale o sacrifício

A Terra no infinito
ficará p’ra sempre à espera
venham outros com seu fito
dar à Esfera outra quimera

VOTAR, LÁ TEM DE SER!



Cada vez sinto maior dificuldade em optar pelo partido político que vai ser objecto da minha escolha no próximo dia em que, todos nós portugueses, temos obrigação cívica de não faltar na sala dos votos. E, ao assistir atentamente aos frente-a-frente que se têm realizado em diferentes estações televisivas, aumentaram ainda mais as minhas dúvidas. Não deparei, em nenhum dos participantes, uma posição que me desse confiança absoluta na sua capacidade de chefiar um governo em Portugal, particularmente nesta altura em que enfrentamos as maiores dificuldades de todos os tipos, com preponderância para a economia e para o social.
Aqueles que se mostram mais pretensiosos, com ar de serem sabedores absolutos daquilo que poderão fazer, que têm uma compostura que, em vez de atrair os eleitores, lhes causam alguma distanciação, que é o meu caso pois sempre me levantaram grandes desconfianças os que nunca se enganam e põem um ar de gozo aos que se encontram perante as suas afirmações, esses não conseguem chamar-me para colocar a cruzinha no seu quadrado. Os outros, ou apresentam dificuldades em expor os seus pontos de vista e baralham as explicações ou referem sempre o mesmo e não adiantam propostas que sejam claras para que o povo, mal preparado, sinta atracção por essa escolha.
Depois, e para mim o mais importante no meio de tudo isto, é que o partido – e, portanto, a figura que o representa – que vier a obter maior número de votos, nem que seja só mais um, se vai debater perante uma situação de enorme dificuldade em dar andamento àquilo que constituem ainda simples programas, propostas, intenções que, na maioria dos casos, são promessas que, mais tarde, não têm viabilidade de ser executadas.
Sendo assim, como é de esperar que venha a acontecer, dado que, perante a impossibilidade de dar andamento aos programas por insuficiência de posições partidárias no Parlamento, durante seis meses a seguir à data das eleições o Presidente da República não tem poder para dissolver o Executivo e, como a escolha para Belém que também se aproxima tira a possibilidade de Cavaco Silva ter idêntico gesto no prazo de seis meses antes da escolha para o lugar que ocupa hoje, tudo isso quer dizer que vamos enfrentar um período em que a governação de Portugal fica entregue à sorte, às disputas entre adversários políticos, a um marca-passo que, perante a urgência que tem o País em solucionar os inúmeros problemas que se foram amontoando desde há muitos tempos, será caso para nos irmos preparando para um futuro próximo que só servirá para nos afastar cada vez mais do progresso que a Europa tentará alcançar.
É pessimismo exagerado? Oxalá seja isso. Bem desejo estar equivocado neste juízo. Mas, como não tenho que dar satisfações a qualquer administração que comande este blogue, não hesito em expressar aquilo que me vai dentro e que, tenho consciência de que os portugueses fariam bem em encarar aquilo que pode muito bem suceder.
O confronto que teve lugar ontem, entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite, ainda mais desconsolado me deixou. Ambos não adiantaram nada que sirva para efectuar a minha escolha. Foram iguais a si mesmos e não conseguiram convencer os que têm dúvidas. Irei votar nalgum deles? Provavelmente não, nem que seja para ver se alguma coisa muda!

sábado, 12 de setembro de 2009

ESTAÇÕES DO ANO


É bem certo que sim, todos sabem,
Que, qual relógio, o tempo corre
E que as quatro Estações todas cabem
Num ano que anda, nasce e morre

Com bastante frio surge o Inverno
E a Primavera chega então
Pois na verdade nada é eterno
Por isso, depressa, é Verão

O Outono sorri em beleza
Eis portanto as quatro Estações
Brindemos pela variedade

Saudemos os tons da Natureza
Afastemos as desilusões
E partamos plenos de saudade

AGRICULTURA PORTUGUESA



Quem, como sucedeu comigo, teve já a responsabilidade de fundar e dirigir uma publicação portuguesa dedicada à agricultura, com a qual desenvolveu uma luta profunda para que o nosso País procurasse sair da mediocridade de sempre no que se refere a modernização do sector, um jornalista, como foi o meu caso, que também se preocupou com esta tão importante área da nossa economia e produtividade, teve ocasião de aprofundar os problemas que, não sendo de hoje, são os que não deixam que Portugal, apesar das suas característica benévolas em termos de clima, se situe numa posição que lhe permita não se encontrar longe da média europeia.
É verdade que a distância geográfica que nos separa do centro dos países europeus, sobretudo no que diz respeito aos dois mercados agrícolas mais importantes ali situados, em Paris e Londres, não nos beneficia no caso da colocação das novidades temporais, em que conseguimos a antecipação de uma ou duas semanas em relação aos mesmos produtos prontos a comercializar. Mas isso não é suficiente para conseguirmos entrar na competitividade, pois que a quantidade nacional oferecida ao consumo não é suficiente para lutar com os preços conseguidos com as grandes produções europeias e até com as espanholas.
Logo, a possibilidade de Portugal se posicionar face ao mercado que pode absorver o que produzimos nos campos situa-se na área da qualidade excepcional que formos capazes de oferecer. E é aí que tem de ser desenvolvida a nossa agricultura de exportação.
“o País Agrícola”, que foi a revista que lutou pela actualização dos meios de produção da agricultura em Portugal, levantou repetidamente este problema e, através de múltiplas visitas dos agricultores portugueses que promoveu a Israel, onde o Estado dá enorme apoio aos seus cidadãos, no sentido de lhes prestar grande auxílio técnico, esforçou-se para conseguir transportar para cá o espírito que ali se vive e que é o da produção em conjunto – os “kibbutz” -, não tendo, no entanto, conseguido interessar o Ministério da Agricultura da época, que se comportou como que hoje está no lugar, pois que, da parte dos judeus, criou-se uma abertura de apoio que bem poderia ter sido aproveitada. E tudo ficou na mesma.
Levanto agora esta questão, pois os partidos políticos que se apresentam às próximas eleições, especialmente o CDS, têm insistido no acento tónico da agricultura portuguesa, mas não apontando para as soluções que poderiam servir para deixarmos a miséria agrícola que sempre foi o nosso fraco. E a solução assenta na necessidade de terminarmos de vez com as pequenas produções agrícolas – e aqui é ao contrário dos PME, que são as pequenas e médias empresas, o que é preciso é juntar forças – e, mantendo as propriedades nas mãos dos seus donos, no capítulo da obtenção de resultados nas culturas estes só são rentáveis quando são fruto de produção mecânica, actualizada e com recurso a pouca mão-de-obra.
Este resumo dá ideia de como, por mais anos e séculos que tivermos como Nação, não conseguimos aprender nada com os exemplos vindos de fora. E com a própria Espanha aqui ao lado, com os custos agrícolas mais baixos do que os nossos, graças às áreas trabalhadas, não aprendemos nada. Mantemo-nos fieis às enxadas, ao tractorzito, quando não é ainda à junta de bois, e ao produzirmos sem haver um estudo que indique onde se pode vender e quais as características que os mercados requerem para nos comprar. As Cooperativas Agrícolas que pululam por esse País fora, deviam ser reduzidas a um terço, com mais força técnica e com capacidade de efectuarem os estudos que o Ministério da Agricultura que temos, com os engenheiros engravatados todos sentados às secretárias, tem obrigação de realizar.
Mas isto não passa de sonhos de quem parece que não sabe em que País vive. Fomos, somos e, infelizmente, parece que vamos continuar a ser assim.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

CÍRIO

As lágrimas que correm neste mundo
A fome, a doença, os desgostos
Obrigam a que lá muito no fundo
Os homens escondam nas mãos os rostos

Sofrer é caos que ataca os mortais
Ricos e pobres, de todas as cores
É alguém que nos envia sinais
De que p’ra viver há que sofrer dores

É isso, a vida fácil não é
P’ra uns melhor, p’ra outros um martírio
Mas é quando se chega ao rodapé

Que já na fase final do delírio
Se toma consciência do que é
Quando então p’ra nada serve um círio

LIVROS ESCOLARES



Tenho em mente publicar um texto que pretende ser uma ideia a dar aos concorrentes às eleições autárquicas que se aproximam e, sobretudo aos que têm em vista a Câmara de Lisboa. Quem estiver interessado em saber o que penso sobre o assunto e a proposta que faço para vencer, basta dar passagem à ida às urnas legislativas, que é que interessa agora debater, e depois, se tiverem curiosidade para tanto e algum dos seus companheiros de luta lhes der notícia da novidade, o que é necessário é apenas consultar este blogue. E não pagam nada!
Mas, tendo visto todos os confrontos até agora realizados pelos vários proponentes aos lugares cimeiros da próxima legislativa, e analisando aquilo que cada um teve oportunidade de dizer perante as câmaras de televisão, não consegui descortinar uma única proposta que se referisse ao custo que as famílias têm de suportar com a entrada das crianças das suas famílias na escolas que se abriram nesta altura para o ano lectivo. Parece impossível que, sendo este um assunto que interessa a uma grande maioria de cidadãos que vão apresentar-se perante as urnas, nenhum dos partidos, todos eles carregados de cabeças ditas pensantes e actualizadas, teve imaginação suficiente para trazer à disputa aquilo que seria ouvido com a maior atenção e que, se trouxesse alguma solução para alívio dos pais, teria muitas hipóteses de influenciar na votação que vai ter lugar. Nem o CDU, sabido que, nos antigos países seguidores da política soviética, o custo dos estudos era de zero, quer quanto à frequência de aulas, em todos os escalões desde o infantil até ao universitário, e que os livros necessários para todos os anos eram emprestados, com obrigação de serem devolvidos em perfeitas condições, nem o Partido Comunista teve imaginação levantar este problema fulcral. E é triste ver como são supérfluos todos os políticos que andam por aí!...
Pois, o apoio às editoras de livros escolares, que obtêm grandes lucros com os lançamentos, todos os anos, de novos instrumentos de aprendizagem (ao contrário do que sucedia no meu tempo, em que havia obras que serviam para mais do que um ano), essa protecção não foi denunciada por nenhum grupo partidário.
Qual o motivo? E, por que razão, não surge uma proposta que vise criar condições para que os alunos sem meios possam utilizar toda a literatura que serve para alimentar os conhecimentos obrigatórios das aprendizagens?
É evidente que os fundos do Estado não dão para tudo, pelo que há que tomar opções. Mas será que um Governo que afirma tudo dever ser jogado na instrução da juventude, não encontra forma de reduzir gastos numa zona para investir noutra?
Não vou aqui, evidentemente, apontar onde se poderia cortar. Há muito sítio. E é por isso mesmo que me pergunto a razão por que não apareceu um único partido concorrente às legislativas que tivesse levantado este problema.
São estas situações que, embora não me retirem do meu dever de votar, me desconsolam e me fazem compreender que são uns bem piores do que os outros. Mas há que escolher!...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

VALE A PENA?

Tudo o que se faz nesta vida
os esforços, empurrões
os desgostos na corrida
até as desilusões
na estrada que sendo curta
leva tempo a passar
é coisa que se furta
a encontrar

Repetir
voltar a ter
bem gostaria de ouvir
pergunto a quem entender
qual será o porvir
e se já cá estiveram
uma vez
o que foi que fizeram
com alguma lucidez

Ninguém recorda
é verdade
e se tal tema aborda
só com dificuldade
lá convence os parceiros
de que por cá já passou
que algumas carreiras
também calcorreou

Se é certo
que o repetir
mesmo não tendo sido perto
há-de vir
em consciência plena
para perguntar
afinal valeu a pena
a esta vida voltar?

TOLERÃNCIA



É dos comportamentos mais difíceis de manter no dia-a-dia do ser humano. A compreensão das atitudes dos outros, o respeito pela maneira como cada um reage aos problemas que se lhe apresentam, o tentarmo-nos pôr no lugar dos parceiros para tomarmos consciência do papel que cada um desempenha perante uma situação concreta, essa é a tolerância que, com grande frequência, se constata que falta ao Homem, seja qual for a posição social que ocupe no panorama em que está inserido.
E, sem ser por acaso, quanto mais alta é a craveira em que se movimenta, mais destacada é a demonstração de intolerância que oferece ao mundo que o rodeia.
Os políticos, por certo nos regimes democráticos – porque nos outros nem será necessário referir – são os que mais se sobressaem na escala da não-aceitação das posições dos outros seus adversários, pois o papel que representam nas sociedades obrigam-nos a contemplar esses como sendo uns sem razão, uns inimigos que é preciso abater. Aí, a tolerância não tem lugar e nem se verifica qualquer esforço em se posicionarem do outro lado da barreira.
No fundo, a luta do Homem por lugares e posições que lhe possibilitam regalias e benesses, essa ambição, sobrenatural quando é desmedida, se entra no campo do “custe o que custar” não permite que seja efectuada uma paragem para reflectir, para serem encontradas formas de entendimento resultantes da compreensão mútua dos seus papeis.
Se a tolerância fizesse parte da relação de atitudes mais usuais, quantas indisposições seriam travadas a meio, quantas zangas não passariam de breves questiúnculas, até quantas guerras sangrentas que ocorreram pelo mundo não teriam ficado em soluções pacíficas por acordos.
A tolerância tem a ver e muito com a prática democrática. O não ter certezas absolutas, o procurar-se encontrar razões aceitáveis do lado a que nos opomos, o ser-se suficientemente humilde para reconhecer os eventuais enganos em que tenhamos caído, essa atitude de “dar a mão à palmatória” só contribui para que alinhemos na prática de não fazermos finca-pé naquilo que consideramos ser a “verdade absoluta”.
Dito tudo isto, vem-me à ideia um desabafo que alguém me largou uma vez, quando se falou acerca de outro que não tinha tido um comportamento muito recomendável. E, em forma de arrependimento, deixou registada esta frase de que não me esqueci durante largo tempo: “Pois é, eu fui tolerante com esse fulano… e bem me lixei!...”