Por eu não ter acertado
quando o podia ter feito
sem seguir caminho errado
e procurar o meu jeito
desconsolado me sinto
faltando-me qualquer cousa
pois que não é quando pinto
ou quando m’atiro à prosa
ou se me atrai a poesia
despejando no papel
ou nas telas fantasia
mesmo que saia a granel
não é aí que me sinto
feliz e realizado
se digo outra coisa minto
e mais vale ficar calado
O que eu conservo é isso
guardado dentro de mim
como sendo um feitiço
bem pegado até ao fim
é que bem fundo a paixão
que vem comigo do berço
que a tenho no coração
e com a qual eu converso
é a música, só ela
a boa que faz chorar
que do alto, qual estrela
não me deixa nem pensar
tocada por instrumentos
saída da voz humana
mostrando bem os talentos
se é boa não engana
Como gostava ser eu
a compor as sinfonias
que ouvi no Coliseu
usando das revelias
para entrar sem pagar
e nos degraus da geral
me podia regalar
a ouvir tão bem tocar
O que havia que fazer
perante tal apetite?
Era preciso aprender
sem precisar de convite
como o dinheiro era escasso
e o tempo também faltava
havia que dar o passo
para onde se ensinava
e havia uma Academia
de Música p’r Amadores
onde estava quem sabia
merecia até louvores
Ali aprendi solfejo
com o padre Borba, Tomás
e nunca dei um bocejo
e até fui bem capaz
de entender bem as pautas
mas tocar isso não pude
pois piano não havia
e não tive a virtude
d’ultrapassar arrelia
Fiquei-me pois por ali
pensando que num futuro
o dó, ré, mi, fa, sol, la si
não estariam no escuro
e que uns anos depois
dominaria tal arte
como um e um serão dois
esse seria o estandarte
o fulgor da minha vida
que nada mais me atraia
e que até minha partida
felicidade seria
Não foi o que sucedeu
só de longe extasiado
sem conseguir tal troféu
fiquei como o mal amado
mas tudo que fui fazendo
só com música ao fundo
para me ir convencendo
que era o único no mundo
que me enchia as medidas
que o que não alcancei
com as outras cometidas
na música seria rei
Ter ilusões é melhor
do que perder esperanças
eu morro com esta dor
depois de tantas andanças
fico-me entregue aos papéis
com prosa e poesia
e às tintas e pastéis
tudo sem grande mestria
e se alguma coisa vale
à musica sempre presente
devo o quase ideal
que lá sai da minha mente
Mas perdoem a vaidade
que eu não poso esconder
será um mal da idade
que comigo vai morrer:
se compositor eu fosse
e aquilo que eu invento
com o amargo e doce
do que é um monumento
saísse nas minhas pautas
fosse cantado e tocado
não esquecendo as flautas
daria enorme brado
por todo o mundo de Cristo
e até com a minha voz
mesmo com o meu registo
mostraria a todos vós
que o que por aí anda
a arrepiar os ouvidos
levaria uma desanda
pois não são mais que gemidos
Tinha que isto dizer
revoltado como ando
com quem vive a ofender
isolado ou em bando
o que música tem belo
pois o só fazer barulho
para além de um flagelo
só constitui um entulho
que se junta ao outro lixo
que os homens por cá deixam
e com o malvado bicho
só os outros se queixam
Aqui deixo o meu protesto
se na música não entro
pois que com este meu gesto
mostre a revolta por dentro
quando o podia ter feito
sem seguir caminho errado
e procurar o meu jeito
desconsolado me sinto
faltando-me qualquer cousa
pois que não é quando pinto
ou quando m’atiro à prosa
ou se me atrai a poesia
despejando no papel
ou nas telas fantasia
mesmo que saia a granel
não é aí que me sinto
feliz e realizado
se digo outra coisa minto
e mais vale ficar calado
O que eu conservo é isso
guardado dentro de mim
como sendo um feitiço
bem pegado até ao fim
é que bem fundo a paixão
que vem comigo do berço
que a tenho no coração
e com a qual eu converso
é a música, só ela
a boa que faz chorar
que do alto, qual estrela
não me deixa nem pensar
tocada por instrumentos
saída da voz humana
mostrando bem os talentos
se é boa não engana
Como gostava ser eu
a compor as sinfonias
que ouvi no Coliseu
usando das revelias
para entrar sem pagar
e nos degraus da geral
me podia regalar
a ouvir tão bem tocar
O que havia que fazer
perante tal apetite?
Era preciso aprender
sem precisar de convite
como o dinheiro era escasso
e o tempo também faltava
havia que dar o passo
para onde se ensinava
e havia uma Academia
de Música p’r Amadores
onde estava quem sabia
merecia até louvores
Ali aprendi solfejo
com o padre Borba, Tomás
e nunca dei um bocejo
e até fui bem capaz
de entender bem as pautas
mas tocar isso não pude
pois piano não havia
e não tive a virtude
d’ultrapassar arrelia
Fiquei-me pois por ali
pensando que num futuro
o dó, ré, mi, fa, sol, la si
não estariam no escuro
e que uns anos depois
dominaria tal arte
como um e um serão dois
esse seria o estandarte
o fulgor da minha vida
que nada mais me atraia
e que até minha partida
felicidade seria
Não foi o que sucedeu
só de longe extasiado
sem conseguir tal troféu
fiquei como o mal amado
mas tudo que fui fazendo
só com música ao fundo
para me ir convencendo
que era o único no mundo
que me enchia as medidas
que o que não alcancei
com as outras cometidas
na música seria rei
Ter ilusões é melhor
do que perder esperanças
eu morro com esta dor
depois de tantas andanças
fico-me entregue aos papéis
com prosa e poesia
e às tintas e pastéis
tudo sem grande mestria
e se alguma coisa vale
à musica sempre presente
devo o quase ideal
que lá sai da minha mente
Mas perdoem a vaidade
que eu não poso esconder
será um mal da idade
que comigo vai morrer:
se compositor eu fosse
e aquilo que eu invento
com o amargo e doce
do que é um monumento
saísse nas minhas pautas
fosse cantado e tocado
não esquecendo as flautas
daria enorme brado
por todo o mundo de Cristo
e até com a minha voz
mesmo com o meu registo
mostraria a todos vós
que o que por aí anda
a arrepiar os ouvidos
levaria uma desanda
pois não são mais que gemidos
Tinha que isto dizer
revoltado como ando
com quem vive a ofender
isolado ou em bando
o que música tem belo
pois o só fazer barulho
para além de um flagelo
só constitui um entulho
que se junta ao outro lixo
que os homens por cá deixam
e com o malvado bicho
só os outros se queixam
Aqui deixo o meu protesto
se na música não entro
pois que com este meu gesto
mostre a revolta por dentro

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