Mais ou menos na altura da minha infância, tinha eu seis anos quando se deu início ao que veio a ser a II Guerra Mundial. Ainda fui utilizado para colar tiras de papel nos vidros de casas, na ingénua presunção de que sob os efeitos de um bombardeamento os estilhaços não atingiriam as pessoas. Nunca compreendi que esse medo dos vidros partidos das janelas fosse maior do que o efeito das bombas, elas próprias.
Mas os miúdos, naquela fase de preocupação desmedida, serviam para algumas coisas. Por exemplo, para ir para a “bicha” do pão, todas as manhãs, como para enfileirar nas compridas esperas para comprar alguns produtos em falta, nos armazéns da CUF ali na rua dos Douradores, para adquirir petróleo que então era muito usado nas casas, para conseguir o sabão azul e branco, o “hoffenbach”, que não podia faltar para as lavagens, mas também o azeite, o bacalhau, o açúcar e tantos outros produtos que, sendo escassos e fazendo parte das senhas de racionamento, tinha de ser a miudagem a levantar-se de madrugada para suprir essas necessidades fundamentais. Eu, pelo menos, fui um deles. Serviu-me, no mínimo, para desenvolver o exercício do pensamento, dado que, sozinho como me encarregava dessa tarefa e com muitas horas a aguardar a vez, tinha ocasião para o raciocínio no isolamento. Anos mais tarde pus em prática tal experiência. E não me dei mal.
Desde que comecei a ler os restos dos jornais que apanhava pelos sítios onde passava, seguia com interesse cronológico os avanços e recuos das tropas que, na Europa, faziam frente às invasões hitlerianas. Mas eu sempre tive pouco de optimista. As apavorantes notícias que iam chegando e depois, sobretudo, trazidas pelos judeus que passavam por Portugal fugidos e a caminho do outro lado do Atlântico e que despertaram imenso a minha curiosidade, ao ponto de, numa tabacaria que o meu pai frequentava na rua da Madalena – e onde conheci o velho, para mim, e simpático Teodoro dos Santos, como empregado -, ter tido contacto como ouvinte das descrições que faziam, numa língua que me parecia estranha mas que era entendível, acerca dos extermínios que ocorriam nos campos de concentração, tais novidades não eram, na altura, de molde a antever uma vitória das tropas chamadas de aliadas. Tudo isso a que muitos, em Portugal, não davam total crédito, pois que os detentores da política que cá se praticava davam mostras de estar do lado do ditador da época, Adolfo Hitler, não se traduzia em preocupação do povo. Só os mais esclarecidos, os que estavam atentos às notícias vindas directamente de fonte externa, tomavam posição apenas na intimidade familiar ou em conluio clandestino de confrarias não reconhecidas e não autorizadas pela polícia política. Ser germanófilo, como se chamava então, era tolerado. O contrário, anglófilo, não era considerado patriótico. Disso me recordo.
Tinha quinze anos quando acabou a guerra. E, por minha iniciativa, sem consultar os meus pais, resolvi passar de dia para à noite a estudar. E a trabalhar nos horários diurnos. Começou aí a minha independência… e o meu afastamento do tradicional do mundo que saltitava à minha volta.
A vida, para mim, haveria de ser um caminho que teria de percorrer, seguramente com esforço e com entusiasmo contido. Levar-me-ia a algum sítio, por estradas desimpedidas, por atalhos, com lentidão, apressado, não sabia mais nada. Seria preciso percorrê-lo e aguardar pelas consequências. Ter esperança nalguma sorte que, por ventura, surgisse e estar atento às circunstâncias, pois já Ortega y Gasset – grande figura de filósofo com que teria, bastantes anos mais tarde, ocasião de conviver aqui em Lisboa -, já ele dizia que “o Homem e as circunstâncias” são dissociáveis.
Fui, pois, fazendo o que se me deparava pela frente. E depressa descobri que isso de as coisas aparecerem feitas só acontece aos outros, E, sobretudo, aos desonestos, aos vaidosos, aos arrogantes, aos convencidos, aos falsos… sendo todos eles os simpáticos.
Não fui nada disso. E para aqui estou.
Acrescento aqui um parágrafo para levar a minha imaginação até ao que está a ocorrer na Faixa de Gaza, isto muitos anos depois do que conto atrás. E bom seria que todos aqueles que se encontram envolvidos, de um lado e de outro, na contenda que está a ceifar vidas de famílias e inúmeras crianças, tivessem tomado antes contacto com aquela sensação de uma guerra por perto e das suas consequências. Sobretudo os chamados atacantes suicidas e dos lançadores de rockets, por mais razão que julguem ter.

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