
Até dá a impressão de que o que foi descoberto agora se trata de uma raridade, de algo de que não existe conhecimento por parte da população que tem de viver com aquilo que a rodeia e sobre o qual não comenta senão ocasionalmente, quando os próprios ou alguém das suas relações têm de enfrentar as dificuldades conhecidas que os Municípios de todo o País – e se há excepções, pois que as saudemos com entusiasmo – costumam levantar perante obras novas ou arranjos que são colocados à apreciação camarária de cada zona.
Eu esclareço melhor: então não é verdade que tudo o que se trate de fazer algo novo ou proceder a modificar o que existe construído ou destruído, isto é, quando se quer levantar um edifício para substituir o que está a cair de velho ou até colocar um prédio num sítio que antes estava deserto, se torna obrigatório sujeitar o projecto, feito por arquitecto, à apreciação camarária, e aguardar pela sua autorização ou pelas alterações que são indicadas pelos técnicos oficiais?
A resposta é conhecida e ainda bem que não anda este País ao sabor dos apetites e das modas de quem quer que seja, muito embora a impressão que se tem muitas vezes é que é isso mesmo que sucede, tais as discordâncias de estilos, de alturas, de formatos e de gostos que se contempla, quer nas cidades quer nas terriolas do nosso Portugal.
Mas, para além de assistirmos a esse espectáculo, o que também ouvimos à boca pequena é que, nesta ou naquela localidade, tanto numa cidade nacional como na própria capital, a autorização camarária foi conseguida graças a uma “cunha” metida ao(s) responsável (eis) por assinar(em) o projecto que foi apresentado e que, como primeira apreciação, recebeu uma negativa, mas que, depois, graças a umas artes de berliques e berloques, saltou da escrivaninha da autoridade, desta vez com o “visto bom” e pronto a ser executado.
Não vale a pena fingirmos que isto não se passa por cá e basta perguntarmos a um arquitecto amigo para ficarmos a saber que, quem não se adapta a tais práticas, nunca consegue satisfazer as propostas dos clientes que desejam fazer obra, por mais insignificante que seja.
Por que motivo chamo este tema à colação? Pois bem, porque o noticiário de hoje aponta dois arquitectos da Câmara lisboeta acusados de abuso de poder. Ou, mais claramente, por terem aprovado um projecto urbanístico na capital, “violando deliberadamente os deveres de legalidade e de isenção e imparcialidade a que estavam obrigados”. Perante estas palavras do despacho de acusação, cada um que interprete como quiser aquilo que foi feito Eu nem faço grande esforço para tirar conclusões. Mas, o que vale a pena também é ver o reverso da medalha. E, quando as obras levam anos a ser concluídas, mantendo-se o incómodo para os residentes nas respectivas zonas e se vê que nada avança por detrás dos tapumes colocados no sítio, quem se pode indicar como responsável na Câmara Municipal de Lisboa?
É preciso indicar um sítio ou até cem onde isto ocorre em múltiplas ruas da capital? Então os fiscais que andam a fazer? Se não interferem nas perpetuações desses trabalhos, por que será? Alguém dentro do Município se incomoda a analisar a situação?
Eu, por mim, não preciso de fazer grandes conjecturas. Imagino por que seja.

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