domingo, 16 de janeiro de 2011

EXAGEROS


QUEM SE ARRISCA A ESCREVER tem de se sujeitar às críticas dos que não mostram concordância com o que se apresenta como opinião. É o direito que têm uns e outros. Mas aquilo que se considera merecer ser exposto, por pouca razão que assista ao autor, é justo que receba consideração pelo facto de ser corrido o risco de enfrentar os comentários adversos.
Este preâmbulo não pretende, de maneira alguma, preparar o terreno para o texto que se segue e que, pelo que se tem visto ao longo da semana, se trata de um tema que tem ocupado a atenção de uma mancha enorme de gente que, por curiosidade ou por ser algo estranho ou também por piedade em relação ao ofendido, ultrapassou o que é normal na área da comunicação nacional. Estou preparado para isso.
De facto, muito embora seja um hábito bem português considerar que um defunto, na hora do adeus, por muito má pessoa que tenha sido ao longo da sua vida, receber o epíteto de que “no fundo até nem era má pessoa”, mesmo assim, não se tratando, no caso de Carlos Castro, de um cidadão que não seja merecedor das saudades que deixa no número dos seus relacionamentos e amizades, há que reconhecer que ocorreu – e ainda não terminou – um excesso de atenção dedicada ao acontecimento ocorrido em Nova Iorque, ao ponto de todos os assuntos que se revestem da maior importância quanto à situação difícil que Portugal atravessa, terem sido colocados em posição secundária e apenas e só o assassinato do dito cronista social ter merecido contínuas demonstrações de gente que, não hesito em afirmá-lo, até aproveitou a ocasião para sobressair e mostrar que existe.
Se se tratasse de uma personalidade que, no plano nacional, representasse um papel de grande importância em muitos dos campos que têm direito a fazer ressaltar o valor dos visados, um artista de nomeada, uma figura política de reconhecido mérito, um cientista que tenha descoberto algo de novo em qualquer das áreas que marcam uma posição relevante, se assim fosse até se entenderia o clamor que tem sido provocado no marasmo português. Mesmo se se tratasse de um jornalista, mas desses que exercem a profissão com absoluta competência, de um escritor que deixasse obra de mérito, de um poeta que realmente o fosse, de alguém que utilizasse a língua lusitana com absoluto respeito pelas regras gramaticais – e refiro-me apenas a estas áreas que, por pouco cuidado nas referências que lhe têm sido feita, pretendem colocar o Carlos Castro dentro de tais estatutos -, ainda que a vítima de um assassinato em circunstâncias que não estão de todo esclarecidas tenha desempenhado o papel que lhe coube na vida com rectidão, insisto em perguntar a quem saiba esclarecer-me pelo motivo que terá levado tanta gente (mas que gente?) a manifestar tamanha piedade pelo que sucedeu.
E, sem pretender estabelecer comparações, quando, por acaso, na mesma altura faleceu um homem que interveio no 25 e Abril e mostrou um comportamento digno de apreço, refiro-me a Vítor Alves, que nem foi nomeado general, e que não foi alvo de mais de um espaço reduzido na informação jornalística, não posso deixar de manifestar o meu espanto perante as gratidões dos cidadãos portugueses. Mas adiante…
Já o afirmei aqui, logo a seguir à notícia do acontecimento, que, da minha parte até contribui para ajudar um rapaz que, na altura em eu se encontrava em muito más condições de subsistência, lhe dei uma ocupação de uma coluna no jornal que dirigia. Fiz o que me foi possível e ele, no último aniversário que comemorou, referiu-se de passagem a esse facto. Vá lá!...
Ao ler alguns dos textos que foram publicados nas várias revistas que dedicaram largo espaço ao acontecimento e puseram a imagem de Carlos Castro a um nível de grande superioridade, constatei que foram enormes os elogios que marcaram o decorrer de uma passagem do cronista pela vida. E ainda bem que não foram parcos os elogios. O mérito que tivesse mostrado nos relacionamentos que manteve não tinha porquê ser omitido nos comentários. Mas isso, as qualidades humanas que possuísse e que, no meu caso, não tive oportunidade de avaliar, não têm nada a ver com as características que lhe fossem atribuídas no capítulo da actividade que lhe coube. Nisso – e é apenas aí que me quero referir – tenho de opinar que não encontro motivo para tanto espaço dispensado na comunicação. E isso, quando, ao mesmo tempo, por exemplo, morriam centenas de pessoas nos desastres ecológicos nos arredores do Rio de Janeiro e também noutro locais enxurradas monstruosas deixaram famílias inteiras em completa miséria.
O mundo, de facto, é muito egoísta. Só leva em consideração o que lhe passa ao pé da porta e, mesmo aí, selecciona os assuntos conforme eles lhe despertam maior curiosidade… não caridade.
Morreu Carlos Castro, foi vítima de um acto relacionado com a homossexualidade, como poderia ter sido por atropelamento na 5.ª avenida. É triste, Tratou-se de um português que viu a morte no estrangeiro. E as circunstâncias foram dramáticas. E é tudo.
Agora, transformar-se esse triste acontecimento num desastre nacional, por muito que cada um de nós também gostasse de receber tamanhas deferências após a morte- eu, por exemplo, nem me passa pela cabeça que tal me suceda, pois que nem razão para isso existe -, manda a verdade e o bom senso, que tanto nos falta por cá, mesmo nas piores circunstâncias, como é o que ocorre nesta altura aos viventes no nosso País, que sejamos comedidos e não ultrapassemos as medidas que cabem a cada coisa… e no seu lugar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ANDAR POR CÁ

Andar por cá a arrastar-se
sem que a idade ajude
vá lá a gente fiar-se
pois tudo nos desilude
e os dias vão passando
vem mais um aniversário
sem saber como e quando
acaba este calvário

O sofrer com a doença
ninguém quer mas tal sucede
lá se vai mantendo a crença
de vir o que bem se pede
p’ra não fugirmos à sina
de dar com o inesperado
situação que mofina
mesmo passando ao lado

Mas, p’ros novos ensinar
devem cá estar os mais velhos
se dizem não precisar
sempre metem os bedelhos
mesmo p’ra não repetir
os erros já praticados
para poder prosseguir
caminhos novos traçados

Ao menos que o sacrifício
que cada idoso suporta
preste algum benefício
e ajude a abrir a porta
qu’aos novos a vida oferece
com teoria sem prática
e a juventude merece

São assim as gerações
e os que ainda se movem
assumem obrigações
por isso não se comovem

DOOUTORES E ENGENHEIROS


JÁ ME REFERI A ESTE TEMA em blogue anterior, mas considero que vale a pena voltar ao assunto, já que nós, portugueses, estamos a necessitar de reflectir sobre o nossos comportamento e de procurarmos alterar os pontos que não têm constituído base para melhorarmos a actuação que nos cabe no conjunto de um mundo que, tendo gente melhor e pior, é natural que, os que não se encontram nas primeiras filas, tentem inflectir para emendar as piores procedimentos.
E evidente que os costumes e usos da cada povo, quando são constituídos por actuações que não interferem para mal nos resultados conseguidos no conjunto de um país, esses devem ser conservados e até apoiados. As regiões distinguem-se pelos seus hábitos de várias espécies, os gastronómicos, os folclóricos, mesmo os religiosos, tal como o artesanato e certas formas próprias de vestuário. Tudo isso serve para marcar as diferenças e é importante que seja conservado historicamente.
Mas as que constituem práticas que não devem ser elogiadas, antes marcam características que colocam os lusitanos como merecedores de serem apontados com aves raras e, no seu próprio interior, não obtêm resultados positivos, então devemos ser nós mesmos a reconhecer essas características e a fazer todos os esforços para nos emendarmos. Serem os de fora a rirem-se das nossas falhas é que, naturalmente, não podemos gostar, mas se saírem de nós todos, do seio da nossa intimidade, esse apontar de falhas, então, não aceitando que cheguem os habituais conformados a lambuzarem-se naquilo que consideram doentiamente como patriotismo, aí, é minha opinião, só terá bastante utilidade se não ficarmos calados e procurarmos que a situação evolua.
Qual o motivo por que, neste momento concreto em que se encontram à vista mais umas eleições, desta vez para a Presidência da República, embora o assunto que vou focar não tenha nada a ver directamente com o acto em si, sempre poderá ocasionar um raciocínio cuidado no que respeita à análise daquilo que somos? Já verão em seguida.
Ainda que pareça descabido, o certo é que me saltou este raciocínio ao analisar a página dos jornais onde, normalmente, são publicados os anúncios das mortes de cidadãos cujas famílias podem e consideram dever dar a conhecer a partida de seus parentes. E foi aí mesmo que me tocou de novo a imagem das nossas características que, neste particular, se diferenciam grandemente do que ocorre, por exemplo, nos nossos vizinhos e na maioria dos países mundiais, ainda que alguma coisa se assemelhe, por exemplo, aos alemães: trata-se de fazermos gala aos títulos académicos - ou quase isso – que se exibem, vaidosamente, nos cidadãos vivos mas, e nesse particular com certa incompreensão, nos comunicados dos seus passamentos.
Dar a conhecer que um corpo depositado na sua última morada ou simplesmente a caminho da cremação recebe ainda a classificação de “dr.” ou “eng.”, só os portugueses é que têm essa preocupação, aparentemente como forma respeitosa de despedida de quem partiu para outra morada de onde não se volta.
Que se levantem conflitos enquanto por cá andam os que fazem grande questão em colocar nos cartões de visita aquilo que fazem questão em ser amplamente reconhecido, ou seja o título obtido pelo facto de terem cursado universitariamente umas disciplinas que passaram a constituir a sua profissão – ou não -, como sucede com o primeiro-ministro, José Sócrates, que sente os efeitos de nem sempre lhe ser dado o prazer de o considerarem engenheiro, como se se tratasse de uma espécie de Prémio Nobel ou coisa parecida, que isso suceda é bem a demonstração de que, entre nós, não é o mais importante desempenharmos as nossas funções, sejam elas quais forem, com total competência e contribuindo para o desenvolvimento de Portugal, mas sim, e acima de tudo, o título, académico ou nem por isso, que não quer dizer que se seja muito sabedor do que se estudou (ou não), mas sim o que se pretende recordar aos outros de que deve existir uma determinada reverência em relação que se apresenta como sendo o “senhor dr. ou o sr. eng.”.
Eu sou do tempo em que, o jornalismo, era uma profissão que acolhia – pelo menos antes – gente que dispunha de uma cultura geral mínima que era essencial para se poderem exercer as funções que lhes cabiam, e que, mesmo tendo frequentado e completado carreiras académicas, nunca puxavam pelos galões nem era tratados com qualquer título daqueles atrás referidos. Tratava-se de um excepção à regra nacional.
Mas, enfim, também não vem mal ao mundo que a rapaziada com cursos que, na sua maioria, nem se sabe bem o que são, se pavoneiem com os sues títulos que são a única demonstração que podem fazer da sua “superioridade” em relação aos seus compatriotas, a maioria deles ainda oriunda de uma classe que dispõe apenas da frequência na universidade da vida que, verdade seja dita, em muitas circunstâncias ainda é a melhor escola que, sobretudo no interior do País, serviu para caminhar nas funções que desempenharam.
Saudemos então esses doutorados, não sendo por extenso, que, não sendo médicos, a única atribuição que é considerada no estrangeiro como indicadora da profissão que exercem, mesmo assim precisam de ser entusiasmados para que façam todos os possíveis para ajudar a levar Portugal no caminho o mais certo possível.
O que é pena é que, como me sucedeu recentemente, quando se necessita de um canalizador ou de um electricista, se ande à procura e não seja fácil encontrar quem preste o seu serviço. Isto, num País com tanto desemprego, é que deveria ser clamado bem alto pelos homens que procuram colocação na área política. Mas não, o que interessa é porem-se em bicos de pés e discutirem assuntos que não atrasam nem adiantam no que se refere ao juízo que deles se pode fazer quanto à sua capacidade de ter a seu cargo a governação de uma País.
Será por isso também que, cada vez mais, a abstenção dos potenciais votantes cresce… e cresce!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

BOM SENSO

O que tanta falta faz
p’ra que o mund’ande melhor
e que não acabe a paz
e se propague o amor
é só preciso bom senso
em todos gestos humanos
e na busca do consenso
procurar não fazer danos

Pensar sempre antes de agir
estudar consequências
evitar o agredir
aceitar certas cedências
isso é da vida um modo
de quem tem compreensão
se tem a dar dar-se todo
e fazê-lo com paixão

Se há na vida ideal
para manter o convívio
procurando o menos mal
e sentindo certo alívio
o bom senso lá faz falta
para fazer amizades
com toda e qualquer malta
de poucas e mais idades

Numa palavra por isso
o Homem bem necessita
assumir o compromisso
de uma atitude bonita
só o bom senso indica
comportamento perfeito
e por isso bem lhe fica
utilizá-lo a seu jeito

TRAPALHADA

OS LEITORES DESTE BLOGUE estão já avisados. Daqui a 72 anos terão o encargo de acabar de liquidar a dívida que tem vindo a ser contraída pelo Estado, neste “estado” a que chegámos. Eu, por mim, começo já a fazer pôr de parte o muito que me sobra todos os meses, de modo a que, nessa altura, ter já arrecadado os milhões que me cabem, como cidadão!
Só com o mau gosto de brincar com estas coisas tão sérias é que poderemos ainda largar larachas em relação ao panorama que nos é oferecido. Nós portugueses que, como eu, terão sofrido as agruras da situação ditatorial de antes do 25 de Abril, depois, na altura do PREC, apanharam com as consequências da acção de uma camada de “revolucionários” de pacotilha, que fizeram o País passar por um período de completa anarquia política e, depois disso, com a intervenção de um FMI que aqui impôs as suas normas, terem sido sentidas as restrições que eram inevitáveis, até à situação actual que é a mais negra de todos os tempos, resultado de uma absoluta incompetência por parte dos governantes que, ninguém nega, foram os escolhidos eleitoralmente pelo povo que se sente muito enganado, todos nós pouco mais poderemos fazer que não seja conformarmo-nos com as circunstâncias, a menos que, através da acção do próximo Presidente da República, ainda que seja a repetição do mandato anterior, se verifique algum acção positiva que incite toda a população a seguir recomendações práticas e o Governo que estiver a actuar dê mostras de comportamento bem diferentes das que foram, durante estes últimos anos, as que foram usadas pelo culpado número de tudo que se passa: José Sócrates.
Quando, mesmo nesta altura, temos de suportar as afirmações ridículas, digo até criminosas, do primeiro-ministro que, com um optimismo doentio, faz afirmações do tipo “estamos de parabéns”, “vamos cumprir as contas previstas”, “subimos em relações às previsões” e outras do estilo, que esperanças podem existir de que não é necessário que o Fundo Monetário Internacional venha exercer as suas directrizes, na área económica e financeira, quando não podem subsistir expectativas de que o actual conjunto governativo tenha capacidade para fazer, no mínimo, cumprir o que está previsto no Orçamento Geral do Estado para 2011? Isso, caso essas normas sejam suficientes.
Num pequeno resumo, aqui deixo alguns dos problemas que saem constantemente nos jornais e que não podem ser ignorados pelos portugueses comuns:
- Cada cidadão terá de pagar 4.512 euros para financiar todas as parcerias público/privadas, cujo montante ascende a 48 mil milhões de euros.
- O crédito mal parado, ou seja os calotes das famílias e empresas à banca atingiram, em Novembro passado, quase 11 milhares de milhões de euros, sendo enorme a cobrança duvidosa, chegando o seu crescimento aos 200 milhões mensais.
- No caso do BPN, as suas perdas ascendem já a 1,8 mil milhões de euros, isto enquanto o seu presidente, nomeado pelo actual Executivo, mantém um salário anual bruto de 63 mil euros.
- No que se refere aos juros dos empréstimos externos, ainda que estes sejam cada vez mais difíceis de conseguir, já chegaram a ultrapassar os 7 por cento, o que não é possível suportar e, também por isso, há quem mantenha a tese de que não existe outra alternativa que não seja, por muito que uns digam que não, que não seja o ter de recorrer à vinda do FMI, sendo que os mercados estão a pressionar Portugal para que aceite um resgate na ordem dos 80 mil milhões.
- Portugal necessita este ano de 46 mil milhões de euros de financiamento para fazer face às responsabilidades assumidas.
- Por outro lado, os chineses, como aqui neste blogue foi assunto semanas atrás, mostraram-se disponíveis para ajudar o nosso País com um empréstimo de mil milhões de euros.
Esta relação dá bem ideia do panorama que se apresenta pela nossa frente. E isto, enquanto os candidatos à Presidência da República, cada um à sua maneira, andam a garantir que, com a sua actuação se forem eleitos para esse cargo, o nosso País resolve todos os problemas. Que maravilha!
O que vale é que o povo, tendo sempre alguma coisa que o faça distrair das dificuldades autênticas que já sente e as que se vão apresentar, depara com alguma coisa que o faz olhar para o lado. Neste momento é a situação ocorrida em Nova Iorque com o assassinato do cronista Carlos Castro. Os noticiários ocuparam mais espaço com este assunto, que tem o seu quê de tristeza, mas que não existem motivos para constituir a notícia chave que ofusca todas as outras do nosso País, só que, ao sermos como somos, com consideramos que a negrura da situação nacional não atinge a importância de um caso que está ligado a um relacionamento do chamado “gayismo”, enquanto se puder prolongar a referida questão, nada mais parece importar!...
Ao mesmo tempo que tudo isto ocorreu, no leilão efectuado para a venda da dívida pública e em que a procura suplantou a oferta, com juros de 6,4% (há um ano eram de 4,8%), que se encontram um pouquinho abaixo dos fatídicos sete por cento que já aceitámos antes, com este acontecimento vamos ter de assistir ao Sócrates a embandeirar em arco e a afirmar de novo que o FMI não é preciso e que não vai ser pedida a sua intervenção em Portugal. O Ministro das Finanças, porta-voz do seu chefe, já veio dizer que não vamos precisar da ajuda exterior, pelo que nos resta aguardar pelos próximos dias, que não vão ser muitos, para assistirmos à realidade dos acontecimentos. E oxalá esses “reis do optimismo” tenham razão.
Não me venham cá dizer que este nosso Portugal não é um País com comportamentos muito típicos e que não podemos ser apelidados dos contentinhos da silva…

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

BOA BOCA

A miséria é o fim
de quem se arrasta na vida
chegar a um extremo assim
de nem conseguir comida

Tudo o mais já se dispensa
uma cama, até um tecto
e só mesmo a doença
afasta qualquer projecto

Mas a fome, essa mesmo
atormenta bem no fundo
todo aquele que não come

E o mais nojento prato
sabe qual melhor petisco:
boa boca tem a fome!

DISCURSAR



NÃO PODIA HAVER NADA MAIS REVOLTANTE do que ter ouvido o discurso de Cavaco Silva, na sua campanha presidencial, em que lançou a pergunta, que ninguém poderia e deveria esperar que saísse da sua boca ao longo das funções que exerceu (e ainda exerce, como talvez exercerá), sobre o motivo por que não se actuou eficazmente na altura em que se podia ainda atenuar a chegada da crise ao nosso País. Então, onde se encontrava o Supremo Magistrado da Nação, durante os anos que decorreram e que deram mostras a muitos economistas – e ele é professor dessa especialidade – do que poderia acontecer por cá, e em que o responsável de Belém tinha obrigação de actuar junto do Governo que, por sinal, ele tanto protegeu?
Ter-se atirado agora ao Executivo de Sócrates, como se se tratasse de um concorrente à Presidência que nada tivesse a ver com as ocorrências naquele sector, ter essa atitude é que não era de esperar de quem se afirma ser dono de uma honorabilidade tal que são precisos de qualquer cidadãos dois nascimentos para igualar as suas virtudes nessa área.
Quem serão os consultores que rodeiam Cavaco e que não interferem nos textos dos seus discursos, que não o aconselham a mudar de estilo, que não são capazes de o fazer ver que há afirmações que não podem ser proferidas por quem tem a responsabilidade de um Presidente, mesmo que seja na posição de candidato ao mesmo lugar?
É possível que, bem à portuguesa, tenham os referidos consultores que se defrontar com a convicção do próprio de que não precisa de opiniões estranhas à sua e, nesse caso, terão de se encolher e aceitar passivamente os resultados dos equívocos do candidato. Isso, ou demitirem-se dessas funções.
Agora, que, de novo o afirmo, a mais que provável repetição cavaquista em Belém terá lugar, ficar-se-á a dever, não ao seu mérito mas sim ao demérito dos concorrentes. Porque, desse sector, não surgiu nenhuma surpresa de alguém que tivesse dado mostras de se diferençar suficientemente de forma a levantar, junto do eleitorado, o número bastante de votos para provocar a substituição de Cavaco Silva.
E é isso que vai ocorrendo neste Portugal. Que, seja lá qual for o futuro, o nosso País continuará a existir, como alguém também “sabiamente” afirmou numa reunião televisiva, parece-me que foi Basílio Horta, isso é verdade. Agora, o que resta aos portugueses que por cá andarem, é saber se, face aos outros países, especialmente à Europa onde estamos situados, encaixaremos, claro que “orgulhosamente”, na posição que nos é característica, ainda que disfarçada de subalterna, de Nação pobre e humilde, muito embora a nossa posição geográfica, com o Atlântico a mirar-nos embaraçado e sem compreender como é que um território banhado por ele em toda a sua extensão tanto despreza a riqueza que tem mesmo aos seus pés.
Mas, em contrapartida estamos recheados de grandes cabeças pensantes, de políticos de enorme valor, de uma população trabalhadora e capaz de produzir aquilo que consome e até de vender para o exterior o que lhe sobra.
Porém, como somos hábeis em vender dívida pública, não temos, por isso, razões para andarmos insatisfeitos… É do que se pavonearão os habituais satisfeitos com as suas acções governativas.
Amanhã referir-me-ei ao leilão que teve lugar de dívida pública e do alegado “sucesso” que se verificou com tal operação (a procura excedeu a oferta). Já tenho o texto alinhavado. Mas sempre quero assistir aos cânticos de vitória que Sócrates e os seus sequazes vão gritar por tudo que são meios e comunicação.
É que se o nosso endividamento serve para empobrecermos cada vez mais, pois o dinheiro que entra não se destina a investir, mas apenas para suportar despesas, e eu não posso manifestar alegria cada vez que se encontra quem nos empreste dinheiro. Mas já escreverei sobre isso…

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

RIQUEZA

Essa coisa de ser rico
e ter dinheiro de sobra
andando sempre no pico
ser ele o dono da obra
pode ser felicidade
nos seus bolsos sobretudo
mas só conhece a verdade
quem juntou muito escudo

Porém, afirmam alguns
dinheiro não chega a tudo
mesmo com tais fartuns
há quem peça amiúde
p’ra outros males ajuda
por exemplo na saúde
no que não serve a taluda
nem comprar a juventude

Ser feliz com os amores
que se compram com dinheiro
tais como outros favores
p’ra conseguir ser primeiro
dá vontade de chorar
ser rico então para quê
só se for para armar
enganando quem tal vê




ENTREVISTAS


ESTANDO BEM Á VISTA a data em que se vão defrontar nas urnas todos os candidatos a ocupar o lugar de Presidente da República, sendo no próximo dia 23 que os portugueses que se deslocarem a exercer o seu direito de voto – e oxalá, por muitas razões que se compreendem do desinteresse nacional quanto a este gesto, é desejável que a atitude de abstenção não se verifique -, ficarão a saber se ocorrerá a reeleição de Cavaco Silva por mais cinco anos ou se caberá a um dos restantes proponentes a responsabilidade de se instalar em Belém.
A esta distância e perante as ocorrências que foram permitindo que os cidadãos do nosso País formassem a sua escolha ou até aumentassem a sua dúvida, já não haverá muita matéria que possa alterar a disposição que terá sido tomada. E a entrevista concedida por Cavaco Silva, a última que a RTP proporcionou, julgo que serviu para concretizar aquilo que os portugueses, os que suportam estes diálogos que têm lugar com os interrogadores – no caso com Judite de Sousa -, serviu para confirmar o já estabelecido.
Digo isto, não como aplauso pela ideia positiva que o professor de Economia, em meu entender, transmite sempre aos portugueses, dado que a ligeireza de linguagem não constitui uma “mais valia” – como agora tanto se diz -, mas sim porque, em comparação com os seus concorrentes, será o que menos mal lá vai respondendo às questões que lhe são postas.
É verdade que, de uma maneira geral, não me conformo com as questões que são postas e com a forma como o interrogatório é posto, normalmente sem deixar que os entrevistados cheguem ao fim das respostas, se bem que haja que evitar que procurem transformar a oportunidade em espaço de propaganda das suas causas. Mas existem pontos importantes que devem ser apresentados aos candidatos e perde-se tempo com o abarcar de problemas que bem poderiam ser evitadas, pela sua insignificância.
Por exemplo, ao longo do questionário feito a Cavaco Silva, sempre mantive a ilusão de que lhe seria posta a questão de conhecer se, perante a eventualidade quase certa da vinda até nós o FMI, ele considerava que, no capítulo da anulação de despesas estatais que tanto contribuíram e continuam a causar um peso afrontoso no nosso erário público, não haveria que terem sido tomadas medidas drásticas (e nesta altura ainda com maior razão), por forma a não dar motivo aos contribuintes nacionais de acusarem os privilegiados de serem sempre os que menos sofrem com as medidas, fiscais e outras, que o Governo estabelece. Eu aguardei por essa pergunta, mas ela nunca apareceu por parte de Judite de Sousa.
Como, pertencendo a tarefa da entrevista a um jornalista experiente, um daqueles que exercem a profissão jornalística com absoluta independência e completo conhecimento das regras, haveria que lhe pôr a questão de saber se os gastos que são ocasionados com a sua campanha, como por exemplo o pagamento dos guarda-costas, que são os mesmos que actuam quando se trata de cobrir os passos de Cavaco Silve e da sua Mulher, até quando vai diariamente ao cabeleireiro, quando estes actuam na qualidade de elementos da Presidência, assim como o uso dos automóveis que se encontram ao serviço do candidato não serão os mesmos que se encontram ao serviço do Supremo Magistrado da Nação.
Faço esta observação, embora considere que Judite de Sousa será a profissional, desta época, mais adequada ao papel que lhe está reservado no caso, mas não posso fugir à tentação de reflectir sobre a prática jornalística no tempo em que, sobretudo por motivo das dificuldades que se viviam, até por razões da feroz Censura, obrigava a uma atenção cuidada na profissão, e verificar que é uma pena que não se aproveitem hoje as vantagens que se gozam da liberdade para tirar o máximo partido de, com o devido respeito pelo cumprimento das regras que não permitem que uma entrevista se transforme num acto inquisitório, obter esclarecimentos de pontos menos claros.
Atrevo-me a afirmar antes de tempo que, no meu parecer, Cavaco Silva passará no exame e deixará todos os concorrentes de fora e a lastimarem-se pelo facto de, segundo alguns, não terem tido igual tratamento por parte, sobretudo, da comunicação social. Será uma inevitabilidade. Mas, sendo assim, o que havia era que fazê-lo passar por um “aperto” nesta fase pré-eleitoral, de molde a obrigá-lo a entender que, apesar de existirem limitações no que se refere à não intromissão de Belém na acção governativa, o papel de um Presidente também é, ou sobretudo será, o de não ficar mudo e quedo sempre que constata que os responsáveis do Executivo não se encontram a cumprir correctamente as funções que lhe cabem no seu papel e com isso estarem a causar grande prejuízo a Portugal.
O aparecer em público, depois de larga conversa esclarecedora com os responsáveis governamentais, dando conta do seu ponto de vista e mostrando claramente ao País que também tem a obrigação de se inquietar, essa função tem de se verificar na fase que terá início logo que as disposições constitucionais o permitirem, evitando assim que se repitam os erros que têm sido cometidos desde o momento em que se conheciam os efeitos que poderiam cá chegar da crise que caminhava e, aos olhos do principal responsável, o primeiro-ministro José Sócrates, tudo lhe parecia ser um “mar de rosas”.
Aí, Belém não pode escapar às críticas, e será por esse motivo que se tem de recomendar ao próximo locatário, especialmente se for o mesmo que lá se encontrava na altura, que, aparte as disposições constitucionais, tem de ter um comportamento positivo e não de afastamento.
Cavaco fica a saber que estará debaixo de olho!...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

CONTENTE

Mesmo sem saber porquê
pois que tal não é preciso
é gostar do que se vê
e mostrar sempre um sorriso
contente,
contente
maravilha estar assim
sempre com ar de festim

Pode parecer doença
coisa física e mental
pois ter alegria intensa
lembra logo carnaval
contente,
contente
todos ao lado a chorar
quem ri a dissimular

Em época de tristeza
mostrar que é diferente
é p’ra já uma proeza
e que se anda a Poente
contente,
contente
será preciso inconsciência
ou deste mundo ausência?

Contente, contente
só com muita aguardente

JERÓNIMO MARTINS


AGORA, QUE PARECE ANDARMOS TÃO PREOCUPADOS (pelo menos por parte dos participantes nessa corrida) com a escolha do próximo Presidente da República, e quando um dos maiores problemas nacionais é precisamente a baixa produtividade dos portugueses – mesmo que o José Sócrates, como é seu hábito, ande a cantar vitória por se ter subido alguma coisinha, num muito raro sector, em 2010 - , ao ter sido dado conhecimento público de que existiu uma empresa nacional que bateu todos os recordes e foi até a terceira empresa mais valiosa na Bolsa de Lisboa, refiro-me à conhecida Jerónimo Martins, bastaria que se pedisse aos gestores dessa sociedade que emprestassem os seus conhecimentos e a sua prática ao sector nacional, mesmo ao Ministério da Economia e, sobretudo, ao AICEP, o instituto público que, agora comandado por Basílio Horta, não consegue convencer os exportadores e sobretudo os potenciais actores dessa área, que tem capacidade para exercer as funções para as quais foi concebido já há vários anos e de que, agora como antes, não deu mostras de justificar o muito dinheiro que custa ao erário público.
Quando uma empresa privada comprova que uma boa actuação lhe permite situar-se num plano avançado na área das exportações, ao contrário do que se verifica largamente em todo o espectro nacional, qualquer Governo com cabeça requereria o conselho sábio dos dirigentes da referia sociedade e procuraria aplicá-lo no conjunto do nosso sector empresarial privado.
Já há muito que os nossos governantes, estes de agora como os que passaram pelos lugares relacionados com a nossa produção e a colocação do que produzimos nos mercados estrangeiros, deveriam ter uma noção mínima das necessidades de encaminhamento, no capítulo da recomendação, nunca no da obrigatoriedade, mas, ao verificar-se que a sua ignorância é e tem vindo a ser total, pois nesse caso manda a humildade que nos submetamos à experiencia dos que sabem mais do que nós, seguindo as indicações que daí advenham.
O essencial é que, nos vários campos produtivos, comecemos por saber através de estudos precisos, ainda que devendo ser rápidos - ao contrário das habituais comissões que acabam sempre por não apresentar resultais práticos e de custarem fortunas - , que produtos têm possibilidade de receber a aceitação dos consumidores estrangeiros, onde e a que preços, para além de todas as características no que diz respeito ao aspecto, até ao nome a dar e isso dentro da possibilidades de dar resposta que tenhamos cá dentro, o que permitiria aos investidores, tanto aos que cá existissem como aos que se oferecessem de fora, uma certeza mínima de que se tratariam de operações com certa garantia.
E, na área agrícola, aí onde dispomos de campos, agora tão abandonados, e de um clima que, normalmente, nos privilegia em termos de novidades nas colheitas que antecedem as temporadas na Europa mais oriental, o trabalho do AICEP e de outros organismos semelhantes deveria ser aprofundado, ao ponto de justificar a sua existência e os custos em diversos escritórios situados em várias cidades estrangeiras, sendo que a chefia de tal Instituto deveria responsabilizar, através dos maus resultados obtidos, a continuação da sua existência ou a permanência da sua direcção.
Não temos capacidade financeira para continuar a suportar, com dinheiros púbicos, pessoas e entidades que não representam benefícios directoS e rápidos para a nossa economia.
Há que meter isso na cabeça, de uma vez por todas!...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

BOCEJO


A vida já me deu tudo o que tinha a dar
momentos de alegria e de prazer
já me satisfiz com o bem fazer
vi o que mundo pode mostrar

Levo pois que contar a quem me ouvir
se é que lá no fim outros estarão
prontos a receber-me a dar a mão
a quem não teve pena de partir

Porém tempo de mais onde me vejo
já cansa e não traz nada de novo
razão maior p’ra mais um bocejo

E sem ter muito mais o que fazer
nem nada p’ra deixar a este povo
não vejo razão p’ra não morrer

NOTÍCIAS E MAIS NOTÍCIAS!


ESTE PAÍS necessita, como de pão para a boca, que surjam com frequência notícias que desviem as atenções dos portugueses para outros assuntos que, embora momentâneos, sempre provocam uma paragem nas preocupações que, especialmente com a entrada deste ano de 2011, embora já sejam visíveis há um certo tempo, são agora anunciadas como vindo a ser ainda mais sofredoras nos meses que se perfilam no período que se aproxima.
Até as mortes de gente mais mediática servem para ocupar os noticiários e, em vista disso, provocar que as conversas referentes à estuporada crise passem, mesmo que por pouco tempo, para um plano menos prioritário, se bem que, logo a seguir, como nem podia deixar de ser, se esqueçam as más notícias que interromperam o dia-a-dia obrigatório, e o tema castigador continua a ser o que se sente mais no bolso e, por isso, volte à baila.
A morte de Carlos de Castro, que provocou uma evidente agitação pelos modos como ocorreu e, logo a seguir o também desaparecimento por doença do militar do 25 de Abril, Vítor Alves, foram duas ocorrências que, em campos absolutamente diferentes, caíram no conhecimento público com justificada surpresa. Os que cá ficam, esses mantêm-se a fazer contas à vida e a assistir ao afundar de Portugal, também anunciada esta desgraça pelas informações jornalísticas que não param de chegar ao conhecimento dos naturais e habitantes deste nosso País.
A realidade que sentimos na pele e que cada um de nós não tem possibilidade de dar a volta – pois que só se encontra ao alcance dos cidadãos o trabalharem mais e o produzirem melhor, dentro da actividade de cada um -, é que, por parte daqueles que ainda se mantêm na governação, não se verifica o mínimo de bom senso, de criatividade, de competência, de honorabilidade, também podemos acrescentar, de chamar a si aquele mínimo que se impõe há vários anos a esta parte e que é o de terem a consciência de que as disponibilidades financeiras de um País não são eternas, pelo que as despesas inconscientes que o Estado não consegue reduzir drasticamente continuam a ser produzidas e até a atingir recordes vergonhosos, por parte dos seus autores, que são até vários ministérios públicos, portanto sob a responsabilidade máxima primeiro-ministro, o senhor Sócrates, que se pavoneia por aí, com aquele ridículo ar alegre, a afirmar que tudo vai bem e a cantarolar as parcas melhoria que se verificam nalguma área… ainda que não cheguem para nada, em face do muitíssimo de que se necessita!
E os vários exemplos de gastos criminosos, que foram já tornados públicos, como a publicidade dispendida em 2010 por diferentes ministérios, que atingiu a casa dos onze milhões e meio de euros, a limpeza e a higiene nas mesmas áreas, perto dos 19 milhões, as horas extraordinárias 24 milhões e meio, os seminários realizados em cerca de 12 milhões, as comunicações na casa de mais de 13 milhões, as deslocações e estadas a fixarem-se nos 28 milhões e os combustíveis, resultado das milhares de viaturas ao serviço dos ministérios, que deveriam ter sido reduzidas há muito, a fixarem-se no número de 53 milhões de euros, todos estes números constituem a prova mais do que evidente de que, através das nossas iniciativas governamentais, não conseguimos pôr cobro ao desvario de dinheiro que, qualquer português médio, sem ser necessário situar-se na alta escala dos numerosos “professores” que absorvem os lugares de chefia, seria capaz de tomar as medidas que, cada um em sua casa, ao não dispor de verba para se meter em dispêndios que podem aguardar por melhor oportunidade, travaria eficazmente os gastos e, especialmente, as dívidas.
Será exactamente por isso que se nota um razoável conformismo na aceitação, por parte dos portugueses comuns, acolherem a intervenção do FMI na condução do sector económico e financeiro do nosso País, pois, por muito que isso atinja a vaidade nacional, quando não se dá mostras de capacidade para salvar Portugal do afundamento que muitos prevêem, temos de colocar de lado os orgulhos descabidos e aceitar o que, quem sabe, poderá constituir uma experiência que talvez melhor a situação que se vive na Nação que é a nossa…
Fala-se na eventualidade de que, se acontecer a chegada do FMI, será inevitável então a mudança de Governo e a realização de eleições, o que ocasionará, prevê-se com alguma certeza, a vez do PSD assumir o comando das operações.
Sendo assim, quem respirará fundo será o próprio Sócrates pois que, ainda que afirme o contrário, se vê liberto do flagelo que será ocasionado pelo efeito das medidas, ainda mais confrangedoras, que as circunstâncias exigirem e que, partindo as indicações de fora das fronteiras, o irão pôr a clamar:
“Agora digam que eu é que era mau!...”


domingo, 9 de janeiro de 2011

O AMANHÃ

Chegado aqui
a esta hora da vida
já percebi
como foi triste a corrida
desenfreada
cheia de baixos e altos
desencantada
não faltaram sobressaltos
só compensada
pelo intercalar de sonhos
na busca imensa
da fuga dos enfadonhos
e com descrença
contemplo esta vida chã
e no escuro
não me censuro:
pois bem temo o amanhã!...

CARLOS DE CASTRO


CONHECI-O POUCO DEPOIS dele ter chegado de Angola, sua terra Natal, por uma sua amiga me ter pedido para o ajudar no momento em que atravessava graves dificuldades de subsistência, até de fome, e necessitava de ser acolhido num jornal para ali desenvolver a sua apetência de se dedicar à análise da vida social dos então ainda não chamados como “socialite”. E, no semanário que dirigia, “o País”, dei-lhe possibilidade de ali publicar as suas notas, ainda que, francamente o digo, esse tema não fizesse parte das minhas preferências e, na minha rigidez, talvez excessiva, quanto à classificação da actividade de jornalista, excluísse esse sector dos comentários sobre a vida de uma certa camada de gente que, com todo o direito de existir, só interessa a um público que, verdade seja, terá um certo volume, mas não se inclui no que julgo mais importante para justificar a actividade jornalística.
Seja como for, o Carlos de Castro fez parte da minha equipa durante um certo tempo, até que encontrou o seu próprio rumo e tirou daí o proveito que procurava.
No capítulo da sua actuação íntima, ainda que fosse claro que as suas preferências amorosas assentassem na relação com alguém do seu próprio sexo, nunca essa inclinação foi demonstrada claramente, pelo que, pelo menos da minha parte, não lhe conhecia qualquer ligação masculina ou feminina, pois mantinha alguma discrição, o que seria sinal de que não estava disposto a ver discutidas as suas preferências na praça pública. E, mesmo que, nesta altura, já vários dos homens que figuram nas televisões, não escondam tais opções e façam surgir as caras dos companheiros com quem vivem, o que também é o seu direito, o Carlos do Castro nunca optou pela expansão de tais pormenores.
Pois teve-se agora conhecimento do fim trágico que apanhou o cronista social, precisamente em Nova Iorque, no quarto de um hotel e, segundo apurou a polícia, vítima de uma agressão violenta que chegou ao ponto de atingir o corte do aparelho sexual.
Por enquanto pouco se sabe das razões que levaram o provável culpado do acto a atingir tal atitude extrema, mas não restarão grandes dúvidas de que se tratou de um desespero ocasionado por algum delírio amoroso.
Pobre do Carlos que, connosco, comigo e com a minha Mulher, tinha um relacionamento muito afectuoso. Mas, tendo conseguido atingir os objectivos que o levaram a sair de Angola e a procurar, aqui no Continente, dar seguimento o que era a sua vocação, a de investigar os comportamentos da classe social que, tendo-o acolhido, lhe proporcionou uma vida feliz e até com regalias de viagens e de mordomias que, na altura em que o conheci, se encontravam bem longe de serem atingidas.
Nós, os que cá vivemos em Portugal, e que, sobretudo neste ano agora iniciado tememos o mal que ainda aí vai chegar, assistimos, com excessiva rapidez ao desaparecimento sucessivo de pessoas que alguma coisa significaram no ambiente em que nos movimentamos. Uns mais e outros menos, mas todos seres humanos.
O que vai passar-se ainda na nossa Terra, para além do que ocorrerá também por esse mundo fora, tão pouco tranquilo, a tudo isso é o que se chama o futuro. Que é como quem diz, a incógnita.

sábado, 8 de janeiro de 2011

TER CONFIANÇA

Ter confiança
em toda a gente
com esperança
ir para a frente,
avante, avante
há que vencer
ser-se gigante
é só querer
basta lutar
e a cara dar
aguentar
sem desarmar
faz falta fé
na tal vitória
com finca-pé
lá se faz história.
Bater, bater
no mesmo ponto
até vencer
sem ficar tonto
mas confiança
perdê-la não
desde criança
com devoção
porque ganhar
é sempre o lema
e avançar
soa a poema.
Bater, bater
grito de guerra
e a combater
é nossa a Terra.

Quem lança tal
grito histérico
não tem igual
é bem esférico
mas o que tem
é vozeirão
convence bem
qualquer pavão
mesmo medroso
sob a plumagem
mas desejoso
de molduragem
mas no seu caso
por incapaz
dá sempre azo
a Frei Tomás
faz o que eu digo
não o que faço
no meu abrigo
só ameaço
não custa tanto
estimular
lançar o canto
do atacar
desde que o perigo
não bata à porta
porque comigo
a coisa é torta.

Ter confiança
em todo o mundo
só esperança
que lá no fundo
fique quieta
sossegadinha
por ser só treta
que desalinha
esta cabeça
que bem sossega
por mais que peça
pois não se entrega
a outro afazer
por mais confuso
pois tal querer
é quase abuso

Mas p’ra viver
assim de lado
até morrer
bem estafado
sem ter cumprido
um lema certo
nem ter perdido
rumo de perto
há que deixar
dogmas cair
e caminhar
já sem sentir
censuras vagas
que fazem rir
por serem gagas
e não parar
mesmo no erro
até entrar
no seu enterro.

Que a vida é isso
tempo a passar
não há feitiço
é só esperar
qu’algo aconteça
sem s’ímportar
sem ter pressa
se vê depois
que a tal vida
só ou a dois
terá saída
deixa saudades
aos que cá ficam
poucas vontades
até debicam
algo que resta
que vai ficando
já pouco presta
p’ra todo o bando

Cá fica o mundo
entregue aos bichos
já tão imundo
pleno de lixos
e tal confiança
diz o poeta
nem por herança
nem como treta
se vai manter.
Vitória fica
noutro viver
em chafarica
que então houver
s’é que haverá
onde viver
já sem maná.
Avante, pois,
mas para onde
se o depois
já não responde.
É pôr de parte
entusiasmo
pois quem reparte
o seu orgasmo
mas já não goza
sequer fecunda
tem fraca prosa
que bem se afunda
se não houver
mudança tal
que deixe ter
um mundo igual
ao que há hoje
qu’está perdido
que bate e foge
solta um gemido.

Não vale a pena
fingir que sim
que é outra cena
nada é ruim
deixa-te estar
lá no teu canto
porque o gritar
não te faz santo.
Todo alarido
que aqui se faz
não tem sentido
não é capaz
de dar a volta
de despertar
quem anda à solta
sem acordar
para a verdade
p’ra não andar
pela cidade
sem rumo certo
sem qualquer norte
longe ou perto
da sua sorte.
Porque afinal
ter confiança
no bem, no mal
com esperança
sonho perdido
desperdiçado
não conseguido
o desejado.

Avante, pois
p’ra quê, senhores
se então depois
perdem-se amores.
Fica quieto
no teu cantinho
no teu espeto
sossegadinho
dizer que sim
dizer que não
é sempre fim
de uma ilusão
.

FALTA DE SENSO


EXCEDE TUDO o que seria aceitável, mesmo que se trate de um momento pré-eleitoral que permite que os opositores utilizem todos os meios para tentar desvirtuar as propostas daqueles que concorrem às mesmas funções, Refiro-me ao tema que tem vindo a ser utilizado para considerar que a compra de acções do Banco Português de Negócios e a venda das mesmas, tempos depois, com um lucro considerado enorme, se trate do resultado de favores que foram prestados a Cavaco Silva, logo por azar pelo elemento que se encontra com prisão domiciliária e que é considerado o maior responsável pelo estado a que fez chegar aquela instituição bancária que, por outro lado, já custou aos dinheiros públicos vários milhares de milhões de euros. A par disso, o que está a suceder com as fugas de depositantes que, até pelas afirmações condenatórias produzidas pelo mesmo Cavaco Silva, mais se acentuaram, tal acontecimento é que está a agravar ainda mais o que constitui uma clara falência do BPN, que nem encontra interessados em concorrer à proposta de venda feita pelo Governo, já duas vezes.
Já me referi a este assunto em blogue atrasado e aí demonstrei que, não sendo eu partidário absoluto da acção do actual Presidente da República nesse cargo, no que diz respeito a ter feito aquela compra, sobretudo quando ainda era professor e funcionário do Banco de Portugal, essa acção não tem nada de criminosa e muita gente fez o mesmo, obtendo os proveitos que são naturais nestes casos.
É evidente que, nesta altura, simultaneamente Presidente e candidato ao mesmo lugar, não pode entrar no mutismo e considerar como ofensivas as dúvidas que caiam sobre si. É do seu interesse e até constitui uma obrigação esclarecer repetidamente, se for necessário, tudo o que se passou e apresentar provas. O antigo primeiro-ministro Marques Mendes levou à televisão provas de que outras pessoas e na mesma altura adquiriram acções e em condições até melhores, acto que deveria caber ao visado sem dar ares de vítima. Quem se mete nestes “assados” tem que dar a cara e enfrentar as situações com todos os dados de que dispuser para desfazer todas as dúvidas.
É evidente que, tratando-se, da repetição do cargo de PR, diz a experiência que essa vantagem é normalmente garantida. Mesmo que, na primeira actuação, não tenha sido assim a tão grande contento como se gostaria. Esta é a minha opinião, claro! Mas especialmente o que tem acontecido, é que os frente-a-frente de todos os participantes nas televisões, não se têm revestido de temas que atraiam os portugueses ao ponto de não faltarem, no próximo dia 23, à colocação do seu voto nas urnas. E esse é que é o maior problema.
Porque, seja qual for o escolhido, não se espera que o comportamento do titular do cargo seja igual ao que ocorreu no período anterior. As circunstâncias são totalmente diferentes e os problemas a resolver vão exigir que o Governo que for e o Presidente que seja escolhido dêem mostras de actuação muito mais do que aceitável, de total competência e de conivência absoluta no interesse único do futuro do País.
Trata-se de algo muito difícil de conseguir e, para mal dos nossos pecados, por muito paciente que sejam os portugueses, há que atender que há limites e que a questão social, a miséria, as dificuldade que não vão faltar podem provocar algo que não seja uma nova revolução pacífica.
Quem avisa!...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ASSOBIA-LHE ÀS BOTAS

Tudo o que temos e parte
deixando as mãos vazias
talvez por não termos arte
ou por falta de energias
isso que foi nosso antes
e depois deixou de o ser
até os próprios amantes
choram depois de perder

Há quem lute p’ra guardar
o que está mesmo a fugir
faz tudo para agarrar
acaba sem conseguir
tinha de ir lá se foi
já não chegam cambalhotas
mais vale fazer de herói
e assobiar-lhe às botas

Há certas botas que guincham
outras rangem ao andar
as que apertam e pés incham
como as que fazem suar
mas quando alguém lh’assobia
é o sinal de partida
não se trata de mania
mas sim concreta fugida

Perdida que é a esperança
de reaver o perdido
às botas com sua andança
só lhe resta o olvido
lá longe o assobio
do dono atarantado
pode ser um desafio
nada é recuperado

MÉDICOS


O NÚMERO DE DESEMPREGADOS em Portugal, que já anda pelos 700 mil, não pára de aumentar, posto que se as empresas também estão a encerrar em escala assustadora (no ano passado fecharam portas 11 empresas por dia), o mais natural é que os que lá actuavam se encontrem, repentinamente, sem ter trabalho e, com isso, o panorama de famílias sem possibilidades de solver os seus compromissos, sobretudo se foram assumidos em época que parecia ser de fartura – que sempre foi de ilusão, mais do que de realidade -, pelo que os créditos mal parados, especialmente nos bancos, também sobem de dia para dia.
Mas, se em todas as actividades se verifica um excesso de oferta para actuar profissionalmente, na classe de médicos aí o que se passa é precisamente o contrário, de carência no número de técnicos da saúde que preencham os lugares que já estão a dar mostras de não chegar para atender os doentes, especialmente nas áreas dos centros de saúde.
A notícia de que 110 médicos reformados voltaram ao serviço Nacional de Saúde, a pedido do Ministério que necessita ainda de mais, é a demonstração de que, conforme há já bastante tempo tem sido denunciado e neste meu blogue já assinalei mais de uma vez, as dificuldades que são postas aos alunos saído do secundário e que desejam seguir para a Faculdade de Medicina, com exigências de médias excessivamente elevadas e que não têm nada a ver com a vocação, essa sim necessária para seguir a carreira médica, tal procedimento que não há forma de ser rectificado, isso resultou no que hoje se verifica e em que são necessários contratar profissionais de outros países, sobretudo sul-americanos e agora a chamar os reformados para regressarem aos seus lugares.
Fico-me por aqui e com isto demonstro o que afirmo há muito tempo, no que se refere à nossa capacidade para solucionarmos os nossos próprios problemas, de que têm que ser os outros para indicar os caminhos que necessitamos seguir para sairmos das situações difíceis.
A mais que certa chegada do FMI para pôr alguma ordem na execução, até do Orçamento que temos e que, segundo parece, não é bastante para atacar as dificuldades, essa será uma demonstração, aliás não a primeira, de que têm de ser os outros a desembarcar no aeroporto e a impor as regras que são excessivas para a nossa capacidade de as seguir.
Para quê pôr mais na carta no que diz respeito à análise daquilo que somos e das nossas capacidade em sair dos problemas pelos nossos próprios meios. Quando aparecem os profissionais do optimismo – como também há os que o são do pessimismo – a clamar que Portugal já passou por diversas fases de dificuldades extremas e que sempre conseguiu sair delas, sendo verdade o que não se esclarece é que essas ultrapassagens de tais situações foram feitas à custa de soluções que, logo a seguir, nos colocaram em posições também muito difíceis e que nos conduziram a enormes sofrimentos do povo português.
Analisemos a nossa História com total isenção e independência e verifiquemos o que se passou a seguir às saídas das dificuldades que nos atingiram. E nem acrescento mais, porque cada um é que deve fazer o seu próprio juízo e daí tirar as conclusões que achar convenientes.
Mas, o que nos tem de deixar perplexos é o facto de assistirmos ao tempo (portanto dinheiro) que se gasta nesta altura com o caso das acções que provocaram a Cavaco Silva um lucro que causa inveja, e ninguém de todos os candidatos a Belém gasta um segundo que seja a referir esta situação da escassez de médicos a actuar no sector da saúde popular, como em muitas outras situações que, essas sim, provocam um verdadeiro mal estar nos portugueses mais necessitados.
Mas não, o importante é dedicar toda a atenção a isso das acções, ma o caso BPN no capítulo da falta de fiscalização que se impunha na altura em que já era visível que havia ali matéria para actuar, isso deixa-se arrastar nos Tribunais e há que esperar anos até que... não se apontem os responsáveis – que têm de ser vários. Isto é que é o Portugal que sempre se soube salvar das situações complicadas!


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

AFINAL

Ao não estar pronto em seu dia
seja por bem ou por mal
quem procura a harmonia
só persegue o afinal
o mau assim
tem seu fim
porque isso do finalmente
leva tempo a conseguir
não é bem o que se sente
quer a sério ou a fingir

Afinal sempre vieste
é desabafo de amigo
a prova de que quiseste
trocar impressões comigo
se nos vemos
nos entendemos
assim acordo lá chega
e as mãos num bom aperto
põem fim a qualquer pega
afinal está tudo certo

Não era assim afinal
mas sim de outra maneira
é como no prato o sal
se é demais sai asneira
peso e medida
não causa ferida
está escrito no destino
há que ter um ideal
mas quando se perde o tino
não se chega ao afinal

Afinal tão simples era
afinal não custa nada
já chegou a primavera
do ar fresco, uma lufada
que delícia
tal carícia
impossível afinal
há muita coisa na vida
mas copiar tal e qual
faz-se mesmo de fugida

O fim de tudo lá chega
sem se alcançar ideal
vê-se muita gente grega
p’ra pôr o ponto final
o mortal
o fatal
e o que se diz nesse dia
como é regra geral
terminou a agonia
lá se foi o afinal


CANDIDATOS


É EVIDENTE que qualquer cidadão, num país livre, tem todo o direito de comprar acções que se encontrem disponíveis, seja de um banco ou de uma qualquer empresa. E se fizer bom negócio quando as quiser vender, isso faz parte da lei da oferta e da procura que, nas zonas de economia não controlada, não há ninguém que possa impedir tal tipo de operações.
Utilizo esta observação para me referir aos ataques que têm sido dirigidos a Cavaco Silva, pois, segundo parece, foi o que se apresenta neste momento à candidatura para a Presidência da República, no seu caso repetente das funções, que terá, anos atrás, quando era ainda funcionário do Banco de Portugal, adquirido uma porção desses tais documentos de participação na SLN, empresa proprietária do BPN, Banco Português de Negócios, os quais, ao vendê-los depois, lhe terão proporcionado um ganho de perto de 140 por cento do valor da compra.
Sobre isto atrevo-me a expressar a minha opinião e, desde já tenho que deixar claro que, no que se refere ao comportamento político de Cavaco Silva, não sou seu grande apreciador: pois entendo que se trata de uma busca excessiva, por parte dos actuais opositores ao candidato em causa, de erros presumidamente cometidos no passado, sem atender a circunstâncias e a naturais interesses humanos em tirar proveitos com uma acção que dava indicações de poderem ser aproveitados, dentro das normas limpas e correctas de qualquer pessoa.
Se Cavaco Silva tinha relações, até de amizade, com elementos em cargos superiores do BPN, e deles terá recebido informações que o levaram a fazer a operação em causa, isso não me parece que seja motivo para surgirem, nesta altura, acusações que põem em dúvida a sua honorabilidade.
Mesmo que, mais tarde, já com Cavaco a exercer funções de Presidente, este tenha, ainda que como reconhecimento do bom conselho que terá recebido dos referidos conselheiros, o residente em Belém tenha entregue cargos que, como todos os políticos fazem, correspondam a funções de excepção – incluindo o de Conselheiro do Estado, se bem que este, afirmo-o com clareza, seja excessivo -, até aí não vejo que seja motivo bastante para considerar a figura em causa como imerecedora de fazer parte do conjunto de candidatos.
Não é, pois, por aí que um cidadão deve ser julgado para efeitos de receber ou não o apoio dos portugueses. Agora, a existirem outros motivos, entre eles o de não ter sabido exercer o cargo com a competência que se exige a uma função que, por muitas limitações que tenha, tem o dever de mostrar clareza em todas as atitudes que toma e por muito que não possa intervir na acção do Governo, mesmo assim o que ninguém lhe proíbe é que expresse publicamente as suas opiniões – depois de devidamente debatidas as questões com o primeiro-ministro em exercício -, esclarecendo os portugueses no que se refere aos problemas que estejam a decorrer e que não sejam resolvidos com a competência que é requerida aos governantes.
E, nesse particular, especialmente ao assistir-se o que estava à vista de todos e muitas cabeças pensantes mostraram, ou seja no caminho do despesismo infantil que estava a ser feito e que acabaria por colocar Portugal na situação em que se encontra, aí, Cavaco Silva pecou de forma clara, tanto mais que, conforme afirma repetida e ridiculamente, sendo economista, ele “nunca se engana e raramente tem dúvidas”.
Quanto a mim, cabem-lhe culpas por não ter declarado publicamente que não estava de acordo com a actuação de José Sócrates e que, por aquele caminho, previa um beco sem saída que acabaria por chegar… como chegou! Por muito que tal actuação pudesse destabilizar a governação naquela altura, o que era um risco grave, seria preferível corrê-lo do que presenciarmos hoje o que nos coloca na situação periclitante que atravessamos.
De igual modo, como já tiver ocasião de referir, o lustro que o actual Presidente tira da sua própria personalidade, sobretudo quando surge com aquela afirmação “os portugueses conhecem-me”, “sabem que eu sou o maior…” e outras frases do género, aí é que há que apontar a falta de estilo e de sentido de convencimento de que sofre o pretendente à repetição do cargo de Supremo Magistrado da Nação.
Nisso sim, poderiam os outros concorrentes à caminhada para Belém levantar a sua voz, em vez de o acusarem pelo facto de se ter enganado na escolha dos antigos amigos que acabaram por não corresponder ao que deles talvez esperasse. É que isso de nos enganarmos, em relação aos amigos e conhecidos, é coisa que sucede a todos e só descobrimos isso depois e nunca antes…
Irá acontecer também na escolha dos portugueses, no próximo dia 23, para a Chefia do Estado. Enganar-se-ão todos, mas há que eleger e o leque de escolha não garante que não se caia no habitual: o menos mau de todos!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A PERFEIÇÃO

Não sei se a felicidade
reside no se julgar
que não constitui vaidade
o nunca se enganar
perfeição
que ilusão
atingi-la se presume
ser algo quase impossível
chegar mesmo lá ao cume
pode ser mas é falível

A obra-prima afinal
por muito bela que seja
não será nunca ideal
melhor sempre se deseja
alcançar
abraçar
o autor desconsolado
sofre por não conseguir
ver o trabalho acabado
sem o super atingir

Isso será consciência
de longe o máximo ver
e tal como em penitência
prosseguir sempre a sofrer
insistir
sem conseguir
o fazer coisa perfeita
não pertence ao ser humano
não se inventou a receita
pois a vida é um engano

REGIONALIZAÇÃO


TEM-SE FALADO pouco deste tema que, agora mais divulgado pelo candidato à Presidência da Republico Defensor Moura, merecerá certa reflexão por parte de todos nós, portugueses, posto que se trata de alguma coisa que pode influenciar bastante a condução da vida nacional, sobretudo numa altura em que tantas dúvidas existem e poucas decisões que mereçam ser discutidas e avaliadas. Refiro-me à regionalização.
Não tenho dúvidas de que, num País como o nosso em que a corrupção tanta marca deixa nas actuações em múltiplas áreas onde a praga se verifica, o alargamento da intervenção política em todo o espaço nacional poderá permitir a expansão de mais braços do cancro que se movimentem onde haja possibilidade de conseguir benefícios pelas múltiplas portas do cavalo. Mas, o que há que medir são as vantagens da criação dessas zonas intermédias entre o poder central e os municípios e o perigo de se multiplicarem as intervenções gananciosas dos que se encontram sempre à espreita de obter proventos com a criação de novas instituições relacionadas com o comando.
Posta esta dúvida, o único que haverá que acautelar é precisamente a fiscalização rigorosa no que respeita a essa possibilidade, coisa que, até agora, sempre tem constituído um fechar de olhos por parte daqueles que, provavelmente, são os que mais fomentam a corrupção, quer por via das colocações em lugares de importância e bem remunerados de amigos, familiares e correligionários de partido, sem atender às competências e às necessidades restritas das ocupações, quer no capítulo dos favorecimentos nas compras e outras acções que são as que aumentam desmedidamente os gastos do Estado.
Acautelada que seja esta actuação, o que importa é saber, com rigor e após estudo profundo do problema, se a regionalização poderá ou não contribuir para que a actividade política, económica e social dos sectores do País que se situam fora da área onde está instalada a cabeça governamental, se essa nova actuação será mais profícua nas decisões que há que tomar para melhoria de vida dos habitantes em cada zona ou se, pelo contrário, os custos que provocam tais aumentos do número de funcionários e de instalações públicas, ainda que haja que requisitá-los dos municípios em redor, não justificam que esse paço seja dado.
Até agora não foi apresentado aos habitantes lusitanos um plano que lhes dê a possibilidade de formar uma opinião concreta - nem neste nem em outros assuntos -, posto que as lutas que se verificam, entre partidos e entre candidatos a eleições, nunca têm a pretensão de colocar a julgamento projectos e planos em que os autores se responsabilizem pelos resultados que poderão ser obtidos.
O que não oferece dúvidas é que, como tem sido demonstrado em diversas ocasiões, as tomadas de decisão que são oriundas do poder central e se referem concretamente a medidas em que os habitantes locais visados por elas não são minimamente ouvidos, o mesmo sucedendo também quanto aos municípios que, muitas vezes, aparecem depois a reclamar contra o que foi proclamado, tais situações não podem ser aceites e é forçoso encontrar uma saída correcta para elas.
Se é o regionalismo ou se existe uma outra maneira de solucionar o referido problema, essa dúvida deveria há muito deixar de se pôr. E é esta questão que levanto no meu texto de hoje.
Aqui fica, como tanta coisa que tenho escrito nos mais diversos meios de divulgação. Mal ou bem, vou fazendo a minha parte!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

OPINIÃO

Entendi, já muito tarde
que o dar opiniões
nem sequer serve de alarde
só provoca confusões
faz-nos parecer importantes
e se há alguém que nos oiça
mesmo sendo bem falantes
só pode partir a loiça
em bem calmo ambiente
no meio de muita gente

Se ninguém faz a pergunta
é guardar bem lá no fundo
quanto mais coisas se junta
mais perto se está do mundo
próximo ficando longe
pois que o saber demais cansa
o mais feliz é o monge
que não lhe agrada a falança
o calado é o melhor
quem maça é o falador

Opinar, essa atitude
que há quem goste d’exercer
até faz com que alguém mude
a sua forma de ser
opinião que asente
em bases bem estudadas
pode até ser convincente
não provocando maçadas
tenhamos pontos de vista
sejamos ou não artista

Calado é que eu não fico
não dizer sempre o que penso
que me chamem mafarrico
não preciso de consenso
o que tenho é que dizer
tudo que me vai na alma
pois isso me dá prazer
embora me tire a calma
contrapor é o que importa
pois que a fala não está morta

Afinal o opinar
É só p’ra desagradar

FALAR, FALAR!...


PRODUZIR E POUPAR esta frase tão atacada (e do mesmo também me culpo), e que foi largamente reproduzida na época do antigo Salazar, volta agora a ser dita, não propriamente desta maneira, por muitas bocas que agora “descobriram” que Portugal não é – nem nunca foi – uma Nação que tivesse capacidade de se bastar a si própria, fabricando e lançando nos mercados o que deveria sair das suas produções, quer no capítulo da agricultura e das pescas como no que se refere à sua indústria. Os políticos de agora e, em particular os economistas comentadores, não se cansam de clamar pela necessidade que se verifica de termos todos nós, os habitantes activos, de lançar mão ao trabalho, cada um na função que lhe compete, e de aumentar substancialmente o resultado do seu esforço, pois esta será a única forma de podermos enfrentar o descalabro em que nos encontramos, em que consumimos mais do que o que produzimos e, por isso, vemo-nos forçados a importar em excesso e, com isso, dado que as exportações não têm a mesma dimensão, vemo-nos forçados a desperdiçar dinheiros e, para sustentar tal mandria, endividarmo-nos cada dia mais.
Isto, qualquer pouco sabedor entende, só que ninguém aparece a explicar o como deverá ser feito. Lançar frases, a torto e a direito, apontar erros, utilizar apenas princípios, isso não falta por aí, desde os menos qualificados comentadores até às mais altas personalidades, incluindo o próprio Presidente da República em exercício e, nesta fase, todos os candidatos a esse lugar.
“Firmeza no combate à pobreza”, eis uma frase que foi proferida por Cavaco Silva no seu discurso do Ano Novo. Mas, como esta, outras semelhantes e com idêntico incentivo de dizer o que é necessário que exista, sem que se conheça a forma de alcançar, na prática, tal ou tais desideratos, essa expansão de opiniões teóricas é coisa que abunda, numa forma bem portuguesa de mostrar como se conhece o que está mal, mas que não se corre o risco de indicar como se deve fazer bem.
Será que o ano que acabou de entrar e que vem carregado de maus presságios mostrará que os homens que temos por cá e que presumem ser os que sabem tudo, os tais políticos de que não temos falta, actuarão de forma diferente e, sobretudo as oposições, abandonem o apontar os erros e se dediquem a expor o que fariam se fossem eles a ter nas mãos o comando das operações?
O que está mal, até péssimo, é coisa que bem sentimos na pele, mas a forma de dar a volta por cima e de actuar com competência, bom senso, sentido de responsabilidade e, acima de tudo, com absoluta transparência, para se pôr ponto final, de uma vez por todas, das actuações à escondidas, dessa vivência todos os portugueses sentem a falta e muito gratos ficariam se tal mudança surgisse o mais rapidamente possível.
Ainda a tempo!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

VER DO OUTRO LADO

Por vezes sinto que estou morto
que já não pertenço ao mundo dos vivos
que estou onde não estou
que vejo do outro lado o que aqui se passa
não é nada comigo
é coisa estranha e distante
faz-me lembrar da última vez
que fui levado ao cemitério
havia gente a chorar
havia ?...
e lá me conduziram para onde eu queria
para o fogo
para as labaredas que rodearam o meu corpo
mas não senti nada
já não estava ali
vi de fora
tudo ardeu num instante
ficaram cinzas
foram despejadas num depósito
tem graça
nasci de uma gota e acabo em pó
atravessaram toda um vida
para isto
para terem havido preocupações
para coisa nenhuma
alegrias
zangas
esforços
canseiras
amores
desamores
ânsias
satisfações
prazeres
contradições
verdades
mentiras
pensamentos
esquecimentos
promessas
falsidades
disfarces
vaidades
tanta coisa e nada
uma vida
tão longa e tão curta
não deu tempo
para fazer o que era preciso
para ser útil
para sobressair
há quem diga que sim
que sou diferente
que me distingo
mas eu
que não estou apaixonado
por mim
não acredito
não me iludo
sei que me esforço
que procurei atingir a bitola
do bom
mas fiquei-me pelo sofrível
pelo mediano
a olhar para cima
a admirar
o que estava no alto

Por isso quase prefiro sentir-me perto do fim
fazer de morto
olhar à distância
ficar como que à janela
a ver-me
e a sentir o sofrimento
o meu sofrimento
o meu desgosto
não culpo o mundo de não me ter colocado
em qualquer pedestal
por pequeno que tivesse sido
e se não cheguei lá
foi porque não o merecia
também não me revolto
por outros se terem sobressaído
mesmo que sem mérito
mas isso só em minha opinião
discutível
provavelmente souberam aproveitar
as oportunidades
foram sagazes
atreveram-se
eu não
também não tive quem me entusiasmasse
em casa
fiquei-me metido para dentro
a encher papel
a colocar cores nas telas
e a esconder tudo
e a amar o que não estava ao meu alcance
a música
a composição
o uso dos instrumentos musicais
e em vez disso
só a utilizar
a caneta e o pincel
desajeitadamente

Sinto
que me vejo de longe
que contemplo os lugares que frequentei
sem mim
observo
as pessoas com quem me dei
sem estarem ao meu lado
vejo-me
sentado no café onde escrevo
olho para as ruas por onde passei
com outra gente
contemplo e reparo
já não conto
não estou lá
ninguém dá pela minha falta
é como se nunca tivesse existido
o mundo não parou
outra gente chora
alegra-se
sofre
diverte-se
tudo como dantes
como quando estava vivo
imagino eu

Julgo ver o mundo
Com muitos mais problemas
com a população aumentada
quase não cabe em nenhum sítio
tem carências
o ambiente é pesado
falta a água
a poluição é insustentável
a competição não perdoa


Quando sinto
que já não estou vivo
e contemplo o espectáculo
de lá de onde estou
já não me importo por não me encontrar
em qualquer pedestal
por mais ínfimo que seja
ao estar na Terra
preferiria estar preste a sair
a tempo
para fugir ao futuro que me esperava
para escapar do medonho
do horrível
dos muitos mil milhões de habitantes
que vão atafulhar o Mundo
e que apesar das múltiplas
antigas e novas doenças
que atacarão o Homem
como há raças que não perdoam
fazendo filhos
muitos
sobrepondo-se a outros
que são mais prudentes
fazendo mudar de cor
o Planeta
apesar disso não ser importante
porque os conflitos
não escolhem tons de pele
sendo seres humanos
por isso mal formados
e cada vez mais agarrados a crenças
a fés
a religiões
que julgam que lhes trarão a salvação
que serão perdoados depois de mortos
que terão benesses e regalias
no fim dos caminhos
só quando se encontrarem no outro lado da barreira
é que descobrirão
como eu julgo que concluirei
quando chegar a minha vez
e estiver a desfrutar
a gozar as vistas
sabendo que Inferno há só um
e é na Terra
nessa altura
e só então
darão gargalhadas surdas
e terão vontade de voltar atrás
e abanar o ser humano
gritando-lhes para terem juízo
para despertarem
e para aproveitarem todo o tempo
que mediou entre a gota e o pó
fazendo com que o Mundo melhore
tirando partido
da Vida.

OPTIMISTAS E PESSIMISTAS


NÃO FAÇO IDEIA se Medina Carreira, o que foi já ministro das Finanças de um Governo antigo depois da Revolução, e agora mantém um espaço de comentarista na SIC, dando conta da sua enorme adversidade no que respeita à conduta da governação actual, não sei se o meu blogue faz parte das suas consultas habituais de elementos para alimentar os temas que trata perante os telespectadores. Eu não me considero tão agressivo como ele não esconde, pois no meu fundo ainda conservo alguma esperança de que vai aparecer uma cabeça bem pensante que consiga pôr ponto final na falta d competência que tem sido exposta ao longo dos dois Executivos chefiados por Sócrates.
Mas o que me surpreende, por vezes, é que o mesmo Medina Carreira aponta erros que, neste meu trabalho diário, têm vindo a ser debatidos, muito embora haja que reconhecer que muitos dos disparates que têm feito parte da actuação do actual detentor do poder sejam tão visíveis que o mais natural é que não escapem à observação de quem não se encontra muito distraído da actuação política, económica e social deste País.
Por exemplo, quando se referiu o comentador em causa à necessidade de passarem algumas gerações de portugueses antes que mudemos a nossa forma de enfrentarmos os problemas, posto que se trata de comportamentos que se encontram enraizados nos nossos seres, isso mesmo já fez parte do que expressei, até mais de uma vez, tendo proposto a quem me quisesse ligar alguma importância, especialmente por parte do nosso Ministério da Educação, que fosse introduzida na Instrução Primária (como eu continuo a chamar-lhe) a aula de “Prática de Democracia”, que deveria assentar sobretudo na aprendizagem de saber ouvir e de não impor a nossa opinião como sendo a única válida, esperando pela vez que nos caiba para opinar, sem que isso represente um ataque ao parceiro com quem conversamos.
Para que essa prática passe a fazer parte do hábito português, o que não se verifica nem sequer nos políticos que nos enchem os ouvidos, serão necessárias pelo menos três gerações, havendo que esperar pela altura em que, os que ainda não nasceram, comecem a dar mostras de ser capazes de, com naturalidade, ter essa forma de convivência.
Eu bem me esforço para também me incluir no tão grande número de “democratas” que apareceram, em Portugal, mal ocorreu o 25 de Abril, mas sou forçado a reflectir sempre que dou comigo a trocar impressões com outro e verifico, mais vezes do que gostaria, de que estou longe de atingir essa perfeição e tal humildade.
É por esse motivo que, com a escrita, me atrevo a fazer propostas para que este Portugal mude de trajecto em muitas das suas actuações. E, modéstia aparte, tenho de reconhecer que, não sendo o ideal, pois que o importante é fazer e não apenas apontar vias, pois mesmo assim julgo que já será meio caminho andando.
Com este ano de 2011 a assustar toda a gente, que, pelo menos, se tire algum proveito deste tormento: que se passe a compreender que a cada um de nós cabe a tarefa de contribuir para que esta nossa Terra saia da situação difícil em que a meteram, aquele que é apontado como sendo o principal culpado, mas também cada português, sem distinção, fazendo com que a baixa produção, que é a principal causa do estado em que estamos, passe a ser uma das melhores de toda a Europa, para podermos competir com os parceiros que, por seu lado, fazem o mesmo em cada local onde se situam.
Não deixemos o nosso interior vazio de população, não percamos tempo com os telefonemas desnecessários nas hora do trabalho, que, em vez de horas extraordinárias, façamos no serviço o que nos compete, que paremos por agora com as greves, que não solucionam nenhum problema. Se usarmos o bom senso e não a nossa mania de só clamar pelos direitos, esquecendo os deveres, talvez este ano de 2011, em lugar de surgir assim tão malvado, possa representar a abertura de uma porta nova que nos conduza a tempos bem diferentes.
E, sendo assim, não teremos de ouvir mais o Medina Carreira que, com o seu pessimismo, alguma utilidade tem, por muito que nos custe dar-lhe razão.

domingo, 2 de janeiro de 2011

DESPERDIÇAR O TEMPO

Só quando se chega a uma certa etapa da vida
é que descobrimos o tempo que desperdiçámos
o que não aproveitámos na corrida
e tudo aquilo que não alcançámos
o mal que com que utilizámos aquilo que tivemos
a pouca atenção que dedicámos ao que valia a pena
porque saber não soubemos
tirar partido de cada cena
e as preocupações que nos absorveram
distraindo toda a ilusão
não nos favoreceram
retirando grande parte da nossa atenção.

Só muito tarde é que entendemos
que a vida é tão passageira
que tudo o que perdemos
que deixamos sem eira nem beira
ficando pelo caminho da nossa andança
não aproveitando o melhor possível
e que, num prato da balança,
de forma bem visível
devem ser colocadas as boas situações
enquanto, no outro lado,
envergonhados como ladrões
sem querer dar grande brado
se podem olvidar os maus momentos,
olvidar não, talvez esconder
porque mesmo sem os largar aos quatro ventos
e isso não dê grande prazer
sempre será bom trazer à nossa memória,
de vez em quando, pelo menos,
aquilo que não tendo grande história
por serem males pequenos
o que poderia não ter sido feito
mas que, de certa maneira,
na altura deu algum jeito
e que mesmo sendo asneira
constituiu uma aprendizagem,
se é que serviu para não se repetir
e até para dar certa coragem
para conseguir fugir
de um possível desterro
e não voltar
ao mesmo erro
praticar.

Agora, com um passado que existiu,
com alguma coisa para contar,
pois houve gente que não viu
e por isso não pode divulgar
aquilo que merecer a pena
ser ouvido
e colocar em cena
para não cair no olvido.
Mesmo que não se diga nada
serve de lastro
para a longa caminhada
e faz parte de um cadastro
que, volta não volta,
saltará à memória
provocando ou não revolta
conforme seja a sua história
e a consciência de cada qual
filtrará o que ainda animará a existência
procurando talvez não voltar a fazer igual
pois para tanto não haverá paciência
e por muito que não haja já
grande vontade de mais longe ir
quem sabe o que se passará por cá
e daquilo de que teremos de fugir

Aqueles que estiverem agora
com a idade que já tivemos,
os que falta ainda muito para se irem embora
e sabem mais do que aquilo que soubemos
esses podem fazer melhor ideia
de que o tempo que têm para percorrer
nesta vida que é uma cadeia
em que se é feliz e há sofrer

deve ser o melhor aproveitado quanto puderem,
emendando sempre o mais rapidamente possível
o que sair mal e não souberem
como fazer melhor e ter nível
esses, por muito que não estejam interessados
em aprender mais alguma coisa
precisam de ser motivados
para deixar obra jeitosa
será pelos seus próprios meios
que evitarão fazer asneiras
e defrontar bloqueios
tendo de ultrapassar barreiras
tendo então ocasião de verificar,
e oxalá não seja demasiado tarde
que às vezes há que parar
sem medo de que lhes chamem cobarde
e então aí fazer a prova dos nove
fazendo aparecer a tal balança e nessa altura,
imitando aquele que sempre se comove
sujeitar-se à tortura
de nos dois pratos equilibrados
poder confirmar qual de ambas posições
pode dar maiores cuidados
se entre as duas acções
umas que boa disposição deixaram
e outras que apetece esquecer
sendo que todas ensinaram
a melhor conseguir viver

Se for preferível
partir na ignorância,
como tudo é discutível
é relativa a importância
e se julgar melhor para os outros deixar
o apuramento das suas acções,
assim deve ficar
e atender as suas opiniões
se é que alguém se interessará por isso,
então, não deixe cair os braços,
e faça o seu serviço
que é como quem diz
ponha o cérebro a funcionar
e ainda que não seja muito feliz
aceite o que lhe vier a calhar
aguarde apenas pelo dia da partida
sem reclamar contra nada
que todos têm a sua ida
seja qual for a via usada

Embora eu não me sinta capaz
de me deixar facilmente entregue
só ao que a vida nos traz
seja o que for que se segue
com o passar dos dias
enquanto funcionar a minha cabeça
não me deixo dominar por apatias
e não me peçam que esqueça
só me entregando ao que vem a seguir
mesmo já sabendo do que se trata
nunca pude sacudir
muita coisa mesmo chata
tanto o que deixei de fazer
como o que saiu menos bem

E agora,
com os meios técnicos que já estão
a ser usados sem demora
e à nossa disposição
que esse computador tão eficaz
a que eu não aderi com entusiasmo
mostra daquilo que é capaz
provocando tanto pasmo
e deixando o muito que fará adivinhar
não sendo já necessário guardar papéis
já valerá a pena deixar
tanto os feles como os méis
pois o tal “disco” pode tudo arquivar
e depois alguém poderá haver
que se incomode com a divulgação
que dê a conhecer
aquilo que constituiu a preocupação
do que ficou feito
não deixar escondido
e que de qualquer jeito
seja bastante difundido
que ponha nos pratos da tal balança
o que aqui deixo bem gravado
e que no final de tal dança
diga se de facto causa agrado
porque se não, bem simples é
deitar fora o disco e pronto…
mesmo dar-lhe um pontapé
e podem chamar-me tonto!

BPN, SEMPRE O BPN!...



SÓ NUM PAÍS COMO O NOSSO e tendo uma Justiça como a que se pavoneia por cá, é que uma situação deste tipo - o que aliás também não causa estranheza, devido à enormidade de outros problemas por apurar que igualmente se arrastam anos sem fim e se mantêm com as dúvidas que provocam e sem se apurar quem é ou quem são os responsáveis – ainda subsista um caso destes, sem que o assunto se considere definitivamente arrumado. Tenho debaixo de olho, como já certamente terão entendido, o caso do BPN, esse monstro que já custou milhares de milhões de euros ao Estado e que ainda se conserva de boca escancarada a aguardar lhe atirem mais dinheiro, independentemente dos administradores que foram e sejam nomeados para acabar de vez com aquele sorvedouro de milhões atrás de milhões.
A prova que o negócio não interessa a ninguém é que, das duas vezes que o Governo colocou em hasta pública a venda a particulares do Banco em causa, sempre ficou sem adjudicadores, pois que, nem sendo oferecido apenas pelo total das dívidas, nem assim alguém estará disposto a arriscar os seus capitais.
Por aqui se tem de deduzir que os governantes, que julgavam que faziam uma grande obra ao ter estatizado o BPN – e, uma vez mais, foi sob a alçada de José Sócrates que tal ideia surgiu -, o que foram foi criar um encargo monstruoso e isso sem ter tirado do precipício o estabelecimento bancário que, como se viu pela prisão até de Oliveira e Costa – só ele? -, deveria, logo na altura, ter levado outro caminho, pois que as condições em que o puseram já não eram favoráveis para outra solução que não fosse o encerramento puro e simples, ainda que houvesse que atender aos depósitos dos clientes que tinham confiado naquela casa de depósitos, para chamar-lhe alguma coisa.
É evidente que a actuação do Banco de Portugal, cuja função, entre outras, é também a de fiscalizar o comportamento dos bancos privados, é merecedora da mais firme censura, pois que, com o presidente que detinha no momento, Vítor Constâncio, e que agora se encontra calmamente a exercer funções no Banco Europeu, não actuou de harmonia com o seu dever. E deixou passar singelamente o que era público e notório, no ambiente generalizado de muita gente que actua no sector, que se passava muita coisa merecedora de observação rigorosa no seio daquele Banco. Mas os olhos ficaram fechados.
Para começar este ano novo, que vai obrigar todos os sectores da vida nacional, com mais empenho ainda do sector público, a utilizarem toda a sua atenção, vontade e competência nas acções que couberem a cada um de todos os portugueses, não posso deixar passar o assunto que é transposto do período que terminou anteontem e que, juntamente com uma infinidade de situações graves, têm de ser encarados com toda a força de que dispusermos.
Recomendar, também eu faço, para imitar os políticos que, por aí andam e que apontam, apontam… mas nada fazem…
E a terminar, apenas uma passagem sobre a tomada de posse da Presidente do Brasil, Dilma Roussef, que ocorreu ontem e à qual José Sócrates fez questão de estar presente. Sendo uma continuadora da tarefa de Lula da Silva que, como ela também afirmou, se empenhou pela diminuição da pobreza naquele País, seria bom que alguma coisa fosse apreendido, no mínimo para efeitos de arrependimento quanto ao que não conseguiu este nosso politico levar a cabo na sua actuação em Portugal. No mínimo, o discurso que pronunciou e em que deu mostras de enorme humildade, que bom seria que, se tivermos que ter o Sócrates ainda durante muito tempo no cargo que ocupa – e tudo pode acontecer nesta nossa Terra -, as afirmações da mulher Presidente poderiam servir para que metesse a mão na consciência e comparasse com o que tem sido a sua demonstração de arrogância e de sapiência máxima, a tal que já não se suporta por mais tempo.

sábado, 1 de janeiro de 2011

SORRIR


Queria morrer a rir
ir assim até ao fim
para lá me divertir
a ouvir falar de mim

Muito mal, assim assim
tudo me faria rir
o que quisessem, enfim
continuava a sorrir

Digam coisas, mesmo más
não me fazem deprimir
lá onde só há paz
só teria que sorrir

O pior é se se calam
me olvidam mesmo a dormir
não dizem nada, não falam
deixava então de sorrir

ELE QUE VENHA, NÓS CÁ ESTAMOS!


CHEGÁMOS! E bem podem todos (ou quase todos) os portugueses colocar o pé direito à frente, iludindo-se com esse gesto de prevenção de que os livrará daquilo que está prognosticado a um povo para o ano de 2011, pelo que essa entrada, logo que ocorra o primeiro segundo depois da meia-noite, talvez diminua ao maus acontecimentos esperados.
O annus horribilis que se apresenta e que não há forma de disfarçar para fingir que passamos por cima dele e que os maus acontecimentos não nos vão atingir, esse desejo não nos vai ser proporcionado por esses senhores que estão instalados na governação e que não conseguem convencer-nos que somos nós todos que nos deixámos envolver pelo pessimismo e que não existem razões assim tão negras que façam com que o mau humor nos atinja mais ainda do que é normal na tristeza nacional que nos distingue dos vizinhos espanhóis que, em qualquer circunstância, sempre aparentam que a vida lhes corre às mil maravilhas… o que não é o caso neste período.
Mas falemos de nós. E encaremos os aumentos que vão verificar-se em produtos mesmo de primeira necessidade, como o pão, às consequências da subida do IVA e com o IRS a mostrar-nos que o Fisco aí está a não deixar que fujamos ao que nos cabe ter de pagar… só pelo facto de somos portugueses, isto é, de ganharmos pouco e de pagarmos tanto ou mais do que sucede com outros povos da Europa, desse Continente que, por sinal, também não está a constituir um conjunto de países que assume a preocupação de prestar uma ajuda mútua, especialmente dos mais folgados aos que se encontram perante graves dificuldades, como é o nosso caso.
Em resumo: O ano de 2010, um número que até se pode considerar bonito de contemplar escrito, vai ficar na História como tratando-se de algo que marcará como sendo um período em que a maior parte do mundo não quererá recordar. É certo que as excepções surgem onde menos se esperaria que tal se passasse, a China, por exemplo, está a gozar o resultado de uma actuação política e económica que, não tendo sido nada agradável de suportar e que os chineses procuram agora deitar para trás das costas, até porque não desapareceu por completo a sombra da ditadura que marcou uma época, aparece perante países que gozaram de reputação de serem exemplares até a comprar as suas dívidas, e o Brasil, a índia e mesmo o Japão consegue, passar em redor da chamada crise, mas esse não é o procedimento comum e Portugal, que não pode gabar-se de, ao longo da sua existência, ter tido mais períodos de felicidade do que o contrário, encontra-se na posição de não estar tranquilo e de dar ares amarelentos de verdadeiro receio.
Como a esperança, apesar de todas as provas que nos foram dadas, é algo que os lusitanos não abandonam de todo, ainda que a desconfiança em relação aos que governam este País seja difícil de afastar, por esse motivo ainda se mantém em muitas famílias a expectativa de que alguma luz entre na cabeça de José Sócrates e, dado que ele permanece no posto até à altura em que saia (como diria La Palisse), consiga descobrir alguma receita inesperada que faça dar uma volta ao sombrio do panorama que se apresenta.
Que poderia eu, neste começo de um novo ano, escrever neste blogue diferente do que o que dará uns ares de menos pessimismo?
O que vier logo se vê e como não estamos, muitos de nós, em idade para fugir para outras paragens, aguentemos firme, que é como quem diz, com os abanões que nos forem provocados!