quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

e vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

CORRUPÇÃO



ESTE TEMA tem vindo a ser voz corrente a propósito de muita irregularidade que ocorre no nosso País. Não sendo, de facto, uma exclusividade portuguesa, posto que, por toda a parte neste mundo, o homem é o maior comprador das acções de outros parceiros, sobretudo quando se trata de obter benefício, mesmo ilícito, em seu proveito próprio, mesmo assim, é o que cá se passa que nos interessa directamente e o que mais nos apoquenta. E, para não falar já nas grandes corrupções que, especialmente nesta altura, são anunciadas, ainda que vagamente com alusão de nomes – não se brinca com as consequências que podem advir das queixas em tribunal – mas onde se advinha a intervenção de figuras públicas de destaque, é nas corrupçõezinhas, naquelas que cabem num envelope passado debaixo da mesa, que se sabe actuarem os interesses que necessitam da protecção de mãos dispostas a aceitar um acréscimo aos ordenados que recebem os corruptíveis.
A notícia publicada agora de que as maiores câmaras municipais do País não cumpriram, dentro do prazo estabelecido, até 31 de Dezembro passado, com o Plano de Prevenção de Riscos de Corrupção, emitido pelo Tribunal de Contas, contando-se, entre as 200 entidades públicas que faltaram a essa obrigação, os maiores Municípios portugueses e entre eles o de Lisboa.
É evidente que, nos grandes negócios em que as Câmaras interferem é aí que as corrupções volumosas têm maior evidência, por exemplo nas vendas de imóveis como foi o caso recentemente tornado público de uma negociata feita no mesmo dia, da compra barato e na venda caro de um prédio, em que os intermediários lucraram grandemente com a operação e quem perdeu foi a própria Câmara Municipal que recebeu uma ninharia, pois é nessas habilidades que a corrupção tem de ser largamente perseguida e os seus autores devidamente castigados. Mas qual? Até agora, nem nesse caso concreto nem em tantos que nem aparecem a lume, todos ficam silenciosamente a gozar dos proveitos obtidos.
Mas, o que eu pretendo com este texto é divulgar as situações que são múltiplas por esse Portugal dentro, em que os fiscais das chamadas obras fazem vista grossa para o não cumprimento dos prazos que são atribuídos para derrubar um edifício e, no mesmo lugar, erguer outro. Sobretudo nestas situações é que os encarregados de fazer as obras e que, ou porque lhes falta o dinheiro ou porque lhes é mais conveniente atrasar o processo, permanecem, às vezes muitos anos, com os taipais colocados no local do derrube, prejudicando as áreas de estacionamento e o aparcar de veículos em toda a zona onde tudo está paralisado, isso porque, segundo se sabe nos arredores, existe um entendimento sub-reptício entre quem tem obrigação de fazer cumprir os prazos e quem tem conveniência em manter a situação parada.
Então esta corrupção, a que atinge directamente todos os moradores das áreas onde se verificam, a que desfeia cada vez mais a cidade que, no caso de ser Lisboa, tem influência na má opinião que fazem os turistas que nos visitam, não merece a atenção privilegiada dos responsáveis camarários?
Devia existir, não só em Lisboa mas sobretudo na capital, um departamento (que funcionasse) e onde os citadinos depositassem as suas queixas contra as malfeitorias que são praticadas no aspecto da capital, por forma a que se verificasse um maior receio por parte dos fiscais municipais, para que não se deixem subornar facilmente.
É uma aspiração ingénua? Pois será, mas que os responsáveis da C.M.L., esses além de todos os outros, deveriam interessar-se pela matéria em causa,. lá isso deveriam.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

AVAREZA

No poupar há algum ganho
dizem os tais cautelosos
mas isso de ser tacanho
já pertence aos mais medrosos
sovinice
gastar demais é tontice
pode levar à pobreza
como também é tolice
preferir a avareza
sabujice

Ter muito e não ter nada
não ajudar quem precisa
muito merece a piada
daquele que bem avisa
e critica
que ao chamar-lhe sovina
está a falar com franqueza
é bem ave de rapina
quem pratica a avareza
com larica

O contrário do guardar
com medo que tudo acabe
o grande prazer de dar
é a generosidade
bem fazer
afinal o que se tem
quando partimos do mundo
fica cá para alguém
gastar tudo num segundo
desfazer

METADE TRABALHA E A OUTRA METADE...



EU QUE JÁ NÃO ME LIBERTO da fama de apresentar maus presságios para o futuro, sobretudo para aqueles que apreciam mais serem enganados do que enfrentarem as realidades para se prepararem e não sofrerem depois surpresas desagradáveis, se tenho de carregar com esse peso pois que não vá mudar agora de perfil, já que a situação, a meu ver, não se apresenta favorável a que cantemos já no poleiro ao anunciar um panorama risonho para os tempos que se aproximam. E, antes que sejam os outros, os de fora, a vir apontar os erros que nós praticamos, pois que essa situação, no que a mim diz respeito, é que eu não desejo, de todo, que suceda, prefiro completamente que a crítica nasça no nosso seio, pois se tivermos a humildade de não esconder os pecados de conduta que são fruto das decisões que são tomadas pelos que por cá têm poder para tal, tanto agora como antes, pelo menos existirá o mérito de reconhecer as faltas e, nessas circunstancias, procurar ir ainda a tempo para introduzir as emendas que são essenciais para mudar de orientação.
E que digo eu hoje? Nada mais nada menos de que o nosso Portugal, que, números redondos, conta com cerca de 10 milhões de habitantes, enfrenta neste momento uma situação que se pode resumir no seguinte: metade da população está a trabalhar para a outra metade. E é precisamente este panorama que faz pensar na frase deixada por Cavaco Silva, na sua mensagem de Ano Novo, de que não deve ser posta de parte a hipótese de poder surgir no nosso País uma “situação explosiva” se não forem tomadas as medidas urgentes para alterar a conduta económica, política e social em que vivemos nesta altura. Lá que José Sócrates venha, com a sua linguagem sonhadora, dando sinais de uma esperança que só contribui para nos mantermos como estamos e nada fazer no sentido de sairmos do “buraco” em que nos encontramos, essa posição é a sua costumada e não há, na maioria da população, muita gente que alinhe por estas palavras.
A atitude imediata e já com grande atraso que tem de ser tomada pelo Governo é o de reduzir drasticamente os gastos públicos, já que aumentar os impostos é hipótese que não tem cabimento no apertado cinto dos portugueses. E o exemplo tem de vir de cima, cortando sem vergonha e com a maior frontalidade tudo que sejam despesas que podem e devem ser evitadas, aceitando a compreensão das figuras maiores da governação que, ao terem de decidir sobre o corte de mordomias evitáveis, o façam com o maior à-vontade e boa disposição e só isso lhes permite que as classes hierárquicas inferiores aceitem cortes que, obviamente, ninguém gosta que sejam feitos. E, a propósito, as empresas públicas ou dependentes de participação de dinheiros do Estado, essa terão se ser as primeiras a reduzir drasticamente as remunerações milionárias que se sabem serem pagas a uns tantos sem vergonha. Porque este tem de ser a expressão a aplicar a tais pouco escrupulosos.
Que o governador do Banco de Portugal, um dos que também usufrui de regalias monetárias que têm de ter fim, venha afirmar que a situação portuguesa é melhor do que a de outros países europeus, só tenho a dizer que mais valia que Vítor Constâncio se incomodasse com a incapacidade nacional de diminuir o défice externo, que atingiu um montante que tem de nos assustar, e que poderia, naquilo que lhe compete intervir, fazer algo para ajudar as empresas que necessitam de ajuda financeira para exportar a preços competitivos e que pense que o que nos vale ainda é estarmos inseridos na zona do euro, pois caso contrário já há muito que a moeda nacional se tinha desvalorizado enormemente.
Em vez dos disparatados e até criminosos projectos de investimentos de grande monta por parte do Estado, todos bem conhecidos por serem tão falados, o que se impõe é que a indústria nacional, em que poderemos ainda lutar para conseguir mercados estrangeiros, essa seja estudada e ajudada por técnicos competentes, por forma a conquistarmos posições para lutar com as concorrências que, vindo até de longe, como a chinesa, por exemplo, não deixam de aumentar a sua aceitação na Europa onde estamos. Que o AICEP – e não me canso de bater nesta tecla – cumpra a sua obrigação, sendo bem revista a forma como está implantada em várias partes do mundo, mas com resultados bem desanimadores, esse é um propósito de que não se vê qualquer gesto parte do Ministério da Economia (em conjunto com o dos Estrangeiros), por forma a dar-nos esperanças de que seremos capazes de sair desta modorra em que os encontramos.
Se nada disso for feito, então, a breve trecho não serão 5 milhões de portugueses a trabalhar para os outros tantos, mas muito mais os que não fazem nada e a receber dos que, cada vez menos, lá vão fazendo alguma coisa.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

DESCULPA DO VENTO

Haverá alguém culpado
daquilo que eu aqui sou
com os ventos
cataventos
se fiquei cá deste lado
é porque alguém assoprou

O vento é uma desculpa
para mostrar um motivo
seja esse
bem merece
que possa abarcar a culpa
mesmo sem ser exclusivo

Seja quem for não importa
estou aqui é verdade
correria
ventania
se entrei por certa porta
sairei com humildade

Depois será o que for
nas trevas e sem ruídos
apatia
calmaria
quer beleza quer horror
não custarão os sentidos

O vento é coisa de vivos
quer mansinho quer zangado
arejando
maltratando
ás vezes traz donativos
outras mostra o seu enfado

Se sou aquilo que sou
os ventos não são chamados
inocentes
ou ausentes
quando for chamado eu vou
tal e qual outros finados

Vento sem culpa, ventinho,
não tem nada a ver comigo
assim sou
quando vou
ou quando irei de mansinho
p’ro meu derradeiro abrigo

A ALEGRIA NA POLÍTICA


CONHEÇO Manuel Alegre desde há muito tempo. E acompanhei mesmo a sua estadia, durante bastante tempo, em Argélia, dado que me correspondi, ao longo dessa vivência no Norte de África, com o seu companheiro de fuga política de Portugal, Fernando Piteira Santos, de quem fui um grande amigo e que ajudei até a escapar da perseguição da PIDE, quando foi obrigado a escolher essa via para não entrar de novo na cadeia da ditadura.
Quando se verificou o seu regresso depois do 25 de Abril, sendo eu director do jornal “o País” convidei-o, e ele aceitou, para fazer parceria, com Jaime Gama, na coluna da Esquerda que manteve aquele periódico, que sempre defendeu a Democracia plena e, por isso, publicava as duas posições mais importantes que estavam a dar os primeiros passos no novo regime político.
Há alguma coisa a contar quanto a esse período e em que Manuel Alegre esteve envolvido, mas isso não vem agora ao caso e eu já recebi a demonstração de arrependimento que o poeta, passados anos, não me escondeu.
O que importa agora é referir aquilo que, na actualidade, traz de novo o militante do Partido Socialista à tona da opinião pública, posto que na sua candidatura, há anos, à Presidência da República, até obteve um resultado apreciável que demonstrou não se encontrar muito distante da opinião dos portugueses, pelo menos nesta altura não provoca qualquer espanto vê-lo surgir a dar conta da sua opinião, entre outras tomadas de posição numa entrevista dada ao semanário “Expresso”.
É certo que Alegre tem sobressaído do grupo socialista com posições que nem sempre são condizentes com a disciplina partidária que Sócrates ali impõe. Nesse aspecto alguma semelhança se encontra com o que ocorre no interior dos concorrentes sociais-democratas, mas uma certa condescendência tem permitido que uma ou outra divergência não provoquem grandes sobressaltos. E, no que diz respeito à sua eventual candidatura, no momento em que se perfilarem os candidatos a Belém, é evidente que algum cuidado tem de existir por forma a não provocar um afastamento irremediável na altura em que Manuel Alegre se perfilar com o apoio do grupo socialista, de que foi fundador.
Mas, a mim pelo menos, causa-me alguma preocupação que o futuro candidato ao lugar que agora foi motivo da sua crítica, quanto à intervenção do Presidente da República marcando os pontos em que mostra desacordo com o Governo, tendo mesmo afirmado que Cavaco Silva se mostra como pretendendo ser um segundo primeiro-ministro, aí, na minha ideia, Manuel Alegre parece querer dizer que, se vier a ocupar essa posição, não dará nunca a conhecer aos portugueses da sua opinião sobre o que esteja a decorrer no meio político.
Como o meu ponto de vista é bastante diferente do entrevistado pelo “Expresso”, pois entendo que, dentro das características nacionais limitadas do poder presidencial, pelo menos que se lhe deixe a sua actuação verbal, sujeita, desde logo, às críticas daqueles que se situem noutro patamar político, e que, após as conversações semanais com o detentor da orientação governativa e se essas não resultarem num acordo produtivo, o Supremo Magistrado da Nação dê a conhecer aos cidadãos portugueses qual a sua posição, na esperança de que se produza alguma mudança positiva, por isso não alinho na tese que o Manuel defende.
Não se trata de querer ser um interventor no comando do Governo, mas sim dar conhecimento aos governados de que existe em Belém um zelador pelo interesse da Nação. Somente isso e não é já pouco.
Mesmo reconhecendo que Cavaco Silva não tem sido sempre feliz nas intervenções que efectuou ao longo do seu mandato, considero que mais vale dizer alguma coisa do que encafuar-se num mutismo que só pode servir para deixar os cidadãos na ignorância se vale a pena ou não votar na sua reeleição.

domingo, 10 de janeiro de 2010

PERSONAGEM

Mas que mania que têm
de me pôr no masculino
e isso porque não vêem
o português com bom tino
pois dizer “o” personagem
seja homem ou mulher
é destruir a imagem
que a gramática requer

Todas que acabam em agem
não tem nada que enganar
é ver a palavra imagem
não é “o” a antecipar
os que se julgam sabões
e a nossa língua estragam
devem pedir mil perdões
quando a asneira propagam

No espanhol e no francês
a, o “age” final
não é como em português
é masculino, tal qual
“el garage” lá se diz
na Espanha e Cervantes
mas no da Flor de Lys
diz-se agora como antes

“Le garage” ou “l’image”
sem dúvida são masculino
tal como “le personnage”
é idioma latino
mas na nossa língua lusa
acontece o contrário
e não há nenhuma escusa
basta atender ao glossário






PROFESSORES SOSSEGARAM?



ESTÁ PROVADO que, afinal, não é impossível terminar com os descontentamentos dos cidadãos e pôr fim às manifestações de que certos grupos dão mostras, levando para a rua as suas revoltas em relação às decisões governamentais. O caso dos professores que, ao longo de muito tempo, mantiveram posições conflituosas quanto ao que o Ministério da Educação impunha, tendo sido necessário substituir a ministra mesmo aproveitando-se a tomada de posse do novo Governo de Sócrates, o que acaba de ocorrer com o acordo firmado entre a FENPROF e todos os sindicatos que envolvem os profissionais do ensino e a autoridade governativa, agora com Isabel Alçada a tomar conta da referida pasta, esse “final feliz” encontrado pelas duas partes, acontecimento tão propagado, só prova que há formas de arrumar as discórdias e de colocar as frentes em litígio de comum acordo.
Dito isto, só resta apurar quem saiu da quezília com a satisfação total de ter obtido valorizados os seus pontos de vista. Se o Governo nesta fase, que a anterior ministra fez tanta questão em não ceder no que dizia respeito aos argumentos que considerava intocáveis, ou se os sindicatos que, pela mão do seu representante aquele que surgiu sempre a dar mostras da sua intolerância em relação ao que era sistematicamente reclamado, Manuel Nogueira. Tendo fechado o diferendo ao cabo de várias horas da última reunião, pode-se concluir daqui que estão terminadas as reclamações dos professores? E isto porque não se escondeu que, depois dos apertos de mão de alegria que as televisões transmitiram, as 14 organizações sindicais dos professores encontram-se divididas no que diz respeito ao resultado das negociações e particularmente quanto ao reposicionamento dos docentes na futura carreira. No fundo, tudo a dizer respeito às classificações de bom e excelente a atingir nos topos das carreiras. Que foi essa a preocupação de sempre.
Quem não se encontra envolvido directamente nesta luta que tem posto em confronto uma profissão que, afinal, diz respeito ao ensino em Portugal, ensino esse que, por aquilo que os mais antigos, aqueles que estudaram sem as regalias que hoje existem, entre elas a de que não podiam exceder dez ausências por aula, por ano lectivo e em cada cadeira, sob pena de “perderem por faltas” – expressão que hoje não é muito conhecida -, quem, repito, foi estudante há muitos anos tem dificuldade em entender, por múltiplas comparações, que isso de os professores lutarem por melhorias das suas classificações até se aceita, mas o nada que dão a conhecer no que se refere ao concreto do pouco que se aprende nas aulas, o que nos afasta bastante dos níveis que são atingidos noutros países, quanto a isso teremos todos nós, que não fazemos parte já do grupo dos estudantes, de nos interrogar se a sua luta tem razão de ser sendo apenas limitada à sua própria valorização de carreira.
A profissão de professor é das que precisam de ser mais valorizadas, mas, no que diz respeito à formação dos nossos homens de amanhã, isso é igualmente importante para cuidarmos do futuro do nosso País. Pensemos nos dias de hoje, mas não nos descuidemos quanto aos que cá ficam para poder emendar os inúmeros erros de hoje.

sábado, 9 de janeiro de 2010

BOM SENSO

O que tanta falta faz
p’ra que o mund’ande melhor
e que não acabe a paz
e se propague o amor
é só preciso bom senso
em todos gestos humanos
e na busca do consenso
procurar não fazer danos

Pensar sempre antes de agir
estudar consequências
evitar o agredir
aceitar certas cedências
isso é da vida um modo
de quem tem compreensão
se tem a dar dar-se todo
e fazê-lo com paixão

Se há na vida ideal
para manter o convívio
procurando o menos mal
e sentindo certo alívio
o bom senso lá faz falta
para fazer amizades
com toda e qualquer malta
de poucas e mais idades

Numa palavra por isso
o Homem bem necessita
assumir o compromisso
de uma atitude bonita
só o bom senso indica
comportamento perfeito
e por isso bem lhe fica
utilizá-lo a seu jeito

CASAMENTOS HOMOSEXUAIS


ESTE PROBLEMA, que levantou grande celeuma, sobretudo na Assembleia da República mas que, naturalmente, continua ainda a colocar muitas dúvidas aos cidadãos que assistem às polémicas entre diferentes partidos políticos, sobretudo aos portugueses que ainda têm disposição para ocupar o seu pensamento com situações que se encontram muito longe das preocupações principais que os atormentam nesta altura, isto dos casamentos entre gente do mesmo sexo não seria de imaginar que fizesse os responsáveis mais directos pelo caminhar do País ocupar tanto do seu tempo na sua discussão. Mas, como somos, de facto, uma Nação sui-generis, pois aí se viu o primeiro-ministro, José Sócrates, a tomar um grande calor na bancada do Governo a responder às oposições na Assembleia e a defender o seu ponto de vista. Só ele.
Eu, por mim, devo confessar que, em primeiro lugar, me escandaliza que, numa altura em que é anunciado que o desemprego em Portugal já atingiu uma percentagem que nos coloca dentro dos quatro postos principais na média do 27 da Europa, ou seja que atingimos mais de dez por cento da população sem trabalho, se ande a discutir aquilo que diz directamente respeito a um número reduzido de portugueses, pois que, não se sabendo que posição ocupam no panorama nacional os homens e mulheres que optam pelo relacionamento sexual dentro do seu grupo, seguramente que está muito longe de ser parecido com qualquer maioria. Mesmo que dêem bastante nas vistas…
Mas, muito bem. As minorias também têm de ser atendidas e é natural que as leis não as abandonem e não cuidem de solucionar problemas que as afectem. Daí, portanto, que, ao analisar esta questão, da minha parte se me levante a dificuldade em tomar partido, muito embora aceite que não haja impedimento de que, homem com homem e mulher com mulher, realize, legalmente, a união e, como a língua portuguesa é tão rica, devendo encontrar-se uma designação que não deixe dúvidas e não provoque confusões com a expressão e o significado da palavra casamento, que esse, penso eu, deve apenas referir-se aos casais de sexos diferentes.
Que sejam salvaguardadas as protecções legais que advêm das separações que também têm de verificar-se nos “acasalamentos”, expressão que, por exemplo, se poderia dar a esse tipo de junções, que, também por morte de um dos participantes deveria salvaguardar o vivente no capítulo das heranças, nesse particular não encontro razões para não serem atendidos os seus direitos e aí a legislação tem de estar preparada para responder
Mas já no que diz respeito à adopção de menores, neste particular tenho de confessar que me é difícil entender como se pode explicar a situação a uma criança, que, nos progenitores afectivos, um tem o lugar de pai e o outro a posição de mãe, sendo necessário distinguir em ambos os casos, de machos e fêmeas, qual dos dois exerce as funções que lhes correspondem. E, no relacionamento nas escolas e nas brincadeiras com colegas, que tipo de complexo não surgirá por via da liberdade de linguagem e de pensamento que é comum entre crianças.
Estas são as minhas dúvidas. E, pelo que já foi exposto em declarações televisivas, tudo indica que se procedeu com demasiada ligeireza na redacção dos artigos legais que regularão os casos que podem vir a surgir decorrentes da nova união. Mas quanto a isso já estamos habituados e ninguém terá a certeza de que não se amontoarão nos tribunais mais casos a juntar ao muito e variados que por lá se arrastam. Mas aceito que os defensores das adopções em tais circunstâncias apresentem argumentos que procurem tentar convencer os mais renitentes.
A Democracia tem de ser aplicada em todas as situações. Liberdade é isso. Obriga os homens a recorrer ao bom senso para tentarem solucionar os casos que as leis podem não ser devidamente aplicadas. Esperemos que ela não falte na altura em que, como é de prever, apareçam perante os juízes que temos por cá.
Agora só resta aguardar pela decisão que vai ser tomada pelo Presidente da República, se aprova, se veta ou se envia para o Tribunal Constitucional. E daí também tudo pode acontecer. E nós, portugueses, com os graves problemas que temos, sentados a ver o que vai suceder.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

DEUS

O Deus de que se fala
é uma mancha
uma sombra
não tem imagem
não é visível
há quem O imagine sentado
com barba branca
olhos azuis
a roupagem até aos pés
pois não se pode idealizar
um Deus de gravata
de casaco e calças vincadas
com o cabelo cortado e penteado
de unhas arranjadas
e sapatos com sola
e atacadores.
Terá de ser uma névoa
que não fala
que soam as Suas palavras
nos nossos ouvidos
vindas de dentro de nós próprios
perguntamos-Lhe algo
e Ele responde sem som
fala sem ser ouvido
sentimos o Seu afago
mas sem que use as mãos
procuramos entender as Suas razões
não discutimos o que nos parece serem Seus erros
um Deus nunca se engana
mesmo quando nos inquietamos
com as injustiças que ocorrem no mundo
com a fome que mata as crianças
com os abanões da Natureza
com as guerras que não são evitadas
com as epidemias que matam milhões
aceitamos
seguimos em frente
dizemos “graças a Deus”.
O Homem é previdente
é prudente
é sobretudo temeroso
teme discordar do desconhecido
mesmo quando não vê
o melhor é não discutir
e colocar-se do outro lado.

Não tem certezas
mas, pelo sim pelo não,
manda o bom senso
não levantar dúvidas.

Seja o que Deus quiser!...

DISCIPLINA DO VOTO


EU CONTINUO a insistir na tese de que todos nós - os que já somos crescidinhos mas sobretudo os que estão a dar ainda os primeiros passos nesta luta de praticar continuadamente a Democracia -, todos nós, repito, não nos devemos convencer que já sabemos tudo e de que não necessitamos de lições, como se ouve constantemente sair da boca dos políticos profissionais, sobretudo quando levantam a voz na Assembleia da República. Cada vez mais temos provas de que, em especial por parte daqueles que maior obrigação deveriam assumir do resultado dos poucos anos ainda que decorreram desde que esse estilo de política foi implantado em Portugal, o exercício da Democracia se encontra bastante longe de ser praticado com naturalidade, sem ser necessário ser feito o esforço de raciocinarmos cada vez que temos de tomar uma atitude ou de pronunciar uma afirmação.
Não, por cá, 36 anos apenas após ter caído o regime totalitário anterior, não tendo passado pelo menos duas gerações de gente nascida já em plena prática democrática (e pior ainda, porque nas escolas primárias ainda não foi implantada a disciplina por que eu tanto tenho clamado, o que poderá adiantar bastante a mentalidade dos portugueses das novas gerações), é evidente que nos situamos longe da naturalidade que é fundamental para que, a exemplo do que sucede com os cidadãos ingleses (já com 300 anos de uso daquele formato) e mesmo assim nem todos, saibamos respeitar a opinião dos outros e não impúnhamos os nossos pareceres, batendo com o pé no chão a clamar por ela ser a única verdadeira e merecedora de ser seguida por toda a gente.
No nosso Parlamento, a cada passo se dá conta de que os deputados que ali são colocados por vontade dos cidadãos – diz-se – não exercem esse direito, pois existe uma imposição a que se dá o nome de “disciplina partidária” e que limita grandemente aquilo que individualmente será o ponto de vista de cada um. Quer dizer, na hierarquia de cada grupo partidário existem os seres maiores, os mais capazes, segundo eles próprios, os que estipulam o que devem pensar e fazer politicamente os que se situam em posições menores. Esta é a regra. É certo que, para existir uma força partidária, tem de se formar um bloco, dado que, de outra maneira, não era possível contar com “maiorias partidárias”. Daí se dar cada vez mais razão à frase de que a Democracia é a menos má das políticas, o que quer dizer que “boa política” é coisa que não existe…
Agora, como sucede nesta altura com a questão de se recorrer ou não ao referendo, os partidos não se encontrarem de acordo quanto a votarem favoravelmente ou não e sabendo-se que, dentro de cada grupo, existem deputados que são ou não favoráveis a tal proposta, aí se constata que não é a opinião de cada um que conta, mas sim aquilo que os chefes desses representantes do povo decidem. A não imposição da disciplina do voto é, de facto, a solução mais democrática para este caso, se bem que, aquilo que se denomina por “unidade do partido” seja uma necessidade imperiosa para que se possam “contar espingardas” antes de ser tomada uma decisão.
É a tal coisa: a menos má das políticas
!...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A HUMILDADE

Reconhecer o que somos
não tanto como julgamos
hoje tal qual como fomos
é sinal de que estamos
conscientes da verdade
sem pensar em exageros
aceitar realidade
não entrando em desesperos
isso é a humildade
que só permite o pensar
que é sempre a igualdade
a abrir portas p’ramar

Dos outros não sermos mais
é dos cidadãos dever
se somos todos iguais
em vida e até morrer
só a sorte e circunstâncias
permitem nossos caminhos
não há lugar p’rarrogâncias
onde só cabem carinhos
ignorância aceitar
e que os outros saber menos
é humildade abraçar
à vaidade só acenos

Se eu ser humilde propago
gritando aos quatro ventos
a própria humildade estrago
entrando nos fingimentos
para se ser bem sincero
tenho qu’acreditar bem fundo
sem cair no exagero
de não haver neste mundo
quem seja senhor total
da ciência e do poder
e que atinja o ideal
em tudo que é o saber

MÉDICOS PRECISAM-SE



JÁ NADA nos pode surpreender no nosso País. Aquilo que pareceria impossível há uns anos atrás, ao surgir nos noticiários dos nossos dias actuais é recebido com pouca atenção. Tudo é natural!
Imaginemos que, num passado mesmo depois da Revolução, seria comunicado aos portugueses que o Ministério da Saúde iria recrutar mais algumas dezenas de médicos estrangeiros, por períodos de três anos, para actuarem nos centros de saúde nacionais, indo procurá-los na América Latina, sobretudo em Uruguai e Cuba, e isto porque existem cerca de 400 mil utentes portugueses sem médico de família. Seria normal, então?
Os serviços oficiais reconhecem agora que há muitos estrangeiros a exercer a profissão médica em Portugal, havendo mesmo cerca de 4.400 inscritos na Ordem dos Médicos, muitos oriundos da União Europeia, do Brasil e também da América do Sul.
Dada esta notícia, a pergunta que tem de ser feita é como foi possível ter-se chegado a este extremo sem que nenhum dos vários governos que passaram pelo poder, com diversos ministros da Saúde, tivesse sido capaz de levantar o problema de aliviar a entrada de estudante na Faculdade de Medicina, sabendo-se que as altas médias exigidas em relação ao curso secundário foram o maior impedimento para que se formassem bastantes profissionais da actividade médica. E sendo que, “fazer um médico” ocupa uma média de 10 anos desde que um candidato entra na área do ensino superior.
É certo que, infelizmente, não é apenas nesse sector que os homens que temos tido na área da política e a quem não são pedidas responsabilidades quando prestam maus serviços à Nação, que se notam constantemente falta de perspectivas em relação ao futuro, deixando-se chegar ao apuro absoluto para, só depois, se ir a correr remediar as situações, mas tudo tem de ter um máximo de suporte e os 36 anos decorridos desde o 25 de Abril são tempo demais para ainda poder haver paciência.
Toda a gente no nosso País sabia que a política do ensino médico estava em Portugal a ser mal conduzida. Não se levou em conta a realidade de que para ser um bom profissional da saúde não é o mais importante ter sido bom aluno nos liceus, mas sim a vocação de seguir essa via. E, sendo certo que nos cursos de medicina exista a maior exigência de aplicação, já que se obrigue a que as médias para entrar na respectiva faculdade andem médias dos 19/20 graus, aí ninguém explica que os bons clínicos tenham de ser bons “marrões”, por exemplo em geografia, história e literatura.
O resultado que tudo isto deu é aquilo que as noticias divulgam de que, em determinados hospitais, este fim-de-semana houve doentes que, na secção das urgências, passaram mais de uma dúzia de horas a aguardar por atendimento. E que vários centros de oncologia espalhados pelo País estão a ser encerrados, exactamente pelo mesmo motivo, a falta de clínicos que atendam os pacientes necessitados.
Cá estamos, pois, no caminho de que Cavaco Silva lançou o alarme. O de uma situação explosiva. Eu ando a avisar, neste meu blogue, mesmo antes do Presidente da República. Haja quem imagine sobre quem cá estará nessa altura, para apagar a luz e fechar a porta!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ACHAR

Nossa língua portuguesa
tem essa coisa de achar
e usa-a com franqueza
até poder encontrar

Eu acho, diz toda a gente
quando tem a impressão
sobretudo quando sente
que não é só ilusão

Achar o que alguém perdeu
não guardar por ser honrado
pode deitar mãos ao céu
por não ficar com achado

Receber confirmação
de algo que já se disse
é pedir opinião
não acha que é tolice?

Uma acha na fogueira
aumenta lume que existe
pode ser grande asneira
e tornar tudo mais triste

Acho eu, posso dizer
quando não tenho certeza
sem querer comprometer
também não faço surpresa

Não acha? Quero saber
para aplauso sair
só o sim me dá prazer
e já não volto a pedir

ADEUS À PESCA PROFISSIONAL



NÃO PODIA SER de outra maneira. Um País geograficamente situado com um oceano todo à sua volta, a Ocidente e a Sul, e as costas entupidas por um vizinho, tinha de ter na pesca uma fonte de rendimento que tem origem desde o início da nacionalidade e que, por ventura, já era prática das populações anteriores. Antes, pois, da exploração das terras como modo de vida dos habitantes, seguramente que os peixes que abundariam junto às costas constituíam uma forma de alimentação dos lusitanos, iniciando-se aí a saída para o mar salgado de embarcações que o homem foi construindo. De resto, esse terá sido também o início da tentação para a descoberta do mistério marítimo, o que deu ocasião depois à iniciativa histórica de ir investigar o que se passava para lá do que a vista humana alcançava ao contemplar a linha do horizonte.
Durante séculos, a prática da pesca constituiu uma maneira de subsistência de sucessivas famílias, especialmente aquelas instaladas nas áreas marítimas. E, para além dos espaços mais perto da costa, a busca de espécies mais rentáveis mas oriundas de mares longínquos levou a que os pescadores se aventurassem pelos oceanos adentro e se dirigissem para o Norte, sabendo-se que era aí que o bacalhau se desenvolvia e, por isso, tal especialidade começou a constituir um prato obrigatório dos portugueses. E até hoje, se bem que nesta altura não seja já um prato dos pobres.
Os séculos, os anos, os tempos foram passando e, para além dos vizinhos espanhóis, que também enveredaram por essa via da pesca profissional, outras nacionalidades desenvolveram, técnica e economicamente, a devastação dos mares, ao ponto de se ter chegado agora a uma situação que poderá representar o princípio do fim de muitas espécies, sobretudo porque a prática do arrasto não elimina a captura de peixes sem tamanho mínimo para terem interesse de consumo. Sobretudo os oriundos de países orientais, como o Japão, utilizando meios muito sofisticados, dedicaram-se à perseguição de pescados de grande porte, como baleias e tubarões, o que tem provocado alguma preocupação por parte do resto do mundo, que não consegue convencer essa gente de que faz mal em querer satisfazer a sua guloseima com o prato das barbatanas de tubarão.
Mas, no que diz respeito a Portugal, para não fugir à regra, também nesta área nos situamos numa posição inferiorizada, que não condiz com o passado marítimo de que somos detentores e com a escala que atingimos no campo da pesca profissional. Temos vindo a perder progressivamente uma posição que nos coube durante longos tempos. Começando por abater embarcações, a troco de subsídios recebidos da então CEE, não sendo capazes de encarar o futuro que nos surge agora, ficámo-nos pelo caminho. Haja quem se ufane por tais decisões de govrnantes que já nem se sabe quem foram!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A CONSCIÊNCIA

Será que isso é vulgar
que obriga a grande ciência
para neste mundo andar
pôr de parte a consciência?
Não tê-la sempre presente
até sem mostrar p’ra fora
é não querer ser prudente
falhando na própria hora

Ser consciente dos actos
antes de os praticar
evitando espalhafatos
que possam embaraçar
esse é princípio ideal
que muito ajuda a viver
e evita muito mal
impedindo de sofrer

Mas então a consciência
é coisa que se explique?
É mais do que uma tendência
mas de que não se abdique
é a forma de pensar
ver a fundo consequência
e não tem de hesitar
se é boa a consciência

O FISCO À ESPREITA



PROVAVELMENTE este tema não mereceria ser referido numa altura em que ainda estará muita gente embevecida pelas esperanças de que o ano novo em que entrámos trará perspectivas mais animadoras quanto à vida que somos forçados a levar. Mas, contrariando os que têm esta opinião, eu entendo que todos os portugueses devem andar sofrivelmente ao corrente do que se passa no nosso País, o que seguramente não sucede, pois a maioria dos habitantes deste cantinho na ponta da Europa não ocupa o seu tempo a procurar informar-se e a sua passagem pelo ambiente em que vivem não ultrapassa aquilo que a vista alcança e o pouco que consegue despertar o seu interesse através das notícias televisivas que, mesmo assim, alguma ideia, mesmo que vaga, deixam quanto ao que ocorre por esse mundo fora.
Quero dizer com isto, afinal, aquilo de que muita gente tem alguma ideia: que, dos dez milhões de habitantes que somos todos por cá, só uma pequena percentagem se preocupa em aprofundar os seus conhecimentos no que respeita aos problemas concretos com que Portugal se debate, deixando para os políticos, “para eles”, a responsabilidade de solucionarem o que constituir situações difíceis de enfrentar.
Só com a aprendizagem profunda do que é a Democracia, quando as gerações novas e as que estão para aparecer tiverem, nas escolas primárias, como disciplina obrigatória, o estudo teórico e a prática desse comportamento de que todos os cidadãos necessitam fazer um uso natural, e isso nas cidades mas igualmente nas aldeias mais afastadas, só então é que poderemos tomar consciência de que os cidadãos portugueses não se afastam do acompanhamento da evolução do nosso País, continuando a relegar para “eles” a única obrigação de não cometer erros de governação. Já aqui me referi, em blogue anterior, a esta necessidade de assegurarmos desde já o ensino obrigatório da disciplina da Democracia, preparando para o futuro as gerações de jovens que hoje frequentam as escolas primárias. Sim, as primárias, que é aí que se “torce o pepino”.
Toda esta introdução serve para sublinhar um facto que poderá passar despercebido e pouco interessante a muitos de nós, cidadãos. Parecendo que tem pouco a ver com a prática democrática, no fundo é mais um tema que diz respeito a Portugal e por isso encontra-se ligado a tudo o mais.
Trata-se da notícia de que o Fisco vendeu em hasta pública 26 milhões de euros de imóveis, para liquidação de impostos. E não ficou por aí a medida tomada pelo sector fiscal português. No ano que terminou, outros valores provenientes de salários, pensões e contas bancárias, num total de 7.095 execuções de penhoras e encontram-se em lista de espera para igual actuação, este ano, dezenas de milhar de bens, entre os quais 50 mil automóveis.
Não há dúvida que o sector do Fisco funcionou de forma profissional como seria desejável que todos os outros sectores da administração pública também tivessem mostrado a sua eficiência. Só que, infelizmente, não é esse o panorama com que podemos deparar em toda a vasta zona do funcionalismo do Estado. Desde os seus maiores, incluindo membros do Executivo, até aos mais baixos cargos, a forma de actuação é de pouca aplicação no seu trabalho e os atrasos que se verificam nas múltiplas repartições públicas - e de que a Justiça não é a única a merecer apontamento – é fruto de uma ausência de interesse e de aplicação que contribui também para o atraso do nosso País em diversas áreas.
Talvez se se verificasse uma mudança de funcionários, retirando do sector das Finanças para outros cargos aqueles que dão mostras de eficiência, fosse possível provocar uma sacudidela nas competências e nos interesses que andam moribundos por muitos sectores oficiais. É uma ideia, não sei se com pés para andar.
Agora, que a burocracia que trava tudo o que deve andar rápido é uma enfermidade instalada por cá, lá isso é. E por isso temos de nos admirar como o Fisco consegue ser tão célere.
Como se pode concluir, a prática democrática serve de base para tentar remediar tudo que funciona menos bem, pois que a abertura e o estímulo de discussão dos problemas obriga a que os visados pelas críticas tentem melhorar as suas actuações. O que leva é muitos anos e abrange múltiplas gerações, razão pela qual quanto mais depressa entenderem os governantes que não podem ficar a aguardar que os cidadãos aprendam, por si próprios, o que representa ouvir e respeitar as opiniões dos outros, melhor será para todos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MÚSICA MINHA PAIXÃO

Por eu não ter acertado
quando o podia ter feito
sem seguir caminho errado
e procurar o meu jeito
desconsolado me sinto
faltando-me qualquer cousa
pois que não é quando pinto
ou quando m’atiro à prosa
ou se me atrai a poesia
despejando no papel
ou nas telas fantasia
mesmo que saia a granel
não é aí que me sinto
feliz e realizado
se digo outra coisa minto
e mais vale ficar calado

O que eu conservo é isso
guardado dentro de mim
como sendo um feitiço
bem pegado até ao fim
é que bem fundo a paixão
que vem comigo do berço
que a tenho no coração
e com a qual eu converso
é a música, só ela
a boa que faz chorar
que do alto, qual estrela
não me deixa nem pensar
tocada por instrumentos
saída da voz humana
mostrando bem os talentos
se é boa não engana

Como gostava ser eu
a compor as sinfonias
que ouvi no Coliseu
usando das revelias
para entrar sem pagar
e nos degraus da geral
me podia regalar
a ouvir tão bem tocar

O que havia que fazer
perante tal apetite?
Era preciso aprender
sem precisar de convite
como o dinheiro era escasso
e o tempo também faltava
havia que dar o passo
para onde se ensinava
e havia uma Academia
de Música p’r Amadores
onde estava quem sabia
merecia até louvores

Ali aprendi solfejo
com o padre Borba, Tomás
e nunca dei um bocejo
e até fui bem capaz
de entender bem as pautas
mas tocar isso não pude
pois piano não havia
e não tive a virtude
d’ultrapassar arrelia

Fiquei-me pois por ali
pensando que num futuro
o dó, ré, mi, fa, sol, la si
não estariam no escuro
e que uns anos depois
dominaria tal arte
como um e um serão dois
esse seria o estandarte
o fulgor da minha vida
que nada mais me atraia
e que até minha partida
felicidade seria

Não foi o que sucedeu
só de longe extasiado
sem conseguir tal troféu
fiquei como o mal amado
mas tudo que fui fazendo
só com música ao fundo
para me ir convencendo
que era o único no mundo
que me enchia as medidas
que o que não alcancei
com as outras cometidas
na música seria rei

Ter ilusões é melhor
do que perder esperanças
eu morro com esta dor
depois de tantas andanças
fico-me entregue aos papéis
com prosa e poesia
e às tintas e pastéis
tudo sem grande mestria
e se alguma coisa vale
à musica sempre presente
devo o quase ideal
que lá sai da minha mente

Mas perdoem a vaidade
que eu não poso esconder
será um mal da idade
que comigo vai morrer:
se compositor eu fosse
e aquilo que eu invento
com o amargo e doce
do que é um monumento
saísse nas minhas pautas
fosse cantado e tocado
não esquecendo as flautas
daria enorme brado
por todo o mundo de Cristo
e até com a minha voz
mesmo com o meu registo
mostraria a todos vós
que o que por aí anda
a arrepiar os ouvidos
levaria uma desanda
pois não são mais que gemidos

Tinha que isto dizer
revoltado como ando
com quem vive a ofender
isolado ou em bando
o que música tem belo
pois o só fazer barulho
para além de um flagelo
só constitui um entulho
que se junta ao outro lixo
que os homens por cá deixam
e com o malvado bicho
só os outros se queixam

Aqui deixo o meu protesto
se na música não entro
pois que com este meu gesto
mostre a revolta por dentro

LIVROS QUE SOBRAM



NESTE começo de ano, fartos como temos de andar de deitar as mãos à cabeça perante as desgraças que nos rodeiam por todos os lados, dando razão ao Presidente da República quando se disponibilizou para apontar erros e tentar incutir nos políticos o espírito de colaboração no sentido de todos contribuírem para solucionar os problemas da Nação, vou aqui deixar uma ideia que, não sendo original, pelo menos tem o mérito de ser positiva. E vale a pena ser repetida.
Tem a ver, sobretudo, com as editoras. Como é sabido, todos os anos as edições de livros atingem números que se situam nas casas dos milhares, mesmo sabendo-se que o número de exemplares, em média, que cada obra alcança não vai muito acima dos mil cópias. Existindo, claramente, as excepções, que são aquelas edições que se sabe antecipadamente que são mais procuradas pelos leitores.
Dentro deste panorama e sobretudo porque também se verificam preferências de directores de edição que não são fáceis de explicar, aquilo que se chama de “sobras”, ou sejam exemplares que não conseguem ser vendidos nas livrarias e que se acumulam nos armazéns para serem depois destruídos, atingem números enormes. E o caminho desse entulho é o da reciclagem que, menos mal, ainda se traduz por um certo aproveitamento.
Agora, aquilo por que eu tenho lutado desde que, de longa data, me preocupo com a divulgação da língua portuguesa é com a expansão da literatura no nosso idioma, especialmente para os países onde a lusofonia se pratica, é, de concreto, o da distribuição para essas zonas de tudo o que sobre de edições que já não têm aproveitamento de venda em Portugal.
Agora, a forma de pôr em prática esta iniciativa ultrapassará a simples vontade de o fazer. E aí, julgo eu, deveriam intervir os ministérios da Educação ou da Economia e o dos Negócios Estrangeiros, pois as editoras, por si só, necessitarão de ser ressarcidas dos montantes referentes à venda dos livros para reciclagem e, por outro lado, a entrega das obras aos países de língua portuguesa terá de obedecer a um critério e a um acordo pré-estabelecido, por forma a existir a garantia de que o final de utilização de tal literatura será o da expansão do português onde ele precisa de ser enriquecido.
Aqui deixo, pois, uma sugestão que o Governo, este e os anteriores, nunca deram mostras de pôr em prática. Não se trata de nenhuma extravagância que ponha em risco os cofres do Estado e, por outro lado, presta um serviço linguístico de grande valia.
Mas os homens do poder andam muito preocupados com outros assuntos que consideram de muito mais urgência e, dentro da suas opções, ainda não chegaram a um degrau tão pouco valoroso em votos como é o da expansão da língua portuguesa. Existem causas muito mais preocupantes para os Senhores deste e de anteriores Executivos. Por exemplo, o mais recente que é o dos casamentos “gay”. Sempre é mais preocupante isso do que o ver o nosso idioma bem infiltrado nos locais que descobriram os nossos antepassados e que deixámos ir ao Deus dará, quando não soubemos encontrar uma solução pacífica para os entregar em boas mãos e sempre com o nosso apoio…