(continuação)
Mais uma vez se deparava a necessidade de alterar o rumo da minha vida. Para poder dar resposta à proposta que me tinha sido feita, havia que criar uma empresa nova e encontrar instalações adequadas. Combinou-se que me entregavam 100 contos, para os primeiros gastos, e que fundasse a empresa para, logo a seguir, entrarem os sócios ditos capitalistas.
Foi nessa época que, para publicar no “Jornal do Comércio” e para dar força à campanha que detinha, desloquei-me a Madrid e entrevistei os três ministros mais importantes que, para minha surpresa, seguiam os meus textos no jornal. No mesmo dia, consegui efectuar os três encontros, com Manuel Fraga Iribarne, então ministro da Información, Alberto Ullastres, ministro do Comércio, e Lopez Rodó, ministro do Planeamento, todos do governo de Franco. É preciso referir que, apesar de todos estarem bem cientes da minha posição política, com enorme espanto verifiquei que tinham unanimidade de pensamento em relação à união de interesses económicos na Península Ibérica, tendo o próprio Ullastres entregue uma carta que me autorizava a negociar com a FIL a instalação de uma feira de produtos ibéricos (imagine-se depois vir o António Guterres com a ideia de conquistarmos o mercado espanhol!...).
Não sei se por casualidade ou por vias estranhas, o então ministro português da Presidência, Correia de Oliveira, deu ordem à Censura para estar atenta aos meus textos no “Jornal do Comércio”, proibindo palavras como “ibérico” e todas as alusões à cooperação entre os dois países. Quando muito, aceitava a expressão “peninsular”, mas até isso foi depois cortado.
Já tinha, então, criado a empresa “Incremele – Incremento Económico Luso-Espanhol, Lda” e alugado e mobilado um escritório, destinado ao fim em vista, Estava, pois, a dar cumprimento ao estabelecido com o Miguel Sttau Monteiro, quando este, repentinamente, me telefonou para comunicar que o grupo do Conde de Caria desistia do compromisso que tinham assumido comigo. Por meias palavras deu-me a entender que as ordens tinham vindo de cima, posto que não era bem aceite a ideia de termos relações excessivamente íntimas com os espanhóis, para além dos entendimentos políticos que eram mantidos entre Franco e Salazar.
Fiquei, portanto, com a “criança” nos braços, sobretudo porque já tinha dado baixa do escritório no largo do Andaluz e tinha cedido os Ficheiros a outra pessoa.
(continua)
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