segunda-feira, 7 de abril de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Quantas vezes começo a escrever e nem sei de que tema vou tratar. Alguma coisa será. Haja inspiração. E a sucessão de palavras acontece. Não faço ideia como é que o Eça escrevia. Se fazia um plano antes da escrita ou se o texto lhe saia por lufadas. O que se sabe é que emendava muito depois da redacção. O Camilo, esse que escrevia a metro, nem tinha tempo para pensar, porque o galego, no corredor da escada, incomodava-o com o ranger das botas, impaciente à espera do material para o levar ao editor.
Comigo, salvas as devidas distâncias, só se passa que tenho de me apressar na escrita, porque manda a prudência que não me atrase não vá o tempo que resta não ser suficiente para deixar alguma coisa de jeito.
Seja como for, são as palavras que me atraem. Que me fazem sentar à mesa e usá-las, como posso, como sei e como me saem. Emendando aqui, acrescentando nas entrelinhas alguma frase que fazia falta, riscando o já escrito antes, mas sempre com as palavras a servirem de guarda avançada das ideias, que essas aparecem ao correr da pena e lá se vão juntando na formação do tema.
Repetidamente, ao chegar ao fim da página, a conclusão a que chego é que, afinal, não surgiu tema nenhum. Escrevi coisas, dei a sensação de felicidade ao seu autor, procuraram as palavras ter sentido entre si, mas, no conjunto, pouco acrescentaram ao já existente. Não contaram uma história, não desenvolveram uma ideia com princípio e fim, ficaram-se apenas pelo meio.
As palavras, a correr, são como a água da fonte. Só pára quando fecham a torneira. E esse líquido, tanto pode ser cristalino, puro, com o contrário, pleno de impurezas, doentio, mal cheiroso. Quem consome essa água é o julgador da qualidade: ou bebe-a até se saciar e gosta ou vomita-a.
A nossa língua, a que nos diferencia dos outros, dos que também têm a sua própria, é muito mais marcante da nacionalidade, merece bastante mais respeito do que o hino e a bandeira. Saber de cor a letra e a música da canção da Pátria, pôr-se em sentido perante a imagem esvoaçante verde e vermelha, são sinónimos de respeito pátrio, mas se, com tudo isso, o palavreado que lhe sai da boca e o que regista por escrito representa um mau português, então não há patriotismo que aguente, por muito exuberante que ele pretenda ser.
Exagero? Chamem o que quiserem. Nessa Europa, que há quem acredite que, por muito que isso custe e tarde, poderá acabar por vir a ser um Continente de estados unidos. Mas se é possível aglomerar muitas coisas, podem unir-se vários interesses, pode namorar e casar-se grande número de parceiros, mas uma coisa, porém, marcará sempre a diferença e ficará intocável: a língua de cada um dos intervenientes.
E aqui está como eu, iniciando este texto sem um tema definido, termino com um assunto de extrema importância para todos nós: a querida língua que é a que recebemos e temos obrigação de conservar.

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