segunda-feira, 7 de abril de 2008

TODO O TEMPO DO MUNDO

Concorri com essa peça ao concurso Teatro d’Ensaio, dirigido por José Sarabando, tendo ganho o 1.º Prémio. Por esse motivo e de acordo com as condições do concurso, apresentei a obra ao Teatro Nacional de D. Maria II, tendo-me sido dito posteriormente por Amélia Rey Colaço, que mostrou interesse pelo trabalho, que a Censura não tinha aprovado a sua inclusão no programa da empresa.
Assim se foram vivendo mais uns dois anos, não podendo, como referi atrás, exercer a actividade jornalística, pois tinha ficado impedido, soube-o mais tarde, por ordem directa de Salazar que, pelos vistos, não apreciou as cartas que lhe tinham sido entregues e, por outro lado, não deu qualquer solução ao problema da Cela.
Entretanto, os meus contactos e envolvimento com a chamada oposição ao regime eram bastante intensos, servindo mesmo as instalações do escritório para reuniões conspiratórias, em que o Piteira Santos marcava sempre presença. Acresce ainda o facto de ter passado a ser meu colaborador Joaquim Campino, um velho comunista que esteve preso vários anos e que, quando saiu, precisava urgentemente de trabalho. Ocorreu também, nessa altura, a campanha para as eleições e em que Humberto Delgado servia de referência central que todos apoiávamos. Envolvi-me bastante nas acções dessa campanha, mas este não é o momento de descrever em pormenor todas as peripécias e envolvimentos que tinham a PIDE como inimigo implacável. Foi por essa altura que, uma noite, ao descer as escadas de um prédio na rua de S.Lázaro, onde num andar tinha sido possível instalar a sede da campanha eleitoral, juntamente com os manos Cal Brandão, descemos as escadas que eram bastante íngremes e em que estranhámos não se ver nenhuma luz vinda da rua, só compreendendo a situação quando deparámos com uma carrinha da PIDE que tinha encostado em marcha-atrás à porta da rua e que nos esperava para nos levar para a rua António Maria Cardoso. Passámos lá, todos, quase duas semanas...
Decorrido este período e logo após o chamado ataque a Beja, telefona-me uma tarde o Piteira Santos a contar-me que a Polícia tinha cercado a rua onde morava e que ele estava impedido de lá ir. Estava, por isso, metido no cinema Monumental e não sabia o que poderia fazer.
Disse-lhe que se mantivesse à entrada, atrás de uma coluna, que eu passaria no meu carro para o recolher. Assim, aconteceu e fomos para Monsanto pensar numa solução. Lembrei-me então de um episódio que tinha ocorrido comigo, tempos antes, em que uma senhora da chamada sociedade portuguesa, que conheci por acaso, me tinha dito que possuía um apartamento mobilado, vago, numa rua perto do aeroporto de Lisboa.
Não se podia pensar duas vezes, tanto mais que o que importava era ganhar tempo para que o Piteira pudesse encontrar outra solução. Sem atender às consequências que me poderia trazer pedir emprestada essa casa, foi o que fiz e a referida senhora, embora desconfiada, deu ordem à porteira para entregar a chave. Tratando de arranjar alguma comida e jornais e livros, telefonei à mulher, Estela, que era funcionária da Siemens, dando-lhe conta do sucedido mas não dizendo onde estava o marido, pois poderia ser “apertada” pela polícia e não se aguentar no interrogatório...
Entretanto, a dona do apartamento, muito desconfiada, não se conteve e foi ver quem lá se albergava. Não tive outro remédio que não fosse contar-lhe a verdade possível, implorando o maior sigilo. Só que o preço que a referida senhora, com perto de 60 anos de idade, queria, era para mim, um jovem, demasiado alto. E como não aceitei as condições, ameaçou-me que contaria a um amigo, o inspector Passo, da PIDE, o que estava a passar-se. Ameaçou e cumpriu, mas, por sorte, o Piteira Santos teve oportunidade de fugir de carro para o Algarve e daí para Marrocos e depois a Argélia. Só o voltei a ver depois do 25 de Abril, ainda que mantivéssemos correspondência regular via Paris.
Passei a ter à perna esse Passo que me foi buscar ao escritório, me encarcerou na António Maria Cardoso por três vezes, cada uma durante algumas semanas - o que não constituiu novidade, posto que já tinha sido "hóspede" noutras ocasiões -, pois queria que eu revelasse onde estaria o P.S. Valeu-me, visto que era solteiro e, por vezes, fazia algumas ausências, a minha Mãe não ter tomado conhecimento deste e de outros episódios políticos em que me envolvia. Poupei-lhe esses sustos. E o que eu passei nessa altura e em ocasiões posteriores, em que o tal Passo não me deu tréguas, não vale a pena referir, mesmo neste breve resumo, porque eu próprio não quero nem lembrar-me e muito menos após o 25 de Abril, em que surgiram, repentinamente, vários "perseguidos" pela PIDE !

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