quinta-feira, 16 de setembro de 2010

POBRE CONSTITUIÇÃO


SE FOR BEM ANALISADA, a Constituição da República Portuguesa necessitará com frequência alargada de uns toques de melhoria que será consequência da evolução da vida e da experiência que se vai tendo com os acontecimentos que nos apanham nesta caminhada que também é fruto das modernizações do mundo e do surgimento de problemas que antes não se notavam. A questão, porém, é ter a consciência de que tais mexidas devem ser efectuadas em prazos curtos ou se a prudência aconselha a que se escolham as ocasiões apropriadas e menos perigosas de brigar com circunstâncias adversas que não apresentam disponibilidade temporal para o efeito.
Neste momento, em que o PSD faz finca-pé em mexer no texto constitucional, alegando que esse acto será a “saída para a crise”, a dúvida que se pode pôr é se, atravessando-se um período menos propício politicamente falando, tal proposta se pode considerar inadiável.
É certo que o desemprego que grassa no nosso País e que não pára de aumentar, ao ponto de os nossos 10% de desocupados já constituir um quarto lugar na lista europeia, nos impõe tomar medidas sérias e céleres para parar tão grave situação. Mas, existem meios que, bem aplicados, podem influir na travagem da avalancha de desempregados e, por muito que constituam descontentamentos por parte do empresariado e/ou junto do sector sindicalista, bem como provoquem reacções partidárias que não se situem na linha dos promotores das tais medidas, a mudança constitucional que, no seu artigo 53º, se refere aos despedimentos, obriga a que se recorra a absoluta clareza, não dando ocasião a interpretações enviesadas, como essa da substituição da “justa causa” por uma expressão com total vazio de conteúdo.
Alteração do artigo 53º do documento fulcral pode ser essencial para impor regras claras nas suspensões dos trabalhadores, o que é forçoso, no entanto, é que essa acção ocorra em momento próprio e adequado às circunstâncias políticas que se vivem. E, neste momento, com as eleições presidenciais já à vista, manda o bom senso que se aguarde pela tomada de posse do novo Supremo Magistrado da Nação para, depois disso, se darem os passos necessários que incluem a votação na Assembleia da República com os dois terços de sins.
Seja como for, a iniciativa não enfrenta um consenso fácil. No caso do sector do Trabalho, pode permitir que os empresários sem escrúpulos se refugiem na facilidade de despedimento para se libertarem de funcionários que, independentemente da sua capacidade profissional, não sejam do seu agrado; ao mesmo tempo que as forças sindicalistas e os partidos político adversários também contrapõem posições distintas.
Perante as dificuldades que se conhecem em fazer convergir pontos de vista que conduzam a uma aprovação parlamentar, o que não pode deixar de existir é um texto claro e, no caso presente, sem complexos políticos na escrita. Neste caso do desemprego, o que se espera é que, logo a seguir à entrada em funções do PR seguinte, seja apresentada mudança do artigo, mas com uma linguagem que não mantenha a dispersão de opiniões.
Nos que diz respeito às outras alterações também sugeridas pelo PSD, no capítulo da Saúde, da Educação, da Justiça e do período do mandato do Presidente, bem como aos Média, estes temas merecem também uma reflexão. A seu tempo falarei deles, caso valha a pena parar para reflectir sobre situações que, sendo tão correntes nesta nossa Terra atormentada, o que merecem toda essa gente que anda por aí a pavonear-se é o desprezo completo e a ignorância sobre a sua existência.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

SALVE-SE QUEM PUDER!

Nem toda a gente pode
cada um sabe de si
às vezes há quem acode
dando razão a quem ri
Salvam-se uns
E outros não
a sorte não chega a todos
para os que a têm pouca
outros têm-na a rodos
e levam uma vida louca

Quando o barco vai ao mundo
todos aos mesmo escaler
e sem perder um segundo
é o salve-se quem puder
Socorro!
Se não morro
é grito de aflição
por esse mundo não falta
quem em grande agitação
se ponha a alertar a malta

Só os que podem se livram
as circunstâncias ajudam
serão os que se esquivam
e na sorte se escudam
Se puder
Haja o que houver
não serei eu apanhado
na derrocada fatal
terei o maior cuidado
p’ra evitar pior mal

Até mesmo p’ra viver
que se salve quem puder

PORTUGUESES INSTRUIDOS?


A INSTRUÇÃO ESCOLAR neste nosso País nunca foi a que competia a uma Nação que aspirava naturalmente em ombrear com as que lhe são parceiras no Continente a que pertence. Hoje, o que se depara é com uma geração de jovens com tão baixo nível intelectual que o resultado é aquele que se observa, com tristeza, em certos concursos televisivos e em que a cultural geral dos mesmos aparece com um nível tão baixo que as respostas que saem a perguntas correntes é, deveras, confrangedor. Mesmo os cidadãos, na casa dos trinta e quarenta anos, esses também não prezam pelo conhecimento do que pode ser considerado como matéria de “lana caprina”.
Tudo isso porque a chamada velha instrução primária (agora com outro nome), em que a obrigação de estudar funcionava e os ditados, as redacções e as contas eram matéria obrigatória que levavam ao “chumbo” dos que mandriavam, toda essa aprendizagem era levada a sério e os exames obrigatórios na chamada quarta classe e na admissão aos liceus eram levados a sério, sendo necessário estar preparados os alunos, pois que, de outra maneira, a repetição era o que estava reservada aos cábulas.
Esse espírito mantinha-se no caminho seguinte e até nos cursos superiores havia que provar que as aulas não serviam apenas para ocupar tempo. Ora, sendo este o panorama que existia num regime onde o salazarismo não apreciava muito que o povo fosse demasiado culto, porque o princípio era o de que a ignorância facilita mais a política da repressão, era de esperar que a Revolução, tida como de propósito democrático, trouxesse aos Governos que se têm sucedido as condições para a instrução escolar dos vários níveis subisse de qualidade e abrangesse o maior número possível de cidadãos de todas as idades e classe sociais.
É verdade que o número de escolas aumentou e que abriram várias faculdades privadas, assim como as dificuldades que existiam antes para os trabalhadores-estudantes diminuíram alguma coisa (e eu bem sofri na minha altura pelas manobras que eram necessárias para sustentar as duas posições), mas a realidade a que se assiste hoje é que toda essa mudança não passou de um “fogo fátuo”. É que actualmente até se está a verificar, por esse País fora, um devastador encerramento de escolas primárias (porque o Estado não tem dinheiro para suportar essas despesas), sobretudo em vilas e aldeias no interior, assim como também estão a abrir falência as faculdades privadas que, até agora e numa habilidade de nenhuma utilidade para quem procura saber, têm dado licenciaturas e doutoramentos em cursos que estão ainda por definir para que servem.
Não bastando a inquietação que grassa pelo nosso Portugal no que diz respeito aos variados problemas que atormentam os cidadãos, é o nível de saber dos portugueses que não melhorou o que tem de ser considerado como nível mínimo para ombrearmos com os parceiros europeus. Também se sabe que, este ano lectivo, foram menos 50 mil alunos que se matricularam no 1.º ciclo do Ensino Básico, o que também é consequência da descida de natalidade que tem ocorrido no nosso País.
Podem os optimistas de serviço cantarem as loas que quiserem aos benefícios que auferimos com as governações que nos têm cabido. Mas a verdade é bem diferente. Não é só o nível de vida que se distancia cada dia que passa da média europeia. É igualmente a barreira do saber que se mostra sucessivamente mais alta para uma população a que não lhe basta consumir em profusão os telemóveis e os computadores Magalhães. É preciso mais e, como tenho largamente difundido a minha opinião no capítulo da preparação da classe infantil, é aí que deveria ter sido introduzida há bastante tempo a aula prática de Democracia, pois são necessárias várias gerações para que esse espírito passe a fazer parte dos hábitos dos cidadãos e é sabido que, em particular no caso dos portugueses, existe uma grande dificuldade em saber ouvir os outros e aceitar o que cada um pensa. Isso não passa sem se começar de pequenino.
Mas os nossos governantes entendem que não e consideram mais importante encher-lhes os olhos com o Magalhães e com a língua inglesa. Eles lá sabem… mas pouco.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

QUERO VOLTAR PARA A ILHA!...


AQUELA ILHA deserta que faz parte de uma cena num programa televisivo, em que o náufrago que lá permaneceu longo tempo, longe de Portugal, é salvo por um barco português de passageiros que passou na altura e teve a alegria de se encontrar de novo entre compatriotas, beijando até a bandeira nacional, pois é precisamente essa ocorrência que me sugere escrever agora este texto. Quem já teve oportunidade de assistir a este cómico episódio sabe que, em face das más notícias que os passageiros que o acolheram lhe vão dando em relação ao que ocorre no Portugal tão desejado pelo náufrago, ocasiona a que, por diversas ocasiões, o desconsolado compatriota se agarre à amurada do barco, tentando atirar-se e grite: “quero voltar para a ilha!”
Estando dispostos a percorrer todos os episódios que, sucessivamente, têm lugar no nosso País – e, para isso, basta estar atento, todos os dias, ao que se passa dentro das nossas fronteiras -, a quantidade e as características dos acontecimentos levam-nos a que, conscientemente, também tenhamos a tentação de saltar do navio e desejar instalarmo-nos numa ilha que, embora isolada, não nos provoque tanta aflição e descontentamento como os que somos forçados a suportar com os pés assentes na dita terra civilizada.
Eu bem desejaria não ter de enfileirar neste texto uma série de tristes espectáculos que vão passando, mantendo-se algumas imagens na nossa cabeça e sendo substituídas por outras que se sobrepõem por mais recentes. Mas basta dar uma vista de olhos nas últimas notícias divulgadas para logo ficarmos com grande desejo de sairmos desta baralhada que se agrava de dia para dia.
Bem, já nem vale a pena referir a situação do julgamento do caso Casa Pia, em que a Justiça se comportou de tal maneira que só serviu para aumentar a desconfiança pública em relação a um sector que tem obrigação de funcionar impecavelmente e que, sendo só ontem entregue o acórdão que é essencial para os acusados que sofreram as penas e os seus advogados possam usar os meios para defesa, veio permitir que outra cena, não menos desprestigiante, a utilizada pelo acusado Carlos Cruz, tivesse podido ser utilizada com um exagero criticável. E devo esclarecer, no entanto, que não foi a aplicação de penas aos considerados pedófilos que tira valor à nossa Justiça, mas sim pelo tempo que levou a encontrar-se um desfecho, o que não é admissível nos tempos modernos e coisa que não sucedia antes, quando os computadores nem sequer existiam.
Mas muito mais há a acrescentar ao rol de disparates que não fazem criar o apetite de ficar por cá. Como, por exemplo, a incapacidade mostrada pelos governantes no que diz respeito à diminuição drástica do vergonhoso número de desempregados, os quais atingiram, nesta altura, um número assustador, ocupando-se os políticos que temos por cá em envolverem-se em confrontos em vez de deitarem mãos ao que pode contribuir na criação de mais produtividade, através de incentivos que devem substituir as burocracias que constituem outra doença nacional. Essa mancha horrenda de gente sem trabalho não constitui um apetite de viver em Portugal, muito embora o total de desocupados por esse mundo fora atingiu já o número astronómico de 210 milhões de indivíduos. Mas não é essa praga que ocorre também noutros países, que nos pode gozar de um certo optimismo, pois temos de perder o hábito de nos congratularmos por estar melhor do que alguns deles, em vez de procurarmos seguir os bons exemplos e tentarmos aprender alguma coisa com os bons resultados que ocorrem também lá fora.
O custo da dívida pública dispara todos os dias e o que nos espera ainda, muito em breve, com o pagamento das dívidas e até os seus elevados juros que nos exigem os credores, tudo isso leva-nos ao impulso de querer fugir ou de, no mínimo, enviar os nossos descendentes para outras paragens.
Temos de encontrar uma ilha que possa acolher aqueles que estão condenados a tentar sobreviver nesta Rectângulo, dado que nós próprios não temos possibilidade de saltar do barco a afundar-se em que navegamos.
Se assim fosse, com excepção daqueles que, entre nós, gozam de boa vida e de desafogo graças às remunerações que conseguem através de ordenados imorais e de reformas duplicadas e triplicadas, haveria bicha de cidadãos portugueses, nalgum local, para se atirarem ao mar, na busca da tal ilha do náufrago. Só um pequeno aparte: o que seria necessário era encontrar uma forma de saber o que se faria ao milhão e 700 mil telemóveis que foram adquiridos no semestre que atravessamos e isso só no nosso País.
Há mistérios que o ser humano proporciona e que não existe maneira de encontrar resposta. Iríamos todos para a ilha e lá usaríamos o aparelho das conversas, as que os portugueses não dispensam no seu dia-a-dia, seja no meio do trabalho ou nas compras do supermercado.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

INSPIRAÇÃO

Inspiração, o que é isso?
Algo que me põe mortiço
não pode ser um feitiço
mas é coisa que cobiço
às vezes tenho-a ao pé
tento agarrá-la até
mas faz tratos de polé
e não quer nada com o Zé

É o que sucede agora
eu que escrevo portas fora
p’ra ver se dou com ela
estou prestes a ir-me embora
e vou escrever p’ra janela

Sim, escrever eu bem faço
já foi em papel almaço
agora é onde calha
pr’alimentar as ideias
e p’ra ganhar a batalha
não posso ficar a meias
e vou enchendo as folhas
usando até saca-rolhas
p’ra destapar a garrafa
essa que terá lá dentro
produto de muitos anos
e tem pretensões a centro
dos poetas lusitanos
mas o que mostra à gente
é que não anda lá rente

Aceito a realidade
mesmo sendo uma maldade
afinal eu nunca vi
e também nunca li
poemas vindos do Além
nem outras artes também
saídas das mãos de Deus
o que convertia os ateus
não posso então comparar
o que me deixa imaginar
que não serei tão mau assim
e que será até ao fim
que andarei nesta luta
sem certeza absoluta
da imaginação conseguir
e de fazê-la sentir
que era bem aproveitada
por quem estando de abalada
o que quer é deixar obra
que não seja apenas sobra
mas mereça elogio
em vez de grande fastio

Inspiração eu procuro
para atravessar o muro



DESENCANTO POR ENQUANTO!...


O que é isso de não fazer sentido? E de ter sentido?
De ter que ver com o que fazemos e com o que dizemos?
Em princípio, a própria expressão tem falta de sentido gramatical. O sentido não se faz, tem-se. Ter sentido é ter orientação. Depois, se se pretende com a referida frase significar que algo não vem a propósito, que está fora do tempo e do lugar, então não se trata de sentido, mas sim de colocação do que se faz e do que se diz, no tempo e no espaço.
Admitindo, porém, que fazer sentido quererá dizer que se é coerente, que se actua na altura própria com os meios mais adequados e com a fraseologia que se adapta melhor às circunstâncias, nesse caso é admissível afirmar-se que tudo faz sentido neste mundo, tal como ele foi concebido, e do qual o Homem, se apropriou e passou a explorar.
Se a própria vida, a morte, a felicidade, a desgraça, o trabalho, o desemprego, a saúde, a doença, o ódio, o amor, a alma caridosa, o mal feitor e por aí fora, se tudo isso tem sentido, porque existe, porque foi assim que a esfera terrestre foi criada, com benefícios e malefícios, logo, tudo tem sentido, dentro da expressão discutível mas aceitável pela vulgarização do emprego.
Ao fim e ao cabo, o que não fará qualquer sentido é este texto, escrito um pouco a contra-gosto. Se, o que se tornou uso e costume já não oferece discussão, se o tal fazer sentido se aplica sem discussão do seu significado etimológico, logo, que se continue a usar essa expressão quando se pretende discordar daquilo que alguém faz e ou diz.
Eu, por mim, fico-me pela expressão disparate. Pelo menos não oferece dúvidas!

domingo, 12 de setembro de 2010

BABA E RANHO

Isto não está para rir
mas não resolve chorar
aumenta a gente a pedir
cada vez menos a dar

É estranho
A baba e ranho

porque carpir é humano
sentir dor por qualquer cousa
sofrer efeitos do dano
admirar quem repousa

Tudo isso é natural
a tristeza bem assoma
pois que neste Portugal
viver não é uma broma

E não é pelo tamanho
Que se chora baba e ranho

termo que o povo utiliza
p’ra expressar o sofrimento
não sendo forma precisa
sempre é o que sente dentro

Porque o choramingar
é maneira pouco clara
de querer desabafar
sem molhar demais a cara

E se eu dou o que tenho
Pois que seja baba e ranho

a quem não acreditar
tiro as dúvidas que houver

e ao verem-me chorar
baba e ranho aparecer

TRAPALHICES


HAVERÁ POR ESSE MUNDO, a desempenhar funções de responsabilidade pública, indivíduos que se assemelhem aos trapalhões e desajeitados que temos por cá em lugares que deveriam constituir o exemplo da competência e do bom senso? Bem gostaria de, neste particular, repetir as frases habituais de José Sócrates, que sempre se empenha em apontar como exemplares as ocorrências no nosso País, mas não sou capaz de ser o contentinho da silva e prefiro apontar os erros, na esperança de que algo ocorra de rectificativo nesta nossa Terra. Face às faltas que nós próprios encontramos naquilo em que temos o direito de não os esconder, sobretudo por andarmos convencidos de que somos exemplares, devido a essa circunstância não nos surge a possibilidade de emendar, mesmo que defeitos todos os tenham e nós não teremos de ser uma excepção. Mas, o ireito à indignação, em Democracia ninguém nos pode retirar.
Vem isto a propósito de quê? Então, aquela situação criada pelo tribunal que julgou o chamado processo Casa Pia, e em que não foi lida, como era devido, na altura da declaração da sentença dos réus implicados, a tão proclamada “súmula”, acórdão que anularia qualquer tentativa de exploração de hipóteses e de declarações tão expandidas a seguir por parte dos julgados que não se conformaram com o resultado de serem considerados culpados, e, ainda por cima, os anúncios que surgiram depois, repetidamente, de que é hoje, é finalmente agora, vem já aí, na próxima segunda-feira, anunciou-se, o tal documento que teria evitado todas as declarações públicas e publicitárias que foram utilizadas, como as que foram largamente exploradas com a alusão de que a Justiça se enganou nas penas aplicadas, isso se esse tal acórdão apresentar, de facto, provas de que existiram, sem dúvida, actos de pedofilia que justificam em absoluto as penas aplicadas. E bem basta que, inexplicavelmente, tivessem os órgãos de comunicação, especialmente a RTP, dado preferência exagerada em espaço ao aparecimento de um dos acusados, Carlos Cruz, como se tivesse sido apenas ele a receber as culpas dos actos de pedofilia. A menos que os restantes seis não tenham nada a contradizer em relação à decisão do Tribunal. O que não é o caso.
Quem pode deitar a mão a esta situação tão ridícula e, sobretudo, tão desprestigiante para a já tão pouco acreditada Justiça portuguesa? Fica-se à espera de saber, se é que alguma vez surgirá uma justificação plausível e convincente, que tudo tem motivo plausível para ter acontecido.
Mas não é só isto. Então o caso Carlos Queiroz não representa outra prova de que os portugueses, bastantes deles e sempre os que se situam nas montras da opinião nacional, constituem uma demonstração de que ganhamos todos os concursos da trapalhice, pois temos a capacidade de embrulhar em asneiras aquilo que, com bom senso e competência mínima, se resolveria sem as costumadas contestações de que tanto gostamos? Ter arrastado um processo e permitido que surgissem na opinião de rua as mais variadas posições, prós e contras, quando a solução estava mais do que vista que seria o proteger, à custa do que fosse, uma selecção nacional de futebol – já que a temos, então defendamo-la -, essa molenguice ocasionou a confusão de todos conhecida.
Basta de tanta incompetência. Os problemas que temos de enfrentar na actual situação já chegam e sobejam para ocupar as nossas preocupações. Criar ainda outros deste tipo, isso é que tem de nos revoltar a todos nós, os que não andamos agarrados às questiúnculas que não resolvem nenhum dos problemas que, de dia para dia, ainda aumentam face à dívida pública de muitos milhares de milhões de euros que já nos está a calhar e que, aos nossos descendentes, vai ser deixada para que eles resolvam. Uma maldade!
Mas não. O importante é todo o tipo de pequenas situações que não aquecem nem arrefecem no que é verdadeiramente grave: a nossa subsistência!

sábado, 11 de setembro de 2010

VIAJAR

As viagens muito ajudam
do casulo se sair
de certa maneira mudam
o que se chama o sentir

Mas olhar sem se ver
ao ir a outros países
não chega para entender
o que são suas raízes

Cada terra, cada povo
tem aquilo que é só seu
pois só ao abrir um ovo
se sabe o que ali se deu

Convém antes de partir
sua História conhecer
pois isso dá p’ra sentir
o que está além do ver

Pois ir só de mala às costas
sem ter bem limpa a vista
é não desejar respostas
p’ra tudo que seja pista

É como quem mete a mão
em saco sem ver o fundo
joga à sorte uma ilusão
sem s’interessar p’lo mundo

Mas ir lá longe p’ra ver
não chega o só sentir
porque no fim há que crer
qu’importa saber ouvir

Três sentidos bem abertos
todo o tempo aproveitado
se se derem passos certos
se disfarça o cansado

Sair p’ra lá do convívio
nada de novo trazer
em vez de sentir alívio
é um pouco fenecer

E de novo algo trazer
é por certo novidade
mas o contrário fazer
tem a sua utilidade

Quem viaja faz turismo
intercâmbio de maneiras
e isso o nosso lusismo
não pode encontrar barreiras

Percorramos sim o mundo
mostremos o que nós somos
não percamos um segundo
a lembrar o que nós fomos

Sobretudo o que fizemos
em séculos já bem distantes
dizendo alto o que demos
ao mundo com navegantes

Mas receber bem em casa
abrindo portas em par
é qualidade que apraza
a quem vier visitar

Aqui fica este recado
deixado como eficaz
e se for sempre lembrado
fica ao serviço da paz

ATÉ EM MARROCOS


O ACIDENTE que ocorreu na zona marroquina, com um autocarro que transportava turistas portugueses e que se despistou, causando a morte a nove passageiros e deixando feridos 36 também com a nossa nacionalidade, este acontecimento fez-me recuar cerca de 55 anos, pois foi exactamente nessa altura que eu, acabado de me estrear na profissão de jornalista, fiz uma viagem idêntica como repórter e, tendo usado o navio “Vera Cruz”para efectuar o trajecto de Lisboa até Tânger, percorri uma área que incluía também Tetuã, dormindo todas as noites no barco, tendo sido publicado esse meu trabalho numa revista que então me estreou e eu estreei como trabalhador na comunicação social, que se chamou “Mundo Ilustrado”. E até tive como companheiro de cabina o que foi também meu mestre, o grande homem dos jornais Norberto Lopes, que, por sinal, ressonava de noite de forma estrondosa. Disso nunca mais me esqueci.
Pois, na verdade, há muitos acontecimentos que se repetem na vida, e este terá sido uma cópia daquele que deu ocasião a que tivesse exercido a minha primeira actividade jornalística no exterior. Só que, felizmente, não ocorreu nenhum acidente e muito menos desta monta, se bem que também se tivessem percorrido diversas localidades para colher elementos de interesse para publicar no órgão de Informação a que cada um pertencia.
Muito embora as minhas viagens pelo mundo se tivessem multiplicado por inúmeros países, não voltei a pisar Marrocos, excepto no que diz respeito à área de língua francesa, Casablanca e Rabat, aqui, por sinal, onde entrevistei o já desaparecido líder da Unita, Jonas Savimbi, que me deixou até uma excelente impressão. Mas ficou-me bem gravada na memória toda aquela civilização muçulmana que, na altura, era ainda mais estranha para nós, portugueses, porque os contactos europeus com os hábitos ligados ao Islão eram pouco frequentes e apenas os espanhóis, sobretudo os do Sul, tinham algum relacionamento com o povo que, muito mais tarde historicamente do que sucedeu em Portugal, abandonou o território dos nossos vizinhos.
Mas, há que reconhecer que, muito embora as relações com o resto do mundo, por parte dos governantes marroquinos, se verifique serem indiscutivelmente amistosas e civilizadas, não é o mesmo que ocorre com a maioria dos restantes espaços onde se pratica a religião muçulmana, ou melhor dito islamita, onde ocorre, para além das nítidas diferenças de comportamento, sobretudo no que diz respeito ao elemento feminino, é notória um determinado distanciamento, que é consequência de não serem aceites com naturalidade as diferenças e em que a prática fundamentalista de uma religião própria não deixa margem para que sejam aceites outras formas de ter fé. É o Alcorão e ponto final!
Só que, do lado de cá também não temos muito moral para apontar esse defeito, dado que a atitude divulgado de um americano que pretendia queimar na praça pública um montão de livros do Alcorão, esse gesto, parece que já renunciado, não dá mostras de sermos todos capazes de aceitar as preferências dos outros, sem que se manifeste uma repulsa que não é justificada por nenhum razão.
Ao fim e ao cabo, nem Allah nem o Deus que rege dos Céus os passos dos que se situam nesta área chegaram para ter evitado um acidente que vitimou bastante gente e que pôs ponto final no prazer de uma viagem que todos gozavam. Dá para pensar. Ou nem isso, posto que os homens pretendem ser donos dos seus actos e só se prevêem alguma fatalidade é que solicitam a ajuda do Além.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ISOLAMENTO

Há quem não seja capaz de estar só
De se entranhar, de consigo viver
De se enfiar no seu próprio guarda-pó
E de discutir sozinho o seu querer

Há gente assim, que gosta de multidões
Que só consegue andar na confusão
Quer o seu mundo cheio de atenções
Mesmo que daí não saia conclusão

Que bom, por isso, é o silêncio da noite
Ainda que não exista quem se afoite
A ter à sua volta só penumbra

Ainda assim e estando a pensar alto
Sem nada que lhe provoque sobressalto
É algo que ao solitário deslumbr
a

GASTAR VILANAGEM!...


ESTE TEMA tem sido ultimamente debatido insistentemente na comunicação social, mas não tanto como se se tratasse de um assunto que envolvesse situações relacionadas com futebol ou com aqueles casos em que estão envolvidas figuras públicas que chamam a atenção pelos motivos mais pueris mas que provocam sempre interesse de leitura à massa de gente que não perde pitada desses tipos de notícias. Refiro-me à inauguração, com a presença desse ministro da Defesa que já teve outras funções nos governos de Sócrates, e em que foi largamente demonstrado o interior da nave que aumentou ainda mais a nossa dívida pública, a qual subirá outro tanto quando chegar a Portugal o segundo submarino de que Paulo Portas, quando desempenhou as funções de responsável governamental pela pasta militar, negociou a compra.
Ora bem, este “tridente”, que assim se chama esta aquisição aos alemães que constitui mais um pesadelo de pagamento mais tarde pelos portugueses que cá estiverem nessa altura, e não é assim tão longínquo o prazo, mereceu as honras de uma tão costumada e apreciada manifestação solene, muito embora, desta vez – e compreende-se o cuidado tido por José Sócrates de não ser ele a proceder à inauguração, como costuma fazer por tudo e por nada que entra em funções e até só pelo facto de se anunciar o início de um projecto -, tivesse sido passado encargo a um ministro que não tem merecido grande credibilidade pelo seu comportamento nas funções que lhe têm sido atribuídas.
Mas, mesmo que neste blogue me tenha indignado bastante pelo acto que merecia claramente a responsabilização do principal causador de toda uma aquisição que, apurou-se já, não teve o tratamento contratual que obrigaria, sem haver motivo para escusa, à aquisição de produtos de origem portuguesa no valor total dos dois submarinos, milhões de euros, não posso deixar de voltar a clamar pela chamada à liça quem deu origem a este compromisso e que não pode passar impune, quanto mais não seja através da demonstração pública de que se trata de alguém que não pode voltar a exercer funções governativas de qualquer espécie.
Isto de haver quem ocasione situações verdadeiramente gravosas ao nosso País e que fique impune e nem sequer surja a esclarecer, de forma inequívoca, o que levou a tomar a iniciativa que, como esta dos submarinos, representa um esforço que todos os portugueses têm de suportar, tal benevolência não é admissível, pois que se um funcionário público qualquer, por mais modestas que sejam as suas funções, praticar um acto que ocasione prejuízo nítido ao Estado, logo terá que se defrontar com uma acção punitiva que pode ir para além da cessação das suas funções.
Mas que digo eu aqui neste simples blogue? Até parece que não vivo neste País e que acredito que a mudança de regime no Abril de 74 alterou completamente as mentalidades de fundo desta gente que por cá continua a andar !...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

DEFINHANDO


Nem sol nem chuva
umas nuvens que causam incerteza
nada assenta como uma luva
tudo provocou já surpresa
será a vida uma chateza
não vale nem um bago de uva

Andar assim à toa
sem saber o que fazer
olhar para Lisboa
dando para entristecer
pensar no que poderia causar tanto prazer
a mim, como no seu tempo a Pessoa

Vai definhando
Falta imaginação
com todo o tempo que foi passando
não houve quem tivesse mão
para ir resguardando
o que nos foi deixado por missão

Capital tão bela
que tantos invejaram
podia ser hoje aquela
que lisboetas desejaram
mas por fim não alcançaram
nem olhando da janela

FIGURAS NA MODA




COMO GOSTAMOS nós, portugueses, de individualizar as questões que surgem consecutivamente no nosso espaço. Claro que o Sócrates, por maioria da razão, é o que está sempre em foco e aquele já tão fastidioso assunto da Freeport não salta sem que esteja envolvido de imediato o nome de quem, na opinião pública e por mais que o próprio se insurja com ar de vítima, é e continua a ser o principal intérprete de um folhetim que a Justiça não dá mostras de agilidade suficiente para solucionar de vez tal questão.
E como os temas se sucedem dão ocasião aos cidadãos que somos de atentar continuadamente em assuntos que sobretudo distraem muito a atenção do público principal do que deveria constituir a preocupação primeira daquilo que é, de facto, o que atormenta as vidas da maioria esmagadora de nós que nascemos e vivemos em Portugal, esses temas são revestidos de uma certa dose de teatralidade que consegue absorver as imaginações de todos. Assim se tem passado com o chamado caso Casa Pia e agora, cumulativamente, o do seleccionador que caiu em desgraça, sendo que os respectivos nomes que pululam em tudo que é informação são aqueles que andam nas bocas de toda a gente: os de Carlos Cruz e de Carlos Queiroz.
Ao longo do tempo que ocupa a nossa existência dos tempos mais recente sucedem-se as personagens que tomam o lugar de vedetas – mesmo que mal vistas – dos acontecimentos que despertam a atenção do povo lusitano e que é facilmente conquistado pelos folhetinescos casos que vão preenchendo espaços nos jornais e nas televisões. E o exagero das notícias, a repetição doentia da publicitação do que se procura prolongar até ao esgotamento da matéria faz com que gente que não mereceria tamanha publicitação passe a figurar como verdadeiras figuras vitoriosas. Uma lástima!
Não vou entrar neste texto na avaliação das figuras em causa, destas duas como poderiam ser outras mais, porque considero que os julgamentos têm de pertencer a quem para essas funções é escolhido. Tenho, evidentemente a minha opinião e, apenas como cidadão, não posso deixar de me insurgir que, num caso, terem sido usadas e abusadas sexualmente crianças de uma instituição que, sendo pública, deveria ser responsabilizada (e, obviamente, os seus dirigentes) pelo facto de ter sido consentidos os actos que se apontam. E aí, sem apelo nem agravo, a Justiça entrar e deixar marca exemplar. Logo, absolvidos não deveriam ficar nenhuns e se foram os acusados agora ou outros (ou “e outros”), o certo é que a Justiça deve ser eficaz e rápida, o que não sucede no nosso País.
Na área do futebol, para além de que, face às circunstâncias difíceis que se vivem no sector publico português, todos os dispêndios que sejam aplicados em zonas que não se incluem na classificação de primeira necessidade, deveriam ser postos de lado, já que há quem considere que os campeonatos futebolísticos – e aí estão os vários estádios que foram construídos e que se encontram sem grande utilização -, pelos menos que não se perca agora tempo e dinheiro a assistir a zangas de gente malcriada e não se proceda, no espaço de horas, à arrumação de um assunto que se sabe bem como seria posto no seu lugar. Tanto mais que, conforme se tem visto, isso de Portugal se encontrar em condições de discutir com outros países as vitórias em competições internacionais, é coisa que já pertenceu ao passado e, por agora, o que constituiria uma atitude de bom senso era limitarmo-nos aos desafios dentro de portas e com os custos limitados aos clubes que não custem dinheiro ao Estado.
Eu sei que esta atitude tem uma porção enorme de gente que discorda. O futebol, como em tempos o fado e Fátima, fazem parte do conjunto de “Fs” que muitos compatriotas não querem perder do seu horizonte, mas que haja paciência e que nos compenetremos todos, mas todos, que a dívida pública resultante dos empréstimos que contraiu Portugal ascendem, no ano próximo, a quase 8 mil milhões de euros, o que quer dizer que, em 1911, já amanhã, vão ser cerca de 20 milhões de euros DIÁRIOS que terão de sair dos cofres estatais, ou seja, dos nossos bolsos.
Não querem pensar nisto? Pois é, então que continuemos a prestar grande atenção aos futebóis…

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

AS CONTRADIÇÕES

A vida tem dessas coisas
de contra a lógica avançar
nem tudo é um mar de rosas
há caminhos a arrepiar

São as tais contradições
por vezes inesperadas
que provocam as tensões
nas gentes mais sossegadas

O homem nisso é perito
contradiz-se a cada passo
e dá sinais de aflito

o que provoca embaraço
e quando surge o atrito
é que mostra o seu fracasso


LISBOA APRECIADA


CAMPO DE OURIQUE, é um bairro lisboeta que me consegue convencer. Pelas suas ruas que a cruzam, pela ausência de subidas e descidas pois toda ela está instalada num planalto, já que a chamada Baixa, que se situa a alguma distância e é servida pelos eléctricos da linha 28, encontra-se no fundo de algumas ravinas, pois esta zona é também por mim apreciada porque as pessoas que a habitam se conhecem umas às outras,dado mesmo que não convivam sabem quem são.
Ainda que tenha alguma dificuldade em decorar os nomes das suas ruas, eu sei encontrá-las, paralelas ou perpendiculares à principal, que é a rua Ferreira Borges, assim como conheço, de uma forma geral, os estabelecimentos que lá estão instalados, se bem que, verdade seja dita, na fase actual é enorme a quantidade que vai encerrando as suas portas, por motivo da crise que não perdoa, mas, mesmo assim, ainda se vão aguentando umas tantas que, sendo antigas, terão poucos gastos fixos e serão os seus proprietários que abrem e fecham as portas. Mas, por exemplo, o meu café matutino, onde escrevo as minhas prosas e arranco as poesias que se vão depois acumulando no disco do meu computador, não sendo já o mesmo de antes, pois esse mudou de ramo, depois é outro que me adoptou e que eu vou conservando até não ocorrer outra mudança. Até, como excepção do que ocorre agora, abriu um simpático local que pretende agarrar os moradores da zona através da simpatia e possibilidade que dá de voltarem a existir as antigas tertúlias que desapareceram da nossa cidade. Chama-se, salvo erro, “Maximum” (ou será “Minimum”?), que o nome é o que menos interessa, até porque afinal chama-se MOMENTVM...
Este café e também onde se podem apreciar algumas delícias, pelo sítio onde se localiza e pela freguesia que o frequenta é para mim o mais importante para poder servir de acolhimento às minhas necessidades de reflexão e de busca de imaginação. E depois, porque o hábito também ajuda muito a puxar pela veia, dado que o escrever sempre no mesmo sítio, com a mesma mesa e a mesma cadeira é meio caminho andado para forçar a produção literária.
Nesta altura em que escrevo este texto estou a ver passar os transeuntes, a maioria caras que me não são estranhas e formada, na maioria parte dos casos por gente de idade, pois este bairro está a acumular uma população que se encontra preparada para utilizar o local da sua recolha final, por curiosidade um cemitério que tem um nome irónico, o dos Prazeres!...
Não me venha dizer que não vale a pena ter escolhido o bairro de Campo de Ourique para viver e, como é o caso de muita gente, ser agora o local onde se goza a reforma, ainda que, perante as perspectivas que se avizinham, as preocupações no que diz respeito ao futuro sejam bem difíceis de enfrentar. Mas esse também é um assunto que os moradores comentam e que o próprio mercado que aqui existe e o jardim da Parada, que onde os homens se juntam à volta de mesas a utilizar as cartas para passar o tempo, são locais apropriados para as trocas de impressões.
Campo de Ourique é um resto de uma Lisboa antiga que, para além de Alfama, Bairro Alto, Bica, Madragoa e pouco mais se conserva por algum tempo com raízes. Porque isto de Lisboa ser coisa boa, como a canção diz, é tema que todas as modernidades têm vindo a eliminar. Mas os novos, os que já cá estão e aqueles que virão ocupar o espaço e o tempo do que vai mudando, esses talvez encontrem forma de substituir o tradicional e oxalá essa mudança represente uma melhoria daquilo que vai desaparecendo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

DAR NAS VISTAS

Sair-se do formato sempre igual
ao que por toda a parte se encontra
pode parecer uma mera afronta
mas também ser coisa natural

Há quem se diferencie e só isso
por pertencer ao grupo dos solistas
não é que pretenda só dar nas vistas
e com isso assumir um compromisso

Mas dos outros chamar a atenção
pelo seu porte e modos d’aparecer
há quem o faça por outra razão

Apenas p’ra mostrar que é um ser
que dá nas vistas com uma intenção
a de fazer inveja só de o ver


CUSTOS ESCOLARES


CÁ VENHO EU preencher o espaço do meu blogue diário com uma opinião que tem a ver com a luta que é, nos tempos que correm, absolutamente necessária, no capítulo da diminuição de gastos, não só por parte do Estado mas também no que diz respeito aos que são suportados pelos cidadãos portugueses, sobretudo aqueles que enfrentam dificuldades enormes face aos baixos ordenados e até às situações difíceis que surgem inesperadamente, como é a medonha do desemprego que grassa por aí e que as famílias são forçadas a aguentar.
Atravessamos agora a época em que os filhos na idade própria ingressam, pela primeira vez ou no acto lectivo que se iniciou e que têm de frequentar, e em que os custos respectivos com a aquisição dos livros e dos acessórios que o estudo impõe, atingem, por cabeça infantil ou juvenil, montantes que, na maioria dos casos, são insuportáveis pelas famílias. E, de ano para ano, os compêndios de estudos que os professores exigem mudam, sendo que os que foram utilizados no período anterior já não servem para o prosseguimento dos cursos. E isto sucede quer nas classes infantis como depois no secundário e nos cursos superiores.
Ora bem, Será possível que os governantes que ocuparam os lugares da Educação depois do 25 de Abril, altura propícia para emendar o que funcionasse erradamente antes e até hoje, 36 anos depois, não surgisse um responsável que fizesse o que sucedeu, por exemplo, na minha juventude, em que, com uma irmã mais velha, frequentando as escolas com um ano de avanço, me passava os livros de estudo que já não lhe serviam mas que se aplicavam à classe em que eu andava. Lembro-me, por exemplo, dos livros de História, de António C. Matoso, que serviam de base durante mais de um ano e outros, como os de inglês, matemática, etc.
Quer dizer, nessa altura não havia a negociata das editoras de livros escolares que, todos os anos, e de acordo com autores-professores que se dedicam a lançar produções sempre diferentes, obrigam as famílias a despender verbas avultadas para ter os filhos a seguir as classes e de acordo com as exigências de cada escola.
Será então assim tão difícil criar a continuidade do uso dos compêndios escolares, por forma a que os responsáveis pela sustentação dos alunos não tenham que, todos os anos, fazer o enorme sacrifício de deixar nas livrarias e papelarias grandes quantidades de dinheiro o que, nos dias que correm, constitui uma vilania que não se desculpa aos responsáveis governamentais da Educação.
Ao menos que se instituísse a venda de livros das escolas em segunda mão, coisa que, podendo desgostar a alguma gente, seria sem dúvida aproveitada pelos pais responsáveis mas sem meios. A necessidade aguça o engenho e é isto mesmo que os governantes que temos, estes e outros, não são capazes de reconhecer que o que lhes falta também é capacidade de enfrentar os problemas e resolvê-los a bem dos cidadãos.
Falar, falar mas não actuar com medidas que, na prática, tenham a sua utilidade e representem soluções para problemas que necessitam da actuação dos que se encontram nas áreas da governação?
E é isto que Portugal vai sofrendo, passo a passo e a caminho do cada vez pior que somos forçados a suportar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A SOMBRA

A sombra que vejo e não fala
que não a apalpo mas sei que existe
que me persegue e é bem vassala
daquilo que tudo em mim é triste
essa figura que me imita só no gesto
que repete tudo aquilo que faço
não é acordo nem protesto
mais me parece um bom palhaço

Precisa de luz para me reflectir
pois na escuridão desaparece
avisa-me também para fugir
e volta a surgir quando amanhece
agradece ao Sol o seu esplendor
e é nas ruas que mais se nota
eu sei que sou eu o seu benfeitor
aquele que marca a sua rota

Sombra querida enquanto eu viver
tu andarás bem perto de mim
e ninguém pode jamais antever
o dia em que chegaremos ao fim
da nossa caminhada lado a lado
sendo eu como tu e tu como eu
não existirá mais o nosso enfado
de nos perguntarmos se haverá céu

SE EU MANDASSE!...


JÁ NÃO É A PRIMEIRA vez que, nas televisões portuguesas, é feita a pergunta a telespectadores de rua, em que o tema é: “se mandasse o que é que fazia?”. E as respostas que surgem, por se tratarem de entrevistados sem preparação e em que o problema pessoal de cada um é o que lhe salta logo à boca, não representando quase nunca uma forma de ser encarada como tratando-se de uma solução que satisfaça as necessidades concretas do nosso País. Nem, naturalmente, os inquiridores estarão à espera de deparar, ao virar da esquina, com o “milagre” de surgir o remédio milagroso que porá tudo na ordem.
Se a pergunta me fosse feita, não hesitaria em dizer: Não sei! E explico esta minha franqueza.
Na situação actual portuguesa, vivendo nós num regime democrático que tem de obedecer às suas regras e que não permite que a vontade prepotente de uma figura se sobreponha ao que é possível executar, perante a fraqueza que nos atingiu e de que não vale já a pena apontar os seus causadores que, sendo vários, uns mais distantes e outros que se situam ainda nos cadeirões do poder, não é por lhes dirigirmos acusações que conseguimos efectuar o importante e que é o conseguirmos sair da rotura financeira e económica em que estamos colocados. Sendo assim, se fosse obrigado a aceitar aquilo que, por cá, já não se vislumbra quem se encontre ansioso por desempenhar as funções de primeiro-ministro de um Governo não maioritário, depois de reflectir seriamente no embroglio em que tinha sido metido, tendo escolhido o complemento ministerial que julgasse mais adequado às circunstâncias, a primeira acção que desempenharia era a de me dirigir aos portugueses e, numa fala franca, simples e credível, fazer-lhes o relato aberto do panorama do nosso País, da mesma forma que um médico sério deve declarar à família de um doente em estado adiantado de enfermidade quais seriam as perspectivas de salvação do ser que, de olhos arregalados, aguarda que surta a salvação ainda que milagrosa.
Ao contrário dos partidários de que é preferível pintar de cores vistosas as paredes em estado de queda, eu sempre defendi neste meu blogue e noutros escritos de que assumo a responsabilidade que não é coerente esconder a realidade, pois que só alertando os interessados é que será possível obter a sua colaboração nos esforços de salvamento.
Por isso, a primeira coisa que faria era mostrar com provas indiscutíveis que Portugal se encontra numa situação de perto da “banca-rota”, em que as Finanças não podem garantir o cumprimento de todas as obrigações que lhe cabem, encontrando-se perto de as próprias reformas terem de ser lapidadas, primeiro em parte e depois, sabe-se lá em quanto.
A seguir, avisaria que as medidas que iriam entrar em vigor de imediato, sem perda de tempo, seriam as de um corte radical nas despesas que não se admitem ainda existirem, como as regalias de todos os tipos que alguns servidores do Estado e de empresas públicas e semi-públicas continuam a auferir, como sejam viaturas, motoristas, (a partir de secretário de Estado acabavam tais benesses), instalações e até a existência dessas dependências que teriam de ser drasticamente extintas. Os funcionários que ficassem sem actividade, a esses haveria que procurar colocá-los onde exista exiguidade dos mesmos ou, em último recurso, estudar a forma de os dispensar em condições humanas. Seria duro, mas não havia outra forma de actuar.
Tudo isto daria ocasião a que os cidadãos acompanhassem a par e passo o que se estava a fazer, por forma a que aceitassem, eles próprios, os sacrifícios que lhes coubessem.
No capítulo da produtividade, o Estado, através dessa dependência que não há forma de dar provas de ser eficiente, o AICEP, com Basílio Horta à frente, teria de, reduzindo também o número de instalações que, sendo infrutíferas, se espalham por várias cidades estrangeiras, com custos altíssimos, dar todo o seu trabalho em favor da busca de investidores estrangeiros que quisessem abrir no nosso País as suas iniciativas, para o que se lhes concederiam condições especiais, quer no capítulo de impostos como na anulação das burocracias que são tão usadas no nosso espaço. Essa seria uma prioridade que, mesmo tendo de fazer investimentos, ocuparia as cabeças mais competentes de Portugal, pois que o desemprego só se combate quando se criam postos de trabalho, os quais, tratando-se de empresas industriais, também ocasionam o aumento de exportações, razão pela qual seriam escolhidas actividades que se dedicassem à produção de artigos que tivessem mercado possível noutros países.
Depois, coniforme escrevi há dias neste blogue, o subsídio de desemprego teria de terminar de vez, tanto mais que se sabe que muitos dos beneficiados com esse apoio não aceitam novos trabalhos para não perderem os euros que recebem enquanto estão em casa. E a forma de executar esta tarefa com eficiência e benefício para todos também já aqui expus e, por sinal, Paulo Portas, que talvez seja leitor deste meu blogue, está agora a usar a ideia, o que me parece até muito bem. Se eu lhe dei o primeiro emprego como jornalista, também posso agora servir de apoio para as suas funções políticas, independentemente das tendências políticas de cada um.
E não tenho mais espaço, pois o que eu faria se mandasse é de tal maneira vasto que estaria aqui a preencher este blogue até amanhã a esta hora.
Mas repito o que digo logo de início: De facto, saber de ciência certa o que faria se mandasse, por minha livre vontade, não sei. Mas ão ficaria era parado. Nas condições em que nos situamos suponho que, se me metesse a executar parte daquilo que expus aqui suponho que não chegaria ao fim, pois que as invejas desta gente toda que se situa em redor do poder, seja ele qual for, só não ataca os capazes, sempre pelas costas, se puderem passar despercebidos. E, claro que um Ditadura dava muito jeito a variada gente. E nessa eu não quero, nem de longe, participar. Já me bastou o tempo em que, ao longo de muitos anos, a suportei e com ela sofri o meu largo quinhão. Coisa que a maioria dos actuais políticos não tem ideia vivida do que foi.
E bem falta lhes faz!...

domingo, 5 de setembro de 2010

POR TUDO E POR NADA

A língua tem seus mistérios
a nossa nisso não falha
há ditos que serão sérios
por dá cá aquela palha

Por pouco se zangam uns
outros nunca descarregam
há os que fazem jejuns
todos há palha não chegam

Digam lá o que disserem
isso da palha pedirem
é coisa que se o fizerem
serve p’ros outros se rirem

Mas a verdade é só uma
nesta língua bem falada
toda a gente se acostuma
e pede palha por nada

CASA PIA


É ASSIM QUE SE PASSA nesta Terra. De repente surge o assunto que domina todas as atenções. Mas também, conforme aparece também é rapidamente esquecido e passa-se imediatamente a outro problema. Sim, porque esses não faltam por este nossos sítios.
Agora foi, como já se aguardava desde que estava anunciada a leitura da sentença judicial em relação a esse “eterno” assunto Casa Pia, o ficar a saber-se qual a decisão do Tribunal no que diria respeito ao apuramento ou não das penas que poderiam ser aplicadas aos arguidos, que eram sete indivíduos que andavam já há anos a comparecerem perante os vários juízes que intervieram no caso e que, segundo deram ideia antes de entrar desta vez na sala de audiências, praticamente todos estavam convencidos de que a solução seria a da sua absolvição, pois o que demonstraram e as câmaras de televisão registaram foi uma absoluta confiança de que não existiam provas capazes de os colocar na posição de culpados. Todos disso deram mostras, com excepção do Bibi, que nunca apareceu e da proprietária da casa de Elvas, Gertrudes Nunes, que também nem a cara mostrou ao longo de todo o processo.
Mas, sobretudo Carlos Cruz, esse nunca perdeu ocasião para, durante todo o seu percurso neste processo e, com grande evidência no dia em que no Tribunal que acolheu o caso, e em que fez questão de reclamar a sua inocência, alegando que não existiam provas que o pudessem condenar como autor de crimes de abuso sexual de menores.
E, logo que se soube que a pena que coube a todos foi o de alguns anos de cadeia e do pagamento de uma indemnização a cada vítima, logo o ex-apresentador de televisão se evidenciou contra o que considera uma injustiça praticada contra ele, declarando que a sua luta contra a decisão judicial e que não descansaria enquanto a “verdade” não viesse ao e cima. Isso, ao mesmo que noutros canais televisivos não deixaram de haver declarações, entre elas da antiga provedora da Casa Pia, Catarina Pestana, de que a decisão judicial era mais do que merecida pelos acusados e de que, pelo menos por parte das consideradas vítimas, os alunos utilizados nos actos proxenetas, se verificava um contentamento bem justificado.
O facto do advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes, ter exercido o seu papel – talvez excessivo – dando mostras de uma grande revolta face ao acordo dos juízes que consideraram culpado o seu cliente, não alterou em nada a decisão e, a partir de agora, o que se espera é que todos os representantes dos acusados entrem com recursos para o Supremo Tribunal, o que quer dizer que todos permanecem ainda em liberdade – sabe-se lá por quanto tempo! – e que não se pode afastar a hipótese de todo o processo se prolongar por longo período, o que faz correr o risco de prescreverem os processos em causa.
Não podia deixar passar este caso no meu blogue, se bem que não acrescente nenhuma novidade ao que foi já largamente divulgado, mas, com o caso Queiroz, a lutazinha política Sócrates/ Passos Coelho, a situação da complicada história Duarte Lima, e até o empate de futebol com o Chipre por quatro golos, tudo o mais continua no banho Maria em que vivemos, à espera da fervura que fará deitar para fora da panela o que acabará por ferver excessivamente a paciência dos habitantes deste pobre País.
Ah! Ainda vamos ter lá para diante as eleições presidenciais… Será isso que vai remediar o caos em que nos debatemos. E Sócrates a rir-se. É que, seguramente, já tem emprego depois de sair do Governo e quem vier a seguir é que as vai pagar todas juntas. E é bem feito!

sábado, 4 de setembro de 2010

BOCEJO

A vida já me deu tudo o que tinha a dar
momentos de alegria e de prazer
já me satisfiz com o bem fazer
vi o que mundo pode mostrar

Levo pois que contar a quem me ouvir
se é que lá no fim outros estarão
prontos a receber-me a dar a mão
a quem não teve pena de partir

Porém tempo de mais onde me vejo
já cansa e não traz nada de novo
razão maior p’ra mais um bocejo

E sem ter muito mais o que fazer
nem nada p’ra deixar a este povo
não vejo razão p’ra não morrer

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


SIM SENHOR, faço esforços para olhar o mundo com o máximo de resignação possível e procurando ser compreensivo com aquilo que eu considero desvios de comportamento que se verificam em todos os cantos desta Esfera que vai circulando em redor do Sol. Por mais que pareça, com aquilo que me sai frequentemente da pena, que serei demasiado rigoroso quanto a não desculpar os erros da Humanidade, tenho de afirmar que, quando não me encontro perante o papel em branco, os meus pensamentos comportam-se como a maioria das pessoas, ou seja, distraio-me com o correr das horas e com o folclore humano que comporta toda a variedade de actuações.
Sinto necessidade de prestar este esclarecimento na altura em que prevejo estar a aproximar-se o fim destes meus desabafos que, a prolongarem-se, acabariam por cansar os eventuais leitores, sobretudo os que seguem as vias do optimismo, aqueles que, felizmente para eles, desenvolvem a esperança de que o futuro irá oferecer boas recompensas que irão compensar as longas esperas por melhores dias.
E, como será natural, tenho-me preocupado mais com aquilo que ocorre neste Portugal do que com tudo que atormenta o Mundo em redor, se bem que não seja possível fugir do exercício de comparação. E, por mais que o evite fazer, não me resta outra saída que colocar o dedo na ferida. Na nossa chaga.
Neste nosso País andamos sempre em mudanças, à procura de um caminho certo, na busca de soluções. E dá a impressão de que não há meio de encontrarmos a via exacta. Somos, de facto, um País experimental. Basta mudar o Governo, o que, de certo modo, é aceitável, mas até com o mesmo em actividade, mesmo aí damos o dito pelo não dito, o feito como errado, voltamos atrás e damos saltos noutras direcções mais ou menos quiméricas.
Nem é preciso puxarmos muito pela cabeça para apontarmos vários casos que comprovam essa falta de consistência nas decisões que são tomadas em determinada altura. A situação caricata de se ter andado às voltas para decidir sobre o local definitivo onde deveria construir-se o novo aeroporto que serve Lisboa, é bem a demonstração de que não estamos calhados para tomar decisões definitivas, certas e aceitáveis pelas maiorias.
Mas, já agora, refiro também uma medida que não há forma de ser tomada com absoluta garantia de ser a mais indicada para garantir o melhor aproveitamento escolar dos nossos estudantes: a marcação de faltas aos “gazeteiros”, coisa que, no tempo dos mais antigos dos portugueses, não oferecia dúvidas. Hoje ainda se anda à busca de saber se a não comparência nas aulas deve ou não ser punida. Antigamente, dez faltas não justificadas num ano e numa cadeira era “chumbo” certo. Que horror!
E aponto apenas estes dois exemplos, porque muitos poderiam encher uma lista negra de experiências que se fazem na busca de u, caminho tão certo quanto possível.
E é neste permanente faz e emenda, neste tem-te e não caias em que vivemos, que por cá ficamos à espera de melhores dias e de passos seguros na direcção do que nos espera. Poderíamos, ao menos, ver e estudar o que se faz noutros países e que tenha resultado. Seguir bons exemplos não é errado. Para que querermos ser originais, se não acertamos com o caminho e vivemos na terra das emendas?



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A CORDA


Que grande falta nos faz
sempre que a procuramos
se preparados estamos
para o que se for capaz

A corda, curta ou comprida
bem ajuda a agarrar
o que pretende escapar
numa ânsia de fugida

Desde sempre qu’ela existe
inda o homem era macaco
p’ra não mostrar qu’era fraco
até hoje ela resiste

P’ra juntar o separado
segurar o que se solta
acalma uma revolta
metade de cada lado

Açoitar o criminoso
fazê-lo as faltas pagar
a corda no seu desamar
dá mostras de certo gozo

P’ra subir ou p’ra descer
de algo que está bem alto
e se for mesmo assalto
boa corda há que escolher

No mar a corda tem nome
de cabo passa a chamar-se
não é p’ra ser um disfarce
é pelas funções que assome

Presente no dia-a-dia
da corda sempre a lembrar
até logo ao acordar
estar livre dá alegria

É como esticar a corda
até estar quase a partir
coisa a que o papa-açorda
não costuma reagir

A nossa língua tem disto
são horas, veja se acorda!
e dê ao relógio corda
o que nunca disse Cristo

Nas mãos de ilusionista
corta e cola de uma vez
a corda causa gaguez
e embaraça a vista

Em árvore dependurada
com um laço numa ponta
para uns é uma fronta
p’ra outros é abalada




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


A FADIGA física é algo que atormenta o corpo. Mas a fadiga moral, essa canseira em local que não se vislumbra concretamente onde se situa, não será uma dor palpável, que passe com compressas, massagens e unguentos. Existe, mas não se encontra fixa em local concreto, é também uma ânsia de qualquer coisa que não pode ser indicada ao curador. É uma respiração descompassada que não tem que ver com arritmia, é um suspiro profundo que sai tão de dentro que não se entende onde nasce..
Estar saturado de alguma coisa concreta ou de nem se saber bem de quê, cansar-se de ouvir os outros, sem razão específica, como também em relação a alguém de concreto que, antes não fatigava, cansar-se a pensar sem conseguir tirar conclusões, andar desinteressado dos problemas, especialmente dos que surgem de novo, ouvir as opiniões de outrem e não ter argumentos para contrapor, dar sempre a ideia de que estamos de acordo com tudo que dizem, essa fadiga provocada por se ter de cumprir obrigações, horários, compromissos, acaba por traduzir-se em tédio. E pode ser um início da perda de vontade de estar vivo.
Penso que, sem dar uma definição tão específica, não será assim muito raro que os seres humanos não passem, por vezes, por situações que se pareçam com as que acabo de descrever. E quanto mais se fecham em si os que sentem agruras semelhantes, quanto mais difícil se torna comunicar, mais isolado se ficará.
Sendo múltiplas as razões que conduzirão as pessoas em tais condições a fecharem-se e a não conviverem, mais difícil ainda é fazerem entender os demais do problema que os atinge e menos também se os motivos são resultantes da ineficácia em atingir parâmetros da tabela das capacidades com que sonham e sempre sonharam.
Por isso, ao não transmitir para fora que saturação é essa e que fadiga moral se, acarreta, fica-se com o apodo de mal -humorado, de zangado com o mundo, de ser de difícil convívio. E se se tiver o atrevimento de abrir o coração e querer explicar o que vai dentro de tão aflitivo, a posição alheia é de espanto, de incompreensão, até talvez de um certo ar irónico. E um voltar de costas. E se, depois de produzir alguma coisa que poderá parecer que tem pernas para andar, na escrita ou na pintura, ao rever o que está feito, desaponta, desgosta, não serve de consolo pelo trabalho tido, a tortura espiritual que pode aflorar deixa qualquer um prostrado e só escondendo a obra é que será possível fugir às críticas severas. E recomeçar tudo de novo.
Sem vergonha, há que insistir. É forçoso vencer a fadiga e tentar passar a fasquia mais uma vez. Ir até ao fim, até ao último dia do tempo que falta. Quem pode antecipar os resultados?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

BURROS

Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais
Dormir também descansa a cabeça.
Enquanto se dorme, não se pensa.
Sonha-se

BURROS TEIMOSOS


PROVOCA-ME a maior tristeza constatar que, no nosso País – onde deveria ser? –, as decisões e as medidas a tomar para ocasionar alguma melhoria nas situações que atravessamos, tardem sempre um tempo interminável, o que quer dizer que os elementos humanos que têm o poder bastante para alterar o que pode e deve ser objecto de melhoria, essa gente que se encontra em lugares que lhes auferem tais possibilidades, os referidos “mandões” não merecem desempenhar as funções que lhes foram proporcionadas e, se as coisas funcionassem como numa empresa, face a essas incapacidades, o que deveriam merecer era serem postos na rua sem apelo nem agravo.
Mas não é disso que se trata, e, para além do enfado que, como português que sou, me amargura a existência e cada vez mais me afasta daquilo que se chama de “orgulho de ser português”, para lá disso é a revolta que me leva também a escrever estes desabafos que, segundo me informam, alguma audiência possuem.
Ninguém terá dúvidas de que o desemprego, provocado pela nítida ausência de espírito empreendedor que quase todos os Governos têm demonstrado e de que o actual dá mostras ainda maiores, é provocada pela falta de trabalho que as actividades privadas provocam por razões de uma concreta crise que se tem alargado por toda a parte. E não são apenas as chamadas grandes empresas – que essas, como é sabido, até têm estado numa fase de redução substancial de trabalhadores, quando não atingem o ponto de encerrar as portas de rompante -, mas serão as menos poderosas, até os estabelecimentos comerciais médios e pequenos que podem contribuir para que os desocupados encontrem resposta à falta de colocação.
Mas, para isso, o que se torna essencial é que, nesta fase particular e sem complexos de nenhuma espécie de ordem política de Esquerda ou de Direita – porque os tempos não estão para isso -, não se criem dificuldades burocráticas e outras complicações no que respeita aos horários de funcionamento de empresas sejam elas quais foram, permitindo que tenham as suas portas abertas ao público, beneficiando com a liberdade de actuação que não se compadece com horas rígidas de fecho, nem com limitações de funcionamento aos domingos e feriados.
É evidente que, desde que esse aumento de permanência do pessoal para lá dos que estabelecem os horários de trabalho, as entidades patronais terão de ser obrigadas a admitir mais colaboradores, o que representa, claramente, ter de se ir buscar ao desemprego gente que está desocupada.
Há também que dizê-lo e da mesma maneira sem complexos, que esta liberdade de actuação corre o perigo de ocasionar abusos na área patronal, os quais não podem passar sem as devidas inspecções, mas, atendendo ao enorme afluxo de cidadãos sem trabalho e que não pára de aumentar, haverá que apelar para a consciência de todos e procurar que se evitem as perseguições desmedidas das autoridades, pois que uma coisa anula a outra. E se, o que temos em Portugal como enorme flagelo é o ter-se atingido já os 11% de desempregados, a prioridade que se defronta é a de usar os meios essenciais para que tal número seja drasticamente reduzido.
Aí pertence às autoridades agirem em moldes correctos e que mostrem resultados positivos, para se conseguirem, o mais rapidamente possível, respostas satisfatórias. Em primeiro lugar, o concederem-se certos apoios aos empresários que, requisitando novos trabalhadores exclusivamente nos serviços oficiais de desemprego, justifiquem a sua contribuição para a baixa de desocupados, sendo um deles um valor equivalente ao que o Fundo de Desemprego desembolsa nas referidas circunstâncias (tendo de suceder o contrário nos casos de despedimentos). E essa atitude, com tempo determinado, levaria seguramente a que das duas partes, do Estado e dos empregadores, se verificasse uma contribuição conjunta contra esse mal horrível que é o de haver gente sem trabalho.
É sabido que os partidos políticos classificados de Esquerda e que de tão grande utilidade são quando se encontram atentos às actuações dos que não prestam serviço de interesses para o País, esses, sobretudo, se mostrarão contrários ao facto de aumentarem os horários dos estabelecimentos e, em particular, não se respeitarem os feriados, já que, no que respeita aos domingos e aos dias santos, a Igreja, essa já se sabe que é contrária. Mas que o próprio CDS também se insurja, como agora o demonstrou, assumindo-se como exageradamente católico no que diz respeito ao trabalho aos domingos, isso é também de estranhar, mas tais posições não podem impedir que o alvo principal, que é o de criar mais trabalho, seja prejudicado.
Burros (com perdão desses simpáticos animais) há-os em toda a parte. Mas quem tem sobre as costas as responsabilidades de gerir os problemas de um País, esses não podem andar ao sabor das ondas e das opiniões partidárias sejam elas quais forem, porque o que está em causa é tudo fazer para que Portugal não caia numa situação que, como já se afirma por aí, se intitula insustentável.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PANO PARA MANGAS

Pegar num assunto a sério
comentá-lo com alguém
mesmo sendo um mistério
que levanta o seu porém
é base de discussão
mesmo zanga à portuguesa
todos julgam ter razão
ninguém quer mostrar fraqueza

Eu é que sei, diz de um lado
tenho de tal a certeza
não posso ficar calado
e não me causa surpresa
tal afirma o sabedor
que é quem provoca zangas
e seja o tema que for
ele dá pano p’ra mangas

E a língua popular
usa termos curiosos
como este do pano dar
p’ra enervar os nervosos
p’rá conversa prolongar
as mangas vêm à baila
só é preciso falar
ainda que nada valha

Isto das mangas faz rir
porque até lembra o pobrete
que nem precisa falir
anda em mangas de colete
afinal neste País
que é bem terra de tangas
não espanta haver quem diz
não chegar pano p’ra mangas

OS SÁBIOS


SOMOS UM PAÍS de gente muito competente, ultra-sabedora, sem dúvidas e sempre pronta a alterar o que foi feito antes. Isto, pelo menos, na área da Justiça, pois que as emendas aos Códigos das várias especialidades têm-se verificado permanentemente e os profissionais das diferentes áreas não param de apontar as modificações que os especialistas que são chamados a prestar a sua ciência introduzem nos respectivos livros. Segundo foi noticiado agora, o Código do Processo Penal foi alvo de nova mexida e os juízes e advogados que se têm de fiar nas disposições legais, uma vez mais são forçados a anotar nas margens as mudanças que passam a vigorar.
É evidente que são muito poucas as situações de toda a ordem que são imutáveis ao longo das vidas, pois as evoluções de diferentes espécies que se verificam pela acção dos homens obrigam a que se vá alterando o que antes se considerava como imutável. É assim, até com a própria língua dos povos, e tais modificações, sendo graduais, lentas e naturalmente adequadas às circunstâncias que se atravessam em cada momento, essa não estagnação não provoca confusões, antes constitui melhoria nas actividades que representa, a maneira de viver de cada nação.
Por este motivo, não será de estranhar que os conjuntos de leis que regem o apuramento de responsabilidades dos cidadãos se vejam igualmente sujeitas à introdução do que se consideram melhorias, pois que também as faltas dos cidadãos não se equivalem às que eram praticadas tempos antes.
Tudo isso se compreende. Agora, o que constitui uma característica curiosa da nossa Justiça, a tal que é das mais demoradas de todo o Planeta e a que bate todos os recordes de burocracia excessiva, para além do preço que dificulta aos mais necessitados o servirem-se desse meio para defender os seus interesses, é o facto dos Códigos andarem permanentemente em bolandas e então o Penal, que é o mais necessário para impor uma certa ordem nos comportamentos humanos, não pararem de sofrer modificações, algumas delas apresentando soluções totalmente contrárias que eram antes aplicadas.
E ainda quanto ao Código Penal e às mudanças introduzidas recentemente, segundo se pode concluir de uma reportagem emitida pela SIC, a ideia com que se fica é que, analisando o que ocorreu com o julgamento da Casa Pia, se o Código modificado tivesse interferido nas decisões jurídicas tomadas alguns dos arguidos teriam beneficiado, sobretudo nos casos das prisões preventivas. E quanto a isto não adianto mais!…
Vale portanto a pena referir-me a este facto, quando tantas coisas correm mal no nosso País?
Seguramente que não, pois se trata de mais um fenómeno lusitano que se acrescenta ao que ocorre em todas as áreas da Nação portuguesa. Mas eu pego nos temas de acordo com as notícias que vão saindo e, por vezes, não resisto a deixar escrita a minha indignação por ter de viver aqui e de nada poder fazer para mudar as mentalidades dos cidadãos, sobretudo daqueles que deviam ser úteis às nossas causas mas que se distraem com os problemazitos que lhes são colocados à porta.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

POETAS

Isto de querer ser poeta
pode bem nada dizer
há os que acham uma treta
e não ter mais que fazer
nem saber bem o que quer

Quem vai compor poesia
com esforço irá tentando
na ideia de que quem cria
sem saber como e quando
lá acabará rimando

Mas também sem rima vai
usando seu versejar
pois o que mais sobressai
é o que fica no ar
aquilo que faz cantar

Só que o poeta em geral
não consegue que em vida
o achem ser genial
e só depois da partida
a fama lhe dê guarida

Poetas mortos há muitos
quantos terão produzido
em lampejos bem fortuitos
alguns graças ao Cupido
face a coração partido

Sentir a vida de frente
descobrir suas fraquezas
faz que haja alguma gente
sem esconder suas belezas
também cante as tristezas

Deixar em verso bem escrito
aquilo que na alma vai
é como quem solta um grito
que nem por isso atrai
quem do seu mundo não sai

Gavetas cheias de versos
à espera que alguém os leia
que saiam em livro dispersos
mesmo não sendo epopeia
mas que mostrem certa veia

Há editores valorosos
que acham que a poesia
não sendo só dos saudosos
exclusivo de valia
vão deixando que teimosos
possam ver a luz do dia

DESENCANTO POR ENQUANTO!




RECORDO-ME de ter participado, com José Carlos Ary dos Santos, numa dessas mesas em que. numa agência de publicidade, fazia parte profissional do “staff” o poeta Alfredo O’Neill, que foi o autor do “há mar e mar, há ir e voltar”.
Foi um período em que, por vezes se repetiam as discussões, os murros nas mesas, os gritos e até que, de repente, saia um “slogan” que era agarrado por todo, com grandes gargalhadas de satisfação.
Terá sido assim que surgiram centenas de frases que ficaram nos ouvidos de todo o Portugal e que constituíram a razão das boas vendas de artigos que as agências de publicidade propunham aos seus clientes. Os mais antigos ainda hoje se recordam de tantas dessas promoções, e não vou aqui repetir muitas de tais referências, ditas e cantadas, porque os novos nem têm ideia de que isso se terá passado cá na nossa Terra.
Vem isto a propósito de quê? Dos termos utilizados hoje quer nas rádios, na Imprensa e, sobretudo, nas televisões, e em que, na maioria das situações, os ouvintes ou espectadores não absorvem o produto que pretende ser dado a conhecer e ficam coma ideia estranha quanto ao que será que está a ser anunciado.
É o mundo de hoje, dirão. Pois será. Mas, afinal, para que serve gastar dinheiro em publicidade se os públicos que se pretende que sejam atingidos não conseguem entender, logo à primeira, o que está a ser, pelos vistos, divulgado?
De facto, num certo aspecto a publicidade não se situa assim tão distante do jornalismo propriamente dito no capítulo de que é necessário passar uma ideia aos possíveis compradores e nisso há que ser explícito e rápido na mensagem. É o que se passa com os jornalistas que têm mais queda para formar títulos dos artigos e chamá-los à primeira página das publicações. Um texto pode ser muito bem escrito, relatar convenientemente um acontecimento, mas se o leitor não é convidado a apreciá-lo através de um cabeçalho que lhe prenda a atenção, mas que – cuidado – não desvirtue o conteúdo, então metade da sua importância é perdida.
Atravessamos neste momento um período de má publicidade. É a minha opinião. Quantas vezes oiço e vejo repetidamente um anúncio e só fazendo algum esforço é que entendo o que é pretendido vender.
Será que isso só se passa comigo? Todos os potencialmente candidatos a serem consumidores do produto mal divulgado conseguem ficar esclarecidos?
Publicidade que tem de ser bem digerida para atingir o objectivo da sua criação, não é um convite é uma barreira que se cria entre um produto e os seus desejados clientes.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MUNDO

Oh tu, que és Pai de todos
mas tratada com desprezo
por aqueles, os teus filhos
que te despejam os lodos
para aliviar o peso
e entregar-te sarilhos

É altura de vingança
de chamares a atenção
dos milhões que por cá andam
que é o fim de toda a dança
ou encontram a razão
ou do planeta desandam

Uns abanões p’ra mostrar
que não há sítio seguro
e fazer revolto o mar
com uns ventos a assoprar
com força a pôr tudo escuro
com casas a desabar

Os vulcões de boca aberta
a vomitar labaredas
queimando tudo à volta
já não há certeza certa
são muitas todas as perdas
anda a loucura à solta

Isso é só p’ra s’aprender
que quem manda cá na Terra
não é o Homem, coitado
se não soube obedecer
ao ter declarado a guerra
perde sem ser perdoado

És tu Pai Natureza
que não te deixas vencer
p’lo Homem, suas maldades
se respondes de surpresa
tens de fazê-lo aprender
que se pagam ruindades

O pior é se uma guerra
de um lado e doutro afinal
faz com que vá tudo ao fundo
e o que restar desta Terra
seja por bem ou por mal
represente o fim do Mundo




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


NAS MINHAS frequentes passagens por livros já lidos noutras alturas, alguns bem digeridos, voltei um dia destes a pegar numa obra de Camilo José Cela, o Prémio Nobel de Literatura, espanhol, que usava uma linguagem livre, apaixonada, erótica, e a que alguns chamaram de desbragada. De facto, o autor também de um Dicionário de Erotismo, deixou uma obra em que não escondia a pretensão de chamar as coisas pelos seus nomes. Os nomes que ele lhes dava.
O único problema para quem não domina a língua castelhana, é que os seus escritos perdem toda graça e “salero” se não são lidos no idioma de origem, pela infinidade de frases e termos castiços que o autor utilizou a miúdo nos seus livros. E que não são facilmente traduzíveis.
Peguei agora num título seu, chamado no original “Cachondeos, escarceos y otros meneos”, de quase impossível tradução em qualquer língua, e deixei ficar na estante outro que adquiri há anos e que tem também um título muito sugestivo “Izas, rabizas y coliputerras” este dedicado às prostitutas de Barcelona, das Ramblas.
Por cá, mesmo recordando Bocage que utilizou, por vezes, uma linguagem também agressiva e popular, serão raros os autores que poderão assemelhar-se a Camilo José Cela, que foi membro da Academia da Língua do País vizinho e foi reconhecido com vários galardões de Espanha.
Porquê, então, eu me refiro, nestes meus desabafos, a um novelista, poeta e ensaísta que, não sendo muito popular entre nós, atingiu tão alto gabarito em todo o espaço de “habla castellana”?
Porque, numa altura em que se afirma por aí – alguns com evidente insatisfação - , que os espanhóis estão a entrar no nosso território, e sendo evidente que o idioma vizinho está agora a ganhar importância nos estudantes portugueses, especialmente porque certas universidades espanholas estão a receber alunos que vão daqui, já era altura de as edições dos dois lados vizinhos encontrarem forma de alargar as tiragens, com um mercado que aumentaria, espacialmente com nítida vantagem para as editoras portuguesas, que ganhariam visível subida de tiragens.
Mas esta afirmação é quase que uma blasfémia para muitos “aljubarrotistas” que ainda existem por aí. Há que esperar pelo caminhar natural das coisas, para que, a exemplo do velho Benelux, também possa surgir um dia uma Ibéria.
O futuro ditará as suas leis. E quem for vivo então, poderá verificar se se justifica que os velhos do Restelo continuem a proclamar que “mais vale só do que mal acompanhado”

domingo, 29 de agosto de 2010

CALÇADAS À PORTUGUESA

Pedras da minha calçada
que as piso todos os dias
elas são a minha estrada
mas fazem-me judiarias

Com os seus baixos e altos
nesta castiça Lisboa
temos de andar aos saltos
pois uma ou outra atraiçoa

Com essa mania atroz
da calçada à portuguesa
impõe-nos a todos nós
perder noção de beleza

E vistas pois bem as coisas
em época de magras vacas
se se usassem mais as lousas
bem se poupavam patacas

Neste País de esperanças
pois sempre tem sido assim
aguarda-se por mudanças
para as pedras terem fim

Ver de cócoras rapazes
a partir pedras na mão
uma a uma que nem ases
provoca grande aflição

Em covas lá vão metendo
nas ruas da capital
com pedra a pedra enchendo
sob as vistas do fiscal

Que na Baixa pombalina
haja calçada bonita
pode até ser coisa fina
e agradar quem nos visita

Mas pedras pela cidade
em ruas de lés-a-lés
tenham santa caridade
e lembrem-se dos nossos pés

Quando uma pedra se solta
e outra ainda além
tanto buraco revolta
não nos digam que está bem

Tenham pois pena de nós
poupem verba ao País
autarcas, oh todos vós
cortem mal pela raiz

Se estamos bem na Europa
não sendo mundo terceiro
é bom ver como se poupa
usando bem o dinheiro

Sem ter de pôr mais na carta
aqui deixo este recado
de pedras está já farta
esta capital do fado

Por um bairro pois comecem
a tirar o empedrado
e se chove não tropecem
na lama do chão cavado

ôr lajes de metro e meio
em vez de pedras à mão
transforma em bonito o feio
e torna direito o chão

Qualquer rua no futuro
terá o caso lembrado
um Presidente seguro
fez um trabalho asseado

Lisboa deixa de ser
um campo tão mal lavrado
fica assim um prazer
caminhar por todo o lado.

BENGALA


DETESTO QUANDO alguém que me encontre, na rua ou em qualquer outro sítio, não me vendo já há certo tempo me largue: “estás com óptimo aspecto!” Fico deveras entristecido.
É que aos novos, esta exclamação que pretende ser de elogio, não tem cabimento que lhes seja dirigida, pois o lógico é que estejam sempre com um bom ar jovial e de acordo com a sua idade.
Logo, essa expressão do se estar com bom aspecto o que é que quer dizer? Cabalmente, que nem parece a idade avançada que se tem. Que causamos a surpresa de não surgirmos caducos, carregados de rugas, curvados pelo peso dos anos.
O pior é que, da próxima vez que voltarmos a encontrar a mesma pessoa que antes evidenciou tanto espanto pelo nosso ar sacudido de muita idade, a diferença se notará em seguida. Pois tudo decorrerá com a naturalidade de quem tomou conhecimento de que lá virá o ar acabrunhado de quem já mostra exteriormente o peso dos anos.
E quando a bengala passa a constituir uma demonstração de necessidade de apoio, situação que só é necessário experimentar um dia para convencer como é útil tal instrumento, então o espanto dos outros, até dos vizinhos, provoca uma chamada à realidade de que o andar, sobretudo nas ruas de Lisboa que primam pelo ondulado das suas calçadas, ditas à portuguesa, representa uma chamada de atenção de que o que sucedeu aos outros também acabou por bater à nossa porta.
O tempo de vida provoca mudanças. E até apetecia regressar ao século XIX, na altura em que os cavalheiros circulavam pelo Chiado ostentando as suas bengalas de punho de prata, sinal não de velhice mas de situação confortável na vida.
Que bem que ficava o Eça com o seu porte de gentil-homem, segurando uma bela bengala que, obviamente, o caixeiro da esquina não tinha o direito de usar!...

sábado, 28 de agosto de 2010

TRETA

Isto de ser poeta
e ter de rimar
é quase uma treta
com as sílabas a contar.
P’ra mim poesia
é coisa que eu sinta
pode ser fantasia
mas faça que eu minta

Vou dar um exemplo
que escrevo e contemplo

Vejo o homem sentado no jardim
Num banco, sozinho
Ninguém repara nele
Nem ele próprio dá pela solidão
Ficou isolado no mundo
Já teve gente, companhias
Mas as tristes circunstâncias
Fizeram com que fosse o último
E ele aí está à espera
Que a sua vez também chegue

Afinal, este velho abandonado
Só se diferencia dos outros
Dos que têm gente à volta
Pessoas conhecidas, família, descendentes
Porque esses falam com ele
Até talvez lhe digam palavras bonitas
Irão provavelmente acompanhá-lo até à última morada
Distribuirão entre si o que sobrar do mais velho
Mas, no fundo, que outra diferença existe?
Só porque não estão com ele no jardim?
Está acompanhado sentado na sala?

Vou, pois, escrever poesia
com rima
com a possível mestria
mas olhando para cima
não vendo quem está ao meu lado
porque tudo é enfado





ESPECTÁCULO


JÁ ME TENHO referido ao uso e abuso e abuso de palavras e expressões que são introduzidas no falar dos portugueses e que, de uma forma geral, têm base na repetição feita por alguns intervenientes, especialmente nas nossas televisões e que, fazendo gala na tal insistência no uso que, por sinal, até lhes deixa alguma marca que se mantém durante um certo tempo, o que na verdade conseguem é espalhar vícios linguísticos que não acrescentam enriquecimento à nossa bela língua pátria. E essa do “espectáculo”, pronunciada por tudo e por nada, sobretudo não se enquadrando no tema ou no objectivo do que está a classificar, para além de enfastiante altera o verdadeiro significado do que representa o gozo de ver, ouvir e sentir alguma coisa que merece ser colocada num plano superior.
E não é somente esta expressão em alguns pretendem insistir e que, infelizmente até pega, pois esse também horroroso “digamos”, largado por tudo e por nada e que para o que serve é para estabelecer uma paragem no discurso que está a ser feito, dando a impressão que constitui uma ajuda para preparar o que é pretendido dizer a seguir.
Não é a primeira vez que aponto estes enjoativos “empecilhos” na língua portuguesa e se observo idêntico vício a ser perseguido por gente ligada à política, no Governo ou fora dele, então o meu desconforto ainda mais se acentua.
Gente que, embora devendo usar uma linguagem simples e que chegue facilmente a todas as camadas da população nacional – coisa que até geralmente não fazem, para se darem o ar de grandes sapientes - , mais razão têm para não seguir as calinadas linguísticas, pois que os exemplos devem vir sempre de cima. Como sucedeu antes e, menos mal, se está a perder agora, que foram os casos dos “portanto” e dos “pois”, que inundaram o palavreado dos faladores sem sentido.
Mas, voltando a essa do “espectáculo” e do “espectacular”, como também se costuma acrescentar, sou levado a admitir que se trata da situação que se atravessa no País que temos e que, devido aos comportamentos de certos homens públicos que nos deixam de boca aberta, conduzem a que o que é mau seja considerado como um verdadeiro número de representação, o qual espanta a quem ele assiste.
E, pelo mesmo motivo, devido à incapacidade que se demonstra por cá de chegar ao fim das questões que se situam na área da Justiça – e não só -, pois que não alcançam nunca um termo convincente, principalmente se se tratam de situações que envolve em figuras mediáticas, acredito que será daí que ressalta a expressão repetida do “espectáculo”
Só pode ser isso!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

AS DIFERENÇAS

Ser igual a qualquer coisa
a um quadro ou a alguém
sendo ideia apetitosa
a mim não me tem refém

Cada um é cada qual
com virtudes e defeitos
muito bem ou muito mal
pois não há seres perfeitos

O que marca é a diferença
que dá personalidade
e vem logo de nascença

Afinando com idade
pode dar parecença
mas total igualdade