quarta-feira, 8 de setembro de 2010

LISBOA APRECIADA


CAMPO DE OURIQUE, é um bairro lisboeta que me consegue convencer. Pelas suas ruas que a cruzam, pela ausência de subidas e descidas pois toda ela está instalada num planalto, já que a chamada Baixa, que se situa a alguma distância e é servida pelos eléctricos da linha 28, encontra-se no fundo de algumas ravinas, pois esta zona é também por mim apreciada porque as pessoas que a habitam se conhecem umas às outras,dado mesmo que não convivam sabem quem são.
Ainda que tenha alguma dificuldade em decorar os nomes das suas ruas, eu sei encontrá-las, paralelas ou perpendiculares à principal, que é a rua Ferreira Borges, assim como conheço, de uma forma geral, os estabelecimentos que lá estão instalados, se bem que, verdade seja dita, na fase actual é enorme a quantidade que vai encerrando as suas portas, por motivo da crise que não perdoa, mas, mesmo assim, ainda se vão aguentando umas tantas que, sendo antigas, terão poucos gastos fixos e serão os seus proprietários que abrem e fecham as portas. Mas, por exemplo, o meu café matutino, onde escrevo as minhas prosas e arranco as poesias que se vão depois acumulando no disco do meu computador, não sendo já o mesmo de antes, pois esse mudou de ramo, depois é outro que me adoptou e que eu vou conservando até não ocorrer outra mudança. Até, como excepção do que ocorre agora, abriu um simpático local que pretende agarrar os moradores da zona através da simpatia e possibilidade que dá de voltarem a existir as antigas tertúlias que desapareceram da nossa cidade. Chama-se, salvo erro, “Maximum” (ou será “Minimum”?), que o nome é o que menos interessa, até porque afinal chama-se MOMENTVM...
Este café e também onde se podem apreciar algumas delícias, pelo sítio onde se localiza e pela freguesia que o frequenta é para mim o mais importante para poder servir de acolhimento às minhas necessidades de reflexão e de busca de imaginação. E depois, porque o hábito também ajuda muito a puxar pela veia, dado que o escrever sempre no mesmo sítio, com a mesma mesa e a mesma cadeira é meio caminho andado para forçar a produção literária.
Nesta altura em que escrevo este texto estou a ver passar os transeuntes, a maioria caras que me não são estranhas e formada, na maioria parte dos casos por gente de idade, pois este bairro está a acumular uma população que se encontra preparada para utilizar o local da sua recolha final, por curiosidade um cemitério que tem um nome irónico, o dos Prazeres!...
Não me venha dizer que não vale a pena ter escolhido o bairro de Campo de Ourique para viver e, como é o caso de muita gente, ser agora o local onde se goza a reforma, ainda que, perante as perspectivas que se avizinham, as preocupações no que diz respeito ao futuro sejam bem difíceis de enfrentar. Mas esse também é um assunto que os moradores comentam e que o próprio mercado que aqui existe e o jardim da Parada, que onde os homens se juntam à volta de mesas a utilizar as cartas para passar o tempo, são locais apropriados para as trocas de impressões.
Campo de Ourique é um resto de uma Lisboa antiga que, para além de Alfama, Bairro Alto, Bica, Madragoa e pouco mais se conserva por algum tempo com raízes. Porque isto de Lisboa ser coisa boa, como a canção diz, é tema que todas as modernidades têm vindo a eliminar. Mas os novos, os que já cá estão e aqueles que virão ocupar o espaço e o tempo do que vai mudando, esses talvez encontrem forma de substituir o tradicional e oxalá essa mudança represente uma melhoria daquilo que vai desaparecendo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

DAR NAS VISTAS

Sair-se do formato sempre igual
ao que por toda a parte se encontra
pode parecer uma mera afronta
mas também ser coisa natural

Há quem se diferencie e só isso
por pertencer ao grupo dos solistas
não é que pretenda só dar nas vistas
e com isso assumir um compromisso

Mas dos outros chamar a atenção
pelo seu porte e modos d’aparecer
há quem o faça por outra razão

Apenas p’ra mostrar que é um ser
que dá nas vistas com uma intenção
a de fazer inveja só de o ver


CUSTOS ESCOLARES


CÁ VENHO EU preencher o espaço do meu blogue diário com uma opinião que tem a ver com a luta que é, nos tempos que correm, absolutamente necessária, no capítulo da diminuição de gastos, não só por parte do Estado mas também no que diz respeito aos que são suportados pelos cidadãos portugueses, sobretudo aqueles que enfrentam dificuldades enormes face aos baixos ordenados e até às situações difíceis que surgem inesperadamente, como é a medonha do desemprego que grassa por aí e que as famílias são forçadas a aguentar.
Atravessamos agora a época em que os filhos na idade própria ingressam, pela primeira vez ou no acto lectivo que se iniciou e que têm de frequentar, e em que os custos respectivos com a aquisição dos livros e dos acessórios que o estudo impõe, atingem, por cabeça infantil ou juvenil, montantes que, na maioria dos casos, são insuportáveis pelas famílias. E, de ano para ano, os compêndios de estudos que os professores exigem mudam, sendo que os que foram utilizados no período anterior já não servem para o prosseguimento dos cursos. E isto sucede quer nas classes infantis como depois no secundário e nos cursos superiores.
Ora bem, Será possível que os governantes que ocuparam os lugares da Educação depois do 25 de Abril, altura propícia para emendar o que funcionasse erradamente antes e até hoje, 36 anos depois, não surgisse um responsável que fizesse o que sucedeu, por exemplo, na minha juventude, em que, com uma irmã mais velha, frequentando as escolas com um ano de avanço, me passava os livros de estudo que já não lhe serviam mas que se aplicavam à classe em que eu andava. Lembro-me, por exemplo, dos livros de História, de António C. Matoso, que serviam de base durante mais de um ano e outros, como os de inglês, matemática, etc.
Quer dizer, nessa altura não havia a negociata das editoras de livros escolares que, todos os anos, e de acordo com autores-professores que se dedicam a lançar produções sempre diferentes, obrigam as famílias a despender verbas avultadas para ter os filhos a seguir as classes e de acordo com as exigências de cada escola.
Será então assim tão difícil criar a continuidade do uso dos compêndios escolares, por forma a que os responsáveis pela sustentação dos alunos não tenham que, todos os anos, fazer o enorme sacrifício de deixar nas livrarias e papelarias grandes quantidades de dinheiro o que, nos dias que correm, constitui uma vilania que não se desculpa aos responsáveis governamentais da Educação.
Ao menos que se instituísse a venda de livros das escolas em segunda mão, coisa que, podendo desgostar a alguma gente, seria sem dúvida aproveitada pelos pais responsáveis mas sem meios. A necessidade aguça o engenho e é isto mesmo que os governantes que temos, estes e outros, não são capazes de reconhecer que o que lhes falta também é capacidade de enfrentar os problemas e resolvê-los a bem dos cidadãos.
Falar, falar mas não actuar com medidas que, na prática, tenham a sua utilidade e representem soluções para problemas que necessitam da actuação dos que se encontram nas áreas da governação?
E é isto que Portugal vai sofrendo, passo a passo e a caminho do cada vez pior que somos forçados a suportar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A SOMBRA

A sombra que vejo e não fala
que não a apalpo mas sei que existe
que me persegue e é bem vassala
daquilo que tudo em mim é triste
essa figura que me imita só no gesto
que repete tudo aquilo que faço
não é acordo nem protesto
mais me parece um bom palhaço

Precisa de luz para me reflectir
pois na escuridão desaparece
avisa-me também para fugir
e volta a surgir quando amanhece
agradece ao Sol o seu esplendor
e é nas ruas que mais se nota
eu sei que sou eu o seu benfeitor
aquele que marca a sua rota

Sombra querida enquanto eu viver
tu andarás bem perto de mim
e ninguém pode jamais antever
o dia em que chegaremos ao fim
da nossa caminhada lado a lado
sendo eu como tu e tu como eu
não existirá mais o nosso enfado
de nos perguntarmos se haverá céu

SE EU MANDASSE!...


JÁ NÃO É A PRIMEIRA vez que, nas televisões portuguesas, é feita a pergunta a telespectadores de rua, em que o tema é: “se mandasse o que é que fazia?”. E as respostas que surgem, por se tratarem de entrevistados sem preparação e em que o problema pessoal de cada um é o que lhe salta logo à boca, não representando quase nunca uma forma de ser encarada como tratando-se de uma solução que satisfaça as necessidades concretas do nosso País. Nem, naturalmente, os inquiridores estarão à espera de deparar, ao virar da esquina, com o “milagre” de surgir o remédio milagroso que porá tudo na ordem.
Se a pergunta me fosse feita, não hesitaria em dizer: Não sei! E explico esta minha franqueza.
Na situação actual portuguesa, vivendo nós num regime democrático que tem de obedecer às suas regras e que não permite que a vontade prepotente de uma figura se sobreponha ao que é possível executar, perante a fraqueza que nos atingiu e de que não vale já a pena apontar os seus causadores que, sendo vários, uns mais distantes e outros que se situam ainda nos cadeirões do poder, não é por lhes dirigirmos acusações que conseguimos efectuar o importante e que é o conseguirmos sair da rotura financeira e económica em que estamos colocados. Sendo assim, se fosse obrigado a aceitar aquilo que, por cá, já não se vislumbra quem se encontre ansioso por desempenhar as funções de primeiro-ministro de um Governo não maioritário, depois de reflectir seriamente no embroglio em que tinha sido metido, tendo escolhido o complemento ministerial que julgasse mais adequado às circunstâncias, a primeira acção que desempenharia era a de me dirigir aos portugueses e, numa fala franca, simples e credível, fazer-lhes o relato aberto do panorama do nosso País, da mesma forma que um médico sério deve declarar à família de um doente em estado adiantado de enfermidade quais seriam as perspectivas de salvação do ser que, de olhos arregalados, aguarda que surta a salvação ainda que milagrosa.
Ao contrário dos partidários de que é preferível pintar de cores vistosas as paredes em estado de queda, eu sempre defendi neste meu blogue e noutros escritos de que assumo a responsabilidade que não é coerente esconder a realidade, pois que só alertando os interessados é que será possível obter a sua colaboração nos esforços de salvamento.
Por isso, a primeira coisa que faria era mostrar com provas indiscutíveis que Portugal se encontra numa situação de perto da “banca-rota”, em que as Finanças não podem garantir o cumprimento de todas as obrigações que lhe cabem, encontrando-se perto de as próprias reformas terem de ser lapidadas, primeiro em parte e depois, sabe-se lá em quanto.
A seguir, avisaria que as medidas que iriam entrar em vigor de imediato, sem perda de tempo, seriam as de um corte radical nas despesas que não se admitem ainda existirem, como as regalias de todos os tipos que alguns servidores do Estado e de empresas públicas e semi-públicas continuam a auferir, como sejam viaturas, motoristas, (a partir de secretário de Estado acabavam tais benesses), instalações e até a existência dessas dependências que teriam de ser drasticamente extintas. Os funcionários que ficassem sem actividade, a esses haveria que procurar colocá-los onde exista exiguidade dos mesmos ou, em último recurso, estudar a forma de os dispensar em condições humanas. Seria duro, mas não havia outra forma de actuar.
Tudo isto daria ocasião a que os cidadãos acompanhassem a par e passo o que se estava a fazer, por forma a que aceitassem, eles próprios, os sacrifícios que lhes coubessem.
No capítulo da produtividade, o Estado, através dessa dependência que não há forma de dar provas de ser eficiente, o AICEP, com Basílio Horta à frente, teria de, reduzindo também o número de instalações que, sendo infrutíferas, se espalham por várias cidades estrangeiras, com custos altíssimos, dar todo o seu trabalho em favor da busca de investidores estrangeiros que quisessem abrir no nosso País as suas iniciativas, para o que se lhes concederiam condições especiais, quer no capítulo de impostos como na anulação das burocracias que são tão usadas no nosso espaço. Essa seria uma prioridade que, mesmo tendo de fazer investimentos, ocuparia as cabeças mais competentes de Portugal, pois que o desemprego só se combate quando se criam postos de trabalho, os quais, tratando-se de empresas industriais, também ocasionam o aumento de exportações, razão pela qual seriam escolhidas actividades que se dedicassem à produção de artigos que tivessem mercado possível noutros países.
Depois, coniforme escrevi há dias neste blogue, o subsídio de desemprego teria de terminar de vez, tanto mais que se sabe que muitos dos beneficiados com esse apoio não aceitam novos trabalhos para não perderem os euros que recebem enquanto estão em casa. E a forma de executar esta tarefa com eficiência e benefício para todos também já aqui expus e, por sinal, Paulo Portas, que talvez seja leitor deste meu blogue, está agora a usar a ideia, o que me parece até muito bem. Se eu lhe dei o primeiro emprego como jornalista, também posso agora servir de apoio para as suas funções políticas, independentemente das tendências políticas de cada um.
E não tenho mais espaço, pois o que eu faria se mandasse é de tal maneira vasto que estaria aqui a preencher este blogue até amanhã a esta hora.
Mas repito o que digo logo de início: De facto, saber de ciência certa o que faria se mandasse, por minha livre vontade, não sei. Mas ão ficaria era parado. Nas condições em que nos situamos suponho que, se me metesse a executar parte daquilo que expus aqui suponho que não chegaria ao fim, pois que as invejas desta gente toda que se situa em redor do poder, seja ele qual for, só não ataca os capazes, sempre pelas costas, se puderem passar despercebidos. E, claro que um Ditadura dava muito jeito a variada gente. E nessa eu não quero, nem de longe, participar. Já me bastou o tempo em que, ao longo de muitos anos, a suportei e com ela sofri o meu largo quinhão. Coisa que a maioria dos actuais políticos não tem ideia vivida do que foi.
E bem falta lhes faz!...

domingo, 5 de setembro de 2010

POR TUDO E POR NADA

A língua tem seus mistérios
a nossa nisso não falha
há ditos que serão sérios
por dá cá aquela palha

Por pouco se zangam uns
outros nunca descarregam
há os que fazem jejuns
todos há palha não chegam

Digam lá o que disserem
isso da palha pedirem
é coisa que se o fizerem
serve p’ros outros se rirem

Mas a verdade é só uma
nesta língua bem falada
toda a gente se acostuma
e pede palha por nada

CASA PIA


É ASSIM QUE SE PASSA nesta Terra. De repente surge o assunto que domina todas as atenções. Mas também, conforme aparece também é rapidamente esquecido e passa-se imediatamente a outro problema. Sim, porque esses não faltam por este nossos sítios.
Agora foi, como já se aguardava desde que estava anunciada a leitura da sentença judicial em relação a esse “eterno” assunto Casa Pia, o ficar a saber-se qual a decisão do Tribunal no que diria respeito ao apuramento ou não das penas que poderiam ser aplicadas aos arguidos, que eram sete indivíduos que andavam já há anos a comparecerem perante os vários juízes que intervieram no caso e que, segundo deram ideia antes de entrar desta vez na sala de audiências, praticamente todos estavam convencidos de que a solução seria a da sua absolvição, pois o que demonstraram e as câmaras de televisão registaram foi uma absoluta confiança de que não existiam provas capazes de os colocar na posição de culpados. Todos disso deram mostras, com excepção do Bibi, que nunca apareceu e da proprietária da casa de Elvas, Gertrudes Nunes, que também nem a cara mostrou ao longo de todo o processo.
Mas, sobretudo Carlos Cruz, esse nunca perdeu ocasião para, durante todo o seu percurso neste processo e, com grande evidência no dia em que no Tribunal que acolheu o caso, e em que fez questão de reclamar a sua inocência, alegando que não existiam provas que o pudessem condenar como autor de crimes de abuso sexual de menores.
E, logo que se soube que a pena que coube a todos foi o de alguns anos de cadeia e do pagamento de uma indemnização a cada vítima, logo o ex-apresentador de televisão se evidenciou contra o que considera uma injustiça praticada contra ele, declarando que a sua luta contra a decisão judicial e que não descansaria enquanto a “verdade” não viesse ao e cima. Isso, ao mesmo que noutros canais televisivos não deixaram de haver declarações, entre elas da antiga provedora da Casa Pia, Catarina Pestana, de que a decisão judicial era mais do que merecida pelos acusados e de que, pelo menos por parte das consideradas vítimas, os alunos utilizados nos actos proxenetas, se verificava um contentamento bem justificado.
O facto do advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes, ter exercido o seu papel – talvez excessivo – dando mostras de uma grande revolta face ao acordo dos juízes que consideraram culpado o seu cliente, não alterou em nada a decisão e, a partir de agora, o que se espera é que todos os representantes dos acusados entrem com recursos para o Supremo Tribunal, o que quer dizer que todos permanecem ainda em liberdade – sabe-se lá por quanto tempo! – e que não se pode afastar a hipótese de todo o processo se prolongar por longo período, o que faz correr o risco de prescreverem os processos em causa.
Não podia deixar passar este caso no meu blogue, se bem que não acrescente nenhuma novidade ao que foi já largamente divulgado, mas, com o caso Queiroz, a lutazinha política Sócrates/ Passos Coelho, a situação da complicada história Duarte Lima, e até o empate de futebol com o Chipre por quatro golos, tudo o mais continua no banho Maria em que vivemos, à espera da fervura que fará deitar para fora da panela o que acabará por ferver excessivamente a paciência dos habitantes deste pobre País.
Ah! Ainda vamos ter lá para diante as eleições presidenciais… Será isso que vai remediar o caos em que nos debatemos. E Sócrates a rir-se. É que, seguramente, já tem emprego depois de sair do Governo e quem vier a seguir é que as vai pagar todas juntas. E é bem feito!

sábado, 4 de setembro de 2010

BOCEJO

A vida já me deu tudo o que tinha a dar
momentos de alegria e de prazer
já me satisfiz com o bem fazer
vi o que mundo pode mostrar

Levo pois que contar a quem me ouvir
se é que lá no fim outros estarão
prontos a receber-me a dar a mão
a quem não teve pena de partir

Porém tempo de mais onde me vejo
já cansa e não traz nada de novo
razão maior p’ra mais um bocejo

E sem ter muito mais o que fazer
nem nada p’ra deixar a este povo
não vejo razão p’ra não morrer

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


SIM SENHOR, faço esforços para olhar o mundo com o máximo de resignação possível e procurando ser compreensivo com aquilo que eu considero desvios de comportamento que se verificam em todos os cantos desta Esfera que vai circulando em redor do Sol. Por mais que pareça, com aquilo que me sai frequentemente da pena, que serei demasiado rigoroso quanto a não desculpar os erros da Humanidade, tenho de afirmar que, quando não me encontro perante o papel em branco, os meus pensamentos comportam-se como a maioria das pessoas, ou seja, distraio-me com o correr das horas e com o folclore humano que comporta toda a variedade de actuações.
Sinto necessidade de prestar este esclarecimento na altura em que prevejo estar a aproximar-se o fim destes meus desabafos que, a prolongarem-se, acabariam por cansar os eventuais leitores, sobretudo os que seguem as vias do optimismo, aqueles que, felizmente para eles, desenvolvem a esperança de que o futuro irá oferecer boas recompensas que irão compensar as longas esperas por melhores dias.
E, como será natural, tenho-me preocupado mais com aquilo que ocorre neste Portugal do que com tudo que atormenta o Mundo em redor, se bem que não seja possível fugir do exercício de comparação. E, por mais que o evite fazer, não me resta outra saída que colocar o dedo na ferida. Na nossa chaga.
Neste nosso País andamos sempre em mudanças, à procura de um caminho certo, na busca de soluções. E dá a impressão de que não há meio de encontrarmos a via exacta. Somos, de facto, um País experimental. Basta mudar o Governo, o que, de certo modo, é aceitável, mas até com o mesmo em actividade, mesmo aí damos o dito pelo não dito, o feito como errado, voltamos atrás e damos saltos noutras direcções mais ou menos quiméricas.
Nem é preciso puxarmos muito pela cabeça para apontarmos vários casos que comprovam essa falta de consistência nas decisões que são tomadas em determinada altura. A situação caricata de se ter andado às voltas para decidir sobre o local definitivo onde deveria construir-se o novo aeroporto que serve Lisboa, é bem a demonstração de que não estamos calhados para tomar decisões definitivas, certas e aceitáveis pelas maiorias.
Mas, já agora, refiro também uma medida que não há forma de ser tomada com absoluta garantia de ser a mais indicada para garantir o melhor aproveitamento escolar dos nossos estudantes: a marcação de faltas aos “gazeteiros”, coisa que, no tempo dos mais antigos dos portugueses, não oferecia dúvidas. Hoje ainda se anda à busca de saber se a não comparência nas aulas deve ou não ser punida. Antigamente, dez faltas não justificadas num ano e numa cadeira era “chumbo” certo. Que horror!
E aponto apenas estes dois exemplos, porque muitos poderiam encher uma lista negra de experiências que se fazem na busca de u, caminho tão certo quanto possível.
E é neste permanente faz e emenda, neste tem-te e não caias em que vivemos, que por cá ficamos à espera de melhores dias e de passos seguros na direcção do que nos espera. Poderíamos, ao menos, ver e estudar o que se faz noutros países e que tenha resultado. Seguir bons exemplos não é errado. Para que querermos ser originais, se não acertamos com o caminho e vivemos na terra das emendas?



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A CORDA


Que grande falta nos faz
sempre que a procuramos
se preparados estamos
para o que se for capaz

A corda, curta ou comprida
bem ajuda a agarrar
o que pretende escapar
numa ânsia de fugida

Desde sempre qu’ela existe
inda o homem era macaco
p’ra não mostrar qu’era fraco
até hoje ela resiste

P’ra juntar o separado
segurar o que se solta
acalma uma revolta
metade de cada lado

Açoitar o criminoso
fazê-lo as faltas pagar
a corda no seu desamar
dá mostras de certo gozo

P’ra subir ou p’ra descer
de algo que está bem alto
e se for mesmo assalto
boa corda há que escolher

No mar a corda tem nome
de cabo passa a chamar-se
não é p’ra ser um disfarce
é pelas funções que assome

Presente no dia-a-dia
da corda sempre a lembrar
até logo ao acordar
estar livre dá alegria

É como esticar a corda
até estar quase a partir
coisa a que o papa-açorda
não costuma reagir

A nossa língua tem disto
são horas, veja se acorda!
e dê ao relógio corda
o que nunca disse Cristo

Nas mãos de ilusionista
corta e cola de uma vez
a corda causa gaguez
e embaraça a vista

Em árvore dependurada
com um laço numa ponta
para uns é uma fronta
p’ra outros é abalada




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


A FADIGA física é algo que atormenta o corpo. Mas a fadiga moral, essa canseira em local que não se vislumbra concretamente onde se situa, não será uma dor palpável, que passe com compressas, massagens e unguentos. Existe, mas não se encontra fixa em local concreto, é também uma ânsia de qualquer coisa que não pode ser indicada ao curador. É uma respiração descompassada que não tem que ver com arritmia, é um suspiro profundo que sai tão de dentro que não se entende onde nasce..
Estar saturado de alguma coisa concreta ou de nem se saber bem de quê, cansar-se de ouvir os outros, sem razão específica, como também em relação a alguém de concreto que, antes não fatigava, cansar-se a pensar sem conseguir tirar conclusões, andar desinteressado dos problemas, especialmente dos que surgem de novo, ouvir as opiniões de outrem e não ter argumentos para contrapor, dar sempre a ideia de que estamos de acordo com tudo que dizem, essa fadiga provocada por se ter de cumprir obrigações, horários, compromissos, acaba por traduzir-se em tédio. E pode ser um início da perda de vontade de estar vivo.
Penso que, sem dar uma definição tão específica, não será assim muito raro que os seres humanos não passem, por vezes, por situações que se pareçam com as que acabo de descrever. E quanto mais se fecham em si os que sentem agruras semelhantes, quanto mais difícil se torna comunicar, mais isolado se ficará.
Sendo múltiplas as razões que conduzirão as pessoas em tais condições a fecharem-se e a não conviverem, mais difícil ainda é fazerem entender os demais do problema que os atinge e menos também se os motivos são resultantes da ineficácia em atingir parâmetros da tabela das capacidades com que sonham e sempre sonharam.
Por isso, ao não transmitir para fora que saturação é essa e que fadiga moral se, acarreta, fica-se com o apodo de mal -humorado, de zangado com o mundo, de ser de difícil convívio. E se se tiver o atrevimento de abrir o coração e querer explicar o que vai dentro de tão aflitivo, a posição alheia é de espanto, de incompreensão, até talvez de um certo ar irónico. E um voltar de costas. E se, depois de produzir alguma coisa que poderá parecer que tem pernas para andar, na escrita ou na pintura, ao rever o que está feito, desaponta, desgosta, não serve de consolo pelo trabalho tido, a tortura espiritual que pode aflorar deixa qualquer um prostrado e só escondendo a obra é que será possível fugir às críticas severas. E recomeçar tudo de novo.
Sem vergonha, há que insistir. É forçoso vencer a fadiga e tentar passar a fasquia mais uma vez. Ir até ao fim, até ao último dia do tempo que falta. Quem pode antecipar os resultados?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

BURROS

Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais
Dormir também descansa a cabeça.
Enquanto se dorme, não se pensa.
Sonha-se

BURROS TEIMOSOS


PROVOCA-ME a maior tristeza constatar que, no nosso País – onde deveria ser? –, as decisões e as medidas a tomar para ocasionar alguma melhoria nas situações que atravessamos, tardem sempre um tempo interminável, o que quer dizer que os elementos humanos que têm o poder bastante para alterar o que pode e deve ser objecto de melhoria, essa gente que se encontra em lugares que lhes auferem tais possibilidades, os referidos “mandões” não merecem desempenhar as funções que lhes foram proporcionadas e, se as coisas funcionassem como numa empresa, face a essas incapacidades, o que deveriam merecer era serem postos na rua sem apelo nem agravo.
Mas não é disso que se trata, e, para além do enfado que, como português que sou, me amargura a existência e cada vez mais me afasta daquilo que se chama de “orgulho de ser português”, para lá disso é a revolta que me leva também a escrever estes desabafos que, segundo me informam, alguma audiência possuem.
Ninguém terá dúvidas de que o desemprego, provocado pela nítida ausência de espírito empreendedor que quase todos os Governos têm demonstrado e de que o actual dá mostras ainda maiores, é provocada pela falta de trabalho que as actividades privadas provocam por razões de uma concreta crise que se tem alargado por toda a parte. E não são apenas as chamadas grandes empresas – que essas, como é sabido, até têm estado numa fase de redução substancial de trabalhadores, quando não atingem o ponto de encerrar as portas de rompante -, mas serão as menos poderosas, até os estabelecimentos comerciais médios e pequenos que podem contribuir para que os desocupados encontrem resposta à falta de colocação.
Mas, para isso, o que se torna essencial é que, nesta fase particular e sem complexos de nenhuma espécie de ordem política de Esquerda ou de Direita – porque os tempos não estão para isso -, não se criem dificuldades burocráticas e outras complicações no que respeita aos horários de funcionamento de empresas sejam elas quais foram, permitindo que tenham as suas portas abertas ao público, beneficiando com a liberdade de actuação que não se compadece com horas rígidas de fecho, nem com limitações de funcionamento aos domingos e feriados.
É evidente que, desde que esse aumento de permanência do pessoal para lá dos que estabelecem os horários de trabalho, as entidades patronais terão de ser obrigadas a admitir mais colaboradores, o que representa, claramente, ter de se ir buscar ao desemprego gente que está desocupada.
Há também que dizê-lo e da mesma maneira sem complexos, que esta liberdade de actuação corre o perigo de ocasionar abusos na área patronal, os quais não podem passar sem as devidas inspecções, mas, atendendo ao enorme afluxo de cidadãos sem trabalho e que não pára de aumentar, haverá que apelar para a consciência de todos e procurar que se evitem as perseguições desmedidas das autoridades, pois que uma coisa anula a outra. E se, o que temos em Portugal como enorme flagelo é o ter-se atingido já os 11% de desempregados, a prioridade que se defronta é a de usar os meios essenciais para que tal número seja drasticamente reduzido.
Aí pertence às autoridades agirem em moldes correctos e que mostrem resultados positivos, para se conseguirem, o mais rapidamente possível, respostas satisfatórias. Em primeiro lugar, o concederem-se certos apoios aos empresários que, requisitando novos trabalhadores exclusivamente nos serviços oficiais de desemprego, justifiquem a sua contribuição para a baixa de desocupados, sendo um deles um valor equivalente ao que o Fundo de Desemprego desembolsa nas referidas circunstâncias (tendo de suceder o contrário nos casos de despedimentos). E essa atitude, com tempo determinado, levaria seguramente a que das duas partes, do Estado e dos empregadores, se verificasse uma contribuição conjunta contra esse mal horrível que é o de haver gente sem trabalho.
É sabido que os partidos políticos classificados de Esquerda e que de tão grande utilidade são quando se encontram atentos às actuações dos que não prestam serviço de interesses para o País, esses, sobretudo, se mostrarão contrários ao facto de aumentarem os horários dos estabelecimentos e, em particular, não se respeitarem os feriados, já que, no que respeita aos domingos e aos dias santos, a Igreja, essa já se sabe que é contrária. Mas que o próprio CDS também se insurja, como agora o demonstrou, assumindo-se como exageradamente católico no que diz respeito ao trabalho aos domingos, isso é também de estranhar, mas tais posições não podem impedir que o alvo principal, que é o de criar mais trabalho, seja prejudicado.
Burros (com perdão desses simpáticos animais) há-os em toda a parte. Mas quem tem sobre as costas as responsabilidades de gerir os problemas de um País, esses não podem andar ao sabor das ondas e das opiniões partidárias sejam elas quais forem, porque o que está em causa é tudo fazer para que Portugal não caia numa situação que, como já se afirma por aí, se intitula insustentável.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PANO PARA MANGAS

Pegar num assunto a sério
comentá-lo com alguém
mesmo sendo um mistério
que levanta o seu porém
é base de discussão
mesmo zanga à portuguesa
todos julgam ter razão
ninguém quer mostrar fraqueza

Eu é que sei, diz de um lado
tenho de tal a certeza
não posso ficar calado
e não me causa surpresa
tal afirma o sabedor
que é quem provoca zangas
e seja o tema que for
ele dá pano p’ra mangas

E a língua popular
usa termos curiosos
como este do pano dar
p’ra enervar os nervosos
p’rá conversa prolongar
as mangas vêm à baila
só é preciso falar
ainda que nada valha

Isto das mangas faz rir
porque até lembra o pobrete
que nem precisa falir
anda em mangas de colete
afinal neste País
que é bem terra de tangas
não espanta haver quem diz
não chegar pano p’ra mangas

OS SÁBIOS


SOMOS UM PAÍS de gente muito competente, ultra-sabedora, sem dúvidas e sempre pronta a alterar o que foi feito antes. Isto, pelo menos, na área da Justiça, pois que as emendas aos Códigos das várias especialidades têm-se verificado permanentemente e os profissionais das diferentes áreas não param de apontar as modificações que os especialistas que são chamados a prestar a sua ciência introduzem nos respectivos livros. Segundo foi noticiado agora, o Código do Processo Penal foi alvo de nova mexida e os juízes e advogados que se têm de fiar nas disposições legais, uma vez mais são forçados a anotar nas margens as mudanças que passam a vigorar.
É evidente que são muito poucas as situações de toda a ordem que são imutáveis ao longo das vidas, pois as evoluções de diferentes espécies que se verificam pela acção dos homens obrigam a que se vá alterando o que antes se considerava como imutável. É assim, até com a própria língua dos povos, e tais modificações, sendo graduais, lentas e naturalmente adequadas às circunstâncias que se atravessam em cada momento, essa não estagnação não provoca confusões, antes constitui melhoria nas actividades que representa, a maneira de viver de cada nação.
Por este motivo, não será de estranhar que os conjuntos de leis que regem o apuramento de responsabilidades dos cidadãos se vejam igualmente sujeitas à introdução do que se consideram melhorias, pois que também as faltas dos cidadãos não se equivalem às que eram praticadas tempos antes.
Tudo isso se compreende. Agora, o que constitui uma característica curiosa da nossa Justiça, a tal que é das mais demoradas de todo o Planeta e a que bate todos os recordes de burocracia excessiva, para além do preço que dificulta aos mais necessitados o servirem-se desse meio para defender os seus interesses, é o facto dos Códigos andarem permanentemente em bolandas e então o Penal, que é o mais necessário para impor uma certa ordem nos comportamentos humanos, não pararem de sofrer modificações, algumas delas apresentando soluções totalmente contrárias que eram antes aplicadas.
E ainda quanto ao Código Penal e às mudanças introduzidas recentemente, segundo se pode concluir de uma reportagem emitida pela SIC, a ideia com que se fica é que, analisando o que ocorreu com o julgamento da Casa Pia, se o Código modificado tivesse interferido nas decisões jurídicas tomadas alguns dos arguidos teriam beneficiado, sobretudo nos casos das prisões preventivas. E quanto a isto não adianto mais!…
Vale portanto a pena referir-me a este facto, quando tantas coisas correm mal no nosso País?
Seguramente que não, pois se trata de mais um fenómeno lusitano que se acrescenta ao que ocorre em todas as áreas da Nação portuguesa. Mas eu pego nos temas de acordo com as notícias que vão saindo e, por vezes, não resisto a deixar escrita a minha indignação por ter de viver aqui e de nada poder fazer para mudar as mentalidades dos cidadãos, sobretudo daqueles que deviam ser úteis às nossas causas mas que se distraem com os problemazitos que lhes são colocados à porta.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

POETAS

Isto de querer ser poeta
pode bem nada dizer
há os que acham uma treta
e não ter mais que fazer
nem saber bem o que quer

Quem vai compor poesia
com esforço irá tentando
na ideia de que quem cria
sem saber como e quando
lá acabará rimando

Mas também sem rima vai
usando seu versejar
pois o que mais sobressai
é o que fica no ar
aquilo que faz cantar

Só que o poeta em geral
não consegue que em vida
o achem ser genial
e só depois da partida
a fama lhe dê guarida

Poetas mortos há muitos
quantos terão produzido
em lampejos bem fortuitos
alguns graças ao Cupido
face a coração partido

Sentir a vida de frente
descobrir suas fraquezas
faz que haja alguma gente
sem esconder suas belezas
também cante as tristezas

Deixar em verso bem escrito
aquilo que na alma vai
é como quem solta um grito
que nem por isso atrai
quem do seu mundo não sai

Gavetas cheias de versos
à espera que alguém os leia
que saiam em livro dispersos
mesmo não sendo epopeia
mas que mostrem certa veia

Há editores valorosos
que acham que a poesia
não sendo só dos saudosos
exclusivo de valia
vão deixando que teimosos
possam ver a luz do dia

DESENCANTO POR ENQUANTO!




RECORDO-ME de ter participado, com José Carlos Ary dos Santos, numa dessas mesas em que. numa agência de publicidade, fazia parte profissional do “staff” o poeta Alfredo O’Neill, que foi o autor do “há mar e mar, há ir e voltar”.
Foi um período em que, por vezes se repetiam as discussões, os murros nas mesas, os gritos e até que, de repente, saia um “slogan” que era agarrado por todo, com grandes gargalhadas de satisfação.
Terá sido assim que surgiram centenas de frases que ficaram nos ouvidos de todo o Portugal e que constituíram a razão das boas vendas de artigos que as agências de publicidade propunham aos seus clientes. Os mais antigos ainda hoje se recordam de tantas dessas promoções, e não vou aqui repetir muitas de tais referências, ditas e cantadas, porque os novos nem têm ideia de que isso se terá passado cá na nossa Terra.
Vem isto a propósito de quê? Dos termos utilizados hoje quer nas rádios, na Imprensa e, sobretudo, nas televisões, e em que, na maioria das situações, os ouvintes ou espectadores não absorvem o produto que pretende ser dado a conhecer e ficam coma ideia estranha quanto ao que será que está a ser anunciado.
É o mundo de hoje, dirão. Pois será. Mas, afinal, para que serve gastar dinheiro em publicidade se os públicos que se pretende que sejam atingidos não conseguem entender, logo à primeira, o que está a ser, pelos vistos, divulgado?
De facto, num certo aspecto a publicidade não se situa assim tão distante do jornalismo propriamente dito no capítulo de que é necessário passar uma ideia aos possíveis compradores e nisso há que ser explícito e rápido na mensagem. É o que se passa com os jornalistas que têm mais queda para formar títulos dos artigos e chamá-los à primeira página das publicações. Um texto pode ser muito bem escrito, relatar convenientemente um acontecimento, mas se o leitor não é convidado a apreciá-lo através de um cabeçalho que lhe prenda a atenção, mas que – cuidado – não desvirtue o conteúdo, então metade da sua importância é perdida.
Atravessamos neste momento um período de má publicidade. É a minha opinião. Quantas vezes oiço e vejo repetidamente um anúncio e só fazendo algum esforço é que entendo o que é pretendido vender.
Será que isso só se passa comigo? Todos os potencialmente candidatos a serem consumidores do produto mal divulgado conseguem ficar esclarecidos?
Publicidade que tem de ser bem digerida para atingir o objectivo da sua criação, não é um convite é uma barreira que se cria entre um produto e os seus desejados clientes.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MUNDO

Oh tu, que és Pai de todos
mas tratada com desprezo
por aqueles, os teus filhos
que te despejam os lodos
para aliviar o peso
e entregar-te sarilhos

É altura de vingança
de chamares a atenção
dos milhões que por cá andam
que é o fim de toda a dança
ou encontram a razão
ou do planeta desandam

Uns abanões p’ra mostrar
que não há sítio seguro
e fazer revolto o mar
com uns ventos a assoprar
com força a pôr tudo escuro
com casas a desabar

Os vulcões de boca aberta
a vomitar labaredas
queimando tudo à volta
já não há certeza certa
são muitas todas as perdas
anda a loucura à solta

Isso é só p’ra s’aprender
que quem manda cá na Terra
não é o Homem, coitado
se não soube obedecer
ao ter declarado a guerra
perde sem ser perdoado

És tu Pai Natureza
que não te deixas vencer
p’lo Homem, suas maldades
se respondes de surpresa
tens de fazê-lo aprender
que se pagam ruindades

O pior é se uma guerra
de um lado e doutro afinal
faz com que vá tudo ao fundo
e o que restar desta Terra
seja por bem ou por mal
represente o fim do Mundo




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


NAS MINHAS frequentes passagens por livros já lidos noutras alturas, alguns bem digeridos, voltei um dia destes a pegar numa obra de Camilo José Cela, o Prémio Nobel de Literatura, espanhol, que usava uma linguagem livre, apaixonada, erótica, e a que alguns chamaram de desbragada. De facto, o autor também de um Dicionário de Erotismo, deixou uma obra em que não escondia a pretensão de chamar as coisas pelos seus nomes. Os nomes que ele lhes dava.
O único problema para quem não domina a língua castelhana, é que os seus escritos perdem toda graça e “salero” se não são lidos no idioma de origem, pela infinidade de frases e termos castiços que o autor utilizou a miúdo nos seus livros. E que não são facilmente traduzíveis.
Peguei agora num título seu, chamado no original “Cachondeos, escarceos y otros meneos”, de quase impossível tradução em qualquer língua, e deixei ficar na estante outro que adquiri há anos e que tem também um título muito sugestivo “Izas, rabizas y coliputerras” este dedicado às prostitutas de Barcelona, das Ramblas.
Por cá, mesmo recordando Bocage que utilizou, por vezes, uma linguagem também agressiva e popular, serão raros os autores que poderão assemelhar-se a Camilo José Cela, que foi membro da Academia da Língua do País vizinho e foi reconhecido com vários galardões de Espanha.
Porquê, então, eu me refiro, nestes meus desabafos, a um novelista, poeta e ensaísta que, não sendo muito popular entre nós, atingiu tão alto gabarito em todo o espaço de “habla castellana”?
Porque, numa altura em que se afirma por aí – alguns com evidente insatisfação - , que os espanhóis estão a entrar no nosso território, e sendo evidente que o idioma vizinho está agora a ganhar importância nos estudantes portugueses, especialmente porque certas universidades espanholas estão a receber alunos que vão daqui, já era altura de as edições dos dois lados vizinhos encontrarem forma de alargar as tiragens, com um mercado que aumentaria, espacialmente com nítida vantagem para as editoras portuguesas, que ganhariam visível subida de tiragens.
Mas esta afirmação é quase que uma blasfémia para muitos “aljubarrotistas” que ainda existem por aí. Há que esperar pelo caminhar natural das coisas, para que, a exemplo do velho Benelux, também possa surgir um dia uma Ibéria.
O futuro ditará as suas leis. E quem for vivo então, poderá verificar se se justifica que os velhos do Restelo continuem a proclamar que “mais vale só do que mal acompanhado”

domingo, 29 de agosto de 2010

CALÇADAS À PORTUGUESA

Pedras da minha calçada
que as piso todos os dias
elas são a minha estrada
mas fazem-me judiarias

Com os seus baixos e altos
nesta castiça Lisboa
temos de andar aos saltos
pois uma ou outra atraiçoa

Com essa mania atroz
da calçada à portuguesa
impõe-nos a todos nós
perder noção de beleza

E vistas pois bem as coisas
em época de magras vacas
se se usassem mais as lousas
bem se poupavam patacas

Neste País de esperanças
pois sempre tem sido assim
aguarda-se por mudanças
para as pedras terem fim

Ver de cócoras rapazes
a partir pedras na mão
uma a uma que nem ases
provoca grande aflição

Em covas lá vão metendo
nas ruas da capital
com pedra a pedra enchendo
sob as vistas do fiscal

Que na Baixa pombalina
haja calçada bonita
pode até ser coisa fina
e agradar quem nos visita

Mas pedras pela cidade
em ruas de lés-a-lés
tenham santa caridade
e lembrem-se dos nossos pés

Quando uma pedra se solta
e outra ainda além
tanto buraco revolta
não nos digam que está bem

Tenham pois pena de nós
poupem verba ao País
autarcas, oh todos vós
cortem mal pela raiz

Se estamos bem na Europa
não sendo mundo terceiro
é bom ver como se poupa
usando bem o dinheiro

Sem ter de pôr mais na carta
aqui deixo este recado
de pedras está já farta
esta capital do fado

Por um bairro pois comecem
a tirar o empedrado
e se chove não tropecem
na lama do chão cavado

ôr lajes de metro e meio
em vez de pedras à mão
transforma em bonito o feio
e torna direito o chão

Qualquer rua no futuro
terá o caso lembrado
um Presidente seguro
fez um trabalho asseado

Lisboa deixa de ser
um campo tão mal lavrado
fica assim um prazer
caminhar por todo o lado.

BENGALA


DETESTO QUANDO alguém que me encontre, na rua ou em qualquer outro sítio, não me vendo já há certo tempo me largue: “estás com óptimo aspecto!” Fico deveras entristecido.
É que aos novos, esta exclamação que pretende ser de elogio, não tem cabimento que lhes seja dirigida, pois o lógico é que estejam sempre com um bom ar jovial e de acordo com a sua idade.
Logo, essa expressão do se estar com bom aspecto o que é que quer dizer? Cabalmente, que nem parece a idade avançada que se tem. Que causamos a surpresa de não surgirmos caducos, carregados de rugas, curvados pelo peso dos anos.
O pior é que, da próxima vez que voltarmos a encontrar a mesma pessoa que antes evidenciou tanto espanto pelo nosso ar sacudido de muita idade, a diferença se notará em seguida. Pois tudo decorrerá com a naturalidade de quem tomou conhecimento de que lá virá o ar acabrunhado de quem já mostra exteriormente o peso dos anos.
E quando a bengala passa a constituir uma demonstração de necessidade de apoio, situação que só é necessário experimentar um dia para convencer como é útil tal instrumento, então o espanto dos outros, até dos vizinhos, provoca uma chamada à realidade de que o andar, sobretudo nas ruas de Lisboa que primam pelo ondulado das suas calçadas, ditas à portuguesa, representa uma chamada de atenção de que o que sucedeu aos outros também acabou por bater à nossa porta.
O tempo de vida provoca mudanças. E até apetecia regressar ao século XIX, na altura em que os cavalheiros circulavam pelo Chiado ostentando as suas bengalas de punho de prata, sinal não de velhice mas de situação confortável na vida.
Que bem que ficava o Eça com o seu porte de gentil-homem, segurando uma bela bengala que, obviamente, o caixeiro da esquina não tinha o direito de usar!...

sábado, 28 de agosto de 2010

TRETA

Isto de ser poeta
e ter de rimar
é quase uma treta
com as sílabas a contar.
P’ra mim poesia
é coisa que eu sinta
pode ser fantasia
mas faça que eu minta

Vou dar um exemplo
que escrevo e contemplo

Vejo o homem sentado no jardim
Num banco, sozinho
Ninguém repara nele
Nem ele próprio dá pela solidão
Ficou isolado no mundo
Já teve gente, companhias
Mas as tristes circunstâncias
Fizeram com que fosse o último
E ele aí está à espera
Que a sua vez também chegue

Afinal, este velho abandonado
Só se diferencia dos outros
Dos que têm gente à volta
Pessoas conhecidas, família, descendentes
Porque esses falam com ele
Até talvez lhe digam palavras bonitas
Irão provavelmente acompanhá-lo até à última morada
Distribuirão entre si o que sobrar do mais velho
Mas, no fundo, que outra diferença existe?
Só porque não estão com ele no jardim?
Está acompanhado sentado na sala?

Vou, pois, escrever poesia
com rima
com a possível mestria
mas olhando para cima
não vendo quem está ao meu lado
porque tudo é enfado





ESPECTÁCULO


JÁ ME TENHO referido ao uso e abuso e abuso de palavras e expressões que são introduzidas no falar dos portugueses e que, de uma forma geral, têm base na repetição feita por alguns intervenientes, especialmente nas nossas televisões e que, fazendo gala na tal insistência no uso que, por sinal, até lhes deixa alguma marca que se mantém durante um certo tempo, o que na verdade conseguem é espalhar vícios linguísticos que não acrescentam enriquecimento à nossa bela língua pátria. E essa do “espectáculo”, pronunciada por tudo e por nada, sobretudo não se enquadrando no tema ou no objectivo do que está a classificar, para além de enfastiante altera o verdadeiro significado do que representa o gozo de ver, ouvir e sentir alguma coisa que merece ser colocada num plano superior.
E não é somente esta expressão em alguns pretendem insistir e que, infelizmente até pega, pois esse também horroroso “digamos”, largado por tudo e por nada e que para o que serve é para estabelecer uma paragem no discurso que está a ser feito, dando a impressão que constitui uma ajuda para preparar o que é pretendido dizer a seguir.
Não é a primeira vez que aponto estes enjoativos “empecilhos” na língua portuguesa e se observo idêntico vício a ser perseguido por gente ligada à política, no Governo ou fora dele, então o meu desconforto ainda mais se acentua.
Gente que, embora devendo usar uma linguagem simples e que chegue facilmente a todas as camadas da população nacional – coisa que até geralmente não fazem, para se darem o ar de grandes sapientes - , mais razão têm para não seguir as calinadas linguísticas, pois que os exemplos devem vir sempre de cima. Como sucedeu antes e, menos mal, se está a perder agora, que foram os casos dos “portanto” e dos “pois”, que inundaram o palavreado dos faladores sem sentido.
Mas, voltando a essa do “espectáculo” e do “espectacular”, como também se costuma acrescentar, sou levado a admitir que se trata da situação que se atravessa no País que temos e que, devido aos comportamentos de certos homens públicos que nos deixam de boca aberta, conduzem a que o que é mau seja considerado como um verdadeiro número de representação, o qual espanta a quem ele assiste.
E, pelo mesmo motivo, devido à incapacidade que se demonstra por cá de chegar ao fim das questões que se situam na área da Justiça – e não só -, pois que não alcançam nunca um termo convincente, principalmente se se tratam de situações que envolve em figuras mediáticas, acredito que será daí que ressalta a expressão repetida do “espectáculo”
Só pode ser isso!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

AS DIFERENÇAS

Ser igual a qualquer coisa
a um quadro ou a alguém
sendo ideia apetitosa
a mim não me tem refém

Cada um é cada qual
com virtudes e defeitos
muito bem ou muito mal
pois não há seres perfeitos

O que marca é a diferença
que dá personalidade
e vem logo de nascença

Afinando com idade
pode dar parecença
mas total igualdade

DESENCANTO POR ENQUANTO!...

TANTO FICOU no ouvido dos portugueses esse tema cantado numa novela televisiva, que me surgiu a ideia de tratar de tal desabafo, como sendo uma questão fulcral no decorrer da nossa vida: o tudo e o nada.
Que comparação se pode fazer entre aquele que tem tudo, que vive rodeado de fartura material, que não sabe o que há-de acrescentar ao enorme espólio que foi criando ou que recebeu por dádiva ou herança, que é possível comparar com o outro, o que olha em volta e só contempla o vazio, a ausência do que tantos consideram essencial? São dois pólos opostos, duas condições de existência que se olham, de um lado com sofrimento, com resignação, pelo cheiro a pobreza que paira em seu redor, até com alguma revolta por não lhe ter calhado um percurso parecido com o do ricaço, enquanto que da outra parte se constata um enfartamento que, por vezes, embora não seja regra geral, provoca arrotos inestéticos e confrangedores.
Ambos, porém, são seres humanos. Não se distinguem senão no que mostram por fora. Estão sujeitos aos mesmos problemas de saúde, com a diferença única de que uns podem recorrer aos meios mais adiantados de cura e os demais entregam-se ao sofrimento e aguardam vez à porta do hospital publico. Mas, quando a doença é fatal, nenhum dos dois resiste, podendo apenas, os que dispõem de posses, aguentar mais tempo. A sofrer.
No entanto, alguma coisa em pleno percurso da vida os iguala. E, por muito estranho que isso possa parecer, a verdade é que se trata precisamente do vestuário. A moda tem dessas coisas e, por mais revoltante que seja confrontarmo-nos com um capricho que os ditadores da moda impõem, o certo é que as calças de ganga de marca e caras, a imitar as que os trabalhadores braçais antes usavam, essas calças, logo depois de serem adquiridas, levam uns golpes na zona dos joelhos, mostrando buracos esfarrapados, julga-se que para darem um ar de pobreza que diverte os que não se encontram nessa situação. Será ridículo, provocatório, até uma maldade, mas os que brincam ao parecer sem o ser, lá sabem o que fazem!
Mas não é só no aspecto exterior que se verifica a diferença entre os dois extremos. O espírito não está sujeito ao poder do dinheiro. A riqueza espiritual não está condicionada pelo poder de compra. Isto significa, claramente que o senhor dos anéis, de todas as preciosidades que possam ser acumuladas, não tem de ser, de forma alguma, uma pessoa de espírito rico. Se existisse um fiel da balança sobrenatural que vigiasse as fortunas exteriores e as que existem dentro dos indivíduos, se esse avaliador da justiça tivesse, realmente, uma acção purgativa, para evitar acumulações, por certo que não se verificaria o pior, que é o dos escassos em bens materiais terem, ao mesmo tempo, ausência de um espírito rico.
Já o contrário, a situação dos afortunados materialmente serem, simultaneamente, ricos de espírito, esta saturação não será tão fácil alcançar. Um espírito, pleno de virtudes, que não aceite que o seu portador humano se desfaça de todos os valores materiais que sejam excessivos, dividindo o que sobra para diminuir o sofrimento de parceiros, esse é, de facto, um espírito mais do que pobre, é mesmo miserável.
Um indigente da vida, se for possuidor de riqueza espiritual, se for compreensivo e não revoltado, se, apesar da demasia do nada, não invejar o que sobressai dos ricos, talvez carregue, por dentro do fardo da pobreza, aquilo que fará falta a muitos que esbanjam: a felicidade.
Aqui, o nada e o tudo fazem uma união. Não ter nada e ter tudo, como diz a canção que a miudagem andou a cantar em certa altura, sendo uma letra que se pegou aos ouvidos, pode não ser tão difícil de conseguir como parece à primeira vista. Difícil não será… pode é ser raro!



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CARACOL

Lentidão é defeito?
Talvez seja para uns tantos
para outros é preceito
oferece seus entretantos
depressa sendo ideal
também pode ser um mal

Caracol devagarinho
não precisa de ter pressa
vai seguindo seu caminho
não tem de cumprir promessa
a subir ou a descer
o que não faz é correr

Com os pauzinhos ao sol
da concha lá vai saído
pouco a pouco o caracol
andando não faz ruído
não se mete com ninguém
e quer que o deixem também

Mas o homem, o tal malvado
descobriu esse petisco
não o deixa sossegado
come-o em vez de marisco
por alfinete espetado
não considera pecado

Até sua própria baba
é descoberta recente
com as rugas diz qu’acaba
e a usa muita gente
quem diria anos antes
qu’era amigo dos pedantes

Há quem se esfalfe e que corra
p’ratingir o seu destino
com a pressa há quem morra
em completo desatino
o caracol bem ensina
que a pressa desafina

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


TER ILUSÕES é ter uma espécie de esperanças. É sonhar com certa coisa de bom que se deseja ardentemente. É contar com o que virá no futuro. Porque ninguém aspira um amanhã desagradável. Não é normal que alguém ande iludido com um porvir que não corresponda ao que se aspira. Ter ilusões de que se consegue obter o amor de alguém, de que uma nova actividade desejada surgirá, de que a doença que nos atormenta ficará curada, no fundo, a ilusão é algo que transmite força para suportar os maus momentos.
Há, no entanto, que refrear as ilusões em excesso. Se são muitas, provocam cansaço. Sobretudo, pela espera que esses desejos inevitavelmente provocam. Chegar à conclusão que foi inútil manter uma ilusão, por vezes durante muito tempo, e de que o que aspirava não se realizou, é pior do que do que nunca se ter iludido. A mágoa de ter tido ilusões que se foram, que se perderam, é maior do que não conseguir iludir-se, de ser um conformado com a má sorte que não arreda pé.
Mas, percorrer uma vida sempre iludido, a pensar que tudo se resolve a contento, que o mal não quer nada connosco, podendo ser uma forma de abraçar à força a felicidade é, isso sim, viver em equívoco, andar enganado consigo mesmo e com o mundo que o rodeia.
Eu, por mim, já tive ilusões. Foram ficando pelo caminho. Também não estiveram presentes na minha vida de uma forma permanente. Tive dias. Dependeram das ocasiões. Acabaram por se desvanecer. Uma a uma. Chego agora à conclusão de que talvez me tenha iludido demais. Aspirei o impossível.
Se estou a escrever, como agora, e se não sustento a ilusão de que, numa dada altura, alguém lerá o texto que me sai da caneta, não vale a pena esforçar-me. Fico-me onde estou. Logo, neste caso, a ilusão é uma força. É útil mantê-la, para prosseguir na escrita. Se não admito que me pode sair a lotaria, não vale a pena comprar jogo. Quem perde é a Santa Casa. Se abdico da confiança de que um determinado remédio me pode fazer bem, ponho-o de parte.
Por isso, defendo o princípio de que, em certas ocasiões, é útil alimentar as ilusões. Só que devem ser controladas. Racionais. E não se devem manter durante muito tempo. Nem serem sempre as mesmas. Isso cansa. E quem espera… desespera!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

BRAÇO A TORCER

Se os homens fossem iguais
no pensar e no dizer
sendo até todos mortais
era grande o desprazer
opiniões diferentes
certo interesse provocam
e mesmo entre parentes
modos de ver não se tocam

É preciso é aceitar
aquilo que os outros são
cada um no seu lugar
quem sabe quem tem razão
por vezes nenhum dos dois
ambos estão enganados
e só tempos depois
descobrem que são culpados

Mas nem sempre se acusam
não querem dar a ver
do erro até se escusam
não dão o braço a torcer

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


ASSISTO, com frequência, a pessoas que, a falar, acompanham a entoação da voz com gestos largos, movimentos de mãos, mexidas do corpo nas cadeiras e arreganhos de cara. Na televisão, então, é corrente assistir-se a esses bailados que pretendem dar forma às palavras que vão sendo ditas.
Daqui para ali, de um lado para o outro, desta forma ou daquela, de alto a baixo, são tudo frases que justificam, com alguma razão, o complemento do gesto. Mas utilizar expressões mímicas quando o que se está a dizer, pela sua simplicidade, não necessita de complementos gestuais, parece ser um excesso que só é usado por quem pretende dar nas vistas.
É verdade que os latinos, de uma forma geral, são bastante mais expressivos nas suas conversações do que os anglo-saxónicos, por exemplo. Logo, a origem dos conversadores tem influência na forma de comunicarem. Mas, mesmo assim, no seio das nações latinizadas, nem todos utilizam a expressão corporal para transmitirem o que têm para dizer.
Nunca perguntei a qualquer desses actores em potência, o motivo de não manterem uma compostura serena quando se encontram a “vender o seu peixe”. Naturalmente, perante este tipo de inquérito, os protagonistas ofender-se-ão, por estarem convictos de que não praticam tal exagero.
Conhecendo eu, da televisão, um ou outro destes gesticuladores, tenho para mim que haverá uma dupla explicação para tamanho exagero na movimentação manual e corporal. A de pretenderem mostrar-se mais aos telespectadores, com alguma ponta de vaidade acrescida; e a de considerarem que não serão suficientemente explícitos só com a palavra, pelo que recorrem a oscilações de braços, mãos e até do corpo, convencidos que ficarão de que, dessa forma, até os menos esclarecidos compreendem o que se lhes quer dizer.
Seja como for, quem actua rigorosamente às avessas, ou seja, aqueles que falam com voz monótona, mantêm as mãos sem movimento seja qual for o tema que estejam a tratar, que não despegam os olhos de um ponto fixo e não dão mostras da mais pequena reacção facial, esses, o menos que se lhes pode chamar é de serem uns chatos. Não estimula manter uma conversa com tais múmias.
Quer dizer: nem oito, nem oitenta. Tudo deve ter conta, peso e medida.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

NÃO DEVO TER RAZÃO

Aquilo que nós pensamos
quando em tese insistimos
e depois nos admiramos
quando por fim consentimos
que afinal não é assim
que a razão não nos assiste
não vale fazer chinfrim
que a certeza não existe
ao chegar a esse ponto
dar a mão a palmatória
não fazer papel de tonto
e pôr fim na oratória
é o que se deve fazer
sair bem visto de cena
e com isso aprender
que teimar não vale a pena

E mesmo tendo razão
se o outro não a aceita
melhor oferecer a mão
porque amizade desfeita
só por uma teimosia
coisa que não vale a pena
pode ser que algum dia
noutra conversa amena
o assunto volte à calha
e quem antes discordava
já não faça de muralha
e com desculpa alinhava
e aí o que nos compete
é disfarce utilizar
em vez de deitar foguete
assobiar para o ar

As muitas vezes na vida
em que a razão é nossa
não tem de causar ferida
nem provocar qualquer mossa

Com cuidado e gentileza
mais vale fazer de tolo
porque mesmo com certeza
deve ao outro dar consolo

Não custa nada fingir
é como esmola ao pobre
no fundo é só repartir
e ter um gesto mui nobre

Já com dúvidas é pior
mais vale ficar calados
teimar é risco maior
dá azo a sermos julgados

Assim, prudência aconselha
em qualquer ocasião
ter sempre atrás da orelha
dúvidas sobre a razão

LÁ MUITO AO LONGE


SOU FORÇADO a interromper o período de descanso em relação à análise da situação política nacional, porque, por mais afastado que eu deseje estar em relação ao espectáculo degradante que nos oferece o panorama que nos é oferecido pelos profissionais dessa actividade que, digam lá o que disserem, constitui o modo de vida, aliás bastante abastada, de um elevado número de fulanos que se movimentam no ambiente em que se enfiaram e que lhes tem servido para satisfazer as suas ambições, repito, por muito que procure voltar as costas a tanta “sacanice”, lá chega o momento em que não resisto a surgir a público, neste meu blogue, pelo menos para desabafar o que vou acumulando no meu interior e que, se não o deixar sair, me faz correr o risco de explodir perante tantos e tão graves maus comportamentos que nos são dados observar por essas tais figuras que vivem à custa da chamada política.
Surjo agora porque isto dos tais políticos entenderem que as suas funções para bem do País é dedicarem-se a responder uns aos outros, maltratando-se mutuamente, utilizando expressões e utensílios de ataque verbal que se situam nas áreas das ofensas consecutivas, tal comportamento que é seguido, senão por todos é-o, pelo menos, pela maioria esmagadora desses participantes, o que constitui motivo para que as populações se afastem cada vez mais das linhas programáticas que deveriam figurar no topo de todas as causas. É certo que, nas manifestações partidárias que cada um dos grupos organiza, aqui e ali, um número elevado de participantes, empunhando bandeiras e gritando e repetindo frase já velhas de apoio, dão ideia de que, afinal, sempre existe muita gente que se coloca inteiramente ao lado de tais formações ideológicas, mas, se analisarmos o País por inteiro, o que ocorre na cabeça dos portugueses que, na maioria esmagadora dos casos, nem têm ideia do que o que cada partido pode e deve fazer, talvez possamos concluir que os poucos milhares de pessoas que, na maioria dos casos, são transportadas para um passeio com refeição oferecidos, concluiremos que esses sinais de apoio não passam de interesseiras presenças.
Mas, voltemos ao assunto que me levou a escrever hoje este texto: os dois partidos que mais se empenham em ocupar a plataforma governamental – que eu nem sei bem porquê, pois que a situação actual do País não é convidativa a assumir tamanha responsabilidade -, o PS e o PSD ocupam todo o seu tempo a denegrir a imagem do que se lhe opõe, o que, sob o ponto de vista democrático, significa uma autêntica demonstração de que, em ambas as partes, o espírito que se situa por detrás é o da ditadura pura e simples, pois que o não saber aceitar os pontos de vista que os outros defendem sem soltar logo com a maior agressividade que atinge a área das ofensas, isso é bem a prova de que ainda se encontra muito distante a prática natural dos princípios da Democracia, ou seja, embora cada um tenha os seus pontos de vista ideológicos, não é o permanecerem sempre de unhas afiadas para arranhar os adversários que faz com que se encontrem soluções para os problemas. Sobretudo numa altura destas em que não é com desavenças e provocações insultuosas que se consegue encontrar um caminho para tentarmos colocar Portugal salvo da catástrofe que está à vista.
Pretender, à viva força, vir a ocupar o lugar preponderante de um Governo não dá o direito de cada parte utilizar todos os meios para regatear o que pretendem, tanto mais que já se sabe que, após umas eleições e sendo um dos partidos o vencedor, o tempo que irá ser ocupado é o de acusar o perdedor de mau serviço prestado e de lástima pelas dificuldades em solucionar os problemas “são deixados pelo anterior ocupante do Executivo”. Somos peritos em criticar o passado, mas incapazes de resolver o futuro.
É sempre a mesma coisa. Quem toma posse é que é sapiente. Quem sai é o “burro”, com perdão para os tão simpáticos animais!...
O mal é que, nem daqui a cinquenta anos teremos políticos que consigam entender que é bom ouvir as opiniões mesmo dos adversários. Porque isso das Democracia é coisa que não se implanta por decreto e enquanto não for levada em consideração a opinião que já deixei aqui expressa por mais de uma vez, de que é urgente que, nos primeiros passos da educação escolar da nossa juventude, se inclua uma disciplina que, infelizmente, na vida familiar também não se pratica, a da prática democrática, a de saber ouvir e de respeitar as opiniões dos outros, mesmo que não coincidam com as nossas, enquanto tal não acontecer marcaremos passo neste nosso convencimento de que somos nós os melhores e os outros uns ignorantes.
Se, daqui a mais de cinquenta anos, este nosso País ainda der sinais de vitalidade, quem cá estiver e se lembrar do que tenho escrito, confirmará que a razão antes de tempo afinal sempre existe.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

CANSADO

Estou cansado do que fiz
do muito que já foi feito
ter querido o que não quis
levado coisas a peito
no fundo
confundo
o que neste mundo
é sempre segundo

Queria coisa melhor
ter vaidade numa obra
com a escrita ou pintor
mostrando arte de sobra
ser primeiro
de pé, pinheiro,
sem berreiro
bom viveiro

E se eu não me acredito
se ao alto eu não cheguei
o muito que deixo escrito
eu nunca renegarei
seja o que for
é suor
algum amor
muita dor

Mas a busca do talento
aquele que nunca fica
causa grande sofrimento
nem sempre se justifica
quem procura
com agrura
vive numa tortura
pode cair na loucura

Fatigado eu estou
mas se paro por momentos
já não sei p’ra onde vou
encontro outros tormentos
prossigo
castigo
afadigo
me obrigo

O que não quero é queixar-me
não vale já a lamúria
o que posso é castigar-me
rogar por génio com fúria
combater
querer vencer
e se perder
refazer

Chegado a esta altura
com tantos anos p’ra trás
este vício não tem cura
e mudar não sou capaz
aguentar
sem queixar
esperar
por outro ar

Cansado lá isso estou
p’ra isto não há remédio
eu sei bem p’ra onde vou
libertar-me deste tédio
então adeus
sonhos meus
enfiados nos seus breus
tapados por negros véus

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


SE ANALISO o País que me calhou em sorte ser onde nasci e me confundo com a multidão para obter os serviços que a administração pública tem de proporcionar, mesmo ou sobretudo com a má vontade dos funcionários, pelo menos uma boa parte, deparo com as razões ou parte delas por que Portugal está tão atrasado em relação ao resto da Europa. E faço sempre o mesmo raciocínio: se esta situação mudar, vai levar tanto tempo que não acontecerá durante o resto da minha existência. Temos enraizado o gosto pelo complicado, pelas dificuldades que provocamos uns aos outros; se depender de nós tudo faremos para castigar quem aguarda pela nossa boa vontade.
Dizem, com ar sabedor, os que se conformam: as ordens vêm de cima! Mas, mesmo sendo assim, pelo meio os portugueses vão acrescentando ainda mais problemas aos que as instituições oficiais já por si estabelecem. Acabar com os carimbos, os triplicados, o preenchimento de impressos extensos, complicados e com perguntas desnecessárias, terminarem as filas perante um funcionário super-escrupuloso que não dá mostras de ter pressa e que sempre pede mais um papel que falta, tudo isto faz parte das vias-sacras dos naturais deste País, deixando a impressão de que se as coisas por cá fossem fáceis esta terra não teria graça nenhuma.
Perder uma manhã ou até um dia inteiro para conseguir resolver os castigos burocráticos, faltar ao trabalho produtivo por tal motivo, essa missão corresponde à sina de um verdadeiro português da silva. Como constitui um preceito deixar sempre para o último dia o que teve para fazer sem pressas durante largo tempo. Mas, afinal, não farão parte estas normais anormalidades da felicidade de um povo?
É isto que me faz pensar. Se, por artes mágicas, passassem os portugueses, de um dia para o outro, a ter tudo facilitado, a, por exemplo, como já acontece em Espanha e noutros países, ter um só número de cidadão que constasse em todas as dezenas de cartões de que tem de ser portador para provar quem é e, num simples segundo, poder ser atendido em qualquer serviço do Estado utilizando essa máquina hoje tão corriqueira que é o computador, se já acontecesse isso hoje entre nós tornar-nos-íamos mais felizes? Então o engraçado, o característico, o típico não é mantermos os hábitos ancestrais, os que vêm de épocas remotas, esses que os árabes solidificaram nesta Terra em que o fado, por mais que o modernizem, se conserva com um fundo mastigado de tristeza? Não será essa rotineirice que agrada a este povo que tanto medo mostra das mudanças?
Por isso, o ronceiro e lesma carro eléctrico, ao mesmo tempo tão prático por bastar conhecer-se os números das carreiras para se ser conduzido aos destinos dentro da cidade, o “amarelo” que obriga, por vezes, a formar longas filas à espera do próximo que, depois, não vem só um mas dois ou três seguidos, esse meio de transporte não pode desaparecer, por mais que avance a modernidade dos meios de transporte. As subidas e descidas para a Graça, para Campo de Ourique, para o alto da Ajuda não seriam as mesmas sem tais meios de transporte. Desde que surgiram no seu século e até hoje pouco mudaram. Só o custo dos bilhetes!...

domingo, 22 de agosto de 2010

O HOMEM PERFEITO

Tome-se um homem qualquer
a viver numa casinha
junto da sua mulher
com vida sossegadinha
de manhã para o trabalho
o almoço contadinho
o cabelo já grisalho
o fato bem compostinho
como todos passa os dias
sempre iguais mas não se importa
não tem nenhumas manias
e com pouco se conforta
seu cigarrito lá fuma
de leitura pouco gosta
de futebol sim, em suma,
e no seu clube aposta
um cafezinho à saída
com os colegas de luta
altura de uma bebida
e também de uma disputa
p’ra defender suas cores
e jogar no totobola
que aliviaria as dores
e descansaria a cachola
dava p’ra pagar ao banco
a hipoteca malvada
talvez abrisse um estanco
passaria a ter criada
mas se isso não se der
que é o que se tem mais certo
lá continua a viver
sujeito a todo o aperto
de chegar ao fim do mês
com a carteira vazia
que isso de rigidez
é tal e qual a azia
depois de uma almoçarada
como aos domingos se passa
dia de não fazer nada
e de gozar a madraça
pois o dinheiro não dá
para ter outra opção
p’ra além daquilo que há
e que é ver televisão
já que na segunda-feira
de novo o mundo rola
e quer se queira ou não queira
filho segue p’ra escola
a mulher vai trabalhar
o autocarro está
como sempre a abarrotar
mas outro meio não há
para ao serviço chegar
repete-se assim a cena
tem sido igual toda a vida
também não há que ter pena
basta esperar a partida
com certa resignação
a velhice não perdoa
as doenças também não
por tal não se gasta à toa
prevenir o amanhã,
os amigos vão morrendo
já é pouca a vida sã
o remédio é ir vivendo
com certa resignação
à espera do seu caixão.

Este é o homem modelo
o que nasce, vive e morre
que não sendo pesadelo
faz o que pode e lhe ocorre
não é muita a ambição
e de ter mais bem gostava
não sai do que está à mão
quando pode desencrava
sem ser muito resoluto
já que tem muitas cautelas
norma que lhe vem de puto
evitando as mazelas
e conservando os empregos
não mudando de patrões
já que os desassossegos
é que causam confusões
mais vale pouco que nada
dizem os mais cautelosos
caem sempre em borrada
os que são gananciosos
casado, muito calminho
com um filho que consola
não sendo um coitadinho
tem casinha pachola
nos arredores da cidade
e p’ra ser feliz já dá
não vive da caridade
quem quer demais sofrerá.

Mas ser assim comedido
não ter ambições na vida
justifica ter nascido
e andar por cá de fugida?
Resposta eu cá não tenho
nem quero ser eu juiz
por isso me abstenho
não sei o que é ser feliz.
Homem modelo é assim
nunca desejar de mais ?
Eu falarei por mim
nem todos são iguais
mesmo sem ter o talento
dos grandes homens de génio
há que lutar cem por cento
ainda que falte oxigénio

Com o filho já crescido
que partiu p’ra sua rota
manteve o seu apelido
e é um rapaz janota
os seus estudos lá cumpriu
até onde quis chegar
e a uma moça pediu
para com ele casar
o trabalho o afogou
tinha o destino traçado
uma casa pois comprou
com o dinheiro emprestado
começou tudo de novo
está visto, tinha que sê-lo
é essa a sina do povo
claro, do homem modelo

De vez em quando vem um
que sai daquele padrão
não sendo assim tão comum
juntos fazem multidão
alguns de cabeças espertas
os que fazem por passar
por portas semi-abertas
onde tentam se esgueirar
e quando conseguem ficam
à frente dos que esperam
e assim sempre debicam
pois são eles que aceleram
e de carro ou a pé
de cotovelo em riste
fazem o seu finca-pé
mas que é triste, isso é triste.
Os outros, que poucos são,
sobressaem da manada
nasceram com o condão
de deixar obra do nada;
são os génios, os tocados
pelo dom da Providência
serão os iluminados
na escrita ou na ciência
ou também em qualquer arte
com trabalho e muito empenho
são os chamados aparte
os que mostram ter engenho.
Só que a regra geral
é que os espertos enricam
acumulam capital
como o fazem não explicam;
os outros, os geniais,
quase sempre até morrer
mesmo sendo os anormais
não conseguem convencer
e só depois da partida
e até passados anos
é então reconhecida
a obra de alguns fulanos
com estátua em jardim
ou numa rua o nome
pagando-se assim por fim
a alguém que passou fome
É este o mundo que temos
em que o homem-modelo
mesmo que não aprovemos
é o que leva o selo
de cumpridor, direitinho
levando uma vida inteira
sem sair do seu caminho
sempre com eira e beira

Saudemos tal personagem
Prestemos-lhes a homenagem

Mas seguir o seu caminho
a mim não causa fascínio!












DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Ter pena de alguma coisa, de alguém, de um ser vivo que atravessa um mau momento, sentir dor por tomar conhecimento de uma situação desagradável que aflige alguém por quem temos alguma amizade, essa sensação de desejar que as coisas não estejam a correr de forma sofredora é algo que, sem dúvida, constitui uma preocupação que pode surgir em determinada altura.
Mas essa sensação de ter pena não ocupa todo o tempo da nossa existência. Há momentos de ter pena. Como há ocasiões em que essa pena é obscurecida por outro qualquer sentimento, até pela alegria.
A pena é um sentimento que surge com a ajuda de diferentes verbos auxiliares. Pode-se ter pena, como algo pode fazer pena, ou uma situação dar pena como igualmente se pode sentir pena. Gramaticalmente é assim. Resta saber com que grau essa sensação actua no nosso interior.
Há quem acompanhe a pena com choro. Como há quem não transmita para o semblante o que será uma tristeza. Há quem tenha pena dos outros, de alguma contrariedade que sucede a terceiros, de um acontecimento que não corre de feição. Já ter pena de nós próprios não é tão vulgar. Termos pena de ser baixos, gordos, feios, carrancudos ou com quaisquer outras características, mesma as inversas, que sejam consideradas contrárias aos nossos desejos. Transportar esse peso de desgosto pode provocar tristeza.
Por vezes penso se alguém, alguma vez, teve pena de mim. Pena de não me ver deslumbrante de felicidade, pena por me contemplar no café, debruçado sobre folhas de papel, a preenchê-las com textos infinitos. Pena por não saberem quem é aquele indivíduo que, todas as manhãs, ocupa uma mesa, bebe a sua chávena cheia de café, vai despejando o copo de água aos golos e, sempre de caneta em riste, não pára com as suas escritas.
Deve ser um sonhador, pensarão. Alguém que descarrega no papel os desânimos da vida. Um pobre diabo que estará convencido de que verá um dia os seus trabalhos literários transformados em livros, admitirão outros mais próximos da realidade.
Será que esses que se interrogam terão, no fundo, pena de mim?
Seja como for, no que me diz respeito eu não atingi ainda – espero que tal nunca suceda – esse patamar de ter pena de mim. Penso somente que se estará a perder, por não ter acabado ainda este rol de desabafos que ando para aqui a debitar, alguma coisa que terá o seu valor. Por pouco que seja. E, por mais que não queira, como vou acompanhando aquilo que as editoras vão lançando com frequência, não podendo deixar de estabelecer comparações, mais razão encontro para não ter pena de mim. Terei pena de outros.
No entanto, neste momento dá-me para não hesitar em fazer esta afirmação: se não chegar o momento de saírem a lume estes textos, isso sim, É UMA PENA!...

sábado, 21 de agosto de 2010

JANELA

A janela para o mundo
é meu lugar preferido
posso ver tudo ao fundo
sem dar uso ao ouvido

A janela bem aberta
deixa entrar o bom ar puro
uma espécie de oferta
mesmo estando no escuro

Boa janela da vida
cá do alto tudo vejo
daqui tomo a medida
às vezes até invejo

Mas aqui estou defendido
das ruas, do reboliço
não me agride o alarido
pois não chega ao meu cortiço

Nem sinto os encontrões
que bem sofre o pedestre
bem longe das multidões
por isso me sinto o mestre

Mesmo assim algo me falta
p’ra que estar vivo eu me sinta
é ter o cheiro da malta
conviver com o tio Pinta

Esse que fala barato
tem graça e não ofende
ainda que às vezes chato
com ele algo se aprende

Mas desse e doutros tais
ponho-me sempre à tabela
quando não aguento mais
o refúgio é a janela

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Ando cada vez mais confuso. Por vezes chego a admitir que perdi a noção do que gosto, tantas são as contradições. E as distâncias que me separam daqueles que aplaudem aquilo que eu considero pouco suportável, esses afastamentos vão sucessivamente aumentando. Seguramente sou eu que ando enganado. Deveria talvez rever o meu sentido de crítica. Sujeitar-me à opinião de uma certa maioria. Ou, se não fazem parte do maior número daqueles que aplaudem, são, no mínimo os que mais se manifestam, dado que os outros encolhem os ombros e deixam andar. E essa, sim, constitui, de facto, uma maioria.
Refiro-me, com esta observação, a dois sectores que me despertam mais atenção: os livros que se publicam e as canções e os cantores portugueses que as interpretam. Todo o resto, e é muito, não cabe nesta apreciação.
No que diz respeito à literatura, por muito mal que me possa ficar sendo eu também alguém que procura intervir nesta área, arrepelo-me por constatar que um elevado número de edições é facultado a autores que, vindo sobretudo de áreas que beneficiam de uma projecção visual, suscitam o interesse de potenciais editores. Se alguém armou um escândalo de qualquer espécie, matou o outro cônjuge, foi autor de um roube de grande dimensão, teve intervenção num caso político que foi muito falado, se é proxeneta com imagem pública, ou “gay”, se é ou foi futebolista, pertenceu ao mundo do espectáculo, basta fazer constar que vai escrever um livro de memórias ou outro e logo fica descansado com o interesse que surge de um editor. E a promoção que é feita de seguida, com entrevistas e comentários, garante a venda de uns tantos exemplares.
No caso das cantorias, não é fundamental que as músicas e as letras daquilo que interpretam sejam razoavelmente audíveis, nem que as vozes que as propagam tenham um mínimo de qualidade. O que é preciso é que os chamados cantores ponham um certo ar de mistério na sua imagem, de preferência usem óculos escuros, não deixem entender as palavras que fazem parte do texto cantado e que, no capítulo da voz, a aparência do som seja mais semelhante a um arroto do que a qualquer melodia. Sendo assim, estão garantidas algumas edições de discos e convites para participar no que hoje, escandalosamente, se chama “concerto”.
Perante este panorama, controlo atentamente a rádio e a televisão. O botão para mudar as estações está sempre debaixo de olho. Eu defendo-me. Mas a verdade é que a confusão não me larga. Não há dúvida que não é a qualidade que ganha adeptos neste mundo que nos rodeia. Quero dizer, no País que é o nosso.
Ou será que, no fundo, sou eu que estou enganado?



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Não sou capaz de andar pelas ruas sem rumo.
De caminhar sem ter um destino.
Isso de dar uma volta nunca me suce
Se saio de onde estou é porque vou para outro sítio determinado.
Tenho um objectivo, um ponto estabelecido.
Nem que seja para depois regressar aonde estava antes.
E alguém tem alguma coisa com isso?


VELHICE


Que fazes aqui tu velho
sentado neste jardim
aguardas acaso o fim
farto de te veres ao espelho?

Olha que o tempo passado
bom ou mau, seja qual for
deves guardar com amor
e não apartá-lo ao lado

O que viveste foi vida
ninguém t’a pode tirar
o que se pode guardar
é sempre antes da partida

Há quem fosse mais feliz
que a sorte lhe não faltasse
mas talvez a quem amasse
vivesse noutro país

Conforma-te, pois, meu velho
que chorar não vale a pena
se a vida não foi pequena
deixo-te aqui um conselho

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Está dito e redito que Portugal é, cada vez mais, um País de velhos. Nem é preciso irmos propositadamente a uma terra do interior, a uma pequena aldeia seja onde for por esses campos fora, onde a juventude praticamente não existe, pois se nos sentarmos algum tempo numa rua de Lisboa ou do Porto ou mesmo de alguma das nossas cidades maiores a assistirmos ao movimento, para descobrirmos que o número maior de pessoas que passam é constituído por gente que deixou, há bastante tempo, de fazer parte dos homens de amanhã.
Dizem as estatísticas que o número de portugueses de idade é três vezes maior ao de novos. E isso quer dizer, entre outras coisas, que o futuro do nosso País está seriamente comprometido e que só contando com as crianças que nasçam entretanto, filhos de imigrantes, pessoas de outras origens e sem tradição lusitana, só concedendo a nossa nacionalidade a essas crianças de cores diferentes das nossas e de línguas e costumes paternos que não se assemelham aos que assumimos, apenas dessa forma será possível solucionar o escasso nascimento dos chamados portugueses de gema, o que, valha a verdade, até será possível que altere e melhore bastante a qualidade daquilo que somos hoje.
Como historicamente é sabido, aquilo que se pode chamar de características específicas dos portugueses surgiu de uma mistura de diferentes povos que, nos longínquos antanhos, resolveram vir instalar-se nesta Península e que, com as suas misturas em que interferiram os muçulmanos nos primeiros séculos da nossa era até à altura da sua expulsão, para além de franceses que, na sua invasão na zona das Beiras deixaram alguma marca, não esquecendo o que, no tempo de Afonso Henriques, surgiu da comunhão galaico-lusitana que, ainda hoje, constitui uma marca específica, este modelo situado nesta Península que, verdade seja dita, deveria ter grande satisfação (não gosto de usar a expressão orgulho) em ser bem diferente de todos os outros da Europa, nesta altura da vida e face às vagas de imigrantes que se instalam nesta ponta deveria cuidar de aumentar o rejuvenescimento das suas hostes, de forma a que não se confrontasse, daqui a poucos anos, perante a realidade de ver perdidas as ligações às suas origens.
Digo acima e reflicto sobre as consequências. Na verdade, perante os caminhos que têm sido seguidos no nosso País pelos maiores responsáveis da conduta nacional, face ao comportamento pouco recomendável, pelo menos dentro de portas, dos cidadãos portugueses, ninguém pode garantir que a introdução de sangue exterior no vaso que tem sido usado por cá não constitua uma melhoria que leve a que muito se altere no que diz respeito a levantarmos esta Pátria, com um passado histórico que muito nos honra, ao nível que nos deveria caber.
É mais uma esperança das muitas que acalentamos. E mais uma menos uma, não e por aí que se perde ou ganha alguma coisa. Toda a vida foi aí que constituiu a resistência que, a muito custo, conseguiu fazer com que tivéssemos chegado até aqui. Mal, mas vivos!