quarta-feira, 18 de agosto de 2010

NUNCA FIZ

Aquilo que eu nunca fiz
não me serve de experiência
quando muito a imaginação
procura dar-me uma ideia
mas vaga
se bem que falsa e errada
não é a realidade
aquilo que é preciso
para levar a cabo
um trabalho
uma ocupação
que os outros têm ou tiveram
e que eu só ao longe
vislumbro

E como
analisando o mundo
reconheço que aquilo que eu fiz
foi uma migalha,
em relação ao mundo que se faz
tenho de concluir
que os meus conhecimentos
são ínfimos
o que quer dizer
que eu não sei, realmente, nada
e que tenho de reduzir-me
à minha insignificância
quando oiço cada um
dos que já fizeram isto e aquilo
falar sobre as suas experiências


DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Por vezes, as estatísticas deixam-nos ficar desconcertados. Pode-se já ter uma ideia aproximada das situações, mas quando os números indiscutíveis surgem a lume, nessa altura caímos na realidade nua e crua e perguntamo-nos como foi possível ter-se chegado a tamanho extremo.
Isto vem a propósito de ter sido divulgada uma notícia de que o número de funcionários que trabalham para o Estado em Portugal atinge os cerca de 730 mil, o que equivale a dizer que se dispõe de um funcionário para cada 17 cidadãos do nosso País.
Ao comparar-se este ratio com situações idênticas na Europa – porque é sempre essa a equivalência que vale a pena fazer-se, dado que, também em tudo que se refere ao que ocorre no nosso País, pretendemos sempre colocar nos mesmo pratos da balança os valores de cada um dos parceiros que se encontram no barco europeu -, chegamos à conclusão de que nos encontramos, neste particular, também em posição deficitária. A Espanha, por exemplo, e dado que se encontra aqui ao nosso lado, conta com um funcionário estatal por cada grupo de 34 habitantes e a Alemanha fica-se pelos 28.
O confronto verbal que se tem mantido, entre sindicatos e organização estatal, em que os primeiros defendem que não há em Portugal excesso de trabalhadores a serem suportados pelo erário público, esse só terá fim quando um governo do nosso País passar das intenções para a realização do que se torna urgente e obrigatório fazer, que é a tal prometida estruturação de todos os serviços públicos que se encontram espalhados e que ocupam diferentes locais, uns de propriedade oficial e outros por aluguer de andares e até de edifícios completos, tudo situado em zonas distintas.
Enquanto não houver aquilo que em Madrid é uma realidade há um ror de anos, que é o chamado “Barrio de los Ministérios”, juntando numa só zona tudo que se refere a repartições do Estado e, anulando a anomalia de repetição de serviços com todos os custos que tal abarca (como seja o da duplicação e até triplicação de viaturas ao serviço de directores excessivos), enquanto isso não for cá feito não haverá forma de apurar, com absoluta certeza, se a prestação de serviços públicos é feita com o número exacto de funcionários e se a eficiência de actuação depende, na realidade, da falta de gente ou se não será por excesso de burocracia.
O sector jurídico aí está para tentar mostrar se o mau funcionamento dos tribunais se deve a falta de servidores nessa área ou a demasia de empecilhos criados pelos serviços e seus servidores.
Mantemo-nos e provavelmente seguirmos nessa via de não sermos capazes de enfrentar os problemas de frente é uma coisa.
Entretanto, nós, os que estamos vivos mas já pertencemos à craveira dos que não estarão por cá muito tempo para podermos apreciar as mudanças que são inevitáveis, não podemos fazer outra coisa que não seja ter esperança de que a rapaziada de agora e crescida dentro de alguns anos venha a ter a preocupação inevitável de reduzir gastos com os dinheiros públicos e, pelo contrário, investindo na melhoria do aparelho do Estado.
Entretanto, tem-se vindo a assistir a greves periódicas que uns tantos profissionais da manipulação de massas levam avante, para tentar conseguir um aumento de salários, isto é, o acréscimo de gastos de verbas públicas, extraindo-as de um saco que está bastante diminuído.
Vá lá ser-se prior de uma freguesia destas!...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

FELICIDADE, O QUE É?

Quando me ponho a pensar
e a tentar entender
o valor do respirar
satisfação de viver
felicidade, bem grito
para que longe me sintam
com este ar de aflito
e com isso não desmintam
que é difícil alcançar
essa tão grata benesse
podendo então proclamar
que por vezes aparece
sendo assim é não largar
já que ela sendo rara
e que não é só amar
que por vezes a mascara
da ilusão do feliz
todo o mais esquecendo
e não ligando à raiz
do que se está vivendo

‘Inda bem que não se sabe
felicidade o que é
já que ao todo não cabe
por maior que seja a fé
em pleno no humano
e em qualquer condição
e nem mesmo por engano
ela se encontra à mão
ser feliz um dia sim
infeliz um dia não
isso acontece em mim
e me serve de lição
p’ra suportar os desgostos
de que é bem farta a vida
podendo ajudar os gostos
tudo antes da partida

Fico então a perguntar
se isso de feliz ser
se pode a alguém roubar
só porque nos dá prazer.
Assim a felicidade
cabe em mim na perfeição
basta que tenha vontade
p’rassentar no coração?
Que não, é a resposta a dar
cada um terá a sua
não há pois que invejar
a felicidade qu’é tua

Saúde, amor e dinheiro
dizem ser trio venturoso
qual deles o primeiro
já é tudo bem custoso
muita gente muito rica
do roubo tem muito medo
outra alarmada fica
do amor acabar cedo
a saúde essa sim
a todos é bem precisa
mas ela também tem fim
e sozinha é indecisa

A felicidade total
se alguém a tem neste mundo
encontrou o ideal
mas no fundo, bem no fundo
lá andará assustado
a menos que em consciência
não se haja ainda dado
conta de uma vivência
única, quase anormal
pois será até doente
a pedir o hospital
para tratar sua mente

QUEM NOS ACODE?


QUEM SE HABITUOU a ler regularmente este meu blogue já sabe que o optimismo doentio que paira em várias zonas do nosso País, sobretudo na área governamental com o José Sócrates à frente de tal pelotão, é desmentido pela análise que faço daquilo por que estamos a passar. E por muito que queira salpicar algum sal de boas perspectivas para o futuro, não consigo, honestamente, transmitir um mínimo de esperanças que levem a que crie um ambiente de boas perspectivas. Por isso, conforme tive o cuidado de informar, iria interromper, durante o tempo que considerasse suficiente, esses textos de que alguns leitores me acusavam de ser excessivamente pessimistas. E passei a dar conta de partes de um livro que tenho para publicar e que levará o título de “Desencanto por enquanto!...”, no qual incluo também alguma poesia da minha fornada, retirada da muita (são milhares) que tenho para um dia dar a conhecer.
Mas hoje abro uma excepção. Perante o andamento continuado que leva Portugal e em que não se vislumbra uma saída que, verdade seja, também não estará assim tão disponível no adiantado a que chegámos sem terem sido tomadas as medidas que se impunham há bastante tempo, volto hoje a interferir nessa área da desgraça que nos atormenta.
Pois é, nós que, com as nossas idades já não nos encontramos incluídos naqueles que, dentro de poucos anos, teremos de aguentar com o pagamento das dívidas e que, nesta altura, já nos cabe suportar a obrigação de ir liquidando os juros que, por sinal, não param de aumentar dia-a-dia, ainda seremos capazes de não tomarmos conta do que vai ser a limpeza geral dos nossos bens para fazer frente ao que gastamos e que é sucessivamente superior ao que produzimos. A não ser que, como tenho advertido há bastante tempo e que não tem sido levado na devida medida por aqueles que preferem viver no engano, as reformas que ainda estão a ser pagas venham a sofrer, primeiro, de uma redução percentual, e depois, face à carência de meios que o Estado enfrenta e vai ainda ter de encarar, se atinja o ponto de, sei lá, não poderem ser liquidadas. Já se falou recentemente nos dois meses superlativos que constituem uma norma e que, dentro em pouco, serão provavelmente eliminados. Por isso tudo, a juventude dos nossos dias, essa que, amanhã, vai ser a que receberá nas costas a “herança” que a actual geração lhe deixa, para além do desemprego que, nesta altura, constitui já um sofrimento que não se apresenta com hipótese de solução, essa camada de população irá revoltar-se contra os que, anos antes, não foram capazes de evitar que o pior lhe viesse a cair em cima. E sabe-se lá o resultado que advirá dessa recusa dos habitantes de Portugal. Tudo é possível suceder.
Não vou falar de números. Mas as contas, essas eu tenho-as feitas. E a conclusão a que chego e que contradiz a maldade dos governantes de agora que não têm a coragem de falar verdade aos portugueses, mostra-me – como sucede a outros cidadãos que até se apresentam perante as câmaras a escancarar as portas da realidade – que não existe desejo de cá ficar muito mais tempo a assistir ao terramoto que irá deixar sem solução o nosso País, e que o futuro que surgirá bem contribuirá para que choremos a História que, durante algum tempo nos séculos passados, nos colocou como exemplares nas descobertas, embora depois também revelássemos a nossa incapacidade em tirar daí qualquer proveito em nosso favor e até em benefício dos que lá nasceram.
E, ainda por cima de tudo isto, os fogos que, tendo sido de origem criminosa, como foram já declarados, se encontram há mais de uma semana a alastrar por todo o País, estão a acumular prejuízos e uma cada vez pior vida aos portugueses.
Este interregno no meu blogue é apenas para recordar que estou atento e que volto a deitar a mão ao meu “Desencanto por enquanto!...”, esse original que, também por parte dos editores que temos, está a aguardar que apareça nas livrarias.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Os humores, provenientes das circunstâncias que se vivem, vão alterando os comportamentos.
É também o que se passa comigo.
Vou variando e ainda bem.

GÉNIO

Quem não tem génio e talento
e sabe que assim é
é um conformado
desconsolado

Quem não tem génio e talento
mas luta para os ter, sem conseguir
é um destroçado
um infeliz

Quem tem génio e talento
mas não acredita
é um desconsolado
um mártir

Quem tem génio e talento
e os outros o festejam
não sente nada
já está morto

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Tanto ficou no ouvido dos portugueses esse tema cantado numa novela televisiva, que me surgiu a ideia de tratar de tal desabafo, como sendo uma questão fulcral no decorrer da nossa vida: o tudo e o nada.
Que comparação se pode fazer entre aquele que tem tudo, que vive rodeado de fartura material, que não sabe o que há-de acrescentar ao enorme espólio que foi criando ou que recebeu por dádiva ou herança, que é possível comparar com o outro, o que olha em volta e só contempla o vazio, a ausência do que tantos consideram essencial? São dois pólos opostos, duas condições de existência que se olham, de um lado com sofrimento, com resignação, pelo cheiro a pobreza que paira em seu redor, até com alguma revolta por não lhe ter calhado um percurso parecido com o do ricaço, enquanto que da outra parte se constata um enfartamento que, por vezes, embora não seja regra geral, provoca arrotos inestéticos e confrangedores.
Ambos, porém, são seres humanos. Não se distinguem senão no que mostram por fora. Estão sujeitos aos mesmos problemas de saúde, com a diferença única de que uns podem recorrer aos meios mais adiantados de cura e os demais entregam-se ao sofrimento e aguardam vez à porta do hospital publico. Mas, quando a doença é fatal, nenhum dos dois resiste, podendo apenas, os que dispõem de posses, aguentar mais tempo. A sofrer.
No entanto, alguma coisa em pleno percurso da vida os iguala. E, por muito estranho que isso possa parecer, a verdade é que se trata precisamente do vestuário. A moda tem dessas coisas e, por mais revoltante que seja confrontarmo-nos com um capricho que os ditadores da moda impõem, o certo é que as calças de ganga de marca e caras, a imitar as que os trabalhadores braçais antes usavam, essas calças, logo depois de serem adquiridas, levam uns golpes na zona dos joelhos, mostrando buracos esfarrapados, julga-se que para darem um ar de pobreza que diverte os que não se encontram nessa situação. Será ridículo, provocatório, até uma maldade, mas os que brincam ao parecer sem o ser, lá sabem o que fazem!
Mas não é só no aspecto exterior que se verifica a diferença entre os dois extremos. O espírito não está sujeito ao poder do dinheiro. A riqueza espiritual não está condicionada pelo poder de compra. Isto significa, claramente que o senhor dos anéis, de todas as preciosidades que possam ser acumuladas, não tem de ser, de forma alguma, uma pessoa de espírito rico. Se existisse um fiel da balança sobrenatural que vigiasse as fortunas exteriores e as que existem dentro dos indivíduos, se esse avaliador da justiça tivesse, realmente, uma acção purgativa, para evitar acumulações, por certo que não se verificaria o pior, que é o dos escassos em bens materiais terem, ao mesmo tempo, ausência de um espírito rico.
Já o contrário, a situação dos afortunados materialmente serem, simultaneamente, ricos de espírito, esta saturação não será tão fácil alcançar. Um espírito, pleno de virtudes, que não aceite que o seu portador humano se desfaça de todos os valores materiais que sejam excessivos, dividindo o que sobra para diminuir o sofrimento de parceiros, esse é, de facto, um espírito mais do que pobre, é mesmo miserável.
Um indigente da vida, se for possuidor de riqueza espiritual, se for compreensivo e não revoltado, se, apesar da demasia do nada, não invejar o que sobressai dos ricos, talvez carregue, por dentro do fardo da pobreza, aquilo que fará falta a muitos que esbanjam: a felicidade.
Aqui, o nada e o tudo fazem uma união. Não ter nada e ter tudo, como diz a canção que a miudagem andou a cantar em certa altura, sendo uma letra que se pegou aos ouvidos, pode não ser tão difícil de conseguir como parece à primeira vista. Difícil não será… pode é ser raro!



domingo, 15 de agosto de 2010

Oxalá não deixe atrás de mim um rastro insuportável.
Mas, a minha única defesa é a resposta que deu Picasso a uma das suas mulheres, quando esta o acusou de ser mal disposto com os amigos e este lhe respondeu: “é que com os outros, não me interessa o que pensem de mim; nem me dou conta de que existem!”
Será uma desculpa. Cada um arranja a sua.

GAVETA

Gaveta que guarda
segredos de outrora
é coisa que tarda
‘inda não é hora
de querer abrir
p’ra não recordar
e ter de engolir
o que a guardar
e nmão sendo peta
ficou na gaveta

Era então desgosto
mazelas d’antanho
hoje é já sol posto
papéis não apanho
reler hoje em dia
o que então guardei
isso não faria
nem jamais farei
não abro a gaveta
não vou eu abri-la
falta-me a vontade
não quero senti-la
dar-lhe liberdade
outros que o façam
sem eu estar a ver
e que se desfaçam
não quero saber

Não estando presente
no mundo dos vivos
quem não vê não sente
nem dá mesmo ouvidos

Também não importa
não estarei p’ra ver
fechou-se a porta
que posso fazer?

Gaveta não puxo
falta-me a coragem
será mesmo um luxo
oferecer viagem
ao que há tantos anos
está encafuado
não causando danos
por estar olvidado

Não vejo agora
quem ficando cá
após minha hora
s’interesse quiçá
por ler o que fica
pois se enquanto vivo
não ligam nem nica
ao que é meu activo
de escrita, pudera,
que o outro se houvesse
seria quimera
seria benesse
bem apetecida
coisa que um poeta
ao longo da vida
não deixa em gaveta.



DESENCANTO POR ENQUANTO!


Andavam um dia destes a pretender avaliar qual seria o homem mais rico do País. Surgiram nomes e apontaram-se valores. Fizeram-se comparações com outros milionários estrangeiros. Os jornais reproduziram caras, publicaram biografias, fizeram elogios a quase todos. Cada um deles deve ter sentido aumentar o seu ego, mas, por outro lado, também terá feito subir a preocupação quanto à segurança, ao perigo de ver acrescido o risco de uma malfeitoria praticada por outros para obter avultadas somas por resgates.
O homem corrente, como é o meu caso, não lhe passa pela cabeça que um infortúnio destes lhe possa suceder. Não se volta para trás na rua para se assegurar que não é seguido e quando sai a porta de casa não se preocupa antes para certificar-se que não haverá caras patibulares nas redondezas. Muito menos contrata seguranças que o acompanhem para toda a parte e não lhe deixem um momento sem estar a ser observado.
Em certa altura da minha existência, dei-me a miúdo com um homem muito rico deste País. Foi uma circunstância que permitiu que eu frequentasse a sua casa, porque tinha a impressão que o fulano apreciava a minha companhia. E como só lia jornais desportivos, se bem que, por razões de aumento de património, se dedicasse a coleccionar obras de arte e tivesse comprado uma preciosa biblioteca de livros raros, os quais nunca tinha tido a curiosidade de folhear um deles que fosse, como não estava ao corrente das notícias mais comezinhas utilizava-me para o informar de viva-voz sobre o que se passava por aí.
Até que um belo dia se abriu comigo e largou-me esta frase: “Sabe, eu não tenho a certeza se as pessoas com quem convivo o fazem porque me apreciam ou se não será apenas porque eu sou rico…”
Recordo-me que reagi mal. Tentei pôr os pontos nos iis no que ao meu caso dizia respeito. Mas rapidamente recuperei a compostura e, a partir desse episódio, deixei de aparecer. Ele também não me contactou, estranhando a minha ausência. Quando morreu, passados tempos, não fui ao seu enterro. Parece que, com excepção dos filhos, poucas pessoas compareceram.
Afinal, o milionário que se finou não deixou nada feito por ele. O único mérito que teve foi o de guardar obras de arte e uma biblioteca riquíssima pela sua antiguidade. Depois de morto, valia tudo muito mais do que ele terá dado para ir acumulando tais preciosidades. Os herdeiros bem satisfeitos ficaram, por certo, em face do que foi guardado por intervenção de um antiquário que o aconselhou durante toda a vida e, com isso, também ganhou muito dinheiro.
Cheguei muitas vezes a pensar na enorme diferença que se constata entre os autores das obras de arte que constituem agora uma fortuna, todos eles, pintores, escultores e escritores que, seguramente, viveram com enorme dificuldades, e os elevados valores que representam agora os produtos dos vários génios que se foram acumulando apenas para irem aumentando o seu valor.
A diferença entre esses génios e o milionário que guardou as suas obras de arte, reside apenas no facto de terem os primeiros conseguido, depois de mortos, a distinção de ficarem famosos, respeitados, apontados como exemplo, e o homem que acumulou tais trabalhos, ter conseguido honrarias em vida mas, depois de morto, cair na obscuridade e não ser referido em qualquer manual de personalidades. É a vingança dos génios.

sábado, 14 de agosto de 2010

Crer ou não crer, eis a questão.
Se é preciso ver para acreditar, então o mundo inteiro é de descrentes.
Porque quase tudo que se conta, não se viu.
Ouviu-se.

FUTURO - UM MISTÉRIO

Cheguei a uma altura
em que ando pelo mundo
sem saber para onde olhar
já não me interessa a figura
nem procuro ver o fundo
para onde vou ficar

Para trás foi o que foi
já nada será mudado
não vale a pena lembrar
e se agora algo dói
o melhor é pôr de lado
e o futuro adivinhar

Mas futuro? Que mistério!
Nesta ânsia de escrever
acumular prosa e verso
já não é nada de sério
mesmo dando algum prazer
serve tanto como um terço


DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Um saldo não se apura apenas nos documentos contabilísticos. Não é matéria exclusiva da economia e das finanças. Apurar o saldo de uma vida pode ser um exercício que, determinado a tempo, terá, eventualmente, capacidade de modificar o caminho que ainda faltar percorrer até ao fecho das contas.
Depois da morte, o saldo que os outros, os que ficam vivos, atribuírem ao finado, esse apuramento já o próprio não tem possibilidades de tentar melhorar. Mas, enquanto por cá se anda, se houver vontade de emendar os lançamentos, tentando melhorar o resultado definido até essa altura, se o tempo que resta ainda der para isso, se as circunstâncias forem favoráveis, se existirem condições positivas e, sobretudo isso, se se quiser, talvez seja possível dar uma posição mais confortável ao saldo que estiver ainda em equação.
O essencial é que as contas que fizerem os interessados em conhecer a diferença entre aquilo que fez de bem na sua vida e o que foi produto de uma actuação contrária, malévola, esse apuramento tem de ser fruto de uma análise sincera, honesta, límpida, imparcial. Caso se cometam erros de apreciação, se forem esquecidas parcelas que influem decisivamente nos resultados, se houver lapsos nos lançamentos, nesse caso o saldo apurado não corresponde à verdade dos factos. Haverá, então, que fazer estornos, lançamentos de rectificação.
Andar com as contas da vida todas baralhadas, não efectuar os débitos e os créditos no lugar certo, dá como resultado ficar-se permanentemente com o diário atrasado e não manter o razão com o devido acerto. Logo, o saldo não pode ser apurado.
Postas as coisas neste ponto, também me dá para efectuar o lançamento da seguinte interrogação: será que a vida tem de ser levada como quem pratica exercícios contabilísticos? O Deve e o Haver do percurso humano constituem a bússola para mostrar o caminho a seguir? É, de facto, esse o saldo que tem de ser levado em conta?
Para muitos, o que importa é apurar aquele que seja positivo, que não se situe no vermelho, que represente um resto que sirva para anular futuras dificuldades. São os calculistas, os prudentes, os que aprenderam bem a tirar a prova dos nove. Para outros, o que importa é que o referido saldo seja fruto de uma operação diária, que dê para o dia-a-dia, pois o amanhã é o depois. São os despreocupados, os que usam os dedos para fazer as contagens.
Hoje em dia, com o enorme número de reformados que recebe em dia certo a mensalidade que, na maioria dos casos, mal chega para aguentar as despesas do mês, essa massa de gente tem sempre o saldo apurado. Não é negativo, porque não há quem lhe dê crédito. E só é positivo porque o que falta é o que faz parte dos cortes no dispêndio, nos gastos que nem sequer são supérfluos. No fundo, apresenta sempre um resultado nulo.
Por mais que não se deseje, na linguagem do apuramento dos saldos vêm sempre a talhe de foice os números. Quanto sobra e o que é insuficiente. E, na área dos euros, dos dólares ou de qualquer outra moeda, são os quantitativos que importam. Quando, afinal, o saldo que deveria interessar aos homens tinha de ser o resultante das boas e das más acções, ou seja o apuro final no capítulo das desavenças, entre pessoas, entre países, entre posições políticas, religiosas, sociais, entre tudo que são as causas de guerras, de mortes, de destruições, de mal-estar geral.
Se, no campo das irrealidades, cada indivíduo mantivesse a sua própria conta-corrente, e, na altura do seu passamento, fosse obrigado a prestar contas, e ainda se, no balanço final, o saldo apurado resultasse, naturalmente, da diferença entre o activo e o passivo, aí, graças ao atestado de que teria de ser portador para seguir o resto do caminho, ficaria a saber se as acções praticadas, ao longo da existência, teriam sido maioritariamente positivas ou negativas.
Se esta fantasia se transformasse em realidade, era de temer que o fiscal encarregado de conferir os dados referidos no diploma, no átrio do novo depósito, fosse acumulando de tal forma saldos a vermelho, isto é, diplomas de procedimentos negativos dos seres humanos, que o chamado “fogo do Inferno” não precisava de ser alimentado por outros elementos inflamatórios.
Mas chega, por agora, o querermo-nos situar na área das fantasias. Das contabilizações despropositadas. Por mais contas que sejam feitas e por muitos saldos que se pretendam apurar, na hora da verdade, na que constitui a única certeza de que o ser humano não pode fugir, feitas as contas de cabeça ou utilizando-se qualquer das maquinetas modernas de cálculo, daquelas que a miudagem de hoje utiliza para não ter que saber a tabuada de cor, nesse momento decisivo já é indiferente apurar o saldo da vida. Os que cá ficam, esses que se cuidem. Quando muito poderão entreter-se com a avaliação dos que já morreram e que terão valor suficiente para servir de exemplo, positivo ou negativo, para serem levados em conta, quer por feitos úteis quer prejudiciais à humanidade.
Claro que há sempre quem se engane nas contas. Não faltam os que metem os pés pelas mãos e, propositadamente ou por incompetência, confundem os números, invertem as parcelas, somam onde deviam subtrair. Confundem o “trouche” e o “lebou”. Mas, não é dessa gente que está repleta a História do mundo?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Especialista é todo aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos.
Super especialista é o que sabe
absolutamente quase tudo sobre absolutamente quase nada.

MULHERES COM BATUTA

Mulheres e homens iguais
é hoje em dia a luta
elas já são muitas mais
ninguém lhes tira a batuta

Coitadas apanham isto
em estado deplorável
sendo Homem Jesus Cristo
só deu com o inviável

De homens estamos já fartos
que p’ra chefiar não prestam
não lhes cabe terem partos
e a convencer desembestam

As mulheres se forem belas
as suas levam avante
aos homens põem-lhes as trelas
e juntam-lhe algum picante

As mouras, essas coitadas
ainda não as deixaram
andar bem destapadas
não conseguem nem se queixam

No dia em que todos véus
burkas e roupas tapantes
só se vejam nos museus
surgem mulheres elegantes

E então a coisa muda
nasce a calma em sua terra
magrinha ou bem carnuda
com judeus acaba a guerra

Houve na História rainhas
que não cumpriram papel
mas essas, as pobrezinhas
finaram no capitel

Mas de uma forma geral
até p’ra ver o que dá
talvez seja o ideal
e tudo melhorará

Se não, então acabou-se
a experiência com os machos
não tem sido nada doce
só sabem é pôr penachos

Uma mentira política
dita por uma mulher
desperta menos a crítica
que por fulano qualquer

Eu, por mim, votarei nelas
ministra e presidenta
já crescidas ou donzelas
de idade até aos quarenta

Podem cometer uns erros
mas se os homens também fazem
a esses dão-se berros
mas os delas satisfazem








DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Parece que, por cá, a coisa ainda não é aceite em plenitude. Por esse mundo fora e até em países europeus, é considerada em absoluto pela classe médica. Mas, em Portugal, onde se mantém a convicção de que é terra de gente muito conhecedora em todas as áreas, a acupunctura é vista pelo canto do olho.
Os milhares de anos que têm servido para os orientais recorrerem àquela ciência e com sucesso, não chegaram para nos convencer da sua validade. Ainda é praticada, entre nós, à revelia de muitos profissionais médicos que, no entanto, se se vêm muito castigados por enfermidades que a medicina convencional não resolve, às escondidas acorrem à acupunctura.
Abordo este assunto por experiência própria. Até resisti a recorrer a tal ciência, pois fui antes operado a uma hérnia discal, mas, em face do problema mal resolvido com que me debati, perante o conselho que me foi dado à boca pequena, fui cair nas mãos do japonês. Atrevi-me. Deu resultado. Agora, aconselho a acupunctura até a amigos médicos. E faço-o também por provocação.
Continuamos a lastimar o facto de não conseguirmos uma aproximação, maior e mais rápida, quanto ao espaço europeu associado. Pudera, enquanto não dispusermos da coragem de reconhecer que, imitar as experiências realizadas por outros, sendo bem sucedidos, não é uma atitude desprestigiante, antes constitui um acto de bom senso, enquanto não nos despirmos de preconceitos não passaremos da cepa torta.
O Estado português – ou, por outras palavras, os governantes - que, por exemplo, gasta fortunas com remédios tradicionais, aqueles que ainda não se receitam em doses individuais, mas sim em embalagens, cujo conteúdo excede o necessário para o tratamento -, esse Estado é excessivamente lento a mudar o que lhe está implantado nos hábitos. E nós, os que cá andamos para pagar e para obedecer, não temos mais remédio do que sermos “pacientes”.
Pacientes de duas maneiras. Porque sofremos as doenças e temos de nos encher de paciência.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

MÃE NATUREZA

As dúvidas são imensas
não há quem tenha certeza
já nem valem tantas crenças
pois manda Mãe Natureza

E então quando se zanga
resolve fazer das suas
deixa a gente de tanga
muitas vidas ficam nuas

E o Homem pergunta bem
procurando a defesa
mas não responde ninguém

E com a maior tristeza
aceita que o Além
mande na Mãe Natureza

MALVADEZES



NÃO POSSO deixar de interromper os textos submetidos ao título da obra que tenho para publicar, “Desencanto por Enquanto”, perante a devastação que está a ocorrer no nosso País com os fogos que se sucedem de Norte a Sul, mas com preponderância nas zonas onde, já noutras alturas, se verificaram os casos criminosos de atear incêndios nas áreas onde as chamas melhor pegam por haver material de combustão que, sobretudo com o calor que tem invadido o nosso País, tem constituído um espectáculo verdadeiramente desolador.
Já nem faço a pergunta sobre o provável prazer que sentem os incendiários quando provocam tamanhas calamidades, provavelmente nos locais perto de onde habitam. É um mistério a que talvez a Justiça, se ela funcionasse por cá, talvez pudesse dar resposta. Já afirmei neste meu blogue, noutra ocasião, que, para mim, ainda que com resultados bem diferentes e com prejuízos não comparáveis, tão maldosos são os que pegam fogo nas zonas rurais como os que, mais nas cidades, praticam as maldades de sujar as paredes e as obras de arte com as tintas que adquirem para o efeito. É um paralelo que não tem fulcral semelhança, mas eu considero que quem é capaz de assumir uma coisa tem estofo para fazer a outra.
Mas, no caso dos incêndios, já não bastava a situação calamitosa que atravessa Portugal, com os efeitos da crise, da governação que tem tido e do deixa andar que é característico deste povo, para se acrescentarem ainda os efeitos dos fogos postos que, dia a dia, surgem e que os bombeiros, valiosos homens que bem merecem as honras que por cá se distribuem a gente que nada mostra de valioso e de merecedor de destaque – e isto também serve aos Presidentes da República, o actual e os anteriores mais próximos, que, em datas festivas, colocam medalhas por tudo e por nada -, têm dado a mostra de que se empregam a fundo e que, se não correm melhor as coisas não é a eles que se aplicam as culpas.
E a mim, que sempre procuro encontrar respostas para as minhas dúvidas, o que mais me espanta é que, enquanto no nosso País este Verão tem sido marcado por um excesso de calor que até dá ideia de se tratar de um castigo que está a ser aplicado a quem não tem dado mostras de ser cumpridor das regras essenciais dos seres humanos, noutras zonas do mundo o que se verifica é o contrário, ou seja o excesso de chuva e de mau tempo, com mortes e destruições que são mostradas pelos meios televisivos que cá chegam.
Quer dizer, enquanto uns sofrem com o excesso de quentura, noutras zonas a demasia é de frio e de chuva. A mim isto impressiona-me e faz-me pensar nos motivos que levam a que forças superiores, se elas existirem, actuem desta maneira.
Mas, se não se justificar este pensamento e bastando-nos aceitar o que ocorre sem procurar fazer-se uma espécie de acto contrição, então que seja eu que me detenho nesta dúvida e que, sem obter resposta, me fique apenas pela lástima dos acontecimentos que ocorrem neste nosso Mundo.
Não será necessário afirmar que não sou partidário da justiça popular, mas as regras gerais têm sempre excepções. No caso dos incêndios postos e das sujidades com as borradas que fazem alguns até nos próprios monumentos públicos, sou capaz de me inclinar para uma punição feita pelos povos habitantes nos locais onde as malvadezes têm lugar, não deixando vontade a que outros venham depois fazer o mesmo. Uma boa sova dada a calhar será remédio justo e a tempo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Quem tem um Deus tem tudo.
Seja ele qual for.
Dê-se-lhe o nome que aprouver. Interessa a imagem que algum homem lhe tenha posto um dia.
Mas, com esse Deus que se acredita existir e que,
se for preciso, acreditamos que zelará pela nossa vida, sentimo-nos mais confiantes de que a passagem por este mundo ocorrerá com menos percalço.
E se tal não suceder… é porque Deus assim não quis.
Ele lá sabe.
Valha-nos Deus!

BRASIL

Já fui ao Brasil
vezes sem conta
iria mais mil
com toda a afronta
lá me deslumbrei
por lá convivi
e gostei
de tudo que vi
as paisagens
o clima
as viagens
por terra ou vistas por cima
o doce falar do português
o deles de modo seu
pelo que o entender talvez
nosso falar se faz breu
as comidas são delícia
e dos sumos nem se fala
e não é preciso perícia
pois ali ninguém se rala

O pior é o resto
os cuidados que há que ter
pois há sempre um pretexto
para perder o prazer
ir à rua sem cuidado
sem o dinheiro do ladrão
pode causar mau bocado
e estragar todo o festão

Nem tudo são só prazeres
não se vive só dos olhos
de ver as lindas mulheres
todas cheias de folhos
quanto a entrar nas favelas
isso aí é outra coisa
haverá lá coisas belas
mas entrar ninguém ousa

Em tempos mais recuados
portugueses se instalavam
e ficavam acomodados
e bom dinheiro ganhavam
depois da Revolução
gentes de cá partiram
era alguma protecção
para os que daqui fugiram
agora dá-se o contrário
são eles que nos procuram
vive-se pois neste rosário
amizade os dois juram

Porque irmãos todos nós somos
a língua até bem nos junta
pobrezinhos também fomos
sempre se fez a pergunta
quando andávamos de tanga
à espera de uma resposta:
se o grito do Ipiranga
ajudava na encosta!






DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Não, não é bem tédio o que sinto. Porque tédio é o enjoo de tudo e de todos. É a repugnância em conviver. É a ânsia por alguma coisa que não se sabe o que é. Será também um aborrecimento com a vida, toda ela, e o não se sentir bem em qualquer parte. O desejo de mudar, sem saber bem para onde.
Deduzo, portanto, que não é tédio o que me atormenta. O que será então?
Esta espécie de angústia que me invade o peito, o respirar fundo sem satisfação completa, um nó na garganta que parece apertar a glote, o mau sabor que sinto no café que acabei de beber, o não distinguir as mulheres bonitas das feias que passam no passeio, o desconforto que me provoca o acelerar dos motores dos carros que vejo pela vitrina do meu café, tudo isso pode ser o quê?
Procuro descobrir, cerrando as pálpebras para nada se intrometer na minha análise e, com a dúvida que me faz sempre companhia, julgo poder concluir que é cansaço. Mas não o físico, aquele que faz respirar afogueadamente quando se pratica um exercício em excesso, não esse mas o espiritual. E ponho-me a tentar descobrir o que é isso, afinal, do cansaço espiritual.
Ao ler as notícias todas as manhãs, é muito raro não sentir revolta com o que é transmitido. E como é feita essa comunicação. Porque não posso deixar de me colocar na posição de quem poderia resolver uma situação crítica que suceda no mundo. E especialmente perto de nós. E indigna-me verificar que esse alguém, que tem poder para decidir e tentar solucionar o problema, adia, desculpa-se, não dá razão a quem o acusa de moleza e passa ao lado. Ver gente incapaz provoca-me cansaço.
Igualmente fico cansado por dentro quando oiço locutores – antes tinham esta designação, no tempo em que tinham boas vozes, eram bem escolhidos porque falavam um português escorreito e não eram admitidos por cunhas, mas sim depois de provas prestadas e, claro, depois de terem prestado juramento de que eram fieis ao regime político então vigente (de outra maneira não eram admitidos) – os tais locutores, quer de rádio quer de televisão, a darem pontapés na gramática e a fazerem paragens nas frases de forma anormal, com uma respiração não ensinada correctamente. Fico cansado com os “logo mais”, os “digamos”, os “de alguma maneira”, por tudo e por nada, como sucedia numa moda que já terá passado, com o “portanto”.
O cansaço é enorme ao folhear as revistas que se dizem sociais e escarrapacham sempre nas capas títulos sobre casamentos, divórcios, separações, zangas de pessoal que, pelo menos eu, não sei quem é, mas mesmo que soubesse tenho de perguntar se os mimos e as brigas que sucedem constituam razão de notícia que faça vender as publicações. Mas devo ser eu que me canso sem verdadeira razão, pois vejo que uns, os actores dos acontecimentos tão badalados, se ufanam da sua proeza e os outros, os que compram os jornais e revistas, mostram curiosidade em seguir tais banalidades.
Como, de igual modo, não pode nem deve ser notícia uma frase proferida por um elemento auto-denominado “jet set” e, do alto da sua vaidade oca, larga um “o não é o contrário do sim” e logo é reproduzida, com pompa e circunstância, como se se tratasse de um dito shakespeariano. A mim cansa-me.
Neste preciso momento em que encho a página de papel à minha frente vive-se no País uma situação económica, financeira e social já muito perto da banca rota. É o que afirmam vários economistas, apesar de outros, deitarem água na fervura afirmando que “há sinais de recuperação”. Com o copo meio cheio ou meio vazio, a verdade é que, em face do nível atingido pela outra Europa, nós por cá encontramo-nos, não só geograficamente no fim (ou no princípio, depende da óptica) do Continente, o que não é grave, mas sobretudo num lugar muito diminuído na fila do progresso. E isso, sim, tem de nos preocupar muito.
Há, pois, que fazer contas à vida e saber gastar o dinheiro apenas no essencial. Há que fazer opções. Que deixar para depois aquilo que não é fundamental neste momento. É difícil, de facto, obter a concordância de todos quando é forçoso fazer escolhas, Há sempre quem tenha outra opinião. Mas quem aceitou a responsabilidade de decidir tem de pôr a cabeça no cepo. E assumir as suas responsabilidades. O que não podem nem devem é deixar correr, adiar, levar tempo demais a emendar o que está errado.
No que me diz respeito, ando numa canseira a assistir que o bom senso nem sempre tem sido aplicado no que diz respeito às prioridades e à rapidez em meter a mão na massa. Parece que existe certo receio em ferir algumas susceptibilidades, já para não dizer que se procura não retirar mordomias a quem as conseguiu noutra altura, pela via política.
Falta uma explicação inequívoca sobre as decisões que vão sendo tomadas e as que ainda se encontram nos projectos, sem receio de críticas ou desacordos, por mais severos que eles sejam.
Estou farto de ver este País cada vez mais longe do que se encontra mesmo ao lado, ainda que venha também a ver-se envolvida, inevitavelmente, do problema da crise que avança para todos os lados a Espanha, apesar de ter passado por uma guerra civil, há anos, e por uma ditadura que foi mais severa do que a nossa e que enfrenta o problema interno da ETA, apesar disso tudo, lá tem procurado acompanhar o ritmo da Europa, não sendo possível, por agora, adivinhar o que vem a seguir.
Seja como for, os ainda receosos de Espanha continuam entretidos com Olivença, em vez de analisar o exemplo do Benelux, que solucionou economicamente os problemas de três países pequenos.
Estou, realmente, muito cansado. Não, não é tédio. Não me quero isolar. Pelo contrário, o que me molesta é que não sejamos capazes de juntar forças para sairmos do “buraco” em vamos caindo. Não aceito o “mais vale só do que mal acompanhado”, quando, sozinhos, não vamos lá.
Acabamos por nos cansar todos. Para nada.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Reajo mal em relação aos que querem convencer-me
de que uma mentira, dita por eles, com aquele ar de que não pode prestar-se a dúvidas, passa a ser verdade.
Por isso me dou mal com os políticos.
Mas, mentirosos não são apenas esses…

CALVÁRIO

Há ou não razão p’ra desanimar
neste calvário imenso em que vivemos?
se um dia isto tiver de acabar
e d’algo pior ainda tememos
e não se passa só em Portugal
o mundo inteiro não está melhor
para se conseguir fugir do mal
tanto faz que se vá p’ra onde for

A Terra anda toda ela às voltas
acalmia é pouco que se encontra
pois muitos malvados andam às soltas
já não escapa nada em qualquer montra
e nas finanças grandes roubalheiras
na política grassa a corrupção
pouca vergonha já não tem fronteiras
ao nosso lado pode estar ladrão

Não é bem assim, dizem confiados
os que ainda não sofreram danos
mas um dia destes ficam calados
se os atingirem alguns fulanos
é que isto de trabalhar não dá
não é bastante p’ra levar a vida
se é isso que se passa por cá
é igual aos que vêm de fugida

Calvário da vida não chega a todos
há os que conseguem bem escapar
para uns tantos os terem a rodos
outros nunca precisam de suar
ainda bem, pois não é regra geral
o ser feliz é coisa que existe
para os que só enfrentam o mal
há sempre aquele que a tudo resiste


DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Gosto de ver as minhas mãos despidas de anéis. Nunca tive e não me fizeram falta nenhuma. Se fosse rico continuaria a manter os dedos despidos de enfeites.
Sobretudo nos homens, as mãos limpas de sujidade e de adereços, sejam eles quais forem e com o valor monetário que tiverem, são mãos que significam pureza, nem que seja apenas exterior.
Se à tal limpeza à vista se puder juntar, por pouco que seja, alguma pureza íntima, então o ser humano tende a aproximar-se, mesmo que longinquamente, da perfeição.
Hoje deu-me para aqui: os dedos sobrecarregados de anéis, agridem. Pelo menos a vista.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As mesmas caras, as mesmas vozes, as mesmas frases, o mesmo comportamento, tudo igual há 30 anos neste País.
A monotonia instalou-se, o grupo de privilegiados é sempre aquele, desinteressante, enfastiador, repetitivo.
Por isso nada muda, nem melhora.
Portugal continua igual a si mesmo, mas sempre há aqueles que se sentem satisfeitos com o que os rodeia.
E fazem o possível para manter o status quo, porque se conseguem governar.
Também pergunto: e que poderia ser em seu lugar?





CACILHEIROS

Apeteceu-me um dia
recordar o passado,
andar para trás
muitos anos,
pôr o saudosismo em acção.
E fui ao Cais das Colunas
às que lá não estão
(mas que apareceram entretanto)
mas que eu as vi
na memória
e descendo aqueles degraus
molhei os pés no Tejo,
que frescura!
que odor!
que beleza as gaivotas em liberdade.
Como me recordo
dos cacilheiros que saiam logo dali
e chegavam ao mesmo sítio,
os cabos para os prender ao cais
eram atirados
com precisão
fixavam-se nas amarras
e as gentes,
sem aguardar o encosto completo
saltavam,
corriam para os seus destinos,
os imediatos,
enfiavam-se na praça,
nessa bela praça,
no Terreiro do Paço,
que podia ser ainda mais bonito,
muito mais bonito,
mas as gentes nem dão por isso,
a Praça do Comércio (que nome!)
não tem ajuda do poder
para a tornar muito mais atractiva.
Correm para a vida,
os populares,
os cacilheiros, já bem encostados,
deixam sair os passageiros,
os mais calmos,
também esses já sem se importar
que o Cais das Colunas
já não seja o que era antes.
É gente da outra Banda
que dorme lá
que ganha a vida deste lado,
que transformou Cacilhas,
o Ginjal,
Trafaria,
Caparica
em dormitórios.
Tu, cacilheiro, foste o culpado.
Antes da ponte
eras dono e senhor
do rio,
só tu ligavas as margens
do Tejo que,
no final, parece um oceano.
Eras o patrão do Tejo.
Agora, já não és essencial,
imprescindível,
única solução.
Mas continuas a ser útil,
desejado,
e, sobretudo, manténs a tradição
alimentas o saudosismo,
és uma relíquia preciosa
para a memória,
mas também os que não usam a ponte,
a que já teve dois nomes,
que são bastantes,
e ainda bem,
porque tu,
ó cacilheiro dos velhos tempos
pode ser que acabes por vencer
a modernidade,
a que deitou abaixo as colunas
e arredou para mais longe
o local onde te encostas para descansar,
de cada viagem,
fazendo-te perder a graça,
essa de ver entrar e sair a populaça,
no sítio certo, junto às colunas.
Foi isso que a imaginação
trouxe até mim,
o olhar para o Tejo e contemplar,
sentado em frescos bancos
de pedra,
com a barra ao fundo,
vária navegação circulando,
respirando o ar marítimo,
mastigando pipocas
e pevides,
compradas ao velho do tabuleiro,
que sonho!
E, de repente,
caí em mim.
Esta Lisboa que faz a inveja
de outras grandes capitais
que não têm este rio
a seus pés,
esta cidade que deslumbra as outras,
mas que, em lugar de olhar para fora,
para a água salgada,
para as ondas com a sua espuma,
para o reluzir do Sol no Tejo,
vira-se para dentro,
para o seu umbigo,
e nem parece ser
terra de Navegadores,
antigos mas recordados,
ficando-se com a impressão de que
se tem vergonha
de ficar à borda do mar das Descobertas.
Não merecemos o que temos,
e tu, ó cacilheiro,
ainda serás algo,
já pouco,
que tem de nos avivar a memória,
chamar a atenção para
o pouco que nos resta.
A modernidade?
Pois sim, mas sem destruir
as jóias do passado.
Que bonito é ver o cacilheiro
encolhidinho,
ao lado do grande paquete,
majestoso,
que passa
a abarrotar de tecnicismo,
orgulhoso do seu porte,
transportando uma multidão
a olhar sobranceiro
o pequeno cacilheiro,
a ínfima embarcação
a cruzar o Tejo na sua humildade
como um pedinte
se aproxima
do carro de luxo
num semáforo.
Ó cacilheiro,
modesto trabalhador que
nasce, vive e morre
sempre com o mesmo mister,
com a mesma viagem,
repetitiva,
monótona,
mas prestando um serviço,
sendo útil,
indispensável,
com gente sempre à sua espera,
que o aguarda a olhar para o relógio,
como quem combinou com o namorado
um encontro.
Ó cacilheiro,
Tu, em que as gaivotas
tuas conhecidas
poisam na amurada
saudando-te,
lembrando-te quem és,
não te deixando sonhar com fantasias,
com luxos,
com atitudes que não são as tuas.
Tu és o que és
e nós queremos-te assim.

DESENCANTO POR ENQUANTO!


Gosto de ver as minhas mãos despidas de anéis. Nunca tive e não me fizeram falta nenhuma. Se fosse rico continuaria a manter os dedos despidos de enfeites.
Sobretudo nos homens, as mãos limpas de sujidade e de adereços, sejam eles quais forem e com o valor monetário que tiverem, são mãos que significam pureza, nem que seja apenas exterior.
Se à tal limpeza à vista se puder juntar, por pouco que seja, alguma pureza íntima, então o ser humano tende a aproximar-se, mesmo que longinquamente, da perfeição.
Hoje deu-me para aqui: os dedos sobrecarregados de anéis, agridem. Pelo menos a vista.

domingo, 8 de agosto de 2010

A vida é um espaço de tempo que o ser humano ocupa obedecendo à sua vontade e à dos outros, mas tendo em conta, sobretudo, as circunstâncias que o envolvem.

AS QUINAS

I
Em certa manhã de nevoeiro
Vai despertar aqui no País
A esperança de ser feliz
Trazida por um alvissareiro?
II
Em Terra de tantos pacientes
Ainda há fé em epopeias
Pois o sangue que corre nas veias
Vem de outrora, de antigas gentes
III
Por mais que se julgue adormecida
A ânsia do Mostrengo matar
Grande coragem não vai faltar
Sempre se vai dar a acometida
IV
Tanta apagada e vil tristeza
Que é apanágio do Português
Não quererá que um dias, talvez
Ponha à mostra a sua sageza
V
Para os últimos deixarem de ser
P’ra entrarem no comboio perdido
Há que soltar o ar abatido
E sem demora correr, correr
VI
Olhemos aqui para os vizinhos
Esses, doutros tempos, Castelhanos
E honremos os velhos Lusitanos
Seguindo então novos caminhos
VII
Por mais que estejam adormecidos
Mesmo que pouco e mal se lute
Não se há-de perder o azimute
No fim não sairemos vencidos
VIII
Discutir-se-ão muitas opções
Os políticos debitarão
Mas negar, nunca o negarão
Esse mar que nos cantou Camões
IX
Seguro que vai ser necessário
Que a fome nos ataque primeiro
E que se faça um grande berreiro
A lastimar o nosso calvário
X
Mas p’ra atingir tão grato projecto
D’a os da Europa sermos iguais
Só teremos, oh simples mortais
Que rogar ao Supremo Arquitecto

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Para estar vivo, ajuda muito o querer-se. Para tratar as doenças, pelo menos algumas, é importante acreditar-se na cura, começando por crer no curador.
As longas esperas nos consultórios e pior ainda nos hospitais públicos, seguidas de um certo atendimento cansado, distraído, até mal-humorado será a causa dos pouco resultados obtidos com muitas medicinas que não conseguem debelar as enfermidades. Por vezes, as mezinhas recomendadas por curandeiros sem diploma conseguem efeitos positivos, apenas e só porque a freguesia que frequenta tais locais de consulta enfrenta a situação com muita fé, por ter conhecimento de resultados positivos noutros felizardos que lhes descreveram as melhoras.
Em Portugal, onde há cada vez mais escassez de médicos, devido, em grande parte, às dificuldades postas para a entrada de alunos na faculdade respectiva, faz com que, com aumentos sucessivos, os clínicos espanhóis exerçam a sua profissão neste lado da fronteira. Só que por aí não vem mal ao mundo. O pior advém das razões dessa realidade.
É, de facto, desconsolador verificar-se que, em Portugal, tardam muitos anos a solucionar-se problemas que estão à vista de toda a gente as formas de dar a volta. Neste caso, sabendo-se que um médico demora seis anos a ser feito, ainda que no início da carreira, como é possível assistir-se à partida da nossa juventude para o estrangeiro, para Espanha principalmente, para poder obter a carteira médica? Quando a História, daqui a anos, referir este facto, será difícil entender o que passou na cabeça dos sucessivos governantes que permitiram tal anomalia…
Por agora, que se enfrenta esta situação, resta fazer coro com os optimistas quando dizem que “enquanto há vida há esperança!” O pior é quando acaba a vida sem se ver a esperança transformar-se em realidade.


sábado, 7 de agosto de 2010

Já nem sei onde ouvi este princípio que me ficou para a totalidade da minha existência e que recordo a cada passo:
Há duas coisas que se podem considerar inesgotáveis na nossa vida – o Universo e a ignorância.
O primeiro é algo com que temos de nos conformar,
até ao momento em que a ciência humana consiga responder
a essa perturbante interrogação.
Mas a segunda, essa, enquanto existir um ser, não haverá quem aceite, em pleno, que o saber tudo é coisa que não se conseguirá nunca.

MORTE RODANDO

Eu sinto a morte rodando
às voltas por aí anda
por mim lá vou disfarçando
pois sei que é ela quem manda

Ter medo dela não tenho
só espero eficiência
que use do melhor engenho
que tenha por mim clemência

Não me sinto amargurado
por saber que ela chega
aqui lhe deixo um recado
que não brinque à cabra-cega

É surgir e fazer obra
sem dar tempo p’ra piar
quando parte nada sobra
nem vale a pena chorar

Que quem tem medo da morte
o mais que pode resista
p’ra tudo é preciso sorte
e não se ser egoísta

Mas eu não, bem a confronto
que venha quando quiser
para ela eu estou pronto
não me canso de o dizer

Fiz o que tinha a fazer
reconheço erros meus
preparado p’ra morrer
basta-me dizer adeus

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Os humanos estão, há já muito tempo, a destruir o ambiente terrestre. Quanto mais inventam, alterando a serenidade em que o mundo viveu durante milhões de anos, liberto que esteve das interferências da mão do Homem, mais anormalidades se notam naquilo que era a rotina das temperaturas e das estações do ano. Aquilo a que se chama hoje, como tratando-se algo aceitável, o aquecimento global, com o desfazer progressivo dos gelos glaciares, vai ter consequências imprevisíveis no aspecto físico da Terra, provocando o desaparecimento de zonas litorais, submergidas por águas marítimas.
Todos os fenómenos que têm ocorrido, em várias áreas do Globo, provocando destruições enormes e perdas de vidas, são bem a prova de que se está a mexer em algo que não agradará a quem provavelmente deve ter a seu cargo a manutenção do que existia desde o começo. As populações de todo o mundo e em particular as dos países ditos mais desenvolvidos, com o desfazerem-se de tudo que considera imprestável, não cuidando de encaminhar os desperdícios para serem reaproveitados nos locais que a ciência também já pôs à disposição para evitar as acumulações de produtos nocivos, esse comportamento contribui para tornar o Planeta cada vez mais repleto de ambientes menos respiráveis.
Se é certo que a ciência é curiosa e que a ânsia de saber mais instiga os cientistas a ir fazendo experiências e a caminhar cada vez mais além, não se pode deixar de considerar que alguma dose de prudência seria aconselhável, para evitar surpresas maiores do que aquelas que ainda poderão ser dominadas pelo saber humano.
Um exemplo que obriga a reflectir é aquilo que está já a constituir uma determinação científica que não oferece dúvidas. Trata-se do aviso de que, não obstante os malefícios indesmentíveis provocados pela descuidada mão humana, o fim da vida dos mortais vai chegar cada vez mais tarde e que, dentro de alguns anos, não tantos como isso, o Homem comum vai chegar, com normalidade, às 120 primaveras e até mais tarde, devido ao avanço da ciência médica. Não é difícil imaginar como se apresentará este mundo dentro de relativamente pouco tempo, em que o espaço terrestre será o mesmo que temos hoje e a competição, que já agora se constata entre todos os que querem viver bem, aumentará desenfreadamente. E é igualmente previsível a luta que se vai verificar entre gerações, posto que o período que é agora considerado como pertencendo aos mais velhos, que deixam de exercer as suas profissões, terá de ser suportado pelos mais novos que, também eles, terão de ser em maior número para que as sua contribuições possam ser suficientes para pagar as chamadas reformas.
Com tudo isto, pergunto-me: será que o Criador, Aquele que se diz ter sido quem fez o mundo nos tais sete dias, previu que a Sua obra original iria chegar ao ponto onde ela se encontra hoje e para aquele para onde se caminha a passos largos?
O Todo-Poderoso, dentro da Sua magnânima sabedoria, não poderia deixar de ter previsto o futuro e de saber antecipadamente o que iria ocorrer quando viessem a ser passados todos os milhões de anos que correriam a partir do início de tudo.
É isto que me faz pensar. E, por mais que queira fugir do agnosticismo, as dúvidas vão-se acumulando.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Há aqueles que levam toda a vida a ter um sonho, uma aspiração.
Como há os que, sem nenhum desejo para o futuro, vão vivendo o dia-a-dia bastando-lhes a realidade de cada momento.
São os felizes. Serão?


IR PARA ONDE?

Ir a caminho e parar
não cumprir obrigação
ficar a gozar o ar
como outros também farão

Não quero
não me apetece
não entro em desespero
esperem que eu regresse
pode ser que algum dia
me salte a tal vontade
e por artes de magia
seja qual for a idade
lá prossiga
a caminhada
com mão amiga amarrada

Mas ficar onde estou
sentir a monotonia
mas sem saber p’ronde vou
metido com fantasia
nisso não sinto prazer
tal coisa não me alegra
não sei que deva fazer
preciso de certa regra

Vou andando
sem destino
e se paro não sei quando
num enorme desatino
julgando que era p’ro Norte
por isso cheguei aqui
só confiando na sorte
se foi para o que nasci
mais valia ter ficado
nas origens paternais
não atingiria o estado
de procurar ideais

Se em dada altura da vida
já não interessa o caminho
pois se está certa a partida
quando é que não adivinho
para trás ou para a frente
agora tanto me dá
se há quem comande a gente
ir p’raqui ou p’racolá
não quero
nem me apetece





DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Deu-me agora para me pôr a pensar naquilo que fiz toda a minha vida. Distingo mais alguns feitos do que outros. Mas, ao contrário do que se passa comigo em relação a acontecimentos recentes, que esses esqueço-os facilmente, os antigos, até com pormenores, recordo-os com grande nitidez.
É curioso. Até palavras ditas e respostas recebidas me saltam à memória com nitidez. O que me escapa mais são as fisionomias, que essas, bem como os nomes dos protagonistas, tenho tendência a perdê-las.
Isso pode querer dizer o quê? Talvez que fixei mais os factos do que as pessoas. Que registei na memória o que sucedeu e dei menos valor a quem interveio nas acções. Sobretudo no que se refere a algumas pessoas, não tão poucas como isso, que teriam razões para as recordar pelas ajudas que movi nas suas vidas, quanto a essas seria natural que retivesse as suas faces guardadas num recanto do meu cérebro… mas nem isso. Passou, passou.
Parece que, na generalidade dos casos, com os outros acontece precisamente o contrário do que se passa comigo. Não que eu queira distinguir-me com esta anotação, antes pelo contrário, o que sublinho é que, mesmo a quem fui útil nunca fiz questão de fazer uma ficha e arquivá-la no ficheiro dos devedores.
De facto, pode-se ter em conta quem foi o autor de uma descoberta importante, quem deixou para a posteridade uma obra de monta, seja qual for a área onde actuou, mas o que fica para o futuro são os resultados que se obtêm com a acção desenvolvida por alguém. Poderá a maioria das pessoas não ser capaz de se recordar do nome de quem descobriu a penicilina, mas que esta medicina salvou muita gente da morte, isso é que será reconhecido pela humanidade inteira.
É uma injustiça o olvido de nomes de personalidades que contribuíram para o enriquecimento do património mundial, científico, artístico ou o que seja. É uma verdade indiscutível. Mas eu prefiro ter acesso ao telefone, contemplar com êxtase a Gioconda, deliciar-me com a 9.ª Sinfonia, mesmo passando-me os nomes de Bell, de Leonardo Da Vinci, de Beethoven ou de Fleming.
É uma maneira de ver as coisas, bem sei. Mas se eu começo por me culpar a mim, se me recordo mais daquilo que ficou feito do que em quem interferiu nas obras, desculparei os que não têm memória para nomes. Já a lista de reis de Portugal e seus cognomes, a indicação dos rios nacionais e seus afluentes, das preposições ditas de enxurrada, da tabuada sabida de cor e salteado, de tudo isso que se aprendia e se repetia na velha instrução primária, que era onde se estudava o básico que hoje anda tão fora do domínio da juventude que parte para o secundário em plena ignorância, todos esses conhecimentos ficaram guardados num cacifo do cérebro e, até morrer, as gentes do meu tempo não esqueceram. E os que seguiram nos estudos, bem agradeceram a tal “basezinha”, como lhe chamava o Eça.
Mas isso são outros contos, que os ensinamentos de hoje não fazem nem ideia como eram antes.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Durante muito tempo da minha vida tive, como companhia dos silêncios, esse animal tão nosso amigo que é o cão.
Em diferentes ocasiões pude ter a prova de que o canídeo adora incondicionalmente o seu dono.
E reconhece-o como tal.

AMOR DE PARDAIS

Quatro pardalinhos brincam no chão do meu jardim
picam a terra com entusiasmo
e eu olho-os com ternura
pensando no mundo dos homens
desses que se guerreiam uns aos outros
e não confraternizam como estes pássaros
não dividem o que há para comer
são egoístas, querem só para si

E estes pássaros inocentes
que não sabem o que é pecado
que só procuram defender-se
dos que são gulosos
dos que apreciam o petisco
dos passarinhos fritos
saltitando, piando
lá vão apanhando as migalhas que
sem querer
os homens deixam cair

Que bom seria
se o mundo fosse todo como o dos pardais
dividindo o amor e as migalhas




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Para não sair do habitual, ponho-me, mais uma vez, a raciocinar. E desta volta sobre uma gente que até parece que os problemas que rodeiam todos os cidadãos se resumem àquelas manifestações mundanas. Aos casamentos, às separações, aos aniversários, às inaugurações de lojas e, menos mal, a jantaradas para ajudar alguma associação de beneficência, mas que tenha suficiente gabarito para justificar a presença dos smokings e dos fatos compridos. No meu caso, devo confessar que, em dada altura, também isso serviu para procurar entender a existência de uma camada a que se dá o nome de “socialaite” (escrevo desta forma, mas não deixo de sentir alguma relutância).
É verdade que, em muitos países da zona ocidental do mapa-mundo, existem individualidades que se destacam por surgirem sempre em festanças. E havendo-as com fartura, a gente que circula nesses ambientes com assiduidade dá pasto à ânsia das publicações da especialidade que vivem precisamente daquele tipo de público. Os que andam nesse meio e também a que não tem acesso mas que se deleita a seguir as andanças dos famosos. E os cronistas ganham a sua vida em redor dessa matéria-prima, descobrindo sobretudo as fofocas que têm um prazer mórbido em divulgar. Esta é uma realidade que não vale a pena ignorar ou até criticar.
Fixando-me apenas no que ocorre por cá, mais propriamente na capital, alguma coisa na segunda cidade, no Porto e, episodicamente, no Algarve – porque o resto de Portugal, também nesse aspecto, nem sequer é paisagem -, é caso para perguntar se, entre nós, não seria muito mais proveitoso que tais exibições tivessem lugar para celebrar manifestações artísticas de alto estirpe, com grandes orquestras sinfónicas, exposições de pintura de bom gabarito, espectáculos de ópera e de ballet com a presença de conjuntos internacionais, entregas de prémios a escritores de reconhecido mérito, tudo isso e muito mais e que bem sabemos que são acções que no nosso País são raras quando, para não ir mais longe, aqui ao lado, em Espanha, não só em Madrid mas em muitas das cidades espalhadas pelo seu território, é vulgar ter-se conhecimento de manifestações festivas de tipo cultural.
Mas é uma lástima que a nossa imitação se fique apenas na exposição de criaturas que, coitadas, restringem a sua felicidade a fazerem-se às fotografias de que aspiram ver depois publicadas nas revistas que existem para isso.
Somos o que somos e como somos!
A vaidade, sempre ela, é uma mola que faz saltar o Homem. Há quem a limite, a esconda, se envergonhe até de a ter. Mas ela é mais forte. Sem querer, mesmo de passagem, as montras das lojas servem para dar uma vista de olhos por parte dos passeantes. E a mulher, como é também natural e até certo ponto justificado, ultrapassa nesse aspecto e em muito a vaidade dos machos, se bem que não seja assim tão raro deparar-se com figurões que têm como principal preocupação cuidar fervorosamente do seu aspecto exterior.
É certo que vigora ainda, mas cada vez menos, uma certa apreciação depreciativa quanto a homens que são iguais às mulheres no tratamento cuidado dos seus rostos, por exemplo. Mas a persistência e o descaramento desses manequins ambulantes faz com que acabem por ser aceites e até mesmo se introduzam no chamado “jet set”.
O Homem, quando se aventura por áreas, ainda que fora do comum, para impor comportamentos invulgares, quer seja na área da convivência social – que ainda é a que menos prejuízos provoca - quer seja no campo da política, deslumbrando-se com os seus feitos e aplaudido pelos companheiros que logo formam grupos à espera da apanhar os restos do sucesso, esse ser, perante o deslumbramento que causa, avança e serve-se de todos os meios para atingir fins de que, muitas vezes, se perde o controlo.
O convencido da sua posição superior, seja ela qual for, tendo os outros em conta apenas para servir os seus objectivos, os seus sonhos, frequentemente as suas malvadezes, esse tipo de pessoa, se for descoberto a tempo, deve ser afastado do convívio de outros mortais. Até ele se convencer do seu erro.
Aqui fica o aviso ao “jet set” português. Mesmo que ninguém me tenha encomendado o sermão!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

MORTE

Eu oiço o sino da morte
Dar badaladas por mim
Tenho pronto o passaporte
Estou preparado p´ro fim

O que não quero é que então
Olhem p´ra cova a chorar
Pois a incineração
Deixa cinzas p´ra espalhar

É triste pensar na morte?
Aceitá-la consciente?
É isso ser-se mais forte?

Basta enfrentar o real
Partir como toda a gente
E a todos ser igual.
MORRE LENTAMENTE…


- quem não aceita envelhecer
- quem lhe é indiferente o que se passa à sua volta
- quem não tem desejos
- quem não consegue encontrar virtudes e defeitos na sociedade
- quem nunca se revolta, por mais horrorosos que sejam os acontecimentos
- quem tanto lhe dá a rua por onde caminha, basta-lhe o destino
- quem lhe é indiferente a música que escuta
- quem não consegue ler nem ouvir uma poesia
- quem nunca pegou num livro e não lhe interessa o que os escritores têm para comunicar
- quem fecha os ouvidos aos que sabem mais têm para dizer
- quem não sonha, não idealiza, não ambiciona
- quem anda permanentemente com o pavor da morte
-quem não sabe conversar consigo próprio, não perguntando e não respondendo às suas próprias questões
- quem não se espanta com nada, achando tudo normal
- quem está convencido que se conhece bem a si próprio
- quem só conhece a sua rua e não se preocupa em conhecer outras
- quem nunca parou para contemplar a lua, não olha para as estrelas e não tem interesse em ver o sol, mesmo através de um vidro fumado
- quem nunca se embriagou, pelo menos uma vez
- quem nunca sentiu os prazeres da carne
- quem nunca sentiu as influências do espírito
- quem não sabe e não sabe que não sabe
- quem nunca alimentou fantasias
- quem não teve a tentação de despir outrem e, em imaginação, gozar o espectáculo da sua nudez
- quem não é capaz de ouvir o silêncio
- quem não ama as flores e tudo que a Natureza oferece
- quem julga que vale mais do que, de facto, vale
-- quem julga que vale mais do que todos os outros
- quem nunca parou para pensar e, fazendo-o, não tem a humildade de reconhecer que errou
- quem nunca hesita antes de tomar uma decisão séria
- quem nunca quis pôr-se no lugar de terceiros
- quem se ilude com as suas próprias mentiras
- quem não desiste das suas convicções, mesmo em face de argumentos que as anulam
- quem usa e abusa do uso do sempre e do nunca, contrariando repetidamente essa garantia

- quem não acredita no que diz… mas diz
- quem anda sempre a pedir a Deus que o perdoe, mas não é capaz de perdoar os outros
- quem tem coração que é cego
- quem é vazio de interior, exibindo largamente o que tem de for
- quem, fugindo ao seu destino, anda permanentemente a esbarrar com ele.

VÃO DESAPARECENDO...


É INEVITÀVEL. Os anos vão passando e os que resistem mais à ceifa da vida não têm outra alternativa que não seja assistirem à partida dos que não conseguem vencer a chamada inexorável daquele que continua a ser o ponto final de uma existência que lá se vai suportando.
E dentro da profissão de cada um, o mais inquietante é que essa certeza, que é afinal a única que todo o ser humano não nega que também lhe baterá à porta um dia, vai retirando da nossa convivência parceiros que, naturalmente, mesmo de idade diferentes e de zonas de actuação não condizentes, com a sua saída de cena têm de nos provocar um vazio no ambiente que nos envolve.
A morte de Mário de Bettencourt Resendes, ocorrida numa altura em que, embora sabendo-se da sua baixa de saúde, não se esperava que se desse propriamente agora – até porque a esperança nos leva a acreditar que, quem aguenta vários anos com a corrosão que vai minando no interior dos corpos, sempre permanecerá na nossa área mais uns tempos -, esse desaparecimento esta semana causou um abalo em todos os seguidores da mesma profissão no jornalismo, quer os que actuaram durante a mesma época, ao longo dos 17 anos de actividade do Mário, como os que, sendo mais antigos, como é o meu caso, foram seguindo a sua presença, especialmente porque ocupou um lugar cimeiro como director do “Diário de Notícias” assim como surgia frequentemente nos écrans das televisões a dar a conhecer as suas opiniões de ordem política.
Pois é essa saída do nosso foro que desejo assinalar aqui e para isso, embora sem dar nas vistas, lá me desloquei à saída da Igreja, assistindo ao cumprimento do pedido do defunto de lhe serem colocadas, três bandeiras sobre a urna, a dos Açores, a do D.N. e a do Benfica.
E veio-me à imaginação o que deveria eu solicitar que me seja feito na altura semelhante que virá por aí. E nada de especial me saltou à ideia. Provavelmente, dado que a minha época do jornalismo vem de longe, pois comecei em 1954 num revista, chamada “Mundo Ilustrado”, em que me estriei com o Fernando Piteira Santos, nessa altura recém expulso do PCP, e eu, por via disso, dado que o director indigitado para essa nova publicação era o antigo mestre Norberto Lopes, que acabou por não poder aceitar pois o director do Diário de Lisboa de então, Joaquim Mando, ao ter conhecimento da proposta o impediu de a exercer e nomeou director-adjunto do vespertino, e foi por aí que eu, em lugar de seguir a carreira de economista para o que estudara entrei directamente na profissão das letras e isso também porque o emprego que me mantinha na ocasião era na Livraria Bertrand, situação que me encaminhou para o mundo ds letras, até por tomar o meu cafezinho diário com Aquilino Ribeiro, no velho Café Chiado, onde se formou uma tertúlia de intelectuais a que eu assistia embevecido.
Mas tudo isto só para referir que a morte de Mário me tocou fortemente, por ser mais um a desaparecer e por os novos que também têm o direito de mostrar o que valem, infelizmente não têm referência dos antigos como eu e dos mais recentes será a exposição televisiva que lhes dará mais conhecimento.
Partiste Mário! Outros irão a seguir. E o mundo, tal como ele anda, não se excluindo principalmente o estado deplorável em que se encontra Portugal, cá fica a tentar solucionar os problemas a que nós todos nos referimos pelos meios que cada um dispõe, mas que não chegam para mostrar o caminho que só os homens de bom senso serão capazes de melhorar.
Se forem!...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem não sabe que não sabe não se lastima por não saber

AQUILO QUE EU VEJO

Aquilo que vejo
que atrai meus olhos
que me causa ensejo
mesmo sendo aos molhos
eu acredito?
É verdade pura?
Não será um mito?
Uma desventura?
Mas vejo e pergunto:
poderei eu crer
constitui assunto
para eu ver
e aquilo que é dado
algo como queixa
será um recado
que a vida me deixa
uma prevenção
com certa importância
chama-me a atenção
provoca-me ânsia
abre-me o sentido
mas olho parando
e o despercebido
agora pensando
com calma observo
a ideia apurada
por fim lá conservo
a vista do nada
e aquilo que eu via
e que os olhos liam
tinha mais valia
e todos deviam
cá por este mundo
ter algum rigor
olhar sempre a fundo
que tudo tem valor

Por isso m’interrogo
procuro resposta
faço-o como um jogo
é quase uma aposta
tudo por que passo
e atrai minha vista
se causa embaraço
constitui uma pista?
Como em tanto assunto
não sei responder
até ser defunto
terei de aprender

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Quase como uma devoção, muitas vezes saio de casa, especialmente de manhã, para escrever. Preciso de ar. De respirar. E de inspiração. Mudar de ambiente ajuda. Faz-me falta movimento, mesmo sem entrar nele. É-me útil a distância, nem que seja a que separa a mesa do café das pessoas que passam, das que julgam que estão a fazer alguma coisa de útil a este País. Das que se sentem importantes por isso.
Lá passam também raparigas. Agora na moda está andarem com as barriguitas à mostra. E as costas deixam ver as uniões superiores das bochechas do rabo. Como mudam os tempos! Ainda me lembro da época em que a rapaziada se deliciava a ver as curvas das pernas das mulheres que subiam as escadinhas de Santa Justa. Era uma delícia! Aí a imaginação funcionava. Dava-se largas ao trabalhoso exercício de desnudar em pensamento as fêmeas que mais agradavam e que davam a espreitar de passagem as curvas das pernas.
Hoje, o desde ter-se à disposição dos olhos o que antes os decotes discretos não deixavam sequer perceber, os avantajados seios que, ainda para ajudar mais a provocação, os elementos femininos puxam para cima, para dar a sensação de que se encontram em boa forma de sustentação, desde isso até as saias pouco taparem em cima e em baixo, tudo é considerado natural. E pouco faltando para descobrir em plena rua o que ainda se encontra oculto, o resultado é que a curiosidade de saber como será vai-se diluindo. E aquele exercício que alguns podiam fazer de espreitar pelo buraco da fechadura, até isso hoje já não tem razão de ser, pois aquelas chaves que, de grandes, mal cabiam nos bolsos, hoje também elas são reduzidas. Tudo diminuiu!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

É sempre bom ter alguém que nos oiça, mesmo que não tenhamos nada para dizer.
Pelo menos, ficamos com a impressão de que o que não dissemos teria a sua importância.

ACORDAR MORTO

Não tenho medo da morte
é coisa que temos certa
não é por falta de sorte
disso ninguém se liberta

Passam Natais passam férias
a vida corre depressa
se alguns passam misérias
e a outros nada aconteça

À espera por cá se anda
de algo que vem depois
há quem leve vida branda
não precise de outros sois

A todos esses contemplo
e as minhas contas faço
há os servem d’exemplo
e provocam embaraço

A morte tem várias formas
por vezes é traiçoeira
não tem regras e nem normas
muito menos tem fronteiras

Porque mais cedo ou mais tarde
ter connosco lá vem ela
e sem fazer grande alarde
sempre provoca mazela

Com franqueza não invejo
dos outros o seu conforto
a coisa que eu mais desejo
é um dia acordar morto

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Não posso deixar de reflectir que, um dia, não sei em que altura, se estes textos caírem nas mãos de alguém que descubra que vale a pena lê-los e lhes encontre um mínimo de valor, seja onde for que eu esteja, isto no caso do falecido, mesmo em cinzas, ter algum sítio onde se aquietar, nesse cantinho encontrarei razões para a consolação. Por fim, houve alguém que reconheceu em mim algum interesse.
Escrever isto, nesta altura em que me encontro em pleno nas minhas faculdades mentais, parece querer reflectir uma soberba que me fica mal, mas o que ninguém pode negar é que me esforcei, enquanto vivo, por dar de mim tudo o que tinha para mostrar quanto vale uma aspiração que talvez não chegue nunca a tornar-se realidade: a de me entregar à arte da escrita, da prosa e dos poemas, e à tentação da pintura, muito a medo, já que, aquilo que eu mais desejava era ter sido agarrado pela música, essa que nunca passou do enorme prazer de ouvir.
Sou, pois, um falhado. Sempre vivi de aspirações. Embora não invejoso, entristece-me assistir, à minha volta, ao desmedido acarinhamento a cantores que cantam mesmo mal, a escritores que se encontram longe de merecer essa classificação, a artistas plásticos que se enganaram na opção tomada, todos com relativo êxito que, por muito passageiro que seja, sempre lhes vai enchendo o ego de satisfação.
Mas esses, eu também não invejo. São equívocos de um período que não pode deixar de ser curto, ainda que ocupe toda a existência dos próprios contemplados. Não atinge o futuro. Não passa para depois.
Feitas bem as contas, eu preferia que, como sucede agora, não me seja reconhecido qualquer valor em vida, desde que, mais tarde, já não sendo eu a assistir, seja descoberta alguma injustiça em tal pequena valorização. É uma ilusão que sustento, confesso.
Sou, de facto, um espectador de mim próprio. Reconheço as minhas falhas, não hesito em passá-las para o papel, em dar testemunho das críticas que me faço, mas tenho de ligar com o exterior de mim, guardar no fundo do eu as preocupações que seriam ridículas se as transmitisse a alguém e, por isso, me fecho, deixando aos outros uma sensação de um afastamento que, na verdade, não é propositado.
Se os católicos praticantes utilizam o padre para desabafar o que consideram ser os seus pecados, eu, que não sigo há imenso tempo essa prática que até considero ridícula, deixo na escrita, quando me encontro isolado do mundo, as minhas angústias, as queixas que me afligem, os erros que pratico. Este é o meu confessor. E, dado que o papel não aconselha, fico, no mínimo, com a consciência mais aliviada.
Por mais absurda que seja esta prática, consola-me. Deixa limpa, por momentos, essa tal consciência. Amanhã logo se vê!..

domingo, 1 de agosto de 2010

Não sei. Tanta obra monstruosa que tem saído das mãos do Homem, não seria preferível que se mantivesse o vazio?
Que digo eu?
Então seria mais próprio, amanhã, quem, por ventura,
vier a querer ler este texto, encontrar, em seu lugar,
uma página em branco?

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Cada vez mais tenho a sensação de que, para os outros, fui sempre alguém do lado de lá. Não só para os mais afastados, mas também para os parentes. Quanto mais tempo vivo, mais me convenço desta realidade, E, nesta altura, não vale a pena disfarçar que não é assim. A culpa, se é que se pode querer descortinar culpado nesta situação, terá de ser atribuída apenas a mim. Porque não serei abertamente comunicativo. Porque não pertenço àquela maioria de pessoas que mostram dar grande importância ao que os outros dizem, sobretudo quando internamente não atribuem valor suficiente para isso. Será por não ter esse sentimento de interesse demonstrativo, que tanto agrada aos outros interlocutores. Será por isso. Mas, seja pelo que for, a realidade é essa: Provoco pouco sentimento de intimidade nos outros.
E a verdade é que nem sei se sinto falta dessa intimidade. Dessa cumplicidade. Mesmo no que diz respeito aos amigos mais chegados, nunca senti esse entrosamento, daqueles que dá para trocas de confidencialidades. O meu
íntimo sempre foi resguardado e, talvez por isso, o dos outros nunca me foi revelado. Antes assim.
Aquilo a que se chama “abrir-se” com alguém, foi coisa que nunca fez parte dos meus costumes. Sobretudo, porque não creio que interesse ao próximo saber o que vai no meu íntimo. Poderão, por simples curiosidade, escutar o que lhes transmitisse de muito privado que existisse no meu âmago, mas mais do que isso não se passaria.
Estar do lado de lá é, pelo menos, estar nalgum sítio. Digo eu, para justificar o meu ponto de vista. Estar em todos os lugares, do lado de cá e do lado de lá, mostrar abertura e até entusiasmo quanto ao que se escuta numa conversação, é uma forma de estar na vida para além de ser cómodo. E não importa averiguar o grau de verdade que existe em tal posição. Se eu fosse assim, só tinha a ganhar no capítulo da apreciação dos outros a meu respeito.
Mas, quanto à apreciação de mim para mim próprio?

sábado, 31 de julho de 2010

Se desligar a luz é fácil, já apagar as más recordações é tarefa que não depende de dar ao interruptor.
Homem não é a tal máquina.
Não há comando eléctrico que possa afastar aquilo que não se deseja que volte à memória.
Não se comanda com um botão.

A PASTELARIA

Gente que entra e que sai
disposta a consumir
e depois p’ra onde vai
já está pronta p’ra seguir
a vida que cada um
tem ainda pela frente
pois já não segue em jejum
levando um ar de contente

Os bolos têm saída
neste País de gulosos
e o café como bebida
de simples e de vaidosos
lá prepara para a luta
quem pouco dinheiro gasta
que a vida é uma disputa
o que se ganha não basta
É nesta pastelaria
ond’eu por vezes me sento
que até me serve de guia
p’ra poesia que eu tento
e mesmo qu’ocupe alguém
cadeira na minha mesa
a conversa me faz bem
porque saio da tristeza

O de café variar
onde vou mais a miúdo
é só p’ra desabafar
e imaginação ajuda
pois vejo gente diferente
e outras vozes eu ouço
algo que é influente
naquilo que faço e posso

Daqui da pastelaria
até ao café normal
não faz falta correria
é tudo peto afinal
é só questão de apetite
de como estiver o dia
pois preciso qu’arrebite
toda a minha fantasia



DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Quem nunca teve bens materiais que valessem a pena, quem sempre lutou pelo Pão Nosso de cada dia sem ter gozado de abastanças, ainda que tenha podido desfrutar ocasionalmente de algumas mordomias que lhe foram proporcionadas, é natural que tenha aspirações a não morrer sem antes ter a sorte de lhe sair, em qualquer lotaria, um prémio pecuniário chorudo.
Claro que os ricos, os que já têm bastante, esses não desprezam um aumento substancial das suas fortunas. Dinheiro nunca vem em excesso, dirão. E a única diferença é que, quando arriscam um verba ainda que elevada nas apostas, utilizam a expressão “investir”. Os pobres e mesmo os remediados, os que contam as moedas na carteira, limitam-se apenas a tentar a sua sorte, com o lema de que “se tiver de sair… sai!”.
Pensando apenas nos que não têm nada que se veja, no cidadão corrente que vive condicionado a um montante mensal certo, ao que administra, ele e a mulher, geralmente até ela, aquele contadinho que não chega para dar um passo fora da linha, que a custo dispõe de uns trocados para tentar a sua sorte numa dessas lotarias que, quando sai e toca só a um, é coisa que se veja, tendo essa figura como modelo de imaginação, pode-se deduzir a mudança radical que se produz na sua vida. Será que a inundação de dinheiro a quem não está habituado a tanta fartura, que não soube nunca o que era ter para lá do mínimo, ultrapassada a alegria eufórica do momento da notícia inesperada, persiste sob a forma de felicidade?
Não ter problemas no gastar, não fazer contas na altura das compras, extasiar-se com tudo o que vê e que pretende adquirir, ter finalmente o carro dos seus sonhos, mudar de casa, deixar de trabalhar, aproveitar as excursões organizadas, comer a tão ambicionada lagosta, fumar do mais caro, ir visitar um parente que não vê há anos e que emigrou para longe, dar a volta a todos estes desejos que nunca pensou poder um dia satisfazer, tudo isso ultrapassa. Mas, e depois?
Passado o período da experimentação, de sensações novas e, por vezes, até antes disso, não é difícil imaginar que começam a surgir os contratempos impensáveis na época das vacas magras. As choramingas dos familiares, vizinhos e mesmo vagamente conhecidos, as propostas de negócios mirabolantes que surgem, sem se perceber bem de onde, deixam a cabeça dos chamados sortudos em bolandas. Mesmo usando óculos escuros, agora de marcas refinadas, saindo de casa de fugida, analisando cuidadosamente quem se encontra nos arredores antes de regressar ao lar, não atendendo o telefone que passou a retinir repetidamente, retirando com enjoo os maços de correio que todos os dias encontra na caixa e que prefere não ler, tudo isso são consequências de ter passado, de um dia para o outro, de pobre a rico.
E os filhos, antes tão dóceis, cumprindo sempre os seus deveres, que deixaram de ser tudo isso e passaram a apresentar exigências?
E a saúde, que tinha sido razoável até então, e de repente, deu mostras de não estar tão segura? A ida frequente aos médicos, o cuidado com exames complicados e caros, a compra excessiva de medicinas que se vão acumulando meio usadas nas prateleiras, o interesse em conhecer especialistas no estrangeiro que anunciam curas aos que podem pagar, tudo isso passa a fazer parte das preocupações dos novos ricos.
Dizia-me uma vez um homem que gozava de grande poder financeiro pessoal que lutava com um grande dilema: que não sabia se as pessoas que o rodeavam e pareciam ser companheiros fiéis, o faziam por serem seus amigos ou simplesmente porque ele era rico. E essa angústia persegui-o sempre, ao ponto de evitar relacionar-se com novos conhecidos. Preferiu o isolamento. Era um infeliz!
Pergunta-se então: onde está a felicidade? Provavelmente naquele que tem a coragem de se desfazer dos excessos de bens. De distribuir pelos que precisam. Mas como em tudo em que entra a mão do Homem, como não é humanamente possível que seja o filantropo, ele próprio, a actuar pessoalmente e a controlar o que pretende distribuir pelos necessitados, tem de confiar em organizações, em grupos que se prestam a cumprir honestamente a missão de repartir. Será que adquirir mantimentos num continente e enviá-los para outro distante, incluir nessa complicada operação múltiplos operadores, não acaba por beneficiar muita gente que não tem a ver com a miséria que se pretende diminuir? E até vai contribuir para encher os bolsos de quem já tem muito?
Por isso, dar, ser generoso, dividir com quem necessita dá trabalho. E preocupação. Se não for assim é um acto apenas de propaganda – porque geralmente essas atitudes são propagadas -, de alguém que não está disposto a ter maçadas. Não tem valor.