segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A SOMBRA

A sombra que vejo e não fala
que não a apalpo mas sei que existe
que me persegue e é bem vassala
daquilo que tudo em mim é triste
essa figura que me imita só no gesto
que repete tudo aquilo que faço
não é acordo nem protesto
mais me parece um bom palhaço

Precisa de luz para me reflectir
pois na escuridão desaparece
avisa-me também para fugir
e volta a surgir quando amanhece
agradece ao Sol o seu esplendor
e é nas ruas que mais se nota
eu sei que sou eu o seu benfeitor
aquele que marca a sua rota

Sombra querida enquanto eu viver
tu andarás bem perto de mim
e ninguém pode jamais antever
o dia em que chegaremos ao fim
da nossa caminhada lado a lado
sendo eu como tu e tu como eu
não existirá mais o nosso enfado
de nos perguntarmos se haverá céu

SE EU MANDASSE!...


JÁ NÃO É A PRIMEIRA vez que, nas televisões portuguesas, é feita a pergunta a telespectadores de rua, em que o tema é: “se mandasse o que é que fazia?”. E as respostas que surgem, por se tratarem de entrevistados sem preparação e em que o problema pessoal de cada um é o que lhe salta logo à boca, não representando quase nunca uma forma de ser encarada como tratando-se de uma solução que satisfaça as necessidades concretas do nosso País. Nem, naturalmente, os inquiridores estarão à espera de deparar, ao virar da esquina, com o “milagre” de surgir o remédio milagroso que porá tudo na ordem.
Se a pergunta me fosse feita, não hesitaria em dizer: Não sei! E explico esta minha franqueza.
Na situação actual portuguesa, vivendo nós num regime democrático que tem de obedecer às suas regras e que não permite que a vontade prepotente de uma figura se sobreponha ao que é possível executar, perante a fraqueza que nos atingiu e de que não vale já a pena apontar os seus causadores que, sendo vários, uns mais distantes e outros que se situam ainda nos cadeirões do poder, não é por lhes dirigirmos acusações que conseguimos efectuar o importante e que é o conseguirmos sair da rotura financeira e económica em que estamos colocados. Sendo assim, se fosse obrigado a aceitar aquilo que, por cá, já não se vislumbra quem se encontre ansioso por desempenhar as funções de primeiro-ministro de um Governo não maioritário, depois de reflectir seriamente no embroglio em que tinha sido metido, tendo escolhido o complemento ministerial que julgasse mais adequado às circunstâncias, a primeira acção que desempenharia era a de me dirigir aos portugueses e, numa fala franca, simples e credível, fazer-lhes o relato aberto do panorama do nosso País, da mesma forma que um médico sério deve declarar à família de um doente em estado adiantado de enfermidade quais seriam as perspectivas de salvação do ser que, de olhos arregalados, aguarda que surta a salvação ainda que milagrosa.
Ao contrário dos partidários de que é preferível pintar de cores vistosas as paredes em estado de queda, eu sempre defendi neste meu blogue e noutros escritos de que assumo a responsabilidade que não é coerente esconder a realidade, pois que só alertando os interessados é que será possível obter a sua colaboração nos esforços de salvamento.
Por isso, a primeira coisa que faria era mostrar com provas indiscutíveis que Portugal se encontra numa situação de perto da “banca-rota”, em que as Finanças não podem garantir o cumprimento de todas as obrigações que lhe cabem, encontrando-se perto de as próprias reformas terem de ser lapidadas, primeiro em parte e depois, sabe-se lá em quanto.
A seguir, avisaria que as medidas que iriam entrar em vigor de imediato, sem perda de tempo, seriam as de um corte radical nas despesas que não se admitem ainda existirem, como as regalias de todos os tipos que alguns servidores do Estado e de empresas públicas e semi-públicas continuam a auferir, como sejam viaturas, motoristas, (a partir de secretário de Estado acabavam tais benesses), instalações e até a existência dessas dependências que teriam de ser drasticamente extintas. Os funcionários que ficassem sem actividade, a esses haveria que procurar colocá-los onde exista exiguidade dos mesmos ou, em último recurso, estudar a forma de os dispensar em condições humanas. Seria duro, mas não havia outra forma de actuar.
Tudo isto daria ocasião a que os cidadãos acompanhassem a par e passo o que se estava a fazer, por forma a que aceitassem, eles próprios, os sacrifícios que lhes coubessem.
No capítulo da produtividade, o Estado, através dessa dependência que não há forma de dar provas de ser eficiente, o AICEP, com Basílio Horta à frente, teria de, reduzindo também o número de instalações que, sendo infrutíferas, se espalham por várias cidades estrangeiras, com custos altíssimos, dar todo o seu trabalho em favor da busca de investidores estrangeiros que quisessem abrir no nosso País as suas iniciativas, para o que se lhes concederiam condições especiais, quer no capítulo de impostos como na anulação das burocracias que são tão usadas no nosso espaço. Essa seria uma prioridade que, mesmo tendo de fazer investimentos, ocuparia as cabeças mais competentes de Portugal, pois que o desemprego só se combate quando se criam postos de trabalho, os quais, tratando-se de empresas industriais, também ocasionam o aumento de exportações, razão pela qual seriam escolhidas actividades que se dedicassem à produção de artigos que tivessem mercado possível noutros países.
Depois, coniforme escrevi há dias neste blogue, o subsídio de desemprego teria de terminar de vez, tanto mais que se sabe que muitos dos beneficiados com esse apoio não aceitam novos trabalhos para não perderem os euros que recebem enquanto estão em casa. E a forma de executar esta tarefa com eficiência e benefício para todos também já aqui expus e, por sinal, Paulo Portas, que talvez seja leitor deste meu blogue, está agora a usar a ideia, o que me parece até muito bem. Se eu lhe dei o primeiro emprego como jornalista, também posso agora servir de apoio para as suas funções políticas, independentemente das tendências políticas de cada um.
E não tenho mais espaço, pois o que eu faria se mandasse é de tal maneira vasto que estaria aqui a preencher este blogue até amanhã a esta hora.
Mas repito o que digo logo de início: De facto, saber de ciência certa o que faria se mandasse, por minha livre vontade, não sei. Mas ão ficaria era parado. Nas condições em que nos situamos suponho que, se me metesse a executar parte daquilo que expus aqui suponho que não chegaria ao fim, pois que as invejas desta gente toda que se situa em redor do poder, seja ele qual for, só não ataca os capazes, sempre pelas costas, se puderem passar despercebidos. E, claro que um Ditadura dava muito jeito a variada gente. E nessa eu não quero, nem de longe, participar. Já me bastou o tempo em que, ao longo de muitos anos, a suportei e com ela sofri o meu largo quinhão. Coisa que a maioria dos actuais políticos não tem ideia vivida do que foi.
E bem falta lhes faz!...

domingo, 5 de setembro de 2010

POR TUDO E POR NADA

A língua tem seus mistérios
a nossa nisso não falha
há ditos que serão sérios
por dá cá aquela palha

Por pouco se zangam uns
outros nunca descarregam
há os que fazem jejuns
todos há palha não chegam

Digam lá o que disserem
isso da palha pedirem
é coisa que se o fizerem
serve p’ros outros se rirem

Mas a verdade é só uma
nesta língua bem falada
toda a gente se acostuma
e pede palha por nada

CASA PIA


É ASSIM QUE SE PASSA nesta Terra. De repente surge o assunto que domina todas as atenções. Mas também, conforme aparece também é rapidamente esquecido e passa-se imediatamente a outro problema. Sim, porque esses não faltam por este nossos sítios.
Agora foi, como já se aguardava desde que estava anunciada a leitura da sentença judicial em relação a esse “eterno” assunto Casa Pia, o ficar a saber-se qual a decisão do Tribunal no que diria respeito ao apuramento ou não das penas que poderiam ser aplicadas aos arguidos, que eram sete indivíduos que andavam já há anos a comparecerem perante os vários juízes que intervieram no caso e que, segundo deram ideia antes de entrar desta vez na sala de audiências, praticamente todos estavam convencidos de que a solução seria a da sua absolvição, pois o que demonstraram e as câmaras de televisão registaram foi uma absoluta confiança de que não existiam provas capazes de os colocar na posição de culpados. Todos disso deram mostras, com excepção do Bibi, que nunca apareceu e da proprietária da casa de Elvas, Gertrudes Nunes, que também nem a cara mostrou ao longo de todo o processo.
Mas, sobretudo Carlos Cruz, esse nunca perdeu ocasião para, durante todo o seu percurso neste processo e, com grande evidência no dia em que no Tribunal que acolheu o caso, e em que fez questão de reclamar a sua inocência, alegando que não existiam provas que o pudessem condenar como autor de crimes de abuso sexual de menores.
E, logo que se soube que a pena que coube a todos foi o de alguns anos de cadeia e do pagamento de uma indemnização a cada vítima, logo o ex-apresentador de televisão se evidenciou contra o que considera uma injustiça praticada contra ele, declarando que a sua luta contra a decisão judicial e que não descansaria enquanto a “verdade” não viesse ao e cima. Isso, ao mesmo que noutros canais televisivos não deixaram de haver declarações, entre elas da antiga provedora da Casa Pia, Catarina Pestana, de que a decisão judicial era mais do que merecida pelos acusados e de que, pelo menos por parte das consideradas vítimas, os alunos utilizados nos actos proxenetas, se verificava um contentamento bem justificado.
O facto do advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes, ter exercido o seu papel – talvez excessivo – dando mostras de uma grande revolta face ao acordo dos juízes que consideraram culpado o seu cliente, não alterou em nada a decisão e, a partir de agora, o que se espera é que todos os representantes dos acusados entrem com recursos para o Supremo Tribunal, o que quer dizer que todos permanecem ainda em liberdade – sabe-se lá por quanto tempo! – e que não se pode afastar a hipótese de todo o processo se prolongar por longo período, o que faz correr o risco de prescreverem os processos em causa.
Não podia deixar passar este caso no meu blogue, se bem que não acrescente nenhuma novidade ao que foi já largamente divulgado, mas, com o caso Queiroz, a lutazinha política Sócrates/ Passos Coelho, a situação da complicada história Duarte Lima, e até o empate de futebol com o Chipre por quatro golos, tudo o mais continua no banho Maria em que vivemos, à espera da fervura que fará deitar para fora da panela o que acabará por ferver excessivamente a paciência dos habitantes deste pobre País.
Ah! Ainda vamos ter lá para diante as eleições presidenciais… Será isso que vai remediar o caos em que nos debatemos. E Sócrates a rir-se. É que, seguramente, já tem emprego depois de sair do Governo e quem vier a seguir é que as vai pagar todas juntas. E é bem feito!

sábado, 4 de setembro de 2010

BOCEJO

A vida já me deu tudo o que tinha a dar
momentos de alegria e de prazer
já me satisfiz com o bem fazer
vi o que mundo pode mostrar

Levo pois que contar a quem me ouvir
se é que lá no fim outros estarão
prontos a receber-me a dar a mão
a quem não teve pena de partir

Porém tempo de mais onde me vejo
já cansa e não traz nada de novo
razão maior p’ra mais um bocejo

E sem ter muito mais o que fazer
nem nada p’ra deixar a este povo
não vejo razão p’ra não morrer

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


SIM SENHOR, faço esforços para olhar o mundo com o máximo de resignação possível e procurando ser compreensivo com aquilo que eu considero desvios de comportamento que se verificam em todos os cantos desta Esfera que vai circulando em redor do Sol. Por mais que pareça, com aquilo que me sai frequentemente da pena, que serei demasiado rigoroso quanto a não desculpar os erros da Humanidade, tenho de afirmar que, quando não me encontro perante o papel em branco, os meus pensamentos comportam-se como a maioria das pessoas, ou seja, distraio-me com o correr das horas e com o folclore humano que comporta toda a variedade de actuações.
Sinto necessidade de prestar este esclarecimento na altura em que prevejo estar a aproximar-se o fim destes meus desabafos que, a prolongarem-se, acabariam por cansar os eventuais leitores, sobretudo os que seguem as vias do optimismo, aqueles que, felizmente para eles, desenvolvem a esperança de que o futuro irá oferecer boas recompensas que irão compensar as longas esperas por melhores dias.
E, como será natural, tenho-me preocupado mais com aquilo que ocorre neste Portugal do que com tudo que atormenta o Mundo em redor, se bem que não seja possível fugir do exercício de comparação. E, por mais que o evite fazer, não me resta outra saída que colocar o dedo na ferida. Na nossa chaga.
Neste nosso País andamos sempre em mudanças, à procura de um caminho certo, na busca de soluções. E dá a impressão de que não há meio de encontrarmos a via exacta. Somos, de facto, um País experimental. Basta mudar o Governo, o que, de certo modo, é aceitável, mas até com o mesmo em actividade, mesmo aí damos o dito pelo não dito, o feito como errado, voltamos atrás e damos saltos noutras direcções mais ou menos quiméricas.
Nem é preciso puxarmos muito pela cabeça para apontarmos vários casos que comprovam essa falta de consistência nas decisões que são tomadas em determinada altura. A situação caricata de se ter andado às voltas para decidir sobre o local definitivo onde deveria construir-se o novo aeroporto que serve Lisboa, é bem a demonstração de que não estamos calhados para tomar decisões definitivas, certas e aceitáveis pelas maiorias.
Mas, já agora, refiro também uma medida que não há forma de ser tomada com absoluta garantia de ser a mais indicada para garantir o melhor aproveitamento escolar dos nossos estudantes: a marcação de faltas aos “gazeteiros”, coisa que, no tempo dos mais antigos dos portugueses, não oferecia dúvidas. Hoje ainda se anda à busca de saber se a não comparência nas aulas deve ou não ser punida. Antigamente, dez faltas não justificadas num ano e numa cadeira era “chumbo” certo. Que horror!
E aponto apenas estes dois exemplos, porque muitos poderiam encher uma lista negra de experiências que se fazem na busca de u, caminho tão certo quanto possível.
E é neste permanente faz e emenda, neste tem-te e não caias em que vivemos, que por cá ficamos à espera de melhores dias e de passos seguros na direcção do que nos espera. Poderíamos, ao menos, ver e estudar o que se faz noutros países e que tenha resultado. Seguir bons exemplos não é errado. Para que querermos ser originais, se não acertamos com o caminho e vivemos na terra das emendas?



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A CORDA


Que grande falta nos faz
sempre que a procuramos
se preparados estamos
para o que se for capaz

A corda, curta ou comprida
bem ajuda a agarrar
o que pretende escapar
numa ânsia de fugida

Desde sempre qu’ela existe
inda o homem era macaco
p’ra não mostrar qu’era fraco
até hoje ela resiste

P’ra juntar o separado
segurar o que se solta
acalma uma revolta
metade de cada lado

Açoitar o criminoso
fazê-lo as faltas pagar
a corda no seu desamar
dá mostras de certo gozo

P’ra subir ou p’ra descer
de algo que está bem alto
e se for mesmo assalto
boa corda há que escolher

No mar a corda tem nome
de cabo passa a chamar-se
não é p’ra ser um disfarce
é pelas funções que assome

Presente no dia-a-dia
da corda sempre a lembrar
até logo ao acordar
estar livre dá alegria

É como esticar a corda
até estar quase a partir
coisa a que o papa-açorda
não costuma reagir

A nossa língua tem disto
são horas, veja se acorda!
e dê ao relógio corda
o que nunca disse Cristo

Nas mãos de ilusionista
corta e cola de uma vez
a corda causa gaguez
e embaraça a vista

Em árvore dependurada
com um laço numa ponta
para uns é uma fronta
p’ra outros é abalada




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


A FADIGA física é algo que atormenta o corpo. Mas a fadiga moral, essa canseira em local que não se vislumbra concretamente onde se situa, não será uma dor palpável, que passe com compressas, massagens e unguentos. Existe, mas não se encontra fixa em local concreto, é também uma ânsia de qualquer coisa que não pode ser indicada ao curador. É uma respiração descompassada que não tem que ver com arritmia, é um suspiro profundo que sai tão de dentro que não se entende onde nasce..
Estar saturado de alguma coisa concreta ou de nem se saber bem de quê, cansar-se de ouvir os outros, sem razão específica, como também em relação a alguém de concreto que, antes não fatigava, cansar-se a pensar sem conseguir tirar conclusões, andar desinteressado dos problemas, especialmente dos que surgem de novo, ouvir as opiniões de outrem e não ter argumentos para contrapor, dar sempre a ideia de que estamos de acordo com tudo que dizem, essa fadiga provocada por se ter de cumprir obrigações, horários, compromissos, acaba por traduzir-se em tédio. E pode ser um início da perda de vontade de estar vivo.
Penso que, sem dar uma definição tão específica, não será assim muito raro que os seres humanos não passem, por vezes, por situações que se pareçam com as que acabo de descrever. E quanto mais se fecham em si os que sentem agruras semelhantes, quanto mais difícil se torna comunicar, mais isolado se ficará.
Sendo múltiplas as razões que conduzirão as pessoas em tais condições a fecharem-se e a não conviverem, mais difícil ainda é fazerem entender os demais do problema que os atinge e menos também se os motivos são resultantes da ineficácia em atingir parâmetros da tabela das capacidades com que sonham e sempre sonharam.
Por isso, ao não transmitir para fora que saturação é essa e que fadiga moral se, acarreta, fica-se com o apodo de mal -humorado, de zangado com o mundo, de ser de difícil convívio. E se se tiver o atrevimento de abrir o coração e querer explicar o que vai dentro de tão aflitivo, a posição alheia é de espanto, de incompreensão, até talvez de um certo ar irónico. E um voltar de costas. E se, depois de produzir alguma coisa que poderá parecer que tem pernas para andar, na escrita ou na pintura, ao rever o que está feito, desaponta, desgosta, não serve de consolo pelo trabalho tido, a tortura espiritual que pode aflorar deixa qualquer um prostrado e só escondendo a obra é que será possível fugir às críticas severas. E recomeçar tudo de novo.
Sem vergonha, há que insistir. É forçoso vencer a fadiga e tentar passar a fasquia mais uma vez. Ir até ao fim, até ao último dia do tempo que falta. Quem pode antecipar os resultados?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

BURROS

Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais
Dormir também descansa a cabeça.
Enquanto se dorme, não se pensa.
Sonha-se

BURROS TEIMOSOS


PROVOCA-ME a maior tristeza constatar que, no nosso País – onde deveria ser? –, as decisões e as medidas a tomar para ocasionar alguma melhoria nas situações que atravessamos, tardem sempre um tempo interminável, o que quer dizer que os elementos humanos que têm o poder bastante para alterar o que pode e deve ser objecto de melhoria, essa gente que se encontra em lugares que lhes auferem tais possibilidades, os referidos “mandões” não merecem desempenhar as funções que lhes foram proporcionadas e, se as coisas funcionassem como numa empresa, face a essas incapacidades, o que deveriam merecer era serem postos na rua sem apelo nem agravo.
Mas não é disso que se trata, e, para além do enfado que, como português que sou, me amargura a existência e cada vez mais me afasta daquilo que se chama de “orgulho de ser português”, para lá disso é a revolta que me leva também a escrever estes desabafos que, segundo me informam, alguma audiência possuem.
Ninguém terá dúvidas de que o desemprego, provocado pela nítida ausência de espírito empreendedor que quase todos os Governos têm demonstrado e de que o actual dá mostras ainda maiores, é provocada pela falta de trabalho que as actividades privadas provocam por razões de uma concreta crise que se tem alargado por toda a parte. E não são apenas as chamadas grandes empresas – que essas, como é sabido, até têm estado numa fase de redução substancial de trabalhadores, quando não atingem o ponto de encerrar as portas de rompante -, mas serão as menos poderosas, até os estabelecimentos comerciais médios e pequenos que podem contribuir para que os desocupados encontrem resposta à falta de colocação.
Mas, para isso, o que se torna essencial é que, nesta fase particular e sem complexos de nenhuma espécie de ordem política de Esquerda ou de Direita – porque os tempos não estão para isso -, não se criem dificuldades burocráticas e outras complicações no que respeita aos horários de funcionamento de empresas sejam elas quais foram, permitindo que tenham as suas portas abertas ao público, beneficiando com a liberdade de actuação que não se compadece com horas rígidas de fecho, nem com limitações de funcionamento aos domingos e feriados.
É evidente que, desde que esse aumento de permanência do pessoal para lá dos que estabelecem os horários de trabalho, as entidades patronais terão de ser obrigadas a admitir mais colaboradores, o que representa, claramente, ter de se ir buscar ao desemprego gente que está desocupada.
Há também que dizê-lo e da mesma maneira sem complexos, que esta liberdade de actuação corre o perigo de ocasionar abusos na área patronal, os quais não podem passar sem as devidas inspecções, mas, atendendo ao enorme afluxo de cidadãos sem trabalho e que não pára de aumentar, haverá que apelar para a consciência de todos e procurar que se evitem as perseguições desmedidas das autoridades, pois que uma coisa anula a outra. E se, o que temos em Portugal como enorme flagelo é o ter-se atingido já os 11% de desempregados, a prioridade que se defronta é a de usar os meios essenciais para que tal número seja drasticamente reduzido.
Aí pertence às autoridades agirem em moldes correctos e que mostrem resultados positivos, para se conseguirem, o mais rapidamente possível, respostas satisfatórias. Em primeiro lugar, o concederem-se certos apoios aos empresários que, requisitando novos trabalhadores exclusivamente nos serviços oficiais de desemprego, justifiquem a sua contribuição para a baixa de desocupados, sendo um deles um valor equivalente ao que o Fundo de Desemprego desembolsa nas referidas circunstâncias (tendo de suceder o contrário nos casos de despedimentos). E essa atitude, com tempo determinado, levaria seguramente a que das duas partes, do Estado e dos empregadores, se verificasse uma contribuição conjunta contra esse mal horrível que é o de haver gente sem trabalho.
É sabido que os partidos políticos classificados de Esquerda e que de tão grande utilidade são quando se encontram atentos às actuações dos que não prestam serviço de interesses para o País, esses, sobretudo, se mostrarão contrários ao facto de aumentarem os horários dos estabelecimentos e, em particular, não se respeitarem os feriados, já que, no que respeita aos domingos e aos dias santos, a Igreja, essa já se sabe que é contrária. Mas que o próprio CDS também se insurja, como agora o demonstrou, assumindo-se como exageradamente católico no que diz respeito ao trabalho aos domingos, isso é também de estranhar, mas tais posições não podem impedir que o alvo principal, que é o de criar mais trabalho, seja prejudicado.
Burros (com perdão desses simpáticos animais) há-os em toda a parte. Mas quem tem sobre as costas as responsabilidades de gerir os problemas de um País, esses não podem andar ao sabor das ondas e das opiniões partidárias sejam elas quais forem, porque o que está em causa é tudo fazer para que Portugal não caia numa situação que, como já se afirma por aí, se intitula insustentável.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PANO PARA MANGAS

Pegar num assunto a sério
comentá-lo com alguém
mesmo sendo um mistério
que levanta o seu porém
é base de discussão
mesmo zanga à portuguesa
todos julgam ter razão
ninguém quer mostrar fraqueza

Eu é que sei, diz de um lado
tenho de tal a certeza
não posso ficar calado
e não me causa surpresa
tal afirma o sabedor
que é quem provoca zangas
e seja o tema que for
ele dá pano p’ra mangas

E a língua popular
usa termos curiosos
como este do pano dar
p’ra enervar os nervosos
p’rá conversa prolongar
as mangas vêm à baila
só é preciso falar
ainda que nada valha

Isto das mangas faz rir
porque até lembra o pobrete
que nem precisa falir
anda em mangas de colete
afinal neste País
que é bem terra de tangas
não espanta haver quem diz
não chegar pano p’ra mangas

OS SÁBIOS


SOMOS UM PAÍS de gente muito competente, ultra-sabedora, sem dúvidas e sempre pronta a alterar o que foi feito antes. Isto, pelo menos, na área da Justiça, pois que as emendas aos Códigos das várias especialidades têm-se verificado permanentemente e os profissionais das diferentes áreas não param de apontar as modificações que os especialistas que são chamados a prestar a sua ciência introduzem nos respectivos livros. Segundo foi noticiado agora, o Código do Processo Penal foi alvo de nova mexida e os juízes e advogados que se têm de fiar nas disposições legais, uma vez mais são forçados a anotar nas margens as mudanças que passam a vigorar.
É evidente que são muito poucas as situações de toda a ordem que são imutáveis ao longo das vidas, pois as evoluções de diferentes espécies que se verificam pela acção dos homens obrigam a que se vá alterando o que antes se considerava como imutável. É assim, até com a própria língua dos povos, e tais modificações, sendo graduais, lentas e naturalmente adequadas às circunstâncias que se atravessam em cada momento, essa não estagnação não provoca confusões, antes constitui melhoria nas actividades que representa, a maneira de viver de cada nação.
Por este motivo, não será de estranhar que os conjuntos de leis que regem o apuramento de responsabilidades dos cidadãos se vejam igualmente sujeitas à introdução do que se consideram melhorias, pois que também as faltas dos cidadãos não se equivalem às que eram praticadas tempos antes.
Tudo isso se compreende. Agora, o que constitui uma característica curiosa da nossa Justiça, a tal que é das mais demoradas de todo o Planeta e a que bate todos os recordes de burocracia excessiva, para além do preço que dificulta aos mais necessitados o servirem-se desse meio para defender os seus interesses, é o facto dos Códigos andarem permanentemente em bolandas e então o Penal, que é o mais necessário para impor uma certa ordem nos comportamentos humanos, não pararem de sofrer modificações, algumas delas apresentando soluções totalmente contrárias que eram antes aplicadas.
E ainda quanto ao Código Penal e às mudanças introduzidas recentemente, segundo se pode concluir de uma reportagem emitida pela SIC, a ideia com que se fica é que, analisando o que ocorreu com o julgamento da Casa Pia, se o Código modificado tivesse interferido nas decisões jurídicas tomadas alguns dos arguidos teriam beneficiado, sobretudo nos casos das prisões preventivas. E quanto a isto não adianto mais!…
Vale portanto a pena referir-me a este facto, quando tantas coisas correm mal no nosso País?
Seguramente que não, pois se trata de mais um fenómeno lusitano que se acrescenta ao que ocorre em todas as áreas da Nação portuguesa. Mas eu pego nos temas de acordo com as notícias que vão saindo e, por vezes, não resisto a deixar escrita a minha indignação por ter de viver aqui e de nada poder fazer para mudar as mentalidades dos cidadãos, sobretudo daqueles que deviam ser úteis às nossas causas mas que se distraem com os problemazitos que lhes são colocados à porta.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

POETAS

Isto de querer ser poeta
pode bem nada dizer
há os que acham uma treta
e não ter mais que fazer
nem saber bem o que quer

Quem vai compor poesia
com esforço irá tentando
na ideia de que quem cria
sem saber como e quando
lá acabará rimando

Mas também sem rima vai
usando seu versejar
pois o que mais sobressai
é o que fica no ar
aquilo que faz cantar

Só que o poeta em geral
não consegue que em vida
o achem ser genial
e só depois da partida
a fama lhe dê guarida

Poetas mortos há muitos
quantos terão produzido
em lampejos bem fortuitos
alguns graças ao Cupido
face a coração partido

Sentir a vida de frente
descobrir suas fraquezas
faz que haja alguma gente
sem esconder suas belezas
também cante as tristezas

Deixar em verso bem escrito
aquilo que na alma vai
é como quem solta um grito
que nem por isso atrai
quem do seu mundo não sai

Gavetas cheias de versos
à espera que alguém os leia
que saiam em livro dispersos
mesmo não sendo epopeia
mas que mostrem certa veia

Há editores valorosos
que acham que a poesia
não sendo só dos saudosos
exclusivo de valia
vão deixando que teimosos
possam ver a luz do dia

DESENCANTO POR ENQUANTO!




RECORDO-ME de ter participado, com José Carlos Ary dos Santos, numa dessas mesas em que. numa agência de publicidade, fazia parte profissional do “staff” o poeta Alfredo O’Neill, que foi o autor do “há mar e mar, há ir e voltar”.
Foi um período em que, por vezes se repetiam as discussões, os murros nas mesas, os gritos e até que, de repente, saia um “slogan” que era agarrado por todo, com grandes gargalhadas de satisfação.
Terá sido assim que surgiram centenas de frases que ficaram nos ouvidos de todo o Portugal e que constituíram a razão das boas vendas de artigos que as agências de publicidade propunham aos seus clientes. Os mais antigos ainda hoje se recordam de tantas dessas promoções, e não vou aqui repetir muitas de tais referências, ditas e cantadas, porque os novos nem têm ideia de que isso se terá passado cá na nossa Terra.
Vem isto a propósito de quê? Dos termos utilizados hoje quer nas rádios, na Imprensa e, sobretudo, nas televisões, e em que, na maioria das situações, os ouvintes ou espectadores não absorvem o produto que pretende ser dado a conhecer e ficam coma ideia estranha quanto ao que será que está a ser anunciado.
É o mundo de hoje, dirão. Pois será. Mas, afinal, para que serve gastar dinheiro em publicidade se os públicos que se pretende que sejam atingidos não conseguem entender, logo à primeira, o que está a ser, pelos vistos, divulgado?
De facto, num certo aspecto a publicidade não se situa assim tão distante do jornalismo propriamente dito no capítulo de que é necessário passar uma ideia aos possíveis compradores e nisso há que ser explícito e rápido na mensagem. É o que se passa com os jornalistas que têm mais queda para formar títulos dos artigos e chamá-los à primeira página das publicações. Um texto pode ser muito bem escrito, relatar convenientemente um acontecimento, mas se o leitor não é convidado a apreciá-lo através de um cabeçalho que lhe prenda a atenção, mas que – cuidado – não desvirtue o conteúdo, então metade da sua importância é perdida.
Atravessamos neste momento um período de má publicidade. É a minha opinião. Quantas vezes oiço e vejo repetidamente um anúncio e só fazendo algum esforço é que entendo o que é pretendido vender.
Será que isso só se passa comigo? Todos os potencialmente candidatos a serem consumidores do produto mal divulgado conseguem ficar esclarecidos?
Publicidade que tem de ser bem digerida para atingir o objectivo da sua criação, não é um convite é uma barreira que se cria entre um produto e os seus desejados clientes.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MUNDO

Oh tu, que és Pai de todos
mas tratada com desprezo
por aqueles, os teus filhos
que te despejam os lodos
para aliviar o peso
e entregar-te sarilhos

É altura de vingança
de chamares a atenção
dos milhões que por cá andam
que é o fim de toda a dança
ou encontram a razão
ou do planeta desandam

Uns abanões p’ra mostrar
que não há sítio seguro
e fazer revolto o mar
com uns ventos a assoprar
com força a pôr tudo escuro
com casas a desabar

Os vulcões de boca aberta
a vomitar labaredas
queimando tudo à volta
já não há certeza certa
são muitas todas as perdas
anda a loucura à solta

Isso é só p’ra s’aprender
que quem manda cá na Terra
não é o Homem, coitado
se não soube obedecer
ao ter declarado a guerra
perde sem ser perdoado

És tu Pai Natureza
que não te deixas vencer
p’lo Homem, suas maldades
se respondes de surpresa
tens de fazê-lo aprender
que se pagam ruindades

O pior é se uma guerra
de um lado e doutro afinal
faz com que vá tudo ao fundo
e o que restar desta Terra
seja por bem ou por mal
represente o fim do Mundo




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


NAS MINHAS frequentes passagens por livros já lidos noutras alturas, alguns bem digeridos, voltei um dia destes a pegar numa obra de Camilo José Cela, o Prémio Nobel de Literatura, espanhol, que usava uma linguagem livre, apaixonada, erótica, e a que alguns chamaram de desbragada. De facto, o autor também de um Dicionário de Erotismo, deixou uma obra em que não escondia a pretensão de chamar as coisas pelos seus nomes. Os nomes que ele lhes dava.
O único problema para quem não domina a língua castelhana, é que os seus escritos perdem toda graça e “salero” se não são lidos no idioma de origem, pela infinidade de frases e termos castiços que o autor utilizou a miúdo nos seus livros. E que não são facilmente traduzíveis.
Peguei agora num título seu, chamado no original “Cachondeos, escarceos y otros meneos”, de quase impossível tradução em qualquer língua, e deixei ficar na estante outro que adquiri há anos e que tem também um título muito sugestivo “Izas, rabizas y coliputerras” este dedicado às prostitutas de Barcelona, das Ramblas.
Por cá, mesmo recordando Bocage que utilizou, por vezes, uma linguagem também agressiva e popular, serão raros os autores que poderão assemelhar-se a Camilo José Cela, que foi membro da Academia da Língua do País vizinho e foi reconhecido com vários galardões de Espanha.
Porquê, então, eu me refiro, nestes meus desabafos, a um novelista, poeta e ensaísta que, não sendo muito popular entre nós, atingiu tão alto gabarito em todo o espaço de “habla castellana”?
Porque, numa altura em que se afirma por aí – alguns com evidente insatisfação - , que os espanhóis estão a entrar no nosso território, e sendo evidente que o idioma vizinho está agora a ganhar importância nos estudantes portugueses, especialmente porque certas universidades espanholas estão a receber alunos que vão daqui, já era altura de as edições dos dois lados vizinhos encontrarem forma de alargar as tiragens, com um mercado que aumentaria, espacialmente com nítida vantagem para as editoras portuguesas, que ganhariam visível subida de tiragens.
Mas esta afirmação é quase que uma blasfémia para muitos “aljubarrotistas” que ainda existem por aí. Há que esperar pelo caminhar natural das coisas, para que, a exemplo do velho Benelux, também possa surgir um dia uma Ibéria.
O futuro ditará as suas leis. E quem for vivo então, poderá verificar se se justifica que os velhos do Restelo continuem a proclamar que “mais vale só do que mal acompanhado”

domingo, 29 de agosto de 2010

CALÇADAS À PORTUGUESA

Pedras da minha calçada
que as piso todos os dias
elas são a minha estrada
mas fazem-me judiarias

Com os seus baixos e altos
nesta castiça Lisboa
temos de andar aos saltos
pois uma ou outra atraiçoa

Com essa mania atroz
da calçada à portuguesa
impõe-nos a todos nós
perder noção de beleza

E vistas pois bem as coisas
em época de magras vacas
se se usassem mais as lousas
bem se poupavam patacas

Neste País de esperanças
pois sempre tem sido assim
aguarda-se por mudanças
para as pedras terem fim

Ver de cócoras rapazes
a partir pedras na mão
uma a uma que nem ases
provoca grande aflição

Em covas lá vão metendo
nas ruas da capital
com pedra a pedra enchendo
sob as vistas do fiscal

Que na Baixa pombalina
haja calçada bonita
pode até ser coisa fina
e agradar quem nos visita

Mas pedras pela cidade
em ruas de lés-a-lés
tenham santa caridade
e lembrem-se dos nossos pés

Quando uma pedra se solta
e outra ainda além
tanto buraco revolta
não nos digam que está bem

Tenham pois pena de nós
poupem verba ao País
autarcas, oh todos vós
cortem mal pela raiz

Se estamos bem na Europa
não sendo mundo terceiro
é bom ver como se poupa
usando bem o dinheiro

Sem ter de pôr mais na carta
aqui deixo este recado
de pedras está já farta
esta capital do fado

Por um bairro pois comecem
a tirar o empedrado
e se chove não tropecem
na lama do chão cavado

ôr lajes de metro e meio
em vez de pedras à mão
transforma em bonito o feio
e torna direito o chão

Qualquer rua no futuro
terá o caso lembrado
um Presidente seguro
fez um trabalho asseado

Lisboa deixa de ser
um campo tão mal lavrado
fica assim um prazer
caminhar por todo o lado.

BENGALA


DETESTO QUANDO alguém que me encontre, na rua ou em qualquer outro sítio, não me vendo já há certo tempo me largue: “estás com óptimo aspecto!” Fico deveras entristecido.
É que aos novos, esta exclamação que pretende ser de elogio, não tem cabimento que lhes seja dirigida, pois o lógico é que estejam sempre com um bom ar jovial e de acordo com a sua idade.
Logo, essa expressão do se estar com bom aspecto o que é que quer dizer? Cabalmente, que nem parece a idade avançada que se tem. Que causamos a surpresa de não surgirmos caducos, carregados de rugas, curvados pelo peso dos anos.
O pior é que, da próxima vez que voltarmos a encontrar a mesma pessoa que antes evidenciou tanto espanto pelo nosso ar sacudido de muita idade, a diferença se notará em seguida. Pois tudo decorrerá com a naturalidade de quem tomou conhecimento de que lá virá o ar acabrunhado de quem já mostra exteriormente o peso dos anos.
E quando a bengala passa a constituir uma demonstração de necessidade de apoio, situação que só é necessário experimentar um dia para convencer como é útil tal instrumento, então o espanto dos outros, até dos vizinhos, provoca uma chamada à realidade de que o andar, sobretudo nas ruas de Lisboa que primam pelo ondulado das suas calçadas, ditas à portuguesa, representa uma chamada de atenção de que o que sucedeu aos outros também acabou por bater à nossa porta.
O tempo de vida provoca mudanças. E até apetecia regressar ao século XIX, na altura em que os cavalheiros circulavam pelo Chiado ostentando as suas bengalas de punho de prata, sinal não de velhice mas de situação confortável na vida.
Que bem que ficava o Eça com o seu porte de gentil-homem, segurando uma bela bengala que, obviamente, o caixeiro da esquina não tinha o direito de usar!...

sábado, 28 de agosto de 2010

TRETA

Isto de ser poeta
e ter de rimar
é quase uma treta
com as sílabas a contar.
P’ra mim poesia
é coisa que eu sinta
pode ser fantasia
mas faça que eu minta

Vou dar um exemplo
que escrevo e contemplo

Vejo o homem sentado no jardim
Num banco, sozinho
Ninguém repara nele
Nem ele próprio dá pela solidão
Ficou isolado no mundo
Já teve gente, companhias
Mas as tristes circunstâncias
Fizeram com que fosse o último
E ele aí está à espera
Que a sua vez também chegue

Afinal, este velho abandonado
Só se diferencia dos outros
Dos que têm gente à volta
Pessoas conhecidas, família, descendentes
Porque esses falam com ele
Até talvez lhe digam palavras bonitas
Irão provavelmente acompanhá-lo até à última morada
Distribuirão entre si o que sobrar do mais velho
Mas, no fundo, que outra diferença existe?
Só porque não estão com ele no jardim?
Está acompanhado sentado na sala?

Vou, pois, escrever poesia
com rima
com a possível mestria
mas olhando para cima
não vendo quem está ao meu lado
porque tudo é enfado