sexta-feira, 3 de setembro de 2010

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


A FADIGA física é algo que atormenta o corpo. Mas a fadiga moral, essa canseira em local que não se vislumbra concretamente onde se situa, não será uma dor palpável, que passe com compressas, massagens e unguentos. Existe, mas não se encontra fixa em local concreto, é também uma ânsia de qualquer coisa que não pode ser indicada ao curador. É uma respiração descompassada que não tem que ver com arritmia, é um suspiro profundo que sai tão de dentro que não se entende onde nasce..
Estar saturado de alguma coisa concreta ou de nem se saber bem de quê, cansar-se de ouvir os outros, sem razão específica, como também em relação a alguém de concreto que, antes não fatigava, cansar-se a pensar sem conseguir tirar conclusões, andar desinteressado dos problemas, especialmente dos que surgem de novo, ouvir as opiniões de outrem e não ter argumentos para contrapor, dar sempre a ideia de que estamos de acordo com tudo que dizem, essa fadiga provocada por se ter de cumprir obrigações, horários, compromissos, acaba por traduzir-se em tédio. E pode ser um início da perda de vontade de estar vivo.
Penso que, sem dar uma definição tão específica, não será assim muito raro que os seres humanos não passem, por vezes, por situações que se pareçam com as que acabo de descrever. E quanto mais se fecham em si os que sentem agruras semelhantes, quanto mais difícil se torna comunicar, mais isolado se ficará.
Sendo múltiplas as razões que conduzirão as pessoas em tais condições a fecharem-se e a não conviverem, mais difícil ainda é fazerem entender os demais do problema que os atinge e menos também se os motivos são resultantes da ineficácia em atingir parâmetros da tabela das capacidades com que sonham e sempre sonharam.
Por isso, ao não transmitir para fora que saturação é essa e que fadiga moral se, acarreta, fica-se com o apodo de mal -humorado, de zangado com o mundo, de ser de difícil convívio. E se se tiver o atrevimento de abrir o coração e querer explicar o que vai dentro de tão aflitivo, a posição alheia é de espanto, de incompreensão, até talvez de um certo ar irónico. E um voltar de costas. E se, depois de produzir alguma coisa que poderá parecer que tem pernas para andar, na escrita ou na pintura, ao rever o que está feito, desaponta, desgosta, não serve de consolo pelo trabalho tido, a tortura espiritual que pode aflorar deixa qualquer um prostrado e só escondendo a obra é que será possível fugir às críticas severas. E recomeçar tudo de novo.
Sem vergonha, há que insistir. É forçoso vencer a fadiga e tentar passar a fasquia mais uma vez. Ir até ao fim, até ao último dia do tempo que falta. Quem pode antecipar os resultados?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

BURROS

Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais
Dormir também descansa a cabeça.
Enquanto se dorme, não se pensa.
Sonha-se

BURROS TEIMOSOS


PROVOCA-ME a maior tristeza constatar que, no nosso País – onde deveria ser? –, as decisões e as medidas a tomar para ocasionar alguma melhoria nas situações que atravessamos, tardem sempre um tempo interminável, o que quer dizer que os elementos humanos que têm o poder bastante para alterar o que pode e deve ser objecto de melhoria, essa gente que se encontra em lugares que lhes auferem tais possibilidades, os referidos “mandões” não merecem desempenhar as funções que lhes foram proporcionadas e, se as coisas funcionassem como numa empresa, face a essas incapacidades, o que deveriam merecer era serem postos na rua sem apelo nem agravo.
Mas não é disso que se trata, e, para além do enfado que, como português que sou, me amargura a existência e cada vez mais me afasta daquilo que se chama de “orgulho de ser português”, para lá disso é a revolta que me leva também a escrever estes desabafos que, segundo me informam, alguma audiência possuem.
Ninguém terá dúvidas de que o desemprego, provocado pela nítida ausência de espírito empreendedor que quase todos os Governos têm demonstrado e de que o actual dá mostras ainda maiores, é provocada pela falta de trabalho que as actividades privadas provocam por razões de uma concreta crise que se tem alargado por toda a parte. E não são apenas as chamadas grandes empresas – que essas, como é sabido, até têm estado numa fase de redução substancial de trabalhadores, quando não atingem o ponto de encerrar as portas de rompante -, mas serão as menos poderosas, até os estabelecimentos comerciais médios e pequenos que podem contribuir para que os desocupados encontrem resposta à falta de colocação.
Mas, para isso, o que se torna essencial é que, nesta fase particular e sem complexos de nenhuma espécie de ordem política de Esquerda ou de Direita – porque os tempos não estão para isso -, não se criem dificuldades burocráticas e outras complicações no que respeita aos horários de funcionamento de empresas sejam elas quais foram, permitindo que tenham as suas portas abertas ao público, beneficiando com a liberdade de actuação que não se compadece com horas rígidas de fecho, nem com limitações de funcionamento aos domingos e feriados.
É evidente que, desde que esse aumento de permanência do pessoal para lá dos que estabelecem os horários de trabalho, as entidades patronais terão de ser obrigadas a admitir mais colaboradores, o que representa, claramente, ter de se ir buscar ao desemprego gente que está desocupada.
Há também que dizê-lo e da mesma maneira sem complexos, que esta liberdade de actuação corre o perigo de ocasionar abusos na área patronal, os quais não podem passar sem as devidas inspecções, mas, atendendo ao enorme afluxo de cidadãos sem trabalho e que não pára de aumentar, haverá que apelar para a consciência de todos e procurar que se evitem as perseguições desmedidas das autoridades, pois que uma coisa anula a outra. E se, o que temos em Portugal como enorme flagelo é o ter-se atingido já os 11% de desempregados, a prioridade que se defronta é a de usar os meios essenciais para que tal número seja drasticamente reduzido.
Aí pertence às autoridades agirem em moldes correctos e que mostrem resultados positivos, para se conseguirem, o mais rapidamente possível, respostas satisfatórias. Em primeiro lugar, o concederem-se certos apoios aos empresários que, requisitando novos trabalhadores exclusivamente nos serviços oficiais de desemprego, justifiquem a sua contribuição para a baixa de desocupados, sendo um deles um valor equivalente ao que o Fundo de Desemprego desembolsa nas referidas circunstâncias (tendo de suceder o contrário nos casos de despedimentos). E essa atitude, com tempo determinado, levaria seguramente a que das duas partes, do Estado e dos empregadores, se verificasse uma contribuição conjunta contra esse mal horrível que é o de haver gente sem trabalho.
É sabido que os partidos políticos classificados de Esquerda e que de tão grande utilidade são quando se encontram atentos às actuações dos que não prestam serviço de interesses para o País, esses, sobretudo, se mostrarão contrários ao facto de aumentarem os horários dos estabelecimentos e, em particular, não se respeitarem os feriados, já que, no que respeita aos domingos e aos dias santos, a Igreja, essa já se sabe que é contrária. Mas que o próprio CDS também se insurja, como agora o demonstrou, assumindo-se como exageradamente católico no que diz respeito ao trabalho aos domingos, isso é também de estranhar, mas tais posições não podem impedir que o alvo principal, que é o de criar mais trabalho, seja prejudicado.
Burros (com perdão desses simpáticos animais) há-os em toda a parte. Mas quem tem sobre as costas as responsabilidades de gerir os problemas de um País, esses não podem andar ao sabor das ondas e das opiniões partidárias sejam elas quais forem, porque o que está em causa é tudo fazer para que Portugal não caia numa situação que, como já se afirma por aí, se intitula insustentável.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PANO PARA MANGAS

Pegar num assunto a sério
comentá-lo com alguém
mesmo sendo um mistério
que levanta o seu porém
é base de discussão
mesmo zanga à portuguesa
todos julgam ter razão
ninguém quer mostrar fraqueza

Eu é que sei, diz de um lado
tenho de tal a certeza
não posso ficar calado
e não me causa surpresa
tal afirma o sabedor
que é quem provoca zangas
e seja o tema que for
ele dá pano p’ra mangas

E a língua popular
usa termos curiosos
como este do pano dar
p’ra enervar os nervosos
p’rá conversa prolongar
as mangas vêm à baila
só é preciso falar
ainda que nada valha

Isto das mangas faz rir
porque até lembra o pobrete
que nem precisa falir
anda em mangas de colete
afinal neste País
que é bem terra de tangas
não espanta haver quem diz
não chegar pano p’ra mangas

OS SÁBIOS


SOMOS UM PAÍS de gente muito competente, ultra-sabedora, sem dúvidas e sempre pronta a alterar o que foi feito antes. Isto, pelo menos, na área da Justiça, pois que as emendas aos Códigos das várias especialidades têm-se verificado permanentemente e os profissionais das diferentes áreas não param de apontar as modificações que os especialistas que são chamados a prestar a sua ciência introduzem nos respectivos livros. Segundo foi noticiado agora, o Código do Processo Penal foi alvo de nova mexida e os juízes e advogados que se têm de fiar nas disposições legais, uma vez mais são forçados a anotar nas margens as mudanças que passam a vigorar.
É evidente que são muito poucas as situações de toda a ordem que são imutáveis ao longo das vidas, pois as evoluções de diferentes espécies que se verificam pela acção dos homens obrigam a que se vá alterando o que antes se considerava como imutável. É assim, até com a própria língua dos povos, e tais modificações, sendo graduais, lentas e naturalmente adequadas às circunstâncias que se atravessam em cada momento, essa não estagnação não provoca confusões, antes constitui melhoria nas actividades que representa, a maneira de viver de cada nação.
Por este motivo, não será de estranhar que os conjuntos de leis que regem o apuramento de responsabilidades dos cidadãos se vejam igualmente sujeitas à introdução do que se consideram melhorias, pois que também as faltas dos cidadãos não se equivalem às que eram praticadas tempos antes.
Tudo isso se compreende. Agora, o que constitui uma característica curiosa da nossa Justiça, a tal que é das mais demoradas de todo o Planeta e a que bate todos os recordes de burocracia excessiva, para além do preço que dificulta aos mais necessitados o servirem-se desse meio para defender os seus interesses, é o facto dos Códigos andarem permanentemente em bolandas e então o Penal, que é o mais necessário para impor uma certa ordem nos comportamentos humanos, não pararem de sofrer modificações, algumas delas apresentando soluções totalmente contrárias que eram antes aplicadas.
E ainda quanto ao Código Penal e às mudanças introduzidas recentemente, segundo se pode concluir de uma reportagem emitida pela SIC, a ideia com que se fica é que, analisando o que ocorreu com o julgamento da Casa Pia, se o Código modificado tivesse interferido nas decisões jurídicas tomadas alguns dos arguidos teriam beneficiado, sobretudo nos casos das prisões preventivas. E quanto a isto não adianto mais!…
Vale portanto a pena referir-me a este facto, quando tantas coisas correm mal no nosso País?
Seguramente que não, pois se trata de mais um fenómeno lusitano que se acrescenta ao que ocorre em todas as áreas da Nação portuguesa. Mas eu pego nos temas de acordo com as notícias que vão saindo e, por vezes, não resisto a deixar escrita a minha indignação por ter de viver aqui e de nada poder fazer para mudar as mentalidades dos cidadãos, sobretudo daqueles que deviam ser úteis às nossas causas mas que se distraem com os problemazitos que lhes são colocados à porta.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

POETAS

Isto de querer ser poeta
pode bem nada dizer
há os que acham uma treta
e não ter mais que fazer
nem saber bem o que quer

Quem vai compor poesia
com esforço irá tentando
na ideia de que quem cria
sem saber como e quando
lá acabará rimando

Mas também sem rima vai
usando seu versejar
pois o que mais sobressai
é o que fica no ar
aquilo que faz cantar

Só que o poeta em geral
não consegue que em vida
o achem ser genial
e só depois da partida
a fama lhe dê guarida

Poetas mortos há muitos
quantos terão produzido
em lampejos bem fortuitos
alguns graças ao Cupido
face a coração partido

Sentir a vida de frente
descobrir suas fraquezas
faz que haja alguma gente
sem esconder suas belezas
também cante as tristezas

Deixar em verso bem escrito
aquilo que na alma vai
é como quem solta um grito
que nem por isso atrai
quem do seu mundo não sai

Gavetas cheias de versos
à espera que alguém os leia
que saiam em livro dispersos
mesmo não sendo epopeia
mas que mostrem certa veia

Há editores valorosos
que acham que a poesia
não sendo só dos saudosos
exclusivo de valia
vão deixando que teimosos
possam ver a luz do dia

DESENCANTO POR ENQUANTO!




RECORDO-ME de ter participado, com José Carlos Ary dos Santos, numa dessas mesas em que. numa agência de publicidade, fazia parte profissional do “staff” o poeta Alfredo O’Neill, que foi o autor do “há mar e mar, há ir e voltar”.
Foi um período em que, por vezes se repetiam as discussões, os murros nas mesas, os gritos e até que, de repente, saia um “slogan” que era agarrado por todo, com grandes gargalhadas de satisfação.
Terá sido assim que surgiram centenas de frases que ficaram nos ouvidos de todo o Portugal e que constituíram a razão das boas vendas de artigos que as agências de publicidade propunham aos seus clientes. Os mais antigos ainda hoje se recordam de tantas dessas promoções, e não vou aqui repetir muitas de tais referências, ditas e cantadas, porque os novos nem têm ideia de que isso se terá passado cá na nossa Terra.
Vem isto a propósito de quê? Dos termos utilizados hoje quer nas rádios, na Imprensa e, sobretudo, nas televisões, e em que, na maioria das situações, os ouvintes ou espectadores não absorvem o produto que pretende ser dado a conhecer e ficam coma ideia estranha quanto ao que será que está a ser anunciado.
É o mundo de hoje, dirão. Pois será. Mas, afinal, para que serve gastar dinheiro em publicidade se os públicos que se pretende que sejam atingidos não conseguem entender, logo à primeira, o que está a ser, pelos vistos, divulgado?
De facto, num certo aspecto a publicidade não se situa assim tão distante do jornalismo propriamente dito no capítulo de que é necessário passar uma ideia aos possíveis compradores e nisso há que ser explícito e rápido na mensagem. É o que se passa com os jornalistas que têm mais queda para formar títulos dos artigos e chamá-los à primeira página das publicações. Um texto pode ser muito bem escrito, relatar convenientemente um acontecimento, mas se o leitor não é convidado a apreciá-lo através de um cabeçalho que lhe prenda a atenção, mas que – cuidado – não desvirtue o conteúdo, então metade da sua importância é perdida.
Atravessamos neste momento um período de má publicidade. É a minha opinião. Quantas vezes oiço e vejo repetidamente um anúncio e só fazendo algum esforço é que entendo o que é pretendido vender.
Será que isso só se passa comigo? Todos os potencialmente candidatos a serem consumidores do produto mal divulgado conseguem ficar esclarecidos?
Publicidade que tem de ser bem digerida para atingir o objectivo da sua criação, não é um convite é uma barreira que se cria entre um produto e os seus desejados clientes.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MUNDO

Oh tu, que és Pai de todos
mas tratada com desprezo
por aqueles, os teus filhos
que te despejam os lodos
para aliviar o peso
e entregar-te sarilhos

É altura de vingança
de chamares a atenção
dos milhões que por cá andam
que é o fim de toda a dança
ou encontram a razão
ou do planeta desandam

Uns abanões p’ra mostrar
que não há sítio seguro
e fazer revolto o mar
com uns ventos a assoprar
com força a pôr tudo escuro
com casas a desabar

Os vulcões de boca aberta
a vomitar labaredas
queimando tudo à volta
já não há certeza certa
são muitas todas as perdas
anda a loucura à solta

Isso é só p’ra s’aprender
que quem manda cá na Terra
não é o Homem, coitado
se não soube obedecer
ao ter declarado a guerra
perde sem ser perdoado

És tu Pai Natureza
que não te deixas vencer
p’lo Homem, suas maldades
se respondes de surpresa
tens de fazê-lo aprender
que se pagam ruindades

O pior é se uma guerra
de um lado e doutro afinal
faz com que vá tudo ao fundo
e o que restar desta Terra
seja por bem ou por mal
represente o fim do Mundo




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


NAS MINHAS frequentes passagens por livros já lidos noutras alturas, alguns bem digeridos, voltei um dia destes a pegar numa obra de Camilo José Cela, o Prémio Nobel de Literatura, espanhol, que usava uma linguagem livre, apaixonada, erótica, e a que alguns chamaram de desbragada. De facto, o autor também de um Dicionário de Erotismo, deixou uma obra em que não escondia a pretensão de chamar as coisas pelos seus nomes. Os nomes que ele lhes dava.
O único problema para quem não domina a língua castelhana, é que os seus escritos perdem toda graça e “salero” se não são lidos no idioma de origem, pela infinidade de frases e termos castiços que o autor utilizou a miúdo nos seus livros. E que não são facilmente traduzíveis.
Peguei agora num título seu, chamado no original “Cachondeos, escarceos y otros meneos”, de quase impossível tradução em qualquer língua, e deixei ficar na estante outro que adquiri há anos e que tem também um título muito sugestivo “Izas, rabizas y coliputerras” este dedicado às prostitutas de Barcelona, das Ramblas.
Por cá, mesmo recordando Bocage que utilizou, por vezes, uma linguagem também agressiva e popular, serão raros os autores que poderão assemelhar-se a Camilo José Cela, que foi membro da Academia da Língua do País vizinho e foi reconhecido com vários galardões de Espanha.
Porquê, então, eu me refiro, nestes meus desabafos, a um novelista, poeta e ensaísta que, não sendo muito popular entre nós, atingiu tão alto gabarito em todo o espaço de “habla castellana”?
Porque, numa altura em que se afirma por aí – alguns com evidente insatisfação - , que os espanhóis estão a entrar no nosso território, e sendo evidente que o idioma vizinho está agora a ganhar importância nos estudantes portugueses, especialmente porque certas universidades espanholas estão a receber alunos que vão daqui, já era altura de as edições dos dois lados vizinhos encontrarem forma de alargar as tiragens, com um mercado que aumentaria, espacialmente com nítida vantagem para as editoras portuguesas, que ganhariam visível subida de tiragens.
Mas esta afirmação é quase que uma blasfémia para muitos “aljubarrotistas” que ainda existem por aí. Há que esperar pelo caminhar natural das coisas, para que, a exemplo do velho Benelux, também possa surgir um dia uma Ibéria.
O futuro ditará as suas leis. E quem for vivo então, poderá verificar se se justifica que os velhos do Restelo continuem a proclamar que “mais vale só do que mal acompanhado”

domingo, 29 de agosto de 2010

CALÇADAS À PORTUGUESA

Pedras da minha calçada
que as piso todos os dias
elas são a minha estrada
mas fazem-me judiarias

Com os seus baixos e altos
nesta castiça Lisboa
temos de andar aos saltos
pois uma ou outra atraiçoa

Com essa mania atroz
da calçada à portuguesa
impõe-nos a todos nós
perder noção de beleza

E vistas pois bem as coisas
em época de magras vacas
se se usassem mais as lousas
bem se poupavam patacas

Neste País de esperanças
pois sempre tem sido assim
aguarda-se por mudanças
para as pedras terem fim

Ver de cócoras rapazes
a partir pedras na mão
uma a uma que nem ases
provoca grande aflição

Em covas lá vão metendo
nas ruas da capital
com pedra a pedra enchendo
sob as vistas do fiscal

Que na Baixa pombalina
haja calçada bonita
pode até ser coisa fina
e agradar quem nos visita

Mas pedras pela cidade
em ruas de lés-a-lés
tenham santa caridade
e lembrem-se dos nossos pés

Quando uma pedra se solta
e outra ainda além
tanto buraco revolta
não nos digam que está bem

Tenham pois pena de nós
poupem verba ao País
autarcas, oh todos vós
cortem mal pela raiz

Se estamos bem na Europa
não sendo mundo terceiro
é bom ver como se poupa
usando bem o dinheiro

Sem ter de pôr mais na carta
aqui deixo este recado
de pedras está já farta
esta capital do fado

Por um bairro pois comecem
a tirar o empedrado
e se chove não tropecem
na lama do chão cavado

ôr lajes de metro e meio
em vez de pedras à mão
transforma em bonito o feio
e torna direito o chão

Qualquer rua no futuro
terá o caso lembrado
um Presidente seguro
fez um trabalho asseado

Lisboa deixa de ser
um campo tão mal lavrado
fica assim um prazer
caminhar por todo o lado.

BENGALA


DETESTO QUANDO alguém que me encontre, na rua ou em qualquer outro sítio, não me vendo já há certo tempo me largue: “estás com óptimo aspecto!” Fico deveras entristecido.
É que aos novos, esta exclamação que pretende ser de elogio, não tem cabimento que lhes seja dirigida, pois o lógico é que estejam sempre com um bom ar jovial e de acordo com a sua idade.
Logo, essa expressão do se estar com bom aspecto o que é que quer dizer? Cabalmente, que nem parece a idade avançada que se tem. Que causamos a surpresa de não surgirmos caducos, carregados de rugas, curvados pelo peso dos anos.
O pior é que, da próxima vez que voltarmos a encontrar a mesma pessoa que antes evidenciou tanto espanto pelo nosso ar sacudido de muita idade, a diferença se notará em seguida. Pois tudo decorrerá com a naturalidade de quem tomou conhecimento de que lá virá o ar acabrunhado de quem já mostra exteriormente o peso dos anos.
E quando a bengala passa a constituir uma demonstração de necessidade de apoio, situação que só é necessário experimentar um dia para convencer como é útil tal instrumento, então o espanto dos outros, até dos vizinhos, provoca uma chamada à realidade de que o andar, sobretudo nas ruas de Lisboa que primam pelo ondulado das suas calçadas, ditas à portuguesa, representa uma chamada de atenção de que o que sucedeu aos outros também acabou por bater à nossa porta.
O tempo de vida provoca mudanças. E até apetecia regressar ao século XIX, na altura em que os cavalheiros circulavam pelo Chiado ostentando as suas bengalas de punho de prata, sinal não de velhice mas de situação confortável na vida.
Que bem que ficava o Eça com o seu porte de gentil-homem, segurando uma bela bengala que, obviamente, o caixeiro da esquina não tinha o direito de usar!...

sábado, 28 de agosto de 2010

TRETA

Isto de ser poeta
e ter de rimar
é quase uma treta
com as sílabas a contar.
P’ra mim poesia
é coisa que eu sinta
pode ser fantasia
mas faça que eu minta

Vou dar um exemplo
que escrevo e contemplo

Vejo o homem sentado no jardim
Num banco, sozinho
Ninguém repara nele
Nem ele próprio dá pela solidão
Ficou isolado no mundo
Já teve gente, companhias
Mas as tristes circunstâncias
Fizeram com que fosse o último
E ele aí está à espera
Que a sua vez também chegue

Afinal, este velho abandonado
Só se diferencia dos outros
Dos que têm gente à volta
Pessoas conhecidas, família, descendentes
Porque esses falam com ele
Até talvez lhe digam palavras bonitas
Irão provavelmente acompanhá-lo até à última morada
Distribuirão entre si o que sobrar do mais velho
Mas, no fundo, que outra diferença existe?
Só porque não estão com ele no jardim?
Está acompanhado sentado na sala?

Vou, pois, escrever poesia
com rima
com a possível mestria
mas olhando para cima
não vendo quem está ao meu lado
porque tudo é enfado





ESPECTÁCULO


JÁ ME TENHO referido ao uso e abuso e abuso de palavras e expressões que são introduzidas no falar dos portugueses e que, de uma forma geral, têm base na repetição feita por alguns intervenientes, especialmente nas nossas televisões e que, fazendo gala na tal insistência no uso que, por sinal, até lhes deixa alguma marca que se mantém durante um certo tempo, o que na verdade conseguem é espalhar vícios linguísticos que não acrescentam enriquecimento à nossa bela língua pátria. E essa do “espectáculo”, pronunciada por tudo e por nada, sobretudo não se enquadrando no tema ou no objectivo do que está a classificar, para além de enfastiante altera o verdadeiro significado do que representa o gozo de ver, ouvir e sentir alguma coisa que merece ser colocada num plano superior.
E não é somente esta expressão em alguns pretendem insistir e que, infelizmente até pega, pois esse também horroroso “digamos”, largado por tudo e por nada e que para o que serve é para estabelecer uma paragem no discurso que está a ser feito, dando a impressão que constitui uma ajuda para preparar o que é pretendido dizer a seguir.
Não é a primeira vez que aponto estes enjoativos “empecilhos” na língua portuguesa e se observo idêntico vício a ser perseguido por gente ligada à política, no Governo ou fora dele, então o meu desconforto ainda mais se acentua.
Gente que, embora devendo usar uma linguagem simples e que chegue facilmente a todas as camadas da população nacional – coisa que até geralmente não fazem, para se darem o ar de grandes sapientes - , mais razão têm para não seguir as calinadas linguísticas, pois que os exemplos devem vir sempre de cima. Como sucedeu antes e, menos mal, se está a perder agora, que foram os casos dos “portanto” e dos “pois”, que inundaram o palavreado dos faladores sem sentido.
Mas, voltando a essa do “espectáculo” e do “espectacular”, como também se costuma acrescentar, sou levado a admitir que se trata da situação que se atravessa no País que temos e que, devido aos comportamentos de certos homens públicos que nos deixam de boca aberta, conduzem a que o que é mau seja considerado como um verdadeiro número de representação, o qual espanta a quem ele assiste.
E, pelo mesmo motivo, devido à incapacidade que se demonstra por cá de chegar ao fim das questões que se situam na área da Justiça – e não só -, pois que não alcançam nunca um termo convincente, principalmente se se tratam de situações que envolve em figuras mediáticas, acredito que será daí que ressalta a expressão repetida do “espectáculo”
Só pode ser isso!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

AS DIFERENÇAS

Ser igual a qualquer coisa
a um quadro ou a alguém
sendo ideia apetitosa
a mim não me tem refém

Cada um é cada qual
com virtudes e defeitos
muito bem ou muito mal
pois não há seres perfeitos

O que marca é a diferença
que dá personalidade
e vem logo de nascença

Afinando com idade
pode dar parecença
mas total igualdade

DESENCANTO POR ENQUANTO!...

TANTO FICOU no ouvido dos portugueses esse tema cantado numa novela televisiva, que me surgiu a ideia de tratar de tal desabafo, como sendo uma questão fulcral no decorrer da nossa vida: o tudo e o nada.
Que comparação se pode fazer entre aquele que tem tudo, que vive rodeado de fartura material, que não sabe o que há-de acrescentar ao enorme espólio que foi criando ou que recebeu por dádiva ou herança, que é possível comparar com o outro, o que olha em volta e só contempla o vazio, a ausência do que tantos consideram essencial? São dois pólos opostos, duas condições de existência que se olham, de um lado com sofrimento, com resignação, pelo cheiro a pobreza que paira em seu redor, até com alguma revolta por não lhe ter calhado um percurso parecido com o do ricaço, enquanto que da outra parte se constata um enfartamento que, por vezes, embora não seja regra geral, provoca arrotos inestéticos e confrangedores.
Ambos, porém, são seres humanos. Não se distinguem senão no que mostram por fora. Estão sujeitos aos mesmos problemas de saúde, com a diferença única de que uns podem recorrer aos meios mais adiantados de cura e os demais entregam-se ao sofrimento e aguardam vez à porta do hospital publico. Mas, quando a doença é fatal, nenhum dos dois resiste, podendo apenas, os que dispõem de posses, aguentar mais tempo. A sofrer.
No entanto, alguma coisa em pleno percurso da vida os iguala. E, por muito estranho que isso possa parecer, a verdade é que se trata precisamente do vestuário. A moda tem dessas coisas e, por mais revoltante que seja confrontarmo-nos com um capricho que os ditadores da moda impõem, o certo é que as calças de ganga de marca e caras, a imitar as que os trabalhadores braçais antes usavam, essas calças, logo depois de serem adquiridas, levam uns golpes na zona dos joelhos, mostrando buracos esfarrapados, julga-se que para darem um ar de pobreza que diverte os que não se encontram nessa situação. Será ridículo, provocatório, até uma maldade, mas os que brincam ao parecer sem o ser, lá sabem o que fazem!
Mas não é só no aspecto exterior que se verifica a diferença entre os dois extremos. O espírito não está sujeito ao poder do dinheiro. A riqueza espiritual não está condicionada pelo poder de compra. Isto significa, claramente que o senhor dos anéis, de todas as preciosidades que possam ser acumuladas, não tem de ser, de forma alguma, uma pessoa de espírito rico. Se existisse um fiel da balança sobrenatural que vigiasse as fortunas exteriores e as que existem dentro dos indivíduos, se esse avaliador da justiça tivesse, realmente, uma acção purgativa, para evitar acumulações, por certo que não se verificaria o pior, que é o dos escassos em bens materiais terem, ao mesmo tempo, ausência de um espírito rico.
Já o contrário, a situação dos afortunados materialmente serem, simultaneamente, ricos de espírito, esta saturação não será tão fácil alcançar. Um espírito, pleno de virtudes, que não aceite que o seu portador humano se desfaça de todos os valores materiais que sejam excessivos, dividindo o que sobra para diminuir o sofrimento de parceiros, esse é, de facto, um espírito mais do que pobre, é mesmo miserável.
Um indigente da vida, se for possuidor de riqueza espiritual, se for compreensivo e não revoltado, se, apesar da demasia do nada, não invejar o que sobressai dos ricos, talvez carregue, por dentro do fardo da pobreza, aquilo que fará falta a muitos que esbanjam: a felicidade.
Aqui, o nada e o tudo fazem uma união. Não ter nada e ter tudo, como diz a canção que a miudagem andou a cantar em certa altura, sendo uma letra que se pegou aos ouvidos, pode não ser tão difícil de conseguir como parece à primeira vista. Difícil não será… pode é ser raro!



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CARACOL

Lentidão é defeito?
Talvez seja para uns tantos
para outros é preceito
oferece seus entretantos
depressa sendo ideal
também pode ser um mal

Caracol devagarinho
não precisa de ter pressa
vai seguindo seu caminho
não tem de cumprir promessa
a subir ou a descer
o que não faz é correr

Com os pauzinhos ao sol
da concha lá vai saído
pouco a pouco o caracol
andando não faz ruído
não se mete com ninguém
e quer que o deixem também

Mas o homem, o tal malvado
descobriu esse petisco
não o deixa sossegado
come-o em vez de marisco
por alfinete espetado
não considera pecado

Até sua própria baba
é descoberta recente
com as rugas diz qu’acaba
e a usa muita gente
quem diria anos antes
qu’era amigo dos pedantes

Há quem se esfalfe e que corra
p’ratingir o seu destino
com a pressa há quem morra
em completo desatino
o caracol bem ensina
que a pressa desafina

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


TER ILUSÕES é ter uma espécie de esperanças. É sonhar com certa coisa de bom que se deseja ardentemente. É contar com o que virá no futuro. Porque ninguém aspira um amanhã desagradável. Não é normal que alguém ande iludido com um porvir que não corresponda ao que se aspira. Ter ilusões de que se consegue obter o amor de alguém, de que uma nova actividade desejada surgirá, de que a doença que nos atormenta ficará curada, no fundo, a ilusão é algo que transmite força para suportar os maus momentos.
Há, no entanto, que refrear as ilusões em excesso. Se são muitas, provocam cansaço. Sobretudo, pela espera que esses desejos inevitavelmente provocam. Chegar à conclusão que foi inútil manter uma ilusão, por vezes durante muito tempo, e de que o que aspirava não se realizou, é pior do que do que nunca se ter iludido. A mágoa de ter tido ilusões que se foram, que se perderam, é maior do que não conseguir iludir-se, de ser um conformado com a má sorte que não arreda pé.
Mas, percorrer uma vida sempre iludido, a pensar que tudo se resolve a contento, que o mal não quer nada connosco, podendo ser uma forma de abraçar à força a felicidade é, isso sim, viver em equívoco, andar enganado consigo mesmo e com o mundo que o rodeia.
Eu, por mim, já tive ilusões. Foram ficando pelo caminho. Também não estiveram presentes na minha vida de uma forma permanente. Tive dias. Dependeram das ocasiões. Acabaram por se desvanecer. Uma a uma. Chego agora à conclusão de que talvez me tenha iludido demais. Aspirei o impossível.
Se estou a escrever, como agora, e se não sustento a ilusão de que, numa dada altura, alguém lerá o texto que me sai da caneta, não vale a pena esforçar-me. Fico-me onde estou. Logo, neste caso, a ilusão é uma força. É útil mantê-la, para prosseguir na escrita. Se não admito que me pode sair a lotaria, não vale a pena comprar jogo. Quem perde é a Santa Casa. Se abdico da confiança de que um determinado remédio me pode fazer bem, ponho-o de parte.
Por isso, defendo o princípio de que, em certas ocasiões, é útil alimentar as ilusões. Só que devem ser controladas. Racionais. E não se devem manter durante muito tempo. Nem serem sempre as mesmas. Isso cansa. E quem espera… desespera!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

BRAÇO A TORCER

Se os homens fossem iguais
no pensar e no dizer
sendo até todos mortais
era grande o desprazer
opiniões diferentes
certo interesse provocam
e mesmo entre parentes
modos de ver não se tocam

É preciso é aceitar
aquilo que os outros são
cada um no seu lugar
quem sabe quem tem razão
por vezes nenhum dos dois
ambos estão enganados
e só tempos depois
descobrem que são culpados

Mas nem sempre se acusam
não querem dar a ver
do erro até se escusam
não dão o braço a torcer

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


ASSISTO, com frequência, a pessoas que, a falar, acompanham a entoação da voz com gestos largos, movimentos de mãos, mexidas do corpo nas cadeiras e arreganhos de cara. Na televisão, então, é corrente assistir-se a esses bailados que pretendem dar forma às palavras que vão sendo ditas.
Daqui para ali, de um lado para o outro, desta forma ou daquela, de alto a baixo, são tudo frases que justificam, com alguma razão, o complemento do gesto. Mas utilizar expressões mímicas quando o que se está a dizer, pela sua simplicidade, não necessita de complementos gestuais, parece ser um excesso que só é usado por quem pretende dar nas vistas.
É verdade que os latinos, de uma forma geral, são bastante mais expressivos nas suas conversações do que os anglo-saxónicos, por exemplo. Logo, a origem dos conversadores tem influência na forma de comunicarem. Mas, mesmo assim, no seio das nações latinizadas, nem todos utilizam a expressão corporal para transmitirem o que têm para dizer.
Nunca perguntei a qualquer desses actores em potência, o motivo de não manterem uma compostura serena quando se encontram a “vender o seu peixe”. Naturalmente, perante este tipo de inquérito, os protagonistas ofender-se-ão, por estarem convictos de que não praticam tal exagero.
Conhecendo eu, da televisão, um ou outro destes gesticuladores, tenho para mim que haverá uma dupla explicação para tamanho exagero na movimentação manual e corporal. A de pretenderem mostrar-se mais aos telespectadores, com alguma ponta de vaidade acrescida; e a de considerarem que não serão suficientemente explícitos só com a palavra, pelo que recorrem a oscilações de braços, mãos e até do corpo, convencidos que ficarão de que, dessa forma, até os menos esclarecidos compreendem o que se lhes quer dizer.
Seja como for, quem actua rigorosamente às avessas, ou seja, aqueles que falam com voz monótona, mantêm as mãos sem movimento seja qual for o tema que estejam a tratar, que não despegam os olhos de um ponto fixo e não dão mostras da mais pequena reacção facial, esses, o menos que se lhes pode chamar é de serem uns chatos. Não estimula manter uma conversa com tais múmias.
Quer dizer: nem oito, nem oitenta. Tudo deve ter conta, peso e medida.