sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Parece que, por cá, a coisa ainda não é aceite em plenitude. Por esse mundo fora e até em países europeus, é considerada em absoluto pela classe médica. Mas, em Portugal, onde se mantém a convicção de que é terra de gente muito conhecedora em todas as áreas, a acupunctura é vista pelo canto do olho.
Os milhares de anos que têm servido para os orientais recorrerem àquela ciência e com sucesso, não chegaram para nos convencer da sua validade. Ainda é praticada, entre nós, à revelia de muitos profissionais médicos que, no entanto, se se vêm muito castigados por enfermidades que a medicina convencional não resolve, às escondidas acorrem à acupunctura.
Abordo este assunto por experiência própria. Até resisti a recorrer a tal ciência, pois fui antes operado a uma hérnia discal, mas, em face do problema mal resolvido com que me debati, perante o conselho que me foi dado à boca pequena, fui cair nas mãos do japonês. Atrevi-me. Deu resultado. Agora, aconselho a acupunctura até a amigos médicos. E faço-o também por provocação.
Continuamos a lastimar o facto de não conseguirmos uma aproximação, maior e mais rápida, quanto ao espaço europeu associado. Pudera, enquanto não dispusermos da coragem de reconhecer que, imitar as experiências realizadas por outros, sendo bem sucedidos, não é uma atitude desprestigiante, antes constitui um acto de bom senso, enquanto não nos despirmos de preconceitos não passaremos da cepa torta.
O Estado português – ou, por outras palavras, os governantes - que, por exemplo, gasta fortunas com remédios tradicionais, aqueles que ainda não se receitam em doses individuais, mas sim em embalagens, cujo conteúdo excede o necessário para o tratamento -, esse Estado é excessivamente lento a mudar o que lhe está implantado nos hábitos. E nós, os que cá andamos para pagar e para obedecer, não temos mais remédio do que sermos “pacientes”.
Pacientes de duas maneiras. Porque sofremos as doenças e temos de nos encher de paciência.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

MÃE NATUREZA

As dúvidas são imensas
não há quem tenha certeza
já nem valem tantas crenças
pois manda Mãe Natureza

E então quando se zanga
resolve fazer das suas
deixa a gente de tanga
muitas vidas ficam nuas

E o Homem pergunta bem
procurando a defesa
mas não responde ninguém

E com a maior tristeza
aceita que o Além
mande na Mãe Natureza

MALVADEZES



NÃO POSSO deixar de interromper os textos submetidos ao título da obra que tenho para publicar, “Desencanto por Enquanto”, perante a devastação que está a ocorrer no nosso País com os fogos que se sucedem de Norte a Sul, mas com preponderância nas zonas onde, já noutras alturas, se verificaram os casos criminosos de atear incêndios nas áreas onde as chamas melhor pegam por haver material de combustão que, sobretudo com o calor que tem invadido o nosso País, tem constituído um espectáculo verdadeiramente desolador.
Já nem faço a pergunta sobre o provável prazer que sentem os incendiários quando provocam tamanhas calamidades, provavelmente nos locais perto de onde habitam. É um mistério a que talvez a Justiça, se ela funcionasse por cá, talvez pudesse dar resposta. Já afirmei neste meu blogue, noutra ocasião, que, para mim, ainda que com resultados bem diferentes e com prejuízos não comparáveis, tão maldosos são os que pegam fogo nas zonas rurais como os que, mais nas cidades, praticam as maldades de sujar as paredes e as obras de arte com as tintas que adquirem para o efeito. É um paralelo que não tem fulcral semelhança, mas eu considero que quem é capaz de assumir uma coisa tem estofo para fazer a outra.
Mas, no caso dos incêndios, já não bastava a situação calamitosa que atravessa Portugal, com os efeitos da crise, da governação que tem tido e do deixa andar que é característico deste povo, para se acrescentarem ainda os efeitos dos fogos postos que, dia a dia, surgem e que os bombeiros, valiosos homens que bem merecem as honras que por cá se distribuem a gente que nada mostra de valioso e de merecedor de destaque – e isto também serve aos Presidentes da República, o actual e os anteriores mais próximos, que, em datas festivas, colocam medalhas por tudo e por nada -, têm dado a mostra de que se empregam a fundo e que, se não correm melhor as coisas não é a eles que se aplicam as culpas.
E a mim, que sempre procuro encontrar respostas para as minhas dúvidas, o que mais me espanta é que, enquanto no nosso País este Verão tem sido marcado por um excesso de calor que até dá ideia de se tratar de um castigo que está a ser aplicado a quem não tem dado mostras de ser cumpridor das regras essenciais dos seres humanos, noutras zonas do mundo o que se verifica é o contrário, ou seja o excesso de chuva e de mau tempo, com mortes e destruições que são mostradas pelos meios televisivos que cá chegam.
Quer dizer, enquanto uns sofrem com o excesso de quentura, noutras zonas a demasia é de frio e de chuva. A mim isto impressiona-me e faz-me pensar nos motivos que levam a que forças superiores, se elas existirem, actuem desta maneira.
Mas, se não se justificar este pensamento e bastando-nos aceitar o que ocorre sem procurar fazer-se uma espécie de acto contrição, então que seja eu que me detenho nesta dúvida e que, sem obter resposta, me fique apenas pela lástima dos acontecimentos que ocorrem neste nosso Mundo.
Não será necessário afirmar que não sou partidário da justiça popular, mas as regras gerais têm sempre excepções. No caso dos incêndios postos e das sujidades com as borradas que fazem alguns até nos próprios monumentos públicos, sou capaz de me inclinar para uma punição feita pelos povos habitantes nos locais onde as malvadezes têm lugar, não deixando vontade a que outros venham depois fazer o mesmo. Uma boa sova dada a calhar será remédio justo e a tempo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Quem tem um Deus tem tudo.
Seja ele qual for.
Dê-se-lhe o nome que aprouver. Interessa a imagem que algum homem lhe tenha posto um dia.
Mas, com esse Deus que se acredita existir e que,
se for preciso, acreditamos que zelará pela nossa vida, sentimo-nos mais confiantes de que a passagem por este mundo ocorrerá com menos percalço.
E se tal não suceder… é porque Deus assim não quis.
Ele lá sabe.
Valha-nos Deus!

BRASIL

Já fui ao Brasil
vezes sem conta
iria mais mil
com toda a afronta
lá me deslumbrei
por lá convivi
e gostei
de tudo que vi
as paisagens
o clima
as viagens
por terra ou vistas por cima
o doce falar do português
o deles de modo seu
pelo que o entender talvez
nosso falar se faz breu
as comidas são delícia
e dos sumos nem se fala
e não é preciso perícia
pois ali ninguém se rala

O pior é o resto
os cuidados que há que ter
pois há sempre um pretexto
para perder o prazer
ir à rua sem cuidado
sem o dinheiro do ladrão
pode causar mau bocado
e estragar todo o festão

Nem tudo são só prazeres
não se vive só dos olhos
de ver as lindas mulheres
todas cheias de folhos
quanto a entrar nas favelas
isso aí é outra coisa
haverá lá coisas belas
mas entrar ninguém ousa

Em tempos mais recuados
portugueses se instalavam
e ficavam acomodados
e bom dinheiro ganhavam
depois da Revolução
gentes de cá partiram
era alguma protecção
para os que daqui fugiram
agora dá-se o contrário
são eles que nos procuram
vive-se pois neste rosário
amizade os dois juram

Porque irmãos todos nós somos
a língua até bem nos junta
pobrezinhos também fomos
sempre se fez a pergunta
quando andávamos de tanga
à espera de uma resposta:
se o grito do Ipiranga
ajudava na encosta!






DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Não, não é bem tédio o que sinto. Porque tédio é o enjoo de tudo e de todos. É a repugnância em conviver. É a ânsia por alguma coisa que não se sabe o que é. Será também um aborrecimento com a vida, toda ela, e o não se sentir bem em qualquer parte. O desejo de mudar, sem saber bem para onde.
Deduzo, portanto, que não é tédio o que me atormenta. O que será então?
Esta espécie de angústia que me invade o peito, o respirar fundo sem satisfação completa, um nó na garganta que parece apertar a glote, o mau sabor que sinto no café que acabei de beber, o não distinguir as mulheres bonitas das feias que passam no passeio, o desconforto que me provoca o acelerar dos motores dos carros que vejo pela vitrina do meu café, tudo isso pode ser o quê?
Procuro descobrir, cerrando as pálpebras para nada se intrometer na minha análise e, com a dúvida que me faz sempre companhia, julgo poder concluir que é cansaço. Mas não o físico, aquele que faz respirar afogueadamente quando se pratica um exercício em excesso, não esse mas o espiritual. E ponho-me a tentar descobrir o que é isso, afinal, do cansaço espiritual.
Ao ler as notícias todas as manhãs, é muito raro não sentir revolta com o que é transmitido. E como é feita essa comunicação. Porque não posso deixar de me colocar na posição de quem poderia resolver uma situação crítica que suceda no mundo. E especialmente perto de nós. E indigna-me verificar que esse alguém, que tem poder para decidir e tentar solucionar o problema, adia, desculpa-se, não dá razão a quem o acusa de moleza e passa ao lado. Ver gente incapaz provoca-me cansaço.
Igualmente fico cansado por dentro quando oiço locutores – antes tinham esta designação, no tempo em que tinham boas vozes, eram bem escolhidos porque falavam um português escorreito e não eram admitidos por cunhas, mas sim depois de provas prestadas e, claro, depois de terem prestado juramento de que eram fieis ao regime político então vigente (de outra maneira não eram admitidos) – os tais locutores, quer de rádio quer de televisão, a darem pontapés na gramática e a fazerem paragens nas frases de forma anormal, com uma respiração não ensinada correctamente. Fico cansado com os “logo mais”, os “digamos”, os “de alguma maneira”, por tudo e por nada, como sucedia numa moda que já terá passado, com o “portanto”.
O cansaço é enorme ao folhear as revistas que se dizem sociais e escarrapacham sempre nas capas títulos sobre casamentos, divórcios, separações, zangas de pessoal que, pelo menos eu, não sei quem é, mas mesmo que soubesse tenho de perguntar se os mimos e as brigas que sucedem constituam razão de notícia que faça vender as publicações. Mas devo ser eu que me canso sem verdadeira razão, pois vejo que uns, os actores dos acontecimentos tão badalados, se ufanam da sua proeza e os outros, os que compram os jornais e revistas, mostram curiosidade em seguir tais banalidades.
Como, de igual modo, não pode nem deve ser notícia uma frase proferida por um elemento auto-denominado “jet set” e, do alto da sua vaidade oca, larga um “o não é o contrário do sim” e logo é reproduzida, com pompa e circunstância, como se se tratasse de um dito shakespeariano. A mim cansa-me.
Neste preciso momento em que encho a página de papel à minha frente vive-se no País uma situação económica, financeira e social já muito perto da banca rota. É o que afirmam vários economistas, apesar de outros, deitarem água na fervura afirmando que “há sinais de recuperação”. Com o copo meio cheio ou meio vazio, a verdade é que, em face do nível atingido pela outra Europa, nós por cá encontramo-nos, não só geograficamente no fim (ou no princípio, depende da óptica) do Continente, o que não é grave, mas sobretudo num lugar muito diminuído na fila do progresso. E isso, sim, tem de nos preocupar muito.
Há, pois, que fazer contas à vida e saber gastar o dinheiro apenas no essencial. Há que fazer opções. Que deixar para depois aquilo que não é fundamental neste momento. É difícil, de facto, obter a concordância de todos quando é forçoso fazer escolhas, Há sempre quem tenha outra opinião. Mas quem aceitou a responsabilidade de decidir tem de pôr a cabeça no cepo. E assumir as suas responsabilidades. O que não podem nem devem é deixar correr, adiar, levar tempo demais a emendar o que está errado.
No que me diz respeito, ando numa canseira a assistir que o bom senso nem sempre tem sido aplicado no que diz respeito às prioridades e à rapidez em meter a mão na massa. Parece que existe certo receio em ferir algumas susceptibilidades, já para não dizer que se procura não retirar mordomias a quem as conseguiu noutra altura, pela via política.
Falta uma explicação inequívoca sobre as decisões que vão sendo tomadas e as que ainda se encontram nos projectos, sem receio de críticas ou desacordos, por mais severos que eles sejam.
Estou farto de ver este País cada vez mais longe do que se encontra mesmo ao lado, ainda que venha também a ver-se envolvida, inevitavelmente, do problema da crise que avança para todos os lados a Espanha, apesar de ter passado por uma guerra civil, há anos, e por uma ditadura que foi mais severa do que a nossa e que enfrenta o problema interno da ETA, apesar disso tudo, lá tem procurado acompanhar o ritmo da Europa, não sendo possível, por agora, adivinhar o que vem a seguir.
Seja como for, os ainda receosos de Espanha continuam entretidos com Olivença, em vez de analisar o exemplo do Benelux, que solucionou economicamente os problemas de três países pequenos.
Estou, realmente, muito cansado. Não, não é tédio. Não me quero isolar. Pelo contrário, o que me molesta é que não sejamos capazes de juntar forças para sairmos do “buraco” em vamos caindo. Não aceito o “mais vale só do que mal acompanhado”, quando, sozinhos, não vamos lá.
Acabamos por nos cansar todos. Para nada.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Reajo mal em relação aos que querem convencer-me
de que uma mentira, dita por eles, com aquele ar de que não pode prestar-se a dúvidas, passa a ser verdade.
Por isso me dou mal com os políticos.
Mas, mentirosos não são apenas esses…

CALVÁRIO

Há ou não razão p’ra desanimar
neste calvário imenso em que vivemos?
se um dia isto tiver de acabar
e d’algo pior ainda tememos
e não se passa só em Portugal
o mundo inteiro não está melhor
para se conseguir fugir do mal
tanto faz que se vá p’ra onde for

A Terra anda toda ela às voltas
acalmia é pouco que se encontra
pois muitos malvados andam às soltas
já não escapa nada em qualquer montra
e nas finanças grandes roubalheiras
na política grassa a corrupção
pouca vergonha já não tem fronteiras
ao nosso lado pode estar ladrão

Não é bem assim, dizem confiados
os que ainda não sofreram danos
mas um dia destes ficam calados
se os atingirem alguns fulanos
é que isto de trabalhar não dá
não é bastante p’ra levar a vida
se é isso que se passa por cá
é igual aos que vêm de fugida

Calvário da vida não chega a todos
há os que conseguem bem escapar
para uns tantos os terem a rodos
outros nunca precisam de suar
ainda bem, pois não é regra geral
o ser feliz é coisa que existe
para os que só enfrentam o mal
há sempre aquele que a tudo resiste


DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Gosto de ver as minhas mãos despidas de anéis. Nunca tive e não me fizeram falta nenhuma. Se fosse rico continuaria a manter os dedos despidos de enfeites.
Sobretudo nos homens, as mãos limpas de sujidade e de adereços, sejam eles quais forem e com o valor monetário que tiverem, são mãos que significam pureza, nem que seja apenas exterior.
Se à tal limpeza à vista se puder juntar, por pouco que seja, alguma pureza íntima, então o ser humano tende a aproximar-se, mesmo que longinquamente, da perfeição.
Hoje deu-me para aqui: os dedos sobrecarregados de anéis, agridem. Pelo menos a vista.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As mesmas caras, as mesmas vozes, as mesmas frases, o mesmo comportamento, tudo igual há 30 anos neste País.
A monotonia instalou-se, o grupo de privilegiados é sempre aquele, desinteressante, enfastiador, repetitivo.
Por isso nada muda, nem melhora.
Portugal continua igual a si mesmo, mas sempre há aqueles que se sentem satisfeitos com o que os rodeia.
E fazem o possível para manter o status quo, porque se conseguem governar.
Também pergunto: e que poderia ser em seu lugar?





CACILHEIROS

Apeteceu-me um dia
recordar o passado,
andar para trás
muitos anos,
pôr o saudosismo em acção.
E fui ao Cais das Colunas
às que lá não estão
(mas que apareceram entretanto)
mas que eu as vi
na memória
e descendo aqueles degraus
molhei os pés no Tejo,
que frescura!
que odor!
que beleza as gaivotas em liberdade.
Como me recordo
dos cacilheiros que saiam logo dali
e chegavam ao mesmo sítio,
os cabos para os prender ao cais
eram atirados
com precisão
fixavam-se nas amarras
e as gentes,
sem aguardar o encosto completo
saltavam,
corriam para os seus destinos,
os imediatos,
enfiavam-se na praça,
nessa bela praça,
no Terreiro do Paço,
que podia ser ainda mais bonito,
muito mais bonito,
mas as gentes nem dão por isso,
a Praça do Comércio (que nome!)
não tem ajuda do poder
para a tornar muito mais atractiva.
Correm para a vida,
os populares,
os cacilheiros, já bem encostados,
deixam sair os passageiros,
os mais calmos,
também esses já sem se importar
que o Cais das Colunas
já não seja o que era antes.
É gente da outra Banda
que dorme lá
que ganha a vida deste lado,
que transformou Cacilhas,
o Ginjal,
Trafaria,
Caparica
em dormitórios.
Tu, cacilheiro, foste o culpado.
Antes da ponte
eras dono e senhor
do rio,
só tu ligavas as margens
do Tejo que,
no final, parece um oceano.
Eras o patrão do Tejo.
Agora, já não és essencial,
imprescindível,
única solução.
Mas continuas a ser útil,
desejado,
e, sobretudo, manténs a tradição
alimentas o saudosismo,
és uma relíquia preciosa
para a memória,
mas também os que não usam a ponte,
a que já teve dois nomes,
que são bastantes,
e ainda bem,
porque tu,
ó cacilheiro dos velhos tempos
pode ser que acabes por vencer
a modernidade,
a que deitou abaixo as colunas
e arredou para mais longe
o local onde te encostas para descansar,
de cada viagem,
fazendo-te perder a graça,
essa de ver entrar e sair a populaça,
no sítio certo, junto às colunas.
Foi isso que a imaginação
trouxe até mim,
o olhar para o Tejo e contemplar,
sentado em frescos bancos
de pedra,
com a barra ao fundo,
vária navegação circulando,
respirando o ar marítimo,
mastigando pipocas
e pevides,
compradas ao velho do tabuleiro,
que sonho!
E, de repente,
caí em mim.
Esta Lisboa que faz a inveja
de outras grandes capitais
que não têm este rio
a seus pés,
esta cidade que deslumbra as outras,
mas que, em lugar de olhar para fora,
para a água salgada,
para as ondas com a sua espuma,
para o reluzir do Sol no Tejo,
vira-se para dentro,
para o seu umbigo,
e nem parece ser
terra de Navegadores,
antigos mas recordados,
ficando-se com a impressão de que
se tem vergonha
de ficar à borda do mar das Descobertas.
Não merecemos o que temos,
e tu, ó cacilheiro,
ainda serás algo,
já pouco,
que tem de nos avivar a memória,
chamar a atenção para
o pouco que nos resta.
A modernidade?
Pois sim, mas sem destruir
as jóias do passado.
Que bonito é ver o cacilheiro
encolhidinho,
ao lado do grande paquete,
majestoso,
que passa
a abarrotar de tecnicismo,
orgulhoso do seu porte,
transportando uma multidão
a olhar sobranceiro
o pequeno cacilheiro,
a ínfima embarcação
a cruzar o Tejo na sua humildade
como um pedinte
se aproxima
do carro de luxo
num semáforo.
Ó cacilheiro,
modesto trabalhador que
nasce, vive e morre
sempre com o mesmo mister,
com a mesma viagem,
repetitiva,
monótona,
mas prestando um serviço,
sendo útil,
indispensável,
com gente sempre à sua espera,
que o aguarda a olhar para o relógio,
como quem combinou com o namorado
um encontro.
Ó cacilheiro,
Tu, em que as gaivotas
tuas conhecidas
poisam na amurada
saudando-te,
lembrando-te quem és,
não te deixando sonhar com fantasias,
com luxos,
com atitudes que não são as tuas.
Tu és o que és
e nós queremos-te assim.

DESENCANTO POR ENQUANTO!


Gosto de ver as minhas mãos despidas de anéis. Nunca tive e não me fizeram falta nenhuma. Se fosse rico continuaria a manter os dedos despidos de enfeites.
Sobretudo nos homens, as mãos limpas de sujidade e de adereços, sejam eles quais forem e com o valor monetário que tiverem, são mãos que significam pureza, nem que seja apenas exterior.
Se à tal limpeza à vista se puder juntar, por pouco que seja, alguma pureza íntima, então o ser humano tende a aproximar-se, mesmo que longinquamente, da perfeição.
Hoje deu-me para aqui: os dedos sobrecarregados de anéis, agridem. Pelo menos a vista.

domingo, 8 de agosto de 2010

A vida é um espaço de tempo que o ser humano ocupa obedecendo à sua vontade e à dos outros, mas tendo em conta, sobretudo, as circunstâncias que o envolvem.

AS QUINAS

I
Em certa manhã de nevoeiro
Vai despertar aqui no País
A esperança de ser feliz
Trazida por um alvissareiro?
II
Em Terra de tantos pacientes
Ainda há fé em epopeias
Pois o sangue que corre nas veias
Vem de outrora, de antigas gentes
III
Por mais que se julgue adormecida
A ânsia do Mostrengo matar
Grande coragem não vai faltar
Sempre se vai dar a acometida
IV
Tanta apagada e vil tristeza
Que é apanágio do Português
Não quererá que um dias, talvez
Ponha à mostra a sua sageza
V
Para os últimos deixarem de ser
P’ra entrarem no comboio perdido
Há que soltar o ar abatido
E sem demora correr, correr
VI
Olhemos aqui para os vizinhos
Esses, doutros tempos, Castelhanos
E honremos os velhos Lusitanos
Seguindo então novos caminhos
VII
Por mais que estejam adormecidos
Mesmo que pouco e mal se lute
Não se há-de perder o azimute
No fim não sairemos vencidos
VIII
Discutir-se-ão muitas opções
Os políticos debitarão
Mas negar, nunca o negarão
Esse mar que nos cantou Camões
IX
Seguro que vai ser necessário
Que a fome nos ataque primeiro
E que se faça um grande berreiro
A lastimar o nosso calvário
X
Mas p’ra atingir tão grato projecto
D’a os da Europa sermos iguais
Só teremos, oh simples mortais
Que rogar ao Supremo Arquitecto

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Para estar vivo, ajuda muito o querer-se. Para tratar as doenças, pelo menos algumas, é importante acreditar-se na cura, começando por crer no curador.
As longas esperas nos consultórios e pior ainda nos hospitais públicos, seguidas de um certo atendimento cansado, distraído, até mal-humorado será a causa dos pouco resultados obtidos com muitas medicinas que não conseguem debelar as enfermidades. Por vezes, as mezinhas recomendadas por curandeiros sem diploma conseguem efeitos positivos, apenas e só porque a freguesia que frequenta tais locais de consulta enfrenta a situação com muita fé, por ter conhecimento de resultados positivos noutros felizardos que lhes descreveram as melhoras.
Em Portugal, onde há cada vez mais escassez de médicos, devido, em grande parte, às dificuldades postas para a entrada de alunos na faculdade respectiva, faz com que, com aumentos sucessivos, os clínicos espanhóis exerçam a sua profissão neste lado da fronteira. Só que por aí não vem mal ao mundo. O pior advém das razões dessa realidade.
É, de facto, desconsolador verificar-se que, em Portugal, tardam muitos anos a solucionar-se problemas que estão à vista de toda a gente as formas de dar a volta. Neste caso, sabendo-se que um médico demora seis anos a ser feito, ainda que no início da carreira, como é possível assistir-se à partida da nossa juventude para o estrangeiro, para Espanha principalmente, para poder obter a carteira médica? Quando a História, daqui a anos, referir este facto, será difícil entender o que passou na cabeça dos sucessivos governantes que permitiram tal anomalia…
Por agora, que se enfrenta esta situação, resta fazer coro com os optimistas quando dizem que “enquanto há vida há esperança!” O pior é quando acaba a vida sem se ver a esperança transformar-se em realidade.


sábado, 7 de agosto de 2010

Já nem sei onde ouvi este princípio que me ficou para a totalidade da minha existência e que recordo a cada passo:
Há duas coisas que se podem considerar inesgotáveis na nossa vida – o Universo e a ignorância.
O primeiro é algo com que temos de nos conformar,
até ao momento em que a ciência humana consiga responder
a essa perturbante interrogação.
Mas a segunda, essa, enquanto existir um ser, não haverá quem aceite, em pleno, que o saber tudo é coisa que não se conseguirá nunca.

MORTE RODANDO

Eu sinto a morte rodando
às voltas por aí anda
por mim lá vou disfarçando
pois sei que é ela quem manda

Ter medo dela não tenho
só espero eficiência
que use do melhor engenho
que tenha por mim clemência

Não me sinto amargurado
por saber que ela chega
aqui lhe deixo um recado
que não brinque à cabra-cega

É surgir e fazer obra
sem dar tempo p’ra piar
quando parte nada sobra
nem vale a pena chorar

Que quem tem medo da morte
o mais que pode resista
p’ra tudo é preciso sorte
e não se ser egoísta

Mas eu não, bem a confronto
que venha quando quiser
para ela eu estou pronto
não me canso de o dizer

Fiz o que tinha a fazer
reconheço erros meus
preparado p’ra morrer
basta-me dizer adeus

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Os humanos estão, há já muito tempo, a destruir o ambiente terrestre. Quanto mais inventam, alterando a serenidade em que o mundo viveu durante milhões de anos, liberto que esteve das interferências da mão do Homem, mais anormalidades se notam naquilo que era a rotina das temperaturas e das estações do ano. Aquilo a que se chama hoje, como tratando-se algo aceitável, o aquecimento global, com o desfazer progressivo dos gelos glaciares, vai ter consequências imprevisíveis no aspecto físico da Terra, provocando o desaparecimento de zonas litorais, submergidas por águas marítimas.
Todos os fenómenos que têm ocorrido, em várias áreas do Globo, provocando destruições enormes e perdas de vidas, são bem a prova de que se está a mexer em algo que não agradará a quem provavelmente deve ter a seu cargo a manutenção do que existia desde o começo. As populações de todo o mundo e em particular as dos países ditos mais desenvolvidos, com o desfazerem-se de tudo que considera imprestável, não cuidando de encaminhar os desperdícios para serem reaproveitados nos locais que a ciência também já pôs à disposição para evitar as acumulações de produtos nocivos, esse comportamento contribui para tornar o Planeta cada vez mais repleto de ambientes menos respiráveis.
Se é certo que a ciência é curiosa e que a ânsia de saber mais instiga os cientistas a ir fazendo experiências e a caminhar cada vez mais além, não se pode deixar de considerar que alguma dose de prudência seria aconselhável, para evitar surpresas maiores do que aquelas que ainda poderão ser dominadas pelo saber humano.
Um exemplo que obriga a reflectir é aquilo que está já a constituir uma determinação científica que não oferece dúvidas. Trata-se do aviso de que, não obstante os malefícios indesmentíveis provocados pela descuidada mão humana, o fim da vida dos mortais vai chegar cada vez mais tarde e que, dentro de alguns anos, não tantos como isso, o Homem comum vai chegar, com normalidade, às 120 primaveras e até mais tarde, devido ao avanço da ciência médica. Não é difícil imaginar como se apresentará este mundo dentro de relativamente pouco tempo, em que o espaço terrestre será o mesmo que temos hoje e a competição, que já agora se constata entre todos os que querem viver bem, aumentará desenfreadamente. E é igualmente previsível a luta que se vai verificar entre gerações, posto que o período que é agora considerado como pertencendo aos mais velhos, que deixam de exercer as suas profissões, terá de ser suportado pelos mais novos que, também eles, terão de ser em maior número para que as sua contribuições possam ser suficientes para pagar as chamadas reformas.
Com tudo isto, pergunto-me: será que o Criador, Aquele que se diz ter sido quem fez o mundo nos tais sete dias, previu que a Sua obra original iria chegar ao ponto onde ela se encontra hoje e para aquele para onde se caminha a passos largos?
O Todo-Poderoso, dentro da Sua magnânima sabedoria, não poderia deixar de ter previsto o futuro e de saber antecipadamente o que iria ocorrer quando viessem a ser passados todos os milhões de anos que correriam a partir do início de tudo.
É isto que me faz pensar. E, por mais que queira fugir do agnosticismo, as dúvidas vão-se acumulando.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Há aqueles que levam toda a vida a ter um sonho, uma aspiração.
Como há os que, sem nenhum desejo para o futuro, vão vivendo o dia-a-dia bastando-lhes a realidade de cada momento.
São os felizes. Serão?


IR PARA ONDE?

Ir a caminho e parar
não cumprir obrigação
ficar a gozar o ar
como outros também farão

Não quero
não me apetece
não entro em desespero
esperem que eu regresse
pode ser que algum dia
me salte a tal vontade
e por artes de magia
seja qual for a idade
lá prossiga
a caminhada
com mão amiga amarrada

Mas ficar onde estou
sentir a monotonia
mas sem saber p’ronde vou
metido com fantasia
nisso não sinto prazer
tal coisa não me alegra
não sei que deva fazer
preciso de certa regra

Vou andando
sem destino
e se paro não sei quando
num enorme desatino
julgando que era p’ro Norte
por isso cheguei aqui
só confiando na sorte
se foi para o que nasci
mais valia ter ficado
nas origens paternais
não atingiria o estado
de procurar ideais

Se em dada altura da vida
já não interessa o caminho
pois se está certa a partida
quando é que não adivinho
para trás ou para a frente
agora tanto me dá
se há quem comande a gente
ir p’raqui ou p’racolá
não quero
nem me apetece





DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Deu-me agora para me pôr a pensar naquilo que fiz toda a minha vida. Distingo mais alguns feitos do que outros. Mas, ao contrário do que se passa comigo em relação a acontecimentos recentes, que esses esqueço-os facilmente, os antigos, até com pormenores, recordo-os com grande nitidez.
É curioso. Até palavras ditas e respostas recebidas me saltam à memória com nitidez. O que me escapa mais são as fisionomias, que essas, bem como os nomes dos protagonistas, tenho tendência a perdê-las.
Isso pode querer dizer o quê? Talvez que fixei mais os factos do que as pessoas. Que registei na memória o que sucedeu e dei menos valor a quem interveio nas acções. Sobretudo no que se refere a algumas pessoas, não tão poucas como isso, que teriam razões para as recordar pelas ajudas que movi nas suas vidas, quanto a essas seria natural que retivesse as suas faces guardadas num recanto do meu cérebro… mas nem isso. Passou, passou.
Parece que, na generalidade dos casos, com os outros acontece precisamente o contrário do que se passa comigo. Não que eu queira distinguir-me com esta anotação, antes pelo contrário, o que sublinho é que, mesmo a quem fui útil nunca fiz questão de fazer uma ficha e arquivá-la no ficheiro dos devedores.
De facto, pode-se ter em conta quem foi o autor de uma descoberta importante, quem deixou para a posteridade uma obra de monta, seja qual for a área onde actuou, mas o que fica para o futuro são os resultados que se obtêm com a acção desenvolvida por alguém. Poderá a maioria das pessoas não ser capaz de se recordar do nome de quem descobriu a penicilina, mas que esta medicina salvou muita gente da morte, isso é que será reconhecido pela humanidade inteira.
É uma injustiça o olvido de nomes de personalidades que contribuíram para o enriquecimento do património mundial, científico, artístico ou o que seja. É uma verdade indiscutível. Mas eu prefiro ter acesso ao telefone, contemplar com êxtase a Gioconda, deliciar-me com a 9.ª Sinfonia, mesmo passando-me os nomes de Bell, de Leonardo Da Vinci, de Beethoven ou de Fleming.
É uma maneira de ver as coisas, bem sei. Mas se eu começo por me culpar a mim, se me recordo mais daquilo que ficou feito do que em quem interferiu nas obras, desculparei os que não têm memória para nomes. Já a lista de reis de Portugal e seus cognomes, a indicação dos rios nacionais e seus afluentes, das preposições ditas de enxurrada, da tabuada sabida de cor e salteado, de tudo isso que se aprendia e se repetia na velha instrução primária, que era onde se estudava o básico que hoje anda tão fora do domínio da juventude que parte para o secundário em plena ignorância, todos esses conhecimentos ficaram guardados num cacifo do cérebro e, até morrer, as gentes do meu tempo não esqueceram. E os que seguiram nos estudos, bem agradeceram a tal “basezinha”, como lhe chamava o Eça.
Mas isso são outros contos, que os ensinamentos de hoje não fazem nem ideia como eram antes.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Durante muito tempo da minha vida tive, como companhia dos silêncios, esse animal tão nosso amigo que é o cão.
Em diferentes ocasiões pude ter a prova de que o canídeo adora incondicionalmente o seu dono.
E reconhece-o como tal.

AMOR DE PARDAIS

Quatro pardalinhos brincam no chão do meu jardim
picam a terra com entusiasmo
e eu olho-os com ternura
pensando no mundo dos homens
desses que se guerreiam uns aos outros
e não confraternizam como estes pássaros
não dividem o que há para comer
são egoístas, querem só para si

E estes pássaros inocentes
que não sabem o que é pecado
que só procuram defender-se
dos que são gulosos
dos que apreciam o petisco
dos passarinhos fritos
saltitando, piando
lá vão apanhando as migalhas que
sem querer
os homens deixam cair

Que bom seria
se o mundo fosse todo como o dos pardais
dividindo o amor e as migalhas




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Para não sair do habitual, ponho-me, mais uma vez, a raciocinar. E desta volta sobre uma gente que até parece que os problemas que rodeiam todos os cidadãos se resumem àquelas manifestações mundanas. Aos casamentos, às separações, aos aniversários, às inaugurações de lojas e, menos mal, a jantaradas para ajudar alguma associação de beneficência, mas que tenha suficiente gabarito para justificar a presença dos smokings e dos fatos compridos. No meu caso, devo confessar que, em dada altura, também isso serviu para procurar entender a existência de uma camada a que se dá o nome de “socialaite” (escrevo desta forma, mas não deixo de sentir alguma relutância).
É verdade que, em muitos países da zona ocidental do mapa-mundo, existem individualidades que se destacam por surgirem sempre em festanças. E havendo-as com fartura, a gente que circula nesses ambientes com assiduidade dá pasto à ânsia das publicações da especialidade que vivem precisamente daquele tipo de público. Os que andam nesse meio e também a que não tem acesso mas que se deleita a seguir as andanças dos famosos. E os cronistas ganham a sua vida em redor dessa matéria-prima, descobrindo sobretudo as fofocas que têm um prazer mórbido em divulgar. Esta é uma realidade que não vale a pena ignorar ou até criticar.
Fixando-me apenas no que ocorre por cá, mais propriamente na capital, alguma coisa na segunda cidade, no Porto e, episodicamente, no Algarve – porque o resto de Portugal, também nesse aspecto, nem sequer é paisagem -, é caso para perguntar se, entre nós, não seria muito mais proveitoso que tais exibições tivessem lugar para celebrar manifestações artísticas de alto estirpe, com grandes orquestras sinfónicas, exposições de pintura de bom gabarito, espectáculos de ópera e de ballet com a presença de conjuntos internacionais, entregas de prémios a escritores de reconhecido mérito, tudo isso e muito mais e que bem sabemos que são acções que no nosso País são raras quando, para não ir mais longe, aqui ao lado, em Espanha, não só em Madrid mas em muitas das cidades espalhadas pelo seu território, é vulgar ter-se conhecimento de manifestações festivas de tipo cultural.
Mas é uma lástima que a nossa imitação se fique apenas na exposição de criaturas que, coitadas, restringem a sua felicidade a fazerem-se às fotografias de que aspiram ver depois publicadas nas revistas que existem para isso.
Somos o que somos e como somos!
A vaidade, sempre ela, é uma mola que faz saltar o Homem. Há quem a limite, a esconda, se envergonhe até de a ter. Mas ela é mais forte. Sem querer, mesmo de passagem, as montras das lojas servem para dar uma vista de olhos por parte dos passeantes. E a mulher, como é também natural e até certo ponto justificado, ultrapassa nesse aspecto e em muito a vaidade dos machos, se bem que não seja assim tão raro deparar-se com figurões que têm como principal preocupação cuidar fervorosamente do seu aspecto exterior.
É certo que vigora ainda, mas cada vez menos, uma certa apreciação depreciativa quanto a homens que são iguais às mulheres no tratamento cuidado dos seus rostos, por exemplo. Mas a persistência e o descaramento desses manequins ambulantes faz com que acabem por ser aceites e até mesmo se introduzam no chamado “jet set”.
O Homem, quando se aventura por áreas, ainda que fora do comum, para impor comportamentos invulgares, quer seja na área da convivência social – que ainda é a que menos prejuízos provoca - quer seja no campo da política, deslumbrando-se com os seus feitos e aplaudido pelos companheiros que logo formam grupos à espera da apanhar os restos do sucesso, esse ser, perante o deslumbramento que causa, avança e serve-se de todos os meios para atingir fins de que, muitas vezes, se perde o controlo.
O convencido da sua posição superior, seja ela qual for, tendo os outros em conta apenas para servir os seus objectivos, os seus sonhos, frequentemente as suas malvadezes, esse tipo de pessoa, se for descoberto a tempo, deve ser afastado do convívio de outros mortais. Até ele se convencer do seu erro.
Aqui fica o aviso ao “jet set” português. Mesmo que ninguém me tenha encomendado o sermão!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

MORTE

Eu oiço o sino da morte
Dar badaladas por mim
Tenho pronto o passaporte
Estou preparado p´ro fim

O que não quero é que então
Olhem p´ra cova a chorar
Pois a incineração
Deixa cinzas p´ra espalhar

É triste pensar na morte?
Aceitá-la consciente?
É isso ser-se mais forte?

Basta enfrentar o real
Partir como toda a gente
E a todos ser igual.
MORRE LENTAMENTE…


- quem não aceita envelhecer
- quem lhe é indiferente o que se passa à sua volta
- quem não tem desejos
- quem não consegue encontrar virtudes e defeitos na sociedade
- quem nunca se revolta, por mais horrorosos que sejam os acontecimentos
- quem tanto lhe dá a rua por onde caminha, basta-lhe o destino
- quem lhe é indiferente a música que escuta
- quem não consegue ler nem ouvir uma poesia
- quem nunca pegou num livro e não lhe interessa o que os escritores têm para comunicar
- quem fecha os ouvidos aos que sabem mais têm para dizer
- quem não sonha, não idealiza, não ambiciona
- quem anda permanentemente com o pavor da morte
-quem não sabe conversar consigo próprio, não perguntando e não respondendo às suas próprias questões
- quem não se espanta com nada, achando tudo normal
- quem está convencido que se conhece bem a si próprio
- quem só conhece a sua rua e não se preocupa em conhecer outras
- quem nunca parou para contemplar a lua, não olha para as estrelas e não tem interesse em ver o sol, mesmo através de um vidro fumado
- quem nunca se embriagou, pelo menos uma vez
- quem nunca sentiu os prazeres da carne
- quem nunca sentiu as influências do espírito
- quem não sabe e não sabe que não sabe
- quem nunca alimentou fantasias
- quem não teve a tentação de despir outrem e, em imaginação, gozar o espectáculo da sua nudez
- quem não é capaz de ouvir o silêncio
- quem não ama as flores e tudo que a Natureza oferece
- quem julga que vale mais do que, de facto, vale
-- quem julga que vale mais do que todos os outros
- quem nunca parou para pensar e, fazendo-o, não tem a humildade de reconhecer que errou
- quem nunca hesita antes de tomar uma decisão séria
- quem nunca quis pôr-se no lugar de terceiros
- quem se ilude com as suas próprias mentiras
- quem não desiste das suas convicções, mesmo em face de argumentos que as anulam
- quem usa e abusa do uso do sempre e do nunca, contrariando repetidamente essa garantia

- quem não acredita no que diz… mas diz
- quem anda sempre a pedir a Deus que o perdoe, mas não é capaz de perdoar os outros
- quem tem coração que é cego
- quem é vazio de interior, exibindo largamente o que tem de for
- quem, fugindo ao seu destino, anda permanentemente a esbarrar com ele.

VÃO DESAPARECENDO...


É INEVITÀVEL. Os anos vão passando e os que resistem mais à ceifa da vida não têm outra alternativa que não seja assistirem à partida dos que não conseguem vencer a chamada inexorável daquele que continua a ser o ponto final de uma existência que lá se vai suportando.
E dentro da profissão de cada um, o mais inquietante é que essa certeza, que é afinal a única que todo o ser humano não nega que também lhe baterá à porta um dia, vai retirando da nossa convivência parceiros que, naturalmente, mesmo de idade diferentes e de zonas de actuação não condizentes, com a sua saída de cena têm de nos provocar um vazio no ambiente que nos envolve.
A morte de Mário de Bettencourt Resendes, ocorrida numa altura em que, embora sabendo-se da sua baixa de saúde, não se esperava que se desse propriamente agora – até porque a esperança nos leva a acreditar que, quem aguenta vários anos com a corrosão que vai minando no interior dos corpos, sempre permanecerá na nossa área mais uns tempos -, esse desaparecimento esta semana causou um abalo em todos os seguidores da mesma profissão no jornalismo, quer os que actuaram durante a mesma época, ao longo dos 17 anos de actividade do Mário, como os que, sendo mais antigos, como é o meu caso, foram seguindo a sua presença, especialmente porque ocupou um lugar cimeiro como director do “Diário de Notícias” assim como surgia frequentemente nos écrans das televisões a dar a conhecer as suas opiniões de ordem política.
Pois é essa saída do nosso foro que desejo assinalar aqui e para isso, embora sem dar nas vistas, lá me desloquei à saída da Igreja, assistindo ao cumprimento do pedido do defunto de lhe serem colocadas, três bandeiras sobre a urna, a dos Açores, a do D.N. e a do Benfica.
E veio-me à imaginação o que deveria eu solicitar que me seja feito na altura semelhante que virá por aí. E nada de especial me saltou à ideia. Provavelmente, dado que a minha época do jornalismo vem de longe, pois comecei em 1954 num revista, chamada “Mundo Ilustrado”, em que me estriei com o Fernando Piteira Santos, nessa altura recém expulso do PCP, e eu, por via disso, dado que o director indigitado para essa nova publicação era o antigo mestre Norberto Lopes, que acabou por não poder aceitar pois o director do Diário de Lisboa de então, Joaquim Mando, ao ter conhecimento da proposta o impediu de a exercer e nomeou director-adjunto do vespertino, e foi por aí que eu, em lugar de seguir a carreira de economista para o que estudara entrei directamente na profissão das letras e isso também porque o emprego que me mantinha na ocasião era na Livraria Bertrand, situação que me encaminhou para o mundo ds letras, até por tomar o meu cafezinho diário com Aquilino Ribeiro, no velho Café Chiado, onde se formou uma tertúlia de intelectuais a que eu assistia embevecido.
Mas tudo isto só para referir que a morte de Mário me tocou fortemente, por ser mais um a desaparecer e por os novos que também têm o direito de mostrar o que valem, infelizmente não têm referência dos antigos como eu e dos mais recentes será a exposição televisiva que lhes dará mais conhecimento.
Partiste Mário! Outros irão a seguir. E o mundo, tal como ele anda, não se excluindo principalmente o estado deplorável em que se encontra Portugal, cá fica a tentar solucionar os problemas a que nós todos nos referimos pelos meios que cada um dispõe, mas que não chegam para mostrar o caminho que só os homens de bom senso serão capazes de melhorar.
Se forem!...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem não sabe que não sabe não se lastima por não saber

AQUILO QUE EU VEJO

Aquilo que vejo
que atrai meus olhos
que me causa ensejo
mesmo sendo aos molhos
eu acredito?
É verdade pura?
Não será um mito?
Uma desventura?
Mas vejo e pergunto:
poderei eu crer
constitui assunto
para eu ver
e aquilo que é dado
algo como queixa
será um recado
que a vida me deixa
uma prevenção
com certa importância
chama-me a atenção
provoca-me ânsia
abre-me o sentido
mas olho parando
e o despercebido
agora pensando
com calma observo
a ideia apurada
por fim lá conservo
a vista do nada
e aquilo que eu via
e que os olhos liam
tinha mais valia
e todos deviam
cá por este mundo
ter algum rigor
olhar sempre a fundo
que tudo tem valor

Por isso m’interrogo
procuro resposta
faço-o como um jogo
é quase uma aposta
tudo por que passo
e atrai minha vista
se causa embaraço
constitui uma pista?
Como em tanto assunto
não sei responder
até ser defunto
terei de aprender

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Quase como uma devoção, muitas vezes saio de casa, especialmente de manhã, para escrever. Preciso de ar. De respirar. E de inspiração. Mudar de ambiente ajuda. Faz-me falta movimento, mesmo sem entrar nele. É-me útil a distância, nem que seja a que separa a mesa do café das pessoas que passam, das que julgam que estão a fazer alguma coisa de útil a este País. Das que se sentem importantes por isso.
Lá passam também raparigas. Agora na moda está andarem com as barriguitas à mostra. E as costas deixam ver as uniões superiores das bochechas do rabo. Como mudam os tempos! Ainda me lembro da época em que a rapaziada se deliciava a ver as curvas das pernas das mulheres que subiam as escadinhas de Santa Justa. Era uma delícia! Aí a imaginação funcionava. Dava-se largas ao trabalhoso exercício de desnudar em pensamento as fêmeas que mais agradavam e que davam a espreitar de passagem as curvas das pernas.
Hoje, o desde ter-se à disposição dos olhos o que antes os decotes discretos não deixavam sequer perceber, os avantajados seios que, ainda para ajudar mais a provocação, os elementos femininos puxam para cima, para dar a sensação de que se encontram em boa forma de sustentação, desde isso até as saias pouco taparem em cima e em baixo, tudo é considerado natural. E pouco faltando para descobrir em plena rua o que ainda se encontra oculto, o resultado é que a curiosidade de saber como será vai-se diluindo. E aquele exercício que alguns podiam fazer de espreitar pelo buraco da fechadura, até isso hoje já não tem razão de ser, pois aquelas chaves que, de grandes, mal cabiam nos bolsos, hoje também elas são reduzidas. Tudo diminuiu!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

É sempre bom ter alguém que nos oiça, mesmo que não tenhamos nada para dizer.
Pelo menos, ficamos com a impressão de que o que não dissemos teria a sua importância.

ACORDAR MORTO

Não tenho medo da morte
é coisa que temos certa
não é por falta de sorte
disso ninguém se liberta

Passam Natais passam férias
a vida corre depressa
se alguns passam misérias
e a outros nada aconteça

À espera por cá se anda
de algo que vem depois
há quem leve vida branda
não precise de outros sois

A todos esses contemplo
e as minhas contas faço
há os servem d’exemplo
e provocam embaraço

A morte tem várias formas
por vezes é traiçoeira
não tem regras e nem normas
muito menos tem fronteiras

Porque mais cedo ou mais tarde
ter connosco lá vem ela
e sem fazer grande alarde
sempre provoca mazela

Com franqueza não invejo
dos outros o seu conforto
a coisa que eu mais desejo
é um dia acordar morto

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Não posso deixar de reflectir que, um dia, não sei em que altura, se estes textos caírem nas mãos de alguém que descubra que vale a pena lê-los e lhes encontre um mínimo de valor, seja onde for que eu esteja, isto no caso do falecido, mesmo em cinzas, ter algum sítio onde se aquietar, nesse cantinho encontrarei razões para a consolação. Por fim, houve alguém que reconheceu em mim algum interesse.
Escrever isto, nesta altura em que me encontro em pleno nas minhas faculdades mentais, parece querer reflectir uma soberba que me fica mal, mas o que ninguém pode negar é que me esforcei, enquanto vivo, por dar de mim tudo o que tinha para mostrar quanto vale uma aspiração que talvez não chegue nunca a tornar-se realidade: a de me entregar à arte da escrita, da prosa e dos poemas, e à tentação da pintura, muito a medo, já que, aquilo que eu mais desejava era ter sido agarrado pela música, essa que nunca passou do enorme prazer de ouvir.
Sou, pois, um falhado. Sempre vivi de aspirações. Embora não invejoso, entristece-me assistir, à minha volta, ao desmedido acarinhamento a cantores que cantam mesmo mal, a escritores que se encontram longe de merecer essa classificação, a artistas plásticos que se enganaram na opção tomada, todos com relativo êxito que, por muito passageiro que seja, sempre lhes vai enchendo o ego de satisfação.
Mas esses, eu também não invejo. São equívocos de um período que não pode deixar de ser curto, ainda que ocupe toda a existência dos próprios contemplados. Não atinge o futuro. Não passa para depois.
Feitas bem as contas, eu preferia que, como sucede agora, não me seja reconhecido qualquer valor em vida, desde que, mais tarde, já não sendo eu a assistir, seja descoberta alguma injustiça em tal pequena valorização. É uma ilusão que sustento, confesso.
Sou, de facto, um espectador de mim próprio. Reconheço as minhas falhas, não hesito em passá-las para o papel, em dar testemunho das críticas que me faço, mas tenho de ligar com o exterior de mim, guardar no fundo do eu as preocupações que seriam ridículas se as transmitisse a alguém e, por isso, me fecho, deixando aos outros uma sensação de um afastamento que, na verdade, não é propositado.
Se os católicos praticantes utilizam o padre para desabafar o que consideram ser os seus pecados, eu, que não sigo há imenso tempo essa prática que até considero ridícula, deixo na escrita, quando me encontro isolado do mundo, as minhas angústias, as queixas que me afligem, os erros que pratico. Este é o meu confessor. E, dado que o papel não aconselha, fico, no mínimo, com a consciência mais aliviada.
Por mais absurda que seja esta prática, consola-me. Deixa limpa, por momentos, essa tal consciência. Amanhã logo se vê!..

domingo, 1 de agosto de 2010

Não sei. Tanta obra monstruosa que tem saído das mãos do Homem, não seria preferível que se mantivesse o vazio?
Que digo eu?
Então seria mais próprio, amanhã, quem, por ventura,
vier a querer ler este texto, encontrar, em seu lugar,
uma página em branco?

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Cada vez mais tenho a sensação de que, para os outros, fui sempre alguém do lado de lá. Não só para os mais afastados, mas também para os parentes. Quanto mais tempo vivo, mais me convenço desta realidade, E, nesta altura, não vale a pena disfarçar que não é assim. A culpa, se é que se pode querer descortinar culpado nesta situação, terá de ser atribuída apenas a mim. Porque não serei abertamente comunicativo. Porque não pertenço àquela maioria de pessoas que mostram dar grande importância ao que os outros dizem, sobretudo quando internamente não atribuem valor suficiente para isso. Será por não ter esse sentimento de interesse demonstrativo, que tanto agrada aos outros interlocutores. Será por isso. Mas, seja pelo que for, a realidade é essa: Provoco pouco sentimento de intimidade nos outros.
E a verdade é que nem sei se sinto falta dessa intimidade. Dessa cumplicidade. Mesmo no que diz respeito aos amigos mais chegados, nunca senti esse entrosamento, daqueles que dá para trocas de confidencialidades. O meu
íntimo sempre foi resguardado e, talvez por isso, o dos outros nunca me foi revelado. Antes assim.
Aquilo a que se chama “abrir-se” com alguém, foi coisa que nunca fez parte dos meus costumes. Sobretudo, porque não creio que interesse ao próximo saber o que vai no meu íntimo. Poderão, por simples curiosidade, escutar o que lhes transmitisse de muito privado que existisse no meu âmago, mas mais do que isso não se passaria.
Estar do lado de lá é, pelo menos, estar nalgum sítio. Digo eu, para justificar o meu ponto de vista. Estar em todos os lugares, do lado de cá e do lado de lá, mostrar abertura e até entusiasmo quanto ao que se escuta numa conversação, é uma forma de estar na vida para além de ser cómodo. E não importa averiguar o grau de verdade que existe em tal posição. Se eu fosse assim, só tinha a ganhar no capítulo da apreciação dos outros a meu respeito.
Mas, quanto à apreciação de mim para mim próprio?

sábado, 31 de julho de 2010

Se desligar a luz é fácil, já apagar as más recordações é tarefa que não depende de dar ao interruptor.
Homem não é a tal máquina.
Não há comando eléctrico que possa afastar aquilo que não se deseja que volte à memória.
Não se comanda com um botão.

A PASTELARIA

Gente que entra e que sai
disposta a consumir
e depois p’ra onde vai
já está pronta p’ra seguir
a vida que cada um
tem ainda pela frente
pois já não segue em jejum
levando um ar de contente

Os bolos têm saída
neste País de gulosos
e o café como bebida
de simples e de vaidosos
lá prepara para a luta
quem pouco dinheiro gasta
que a vida é uma disputa
o que se ganha não basta
É nesta pastelaria
ond’eu por vezes me sento
que até me serve de guia
p’ra poesia que eu tento
e mesmo qu’ocupe alguém
cadeira na minha mesa
a conversa me faz bem
porque saio da tristeza

O de café variar
onde vou mais a miúdo
é só p’ra desabafar
e imaginação ajuda
pois vejo gente diferente
e outras vozes eu ouço
algo que é influente
naquilo que faço e posso

Daqui da pastelaria
até ao café normal
não faz falta correria
é tudo peto afinal
é só questão de apetite
de como estiver o dia
pois preciso qu’arrebite
toda a minha fantasia



DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Quem nunca teve bens materiais que valessem a pena, quem sempre lutou pelo Pão Nosso de cada dia sem ter gozado de abastanças, ainda que tenha podido desfrutar ocasionalmente de algumas mordomias que lhe foram proporcionadas, é natural que tenha aspirações a não morrer sem antes ter a sorte de lhe sair, em qualquer lotaria, um prémio pecuniário chorudo.
Claro que os ricos, os que já têm bastante, esses não desprezam um aumento substancial das suas fortunas. Dinheiro nunca vem em excesso, dirão. E a única diferença é que, quando arriscam um verba ainda que elevada nas apostas, utilizam a expressão “investir”. Os pobres e mesmo os remediados, os que contam as moedas na carteira, limitam-se apenas a tentar a sua sorte, com o lema de que “se tiver de sair… sai!”.
Pensando apenas nos que não têm nada que se veja, no cidadão corrente que vive condicionado a um montante mensal certo, ao que administra, ele e a mulher, geralmente até ela, aquele contadinho que não chega para dar um passo fora da linha, que a custo dispõe de uns trocados para tentar a sua sorte numa dessas lotarias que, quando sai e toca só a um, é coisa que se veja, tendo essa figura como modelo de imaginação, pode-se deduzir a mudança radical que se produz na sua vida. Será que a inundação de dinheiro a quem não está habituado a tanta fartura, que não soube nunca o que era ter para lá do mínimo, ultrapassada a alegria eufórica do momento da notícia inesperada, persiste sob a forma de felicidade?
Não ter problemas no gastar, não fazer contas na altura das compras, extasiar-se com tudo o que vê e que pretende adquirir, ter finalmente o carro dos seus sonhos, mudar de casa, deixar de trabalhar, aproveitar as excursões organizadas, comer a tão ambicionada lagosta, fumar do mais caro, ir visitar um parente que não vê há anos e que emigrou para longe, dar a volta a todos estes desejos que nunca pensou poder um dia satisfazer, tudo isso ultrapassa. Mas, e depois?
Passado o período da experimentação, de sensações novas e, por vezes, até antes disso, não é difícil imaginar que começam a surgir os contratempos impensáveis na época das vacas magras. As choramingas dos familiares, vizinhos e mesmo vagamente conhecidos, as propostas de negócios mirabolantes que surgem, sem se perceber bem de onde, deixam a cabeça dos chamados sortudos em bolandas. Mesmo usando óculos escuros, agora de marcas refinadas, saindo de casa de fugida, analisando cuidadosamente quem se encontra nos arredores antes de regressar ao lar, não atendendo o telefone que passou a retinir repetidamente, retirando com enjoo os maços de correio que todos os dias encontra na caixa e que prefere não ler, tudo isso são consequências de ter passado, de um dia para o outro, de pobre a rico.
E os filhos, antes tão dóceis, cumprindo sempre os seus deveres, que deixaram de ser tudo isso e passaram a apresentar exigências?
E a saúde, que tinha sido razoável até então, e de repente, deu mostras de não estar tão segura? A ida frequente aos médicos, o cuidado com exames complicados e caros, a compra excessiva de medicinas que se vão acumulando meio usadas nas prateleiras, o interesse em conhecer especialistas no estrangeiro que anunciam curas aos que podem pagar, tudo isso passa a fazer parte das preocupações dos novos ricos.
Dizia-me uma vez um homem que gozava de grande poder financeiro pessoal que lutava com um grande dilema: que não sabia se as pessoas que o rodeavam e pareciam ser companheiros fiéis, o faziam por serem seus amigos ou simplesmente porque ele era rico. E essa angústia persegui-o sempre, ao ponto de evitar relacionar-se com novos conhecidos. Preferiu o isolamento. Era um infeliz!
Pergunta-se então: onde está a felicidade? Provavelmente naquele que tem a coragem de se desfazer dos excessos de bens. De distribuir pelos que precisam. Mas como em tudo em que entra a mão do Homem, como não é humanamente possível que seja o filantropo, ele próprio, a actuar pessoalmente e a controlar o que pretende distribuir pelos necessitados, tem de confiar em organizações, em grupos que se prestam a cumprir honestamente a missão de repartir. Será que adquirir mantimentos num continente e enviá-los para outro distante, incluir nessa complicada operação múltiplos operadores, não acaba por beneficiar muita gente que não tem a ver com a miséria que se pretende diminuir? E até vai contribuir para encher os bolsos de quem já tem muito?
Por isso, dar, ser generoso, dividir com quem necessita dá trabalho. E preocupação. Se não for assim é um acto apenas de propaganda – porque geralmente essas atitudes são propagadas -, de alguém que não está disposto a ter maçadas. Não tem valor.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CONTENTE

Mesmo sem saber porquê
pois que tal não é preciso
é gostar do que se vê
e mostrar sempre um sorriso
contente,
contente
maravilha estar assim
sempre com ar de festim

Pode parecer doença
coisa física e mental
pois ter alegria intensa
lembra logo carnaval
contente,
contente
todos ao lado a chorar
quem ri a dissimular

Em época de tristeza
mostrar que é diferente
é p’ra já uma proeza
e que se anda a Poente
contente,
contente
será preciso inconsciência
ou deste mundo ausência?

Contente, contente
só com muita aguardente

QUE CONTENTES QUE NÓS ESTAMOS!


ENTÃO NÃO EXISTEM MOTIVOS, nesta altura, para que todos nós portugueses nos sintamos ultra-felizes em face dos acontecimentos que nos acabam de proporcionar razões mais do que suficientes para nos congratularmos com o facto de ter nascido neste torrãozinho pátrio e continuarmos a manter as nossas existências em local tão deslumbrante?
Não põe ser outra a minha opinião momentânea e, em face disso, conforme tenho determinado, interrompo os textos do meu livro “DESENCANTO POR ENQUANTO!...” para dar largas às notícias que, preenchendo agora os muitos espaços da Informação que ocupam os jornais, as rádios e as televisões portuguesas, permitem que os nossos compatriotas sintam que podem agora ufanar-se dos acontecimentos que vão melhorar imensamente as suas vidas.
De facto, pelas ruas fora, nos encontros com os amigos, nas conversas com os vizinhos, nas trocas de opiniões que constituem nesta altura o motivo principal dos telefonemas, não se ouve outra coisa que não seja a demonstração de regozijo que todos nós sentimos com o facto da PT ter solucionado o problema da venda da brasileira VIVO e da compra da também brasileira e igualmente empresa de comunicações telefónicas do País irmão de além Atlântico com um nome muito explícito – “OI”.
Que melhor poderia suceder a todos nós, cidadãos lusitanos, do que essa operação financeira que meteu no bolso da nossa PT qualquer coisa como 350 milhões de euros? Não tem razões José Sócrates para estar eufórico com tal solução e por isso não houve motivo para se justificar o discurso que resolveu fazer aos jornalistas para mostrar vaidosamente como foi deslumbrante a medida tomada através das acções do Estado, denominadas “golden shares”, atitude genial que só poderia sair de uma cabeça tão privilegiada como a do engenheiro primeiro-ministro?
Perante tamanho feito, os cidadãos deste País vão constatar que, a partir desta genial negociação, os impostos vão descer, o desemprego vai ser muito reduzido, a produção nacional atingirá níveis que nunca foram alcançados, as medidas governamentais, como sejam as diminuições visíveis das despesas públicas, entrarão nos eixos, a Justiça passa a ser exercida com eficiência, a educação passa a ser uma zona que vai preparar toda a nossa juventude para um futuro que lhe vai dar muito trabalho, que a burocracia oficial deixará de ser, de uma vez, um empecilho das nossas acções, enfim, não podemos deixar de concordar que esta “milagrosa” medida, tomada com a PT, vai solucionar todos os grandes problemas que o nosso País vem a enfrentar há alguns anos. Esta é uma razão indesmentível que a “festa” que os portugueses estão a fazer é mais do que justificada.
Por isso pergunto: então, perante tamanho feito não deveria eu também dar um ar de alegria ao meu blogue, sempre tão desencantado?
E, para além disso, também surgiu a notícia nos jornais de que essa figura a que só posso chamar de “esquisita”, e que se chama, há dúvidas, José Castelo Branco, convidado para comentar a lista masculina – e qual deveria ser? – dos denominados “sex platina”, considerou Sócrates como “o mais sexy”.
Não há dúvida, não podiam surgir mais motivos para que todos os portugueses se sentissem “ultra-orgulhosos” – como se diz tanto agora – com a benesse de serem naturais desta Terra e terem à frente dos poderes instituídos personalidades de tanto valor como aquela cabeça que chefia o Executivo actual.
Só faltou uma coisa a isto tudo: foi que tivesse sido anunciado, por quem o possa fazer, que o custo das chamadas telefónicas que pagamos no nosso País beneficiam com tanto dinheiro arrecadado pela PT e que, por isso, o seu custo e as condições contratuais que nos são impostas, desde que existe telefone em Portugal, tudo isso vai ser alterado para disposições muito mais favoráveis.
Mas nem pensar!... Os mamões, aqueles que auferem, por mês, por hora, por segundo, fortunas com esses lugares que ocupam, tais personalidades só se riem e quando mudam para outros é apenas para retirarem ainda maiores e mais apetecíveis proveitos.
E isto veio mesmo a calhar numa altura em que a "broca" do caso da Freeport tenha sido “arrumado” para escândalo de toda a gente, situação esta que se equivale a tantas outras que representam, do mesmo modo, o proteccionismo escandaloso que é atribuído àquelas figuras que são sempre resguardadas das leis que devem existir para todos de igual modo, apesar disso, os portugueses não escondem a sua alegria pelo caso que, esse sim, lhes vai trazer grandes benefícios directos.
?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Faço o possível para ler toda a poesia que me chega às mãos.
A que é publicada e apreciada, pelo menos pelos editores que lhe deram oportunidade de surgir impressa.
Concluo que não tenho sensibilidade suficiente para ser tocado por certos poemas sem métrica, sem rima, conjunto de palavras sem significado à primeira e à segunda vista.
Está muito para lá do meu entendimento.
Ou será que, tal como aquela denominada música, que é só barulho?
Também há poemas que não respeitam o silêncio…

A MALA

Ter sempre a mala pronta para a viagem
não ser apanhado de surpresa,
sem bagagem
com destreza
com a roupa bem arrumada
isso ajuda a não perder a oportunidade
e a jogar essa cartada
não sei se com felicidade
não é fácil encontrar uma boleia
e adiar o que já estava determinado
sem ter nada de especial na ideia
e ficando bastantes assuntos de lado
e seguramente alguma coisa esquecida
não é por aí que se falta ao compromisso
e como não se pode recusar a ida
pois foi o destino que a estabeleceu
não nos competindo a nós alterar
e havendo sempre a esperança de ser o Céu

Não me escondam a mala já fechada
preparada para a viagem que for
basta apenas descer a escada
afastando todo e qualquer pavor
não sei quem irei encontrar à chegada
se será alguém conhecido
que também fez troca de morada
o que causou na altura alarido
que partiu antes e nem se despediu
numa linda tarde de primavera
houve gente que muito sentiu
mas se por mim não há ninguém à espera?

Seja como for a mala está pronta
não é por aí que chego atrasado
e é forçoso levar bem em conta
que não faço isto com completo agrado
nem importa se vou de boa vontade
vou, e pronto!
todo e não metade
meio tonto
é como tantas mais
é outra viagem
todas desiguais

Agora que estou cansado de viver
de aturar uma fatigante malta
só espero não ter de andar a correr
tranquilidade é o que me faz falta

Haja até quem me desfaça a mala
que arrume as roupas em bom local
que me conduza a bonita sala
tudo feito com ar informal
e me indique o local onde vou restar
não sei se será longa a estadia
porque bem preciso de descansar
e não me causará grande alegria
se for o mesmo que passei por cáº
mas seja o que for
onde for
como for
terei sempre presente um oxalá
de que seja muito melhor do que aqui
de onde parto
e de cujo bem-estar sempre descri
por isso fiquei farto
mas de onde, apesar de tudo, levo saudades
das pessoas que me transmitiram amor
aonde fiz algumas amizades
e onde a luta me transmitiu calor
e que, mesmo com desenganos
que ocuparam uma parte da minha vida
houve sempre tempo para planos
até ao dia da partida

Pode ser que um dia
seja eu à espera e a desfazer a mala
de quem terminou a correria
e me caiba a mim conduzir à sala
e a ajudar as malas arrumar
e a acompanhar para o lugar do sossego
a quem tenha chegado a hora de arrimar
e mereça também seu aconchego

Se cá fica algo são papéis
Mas também não valem cinco réis

O DENUNCIANTE


O denunciante pode ter dois pesos e duas medidas. Tanto pode ser observado com a lente da utilidade, como pelo prisma do mau carácter… como chamam os brasileiros.
Se se trata de não deixar que fique impune um crime, sobretudo se inculpa injustamente gente inocente, nesse caso a ajuda da descoberta da verdade só pode merecer louvores. Se diz respeito a uma criança que, sem se poder defender, é, por exemplo, vítima da prática de pedofilia, dessa aviltante atitude doentia que, infelizmente, vem desde que o homem é homem, então, quem tem conhecimento desses factos tem o dever de não ficar calado.
Agora, os outros, aqueles que denunciam pelo prazer mórbido da perseguição do próximo, pagos ou não por isso, são movidos geralmente por razões de inveja dos que têm mais do que eles Tais gentes são merecedoras de desprezo, de mudança de passeio quando são cruzados na rua.
Os denunciantes de má memória, aqueles que eram sustentados pela antiga PIDE para indicarem cidadãos que não aceitavam o regime totalitário que existia em Portugal, tais “informadores”, como eram apelidados, praticavam um acto abominável. E, ainda por cima, a recompensa que lhes era atribuída era insignificante, dizem os que sabem dessas coisas.
Ainda se moverá por aí, mesmo com a idade já a pesar-lhes, se é que não se passaram ainda para o outro mundo, gente que tem a pesar-lhes na consciência o mal que praticaram, por muito que se tenham diluído na população em geral. Porteiros de prédios, empregados de certos cafés, restaurantes, hotéis, dos transportes públicos e detentores de outras profissões que mantinham um razoável relacionamento com o público, eram esses os preferidos da polícia política.,
Quem atravessava a vida a observar e a escutar o que se passava à sua volta, para depois preencher os relatórios que tinham como finalidade levar à cadeia, primeiro na António Maria Cardoso e, de seguida, no Aljube e noutras masmorras existentes para esse fim os que não aceitavam a situação política que era imposta, quem foi capaz de aderir a tal procedimento, se ainda for vivo andará provavelmente com a consciência a pesar-lhe.
Andará, de facto?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Eu não tenho ilusões. Nós somos assim, vivemos num deixa andar, num “logo se verá” permanente.
No “há tempo”. Já me referi a isso noutro texto por aí algures.
Por isso, fico-me pela imaginação da época da minha infância.
Desse acompanhar a par e passo, riscando no mapa, a evolução das tropas que se enfrentavam na II Guerra Mundial
Não me apetece pôr-me noutro lugar. E tenho pena.

A CHUVA

A chuva molha a cidade
Fica mais triste, escurece
É duro, mas é verdade
É assim, quando aparece

Tocada a vento, então,
Mais agreste fica ainda
Nela o Homem não tem mão
Mas por vezes é bem vinda

Sim, há gente que a deseja
Que tanto implora por ela
É o pão da sua boca

Ela é sua benfazeja
Desponta como uma estrela
Toda a chuva será pouca

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Os políticos. Quem não os topa? E são de duas classe: os que entendem em pleno o que é a Democracia e, com essa forma de actuar, são mais susceptíveis de respeitar a vontade da maioria dos eleitores, o que também representa uma maior fragilidade na manutenção dos lugares que ocupam, e os que se mostram indiferentes a regras democráticas, embora, por estarem inseridos nesse regime, se esquivem quanto podem a escutar a vox popoli, seja qual for a forma dela ser expressa. Isto, num resumo sem outras pretensões.
Dos regimes ditatoriais, nem tem cabimento nesta singela observação fazer qualquer abordagem.
Mas, quando é no âmbito das liberdades que se observa o comportamento de um político que se encontre no poder, em tal situação é incompreensível que surjam, com mais frequência do que se pode pensar, políticos que utilizam todos os meios ao seu alcance para praticarem o chamado abuso do poder. Ou seja, o utilizarem indevidamente meios que, moral e politicamente não lhes estão atribuídos, como sejam o uso de “mordomias” para si e para familiares e amigos, como é o caso de automóveis, viagens, etc. que só se devem destinar aos inerentes detentores dos cargos e quando se encontram em serviço oficial.
Este desabafo parece não vir a propósito de nada. Para mim, sim. É que, ao ler as notícias de hoje, deparei com fanfarronadas proferidas por um responsável político de uma zona do País, um que, conseguindo sempre obter vantagens nas eleições a que tem de ser sujeito, mesmo assim não perde nunca a ocasião de marcar o seu separatismo ideológico em relação ao todo nacional. E o País assiste ao espectáculo que essa personagem arrogantemente dá, ouve e cala. Parece que tem medo!..

terça-feira, 27 de julho de 2010

QUANTAS COISAS QUERIA FAZER

O que pela vida ficou por fazer
não tem conto
para trás ficaram várias coisas
com que sonhei
desejei
muito ambicionei
mas nem sequer foram começadas
ficaram pelo meio
ou não chegaram ao fim
os amigos que tive
e já morreram
os que perdi, porque deixei de os ver
os sonhos que me envolveram
e que de manhã se esvaíram
os mistérios que não cheguei a sondar
ou que os quis descobrir mas não fui capaz
as mentiras que disse
quase todas caridosas
outras não
e que quis emendar e não consegui
os defeitos que fui mantendo
e que não encontrei a forma
de emendar
várias coisas de que me arrependo
e que não fui a tempo de
dar a volta
tudo isso e muito mais
que me faz pensar
sendo já tarde para resolver
aqui deixo como prova
de arrependimento

Mas outras coisas que queria fazer
não foram motivo de tristeza
antes de beleza
grandeza
firmeza
pois satisfizeram
se não no total
pelos menos em grande parte
já que
se faltou o génio
o trabalho compensou
o suor dispendido
trouxe resultados

TAP/IBERIA


PEÇO desculpa por voltar, excepcionalmente, a um tema de crítica que eu, há alguns dias, pus de parte para me dedicar apenas ao meu DESENCANTO POR ENQUANTO.
Mas vou ser rápido, embora o tema não seja novo para mim, pois há bastante anos que eu levanto a questão, mesmo muito antes da crise, de se tirar maior proveito com o que custa caríssimo ao erário público e que não obtém os resultados que se devem exigir para interesse nacional.
Trata-se agora da notícia e que a TAP atravessa um período de grandes dificuldades financeiras e que, como está a suceder por toda a parte em Portugal, não se sabe como solucionar esse problema.
É evidente que a minha tese bate sempre na mesma tecla. AQ de nos unirmos aos nossos parceiros ibéricos, com o objectivo de sairmos ambos a ganhar. E essa minha defesa da junção da TAP e da IBERIA numa companhia que juntasse até os dois nomes, por exemplo TAT/IBERIA, e em que os enormes gastos que se dispensem por todo o mundo, com as delegações e os escritórios abertos onde as companhias chegam, se poderiam reunir numa só representação, assim como os balcões que se encarregam da propaganda turística de ambos os países deveriam figurar nos mesmo locais das companhias aéreas, não ficando mesmo por aqui a junção de actividades que não se afastam assim tanto dos outros dois objectivos e que são os escritórios que, no nosso caso, se chama agora AICEP (antes apenas ICEP, sem se entender o motivo de tal mudança, a menos que tenha sido por invenção de um desses cérebros que há por aí e que não são capazes de ter ideias positivas), pelo que, Portugal e Espanha, ambos países interessados em propagar as visitas de turistas estrangeiros a esta Península que está junta, tirariam todo o partido em fazer a divulgação dos produtos de origem ibérica, em mostrar-lhes a forma de chegar por via aérea e, dessa forma, também referir-lhes as belezas do turismo da Península mais a ocidente da Europa.
Então não seria, com os devidos funcionários das duas línguas, uma maneira de economizar milhões de euros por ano e, ao mesmo tempo, efectuarem um trabalho proveitoso, sendo que, para optarem por uma companhia aérea ou por outra, desde que ambas estivessem unidas em função comercial e até associativa, não existiria o espírito da competição, dado que as duas trabalhavam para o mesmo.
Claro que um ideia destas merece um estudo profundo para que não se cometam erros práticos, mas este exemplo constituiria uma amostra de que o abraço de interesses que venha a ser feito um dia – disso não tenham a menor dúvida aqueles que continuam agarrados ao caduco “albarrutismo”, que não têm já ponta por onde se lhe pegue e que os portugueses. cada vez mais atordoados com as dificuldades que são obrigados a enfrentar, da mesma maneira que os vizinhos espanhóis, também eles a serem vítimas da crise que ataca por todos os lados, aceitariam como porta de saída do que já chega como sacrifício dos cidadãos.
Desde 1962 que, em coluna semanal que saia no velho “Jornal do Comércio”, com o título “Campanha para uma aproximação económica luso-espanhola”, que foi depois proibida pela Censura da época, luto pela união produtiva do bloco formado por esta Península que, se pertencesse a uma dos países europeus que está encafuada no meio do Continente, há muitos anos que impunha a sua presença e tirava os benefícios daí resultantes.
Vejam lá se a França, a Alemanha e até a Inglaterra apoiaram algum vez, ao longo da História essa união e não arranjaram consecutivamente enredos para que o entendimento ibérico nunca se efectuasse!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Faço o possível para ler toda a poesia que me chega às mãos.
A que é publicada e apreciada, pelo menos pelos editores que lhe deram oportunidade de surgir impressa.
Concluo que não tenho sensibilidade suficiente para ser tocado por certos poemas sem métrica, sem rima, conjunto de palavras sem significado à primeira e à segunda vista.
Está muito para lá do meu entendimento.
Ou será que, tal como aquela denominada música, que é só barulho?
Também há poemas que não respeitam o silêncio…

A CHUVA

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Os políticos. Quem não os topa? E são de duas classe: os que entendem em pleno o que é a Democracia e, com essa forma de actuar, são mais susceptíveis de respeitar a vontade da maioria dos eleitores, o que também representa uma maior fragilidade na manutenção dos lugares que ocupam, e os que se mostram indiferentes a regras democráticas, embora, por estarem inseridos nesse regime, se esquivem quanto podem a escutar a vox popoli, seja qual for a forma dela ser expressa. Isto, num resumo sem outras pretensões.
Dos regimes ditatoriais, nem tem cabimento nesta singela observação fazer qualquer abordagem.
Mas, quando é no âmbito das liberdades que se observa o comportamento de um político que se encontre no poder, em tal situação é incompreensível que surjam, com mais frequência do que se pode pensar, políticos que utilizam todos os meios ao seu alcance para praticarem o chamado abuso do poder. Ou seja, o utilizarem indevidamente meios que, moral e politicamente não lhes estão atribuídos, como sejam o uso de “mordomias” para si e para familiares e amigos, como é o caso de automóveis, viagens, etc. que só se devem destinar aos inerentes detentores dos cargos e quando se encontram em serviço oficial.
Este desabafo parece não vir a propósito de nada. Para mim, sim. É que, ao ler as notícias de hoje, deparei com fanfarronadas proferidas por um responsável político de uma zona do País, um que, conseguindo sempre obter vantagens nas eleições a que tem de ser sujeito, mesmo assim não perde nunca a ocasião de marcar o seu separatismo ideológico em relação ao todo nacional. E o País assiste ao espectáculo que essa personagem arrogantemente dá, ouve e cala. Parece que tem medo!..

domingo, 25 de julho de 2010

Quando reflicto sobre tudo aquilo que ouvi
ao longo de toda a minha existência,
descubro que foi apenas uma pequena percentagem
que contribuiu para aumentar positivamente os meus conhecimentos.
Não sei se valeu a pena perder tanto tempo para ganhar tão pouco.

A LIÇÃO

Pode-se perder tudo nesta vida
O amor, a saúde, a amizade,
O dinheiro, o trabalho, a guarida,
O norte e até a liberdade

Pode ficar bastante p’lo caminho
Não se conseguir levar nada avante
Perder até sossego do vizinho
Ficar parado, não ir adiante

Tudo isso nos pode acontecer
Nunca ganhar e somente perder
Como se passa com que tem má mão

Mas se assim for pode tirar proveito
E lembrar-se sempre de um conceito
Se perder tudo, não perca a lição

DESENCANTO POR ENQUANTO!


Isto de viver é também um hábito. Com a idade vamo-nos acostumando. Contrariados, muitas vezes, demasiadas, mas suportando o que o dia-a-dia nos reserva. Mas a esperança em alguma coisa de favorável, que valha a pena, a ânsia de que certos desejos se realizem, uma réstia de confiança em nós próprios, uma certa dose de optimismo dentro das dúvidas que sempre nos acompanham, tudo isso resiste à tentação de desistir, de não lutar pela mudança e o conformismo com o que temos e o aceitar-se que não vale a pena qualquer tentativa de contrariar o que se aceita resignadamente por ter sido marcado pelo destino, tudo isso é a sombra que nos faz companhia até ao resto da vida.
Porém, e felizmente, não será este o comportamento de todo o habitante do Globo. Há os que lutam, os que se arreganham, aqueles que teimam em não aceitar e também não desistem. Mantêm as paixões. Igualmente são os que se confrontam com mais desilusões, os que sofrem as consequências da sua rebeldia. Os que nunca se habituam ao que lhes calhou na rifa.
Os grandes gestos, as espectaculares descobertas, as obras de nomeada, todos os actos que ficam e ficaram marcadas historicamente resultam, quase sempre, de atitudes saídas da mediania, de passos dados fora dos hábitos. Foram exactamente aqueles que não se conformaram que apresentaram resultados. E, algumas vezes que isso sucedeu no passado, foi paga com a vida a ousadia de terem saltado da carruagem do tido como correcto.
De entre os que não se aclimatam ao hábito de viver acomodados aos contornos do comportamento tido como recomendável, há os que dão nas vistas, que se movimentam, que mostram o seu desconforto, que atiram abertamente ao mundo as culpas de os não deixarem dar mostras do que entendem ser uma revolução para melhor do que é seguido obedientemente, e esses, ou acabam por ser ouvidos ou são escorraçados do meio em que se situam. E há os outros, os que não se dispõem a lutar na praça pública, os que não conseguem ter voz bastante para serem ouvidos, os que consideram que o ambiente que os rodeia não merece o esforço de tentar convencer e são esses, os que, em muitas ocasiões, só são descobertos muito mais tarde, geralmente depois do seu passamento, e nunca chegam a ver compensado o esforço que vão dispersando pela vida fora.
Os exemplos dos dois casos não são assim tão raros. E a verdade é que, por esse mundo além, sabe-se lá quantos génios se terão perdido, terão passado despercebidos, terão percorrido a vida sem o menor louvor ou reconhecimento.
No fundo, o Homem tem de ser, acima de tudo, atrevido. O seu valor conta muito, como é óbvio. Mas é a sua ânsia de saliência, a força dos seus cotovelos para afastar os que lhe fazem sombra, o não ter medo de se expor e a ausência de consciência das suas próprias limitações, tudo isso ajuda a sobressair dos tímidos e a ir ganhando suportes de outros humanos que acabam por ter inveja dessas características de líder… não de mais sabedor.
Na política, sobretudo aí, é que se encontram os que se sobressaem. Não são geralmente os melhores a exercer os seus saberes, mas são os que mais facilmente se adaptam às características da via que escolheram Tiram daí proveito. É uma injustiça, pois é. Mas é assim…

sábado, 24 de julho de 2010

A fila ao lado daquela em que nos encontramos anda sempre mais depressa, mas não adianta mudar porque, logo a seguir, acontece exactamente o contrário.
Chama-se a isso andar desencontrado com a vida.

SE

Sempre que algo queremos
e fazer não conseguimos
o primeiro que dizemos
e nisso muito insistimos
é esse pronome útil
que é sinal de precaução
e não sendo nada fútil
é o que está mais à mão

Se eu puder não faltarei
é a garantia dada
por quem do que diz faz lei
mesmo com boca fechada
se me sair a taluda
farei isso de seguida
e não preciso de ajuda
depois o se que decida

Se eu tivesse saúde
já veriam a genica
e a veloz atitude
do que nunca abdica
e se eu chegar atrasado
façam favor d’esperar
esse se é um malvado
provoca o desesperar

Ah, se isto e aquilo
sempre se a qualquer jeito
ninguém fica tranquilo
considera-o suspeito
é do Homem a desculpa
para não ficar mal visto
e não quer p’ra si a culpa
imitando a Jesus Cristo

DESENCANTO POR ENQUANTO!


É dos comportamentos mais difíceis de manter no dia-a-dia do ser humano. A compreensão das atitudes dos outros, o respeito pela maneira como cada um reage aos problemas que se lhe apresentam, o tentarmo-nos pôr no lugar dos parceiros para tomarmos consciência do papel que cada um desempenha perante uma situação concreta, essa é a tolerância que, com grande frequência, se constata que falta ao Homem, seja qual for a posição social que ocupe no panorama em que está inserido.
E, sem ser por acaso, quanto mais alta é a craveira em que o Homem se movimenta, mais destacada é a demonstração de intolerância de que dá mostras ao mundo que o rodeia.
Os políticos, por certo nos regimes democráticos – porque nos outros nem será necessário referir – são os que mais se sobressaem na escala da não-aceitação das posições dos outros seus adversários, pois o papel que representam nas sociedades obrigam-nos a contemplar esses como sendo uns sem razão, uns inimigos que é preciso abater. Aí, a tolerância não tem lugar e nem se verifica qualquer esforço em se posicionarem do outro lado da barreira.
No fundo, a luta do Homem por lugares e posições que lhe possibilitam regalias e benesses, essa ambição, sobrenatural quando é desmedida, se entra no campo do “custe o que custar” não permite que seja efectuada uma paragem para reflectir, para serem encontradas formas de entendimento resultantes da compreensão mútua dos seus papeis.
Se a tolerância fizesse parte da relação de atitudes mais usuais, quantas indisposições seriam travadas a meio, quantas zangas não passariam de breves questiúnculas, até quantas guerras sangrentas que ocorreram pelo mundo não teriam ficado em soluções pacíficas por acordos.
A tolerância tem a ver e muito com a prática democrática. O não ter certezas absolutas, o procurar-se encontrar razões aceitáveis do lado a que nos opomos, o ser-se suficientemente humilde para reconhecer os eventuais enganos em que tenhamos caído, essa atitude de “dar a mão à palmatória” só contribui para que alinhemos na prática de não fazermos finca-pé naquilo que consideramos ser a “verdade absoluta”.
Dito tudo isto, vem-me à ideia um desabafo que alguém me largou uma vez, quando se falou acerca de outro que não tinha tido um comportamento muito recomendável. E, em forma de arrependimento, deixou registada esta frase de que não me esqueci durante largo tempo: “Pois é, eu fui tolerante com esse fulano… e bem me lixei!...”