domingo, 25 de julho de 2010

DESENCANTO POR ENQUANTO!


Isto de viver é também um hábito. Com a idade vamo-nos acostumando. Contrariados, muitas vezes, demasiadas, mas suportando o que o dia-a-dia nos reserva. Mas a esperança em alguma coisa de favorável, que valha a pena, a ânsia de que certos desejos se realizem, uma réstia de confiança em nós próprios, uma certa dose de optimismo dentro das dúvidas que sempre nos acompanham, tudo isso resiste à tentação de desistir, de não lutar pela mudança e o conformismo com o que temos e o aceitar-se que não vale a pena qualquer tentativa de contrariar o que se aceita resignadamente por ter sido marcado pelo destino, tudo isso é a sombra que nos faz companhia até ao resto da vida.
Porém, e felizmente, não será este o comportamento de todo o habitante do Globo. Há os que lutam, os que se arreganham, aqueles que teimam em não aceitar e também não desistem. Mantêm as paixões. Igualmente são os que se confrontam com mais desilusões, os que sofrem as consequências da sua rebeldia. Os que nunca se habituam ao que lhes calhou na rifa.
Os grandes gestos, as espectaculares descobertas, as obras de nomeada, todos os actos que ficam e ficaram marcadas historicamente resultam, quase sempre, de atitudes saídas da mediania, de passos dados fora dos hábitos. Foram exactamente aqueles que não se conformaram que apresentaram resultados. E, algumas vezes que isso sucedeu no passado, foi paga com a vida a ousadia de terem saltado da carruagem do tido como correcto.
De entre os que não se aclimatam ao hábito de viver acomodados aos contornos do comportamento tido como recomendável, há os que dão nas vistas, que se movimentam, que mostram o seu desconforto, que atiram abertamente ao mundo as culpas de os não deixarem dar mostras do que entendem ser uma revolução para melhor do que é seguido obedientemente, e esses, ou acabam por ser ouvidos ou são escorraçados do meio em que se situam. E há os outros, os que não se dispõem a lutar na praça pública, os que não conseguem ter voz bastante para serem ouvidos, os que consideram que o ambiente que os rodeia não merece o esforço de tentar convencer e são esses, os que, em muitas ocasiões, só são descobertos muito mais tarde, geralmente depois do seu passamento, e nunca chegam a ver compensado o esforço que vão dispersando pela vida fora.
Os exemplos dos dois casos não são assim tão raros. E a verdade é que, por esse mundo além, sabe-se lá quantos génios se terão perdido, terão passado despercebidos, terão percorrido a vida sem o menor louvor ou reconhecimento.
No fundo, o Homem tem de ser, acima de tudo, atrevido. O seu valor conta muito, como é óbvio. Mas é a sua ânsia de saliência, a força dos seus cotovelos para afastar os que lhe fazem sombra, o não ter medo de se expor e a ausência de consciência das suas próprias limitações, tudo isso ajuda a sobressair dos tímidos e a ir ganhando suportes de outros humanos que acabam por ter inveja dessas características de líder… não de mais sabedor.
Na política, sobretudo aí, é que se encontram os que se sobressaem. Não são geralmente os melhores a exercer os seus saberes, mas são os que mais facilmente se adaptam às características da via que escolheram Tiram daí proveito. É uma injustiça, pois é. Mas é assim…

sábado, 24 de julho de 2010

A fila ao lado daquela em que nos encontramos anda sempre mais depressa, mas não adianta mudar porque, logo a seguir, acontece exactamente o contrário.
Chama-se a isso andar desencontrado com a vida.

SE

Sempre que algo queremos
e fazer não conseguimos
o primeiro que dizemos
e nisso muito insistimos
é esse pronome útil
que é sinal de precaução
e não sendo nada fútil
é o que está mais à mão

Se eu puder não faltarei
é a garantia dada
por quem do que diz faz lei
mesmo com boca fechada
se me sair a taluda
farei isso de seguida
e não preciso de ajuda
depois o se que decida

Se eu tivesse saúde
já veriam a genica
e a veloz atitude
do que nunca abdica
e se eu chegar atrasado
façam favor d’esperar
esse se é um malvado
provoca o desesperar

Ah, se isto e aquilo
sempre se a qualquer jeito
ninguém fica tranquilo
considera-o suspeito
é do Homem a desculpa
para não ficar mal visto
e não quer p’ra si a culpa
imitando a Jesus Cristo

DESENCANTO POR ENQUANTO!


É dos comportamentos mais difíceis de manter no dia-a-dia do ser humano. A compreensão das atitudes dos outros, o respeito pela maneira como cada um reage aos problemas que se lhe apresentam, o tentarmo-nos pôr no lugar dos parceiros para tomarmos consciência do papel que cada um desempenha perante uma situação concreta, essa é a tolerância que, com grande frequência, se constata que falta ao Homem, seja qual for a posição social que ocupe no panorama em que está inserido.
E, sem ser por acaso, quanto mais alta é a craveira em que o Homem se movimenta, mais destacada é a demonstração de intolerância de que dá mostras ao mundo que o rodeia.
Os políticos, por certo nos regimes democráticos – porque nos outros nem será necessário referir – são os que mais se sobressaem na escala da não-aceitação das posições dos outros seus adversários, pois o papel que representam nas sociedades obrigam-nos a contemplar esses como sendo uns sem razão, uns inimigos que é preciso abater. Aí, a tolerância não tem lugar e nem se verifica qualquer esforço em se posicionarem do outro lado da barreira.
No fundo, a luta do Homem por lugares e posições que lhe possibilitam regalias e benesses, essa ambição, sobrenatural quando é desmedida, se entra no campo do “custe o que custar” não permite que seja efectuada uma paragem para reflectir, para serem encontradas formas de entendimento resultantes da compreensão mútua dos seus papeis.
Se a tolerância fizesse parte da relação de atitudes mais usuais, quantas indisposições seriam travadas a meio, quantas zangas não passariam de breves questiúnculas, até quantas guerras sangrentas que ocorreram pelo mundo não teriam ficado em soluções pacíficas por acordos.
A tolerância tem a ver e muito com a prática democrática. O não ter certezas absolutas, o procurar-se encontrar razões aceitáveis do lado a que nos opomos, o ser-se suficientemente humilde para reconhecer os eventuais enganos em que tenhamos caído, essa atitude de “dar a mão à palmatória” só contribui para que alinhemos na prática de não fazermos finca-pé naquilo que consideramos ser a “verdade absoluta”.
Dito tudo isto, vem-me à ideia um desabafo que alguém me largou uma vez, quando se falou acerca de outro que não tinha tido um comportamento muito recomendável. E, em forma de arrependimento, deixou registada esta frase de que não me esqueci durante largo tempo: “Pois é, eu fui tolerante com esse fulano… e bem me lixei!...”



sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ter um sonho e caminhar pela vida tentando transformá-lo em realidade é, só por si, uma justificação para se existir
Ao menos que esse sonho não se desfaça antes de chegarmos ao fim do corredor do nosso percurso.

A HUMILDADE

Reconhecer o que somos
não tanto como julgamos
hoje tal qual como fomos
é sinal de que estamos
conscientes da verdade
sem pensar em exageros
aceitar realidade
não entrando em desesperos
isso é a humildade
que só permite o pensar
que é sempre a igualdade
a abrir portas p’r amar

Dos outros não sermos mais
é dos cidadãos dever
se somos todos iguais
em vida e até morrer
só a sorte e circunstâncias
permitem nossos caminhos
não há lugar p’rarrogâncias
onde só cabem carinhos
ignorância aceitar
de que os outros saber menos
é humildade abraçar
à vaidade só acenos

Se eu ser humilde propago
gritando aos quatro ventos
a própria humildade estrago
entrando nos fingimentos
para se ser bem sincero
tenho qu’acreditar bem fundo
sem cair no exagero
de não haver neste mundo
quem seja senhor total
da ciência e do poder
e que atinja o ideal
em tudo que é o saber

DESENCANTO POR ENQUANTO!


Levantei-me hoje com a disposição de encarar o mundo com pleno optimismo. Desejo ver tudo cor-de-rosa. E até o fala-barato do café, que diz coisas por tudo e por nada, sempre em voz gritante que amachuca os ouvidos de quem está calmamente a fazer as suas palavras cruzadas, até essa criatura me merece simpatia.
Tenho de ir ver o resultado do totoloto e, antes de me dirigir à tabacaria onde a máquina mostra o veredicto, já estou com fé de que vai ser esta semana que vou ser compensado do investimento semanal que faço desde há demasiado tempo. A empregada, simpática, que me atende, também ela tem esperança de que seja bafejado pelo prémio, porque conta com uma ajuda para mudar o carro velho que tem. E eu alimento esse desejo.
Enquanto, pois, vou mantendo este optimismo em relação à vida, procuro conservá-lo o mais que posso. Dou o benefício da dúvida aos governantes, sou compreensivo com as oposições políticas que barafustam, tantas vezes com razão, aceito que não se consiga equiparar o nosso País ao que se passa fora de portas, mas dentro do mesmo grupo europeu, quando, muitas vezes, bastava saber imitar o que já foi experimentado e resultou e não era necessário querer ser original e fazendo asneira, como desculpo todos os meus compatriotas que não entenderam ainda que um País é o retrato dos seus habitantes e que depende sobretudo da forma como se comportam para que se consiga sair do deixa andar, do conformismo, da pouca e má produtividade.
Este optimismo com que acordei hoje, por mais que eu não queira, não vai durar muito. Acabarei por ser chamado à realidade e o despertar é muito mais doloroso do que o nunca ter saído da tristeza que se sente com a realidade. Que se vive. Mas, enquanto dura…vida doçura.




quinta-feira, 22 de julho de 2010

É mais útil dizer tudo o que se pensa
ou será preferível pensar tudo antes de falar, mesmo correndo o risco de, por esse facto, acabar por fica calado?

SÓ EU

Cada um tem o seu eu
aquele que é só seu
claro que tenho o meu
fui vendo como cresceu
sempre que olhava p’ro céu
me lembrava de Orpheu
sentindo-me como réu
qu’ainda não respondeu

Eu que sou um plebeu
e nem isso mereceu
não irei p’ra mausoléu
quando disserem: morreu!
Aquele que se esqueceu
do que lhe aconteceu
na vida que percorreu
nem mesmo ensandeceu

Até teve o que mereceu
com isso reacendeu
a chama a quem jazeu
o folgo que antes perdeu
e a mim me convenceu
tudo que me sucedeu
e que fez com que o meu eu
deixasse de ser só meu

E foi o que me valeu
a vida m’entristeceu
o espectáculo que me deu
em que não me protegeu
pois nunca reconheceu
o que de mim discorreu
ou seja de nada valeu
tudo o que de mim nasceu

Por isso s’emurcheceu
a veia que em mim viveu

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Oiço frequentemente e leio também muitas vezes este tema. O do esvaziamento de muitas aldeias do interior do nosso País. A juventude foi saindo para outros destinos mais dinâmicos, para o litoral português, para cidades e até para o estrangeiro. Ficaram somente os velhos. Porque esses, ainda que sem perspectivas e ao mesmo tempo não tendo para onde ir nem prazer em deixar os locais onde nasceram, viveram e ainda vivem há um ror de anos, preferem o desconforto ao modernismo comodista. Já não têm idade para aventuras.
Viver com o cheiro da vaca e do burro que sai do andar térreo, ir às folhas para alimentar os coelhos, espalhar milho pelo galo e pelas poedeiras, acender à noite o candeeiro de petróleo – porque a electricidade, largamente prometida, pelos políticos, ainda não chegou -, o recolher com as galinhas e usar o colchão ali pertinho da fornalha, isso depois de ter sorvido o caldo das couves que foi preparado para todo o dia, atravessar assim uma existência é uma rotina de dezenas de anos que os novos não entendem nem aceitam já o que para os idosos constitui a felicidade do sossego.
Então os computadores? As novelas da televisão? Os filmes? Os telemóveis e a sua dependência? As discotecas? Quase tudo isso não faz parte da existência nas profundezas do interior do País. Se bem que haja forma de substituir algumas facilidades que a modernidade permite, o isolamento deixa os jovens noutro mundo. Mesmo os que ainda conseguiram apanhar as escolas primárias em funcionamento, desaparecidas muitas delas hoje por insuficiência de alunos, logo que lhes foi posta a questão de seguir para o ensino secundário, aí não existia outra forma que não fosse o partir para a cidade, a quilómetros de distância, onde essa via de aprendizagem existisse. No caso seguinte, o da possibilidade de prosseguir o estudo num curso superior, então aí o afastamento era o caminho certo. Era e foi. Ficou instituída a desertificação.
Mas houve outras razões para deixar para trás a terra dos avós. A emigração, que teve início em épocas bem difíceis, que era “a salto” que se chegava à Europa, ou através de carta de chamada de parentes que já se encontravam nas Américas. Para a África de língua portuguesa era mais fácil obter autorização de partida.
Essas saídas do País, primeiro o homem e depois a cara-metade, que os filhos, quando já os havia, seguiam posteriormente, tais deslocações eram feitas na perseguição de sobrevivências melhores do que as tidas na própria Pátria. Os idosos, cheios de saudades, permaneciam onde sempre tinham estado. Cuidando das terras de que ficavam ainda donos, dos bichos e das casas de pedra que, por serem disso mesmo, resistiam ao passar dos anos.
De vez em quando, já estabelecidos lá fora, numas férias lá vinham todos ver como estavam as coisas. E as divisas, que iam enviando regularmente, acumulavam-se para construir casas novas, normalmente num estilo “emigrantino”.
Só que os filhos, especialmente os nascidos já lá fora, bastante integrados nas colónias dos países de acolhimento, falando com os colegas as línguas adoptivas, embora mantendo o idioma pátrio no relacionamento com os pais, foram espacejando, cada vez mais, as visitas ao torrão de origem familiar. Era o desenraizamento da nascença e, com isso, o esvaziamento do interior lusitano.
Como evitar tamanho emagrecimento populacional de um País? Pelo contrário, o que se encontra a rebentar pelas costuras de população, de viaturas, de competição de todos os tipos, são o litoral e as cidades portuguesas, pois são locais que sofrem do excesso. O resto, o que é constituído pelas belas e características terras do interior, quase sempre com deficientes meios de comunicação, essa mancha cada vez mais profusa de povoações, vai sofrendo as agruras do abandono..
Que fazer? É impensável obrigar a deslocar gente de um lugar para outro, assim sem mais. Não se criando condições de progresso que altere o estilo de vida para muito melhor, sem proporcionar trabalho e alojamento que sejam apetecíveis, ninguém está disposto a meter-se em aventuras. Para o estrangeiro, isso é uma coisa tentadora, por muito arriscado que se torne partir para o desconhecido. Mas, cá dentro, do litoral para o interior, das cidades para os campos, sem ser em passeio, isso será pedir muito. Ninguém está disposto.
É verdade que já se operou a experiência de instigar a vinda de grupos de brasileiros para ocuparem uma povoação esvaziada de portugueses que lá viviam antes. Tratou-se de mão-de-obra que era necessária naquele local, muito embora a qualificação das famílias que chegaram fosse superior à dos portugueses que lá viviam antes. Não se apurou ainda se esta experiência poderá proliferar. Seja como for, o que não se pode esconder é este tipo de casais emigrantes deseja, tal como lhes sucede nos seus países de origem, aumentar as suas famílias, o que quer dizer que, sendo a Europa um Continente apetecido, irá suceder que, dentro de alguns anos, de Oeste a Leste europeu se dará um câmbio de grande dimensão de raças, culturas, religiões e, o que não é importante, de cores de pele.
Quem cá estiver terá de enfrentar tamanho problema. Eu já não serei certamente.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Chamar a atenção para situações que dão mostras de estar mal resolvidas, não se deve considerar crítica maldosa.
Antes podem contribuir para encontrar melhores soluções:
Felizes os que aceitam reparos construtivos. E os agradecem, seguindo-os.
Pobres, os que só apreciam as louvaminhas, sobretudo as que são facilitadas com intenções secundárias.
Louvores que esperam contrapartidas.

HÁBITOS

O hábito é fazer sempre igual
repetir o conhecido
o homem, tal ser mortal
perde por vezes sentido
e o não ter que inventar
mudar de jeito e de forma
até dá para descansar
e com isso se conforma

O hábito faz o monge
diz o popular ditado
que já vem de muito longe
o dia em que foi criado
p’ra quê hábito mudar
se aquilo que vestir
é que parece indicar
a forma de seduzir

Há hábitos que são bons
e outros que são bem maus
tal e qual como os sons
que têm diferentes graus
eu costumo fazer isto
a isso não me acostumo
actuar como previsto
é um vício como o fumo

Assim é que me dá jeito
não me obriguem a mudar
não pretendo ser perfeito
só para a’lguém agradar
o seguir por um caminho
que eu há muito conheço
como cantar um fadinho
e conseguir o sucesso

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Há períodos em que pensamos mais nas doenças. Porque no sentimos mais debilitados. Porque a angústia se revela mais profundamente no nosso interior. Também será porque tomamos conhecimento de que alguém conhecido entrou em crise de saúde. Julgo que grande parte dos seres humanos passa por estes períodos, ainda que alguns tomem mais consciência dessa situação do que outros.
Eu, nesta altura, encontro-me num desses momentos. Sinto-me debilitado e não aponto concretamente um mal. Se vou consultar a minha querida dra. Arlete não sei do que me posso queixar. Apetecia-me ser rico e dar entrada num desses hospitais para abastados, onde, à entrada, se deve pedir para verem tudo à lupa. Passar lá uns dias, fazer análises, investigações radiológicas de todas as espécies, deixar que os médicos de várias especialidades e com todos os avanços tecnológicos mais modernos bisbilhotem cada cantinho do meu corpo.
Caso concluíssem que não tinham encontrado nada errado no meu físico, poder eu então concluir com toda a segurança que, afinal, a doença estava no meu espírito. E, nesse caso, entregar-me completamente a uma qualquer crença, religiosa ou nem por isso, para tentar distrair as maleitas que me perseguem.
Se eu vivesse angustiado pelo pavor da morte, ainda se compreenderia que, por sugestão, eu andasse atormentado por fraquezas físicas, mas não, atingida que já está esta minha idade, estou convencido de que já preenchi o meu papel no teatro da vida e que o acto que se segue tem de ocupar outros actores. Estou completamente preparado para a cremação que me espera. Estou consciente de que as minhas cinzas caberão todas dentro de um frasco de compota. E que é isso que eu, afinal, valho…
Porque, então, ter de carregar este pesado fardo do mal-estar sem uma explicação clínica?
Para tentar consolar-me sem resposta a esta questão, agarro-me à esperança de que, uma manhã, acordarei já morto. Fica dito.



terça-feira, 20 de julho de 2010

Se eu olho e não vejo, se eu oiço e não entendo, se toco e não apalpo, o que é que ando cá a fazer neste mundo?

A CONSCIÊNCIA

Será que isso é vulgar
que obriga a grande ciência
para neste mundo andar
pôr de parte a consciência?
Não tê-la sempre presente
até sem mostrar p’ra fora
é não querer ser prudente
falhando na própria hora

Ser consciente dos actos
antes de os praticar
evitando espalhafatos
que possam embaraçar
esse é princípio ideal
que muito ajuda a viver
e evita muito mal
impedindo de sofrer

Mas então a consciência
é coisa que se explique?
É mais do que uma tendência
mas de que não se abdique
é a forma de pensar
ver a fundo consequência
e não tem de hesitar
se é boa a consciência

De consciência limpa andar
não ter de se arrepender
é bom caminho traçar
sem ter nada que temer
dizendo sempre as verdades
próximo não enganar
só provoca amizades
andar perto do amar

Dizer mal sem ter razão
acusar sem prova ter
é desdenhar o perdão
que se merece ao morrer
tudo está nas nossas mãos
na nossa própria inocência
querermo-nos como irmãos
só com boa consciência

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Mesmo que se teime no princípio de que o Homem é imutável, que se mantém igual desde que tem o carácter formado e vai percorrendo toda a sua existência até ao último dia sem alterações desse mesmo carácter, essa afirmação não tem base sustentável. No que diz respeito à generalidade dos seres humanos são as alegrias e as tristezas que provocam mutações na sua forma de ser original. Umas e outras actuam como bálsamo ou veneno.
Ninguém se cria a si próprio. Todos aparecemos feitos. Por dentro e por fora. O interesse pelo saber e o desenvolvimento da cultura cria, na verdade, camadas de tecido que se cola à forma original. O que está por baixo vem do começo, embora possa ser disfarçado, com o andar dos anos, devido às carapaças que se vão sobrepondo.
Ora, são essas roupagens suplementares que vão mudando as formas de ser do Homem e tais acréscimos tanto podem resultar do que a vida ensina como do que se obtém com a leitura e também em grande escala, resulta de um factor que não obedece à vontade própria: a sorte.
O sair a lotaria, por exemplo, a quem atravessa a vida lutando com dificuldades tem, forçosamente, que provocar alguma alteração comportamental no indivíduo bafejado por essa dita. Não tem de ser sempre para uma melhoria do chamado feitio. Pode até ocorrer o contrário mas, seja como for, o que é certo é que se verifica uma mudança. Já a inversa, o perder uma fortuna repentinamente, passando a ter fome quem antes vivia na abastança, tal situação ocasiona, de uma forma, maior aceitação por parte dos atingidos. Aí, não foi a sorte que interferiu, foi a falta dela. Ou de outra coisa, como aquela que se chama de má cabeça.
Seja como for, o ser humano vai-se modificando com o andar dos anos. Vai refinando os maus sentimentos existentes de origem, aguça a malandragem que transporta no seu íntimo, fica pior do que era. Raramente se mantém igual a antes. Mas o contrário, o passar de ruim a boa pessoa, como se chama vulgarmente, ser tratável quem anteriormente ninguém suportava, perder o azedume habitual de outros momentos, diminuir o envinagramento, tudo isso não é tão vulgar. Mas também acontece.
Há excepções? Pois há. Qualquer regra não tem obrigatoriamente que ser cumprida pela generalidade das pessoas. O disfarce é uma grande defesa do Homem.
Para tentar mostrar aquilo que não é. Para não se desnudar perante o mundo. São as subtilezas do ser humano.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ter um sonho e caminhar pela vida tentando transformá-lo em realidade é, só por si, uma justificação para se existir
Ao menos que esse sonho não se desfaça antes de chegarmos ao fim do corredor do nosso percurso.

MENTIR

Mentir
´e um acto necessário
para atrair
convencer adversário
o mentiroso
é fácil de detectar
com o seu falar meloso
está pronto para enganar

Mentir
não é tão difícil assim
repetir
mesmo tim-tim-por-tim-tim
algo que a outro se ouvir
e sem saber se é verdade
com outras cores colorir
e introduzindo maldade

Mentir
é para alguns um prazer
coisa gira
mesmo fazendo sofrer
começa por um acaso
e se pega continua
pode ter um curto prazo
não passar da sua rua
lá vai abrindo caminho
e com tal expansão
causa certo burburinho

O pior é se a mentira
se pega bem à memória
e mesmo que alguém fira
atravessa a História
e muitos anos mais tarde
como facto consumado
faz as vezes da verdade
e ninguém a põe de lado

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Todos os anos sucede o mesmo. Não constitui qualquer surpresa constatar que são muitos os hectares de propriedades que ardem por esse País fora, restando apenas apurar os números para saber se a época que corre é pior do que a que passou. E contentamo-nos quando se verifica alguma baixa de valores consumidos, registando essa melhoria, por pequena que seja, como demonstração de que os incendiários foram mais benevolentes agora do que no mesmo período do ano anterior.
Também, perante iguais catástrofes que ocorrem noutros países, damo-nos por satisfeitos sempre que os elementos apurados se apresentam por lá mais drásticos do que aqueles que são aqui anunciados. E respiramos de satisfação.
No entanto, vale a pena pararmos um pouco para pensar nas características daqueles que são os causadores criminosos dos fogos que provocam as destruições de valores, campesinos ou até de residências, que se repetem de ano para ano. Quem e como serão essas criaturas? São gente nova, diz-se, alguns são até apanhados mas, de uma forma geral, não são divulgados os perfis de tais incendiários. E continua-se sem ter uma ideia do tipo de pessoas que se dedica a tamanha malfeitoria.
Já tenho procurado colocar-me na mente de tais arrepiantes criaturas, tentando apanhar as sensações do prazer que poderão sentir no momento em que se encontram a provocar o foco inicial do incêndio que se há-de estender pelo campo fora. Terá de ser forçosamente de noite, para não ser notada a presença, logo em plena escuridão. E, em tais circunstâncias, iria assistir ao alargamento rápido das labaredas que tinham nascido de um simples fósforo que aterá as folhagens secas. E, logo de seguida, a imaginação mandar-me-ia abandonar o local, indo-me colocar numa zona de observação para satisfazer a contemplação da obra executada. Mas sempre cuidando para não ser visto. Sendo possível, faço por repetir a operação a certa distância e em que a linha da zona a incendiar seja contínua, por forma a criar uma fronteira de fogo.
Que prazer que isso me daria! E, na manhã seguinte iria assistir à azáfama de centenas de bombeiros, às aflições e choros de habitantes a verem as suas propriedades já a arder ou em perigo de serem atingidas e despejando baldes de água como se isso servisse para resolver o problema, ao mesmo tempo que o ruído das sirenes e até a minha própria participação na ajuda da tentativa de extinção, tudo isso serviria para aumentar o cenário do grande e impressionante espectáculo de que eu tinha sido o produtor.
Mas, saindo de cena, deixando de me pertencer o papel de protagonista, coloco-me agora no lugar de puro espectador, tentando interpretar os sentimentos dos actores, sobretudo daqueles cujos papeis são os de maior relevo, como sejam os incendiários propriamente ditos. E, como admito que se tratam de jovens que ainda se situam na fase experimental de vida (porque os casos de vinganças e confrontos pertencem aos mais velhos executarem), imagino que é o prazer dessa experiência que leva a praticar tais actos.
E é nessas circunstâncias que encontro mais facilidade em expor o motivo do prazer de assistir ao incêndio provocado. E mesmo que me custe chegar a tal extremo, sou levado a transpor o acto do incendiário ao de certa e excessiva juventude que encontra desmedido prazer em, através dos “sprays” de tintas de diversas cores, cobrir as superfícies, sejam elas quais forem, dar azo ao seu espírito destrutivo. Tanto faz que sejam monumentos valiosos, de muita antiguidade, como placas indicadoras de informações preciosas aos cidadãos, de paredes, portas, traseiras de autocarros, tudo que receba essa tinta horrorosa para dar largas ao acto de selvajaria que existe no íntimo de bastantes desses jovens.
Por muito que possa escandalizar os que cheguem a ler estas linhas, eu não consigo distanciar assim tanto a horrorosa atitude dos incendiários, dos destruidores de campos, florestas, arborizações, celeiros, currais cheios de animais, as residências dos que habitam por perto, com as dos que, nas cidades, sujam tudo, destroem coisas bonitas que os homens fazem para outros se deleitarem a contemplar ou para sua informação, só pelo simples prazer de encher de tinta e de escrevinhar frases sem sentido, ilegíveis, afrontosas quase sempre, inestéticas. Ambas as atitudes correspondem a um gozo lúgubre, a uma contribuição para um dia de amanhã pior do que o de hoje.
Cá por mim, essa camada de cidadãos, embora ainda não seniores, que nos torna mais negro o espectáculo da vida, não faz grande diferença uma da outra. Uns destroem, com prazer, o que a Natureza nos põe à disposição, nos campos, nas montanhas, nas aldeias. Os outros, também para seu gozo pessoal, conspurcam os locais mais habitados, nas cidades, nos sítios onde o Homem já empregou a sua arte e o seu saber. Estragam o ambiente.
Causam-me fúrias os dois.




domingo, 18 de julho de 2010


Crescer sem voltar a aprender,
sem recordar o aprendido e sem se esforçar para não esquecer é perder todo o tempo de que dispuser e
sem aproveitar o essencial da vida

POETAS PERDIDOS

Poetas desconhecidos
quantos existem no mundo
com tantos génios perdidos
que nunca saem do fundo
poetizam para si
imaginam, logo esquecem
por aqui e por ali
porque aos outros não convencem
ficam sós
tais eles Jós

Normalmente são modestos
não crêem no que lhes sai
será por serem honestos
ou porque a Musa os atrai?
Se também não há destino
a dar ao que sai da alma
só o que é mais cretino
é que lá perde a calma
escrever e guardar
também é amar

Usar costas de papel
por outros antes escrito
pode até saber a mel
a quem só usa palito
mas a penúria obriga
poeta rico não há
qu’isso de fazer cantiga
não dá dinheiro por cá
rime que rime
tanto deprime

A esperança dos poetas
Que nos cantos lá produzem
é que as obras secretas
só muito tarde é que luzem
quando os autores já se foram
e alguém vasculha os cestos
que noutro mundo onde moram
ninguém liga aos contextos
depois da ida
outra vida

Mas também há os que em vida
lá conseguem dar nas vistas
alcançam boa acolhida
seguiram as certas pistas
o normal não é assim
os génios, esses coitados
se quiserem olhem p’ra mim
verão como não dão brado
sempre mudo
eu me ajudo




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Muitas vezes me entrego à tortura de fazer o meu acto de contrição e sempre com o desejo de me conhecer profundamente. E, normalmente, acabo por concluir que é infrutífero tal esforço O arrependimento é algo que sucede só depois. Após
se ter tido um comportamento é que pode ser feita a auto-crítica. Porque a satisfação de ter procedido bem, essa geralmente não se verifica. Agora, o reconhecer-se que não se actuou da maneira mais conveniente, o desejar fazer uma marcha-atrás para emendar o que não saiu perfeito, esse acto de contrição faz vir ao de cima a justeza dos procedimentos. Só se arrepende quem tem consciência. Ou julga tê-la.. Só não aceitam os erros aqueles que se julgam sempre com razão. Dizer alguma coisa, ainda que seja uma verdade, sem tirar e provocar alguma vantagem em expressar o que vai dentro, sem remediar qualquer situação, em vez de tomar tal atitude será preferível não deixar sair da boca a primeira sentença que surge. Também emendar a mão depois do mal feito, normalmente já pouco serve para retirar os efeitos produzidos.
Termos a pretensão de que conhecemos o outro com quem nos damos, que a sua maneira de ser não constitui segredo para nós, é um equívoco que, muitas vezes, nos sai caro. Por mais íntimo que seja o próximo, com frequência somos surpreendidos por uma reacção inesperada, por uma atitude que nos deixa embasbacados. Sem palavras, como se diz. Isso, no que diz respeito aos outros. Mais afastados ou muito chegados. E é graças a essa falta de conhecimento completo que se pode manter um relacionamento mais ou menos estável. A ignorância do íntimo do outro mortal, muito embora possamos ter a pretensão de o compreender, é essa ignorância que suporta a convivência. E vice-versa.
O Homem, desde que começou a pôr em uso a sua própria vontade, coloca, mesmo sem dar por isso, a máscara com que atravessa a existência. Nalguns é mais perceptível que noutros, nos que se enganam a eles próprios. Ninguém gosta de ser um livro aberto. Até, como auto-defesa, se traja do que não é. Quantas vezes, mesmo inconscientemente, a máscara está lá e o próprio não dá por isso.
Os simples, os raros que não se escondem por detrás de uma aparência fabricada, não são providos de auto-protecção. O camaleão defende-se porque se confunde com o ambiente que o envolve. Parecer uma coisa e ser outra, por muito que espante quando se desnuda, tem a vantagem de manter viva uma relação que, de outra maneira, era impossível sustentar.
No que diz respeito ao conhecimento de nós próprios, acontece-me o que creio que sucederá a quase todos os mortais: convencemo-nos que sabemos o que somos, que não temos segredos quanto às nossas reacções, aos nossos comportamentos perante as diversas surpresas que o dia-a-dia nos reserva. Não há maior equívoco! Nós mesmos nos ignoramos com frequência. E, de certa maneira, ainda bem. Provavelmente, se não existissem dúvidas sobre aquilo que, na realidade, somos, teríamos de ser os primeiros a não nos apreciarmos.
Os vaidosos, esses convencem-se que se conhecem plenamente. E têm-se na conta de possuir, em elevado grau, todas as qualidades humanas. Fabricam a sua felicidade. Mas, talvez um dia caiam em si e descubram que estavam enganados. Que, afinal, são iguais aos outros, os vulgares. E é um desconsolo!
Vendo bem as coisas, a ignorância do que realmente somos e do que o muito próximo é, constitui a melhor forma de ir mantendo uma convivência saudável. Tão duradoira quanto possível.

sábado, 17 de julho de 2010

Os humores, provenientes das circunstâncias que se vivem, vão alterando os comportamentos.
É também o que se passa comigo.
Vou variando e ainda bem.

ADIAR

Tem razão quem não tem pressa
e para depois se deixa
sem medo de que se esqueça
nem de ouvir qualquer queixa
confiando na cabeça

P’ra quê andar a correr
afogueado labor
esteja onde estiver
algo se faz com rigor
tudo pode dar prazer

O cansaço não é prova
de que o labor sai perfeito
e se é matéria nova
pode sair sem defeito
seja prosa ou seja trova

Esperar com paciência
dar tempo ao tempo, então
é apostar na cadência
à corrida dizer não
e mostrar a sã prudência

O adiar é bem cómodo
o depois logo se vê
é um dito popular
em que muita gente crê
sem sair do patamar

Assim sem fazer alarde
Sem gritos de ter razão
Muito menos ser cobarde
Pensar com os pés no chão
Que amanhã pode ser tarde

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Muitas vezes me entrego à tortura de fazer o meu acto de contrição e sempre com o desejo de me conhecer profundamente. E, normalmente, acabo por concluir que é infrutífero tal esforço O arrependimento é algo que sucede só depois. Após
se ter tido um comportamento é que pode ser feita a auto-crítica. Porque a satisfação de ter procedido bem, essa geralmente não se verifica. Agora, o reconhecer-se que não se actuou da maneira mais conveniente, o desejar fazer uma marcha-atrás para emendar o que não saiu perfeito, esse acto de contrição faz vir ao de cima a justeza dos procedimentos. Só se arrepende quem tem consciência. Ou julga tê-la.. Só não aceitam os erros aqueles que se julgam sempre com razão. Dizer alguma coisa, ainda que seja uma verdade, sem tirar e provocar alguma vantagem em expressar o que vai dentro, sem remediar qualquer situação, em vez de tomar tal atitude será preferível não deixar sair da boca a primeira sentença que surge. Também emendar a mão depois do mal feito, normalmente já pouco serve para retirar os efeitos produzidos.
Termos a pretensão de que conhecemos o outro com quem nos damos, que a sua maneira de ser não constitui segredo para nós, é um equívoco que, muitas vezes, nos sai caro. Por mais íntimo que seja o próximo, com frequência somos surpreendidos por uma reacção inesperada, por uma atitude que nos deixa embasbacados. Sem palavras, como se diz. Isso, no que diz respeito aos outros. Mais afastados ou muito chegados. E é graças a essa falta de conhecimento completo que se pode manter um relacionamento mais ou menos estável. A ignorância do íntimo do outro mortal, muito embora possamos ter a pretensão de o compreender, é essa ignorância que suporta a convivência. E vice-versa.
O Homem, desde que começou a pôr em uso a sua própria vontade, coloca, mesmo sem dar por isso, a máscara com que atravessa a existência. Nalguns é mais perceptível que noutros, nos que se enganam a eles próprios. Ninguém gosta de ser um livro aberto. Até, como auto-defesa, se traja do que não é. Quantas vezes, mesmo inconscientemente, a máscara está lá e o próprio não dá por isso.
Os simples, os raros que não se escondem por detrás de uma aparência fabricada, não são providos de auto-protecção. O camaleão defende-se porque se confunde com o ambiente que o envolve. Parecer uma coisa e ser outra, por muito que espante quando se desnuda, tem a vantagem de manter viva uma relação que, de outra maneira, era impossível sustentar.
No que diz respeito ao conhecimento de nós próprios, acontece-me o que creio que sucederá a quase todos os mortais: convencemo-nos que sabemos o que somos, que não temos segredos quanto às nossas reacções, aos nossos comportamentos perante as diversas surpresas que o dia-a-dia nos reserva. Não há maior equívoco! Nós mesmos nos ignoramos com frequência. E, de certa maneira, ainda bem. Provavelmente, se não existissem dúvidas sobre aquilo que, na realidade, somos, teríamos de ser os primeiros a não nos apreciarmos.
Os vaidosos, esses convencem-se que se conhecem plenamente. E têm-se na conta de possuir, em elevado grau, todas as qualidades humanas. Fabricam a sua felicidade. Mas, talvez um dia caiam em si e descubram que estavam enganados. Que, afinal, são iguais aos outros, os vulgares. E é um desconsolo!
Vendo bem as coisas, a ignorância do que realmente somos e do que o muito próximo é, constitui a melhor forma de ir mantendo uma convivência saudável. Tão duradoira quanto possível.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

DESENCANTO POR ENQUANTO!...



Por muito que se tenha vivido e por bastante menos que nos falte para concluir o capítulo da vida, sempre se mantém a perspectiva do amanhã. Seja para dar seguimento a uma tarefa inconcluida, seja por haver esperança de que depois é mais oportuno terminá-la. O agora, nem sempre apetece. O já, é normalmente incómodo. Fazer de seguida cansa, muito embora possa resolver logo a questão pendente. Encarar na altura um problema pode não dar ocasião a meditar com tranquilidade. Sobre ele e quanto à melhor solução.
O logo se vê é a posição que tomam os que arrastam para depois o encarar com as situações. O “espera aí que depois resolvo”, pode ser uma defesa para as arrelias. Um pé no travão das coisas incómodas, daquelas que, quanto mais tarde melhor, mesmo que não as elimine dá espaço para mudar de rumo.
Essa frase do “há tempo”, faz tranquilizar até os que sabem que o assunto em mãos tem contornos de urgência. Com base na expressão de que o tempo cura tudo, o deixa andar acaba, por vezes, por dar razão a quem receia enfrentar situações complicadas. E a verdade é que, se não é a melhor solução o que o tempo acaba por proporcionar, pelo menos dá mais espaço para acalmar os espíritos daqueles que defrontam um incómodo.
Seja como for, o jogo do empurra, o espera aí um bocadinho, o quanto mais tarde melhor, tudo isso só pode ser considerado como uma manifestação de fraqueza. É deixar para depois o que pode ser feito logo. É manter uma preocupação pendente, é até ter medo do resultado do confronto com o problema.
Estou a escrever este texto e faço-me esquecido de que tenho marcado um encontro com um editor para apreciar os trabalhos que tenho arrecadados numa gaveta. Vou pensar melhor se devo correr esse incómodo. Se estou preparado para uma desilusão. Se não estarei a deitar achas para a fogueira das desilusões, se não poderei atacar a árvore das esperanças que constituem o veio da força para a manutenção das minhas produções.
Não digo nada. Quando arrumar os papéis que tenho sobre a mesa e sair do café logo vejo se os meus passos se encaminham para esse “juiz” da obra dos outros. Ainda não sei se não será mais um “logo veremos”.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A AREIA

A areia que escorre entre os dedos
lembra a vida que foge e não se agarra
é isso bem visível nos meus medos
desses que me perseguem com amarra

Vejo-a cair no fundo do poço
esse poço que é o fim da vida
é tão rápida a queda que não ouço
nem sinto a dor que provoca a partida

Areia fina que já fostes pedra
milhões de anos por ti passaram
apesar disso és algo que medra
voltarás a ser como te encontraram

As avestruzes no teu seio escondem
as cabeças medrosas, indecisas
e perguntam aos grãos que não respondem
pois aí não há soluções precisas

Mas a vida é tal como a areia
ensopada é igual à argamassa
seca, quando o vento a leva à boleia
rodopiando enquanto o tempo passa

Um dia, porém, leva-a o mar
não fica essa areia onde estava
mas outros bagos irão ocupar
tal espaço onde antes morava

A vida é assim: ondas de areia
ora compacta ou de grãos à solta
nada seguro nesta grande aldeia
que é o mundo sempre em revolta







DESENCANTO POR ENQUANTO...


Com frequência arrima-se-me ao pensamento a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: francamente, será que eu gostaria de ter a característica dos fingidores? E, neste particular, sobretudo o de ser capaz de transmitir a ideia de que aquilo que acabou de me ser dito e que não dá sinais de ter o mínimo interesse para sustentar uma conversa, essa palavra ou frase não foi ouvida por mim, dando eu os ares de ser surdo. Serei eu, portanto, capaz de fazer o papel de mouco, quando isso me convém?
Eu, por mim, já dei com pessoas que utilizaram esse truque comigo. Sobretudo quando, fazendo uso da minha condição de ser mais velho e de evidenciar mais saber que o meu interlocutor, pretendendo fazer uma correcção no discurso que estava a ser proferido pelo outro, avancei com uma sentença e deparei, depois disso, com o tal ar de quem não tinha entendido uma palavra que fosse possível extrair da minha fala.
Agora, da minha parte, nunca recorri a essa fuga para não ter de alimentar um diálogo que não merecia o menor segundo de atenção. Sempre caí na tentação de dar réplica, de alimentar a asneirada, de deitar achas para a fogueira do disparate. Replicar, tentar convencer o parceiro de que aquilo que ele acabou de dizer não tem ponta por onde se lhe pegue, esse é o meu hábito. Talvez possa considerar de mau hábito…
Só porque eu tenho mantido a convicção de que o mais natural, o mais lógico e até mesmo o mais humano é fazer frente ao que acaba de ser proferido e tentar ser didáctico, corrigindo, argumentando com lógica, mas não deixando que persista o erro que grassa no outro. Porém, na maioria dos casos, este sinal de boa vontade, este interesse em ajudar não é bem acolhido pela outra parte, criando-se até uma situação de mal-estar e de indignação por parte de quem é corrigido. E o mais sensato nestes casos é deixar passar e não intervir com propósitos de corrector.
No meu caso, porém, tenho grande dificuldade em fazer de fingidor. A minha cara não condiz com o gesto. Pôr o ar de quem é surdo, tendo ouvido perfeitamente o que me foi dito, não é fácil. Não tendo o espírito do enganador, será necessário muito treino e, mesmo assim, não há garantia de sucesso com essa interpretação de palco. Fazer de conta necessita de muito treino, para além da forma de ser própria que alguns cultivam. E quando me atiram com expressões como “espectacular”, por tudo e por nada, e intercalam no meio das frase aquele “digamos” que não vem nada a propósito, nessas ocasiões não há fingimento que resista.
Bem me apetece, por vezes, fazer o tal papel do surdo, de deixar correr o discurso do outro sem a menor intervenção da minha parte, de pôr até um sorriso simpático de quem está a apreciar muito a conversa. Mas sinto que não sou convincente. Fico até com a impressão de que deixo um rasto de falsidade que saberá ainda pior do que a franqueza que pusesse nas minhas observações.
Mas a vida é assim. Ingrata. Fomentadora de enganos e deslealdades. Há, pois, que suportá-la tal como ela se nos apresenta. Se não nos adaptamos às suas circunstâncias e procuramos fazer intervenções correctivas à nossa maneira, o menos que nos pode acontecer é ficarmos isolados do mundo, sendo tidos como seres insociáveis.
Ao fingimento, então!...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

DESEMPREGO

Cada um faz o que pode
o que sabe, o que o deixam
aquilo p’ra que lhe pagam
à espera que se acomode
já que os outros não se queixam
e também não o afagam

Se outra coisa fizesse
se aquilo que faz agora
não fosse do seu agrado
e algo mais merecesse
podia-se ir embora
partindo p’ra outro lado?

Emprego há com fartura
como dantes sucedia
e se podia escolher?
A vida hoje é bem dura
piora dia p’ra dia
o melhor é não mexer

Agora eu faço isto
sem patrão que me ordene
mas também sem ter quem pague
por agora não desisto
sem haver acto solene
oxalá ninguém me esmague

Nesta altura o que é melhor
a quem tem emprego mau
é fazer por conservar
pois será muito pior
escorregar do degrau
ficando a olhar p’ro ar


HAVERÁ TEMPO!...


NESTA ALTURA em que o que anda a interessar os portugueses são os dias de praia, as férias, o não ocupar a cabeça com os problemas que, ainda que sejam cada vez maiores, todos fazem os possíveis para assobiar para o lado e, como toda a gente deve a alguém e alguma coisa, já não constitui preocupação excessiva que também esse assunto nos toque, a impressão que tenho é que cada vez menos pessoas se interessam em ler desgraças e muito menos em blogues que não constituem uma obrigação de serem analisados. Ando há uns dias a avisar que vou dar por finda ~ ou, no mínimo, vou dar uma folga – a este chorrilho de choradeiras. Mas hoje, não me fico pela ignorância dos acontecimentos. Não consigo deixar de me indignar. Por isso, cá vai e em resumo resumido:
- O Governo comprou 922 automóveis novos, tendo abatido 1,772 veículos que não considerou já suficientemente válidos para servir os múltiplos funcionários públicos das diferentes categorias por a maioria deles terem mais de sete anos de uso (imagine-se, o meu tem oito e a maioria dos portugueses desloca-se em carros com 20 e mais anos!), o que correspondeu, neste época de grande crise, a um dispêndio de bastantes milhões de euros. Segundo números prestados pela Parque de Veículos do Estado, em 31 de Dezembro passado o número total de automóveis que ali constavam era de 28.793, o que correspondia a um aumento de 1.222 em relação ao ano anterior.
Quando o Governo decidiu substituir cada três funcionários públicos por um que fosse admitido, o natural seria que procedesse da mesma forma em relação aos veículos de quatro rodas. Mas isso seria pedir demasiado aos senhores que, mesmo dando mostras de querer participar muito em corridas de competição, até quando se deslocam ao estrangeiro, numa atitude, no mínimo, ridícula, no capítulo do andar de rabinho tremido, nisso é que não abdicam das comodidades e, obviamente, tendo de ser em fofuras de último modelo.
- Outro tema fresquinho é o de terem sido tornadas públicas as faltas dos deputados ao Parlamento que, nalguns casos, mereciam mesmo a expulsão do cargo que mal exercem. Mais de 20 sessões plenárias há algumas, e os maus exemplos vêm de cima. Paulo Portas, um deles, já não compareceu dez vezes, mas nomes como José Luís Arnaut e outros constam da lista de esquecidos de que a funções de deputado constitui uma responsabilidade que não permite desculpas.
- Também de passagem, porque estas coisas que se referem a actos nada apetecíveis que ocorrem à sombra da Igreja Católica, nos tempos que passam hoje e em que o ser humano se mostra cada vez menos recomendável, não constituem os exemplos que muitos esperam colher de uma zona que tanto recomenda, no mínimo bondade, para não falar em santidade., aqui deixo o que não nos ajuda a suportar pacientemente o comportamento do ser humano. Um dos factos anunciados é o do mau tratamento que está a ser dado aos cães nas traseiras do Santuário de Fátima, onde apareceram esses pobres animais em estado deplorável, por causa, disse-se, de alguém que pertence àquela Igreja e que não dá mostras de amor aos bichos. E, a outra notícia que também não constitui um exemplo, é sobre o Vaticano estar a funcionar como ”offshore”, isto é de ponto de depósito de fortunas que fogem aos impostos do fisco. Com a designação de Vaticano, S.A., em que figuras de proa daquela Instituição religiosa efectuam operações financeiras tidas como arrojadas, incluindo lavagem de dinheiros e outras acções pouco recomendáveis para quem não deve “sujar” as mãos em bens monetários.
- Quando as afirmações que se ouvem de responsáveis, incluindo o Presidente da República, são de que é preciso aumentar as exportações, como se tivéssemos os armazéns repletos de produção nacional e o que faltasse era encontrar compradores estrangeiros, perante discursos completamente vazios de conteúdo e que não têm a menor utilidade, posto que o que se torna forçoso é começar pelo princípio, isto é, criarmos condições, facilitismos, ausências de burocracia, aberturas a iniciativas industriais vinda de fora, ofertas de espaço no nosso País para que capitais estranhos aqui cheguem para montar as suas fábricas e usar a nossa mão de obra, ao escutarmos gente que devia ter consciência do que diz e não usar apenas o palavreado para mostrar que são capazes, não podemos fazer outra coisa que não seja restarmos perplexos. E revoltados por que a nós não nos cabe tomar as iniciativas úteis que são fundamentais para poder fazer Portugal encontrar uma saída.
- Por último, dado que o País está numa situação económica insustentável – coisa que eu ando a escrever há imenso tempo -, afirmação que se ouve agora a todo o momento e que os comentadores de televisão e de jornais já não escondem, numa descoberta que só neste momento fazem, entendo que a minha vez de alertar o País se encontra ultrapassada. Repito o que sempre digo: ter razão antes de tempo tem pouca utilidade, sobretudo se não se dispõe do poder bastante para interferir na solução. Aproxima-se a hora de pagar as contas. Os que fizeram os gastos desnecessários não se dispõem a andar a pé ou de eléctrico e por isso compraram mais automóveis. E quando as coisas piorarem ainda mais, saem de cena e encafuam-se em lugares que os mantêm ainda com boa vida. Os de baixo, as multidões, os que se arrastam e já andam a remexer nos caixotes, que são uns agora mas serão mais dentro em breve, esses aguentam como podem. Até ver.
Não vou mais longe, por agora.
E, a partir de amanhã, vou ensaiar incluir neste meu blogue diário, trechos da minha obra intitulada “DESENCANTO POR ENQUANTO”, não só para dar uma ideia do que está por editar, ma também para desanuviar um pouco este espaço.Oxalá seja boa ideia

terça-feira, 13 de julho de 2010

SE EU NÃO ESCREVESSE O QUE FAZIA?


Se eu não escrevesse o que faria?
Se não pudesse passar ao papel
o que arde dentro e faz azia
seria de mim próprio infiel
estoirava
acabava
guardar só p’ra mim sem desabafar
recalcar no fundo as amarguras
já porque quem não gosta de falar
nas letras se vinga e nas pinturas

Quem escreve debita desalentos
em texto simples ou mesmo poemas
é uma forma d’abrir sentimentos
e igualmente de quebrar algemas
libertar-se
superar-se
no dia em que deixar de escrever
quando vier a sentir-me incapaz
é então a hora de perceber
que o que resta nada me traz
melhor é partir
deixar de existir
e quem cá ficar que faça as contas
que julgue os que primeiro partiram
e se conseguir que agarre as pontas
dos que quiseram mas não conseguiram

São assim os alcatruzes da vida
sobem p’ra encher descem e despejam
mesmo aqueles que passam de corrida
sem tempo que chegue p’ra o qu’almejam
mas génio mostram
mais tarde gostam
depois de cá não estarem p’ra ver
e de não lhes chegar a admiração
não tendo já por isso o prazer
de merecer especial menção

Enquanto por cá eu puder pensar
e possa escolher o que mais gosto
ao menos que não tenha de guardar
p’ra mim e tenha de esconder o rosto
envergonhado
culpado
por isso o qu’escrevo, o que pinto
melhor ou pior é para mostrar
porque o que deixo é bem o que sinto
outros que guardem ou queiram queimar

COMPARAÇÃO


NÃO SEI se esta minha dúvida tem assim tanta razão de ser. Depende, claro, do ponto de vista de que se parte. Será que se pode comparar um país doente com um ser humano com falta de saúde? Uma pessoa, em fase de se encontrar com demonstrações de fraqueza de várias espécies, de incómodos físicos, de dores até nalguma parte do corpo, por ter deixado prolongar essa enfermidade sem recorrer aos cuidados médicos, tal homem ou mulher pode equivaler-se a uma nação que, também por ter adiado a observação por técnicos para poder, a tempo, evitar o irreparável, atinge uma fase em que já pouco ou nada há a fazer para a sua salvação?
Tenho pensado seriamente neste dilema. Será, julgo eu, por, o Portugal em que nasci e habito se encontrar, nesta precisa altura, em confronto com uma luta de sobrevivência deveras inquietante, pois que os seus recursos são tão diminutos, as possibilidades de cura tão escassas, a competência daqueles que têm a seu cargo o prestar a assistência necessária tão débil, as reservas de alguma ajuda de retiradas do fundo do colchão tão insignificantes, que não se encontra força bastante para animar a população e, puxando por toda a esperança que ainda lhe reste, não consegue proteger-se no guarda-chuva que lhe estendem os optimistas de serviço.
Igualmente, devido a que a minha saúde pessoal também resolveu abanar-me, tendo-me agora avisado de que o meu desinteresse em recorrer à observação clínica a tempo, me faz pagar neste momento, com sofrimento duplo, o desinteresse que demonstrei em ser observado por quem tinha competência para o fazer, o panorama que se me apresenta é propício a que estabeleça a comparação que indico logo no início deste texto.
Como resultado desta situação, o que me salta como recurso é que, por minha parte, deixe de ser tão categórico nas observações que faço, neste meu blogue, no que se refere à situação, cada vez mais degradante, do nosso País. Não foi a tempo que os governantes auscultaram a Nação e fizeram o respectivo prognóstico para, em face dos resultados, diagnosticarem a doença que estava a invadir o corpo nacional. Por meu lado, não me sinto com competência suficiente para criticar os outros que não vêm, na devida altura, o estado da sua saúde. Se eu próprio actuei da mesma maneira, em relação ao meu corpo, o que devo fazer é resumir-me à minha insignificância e não levar tão a peito o desapego dos governantes que não tomaram as devidas cautelas quando ainda poderia existir alguma saída para a crise que avançava e que nós bem a víamos. No entanto, uma grande diferença existe: é que, cada um de nós tem autoridade suficiente para tomar a decisão que entender, sem ter de dar satisfações a ninguém; mas, no que diz respeito a uma Nação, como as más atitudes podem prejudicar toda uma população, há que actuar com consciência de que é os outros que se está a prejudicar quando não se toma o melhor caminho.
No que a mim diz respeito, o que tenho a fazer, portanto, é não persistir muito mais tempo com a linha que tenho seguido, e procurar não manter a mesma atitude a partir de agora. E, tal como está a acontecer com o nosso Portugal, resigno-me a aguardar o andamento das coisas. O que for logo se verá. E, quem sabe, às vezes produzem-se milagres!...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

UNIÃO IBÉRICA


O TÍTULO que saiu a seis colunas no acreditado “Expresso” não deixa a mais pequena dúvida. E ele diz assim: “A União Ibérica agrada cada vez mais”. Tal e qual. E, em todo o texto que enche o espaço descreve-se que a ideia consiste numa união federal entre Portugal e Espanha, a qual é apoiada por quase metade dos portugueses (45,6%) e por 31% dos espanhóis.
Este estudo feito pela Universidade de Salamanca aponta que a opinião vai na direcção de se atribuírem plenos direitos políticos aos cidadãos de um lado residentes no território vizinho e na formação de uma aliança estável como países ibéricos na União Europeia e na relação com a América Latina.
Este é um passo para a ideia que eu defendo há imensos anos, já muito antes da Revolução – o que me valeu uma perseguição por parte das forças policiais da ditadura –, e que não se instalou ainda com plena execução, apesar das dificuldades que temos, sobretudo do nosso lado, em sermos ouvidos com o devido respeito pelos países do grupo dos 27. O complexo que sempre se arrastou por cá, ao longo da História, e que a batalha de Aljubarrota marcou ainda mais o sentido de separação que começou nas escolas primária, tudo isso tem pesado, especialmente por parte dos detentores do poder do nosso lado, uma certa retracção quanto a irmos aprofundando formas de actuarmos de mãos dadas, em tudo que corresponda à melhoria da posição privilegiada de que, geograficamente, gozamos nesta ponta da Europa, toda rodeada por mar.
Eu não sinto perder nada do meu amor por Portugal, não vejo fugir a nossa rica língua, da mesma forma que as diferentes que se falam e escrevem nos vizinhos lá se manterá, e ambos os costumes, gastronomia, forma de actuar tudo permanecerá intocável, a moeda já é a mesma, as bandeiras cada um terá a sua, os hinos não se confundirão, mas a força para progredirmos, essa sim muito beneficiará no sentido de produzirmos em conjunto, cada um a dedicar-se ao que mais pode e sabe fazer mas formando um bloco para atacarmos os mercados mundiais de mãos dadas.
Os anti-espanhóis, que os há, esses preferem a tese antiga de que mais vale só do que mal acompanhado. Não pensam no futuro. Não se preocupam com o que se vai passar com os nossos descendentes. Mesmo numa altura em que a crise está a atacar a eito e que a Espanha não se encontra no máximo da sua riqueza, antes pelo contrário, até por isso seria o momento para estudarmos as possibilidades de unirmos forças e protegermo-nos mutuamente.
Leva tempo, demasiado, mas lá chegaremos. Se não for na época em que nos encontre ainda vivos, lá para diante as circunstâncias não perdoam e será o necessitarmos de um guarda-chuva que nos tape dos egoísmos europeus que convencerá que o que é inevitável não se pode ignorar.
Portugueses seremos sempre. Grande felicidade por Camões, Pessoa, e tantos virtuosos que foram naturais da nossa Terra, isso não perderemos nunca. Como, do outro lado, os Cervantes e todas as múltiplas figuras históricas que enchem o panorama das glórias espanholas, essas se manterão nos compêndios que ninguém pode retirar da riqueza dos vizinhos.
Nada disso briga com a conveniência de passarmos a ser a Ibéria. De termos as nossas regras e leis próprias e de aceitarmos as que sempre estiveram do lado de lá da fronteira. E, quanto a isso, não é por estar definido um traço dito fronteiriço que se estabelece um divórcio absoluto. Castela e Catalunha, tal como o Minho e o Algarve, mesmo com falares que se distinguem, estão incluídos no mesmo conjunto económico. Também os Estados Unidos da América lidam com conceitos legais que se diferenciam, mas não é por aí que os passaportes dos seus súbditos não são iguaizinhos
Mas, por muito que alguns atrasados me atirem pedradas por eu pretender encontrar forma de Portugal crescer como Nação e que deixe de ser este território humilde e pobre, que acreditem que eu mudarei de opinião, julgo que morrerei assim e, perdoem-me a teimosia, ainda ninguém me convenceu que este isolamento lusitano nos tem feito bem!
E que viva este Portugal que honra os seus antepassados, mas que pretende também que o seu futuro não seja uma terra de carpideiras!...

domingo, 11 de julho de 2010

EU SEI, EU SEI...

Mesmo antes, em pequeno
eu nunca me convenci
nem jamais disse em pleno
muito menos eu me cri
que era senhor da verdade
da tal, da absoluta
da que, com impiedade,
dá sempre começo a luta

Mais que falar é ouvir
sobretudo dos mais velhos
e aos poucos reunir
o melhor dos bons conselhos
daqueles que nunca mostram
sinais de sabedoria
e bem melhor se prostram
perante a boa mestria

Eu sei, eu sei nunca digo
temo bem estar enganado
Isto de ver só umbigo
sem mirar p’ra outro lado
tem perigos bem patentes
quando depois com prudência
com os outros já ausentes
pedimos é penitência
por esse e mais incidentes




OS "EU"


POR ESSE MUNDO FORA, onde existirem seres humanos, sempre se depara com gente que puxa pelo seu “eu” a propósito de tudo e de nada. Os artigos definidos para essa gente resume-se à primeira pessoa do singular, os restantes cinco parece não terem sido enunciados durante a primeira aprendizagem escolar e, pela vida fora, sobretudo se atingem posições de maior destaque do que os outros, fazem sobressair essa arrogância, pretendendo fazer ver que não existe o “nós”, que o “vós” é desprezível e que, o “eu “ sai sempre em primeiro lugar, com o “tu” em posição subalterna.
Não é verdade que, nas discursatas que muitos políticos que por cá temos, talvez mesmo todos, mas também é certo que outros actuantes em diferentes áreas dão preferência a esse prenome, todos os feitos, as defesas de teorias, as recomendações saem com o “eu” à cabeça? Por muito que os seus falares sejam feitos em nome de um partido, de um grupo, de uma comissão, até de um Governo não assumem que os temas que apresentam tenham origem de várias cabeças e vontades e que terá sido o resultado de um consenso de múltiplos participantes. Não senhor, é tudo obra exclusiva sua, o seu talento isolado é que produziu a decisão que é transmitida, boa ou má, porque o que importa é dar mostras de que a sua cabeça é privilegiada e o seu querer tem mais força do que o de vários que puxem para o mesmo lado.
Eu confesso o meu fraco. Não devia prestar grande atenção a tais modos de comportamento, já que, os que se encontram mais ou monos próximos, a esses faço o possível para não dar grande importância; mas se, cada vez que procure encontrar distracção num programa das nossas televisões, me sai no écran um fulano, dos que ocupam grande parte do tempo usado em tal aparelho, com afirmações de que “eu” quero, “eu” faço, “eu” mando, aí perco as estribeiras e a minha vontade é de desligar de imediato o aparelho. Mas a curiosidade é superior ao enfado. E, já agora, fico a tentar averiguar se, de facto, existe alguma boa nova de que valha a pena tomar conhecimento. E, na maior parte das vezes, não é isso que sucede. Trata-se de mais um elogio em boca própria, de outra soberba exibida. Uma tristeza!
Embora não me apeteça indicar exemplos, não posso deixar em claro os nomes de três figuras que usam e abusam do seu “eu”. Segundo parece, não têm a noção da má figura que fazem ao demonstrarem que tanto se amam a si próprios. Devem ser uns felizardos por essa característica, sobretudo porque eu pertenço ao grupo que suportam o desconsolo de uma convicção balofa, e, no mar das minhas dúvidas, suponho que não existe ninguém que saiba tudo, que tenha atingido o cúmulo da perfeição, que se encontra sempre disposto a comparecer perante seja quem for para discutir uma ideia que seja melhor do que a sua.
As três personagens mediáticas que não escondem as suas convicções no extremo da perfeição são, no meu modesto modo de apreciar e sem qualquer preocupação de ordem, os que não saem dos écrans de televisão e que aguardam ainda por melhores dias que o País lhes ofereça:
José Sócrates, inevitavelmente, será o primeiro a apontar; Paulo Portas, que bem se estica para conseguir o que ambiciona desde a sua juventude (altura em que eu até lhe proporcionei o primeiro emprego como jornalista); e Francisco Louça, que tem a sua utilidade como crítico político e que não consegue convencer os portugueses em número suficiente por se situar numa posição esquerdista que assusta ainda, apesar da Direita também ter dado o resultado que deu…
Face à notícia agora divulgada de, em casa e Basílio Horta, num almoço em Fevereiro passado, o primeiro-ministro convidou Paulo Portas para fazer parte do seu Governo, no cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, o que este, com bom senso, recusou, teria sido interessante assistir ao confronto de duas forças que, convictamente, se consideram ser donos e senhores da razão. Se não fosse para tremer de pavor, dava para rir à farta…
Mas deixemos os “eus” besuntarem-se com as suas vaidades, Desde que não prejudiquem o caminho que Portugal deve seguir para tentar salvar-se do descalabro que ninguém pode garantir que não esteja â vista, pois que satisfaçam a sua vaidade a mirar-se constantemente ao espelho.

sábado, 10 de julho de 2010

ODE À MORTE


Do que todo o ser tem medo
é o mais certo afinal
porque mais tarde ou mais cedo
ela surge tal e qual
rápida ou demorada
mesmo não sendo por mal
cara aberta ou disfarçada
no fim deixa o seu sinal

Mas porquê receio dela
só aparece uma vez
é certo que não é bela
mostra-se com altivez
mas também é salvadora
de sofrimentos atrozes
quando chega a sua hora
não atende quaisquer vozes

Eutanásia sua amiga
se não está proibida
compaixão a isso obriga
quem não tem outra saída
e acidente fatal
que calha a qualquer um
sendo resultado mortal
não há mais sítio nenhum

Se o homem pensasse bem
naquilo que tem mais certo
que depois não há mais vem
que destino não é perto
comportava-se melhor
enquanto por aqui mora
que a vida é uma flor
e a morte é um ir embora

Morte, morte não te ligo
quando quiseres aparece
morrer não é um castigo
pode ser uma benesse
estando farto de viver
até há quem a apresse
e estar perto de morrer
não há muito que o confesse

Cantemos, porém à morte
façamos essa justiça
é tornando o fraco forte
que mesmo sem haver missa
e com simples oração
deixamos ela levar
dos homens um nosso irmão
pond’outro no seu lugar

O homem tem essa arte
não quer ficar a perder
por cada um que parte
outros estão a nascer
a morte leva os que sobram
mas muitas vezes se engana
não são só os que soçobram
que interessam à fulana

De repente lá se morre
nem todos ela protege
quem anda no corre-corre
não tem vida que se inveje
por isso sem muita pressa
fazendo com calma tudo
até que o corpo arrefeça
e passando a ficar mudo

Não dizer mal da morte
dos ossos e da caveira
é ser-se até o mais forte
e mostrar boa maneira
o melhor é aceitá-la
como coisa natural
levando-a sempre na mala
pois ninguém é imortal

Se a morte não existisse
se tudo cá fosse eterno
imagine-se a doidice
o que seria este inferno
velhos, sim, é bem preciso
com saúde e alegria
mas novos maus dar sumiço
se não têm serventia

A morte faz o que deve
de certa forma o que pode
deixa este mundo mais leve
merece bem esta ode
eu não lhe tenho rancor
aceito sua altivez
mesmo não lhe tendo amor
cá espero a minha vez

Há quem consiga vencê-la
os que ficam assim pensam
bem vivos depois de vê-la
é fácil que se convençam
na cama de um hospital
vê-la passar de mansinho
a preparar funeral
que pode vir a caminho

Milagre da medicina
atrasa essa partida
pode ser a mão divina
que retardou a saída
ou será que a morte quis
mostrar que tem sua escolha
e feliz ou infeliz
de novo à vida se acolhe

O desistir de viver
é opção de cada um
quem comanda é o querer
e ter da vida um fartum
porém o não estar de acordo
pode ser que a morte pense
e não receber a bordo
quem a ele não pertence

Quem se indignar com isto
d’eu elogiar a morte
é não aceitar que Cristo
que também teve tal sorte
com todo o saber que tinha
podia acabar com ela
não a fazendo rainha
sentada numa estrela

Não, não julguem que é conluio
um acordo com a morte
que desta forma influiu
p’ra poder gozar da sorte
pois é tudo diferente
eu já tenho a minha conta
e perdi dose de crente
por isso pus-me na ponta

Andando estou sentado
para não m’afastar muito
e nunca sei se ao meu lado
lá estará com certo intuito
o que me pega na mão
e me apresenta à desdita
e só descubro se o caixão
s’encaminha p’ra desdita

O lume, a solução
tão temido tempos antes
hoje boa opção
dispensa participantes
do nada parte p’ró pó
é assim o ser humano
que isso do faraó
é coisa de gente insana

Fazer a cova na terra
lá meter o ente qu’rido
perder o que lá s’encerra
anos depois alarido
ao tirar ossos da cova
colocá-los em caixinha
fazer cerimónia nova
com mais uma ladainha

Aí, já morte se foi,
não lhe pertence o serviço
não constrói nem destrói
já não tem nada com isso
e a família distraída
quantas vezes perde o norte
e os parentes em vida
entregam-nos à pouca sorte

É que os covais das ossadas
parecem os d’Alemanha
nos tempos das malfadadas
e criminosas façanhas
sem saber a quem pertencem
alí se põem a monte
tal trato não merecem
e não há ninguém qu’as conte

A morte pois não culpemos
por nos levar quem amamos
quantas vezes não fazemos
aquilo que proclamamos
ajudando quem precisa
com bom gesto que se faça
a palavra paralisa
em má hora de desgraça

TAMARIZES DESTE MUNDO


QUEM, COM ALGUMA idade, bem se lembra da bela praia do Tamariz, quando era um local onde as elites, sobretudo financeiras, se reuniam a apanhar sol nos cadeirões que se estendiam ao longo do parapeito em frente da esplanada que ale sempre existiu, não poderá deixar de ficar surpreendido com os acontecimentos que ali ocorrem nesta altura. Eu ainda me recordo de ver, por exemplo, o Manuel Vinhas que, apesar de não necessitar daquele local para gozar os prazeres da praia, passava horas bem recostado, pois era uma oportunidade de trocar impressões com outras personalidades que por lá também passavam. Anos mais tarde, na minha vida profissional, tive ocasião de ter eorme ligação com o homem das cervejas e até em Angola existiu um largo convívio. É um saudosismo não de uma época, pois vivia-se em plena ditadura, mas sim de uma idade que, nós, os que não estávamos integrados naquela sociedade de privilegiados, dispúnhamos de saúde e de sonhos.
Também, quantas vezes eu pude ver a irmã cega do actual rei de Espanha, acompanhada dos seus amigos portugueses, passear naquela zona e fazer dali sua praia privilegiada!
O que sucede hoje no mesmo sítio? Bandos de negros – e não se veja aqui nenhuma característica de racismo – dominam todo o espaço e ocupam a areia em toda a sua extensão. Tratam-se de residentes em bairros que se situam nos arredores, na Galiza, S. João do Estoril, Caparide e outros locais e que, não tendo trabalho, optaram pelo Tamariz para fazer dali seu ponto de reunião. Estão no seu direito, num País livre não há que definir espaços e preferências, Ser branco, preto ou amarelo é exactamente igual perante a lei. Mas só uma coisa os pode distinguir: o comportamento. O não cumprirem as regras básicas da educação e o desrespeito pela execução absoluta dos fundamentos democráticos, que são aqueles que nos regem desde há 36 anos e que os que cá residem, sejam de que etnia sejam, isso é que não pode ser admitido. E há que tomar as medidas severas para que este País não tenha de sofrer para além daquilo que a crise já lhe impõe.
O que sucede é, porém, que as tropelias, os roubos, os distúrbios que ocorrem naquele clássico local de repouso, que só agora se tornaram notícia dos jornais e televisões, já há mais de um ano que os locais conhecem, pois eu, que costumo usar a gasolineira ali colocada há bastantes anos, fiquei a saber que existia um receio que foi aumentando, até porque a loja onde se paga o combustível, antes sempre aberta até para adquirir outros produtos, há tempos sempre fechada e a conta é liquidada através de um “guichet”, devido, informaram-me, à invasão de pretos que, vindos da praia do Tamariz, lá entram e roubam tudo…
Tenho amigos pretos, gente de grande qualidade que me merecem o maior respeito, um deles até me trata como pai, pois veio de Foi crescendo, paguei-lhe o liceu, fi-lo tirar a carta de condução, casou, teve filhos – agora até já um neto -, comprou automóvel e tem o seu apartamento pago, é muito respeitado onde exerce as suas funções de escritório, já foi visitar a mãe a Angola, depois de muitos anos, e continua por cá, visto ser este a sua Terra de adopção. Para mim é uma felicidade e a sensação de um dever cumprido.
Por isso, sinto-me à-vontade para criticar todos aqueles naturais de terras africanas e mais ainda os que já nasceram em Portugal e que não se integram nos costumes e formas de viver dos portugueses. Por muito que a revolta os assalte por falta de trabalho, o que é lastimável, têm de entender que também os brancos, com gerações lusitanas, lutam contra o mesmo dilema, não é por organizarem assaltos (mesmo que haja demasiados fora da lei que não têm qualquer ligação a países de África) que se podem considerar vingados da emigração que foram obrigados a fazer, eles ou os seus ascendentes.
Tudo isto sucede na ocasião em que as últimas sondagens apontam para um crescimento eleitoral do PSD, ao mesmo tempo que se verifica uma queda do CDS e do BE. Claro que isto são apenas tendências que, por sinal, se aproximam das que se conhecem existir em Espanha, França e até Alemanha, o que poderá ser consequência das medidas de austeridade que se impõem por toda a parte. Mas todos esses países recebem elevados números de imigrantes de diferentes origens, desde Norte de África até muçulmanos, que estão a provocar uma fricção de costumes que ocasiona desentendimentos. Não é, portanto, um problema exclusivo do nosso País e em todos os lados há zonas como o Martim Moniz de Lisboa, onde a mudança de comportamentos é bem visível.
Menos mal que o Governo e o PSD chegaram a acordo quanto às portagens nas Scut. Já é alguma coisa de positivo. Isso depois de tanta discussão que só nos tem de alegrar, apesar da vergonha que sempre nos fazem passar os homens ditos responsáveis, que tanto gostam das zaragatas para dar mostra de que a razão está sempre do seu lado, ainda que tenham de acabar por chegar a acordo, mas sempre com alegações de que a sua foi a vencedora…
O pior de tudo isto é que não existem, nem leis nem homens que sejam capazes de remediar os múltiplos dramas que nos envolvem. E já não me refiro apenas aos solucionáveis, pois vivemos num período em que não há capacidade para, dentro de um mínimo de espírito de colaboração, se procure ir encontrando, sucessivamente, maneiras de não estragarmos ainda mais o que já está a cair de podre.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

QUEIMAR AS PESTANAS

Lá vai o tempo, atrasado
em que queimar as pestanas
tinha o seu significado
por serem acções humanas

Sobretudo a juventude
que estudava à luz da vela
mantinha essa atitude
não vinha luz da janela

Hoje, com tanto avanço
não há perigo em queimar
as pestanas, um descanso

Nem estudo é de arrasar
e a vela só usa o tanso
a frase é só p’ra lembrar!

QUEIMAR AS PESTANAS


ESSA FRASE tão antiga, que vem do tempo em que os estudantes só contavam, à noite, com a luz de petróleo para se agarrarem aos livros e se prepararem para os exames, chegada a esta altura, ao século XXI, da profusão de luz para podermos efectuar os nossos trabalhos ou os nossos prazeres sem a menor dificuldade, melhor ainda do que com a luz do dia, esta expressão não tem aplicação a não ser em sentido figurado.
Mas, mesmo nestas circunstâncias, sempre valerá a pena recomendar a muita gente que se debruce sobre os problemas que tem para resolver e que os estude aplicadamente, como se tivesse que se apresentar perante um julgador das suas capacidades e fosse obrigado a tentar boa nota.
Quem, convencido que decorou toda a matéria e que não necessita aprofundar mais os conhecimentos, abandona o estudo e se prontifica a executar a tarefa que tem pela frente, ainda que o resultado da aprendizagem seja apenas o de “pegado com cuspo” esses podem depois deparar com uma obra que dá “com os burrinhos na água”. É o que sucede com mais frequência por cá.
Ora aí está com o que eu deparo ao pretender seguir as notícias que a nossa “bela” Imprensa de hoje nos pretende transmitir. Dou comigo de cócoras, isto é sem vontade de prosseguir a caminhada que terei ainda para percorrer. E isto é apenas uma amostra do que li.
Perante uma agência de viagens antes bem conceituada, a Marsans, de quem eu já fui cliente, a encerrar subitamente as portas e a deixar apeados sem férias, um número enorme de fregueses que, apesar da crise, já tinha as malas prontas para partir para diferentes destinos e gozar as suas poupanças (afinal ainda há disto!); face a uma afirmação de Cristiano Ronaldo de que terá pago, pelo silêncio de uma misteriosa barriga de aluguer, mais de 12 milhões de euros – o equivalente apenas ao seu ordenado de um ano -, ficando a pertencer-lhe exclusivamente a custódia do seu bebé, tendo havido quem já fez as contas de que a herança do jogador de futebol vale, neste momento, 180 milhões de euros; deixando a gente antiga bastante triste com a notícia de que o Rádio Clube Português vai despedir 36 trabalhadores e que deixa de funcionar aos domingos; tendo decorrido o 8 de Julho em que a CGTP saiu à rua para reclamar contra a situação fiscal que considera insuportável, como se tais saídas à rua fizessem algum efeito, para além da paralisação do trabalho; tomando conhecimento que se teve de que Miguel, também um jogador de futebol da selecção nacional, participou num tiroteio entre dois grupos de noctívagos frequentadores de discotecas; contemplando uma página inteira de um diário com a afirmada agressão de Filipe La Féria a uma costureira, porque não gostou do guarda-roupa feito para uma produção sua; e, por último, ao ter chegado a notícia de que o Tribunal Europeu de Justiça “chumbou” a decisão tomada pelo Estado português de ter utilizado a “golden share” para eliminar a vontade mostrada pelos accionistas da PT na assembleia-geral realizada há dias, o que vai dar ainda muito que falar, pois o Governo não deu, de imediato, mostras de aceitar pacificamente tal decisão; francamente, ao ler e ver nas televisões todas estas notícias, das mais variadas espécies, fecho os olhos e penso. E interrogo-me: Mas é este o País que me rodeia? É em tal pátio de zaragatas e de desentendimentos, em que todos se julgam com a absoluta razão, que eu tenho de continuar a viver?
A pergunta faço-a, mas a resposta que imagino não me satisfaz.E assim vou queimando as pestanas, mesmo sem luz de petróleo e servindo-me da tecnologia moderna do computador. Serve para alguma coisa

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ANDAR POR CÁ

Andar por cá a arrastar-se
sem que a idade ajude
vá lá a gente fiar-se
pois tudo nos desilude
e os dias vão passando
vem mais um aniversário
sem saber como e quando
acaba este calvário

O sofrer com a doença
ninguém quer mas tal sucede
lá se vai mantendo a crença
de vir o que bem se pede
p’ra não fugirmos à sina
de dar com o inesperado
situação que mofina
mesmo passando ao lado

Mas, p’ros novos ensinar
devem cá estar os mais velhos
se dizem não precisar
sempre metem os bedelhos
mesmo p’ra não repetir
os erros já praticados
para poder prosseguir
caminhos novos traçados

Ao menos que o sacrifício
que cada idoso suporta
preste algum benefício
e ajude a abrir a porta
qu’aos novos a vida oferece
com teoria sem prática
e a juventude merece

São assim as gerações
e os que ainda se movem
assumem obrigações
por isso não se comovem

RICOS


JULGO QUE não existirão grandes dúvidas de que, no que me diz respeito, não sou um acérrimo defensor das grandes fortunas e que, por isso, também não concordo com as medidas que lhes dão ainda maiores regalias. Em todas as situações mas, particularmente, quando o mundo atravessa períodos de grande debilidade económica e financeira e que a fome, em inúmeras áreas terrestres, não se consegue extinguir, sendo enormes as barreiras que separam os dois pólos opostos, é aí que os homens de bem devem procurar contribuir, dentro das limitações de cada um, para que diminuam tamanhas e tão terríveis anomalias.
Mas, dado que a vida dos seres humanos obedece a princípios que os crentes das religiões aceitam como sendo uma determinação superior, ou seja, em face da realidade com que deparamos desde que o Homo Sapiens se instalou nas suas múltiplas craveiras, mostra-nos a História que sempre existiu essa malfadada separação, com uns a viver em palácios e outros a dormir debaixo das pontes. E, por muito que tanta gente se indigne, que surjam políticas com a pretensão de eliminar tão cruéis diferenças – mas que os próprios homens depois as anulam, para obter benefícios próprios -, que se consumam milhões de páginas de literatura que os génios da escrita aproveitam para alimentar os seus romances, a verdade é que, século após século, ano atrás de ano, não se verifica uma actuação que consiga eliminar a tal desigualdade de vidas que, pelo menos da boca para fora, se proclama com tristeza em todos os momentos. E se Jesus Cristo foi a figura que ficou na História, desde há dois mil anos, a hastear a bandeira da bondade absoluta, continuando a ser venerado ao longo de todos os tempos pelos denominados cristãos, a linha religiosa que conta com maior número de seguidores, se, nesta era, fizesse nova aparição e repetisse a proclamação dos bons actos e da santidade, a dúvida quanto aos resultados que poderia conseguir é mais do que justificada. Penso que ninguém lhe ligaria e até talvez voltasse a ser escorraçado e condenado de novo à morte. Seria um empecilho!
Actualizando-me com os factos, vem a propósito referir a decisão tomada agora pelo Governo actual, obrigando os bancos estabelecidos em Portugal a prestar a informação permanente dos depósitos bancários, a pronto e a prazo, dos seus clientes, para poder taxar fiscalmente sobre os juros que cada um recebe. Poder-se-á encontrar justificação para tal medida, sempre sob o ponto de vista de controlar os muito ricos e fazê-los contribuir para ajudar o Estado a enfrentar as dificuldades e a poder actuar nesse flagelo que também é agora anunciada de que há cada vez mais famílias portuguesas a viver sob o estigma da pobreza. Moralmente está certo, mas o perigo no que respeita às fugas de capitais para paraísos fiscais, essa corrida para o exterior é um risco que pode sair mais caro do que a não cobrança de impostos a esses felizardos da excessiva fartura. E toda a gente sabe que o dinheiro não tem Pátria!
Acresce ainda que, segundo alguns legalistas, a norma que entra em vigor tem de ser decidida e votada na Assembleia da República, sendo que esta ausência de atitude já é um costume em relação ao que ocorre por cá, visto que o próprio Presidente tem de recorrer com frequência ao respectivo Tribunal, tantas são as decisões tomadas um pouco de ânimo leve, que impõem o olho crítico dos “sábios” constitucionalistas.
Eu só falo neste tema porque, na verdade, todos nós, cidadãos que ainda andamos atentos aos passos que os governantes dão, não podemos suportar mais que não exista um mínimo de cautela e de competência para que, antes de serem tornadas públicas decisões dos Executivos – deste como dos anteriores -, sejam tomadas todas as cautelas para que não esbarrem depois com as implicações em relação às normas legais.
O que não falta por aí são discursos de acusações sobre o que anda mal, o que são escassas são as indicações concretas das formas de solucionar os problemas. Do Governo, já se sabe. Mas do lado das Oposições também não são transmitidas operações concretas que possam ser aplaudidas ou repudiadas pelos habitantes.
Dizer mal, é fácil. Indicar caminhos e assumir a responsabilidade pelo que cada um faria se estivesse no Executivo, isso já é demasiado comprometedor. Eu, por mim, gostava de tomar conhecimento de um trabalho deste género para me podar pronunciar e ir formulando o meu apoio na hora de uma votação.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

QUALQUER DIA

Será um dia, será
hoje não, não me apetece
a vontade chegará
pode ser que me interesse
qualquer dia
de euforia
pegarei no tal assunto
e mesmo a contragosto
esforçarei o bestunto
actuarei mal disposto

Que isso do qualquer dia
costume bem português
faz parte da apatia
de quem o diz muita vez
qualquer dia
que mania!
há-de ser quando calhar
sem perder a paciência
há que saber esperar
e pôr de lado a urgência

Eu não sei quando será
que tal coisa eu farei
a altura chegará
e então descansarei
qualquer dia
tal poesia
surgirá da minha entranha
aquela que vai ficar
como autêntica façanha
deste poeta invulgar

E esse trabalho insano
a aguardar o tal dia
só pode ser por engano
que se chame poesia
qualquer dia
que alegria
e se for capaz de tal
hoje não é por certo
pois o meu estado normal
é não ter génio por perto

E se ajuda lá vier
de um talento que eu não tenho
nesse tal dia qualquer
encontrarei o engenho
qualquer dia
que alegria
e a obra sairá
autêntica melodia
e a frase morrerá
aquela do qualquer dia








VIVAMOS A FINGIR


SUSTER UM SORRISO na boca, dar início às conversas com os amigos sem apresentar um ar sorumbático, referir assuntos da vida que nos rodeia sempre com aspecto de que as coisas estão a correr de harmonia com os nossos desejos, comportar-se dessa maneira terá de ser a única forma de não transmitirmos aos outros sinais de descontentamento. Quem for capaz de se comportar desta maneira, seguramente que torna mais agradável o contacto com os parceiros. Pode não corresponder à verdade, mas o mundo também não aprecia excessivamente as clarezas e os disfarces, não só na política, conseguem passar aos outros uma forma cativante de angariar simpatias.
Digo isto para tentar convencer-me da maneira que eu devia adoptar e ter adoptado ao longo da minha vida, pois que não temos de andar por este mundo só para irmos acumulando aborrecimentos, pelo que o caminhar por veredas floridas, sem prestar atenção às plantas que se encontram já murchas, é, de facto, preferível a sentirmos o odor dos estrumes.
Os que leram o célebre livro do espanhol Miguel Cervantes, o belo “D. Quixote de la Mancha”, se prestaram atenção às aventuras de um sonhador que lutava contra o irreal e, na companhia do seu Sancho Pança, estava convencido da importância da sua missão, estará em melhores condições de se adaptar à situação actual do nosso País, em que são inúmeros os moinhos que merecem que se lhes provoque uma derrocada, mas que, por serem apenas míticos esses edifícios que desafiam a paisagem, todo o tempo que se perde a querer enfrentá-los é completamente desperdício, pois que não é com inofensivas espadas que se penetra nos bem defendidos torreões.
Só de passagem, pois não pretendo entrar em pormenores e não estou disposto a fazer papel do burro do pobre Sancho Pansa, apenas colho de passagem dois temas que li de relance na Imprensa de hoje:
1. - que Carlos Queiroz “encaixou” 800 mil euros com o feito de ter sido o seleccionador nacional da equipa de futebol portuguesa (10% do que a FIFA atribuiu em prémios à FPF)
2. – que, ao mesmo tempo, a nossa Federação sofreu grande prejuízo com o referido evento.
Então não é com alegria que devemos encarar este acontecimento?

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sendo pequeno ou grande
não o tendo lá faz falta
o preciso é que o pé ande
em perna curta ou alta

É isso mesmo o pé
que há quem o mostre exaltando
pois se não cheira a chulé
é muito útil andando

Há quem tenha um pé de meia
se ponha em pé de igualdade
e quem tenha a alma cheia
de sorte e felicidade

A água pé é bem boa
bebida em hora certa
na província ou em Lisboa
sabe bem se a sede aperta

Ter-te aqui ao pé de mim
agarradinha ao teu macho
é como uma tampa assim
a tapar sempre o seu tacho

Se o magoo lá vou eu
a andar ao pé coxinho
pois foi o que aconteceu
ao meu querido pezinho

No transporte, se está cheio
lá tenho de ir de pé
de outra forma não há meio
ali não há canapé

Para fazer o caldito
à lareira, lá na terra
no tripé o caldeirito
se usa e nunca erra

A montanha lá no alto
mostra ao longe e mostra ao pé
cá em baixo no asfalto
só se vê é o sopé

Quando incomoda o ruído
e não dá para banzé
não se ouve nem gemido
andar só pé ante pé

Também há aquele ainda
que põe a postura falsa
e não será muito linda
é mesmo um pé de salsa

E quem actua com manha
usando a falsa fé
não podendo ser aranha
vai sempre em bico de pé

Com tudo isto, afinal
para quem procura paz
aqui neste Portugal
deve andar de pé atrás