sexta-feira, 16 de julho de 2010

DESENCANTO POR ENQUANTO!...



Por muito que se tenha vivido e por bastante menos que nos falte para concluir o capítulo da vida, sempre se mantém a perspectiva do amanhã. Seja para dar seguimento a uma tarefa inconcluida, seja por haver esperança de que depois é mais oportuno terminá-la. O agora, nem sempre apetece. O já, é normalmente incómodo. Fazer de seguida cansa, muito embora possa resolver logo a questão pendente. Encarar na altura um problema pode não dar ocasião a meditar com tranquilidade. Sobre ele e quanto à melhor solução.
O logo se vê é a posição que tomam os que arrastam para depois o encarar com as situações. O “espera aí que depois resolvo”, pode ser uma defesa para as arrelias. Um pé no travão das coisas incómodas, daquelas que, quanto mais tarde melhor, mesmo que não as elimine dá espaço para mudar de rumo.
Essa frase do “há tempo”, faz tranquilizar até os que sabem que o assunto em mãos tem contornos de urgência. Com base na expressão de que o tempo cura tudo, o deixa andar acaba, por vezes, por dar razão a quem receia enfrentar situações complicadas. E a verdade é que, se não é a melhor solução o que o tempo acaba por proporcionar, pelo menos dá mais espaço para acalmar os espíritos daqueles que defrontam um incómodo.
Seja como for, o jogo do empurra, o espera aí um bocadinho, o quanto mais tarde melhor, tudo isso só pode ser considerado como uma manifestação de fraqueza. É deixar para depois o que pode ser feito logo. É manter uma preocupação pendente, é até ter medo do resultado do confronto com o problema.
Estou a escrever este texto e faço-me esquecido de que tenho marcado um encontro com um editor para apreciar os trabalhos que tenho arrecadados numa gaveta. Vou pensar melhor se devo correr esse incómodo. Se estou preparado para uma desilusão. Se não estarei a deitar achas para a fogueira das desilusões, se não poderei atacar a árvore das esperanças que constituem o veio da força para a manutenção das minhas produções.
Não digo nada. Quando arrumar os papéis que tenho sobre a mesa e sair do café logo vejo se os meus passos se encaminham para esse “juiz” da obra dos outros. Ainda não sei se não será mais um “logo veremos”.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A AREIA

A areia que escorre entre os dedos
lembra a vida que foge e não se agarra
é isso bem visível nos meus medos
desses que me perseguem com amarra

Vejo-a cair no fundo do poço
esse poço que é o fim da vida
é tão rápida a queda que não ouço
nem sinto a dor que provoca a partida

Areia fina que já fostes pedra
milhões de anos por ti passaram
apesar disso és algo que medra
voltarás a ser como te encontraram

As avestruzes no teu seio escondem
as cabeças medrosas, indecisas
e perguntam aos grãos que não respondem
pois aí não há soluções precisas

Mas a vida é tal como a areia
ensopada é igual à argamassa
seca, quando o vento a leva à boleia
rodopiando enquanto o tempo passa

Um dia, porém, leva-a o mar
não fica essa areia onde estava
mas outros bagos irão ocupar
tal espaço onde antes morava

A vida é assim: ondas de areia
ora compacta ou de grãos à solta
nada seguro nesta grande aldeia
que é o mundo sempre em revolta







DESENCANTO POR ENQUANTO...


Com frequência arrima-se-me ao pensamento a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: francamente, será que eu gostaria de ter a característica dos fingidores? E, neste particular, sobretudo o de ser capaz de transmitir a ideia de que aquilo que acabou de me ser dito e que não dá sinais de ter o mínimo interesse para sustentar uma conversa, essa palavra ou frase não foi ouvida por mim, dando eu os ares de ser surdo. Serei eu, portanto, capaz de fazer o papel de mouco, quando isso me convém?
Eu, por mim, já dei com pessoas que utilizaram esse truque comigo. Sobretudo quando, fazendo uso da minha condição de ser mais velho e de evidenciar mais saber que o meu interlocutor, pretendendo fazer uma correcção no discurso que estava a ser proferido pelo outro, avancei com uma sentença e deparei, depois disso, com o tal ar de quem não tinha entendido uma palavra que fosse possível extrair da minha fala.
Agora, da minha parte, nunca recorri a essa fuga para não ter de alimentar um diálogo que não merecia o menor segundo de atenção. Sempre caí na tentação de dar réplica, de alimentar a asneirada, de deitar achas para a fogueira do disparate. Replicar, tentar convencer o parceiro de que aquilo que ele acabou de dizer não tem ponta por onde se lhe pegue, esse é o meu hábito. Talvez possa considerar de mau hábito…
Só porque eu tenho mantido a convicção de que o mais natural, o mais lógico e até mesmo o mais humano é fazer frente ao que acaba de ser proferido e tentar ser didáctico, corrigindo, argumentando com lógica, mas não deixando que persista o erro que grassa no outro. Porém, na maioria dos casos, este sinal de boa vontade, este interesse em ajudar não é bem acolhido pela outra parte, criando-se até uma situação de mal-estar e de indignação por parte de quem é corrigido. E o mais sensato nestes casos é deixar passar e não intervir com propósitos de corrector.
No meu caso, porém, tenho grande dificuldade em fazer de fingidor. A minha cara não condiz com o gesto. Pôr o ar de quem é surdo, tendo ouvido perfeitamente o que me foi dito, não é fácil. Não tendo o espírito do enganador, será necessário muito treino e, mesmo assim, não há garantia de sucesso com essa interpretação de palco. Fazer de conta necessita de muito treino, para além da forma de ser própria que alguns cultivam. E quando me atiram com expressões como “espectacular”, por tudo e por nada, e intercalam no meio das frase aquele “digamos” que não vem nada a propósito, nessas ocasiões não há fingimento que resista.
Bem me apetece, por vezes, fazer o tal papel do surdo, de deixar correr o discurso do outro sem a menor intervenção da minha parte, de pôr até um sorriso simpático de quem está a apreciar muito a conversa. Mas sinto que não sou convincente. Fico até com a impressão de que deixo um rasto de falsidade que saberá ainda pior do que a franqueza que pusesse nas minhas observações.
Mas a vida é assim. Ingrata. Fomentadora de enganos e deslealdades. Há, pois, que suportá-la tal como ela se nos apresenta. Se não nos adaptamos às suas circunstâncias e procuramos fazer intervenções correctivas à nossa maneira, o menos que nos pode acontecer é ficarmos isolados do mundo, sendo tidos como seres insociáveis.
Ao fingimento, então!...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

DESEMPREGO

Cada um faz o que pode
o que sabe, o que o deixam
aquilo p’ra que lhe pagam
à espera que se acomode
já que os outros não se queixam
e também não o afagam

Se outra coisa fizesse
se aquilo que faz agora
não fosse do seu agrado
e algo mais merecesse
podia-se ir embora
partindo p’ra outro lado?

Emprego há com fartura
como dantes sucedia
e se podia escolher?
A vida hoje é bem dura
piora dia p’ra dia
o melhor é não mexer

Agora eu faço isto
sem patrão que me ordene
mas também sem ter quem pague
por agora não desisto
sem haver acto solene
oxalá ninguém me esmague

Nesta altura o que é melhor
a quem tem emprego mau
é fazer por conservar
pois será muito pior
escorregar do degrau
ficando a olhar p’ro ar


HAVERÁ TEMPO!...


NESTA ALTURA em que o que anda a interessar os portugueses são os dias de praia, as férias, o não ocupar a cabeça com os problemas que, ainda que sejam cada vez maiores, todos fazem os possíveis para assobiar para o lado e, como toda a gente deve a alguém e alguma coisa, já não constitui preocupação excessiva que também esse assunto nos toque, a impressão que tenho é que cada vez menos pessoas se interessam em ler desgraças e muito menos em blogues que não constituem uma obrigação de serem analisados. Ando há uns dias a avisar que vou dar por finda ~ ou, no mínimo, vou dar uma folga – a este chorrilho de choradeiras. Mas hoje, não me fico pela ignorância dos acontecimentos. Não consigo deixar de me indignar. Por isso, cá vai e em resumo resumido:
- O Governo comprou 922 automóveis novos, tendo abatido 1,772 veículos que não considerou já suficientemente válidos para servir os múltiplos funcionários públicos das diferentes categorias por a maioria deles terem mais de sete anos de uso (imagine-se, o meu tem oito e a maioria dos portugueses desloca-se em carros com 20 e mais anos!), o que correspondeu, neste época de grande crise, a um dispêndio de bastantes milhões de euros. Segundo números prestados pela Parque de Veículos do Estado, em 31 de Dezembro passado o número total de automóveis que ali constavam era de 28.793, o que correspondia a um aumento de 1.222 em relação ao ano anterior.
Quando o Governo decidiu substituir cada três funcionários públicos por um que fosse admitido, o natural seria que procedesse da mesma forma em relação aos veículos de quatro rodas. Mas isso seria pedir demasiado aos senhores que, mesmo dando mostras de querer participar muito em corridas de competição, até quando se deslocam ao estrangeiro, numa atitude, no mínimo, ridícula, no capítulo do andar de rabinho tremido, nisso é que não abdicam das comodidades e, obviamente, tendo de ser em fofuras de último modelo.
- Outro tema fresquinho é o de terem sido tornadas públicas as faltas dos deputados ao Parlamento que, nalguns casos, mereciam mesmo a expulsão do cargo que mal exercem. Mais de 20 sessões plenárias há algumas, e os maus exemplos vêm de cima. Paulo Portas, um deles, já não compareceu dez vezes, mas nomes como José Luís Arnaut e outros constam da lista de esquecidos de que a funções de deputado constitui uma responsabilidade que não permite desculpas.
- Também de passagem, porque estas coisas que se referem a actos nada apetecíveis que ocorrem à sombra da Igreja Católica, nos tempos que passam hoje e em que o ser humano se mostra cada vez menos recomendável, não constituem os exemplos que muitos esperam colher de uma zona que tanto recomenda, no mínimo bondade, para não falar em santidade., aqui deixo o que não nos ajuda a suportar pacientemente o comportamento do ser humano. Um dos factos anunciados é o do mau tratamento que está a ser dado aos cães nas traseiras do Santuário de Fátima, onde apareceram esses pobres animais em estado deplorável, por causa, disse-se, de alguém que pertence àquela Igreja e que não dá mostras de amor aos bichos. E, a outra notícia que também não constitui um exemplo, é sobre o Vaticano estar a funcionar como ”offshore”, isto é de ponto de depósito de fortunas que fogem aos impostos do fisco. Com a designação de Vaticano, S.A., em que figuras de proa daquela Instituição religiosa efectuam operações financeiras tidas como arrojadas, incluindo lavagem de dinheiros e outras acções pouco recomendáveis para quem não deve “sujar” as mãos em bens monetários.
- Quando as afirmações que se ouvem de responsáveis, incluindo o Presidente da República, são de que é preciso aumentar as exportações, como se tivéssemos os armazéns repletos de produção nacional e o que faltasse era encontrar compradores estrangeiros, perante discursos completamente vazios de conteúdo e que não têm a menor utilidade, posto que o que se torna forçoso é começar pelo princípio, isto é, criarmos condições, facilitismos, ausências de burocracia, aberturas a iniciativas industriais vinda de fora, ofertas de espaço no nosso País para que capitais estranhos aqui cheguem para montar as suas fábricas e usar a nossa mão de obra, ao escutarmos gente que devia ter consciência do que diz e não usar apenas o palavreado para mostrar que são capazes, não podemos fazer outra coisa que não seja restarmos perplexos. E revoltados por que a nós não nos cabe tomar as iniciativas úteis que são fundamentais para poder fazer Portugal encontrar uma saída.
- Por último, dado que o País está numa situação económica insustentável – coisa que eu ando a escrever há imenso tempo -, afirmação que se ouve agora a todo o momento e que os comentadores de televisão e de jornais já não escondem, numa descoberta que só neste momento fazem, entendo que a minha vez de alertar o País se encontra ultrapassada. Repito o que sempre digo: ter razão antes de tempo tem pouca utilidade, sobretudo se não se dispõe do poder bastante para interferir na solução. Aproxima-se a hora de pagar as contas. Os que fizeram os gastos desnecessários não se dispõem a andar a pé ou de eléctrico e por isso compraram mais automóveis. E quando as coisas piorarem ainda mais, saem de cena e encafuam-se em lugares que os mantêm ainda com boa vida. Os de baixo, as multidões, os que se arrastam e já andam a remexer nos caixotes, que são uns agora mas serão mais dentro em breve, esses aguentam como podem. Até ver.
Não vou mais longe, por agora.
E, a partir de amanhã, vou ensaiar incluir neste meu blogue diário, trechos da minha obra intitulada “DESENCANTO POR ENQUANTO”, não só para dar uma ideia do que está por editar, ma também para desanuviar um pouco este espaço.Oxalá seja boa ideia

terça-feira, 13 de julho de 2010

SE EU NÃO ESCREVESSE O QUE FAZIA?


Se eu não escrevesse o que faria?
Se não pudesse passar ao papel
o que arde dentro e faz azia
seria de mim próprio infiel
estoirava
acabava
guardar só p’ra mim sem desabafar
recalcar no fundo as amarguras
já porque quem não gosta de falar
nas letras se vinga e nas pinturas

Quem escreve debita desalentos
em texto simples ou mesmo poemas
é uma forma d’abrir sentimentos
e igualmente de quebrar algemas
libertar-se
superar-se
no dia em que deixar de escrever
quando vier a sentir-me incapaz
é então a hora de perceber
que o que resta nada me traz
melhor é partir
deixar de existir
e quem cá ficar que faça as contas
que julgue os que primeiro partiram
e se conseguir que agarre as pontas
dos que quiseram mas não conseguiram

São assim os alcatruzes da vida
sobem p’ra encher descem e despejam
mesmo aqueles que passam de corrida
sem tempo que chegue p’ra o qu’almejam
mas génio mostram
mais tarde gostam
depois de cá não estarem p’ra ver
e de não lhes chegar a admiração
não tendo já por isso o prazer
de merecer especial menção

Enquanto por cá eu puder pensar
e possa escolher o que mais gosto
ao menos que não tenha de guardar
p’ra mim e tenha de esconder o rosto
envergonhado
culpado
por isso o qu’escrevo, o que pinto
melhor ou pior é para mostrar
porque o que deixo é bem o que sinto
outros que guardem ou queiram queimar

COMPARAÇÃO


NÃO SEI se esta minha dúvida tem assim tanta razão de ser. Depende, claro, do ponto de vista de que se parte. Será que se pode comparar um país doente com um ser humano com falta de saúde? Uma pessoa, em fase de se encontrar com demonstrações de fraqueza de várias espécies, de incómodos físicos, de dores até nalguma parte do corpo, por ter deixado prolongar essa enfermidade sem recorrer aos cuidados médicos, tal homem ou mulher pode equivaler-se a uma nação que, também por ter adiado a observação por técnicos para poder, a tempo, evitar o irreparável, atinge uma fase em que já pouco ou nada há a fazer para a sua salvação?
Tenho pensado seriamente neste dilema. Será, julgo eu, por, o Portugal em que nasci e habito se encontrar, nesta precisa altura, em confronto com uma luta de sobrevivência deveras inquietante, pois que os seus recursos são tão diminutos, as possibilidades de cura tão escassas, a competência daqueles que têm a seu cargo o prestar a assistência necessária tão débil, as reservas de alguma ajuda de retiradas do fundo do colchão tão insignificantes, que não se encontra força bastante para animar a população e, puxando por toda a esperança que ainda lhe reste, não consegue proteger-se no guarda-chuva que lhe estendem os optimistas de serviço.
Igualmente, devido a que a minha saúde pessoal também resolveu abanar-me, tendo-me agora avisado de que o meu desinteresse em recorrer à observação clínica a tempo, me faz pagar neste momento, com sofrimento duplo, o desinteresse que demonstrei em ser observado por quem tinha competência para o fazer, o panorama que se me apresenta é propício a que estabeleça a comparação que indico logo no início deste texto.
Como resultado desta situação, o que me salta como recurso é que, por minha parte, deixe de ser tão categórico nas observações que faço, neste meu blogue, no que se refere à situação, cada vez mais degradante, do nosso País. Não foi a tempo que os governantes auscultaram a Nação e fizeram o respectivo prognóstico para, em face dos resultados, diagnosticarem a doença que estava a invadir o corpo nacional. Por meu lado, não me sinto com competência suficiente para criticar os outros que não vêm, na devida altura, o estado da sua saúde. Se eu próprio actuei da mesma maneira, em relação ao meu corpo, o que devo fazer é resumir-me à minha insignificância e não levar tão a peito o desapego dos governantes que não tomaram as devidas cautelas quando ainda poderia existir alguma saída para a crise que avançava e que nós bem a víamos. No entanto, uma grande diferença existe: é que, cada um de nós tem autoridade suficiente para tomar a decisão que entender, sem ter de dar satisfações a ninguém; mas, no que diz respeito a uma Nação, como as más atitudes podem prejudicar toda uma população, há que actuar com consciência de que é os outros que se está a prejudicar quando não se toma o melhor caminho.
No que a mim diz respeito, o que tenho a fazer, portanto, é não persistir muito mais tempo com a linha que tenho seguido, e procurar não manter a mesma atitude a partir de agora. E, tal como está a acontecer com o nosso Portugal, resigno-me a aguardar o andamento das coisas. O que for logo se verá. E, quem sabe, às vezes produzem-se milagres!...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

UNIÃO IBÉRICA


O TÍTULO que saiu a seis colunas no acreditado “Expresso” não deixa a mais pequena dúvida. E ele diz assim: “A União Ibérica agrada cada vez mais”. Tal e qual. E, em todo o texto que enche o espaço descreve-se que a ideia consiste numa união federal entre Portugal e Espanha, a qual é apoiada por quase metade dos portugueses (45,6%) e por 31% dos espanhóis.
Este estudo feito pela Universidade de Salamanca aponta que a opinião vai na direcção de se atribuírem plenos direitos políticos aos cidadãos de um lado residentes no território vizinho e na formação de uma aliança estável como países ibéricos na União Europeia e na relação com a América Latina.
Este é um passo para a ideia que eu defendo há imensos anos, já muito antes da Revolução – o que me valeu uma perseguição por parte das forças policiais da ditadura –, e que não se instalou ainda com plena execução, apesar das dificuldades que temos, sobretudo do nosso lado, em sermos ouvidos com o devido respeito pelos países do grupo dos 27. O complexo que sempre se arrastou por cá, ao longo da História, e que a batalha de Aljubarrota marcou ainda mais o sentido de separação que começou nas escolas primária, tudo isso tem pesado, especialmente por parte dos detentores do poder do nosso lado, uma certa retracção quanto a irmos aprofundando formas de actuarmos de mãos dadas, em tudo que corresponda à melhoria da posição privilegiada de que, geograficamente, gozamos nesta ponta da Europa, toda rodeada por mar.
Eu não sinto perder nada do meu amor por Portugal, não vejo fugir a nossa rica língua, da mesma forma que as diferentes que se falam e escrevem nos vizinhos lá se manterá, e ambos os costumes, gastronomia, forma de actuar tudo permanecerá intocável, a moeda já é a mesma, as bandeiras cada um terá a sua, os hinos não se confundirão, mas a força para progredirmos, essa sim muito beneficiará no sentido de produzirmos em conjunto, cada um a dedicar-se ao que mais pode e sabe fazer mas formando um bloco para atacarmos os mercados mundiais de mãos dadas.
Os anti-espanhóis, que os há, esses preferem a tese antiga de que mais vale só do que mal acompanhado. Não pensam no futuro. Não se preocupam com o que se vai passar com os nossos descendentes. Mesmo numa altura em que a crise está a atacar a eito e que a Espanha não se encontra no máximo da sua riqueza, antes pelo contrário, até por isso seria o momento para estudarmos as possibilidades de unirmos forças e protegermo-nos mutuamente.
Leva tempo, demasiado, mas lá chegaremos. Se não for na época em que nos encontre ainda vivos, lá para diante as circunstâncias não perdoam e será o necessitarmos de um guarda-chuva que nos tape dos egoísmos europeus que convencerá que o que é inevitável não se pode ignorar.
Portugueses seremos sempre. Grande felicidade por Camões, Pessoa, e tantos virtuosos que foram naturais da nossa Terra, isso não perderemos nunca. Como, do outro lado, os Cervantes e todas as múltiplas figuras históricas que enchem o panorama das glórias espanholas, essas se manterão nos compêndios que ninguém pode retirar da riqueza dos vizinhos.
Nada disso briga com a conveniência de passarmos a ser a Ibéria. De termos as nossas regras e leis próprias e de aceitarmos as que sempre estiveram do lado de lá da fronteira. E, quanto a isso, não é por estar definido um traço dito fronteiriço que se estabelece um divórcio absoluto. Castela e Catalunha, tal como o Minho e o Algarve, mesmo com falares que se distinguem, estão incluídos no mesmo conjunto económico. Também os Estados Unidos da América lidam com conceitos legais que se diferenciam, mas não é por aí que os passaportes dos seus súbditos não são iguaizinhos
Mas, por muito que alguns atrasados me atirem pedradas por eu pretender encontrar forma de Portugal crescer como Nação e que deixe de ser este território humilde e pobre, que acreditem que eu mudarei de opinião, julgo que morrerei assim e, perdoem-me a teimosia, ainda ninguém me convenceu que este isolamento lusitano nos tem feito bem!
E que viva este Portugal que honra os seus antepassados, mas que pretende também que o seu futuro não seja uma terra de carpideiras!...

domingo, 11 de julho de 2010

EU SEI, EU SEI...

Mesmo antes, em pequeno
eu nunca me convenci
nem jamais disse em pleno
muito menos eu me cri
que era senhor da verdade
da tal, da absoluta
da que, com impiedade,
dá sempre começo a luta

Mais que falar é ouvir
sobretudo dos mais velhos
e aos poucos reunir
o melhor dos bons conselhos
daqueles que nunca mostram
sinais de sabedoria
e bem melhor se prostram
perante a boa mestria

Eu sei, eu sei nunca digo
temo bem estar enganado
Isto de ver só umbigo
sem mirar p’ra outro lado
tem perigos bem patentes
quando depois com prudência
com os outros já ausentes
pedimos é penitência
por esse e mais incidentes




OS "EU"


POR ESSE MUNDO FORA, onde existirem seres humanos, sempre se depara com gente que puxa pelo seu “eu” a propósito de tudo e de nada. Os artigos definidos para essa gente resume-se à primeira pessoa do singular, os restantes cinco parece não terem sido enunciados durante a primeira aprendizagem escolar e, pela vida fora, sobretudo se atingem posições de maior destaque do que os outros, fazem sobressair essa arrogância, pretendendo fazer ver que não existe o “nós”, que o “vós” é desprezível e que, o “eu “ sai sempre em primeiro lugar, com o “tu” em posição subalterna.
Não é verdade que, nas discursatas que muitos políticos que por cá temos, talvez mesmo todos, mas também é certo que outros actuantes em diferentes áreas dão preferência a esse prenome, todos os feitos, as defesas de teorias, as recomendações saem com o “eu” à cabeça? Por muito que os seus falares sejam feitos em nome de um partido, de um grupo, de uma comissão, até de um Governo não assumem que os temas que apresentam tenham origem de várias cabeças e vontades e que terá sido o resultado de um consenso de múltiplos participantes. Não senhor, é tudo obra exclusiva sua, o seu talento isolado é que produziu a decisão que é transmitida, boa ou má, porque o que importa é dar mostras de que a sua cabeça é privilegiada e o seu querer tem mais força do que o de vários que puxem para o mesmo lado.
Eu confesso o meu fraco. Não devia prestar grande atenção a tais modos de comportamento, já que, os que se encontram mais ou monos próximos, a esses faço o possível para não dar grande importância; mas se, cada vez que procure encontrar distracção num programa das nossas televisões, me sai no écran um fulano, dos que ocupam grande parte do tempo usado em tal aparelho, com afirmações de que “eu” quero, “eu” faço, “eu” mando, aí perco as estribeiras e a minha vontade é de desligar de imediato o aparelho. Mas a curiosidade é superior ao enfado. E, já agora, fico a tentar averiguar se, de facto, existe alguma boa nova de que valha a pena tomar conhecimento. E, na maior parte das vezes, não é isso que sucede. Trata-se de mais um elogio em boca própria, de outra soberba exibida. Uma tristeza!
Embora não me apeteça indicar exemplos, não posso deixar em claro os nomes de três figuras que usam e abusam do seu “eu”. Segundo parece, não têm a noção da má figura que fazem ao demonstrarem que tanto se amam a si próprios. Devem ser uns felizardos por essa característica, sobretudo porque eu pertenço ao grupo que suportam o desconsolo de uma convicção balofa, e, no mar das minhas dúvidas, suponho que não existe ninguém que saiba tudo, que tenha atingido o cúmulo da perfeição, que se encontra sempre disposto a comparecer perante seja quem for para discutir uma ideia que seja melhor do que a sua.
As três personagens mediáticas que não escondem as suas convicções no extremo da perfeição são, no meu modesto modo de apreciar e sem qualquer preocupação de ordem, os que não saem dos écrans de televisão e que aguardam ainda por melhores dias que o País lhes ofereça:
José Sócrates, inevitavelmente, será o primeiro a apontar; Paulo Portas, que bem se estica para conseguir o que ambiciona desde a sua juventude (altura em que eu até lhe proporcionei o primeiro emprego como jornalista); e Francisco Louça, que tem a sua utilidade como crítico político e que não consegue convencer os portugueses em número suficiente por se situar numa posição esquerdista que assusta ainda, apesar da Direita também ter dado o resultado que deu…
Face à notícia agora divulgada de, em casa e Basílio Horta, num almoço em Fevereiro passado, o primeiro-ministro convidou Paulo Portas para fazer parte do seu Governo, no cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, o que este, com bom senso, recusou, teria sido interessante assistir ao confronto de duas forças que, convictamente, se consideram ser donos e senhores da razão. Se não fosse para tremer de pavor, dava para rir à farta…
Mas deixemos os “eus” besuntarem-se com as suas vaidades, Desde que não prejudiquem o caminho que Portugal deve seguir para tentar salvar-se do descalabro que ninguém pode garantir que não esteja â vista, pois que satisfaçam a sua vaidade a mirar-se constantemente ao espelho.

sábado, 10 de julho de 2010

ODE À MORTE


Do que todo o ser tem medo
é o mais certo afinal
porque mais tarde ou mais cedo
ela surge tal e qual
rápida ou demorada
mesmo não sendo por mal
cara aberta ou disfarçada
no fim deixa o seu sinal

Mas porquê receio dela
só aparece uma vez
é certo que não é bela
mostra-se com altivez
mas também é salvadora
de sofrimentos atrozes
quando chega a sua hora
não atende quaisquer vozes

Eutanásia sua amiga
se não está proibida
compaixão a isso obriga
quem não tem outra saída
e acidente fatal
que calha a qualquer um
sendo resultado mortal
não há mais sítio nenhum

Se o homem pensasse bem
naquilo que tem mais certo
que depois não há mais vem
que destino não é perto
comportava-se melhor
enquanto por aqui mora
que a vida é uma flor
e a morte é um ir embora

Morte, morte não te ligo
quando quiseres aparece
morrer não é um castigo
pode ser uma benesse
estando farto de viver
até há quem a apresse
e estar perto de morrer
não há muito que o confesse

Cantemos, porém à morte
façamos essa justiça
é tornando o fraco forte
que mesmo sem haver missa
e com simples oração
deixamos ela levar
dos homens um nosso irmão
pond’outro no seu lugar

O homem tem essa arte
não quer ficar a perder
por cada um que parte
outros estão a nascer
a morte leva os que sobram
mas muitas vezes se engana
não são só os que soçobram
que interessam à fulana

De repente lá se morre
nem todos ela protege
quem anda no corre-corre
não tem vida que se inveje
por isso sem muita pressa
fazendo com calma tudo
até que o corpo arrefeça
e passando a ficar mudo

Não dizer mal da morte
dos ossos e da caveira
é ser-se até o mais forte
e mostrar boa maneira
o melhor é aceitá-la
como coisa natural
levando-a sempre na mala
pois ninguém é imortal

Se a morte não existisse
se tudo cá fosse eterno
imagine-se a doidice
o que seria este inferno
velhos, sim, é bem preciso
com saúde e alegria
mas novos maus dar sumiço
se não têm serventia

A morte faz o que deve
de certa forma o que pode
deixa este mundo mais leve
merece bem esta ode
eu não lhe tenho rancor
aceito sua altivez
mesmo não lhe tendo amor
cá espero a minha vez

Há quem consiga vencê-la
os que ficam assim pensam
bem vivos depois de vê-la
é fácil que se convençam
na cama de um hospital
vê-la passar de mansinho
a preparar funeral
que pode vir a caminho

Milagre da medicina
atrasa essa partida
pode ser a mão divina
que retardou a saída
ou será que a morte quis
mostrar que tem sua escolha
e feliz ou infeliz
de novo à vida se acolhe

O desistir de viver
é opção de cada um
quem comanda é o querer
e ter da vida um fartum
porém o não estar de acordo
pode ser que a morte pense
e não receber a bordo
quem a ele não pertence

Quem se indignar com isto
d’eu elogiar a morte
é não aceitar que Cristo
que também teve tal sorte
com todo o saber que tinha
podia acabar com ela
não a fazendo rainha
sentada numa estrela

Não, não julguem que é conluio
um acordo com a morte
que desta forma influiu
p’ra poder gozar da sorte
pois é tudo diferente
eu já tenho a minha conta
e perdi dose de crente
por isso pus-me na ponta

Andando estou sentado
para não m’afastar muito
e nunca sei se ao meu lado
lá estará com certo intuito
o que me pega na mão
e me apresenta à desdita
e só descubro se o caixão
s’encaminha p’ra desdita

O lume, a solução
tão temido tempos antes
hoje boa opção
dispensa participantes
do nada parte p’ró pó
é assim o ser humano
que isso do faraó
é coisa de gente insana

Fazer a cova na terra
lá meter o ente qu’rido
perder o que lá s’encerra
anos depois alarido
ao tirar ossos da cova
colocá-los em caixinha
fazer cerimónia nova
com mais uma ladainha

Aí, já morte se foi,
não lhe pertence o serviço
não constrói nem destrói
já não tem nada com isso
e a família distraída
quantas vezes perde o norte
e os parentes em vida
entregam-nos à pouca sorte

É que os covais das ossadas
parecem os d’Alemanha
nos tempos das malfadadas
e criminosas façanhas
sem saber a quem pertencem
alí se põem a monte
tal trato não merecem
e não há ninguém qu’as conte

A morte pois não culpemos
por nos levar quem amamos
quantas vezes não fazemos
aquilo que proclamamos
ajudando quem precisa
com bom gesto que se faça
a palavra paralisa
em má hora de desgraça

TAMARIZES DESTE MUNDO


QUEM, COM ALGUMA idade, bem se lembra da bela praia do Tamariz, quando era um local onde as elites, sobretudo financeiras, se reuniam a apanhar sol nos cadeirões que se estendiam ao longo do parapeito em frente da esplanada que ale sempre existiu, não poderá deixar de ficar surpreendido com os acontecimentos que ali ocorrem nesta altura. Eu ainda me recordo de ver, por exemplo, o Manuel Vinhas que, apesar de não necessitar daquele local para gozar os prazeres da praia, passava horas bem recostado, pois era uma oportunidade de trocar impressões com outras personalidades que por lá também passavam. Anos mais tarde, na minha vida profissional, tive ocasião de ter eorme ligação com o homem das cervejas e até em Angola existiu um largo convívio. É um saudosismo não de uma época, pois vivia-se em plena ditadura, mas sim de uma idade que, nós, os que não estávamos integrados naquela sociedade de privilegiados, dispúnhamos de saúde e de sonhos.
Também, quantas vezes eu pude ver a irmã cega do actual rei de Espanha, acompanhada dos seus amigos portugueses, passear naquela zona e fazer dali sua praia privilegiada!
O que sucede hoje no mesmo sítio? Bandos de negros – e não se veja aqui nenhuma característica de racismo – dominam todo o espaço e ocupam a areia em toda a sua extensão. Tratam-se de residentes em bairros que se situam nos arredores, na Galiza, S. João do Estoril, Caparide e outros locais e que, não tendo trabalho, optaram pelo Tamariz para fazer dali seu ponto de reunião. Estão no seu direito, num País livre não há que definir espaços e preferências, Ser branco, preto ou amarelo é exactamente igual perante a lei. Mas só uma coisa os pode distinguir: o comportamento. O não cumprirem as regras básicas da educação e o desrespeito pela execução absoluta dos fundamentos democráticos, que são aqueles que nos regem desde há 36 anos e que os que cá residem, sejam de que etnia sejam, isso é que não pode ser admitido. E há que tomar as medidas severas para que este País não tenha de sofrer para além daquilo que a crise já lhe impõe.
O que sucede é, porém, que as tropelias, os roubos, os distúrbios que ocorrem naquele clássico local de repouso, que só agora se tornaram notícia dos jornais e televisões, já há mais de um ano que os locais conhecem, pois eu, que costumo usar a gasolineira ali colocada há bastantes anos, fiquei a saber que existia um receio que foi aumentando, até porque a loja onde se paga o combustível, antes sempre aberta até para adquirir outros produtos, há tempos sempre fechada e a conta é liquidada através de um “guichet”, devido, informaram-me, à invasão de pretos que, vindos da praia do Tamariz, lá entram e roubam tudo…
Tenho amigos pretos, gente de grande qualidade que me merecem o maior respeito, um deles até me trata como pai, pois veio de Foi crescendo, paguei-lhe o liceu, fi-lo tirar a carta de condução, casou, teve filhos – agora até já um neto -, comprou automóvel e tem o seu apartamento pago, é muito respeitado onde exerce as suas funções de escritório, já foi visitar a mãe a Angola, depois de muitos anos, e continua por cá, visto ser este a sua Terra de adopção. Para mim é uma felicidade e a sensação de um dever cumprido.
Por isso, sinto-me à-vontade para criticar todos aqueles naturais de terras africanas e mais ainda os que já nasceram em Portugal e que não se integram nos costumes e formas de viver dos portugueses. Por muito que a revolta os assalte por falta de trabalho, o que é lastimável, têm de entender que também os brancos, com gerações lusitanas, lutam contra o mesmo dilema, não é por organizarem assaltos (mesmo que haja demasiados fora da lei que não têm qualquer ligação a países de África) que se podem considerar vingados da emigração que foram obrigados a fazer, eles ou os seus ascendentes.
Tudo isto sucede na ocasião em que as últimas sondagens apontam para um crescimento eleitoral do PSD, ao mesmo tempo que se verifica uma queda do CDS e do BE. Claro que isto são apenas tendências que, por sinal, se aproximam das que se conhecem existir em Espanha, França e até Alemanha, o que poderá ser consequência das medidas de austeridade que se impõem por toda a parte. Mas todos esses países recebem elevados números de imigrantes de diferentes origens, desde Norte de África até muçulmanos, que estão a provocar uma fricção de costumes que ocasiona desentendimentos. Não é, portanto, um problema exclusivo do nosso País e em todos os lados há zonas como o Martim Moniz de Lisboa, onde a mudança de comportamentos é bem visível.
Menos mal que o Governo e o PSD chegaram a acordo quanto às portagens nas Scut. Já é alguma coisa de positivo. Isso depois de tanta discussão que só nos tem de alegrar, apesar da vergonha que sempre nos fazem passar os homens ditos responsáveis, que tanto gostam das zaragatas para dar mostra de que a razão está sempre do seu lado, ainda que tenham de acabar por chegar a acordo, mas sempre com alegações de que a sua foi a vencedora…
O pior de tudo isto é que não existem, nem leis nem homens que sejam capazes de remediar os múltiplos dramas que nos envolvem. E já não me refiro apenas aos solucionáveis, pois vivemos num período em que não há capacidade para, dentro de um mínimo de espírito de colaboração, se procure ir encontrando, sucessivamente, maneiras de não estragarmos ainda mais o que já está a cair de podre.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

QUEIMAR AS PESTANAS

Lá vai o tempo, atrasado
em que queimar as pestanas
tinha o seu significado
por serem acções humanas

Sobretudo a juventude
que estudava à luz da vela
mantinha essa atitude
não vinha luz da janela

Hoje, com tanto avanço
não há perigo em queimar
as pestanas, um descanso

Nem estudo é de arrasar
e a vela só usa o tanso
a frase é só p’ra lembrar!

QUEIMAR AS PESTANAS


ESSA FRASE tão antiga, que vem do tempo em que os estudantes só contavam, à noite, com a luz de petróleo para se agarrarem aos livros e se prepararem para os exames, chegada a esta altura, ao século XXI, da profusão de luz para podermos efectuar os nossos trabalhos ou os nossos prazeres sem a menor dificuldade, melhor ainda do que com a luz do dia, esta expressão não tem aplicação a não ser em sentido figurado.
Mas, mesmo nestas circunstâncias, sempre valerá a pena recomendar a muita gente que se debruce sobre os problemas que tem para resolver e que os estude aplicadamente, como se tivesse que se apresentar perante um julgador das suas capacidades e fosse obrigado a tentar boa nota.
Quem, convencido que decorou toda a matéria e que não necessita aprofundar mais os conhecimentos, abandona o estudo e se prontifica a executar a tarefa que tem pela frente, ainda que o resultado da aprendizagem seja apenas o de “pegado com cuspo” esses podem depois deparar com uma obra que dá “com os burrinhos na água”. É o que sucede com mais frequência por cá.
Ora aí está com o que eu deparo ao pretender seguir as notícias que a nossa “bela” Imprensa de hoje nos pretende transmitir. Dou comigo de cócoras, isto é sem vontade de prosseguir a caminhada que terei ainda para percorrer. E isto é apenas uma amostra do que li.
Perante uma agência de viagens antes bem conceituada, a Marsans, de quem eu já fui cliente, a encerrar subitamente as portas e a deixar apeados sem férias, um número enorme de fregueses que, apesar da crise, já tinha as malas prontas para partir para diferentes destinos e gozar as suas poupanças (afinal ainda há disto!); face a uma afirmação de Cristiano Ronaldo de que terá pago, pelo silêncio de uma misteriosa barriga de aluguer, mais de 12 milhões de euros – o equivalente apenas ao seu ordenado de um ano -, ficando a pertencer-lhe exclusivamente a custódia do seu bebé, tendo havido quem já fez as contas de que a herança do jogador de futebol vale, neste momento, 180 milhões de euros; deixando a gente antiga bastante triste com a notícia de que o Rádio Clube Português vai despedir 36 trabalhadores e que deixa de funcionar aos domingos; tendo decorrido o 8 de Julho em que a CGTP saiu à rua para reclamar contra a situação fiscal que considera insuportável, como se tais saídas à rua fizessem algum efeito, para além da paralisação do trabalho; tomando conhecimento que se teve de que Miguel, também um jogador de futebol da selecção nacional, participou num tiroteio entre dois grupos de noctívagos frequentadores de discotecas; contemplando uma página inteira de um diário com a afirmada agressão de Filipe La Féria a uma costureira, porque não gostou do guarda-roupa feito para uma produção sua; e, por último, ao ter chegado a notícia de que o Tribunal Europeu de Justiça “chumbou” a decisão tomada pelo Estado português de ter utilizado a “golden share” para eliminar a vontade mostrada pelos accionistas da PT na assembleia-geral realizada há dias, o que vai dar ainda muito que falar, pois o Governo não deu, de imediato, mostras de aceitar pacificamente tal decisão; francamente, ao ler e ver nas televisões todas estas notícias, das mais variadas espécies, fecho os olhos e penso. E interrogo-me: Mas é este o País que me rodeia? É em tal pátio de zaragatas e de desentendimentos, em que todos se julgam com a absoluta razão, que eu tenho de continuar a viver?
A pergunta faço-a, mas a resposta que imagino não me satisfaz.E assim vou queimando as pestanas, mesmo sem luz de petróleo e servindo-me da tecnologia moderna do computador. Serve para alguma coisa

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ANDAR POR CÁ

Andar por cá a arrastar-se
sem que a idade ajude
vá lá a gente fiar-se
pois tudo nos desilude
e os dias vão passando
vem mais um aniversário
sem saber como e quando
acaba este calvário

O sofrer com a doença
ninguém quer mas tal sucede
lá se vai mantendo a crença
de vir o que bem se pede
p’ra não fugirmos à sina
de dar com o inesperado
situação que mofina
mesmo passando ao lado

Mas, p’ros novos ensinar
devem cá estar os mais velhos
se dizem não precisar
sempre metem os bedelhos
mesmo p’ra não repetir
os erros já praticados
para poder prosseguir
caminhos novos traçados

Ao menos que o sacrifício
que cada idoso suporta
preste algum benefício
e ajude a abrir a porta
qu’aos novos a vida oferece
com teoria sem prática
e a juventude merece

São assim as gerações
e os que ainda se movem
assumem obrigações
por isso não se comovem

RICOS


JULGO QUE não existirão grandes dúvidas de que, no que me diz respeito, não sou um acérrimo defensor das grandes fortunas e que, por isso, também não concordo com as medidas que lhes dão ainda maiores regalias. Em todas as situações mas, particularmente, quando o mundo atravessa períodos de grande debilidade económica e financeira e que a fome, em inúmeras áreas terrestres, não se consegue extinguir, sendo enormes as barreiras que separam os dois pólos opostos, é aí que os homens de bem devem procurar contribuir, dentro das limitações de cada um, para que diminuam tamanhas e tão terríveis anomalias.
Mas, dado que a vida dos seres humanos obedece a princípios que os crentes das religiões aceitam como sendo uma determinação superior, ou seja, em face da realidade com que deparamos desde que o Homo Sapiens se instalou nas suas múltiplas craveiras, mostra-nos a História que sempre existiu essa malfadada separação, com uns a viver em palácios e outros a dormir debaixo das pontes. E, por muito que tanta gente se indigne, que surjam políticas com a pretensão de eliminar tão cruéis diferenças – mas que os próprios homens depois as anulam, para obter benefícios próprios -, que se consumam milhões de páginas de literatura que os génios da escrita aproveitam para alimentar os seus romances, a verdade é que, século após século, ano atrás de ano, não se verifica uma actuação que consiga eliminar a tal desigualdade de vidas que, pelo menos da boca para fora, se proclama com tristeza em todos os momentos. E se Jesus Cristo foi a figura que ficou na História, desde há dois mil anos, a hastear a bandeira da bondade absoluta, continuando a ser venerado ao longo de todos os tempos pelos denominados cristãos, a linha religiosa que conta com maior número de seguidores, se, nesta era, fizesse nova aparição e repetisse a proclamação dos bons actos e da santidade, a dúvida quanto aos resultados que poderia conseguir é mais do que justificada. Penso que ninguém lhe ligaria e até talvez voltasse a ser escorraçado e condenado de novo à morte. Seria um empecilho!
Actualizando-me com os factos, vem a propósito referir a decisão tomada agora pelo Governo actual, obrigando os bancos estabelecidos em Portugal a prestar a informação permanente dos depósitos bancários, a pronto e a prazo, dos seus clientes, para poder taxar fiscalmente sobre os juros que cada um recebe. Poder-se-á encontrar justificação para tal medida, sempre sob o ponto de vista de controlar os muito ricos e fazê-los contribuir para ajudar o Estado a enfrentar as dificuldades e a poder actuar nesse flagelo que também é agora anunciada de que há cada vez mais famílias portuguesas a viver sob o estigma da pobreza. Moralmente está certo, mas o perigo no que respeita às fugas de capitais para paraísos fiscais, essa corrida para o exterior é um risco que pode sair mais caro do que a não cobrança de impostos a esses felizardos da excessiva fartura. E toda a gente sabe que o dinheiro não tem Pátria!
Acresce ainda que, segundo alguns legalistas, a norma que entra em vigor tem de ser decidida e votada na Assembleia da República, sendo que esta ausência de atitude já é um costume em relação ao que ocorre por cá, visto que o próprio Presidente tem de recorrer com frequência ao respectivo Tribunal, tantas são as decisões tomadas um pouco de ânimo leve, que impõem o olho crítico dos “sábios” constitucionalistas.
Eu só falo neste tema porque, na verdade, todos nós, cidadãos que ainda andamos atentos aos passos que os governantes dão, não podemos suportar mais que não exista um mínimo de cautela e de competência para que, antes de serem tornadas públicas decisões dos Executivos – deste como dos anteriores -, sejam tomadas todas as cautelas para que não esbarrem depois com as implicações em relação às normas legais.
O que não falta por aí são discursos de acusações sobre o que anda mal, o que são escassas são as indicações concretas das formas de solucionar os problemas. Do Governo, já se sabe. Mas do lado das Oposições também não são transmitidas operações concretas que possam ser aplaudidas ou repudiadas pelos habitantes.
Dizer mal, é fácil. Indicar caminhos e assumir a responsabilidade pelo que cada um faria se estivesse no Executivo, isso já é demasiado comprometedor. Eu, por mim, gostava de tomar conhecimento de um trabalho deste género para me podar pronunciar e ir formulando o meu apoio na hora de uma votação.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

QUALQUER DIA

Será um dia, será
hoje não, não me apetece
a vontade chegará
pode ser que me interesse
qualquer dia
de euforia
pegarei no tal assunto
e mesmo a contragosto
esforçarei o bestunto
actuarei mal disposto

Que isso do qualquer dia
costume bem português
faz parte da apatia
de quem o diz muita vez
qualquer dia
que mania!
há-de ser quando calhar
sem perder a paciência
há que saber esperar
e pôr de lado a urgência

Eu não sei quando será
que tal coisa eu farei
a altura chegará
e então descansarei
qualquer dia
tal poesia
surgirá da minha entranha
aquela que vai ficar
como autêntica façanha
deste poeta invulgar

E esse trabalho insano
a aguardar o tal dia
só pode ser por engano
que se chame poesia
qualquer dia
que alegria
e se for capaz de tal
hoje não é por certo
pois o meu estado normal
é não ter génio por perto

E se ajuda lá vier
de um talento que eu não tenho
nesse tal dia qualquer
encontrarei o engenho
qualquer dia
que alegria
e a obra sairá
autêntica melodia
e a frase morrerá
aquela do qualquer dia








VIVAMOS A FINGIR


SUSTER UM SORRISO na boca, dar início às conversas com os amigos sem apresentar um ar sorumbático, referir assuntos da vida que nos rodeia sempre com aspecto de que as coisas estão a correr de harmonia com os nossos desejos, comportar-se dessa maneira terá de ser a única forma de não transmitirmos aos outros sinais de descontentamento. Quem for capaz de se comportar desta maneira, seguramente que torna mais agradável o contacto com os parceiros. Pode não corresponder à verdade, mas o mundo também não aprecia excessivamente as clarezas e os disfarces, não só na política, conseguem passar aos outros uma forma cativante de angariar simpatias.
Digo isto para tentar convencer-me da maneira que eu devia adoptar e ter adoptado ao longo da minha vida, pois que não temos de andar por este mundo só para irmos acumulando aborrecimentos, pelo que o caminhar por veredas floridas, sem prestar atenção às plantas que se encontram já murchas, é, de facto, preferível a sentirmos o odor dos estrumes.
Os que leram o célebre livro do espanhol Miguel Cervantes, o belo “D. Quixote de la Mancha”, se prestaram atenção às aventuras de um sonhador que lutava contra o irreal e, na companhia do seu Sancho Pança, estava convencido da importância da sua missão, estará em melhores condições de se adaptar à situação actual do nosso País, em que são inúmeros os moinhos que merecem que se lhes provoque uma derrocada, mas que, por serem apenas míticos esses edifícios que desafiam a paisagem, todo o tempo que se perde a querer enfrentá-los é completamente desperdício, pois que não é com inofensivas espadas que se penetra nos bem defendidos torreões.
Só de passagem, pois não pretendo entrar em pormenores e não estou disposto a fazer papel do burro do pobre Sancho Pansa, apenas colho de passagem dois temas que li de relance na Imprensa de hoje:
1. - que Carlos Queiroz “encaixou” 800 mil euros com o feito de ter sido o seleccionador nacional da equipa de futebol portuguesa (10% do que a FIFA atribuiu em prémios à FPF)
2. – que, ao mesmo tempo, a nossa Federação sofreu grande prejuízo com o referido evento.
Então não é com alegria que devemos encarar este acontecimento?

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sendo pequeno ou grande
não o tendo lá faz falta
o preciso é que o pé ande
em perna curta ou alta

É isso mesmo o pé
que há quem o mostre exaltando
pois se não cheira a chulé
é muito útil andando

Há quem tenha um pé de meia
se ponha em pé de igualdade
e quem tenha a alma cheia
de sorte e felicidade

A água pé é bem boa
bebida em hora certa
na província ou em Lisboa
sabe bem se a sede aperta

Ter-te aqui ao pé de mim
agarradinha ao teu macho
é como uma tampa assim
a tapar sempre o seu tacho

Se o magoo lá vou eu
a andar ao pé coxinho
pois foi o que aconteceu
ao meu querido pezinho

No transporte, se está cheio
lá tenho de ir de pé
de outra forma não há meio
ali não há canapé

Para fazer o caldito
à lareira, lá na terra
no tripé o caldeirito
se usa e nunca erra

A montanha lá no alto
mostra ao longe e mostra ao pé
cá em baixo no asfalto
só se vê é o sopé

Quando incomoda o ruído
e não dá para banzé
não se ouve nem gemido
andar só pé ante pé

Também há aquele ainda
que põe a postura falsa
e não será muito linda
é mesmo um pé de salsa

E quem actua com manha
usando a falsa fé
não podendo ser aranha
vai sempre em bico de pé

Com tudo isto, afinal
para quem procura paz
aqui neste Portugal
deve andar de pé atrás







RISOTAS


QUE CONTENTE que eu fiquei! Que grande ajuda que foi dada para afastar a angústia que me devora! Que excelente notícia que foi dada a todo o povo português! Ronaldo é pai!...
Com 25 anos de idade nasceu-lhe um filho e a mãe não se sabe quem é!
Toda a comunicação social exortou e apropriou-se de notícia de tamanha importância. Deu-lhe honras de tempo de antena especial e de primeiras páginas, indo continuar, está mais que visto, por longo tempo com a cobertura de tão deslumbrante acontecimento.
Nuno Gomes, outro jogador de futebol – e é preciso dizê-lo, pois pode haver alguma gente que não esteja muito ao corrente -, também foi pai no mesmo dia em que Ronaldo tomou conhecimento do seu caso e teve sorte por isso, dado que a coincidência lhe valeu um canto de uma notícia que lhe foi dedicada.
Perante um caso de tão alta importância, como que nascerem crianças por esse mundo fora seja um sucedimento raro e os mais de seis mil milhões de habitantes que ocupam o Globo surgiram por artes mágicas, temos de nos render às evidências e confirmar o que estamos todos fartos de saber: que há situações normais e correntes que, por razões especiais, são elevadas ao máximo da importância e que é isso que, no nosso mundo, distingue enfaticamente umas minorias da grandeza de população que nasce, vive e morre sem que alguém perca tempo a tomar conhecimento da sua existência.
Agarro-me assim a tão entusiasmante notícia que os portugueses receberam nesta altura e não a deixo fugir sem a aproveitar neste meu blogue. Não há má disposição que resista a tanta alegria. Cristiano Ronaldo, que não deixou grande marca na sua passagem pela África do Sul, em contrapartida foi pai de uma criança. E, por sinal, esse rapazinho nasceu rico! Que mais poderia desejar, já que, segundo parece, de boa saúde ele é?
Conclui-se então que a paternidade sucedida a Ronaldo representa uma boa nova, mas como, infelizmente, não há bela sem senão, há que acrescentar o panorama com que nos debatemos na nossa Terra.
Poderei, assim, acrescentar alguma coisa. É que este nosso rectângulo sofre do mal da baixa natalidade, o que ocasiona o envelhecimento demográfico de que somos vítimas. Os indicadores relativos à fecundidade apontam para 1,3 nascimentos por casal, ou seja cada dois proporcionam o aparecimento de um novo rebento e pouca parte de outro, ao memo tempo que é cada vez mais tarde que se realizam casamentos lusitanos e a nascença do primeiro filho encontra-se na faixa dos 28,6 anos para as mães.
E, claro, não podia faltar o motivo da crise. O desemprego, as necessidade das progenitoras trabalharem fora de casa, a cada vez maior falta de meios, tudo isso é responsável pela baixa natalidade da população branca, enquanto que, por parte das revoadas de imigrantes de diferentes origens e raças, se verifica um enorme desabrochar de nascimentos, sendo que, portugueses como são por verem a luz no nosso País, contribuem para que, dentro de alguns anos, a característica lusitana que, já por si, é descendente de diversos tipos de povos que ocuparam a Península Ibérica, sobretudo de nórdicos, acabará por mudar de cor, numa espécie de vingança dos que, com as descobertas e as nossas ocupações de terras longínquas, passando os loiros a desaparecer e vindo a ser o escuro que tomará conta de todo o território.
Chorar? Para quê? Rir? Também não serve para nada. Aceitar o que for, como sempre fizemos antes. Eu, por mim, ponho-me a imaginar o que será e só me resta encolher os ombros e aguardar por mais notícias alegres que possam prestar ajuda para poder continuar este blogue.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

TRISTE LISBOA

Rua vazia
de gente viva
onde é que pára
população?
Eu bem queria
cidade activa
não fosse rara
certa tensão
mas não se vê
o movimento
a alegria
duma cidade
neste café
onde eu assento
não há quem ria
só alta idade
estamos pois
a caminhar
no tal sentido
do cemitério
p’ra um depois
um certo esgar
sem alarido.
Esta é a sina
de um País
em decadência
já sem vontade
força latina
nem cicatriz
se vê essência
cá na cidade
até faz sol
e pouco frio
o clima é bom
não é por isso
velho briol
sem desafio
perdeu o tom
e o feitiço
e as tabernas
que alegravam
já pouco existem
sem freguesia.
Há poucas pernas
que não integram
e não resistem
à correria
ruas bem tristes
de ti Lisboa
já não existes
já foste boa.


ANGÚSTIA


POIS É ISSO. E volto ao tema de ontem. Esta angústia que me anda a roer por dentro, que me acompanha ao longo dos dias, que me tira todas as forças para me ir mantendo neste mundo que, no meu entender, já nem merece que nos inquietemos por ela, a minha e a dos outros que também a têm, pois as amostras que o ser humano nos anda a dar, não só de hoje pois já vem tudo de muito longe, não justificam que nos inquietemos pelas más acções que saem permanentemente das obras do Homem, essa tamanha amargura que eu vou acumulando não justifica que, pelo menos no meu caso, continue a dedicar atenção a tudo que se movimenta ao cima da Terra.
Eu julgo saber (tenho sempre dúvidas) que este estado de alma é caso que merece a ajuda de um psiquiatra. Talvez essa parte da ciência possa fazer alguma coisa de benéfico, no sentido de me afastar dos pensamentos e das observações que me colocam neste estado de apreensão. Que o dedicar-me aos meus quadros, aos meus poemas, à literatura pura e simples, sem ter de intervir nas ocorrências que, quer em Portugal quer em todas as civilizações que, cada vez mais, utilizam as novas tecnologias para provocar desentendimentos sucessivos entre os que se mantêm vivos e que julgam que a morte nunca os atingirá, que o encafuar-me na minha própria personalidade, o isolar-me dos problemas terrestres me pode transmitir alguma serenidade, eu imagino que uma recomendação deste tipo dada por quem é fiel seguidor dos princípios psicológicos talvez me retire parte desta angústia. Só que o pior é que, no que me diz respeito, o olhar para dentro, o contemplar-me, o avaliar aquilo que sou e o que valho, o panorama que se apresenta não é, de forma alguma, muito agradável. Não fico embevecido.
E ao acompanhar o que se passa neste nosso País, depois de ter suportado na pele o que foi antes, com conhecimento das partes tristes da nossa História que se procuram em ocultar e que os feitos heróicos não compensam, ao não poder ignorar o que, depois da Revolução e nesta altura concreta, tem vindo a desenrolar-se, é, francamente, entusiasmante ser-se espectador e, sem querer, participante?
Depois de 80 anos de vida, ela própria muito activa, recheada de acontecimentos que não são normais nos cidadãos comuns, tendo visitado mais de 60 países, sempre profissionalmente, com actividades de responsabilidade, com sustos e alegrias, sempre com a preocupação de manter o sentido de ética e de bom comportamento, ainda que consciente de que nem sempre esses objectivos foram completamente atingidos, chegado a esta altura teria aspirado contemplar tudo que me rodeia, quer no meu próprio País quer no espaço lá fora, pois aquilo que me é dado assistir é a uma amálgama de más criaturas, de gente que tem como única preocupação o seu bem estar próprio e que não hesita em sacrificar o próximo para tal obter.
E, só de passagem, ao ter ouvido hoje que o Bastonário da Ordem dos Advogados garantiu, perante as televisões, que o julgamento do caso Casa Pia vai acabar por prescrever, então face a esta pouca vergonha há ainda alguém que admita valer a pena insurgirmo-nos em Portugal contra as patifarias que cá ocorrem?
De facto, como já ouvi dizer, este nosso mundo seria um enorme aborrecimento se todos os seus ocupantes fossem boas pessoas, se não provocassem conflitos, se não houvesse zangas, se a luta pela melhoria de vida de cada um não tivesse que ser uma constante, se a inveja não existisse, se a maldade figurasse apenas nos livros dos maus exemplos. Tal como nos comportamos, pelo menos, sempre se divertem os que sentem prazer com o mal dos restantes, sobretudo quando há os que saem vencedores dos encontrões que dão aos outros.
Será assim. Mas eu já não consigo continuar a assistir a um tão triste espectáculo. Já fui actor demasiado tempo e protagonista involuntário, pois apenas assistente, em muitas dessas cenas. Tenho direito a ter a minha angústia, sobretudo se não me resta outra alternativa que não seja o de também fazer parte desta imensidão de más feitorias.
Em todos os momentos penso neste dilema. E, como não sou excepção e não posso deixar de sentir a tal inveja corrente, arrepelo-me ao contemplar aqueles que não param para pensar e que tudo que ocorre lhes é indiferente! … Pelo menos terão, isso sim, uma dose de felicidade muito mais elevada do que aquela que eu gostaria de ter. Só que ninguém é senhor de escolher as suas formas de sentir.
Vamos a ver quanto tempo me aguento nesta posição de amargura. Recuso-me a ler o que escrevi. Certamente arrepender-me-ia e por isso não olho para trás.

domingo, 4 de julho de 2010

TRISTEZAS FADISTAS

As tristezas cá se cantam
motivos há para as ter
cantá-las pouco adiantam
não se deixa de sofrer

Na vida não fica espaço
p’rao mesmo tempo ter tudo
o fado canta o que faço
mas não posso fazer tudo

O fado espelha a alma
daqueles que mais sentem
o cantar algo acalma

Se dizem contrário mentem
pois há quem o leve à palma
e se calam consentem

FARTO, FARTINHO


TENHO ANDADO a vegetar por este mundo. Vontade de permanecer por este vale de lágrimas, confesso que não é, da minha parte, excessiva. Refugio-me no que escrevo, na prosa e na poesia, de vez em quando com alguma pintura, mas cada vez mais chego à conclusão que me ando a enganar a mim mesmo. Na verdade, pretender deitar para o exterior quando o que há cá dentro não tem valor que justifique tal ânsia, essa aspiração tem que resultar naquilo que é a realidade com que me deparo: ninguém se mostra interessado em ler o que debito no computador. Fica tudo no disco e, apesar da informação que recebo periodicamente de que atingiu a casa dos mais de oito mil leitores deste blogue, não sei se serão sempre as mesmas pessoas que, de passagem, lá visitam o endereço que já facilitei a umas tantas criaturas que fizeram o favor de tomar nota, e nada mais do que isso, pois que comentários que ficam registados, esses não posso considerar que sejam tantos que me convençam que, a concordar ou a discordar, sempre existe gente que lá vai seguindo os meus desconsolos.
E é isto. Não me sinto nada entusiasmado a prosseguir com este enfadonho fardo que escrevo diariamente. Aquilo que eu nunca gostei de fazer, que é o considerar-me como qualquer coisa que vale a pena, tem-me mantido em frente do computador a, diariamente, depois de me enfiar nas notícias que são propagadas nos meios de comunicação social, desabafar uma opinião que não acrescenta nada ao que ocorre no mundo que me rodeia.
Entendo, portanto, que o melhor é reflectir sobre se devo parar. Não vale a pena escrever mais com a tentação de que os outros apreciam o que debito nesta máquina infernal.
Este texto, que nem releio, foi redigido de uma assentada. Nem o contemplo depois de estar escrito. O que está, está.
O que desejo, pois, é que todos compreendam a minha posição. A mim basta encafuar-me e ficar mudo. Se me convencerem a mudar de opinião e, ao mesmo tempo, se vier a sentir a falta deste descarregar para o computador, não porque julgue que os outros necessitam de ter contacto com as minhas linhas e os meus poemas, mas apenas e só, egoisticamente, por ser a mim que este exercício faz bem, então, não digo que todos os dias, como até agora, mas de vez em quando, de tempos a tempos, então poderá recomeçar o que paro nesta altura.
A partir de agora este meu compromisso não está garantido. Já veremos o que sucede amanhã.

sábado, 3 de julho de 2010

A ÁRVORE E O HOMEM

Árvore, homem são iguais
os dois com suas raízes
mas às vezes são demais
e tornam-se uns infelizes

O homem não é excepção
como árvore na floresta
quando chegar dia não
lá parte e se vai desta

A árvore nossa amiga
ali está p’ra nos servir
e quanto mais antiga
melhor é o seu cumprir

O seu fim nunca se sabe
pode até ser na fogueira
logo que o seu tempo acabe
seu destino é ser madeira

A floresta mete medo
quando por lá nos perdemos
é tal e qual o enredo
em que às vezes nos metemos

Subir à árvore em pequeno
é prazer da miudagem
mas pisar um bom terreno
exige menos coragem

Por muito que não se queira
cada dia é menos um
quem chega à nossa beira
acaba por ser nenhum

Os outros dizem o mesmo
a minha vez chegará
toda a gente vai a esmo
ninguém vai ficar por cá

A dúvida que aqui se deixa
é se esta nossa passagem
dá motivo para queixa
de quem fez igual viagem

Se poucos deram por isso
nem mal nem bem praticou
não foi o tal enguiço
enquanto por aqui andou

E a maioria é esta
dos milhões que aí param
é árvore em floresta
se a cortam nem reparam

Alguns que são mais falados
depois da sua partida
até foram maltratados
no percurso desta vida

Não é por muito lutar
durante a sua existência
que alguém pode julgar
que serve de referência

Homem velho, muitos anos
e tanto que ele sofreu
nunca fez grandes planos
só os que Deus lhe deu

A sombra que a árvore dá
para o homem é um prazer
mas quem ao lado está
por vezes nos faz tremer

Contas feitas afinal
entre os dois há diferenças
na busca do ideal
encontramos parecenças

Um e outra são precisos
um queima outra é queimada
mas os homens sem juízos
fazem sempre mais borrada

E tanto corta n’amiga
que um dia fica sozinho
perde onde hoje se abriga
e onde aves fazem ninho

Mas é esse o destino
traçado pela maldade
o homem esse traquino
não melhora com idade







DISCUSSÕES


NÃO HAVERÁ MUITA GENTE que possa entender o motivo por que dois partidos, um do Governo e o outro na Oposição, este com percentagem agora mais favorável por parte dos possíveis votantes, segundo as sondagens, ao discutirem a forma de encontrar uma solução para um problema que se ponha na situação nacional, não são capazes de o fazer em privado, cada qual com a sua opção, como é evidente, mas só trazendo a lume o que ficar decidido no final das controvérsias, sem regatear em público, como está a acontecer agora?
É claramente um apetite de atirar pedras na praça pública, o que só serve para que todos fiquem ainda mais cientes de que os políticos que temos, sejam eles de que grupo partidário sejam, não têm comportamentos de gente séria e decente, e que só através dos confrontos de palavras é que talvez encontrem forma de se entenderem. Uma pena.
Não importa o tema, não lhes chegam as trocas de palavras no Parlamento, que é um local onde, na verdade, tal acção pode e deve ser utilizada, até para criar os ambientes onde, posteriormente, as votações dos diferentes grupos fazem valer os princípios que defendem. Agora, utilizar todas as manifestações no exterior e sobretudo desejando tirar vantagem mediática das declarações nas televisões e nas entrevistas que concedem a torto e a direito, retardando por dias e semanas a chegada a um acordo, proceder dessa forma é dar mostra pública de que um entendimento entre os nossos políticos é coisa que faz parte das suas prioridades.
Que interessa a esses profissionais da política, os que lá recebem os seus salários e as suas benesses através da actividade que praticam e que, conforme se sabe, não são de gente com dificuldades financeiras, que lhes interessa que, por exemplo, o desemprego tenha chegado já a um número que tem de assustar qualquer português, mais de 700 mil, que os assaltos e roubos, até nos comboios, constituam uma actuação que passou a considerar-se normal, que cada vez há mais estabelecimentos comerciais a encerrar as suas portas por falta de clientela, que as falências já nem causem admiração a ninguém que vive em Portugal? Nada disso é importante, pois o que se encontra na primeira opção é prolongar as discussões para saber como se pagam as portagens nas scuts, como se este assunto constituísse uma prioridade e tão grande quebra-cabeças, com grande dificuldade em encontrar um acordo entre as partes.
As vaidades dos homens que fazem parte desses grupos partidários levam-nos a que, ao atingir-se o ponto de encontro de opiniões, cada um afirme publicamente que foi a sua que teve o privilégio de sair vitoriosa, como se de um campeonato se tivesse tratado. Uma vergonha!
E os restantes partidos, os que não participaram nas ditas reuniões, também não ficam calados. Não querendo ficar de fora do “teatro” montado, também prestam as suas opiniões, afirmando que eles teriam chegado à melhor conclusão muito antes…
Mas, finalmente, neste País, o que é da máxima importância é culpar o Carlos Queirós por Portugal não ter passado no Mundial de futebol, como se fosse esse o assunto e a personalidade de maior importância e mais urgente para a solução de problemas graves do nosso País. Somos, na verdade, uma Nação e um povo – logo assim são os políticos que cá exercem as suas funções – que gasta todos os seus esforços e recursos em matérias que, seria bom que terminem a nosso contento mas que, se não for assim, não é por aí que contribuem para a nossa desgraça. Pagar as portagens desta ou daquela forma (e haverá uma que pode ser a mais indicada) não tem de constituir um emaranhado de reuniões, de confrontos de maus modos, de cenas em que se atiram uns contra os outros.
Tenham bom senso, senhores!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

MEDO DE MORRER

Ter tanto medo da morte
porque se deixa esta vida
é não ter espírito forte
não aguentar a corrida

Ao longo de toda a vida
arrastando tal sofrer
nem se dá conta na ida
que o mal foi muito viver

Demasiado, pois foi
para além do necessário
e isso mesmo é que dói
transformar-se num fadário

Quando só se dá trabalho
aos outros que por cá ficam
o que resta é enxovalho
e em vida se crucificam

Mas os que sofrem agora
foram úteis noutra altura
não se podem deitar fora
seria a maior loucura

Terão uns tantos razão
que não desejam sofrer
e se podem ter opção
temem pois demais viver




IMPOSTOS BEM USADOS?


A PARTIR DE ONTEM o Estado passou a arrecadar ainda mais dinheiro pago pelos contribuintes portugueses. Dois mil milhões de euros são o aumento que se verifica nos cofres do Estado devido à subida do IVA e do IRS. É preciso e ninguém pode reclamar por essa medida, mas o que resta saber é se os autores dessas decisões utilizarão correctamente o que obrigam os cidadãos a pagar. Por sua vez e como não poderia deixar de ser, os preços dos transportes urbanos e de produtos de primeira necessidade, como a água e a electricidade, sobem de custo e, como sempre, os que menos têm são os que vão sentir mais na carteira os efeitos desse castigo. Como é habitual nesta nossa Terra, os que decidem não são capazes de encontrar fórmulas que carreguem mais os que podem pagar e que não castiguem tanto os mais pobres. Aumentar o preço do pão, do leite e de outros produtos de necessidade básica, isso é que dói termos de suportar. Por outro lado, fazer pagar mais impostos retirados dos ordenados também é penoso.
Este é, pois, o caminho que tem sido indicado neste blogue, como inevitável, dadas as dificuldades que são patentes por parte das nossas contas públicas que não chegam para fazer frente aos compromissos que, ao longo dos anos e particularmente dos últimos, do Governo de José Sócrates, foram e ainda são assumidos para que, mais tarde, alguém os enfrente e tenha de retirar de onde não há para contentar os credores. E, perante o que se tem de considerar como um problema sem solução imediata, não é aqui que terminam as atitudes de esfolamento a que os poderes oficiais terão de deitar a mão.
E, uma vez mais, volto ao problema das reformas. Começará pela anulação dos dois meses suplementares que, no Natal e nas férias, os que têm os seus salários os passarão a ver reduzidos a apenas doze meses. É o princípio. Porque, como já sucede com os montantes que são atribuídos a quem alcança nesta altura o fim do seu período laboral, quem ainda recebe por contas feitas tempos atrás acabará por assistir, de mãos na cabeça, a cortes que serão sucessivos.
E porquê sou tão seguro naquilo que aqui tenho deixado escrito? Pois precisamente por que é cada vez maior o já elevadíssimo número de desempregados, logo, os que ainda podem descontar a sua parte para os Fundos de Desemprego e para as reformas vão-se reduzindo a uma v velocidade assustadora. E o Estado não tem onde ir buscar recursos para fazer frente a tal fatalidade, tanto mais que é devedor ao estrangeiro a montantes astronómicos e se há para um lado tem de faltar para outro.
Não é necessário ser economista para encarar esta realidade. Quem, sem poder, comprou automóveis para pagar depois, entrou em dívidas com a aquisição de um andar, fez férias com empréstimos bancários, tudo porque tinha, na altura, um emprego que aguentava com tantos desperdícios, assim que ficou desempregado e lhe saltaram em cima os vários “amigalhaços de antes”, os que tinham facilitado a vida com ofertas que excediam a razoabilidade dos gastos, a única coisa que pode fazer depois é vender ao desbarato o que ainda poderá constituir um activo e a reduzir drasticamente tudo o que não faz falta e até a cortar com alguns elementos que são necessários mas que têm de ser esquecidos.
Assim acontece também com os países. Se os seus responsáveis não são capazes de despender apenas o que a sua produção consegue suportar, se as opções com os investimentos não obedecem a um critério de escolhas que se coadunem com as possibilidades próprias, as do momento e as futuras, para suportar os respectivos custos, se o conhecimento dos mercados de consumo não indica as capacidades de absorverem, nesses casos o prudente é não exceder o que a carteira consegue solucionar, em vez de deixar para as gerações que vierem o busílis para ser solucionado.
É nesta posição que nos encontramos agora em Portugal. E não é sério que a geração de hoje se sinta satisfeita com a sua consciência. Se alguém, nos tempos que vierem, puder ler este blogue, se as crianças de hoje, daqui a vinte ou trinta anos apanharem este texto, é possível que me louvem por ter tido a coragem de fazer as denúncias que não guardo para mim mesmo e que, apesar de os optimistas não gostarem muito, não podem deixar de ser ditas por quem, como aqui tenho afirmado, “tem razão muitas vezes antes de tempo”. Esperemos para ver.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

BOM SENSO

O que tanta falta faz
p’ra que o mund’ande melhor
e que não acabe a paz
e se propague o amor
é só preciso bom senso
em todos gestos humanos
e na busca do consenso
procurar não fazer danos

Pensar sempre antes de agir
estudar consequências
evitar o agredir
aceitar certas cedências
isso é da vida um modo
de quem tem compreensão
se tem a dar dar-se todo
e fazê-lo com paixão

Se há na vida ideal
para manter o convívio
procurando o menos mal
e sentindo certo alívio
o bom senso lá faz falta
para fazer amizades
com toda e qualquer malta
de poucas e mais idades

Numa palavra por isso
o Homem bem necessita
assumir o compromisso
de uma atitude bonita
só o bom senso indica
comportamento perfeito
e por isso bem lhe fica
utilizá-lo a seu jeito

TELEFONES -"VIVO" OU MORTO?


TODOS NÓS, CIDADÃOS comuns, portugueses que apenas contemplamos o que os “mandões” decidem, somos capazes de compreender se o impedimento da venda da empresa brasileira VIVO, parceira da PT, à Telefónica espanhola representa um benefício real para o nosso País?
E, dentro desta perspectiva, a atitude tomada pelo nosso Governo de utilizar a “golden share” (com a tradução “acções de ouro”, que significam privilegiadas) que ali o Estado português possui, para chumbar a decisão da maioria dos accionistas de aceitar a oferta da empresa de Espanha, de 7 milhões e cento e cinquenta mil euros, para ficar na posse da VIVO, tal decisão, que, por sinal, está a levantar sérias dúvidas da sua legitimidade, é favorável aos interesses do nosso País ou trata-se de uma medida que não tem a menor influência na melhoria da nossa vida?
Postas estas dúvidas que, seguramente, se levantam aos cidadãos do nosso País que ainda têm capacidade para seguir as evoluções deste tipo, preocupados como andam com as dietas impostas nas suas carteiras, o que resta aguardar é se tudo continua como dantes, como, por exemplo, na área do uso dos telefones fixos, que, no que a nós toca, sempre constituiu uma estranha obrigação de cumprir sem qualquer alternativa que as concorrências podem proporcionar e que, ao longo de muitos anos, foi imposto o débito do “aluguer” dos aparelhos telefónicos que, ao contrário do que sucede em quase todo o mundo, nunca foi aqui considerado propriedade dos usuários, é natural que se levante a questão de se, com a continuidade do sistema anterior, se verifica alguma melhoria do funcionamento da empresa nacional.
Como sempre, os “aljubarrotistas”, especialmente depois da derrota futebolística que ocorreu com os nossos vizinhos ibéricos, exultam perante esta negativa de resultado empresarial para a Telefónica do País vizinho. E isso, para eles, representará não dar um passo para a união económica no seio da Península Ibérica, significando para eles um grito de independência bacoca que, no meu ponto de vista, não serve para nos enriquecermos na luta que é forçoso manter em relação aos grandes países europeus e que não nos reforça para usarmos os meios de defesa dos interesses conjuntos nas discussões que ocorrem na Comunidade Europeia.
Resta agora saber se as coisas vão ficar por aqui ou se Bruxelas, como já se afirma, irá interferir por não aceitar que a utilização das “golden shares” sirva para anular as decisões das maiorias que votaram em assembleias-gerais. E se tivermos de seguir as indicações vindas de fora, até porque a Telefónica já afirmou que vai recorrer judicialmente da decisão portuguesa, isso só serve para nos mostrar que, se aderimos à CEE da época e usamos as vantagens de tal aceitação, é forçoso que sigamos as normas e discutir a razão que uns tantos proclamam só pertencer a eles.
E é preciso não confundir. Já que Saramago tanto proclamava as vantagens em juntarmos interesses e conveniências e só se ouvem, depois da sua morte, muitos elogios se levantaram à sua obra e aos seus pensamentos, pois também paremos para nos interrogarmos sobre se, neste particular, embora o Prémio Nobel não tinha sido inédito nem o primeiro, não haverá aqui algum fundamento na opinião por ele expressa. Até porque os comunistas não costumam ser muito aliados de teorias que reúnem, no mesmo saco, países diferentes, com regimes desiguais. É o bem deste rectângulo que está em causa e os exemplos albanisados que têm surgido por esse mundo fora têm de servir para alguma coisa.
Eu não escondo. A situação de dificuldades tão castigadoras que nos obrigam a sofrer, em diferentes situações da nossa História, as consequências de nos encontrarmos distantes e nesta ponta do Continente, deveria abrir-nos os olhos e admitir que, com as nossas características, a beleza da língua, os costumes e tudo que é de bom e que faz parte daquilo que somos, conservando tudo isso não haveria realmente grandes vantagens em apoiar o que poderia ser uma sociedade de duas Nações.
Mas só na altura em que a corda na garganta nos aperte tanto que não nos deixe respirar é que seremos capazes de enfrentar a realidade.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

DAR DE BEBER À DOR


Quem bebe pelo que for
nem precisa de motivo
o dar de beber à dor
é coisa de quem está vivo

O normal não era isso
mas sim beber p’la saúde
mas p’ra ser um bom castiço
assim bem melhor s’ilude

O fado pede desgraça
bem choradinha canção
com navalha e com murraça

e se se apanha um pifão
a coisa tem mesmo graça
e a dor já tem razão

CONSENSO PRECISA-SE


AO ASSISTIR àqueles programas televisivos do “Prós e Contras” é que, quem não terá ainda ideia do que ocorre entre os participantes na vida política nacional, fica a ter consciência dos confrontos que têm lugar entre adversários, os quais são naturais e legítimos porque defendem pontos de vista que, muitas vezes, são antagónicos, mas que também só servem para contribuir para colocar o País numa situação ainda mais difícil do que aquela em que se encontra. E, numa altura em que se propaga que o PSD se dispõe a ajudar o seu concorrente PS na solução de alguns problemas, mesmo não fazendo parte do Governo – o que só pode ser louvável -, o mais lógico seria que, nas situações que não comprometem excessivamente os seus princípios ideológicos, ambos fizessem um esforço no sentido de encontrar soluções, quanto mais não fosse para evitar gastos desnecessários que sempre ocorrem quando os assuntos em discussão se arrastam para lá do tempo necessário.
A questão dos “scut”, por exemplo, que foi debatida na última sessão de segunda-feira na RTP, serviu perfeitamente de amostra da falta de capacidade de diálogo por parte daqueles dois grupos políticos, os tais que fizeram o referido acordo, porque se se tratassem dos restantes que se situam no posição de adversários sem tréguas, então essa posição até se entenderia com mais facilidade.
E a pergunta que há a fazer é que, se então um problema que se resume ao pagamento de portagens nas vias que, até agora, têm estado libertas desse encargo, por mais cuidados que devam existir para não se cometerem injustiças em relação às populações que possam sofrer indevidamente esta medida nova, não pode encontrar consenso rápido e correcto por forma a que todo o País não fique com a convicção, ainda mais profunda, de que os nossos políticos, aqueles que, apesar da crise que atinge a esmagadora maioria dos lusitanos não sentem tanto no bolso os efeitos perniciosos dos encargos fiscais que todos os dias aparecem, esses tais homens do poder não têm capacidade para dialogar e chegar a um acordo que está longe de constituir uma barreira intransponível como tantas outras que, essas sim, representam bicos de obras bem complicados?
Se, todos os encargos fiscais que foram agora implantados através dos dois PEC e que, segundo está no ar essa ameaça, não ficam por aqui os “castigos” que os portugueses ainda têm de suportar, pois as dívidas que o Estado tem para pagar ascendem a muitos milhares de milhões de euros que, todos os anos vão sair do Ministério das Finanças, o que quer dizer das nossas carteiras, se o aumento do IVA, o peso suplementar com o IRS, o IRC e todos os outros encargos que o Fisco cria, toda essa lista de aumento de despesas a que os cidadãos da nossa Terra não podem fugir não criam confrontos tão visíveis e de má catadura (como a que se viu no referido programa televisivo) entre os partidos e o Governo, é de estranhar que, sobretudo tratando-se de dois grupos partidários que até dão mostras de não pretenderem agredir-se, pelo menos por agora, por uma situação que tem forma de ser facilmente solucionável entre pontos de vista não coincidentes completamente, se estejam a levantar quezílias que até se baseiam em questões de formalidade – haver carta de compromissos ou estar ser tudo trinta e um de boca!...
Ora bem, perante a derrota de Portugal, ontem, no Campeonato Mundial de futebol, em que a Espanha lá nos deixou de beiço caído, este “problema” agora vai ocupar durante alguns dias o motivo de conversa da maioria dos portugueses, podendo-se deduzir tranquilamente que, se fosse feita a pergunta a muitos dos nossos concidadãos, se prefeririam ter vencido aos espanhóis em troca do pagamento das tais “scut”, a resposta seria que ganharmos com a bola é que era bom!...
Se calhar estou a meter os pés pelas mãos. Mas se assim é, também não serei o único. Ou, tanto o ministro Jorge Lacão e o deputado do PSD que intervieram no confronto da RTP, com aquele espectáculo que nos deram, não andarão também todos baralhados?

terça-feira, 29 de junho de 2010

AQUI

Aqui
onde estou e onde me vejo
também ali
terei o último desejo
que será
o de não deixar mau nome
o que ficará
e que tome
lugar na memória de alguns
uns tantos
mesmo que sejam comuns
e que não escondam prantos.

É aqui, neste lugar
que algumas contas faço
do que ainda me lembrar
e que resista ao cansaço
erros recordarei
certas dúvidas que mantenho
as coisas que por aí amei
e outras que ainda desdenho

Cheguei
sem pretensão
de pensar que não errei
e que sempre dei a mão
a quem dela precisou
pois alguma vez disse não
a quem ao pé de mim chegou
seriam menos embora
do que às que disse que sim
o que bem pouco melhora
a maldade mesmo assim

Estou agora
frustrado
vou embora
nada será mudado
fixo o meu pensamento
naqueles que me estão perto
e não escondo o lamento
por já não ter conserto
e em nada alterar
a má opinião de quem
deveria bem mostrar
muito melhor que ninguém
o valor que terei tido
desigual da maioria
por isso tendo fugido
à regra da enxovia

Aqui e agora
onde escrevo esta lamúria
a esta hora
não é altura de ter fúria
isso é que não
resta-me a penitência
última consolação
de quem vive já na ausência
mas também já pouco importa
com o físico a fraquejar
não baterei a tal porta
a pedir para mim olhar
quem nunca o fez de verdade
que foi o invés de mim
agora com esta idade
só resta aguardar o fim

Afinal
será neste lugar aqui
mesmo o melhor local
para mostrar quanto sofri ?
tantas dores tantos anos
desamores
e desenganos
procurando esconder
aos olhos dos que de fora
não teriam de saber
o que na nossa casa mora

Será aqui, será
no café com muita gente
que alguém por aqui estará
a escrever o que sente
e para quê
com que intuito
se afinal ninguém vê
trata-se de um acto fortuito
que não obtêm resultado
pois o que de mim contará
mesmo sem poder ser provado
não me importará
por ser a gente abstrusa
que já hoje não me adora
e sempre se mostrou confusa
com o que larga boca fora








VOTAR EM DOIS


NÃO SEI se o anúncio de que o PSD, mesmo saindo vencedor das eleições legislativas que se encontram no leque de perspectivas em vista, se realmente se juntará ao CDS após o acto eleitoral e ainda que, sozinho, consiga maioria absoluta, não sou capaz de opinar com segurança se esta atitude é a mais conveniente, dentro dos princípios democráticos que tanto proclamamos seguir. É que, admito eu, quando um cidadão deposita o seu voto na urna, o que está a fazer é a dar preferência a um grupo político e não a dois ao mesmo tempo. E, naturalmente, quem tem inclinação para os ideais e para o programa de um concorrente, pode não pensar da mesma forma em relação ao outro.
Se, à partida, se sujeitam aos resultados coligações programadas anteriormente, nesse caso o votante já sabe com o que conta e aí o que faz é aceitar a combinação prévia; agora, primeiro ficar-se a saber qual é o resultado da votação em causa e a percentagem que o partido preferido alcança e depois, se calhar a esse ser o vencedor, assistir à “sociedade” que os comandantes do agrupamento, por sua alta recriação, convidam para parceiro, podendo acontecer que tal entendimento caiba a um grupo que não seja da simpatia do votante, essa situação não se coaduna correctamente com os princípios democráticos que se anunciam à boca cheia que por cá se seguem.
Quando há aviso prévio do que poderá suceder, nesse caso existem várias formas de se dispensar do acto do voto, nem que seja pela falta de comparência junto das urnas ou o voto em branco ou intencionalmente mal demonstrado. E esse procedimento, o não participar numa clara obrigação dos bons cidadãos, constitui a pior forma de intervir na vida pública nacional.
Se a prática democrática, ao cabo de trinta e seis anos de instituída em Portugal, ainda se encontra muito longe de ser seguida pela maioria dos cidadãos do nosso País, posto que são necessárias, no mínimo, três gerações para ela entrar naturalmente no dia-a-dia de todos os cidadãos, com actuações do género da que foi anunciada pelo PSD é que se encontrarão maiores dificuldades em introduzir no povo português um hábito que, vindo das escolas primárias – não me canso de proclamar a necessidade de existir uma disciplina de “prática democrática” que institua, logo de pequeninos, os jovens a saberem ouvir, e não interromper os outros, e, mesmo não concordando com opiniões alheias, não entrar em discussões, entre outros modos de actuar com liberdade civilizada.
Em resumo, pois: não concordo com a intenção afirmada pelo PSD de, mesmo que atinja uma maioria eleitoral nas próximas eleições, fará, após os resultados serem conhecidos, uma coligação com o CDS. Juntar o Centro Direita à Extrema Direita, nas circunstâncias actuais não vai resultar. A não ser que esteja redondamente enganado.