quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Para não sair do habitual, ponho-me, mais uma vez, a raciocinar. E desta volta sobre uma gente que até parece que os problemas que rodeiam todos os cidadãos se resumem àquelas manifestações mundanas. Aos casamentos, às separações, aos aniversários, às inaugurações de lojas e, menos mal, a jantaradas para ajudar alguma associação de beneficência, mas que tenha suficiente gabarito para justificar a presença dos smokings e dos fatos compridos. No meu caso, devo confessar que, em dada altura, também isso serviu para procurar entender a existência de uma camada a que se dá o nome de “socialaite” (escrevo desta forma, mas não deixo de sentir alguma relutância).
É verdade que, em muitos países da zona ocidental do mapa-mundo, existem individualidades que se destacam por surgirem sempre em festanças. E havendo-as com fartura, a gente que circula nesses ambientes com assiduidade dá pasto à ânsia das publicações da especialidade que vivem precisamente daquele tipo de público. Os que andam nesse meio e também a que não tem acesso mas que se deleita a seguir as andanças dos famosos. E os cronistas ganham a sua vida em redor dessa matéria-prima, descobrindo sobretudo as fofocas que têm um prazer mórbido em divulgar. Esta é uma realidade que não vale a pena ignorar ou até criticar.
Fixando-me apenas no que ocorre por cá, mais propriamente na capital, alguma coisa na segunda cidade, no Porto e, episodicamente, no Algarve – porque o resto de Portugal, também nesse aspecto, nem sequer é paisagem -, é caso para perguntar se, entre nós, não seria muito mais proveitoso que tais exibições tivessem lugar para celebrar manifestações artísticas de alto estirpe, com grandes orquestras sinfónicas, exposições de pintura de bom gabarito, espectáculos de ópera e de ballet com a presença de conjuntos internacionais, entregas de prémios a escritores de reconhecido mérito, tudo isso e muito mais e que bem sabemos que são acções que no nosso País são raras quando, para não ir mais longe, aqui ao lado, em Espanha, não só em Madrid mas em muitas das cidades espalhadas pelo seu território, é vulgar ter-se conhecimento de manifestações festivas de tipo cultural.
Mas é uma lástima que a nossa imitação se fique apenas na exposição de criaturas que, coitadas, restringem a sua felicidade a fazerem-se às fotografias de que aspiram ver depois publicadas nas revistas que existem para isso.
Somos o que somos e como somos!
A vaidade, sempre ela, é uma mola que faz saltar o Homem. Há quem a limite, a esconda, se envergonhe até de a ter. Mas ela é mais forte. Sem querer, mesmo de passagem, as montras das lojas servem para dar uma vista de olhos por parte dos passeantes. E a mulher, como é também natural e até certo ponto justificado, ultrapassa nesse aspecto e em muito a vaidade dos machos, se bem que não seja assim tão raro deparar-se com figurões que têm como principal preocupação cuidar fervorosamente do seu aspecto exterior.
É certo que vigora ainda, mas cada vez menos, uma certa apreciação depreciativa quanto a homens que são iguais às mulheres no tratamento cuidado dos seus rostos, por exemplo. Mas a persistência e o descaramento desses manequins ambulantes faz com que acabem por ser aceites e até mesmo se introduzam no chamado “jet set”.
O Homem, quando se aventura por áreas, ainda que fora do comum, para impor comportamentos invulgares, quer seja na área da convivência social – que ainda é a que menos prejuízos provoca - quer seja no campo da política, deslumbrando-se com os seus feitos e aplaudido pelos companheiros que logo formam grupos à espera da apanhar os restos do sucesso, esse ser, perante o deslumbramento que causa, avança e serve-se de todos os meios para atingir fins de que, muitas vezes, se perde o controlo.
O convencido da sua posição superior, seja ela qual for, tendo os outros em conta apenas para servir os seus objectivos, os seus sonhos, frequentemente as suas malvadezes, esse tipo de pessoa, se for descoberto a tempo, deve ser afastado do convívio de outros mortais. Até ele se convencer do seu erro.
Aqui fica o aviso ao “jet set” português. Mesmo que ninguém me tenha encomendado o sermão!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

MORTE

Eu oiço o sino da morte
Dar badaladas por mim
Tenho pronto o passaporte
Estou preparado p´ro fim

O que não quero é que então
Olhem p´ra cova a chorar
Pois a incineração
Deixa cinzas p´ra espalhar

É triste pensar na morte?
Aceitá-la consciente?
É isso ser-se mais forte?

Basta enfrentar o real
Partir como toda a gente
E a todos ser igual.
MORRE LENTAMENTE…


- quem não aceita envelhecer
- quem lhe é indiferente o que se passa à sua volta
- quem não tem desejos
- quem não consegue encontrar virtudes e defeitos na sociedade
- quem nunca se revolta, por mais horrorosos que sejam os acontecimentos
- quem tanto lhe dá a rua por onde caminha, basta-lhe o destino
- quem lhe é indiferente a música que escuta
- quem não consegue ler nem ouvir uma poesia
- quem nunca pegou num livro e não lhe interessa o que os escritores têm para comunicar
- quem fecha os ouvidos aos que sabem mais têm para dizer
- quem não sonha, não idealiza, não ambiciona
- quem anda permanentemente com o pavor da morte
-quem não sabe conversar consigo próprio, não perguntando e não respondendo às suas próprias questões
- quem não se espanta com nada, achando tudo normal
- quem está convencido que se conhece bem a si próprio
- quem só conhece a sua rua e não se preocupa em conhecer outras
- quem nunca parou para contemplar a lua, não olha para as estrelas e não tem interesse em ver o sol, mesmo através de um vidro fumado
- quem nunca se embriagou, pelo menos uma vez
- quem nunca sentiu os prazeres da carne
- quem nunca sentiu as influências do espírito
- quem não sabe e não sabe que não sabe
- quem nunca alimentou fantasias
- quem não teve a tentação de despir outrem e, em imaginação, gozar o espectáculo da sua nudez
- quem não é capaz de ouvir o silêncio
- quem não ama as flores e tudo que a Natureza oferece
- quem julga que vale mais do que, de facto, vale
-- quem julga que vale mais do que todos os outros
- quem nunca parou para pensar e, fazendo-o, não tem a humildade de reconhecer que errou
- quem nunca hesita antes de tomar uma decisão séria
- quem nunca quis pôr-se no lugar de terceiros
- quem se ilude com as suas próprias mentiras
- quem não desiste das suas convicções, mesmo em face de argumentos que as anulam
- quem usa e abusa do uso do sempre e do nunca, contrariando repetidamente essa garantia

- quem não acredita no que diz… mas diz
- quem anda sempre a pedir a Deus que o perdoe, mas não é capaz de perdoar os outros
- quem tem coração que é cego
- quem é vazio de interior, exibindo largamente o que tem de for
- quem, fugindo ao seu destino, anda permanentemente a esbarrar com ele.

VÃO DESAPARECENDO...


É INEVITÀVEL. Os anos vão passando e os que resistem mais à ceifa da vida não têm outra alternativa que não seja assistirem à partida dos que não conseguem vencer a chamada inexorável daquele que continua a ser o ponto final de uma existência que lá se vai suportando.
E dentro da profissão de cada um, o mais inquietante é que essa certeza, que é afinal a única que todo o ser humano não nega que também lhe baterá à porta um dia, vai retirando da nossa convivência parceiros que, naturalmente, mesmo de idade diferentes e de zonas de actuação não condizentes, com a sua saída de cena têm de nos provocar um vazio no ambiente que nos envolve.
A morte de Mário de Bettencourt Resendes, ocorrida numa altura em que, embora sabendo-se da sua baixa de saúde, não se esperava que se desse propriamente agora – até porque a esperança nos leva a acreditar que, quem aguenta vários anos com a corrosão que vai minando no interior dos corpos, sempre permanecerá na nossa área mais uns tempos -, esse desaparecimento esta semana causou um abalo em todos os seguidores da mesma profissão no jornalismo, quer os que actuaram durante a mesma época, ao longo dos 17 anos de actividade do Mário, como os que, sendo mais antigos, como é o meu caso, foram seguindo a sua presença, especialmente porque ocupou um lugar cimeiro como director do “Diário de Notícias” assim como surgia frequentemente nos écrans das televisões a dar a conhecer as suas opiniões de ordem política.
Pois é essa saída do nosso foro que desejo assinalar aqui e para isso, embora sem dar nas vistas, lá me desloquei à saída da Igreja, assistindo ao cumprimento do pedido do defunto de lhe serem colocadas, três bandeiras sobre a urna, a dos Açores, a do D.N. e a do Benfica.
E veio-me à imaginação o que deveria eu solicitar que me seja feito na altura semelhante que virá por aí. E nada de especial me saltou à ideia. Provavelmente, dado que a minha época do jornalismo vem de longe, pois comecei em 1954 num revista, chamada “Mundo Ilustrado”, em que me estriei com o Fernando Piteira Santos, nessa altura recém expulso do PCP, e eu, por via disso, dado que o director indigitado para essa nova publicação era o antigo mestre Norberto Lopes, que acabou por não poder aceitar pois o director do Diário de Lisboa de então, Joaquim Mando, ao ter conhecimento da proposta o impediu de a exercer e nomeou director-adjunto do vespertino, e foi por aí que eu, em lugar de seguir a carreira de economista para o que estudara entrei directamente na profissão das letras e isso também porque o emprego que me mantinha na ocasião era na Livraria Bertrand, situação que me encaminhou para o mundo ds letras, até por tomar o meu cafezinho diário com Aquilino Ribeiro, no velho Café Chiado, onde se formou uma tertúlia de intelectuais a que eu assistia embevecido.
Mas tudo isto só para referir que a morte de Mário me tocou fortemente, por ser mais um a desaparecer e por os novos que também têm o direito de mostrar o que valem, infelizmente não têm referência dos antigos como eu e dos mais recentes será a exposição televisiva que lhes dará mais conhecimento.
Partiste Mário! Outros irão a seguir. E o mundo, tal como ele anda, não se excluindo principalmente o estado deplorável em que se encontra Portugal, cá fica a tentar solucionar os problemas a que nós todos nos referimos pelos meios que cada um dispõe, mas que não chegam para mostrar o caminho que só os homens de bom senso serão capazes de melhorar.
Se forem!...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem não sabe que não sabe não se lastima por não saber

AQUILO QUE EU VEJO

Aquilo que vejo
que atrai meus olhos
que me causa ensejo
mesmo sendo aos molhos
eu acredito?
É verdade pura?
Não será um mito?
Uma desventura?
Mas vejo e pergunto:
poderei eu crer
constitui assunto
para eu ver
e aquilo que é dado
algo como queixa
será um recado
que a vida me deixa
uma prevenção
com certa importância
chama-me a atenção
provoca-me ânsia
abre-me o sentido
mas olho parando
e o despercebido
agora pensando
com calma observo
a ideia apurada
por fim lá conservo
a vista do nada
e aquilo que eu via
e que os olhos liam
tinha mais valia
e todos deviam
cá por este mundo
ter algum rigor
olhar sempre a fundo
que tudo tem valor

Por isso m’interrogo
procuro resposta
faço-o como um jogo
é quase uma aposta
tudo por que passo
e atrai minha vista
se causa embaraço
constitui uma pista?
Como em tanto assunto
não sei responder
até ser defunto
terei de aprender

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Quase como uma devoção, muitas vezes saio de casa, especialmente de manhã, para escrever. Preciso de ar. De respirar. E de inspiração. Mudar de ambiente ajuda. Faz-me falta movimento, mesmo sem entrar nele. É-me útil a distância, nem que seja a que separa a mesa do café das pessoas que passam, das que julgam que estão a fazer alguma coisa de útil a este País. Das que se sentem importantes por isso.
Lá passam também raparigas. Agora na moda está andarem com as barriguitas à mostra. E as costas deixam ver as uniões superiores das bochechas do rabo. Como mudam os tempos! Ainda me lembro da época em que a rapaziada se deliciava a ver as curvas das pernas das mulheres que subiam as escadinhas de Santa Justa. Era uma delícia! Aí a imaginação funcionava. Dava-se largas ao trabalhoso exercício de desnudar em pensamento as fêmeas que mais agradavam e que davam a espreitar de passagem as curvas das pernas.
Hoje, o desde ter-se à disposição dos olhos o que antes os decotes discretos não deixavam sequer perceber, os avantajados seios que, ainda para ajudar mais a provocação, os elementos femininos puxam para cima, para dar a sensação de que se encontram em boa forma de sustentação, desde isso até as saias pouco taparem em cima e em baixo, tudo é considerado natural. E pouco faltando para descobrir em plena rua o que ainda se encontra oculto, o resultado é que a curiosidade de saber como será vai-se diluindo. E aquele exercício que alguns podiam fazer de espreitar pelo buraco da fechadura, até isso hoje já não tem razão de ser, pois aquelas chaves que, de grandes, mal cabiam nos bolsos, hoje também elas são reduzidas. Tudo diminuiu!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

É sempre bom ter alguém que nos oiça, mesmo que não tenhamos nada para dizer.
Pelo menos, ficamos com a impressão de que o que não dissemos teria a sua importância.

ACORDAR MORTO

Não tenho medo da morte
é coisa que temos certa
não é por falta de sorte
disso ninguém se liberta

Passam Natais passam férias
a vida corre depressa
se alguns passam misérias
e a outros nada aconteça

À espera por cá se anda
de algo que vem depois
há quem leve vida branda
não precise de outros sois

A todos esses contemplo
e as minhas contas faço
há os servem d’exemplo
e provocam embaraço

A morte tem várias formas
por vezes é traiçoeira
não tem regras e nem normas
muito menos tem fronteiras

Porque mais cedo ou mais tarde
ter connosco lá vem ela
e sem fazer grande alarde
sempre provoca mazela

Com franqueza não invejo
dos outros o seu conforto
a coisa que eu mais desejo
é um dia acordar morto

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Não posso deixar de reflectir que, um dia, não sei em que altura, se estes textos caírem nas mãos de alguém que descubra que vale a pena lê-los e lhes encontre um mínimo de valor, seja onde for que eu esteja, isto no caso do falecido, mesmo em cinzas, ter algum sítio onde se aquietar, nesse cantinho encontrarei razões para a consolação. Por fim, houve alguém que reconheceu em mim algum interesse.
Escrever isto, nesta altura em que me encontro em pleno nas minhas faculdades mentais, parece querer reflectir uma soberba que me fica mal, mas o que ninguém pode negar é que me esforcei, enquanto vivo, por dar de mim tudo o que tinha para mostrar quanto vale uma aspiração que talvez não chegue nunca a tornar-se realidade: a de me entregar à arte da escrita, da prosa e dos poemas, e à tentação da pintura, muito a medo, já que, aquilo que eu mais desejava era ter sido agarrado pela música, essa que nunca passou do enorme prazer de ouvir.
Sou, pois, um falhado. Sempre vivi de aspirações. Embora não invejoso, entristece-me assistir, à minha volta, ao desmedido acarinhamento a cantores que cantam mesmo mal, a escritores que se encontram longe de merecer essa classificação, a artistas plásticos que se enganaram na opção tomada, todos com relativo êxito que, por muito passageiro que seja, sempre lhes vai enchendo o ego de satisfação.
Mas esses, eu também não invejo. São equívocos de um período que não pode deixar de ser curto, ainda que ocupe toda a existência dos próprios contemplados. Não atinge o futuro. Não passa para depois.
Feitas bem as contas, eu preferia que, como sucede agora, não me seja reconhecido qualquer valor em vida, desde que, mais tarde, já não sendo eu a assistir, seja descoberta alguma injustiça em tal pequena valorização. É uma ilusão que sustento, confesso.
Sou, de facto, um espectador de mim próprio. Reconheço as minhas falhas, não hesito em passá-las para o papel, em dar testemunho das críticas que me faço, mas tenho de ligar com o exterior de mim, guardar no fundo do eu as preocupações que seriam ridículas se as transmitisse a alguém e, por isso, me fecho, deixando aos outros uma sensação de um afastamento que, na verdade, não é propositado.
Se os católicos praticantes utilizam o padre para desabafar o que consideram ser os seus pecados, eu, que não sigo há imenso tempo essa prática que até considero ridícula, deixo na escrita, quando me encontro isolado do mundo, as minhas angústias, as queixas que me afligem, os erros que pratico. Este é o meu confessor. E, dado que o papel não aconselha, fico, no mínimo, com a consciência mais aliviada.
Por mais absurda que seja esta prática, consola-me. Deixa limpa, por momentos, essa tal consciência. Amanhã logo se vê!..

domingo, 1 de agosto de 2010

Não sei. Tanta obra monstruosa que tem saído das mãos do Homem, não seria preferível que se mantivesse o vazio?
Que digo eu?
Então seria mais próprio, amanhã, quem, por ventura,
vier a querer ler este texto, encontrar, em seu lugar,
uma página em branco?

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Cada vez mais tenho a sensação de que, para os outros, fui sempre alguém do lado de lá. Não só para os mais afastados, mas também para os parentes. Quanto mais tempo vivo, mais me convenço desta realidade, E, nesta altura, não vale a pena disfarçar que não é assim. A culpa, se é que se pode querer descortinar culpado nesta situação, terá de ser atribuída apenas a mim. Porque não serei abertamente comunicativo. Porque não pertenço àquela maioria de pessoas que mostram dar grande importância ao que os outros dizem, sobretudo quando internamente não atribuem valor suficiente para isso. Será por não ter esse sentimento de interesse demonstrativo, que tanto agrada aos outros interlocutores. Será por isso. Mas, seja pelo que for, a realidade é essa: Provoco pouco sentimento de intimidade nos outros.
E a verdade é que nem sei se sinto falta dessa intimidade. Dessa cumplicidade. Mesmo no que diz respeito aos amigos mais chegados, nunca senti esse entrosamento, daqueles que dá para trocas de confidencialidades. O meu
íntimo sempre foi resguardado e, talvez por isso, o dos outros nunca me foi revelado. Antes assim.
Aquilo a que se chama “abrir-se” com alguém, foi coisa que nunca fez parte dos meus costumes. Sobretudo, porque não creio que interesse ao próximo saber o que vai no meu íntimo. Poderão, por simples curiosidade, escutar o que lhes transmitisse de muito privado que existisse no meu âmago, mas mais do que isso não se passaria.
Estar do lado de lá é, pelo menos, estar nalgum sítio. Digo eu, para justificar o meu ponto de vista. Estar em todos os lugares, do lado de cá e do lado de lá, mostrar abertura e até entusiasmo quanto ao que se escuta numa conversação, é uma forma de estar na vida para além de ser cómodo. E não importa averiguar o grau de verdade que existe em tal posição. Se eu fosse assim, só tinha a ganhar no capítulo da apreciação dos outros a meu respeito.
Mas, quanto à apreciação de mim para mim próprio?

sábado, 31 de julho de 2010

Se desligar a luz é fácil, já apagar as más recordações é tarefa que não depende de dar ao interruptor.
Homem não é a tal máquina.
Não há comando eléctrico que possa afastar aquilo que não se deseja que volte à memória.
Não se comanda com um botão.

A PASTELARIA

Gente que entra e que sai
disposta a consumir
e depois p’ra onde vai
já está pronta p’ra seguir
a vida que cada um
tem ainda pela frente
pois já não segue em jejum
levando um ar de contente

Os bolos têm saída
neste País de gulosos
e o café como bebida
de simples e de vaidosos
lá prepara para a luta
quem pouco dinheiro gasta
que a vida é uma disputa
o que se ganha não basta
É nesta pastelaria
ond’eu por vezes me sento
que até me serve de guia
p’ra poesia que eu tento
e mesmo qu’ocupe alguém
cadeira na minha mesa
a conversa me faz bem
porque saio da tristeza

O de café variar
onde vou mais a miúdo
é só p’ra desabafar
e imaginação ajuda
pois vejo gente diferente
e outras vozes eu ouço
algo que é influente
naquilo que faço e posso

Daqui da pastelaria
até ao café normal
não faz falta correria
é tudo peto afinal
é só questão de apetite
de como estiver o dia
pois preciso qu’arrebite
toda a minha fantasia



DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Quem nunca teve bens materiais que valessem a pena, quem sempre lutou pelo Pão Nosso de cada dia sem ter gozado de abastanças, ainda que tenha podido desfrutar ocasionalmente de algumas mordomias que lhe foram proporcionadas, é natural que tenha aspirações a não morrer sem antes ter a sorte de lhe sair, em qualquer lotaria, um prémio pecuniário chorudo.
Claro que os ricos, os que já têm bastante, esses não desprezam um aumento substancial das suas fortunas. Dinheiro nunca vem em excesso, dirão. E a única diferença é que, quando arriscam um verba ainda que elevada nas apostas, utilizam a expressão “investir”. Os pobres e mesmo os remediados, os que contam as moedas na carteira, limitam-se apenas a tentar a sua sorte, com o lema de que “se tiver de sair… sai!”.
Pensando apenas nos que não têm nada que se veja, no cidadão corrente que vive condicionado a um montante mensal certo, ao que administra, ele e a mulher, geralmente até ela, aquele contadinho que não chega para dar um passo fora da linha, que a custo dispõe de uns trocados para tentar a sua sorte numa dessas lotarias que, quando sai e toca só a um, é coisa que se veja, tendo essa figura como modelo de imaginação, pode-se deduzir a mudança radical que se produz na sua vida. Será que a inundação de dinheiro a quem não está habituado a tanta fartura, que não soube nunca o que era ter para lá do mínimo, ultrapassada a alegria eufórica do momento da notícia inesperada, persiste sob a forma de felicidade?
Não ter problemas no gastar, não fazer contas na altura das compras, extasiar-se com tudo o que vê e que pretende adquirir, ter finalmente o carro dos seus sonhos, mudar de casa, deixar de trabalhar, aproveitar as excursões organizadas, comer a tão ambicionada lagosta, fumar do mais caro, ir visitar um parente que não vê há anos e que emigrou para longe, dar a volta a todos estes desejos que nunca pensou poder um dia satisfazer, tudo isso ultrapassa. Mas, e depois?
Passado o período da experimentação, de sensações novas e, por vezes, até antes disso, não é difícil imaginar que começam a surgir os contratempos impensáveis na época das vacas magras. As choramingas dos familiares, vizinhos e mesmo vagamente conhecidos, as propostas de negócios mirabolantes que surgem, sem se perceber bem de onde, deixam a cabeça dos chamados sortudos em bolandas. Mesmo usando óculos escuros, agora de marcas refinadas, saindo de casa de fugida, analisando cuidadosamente quem se encontra nos arredores antes de regressar ao lar, não atendendo o telefone que passou a retinir repetidamente, retirando com enjoo os maços de correio que todos os dias encontra na caixa e que prefere não ler, tudo isso são consequências de ter passado, de um dia para o outro, de pobre a rico.
E os filhos, antes tão dóceis, cumprindo sempre os seus deveres, que deixaram de ser tudo isso e passaram a apresentar exigências?
E a saúde, que tinha sido razoável até então, e de repente, deu mostras de não estar tão segura? A ida frequente aos médicos, o cuidado com exames complicados e caros, a compra excessiva de medicinas que se vão acumulando meio usadas nas prateleiras, o interesse em conhecer especialistas no estrangeiro que anunciam curas aos que podem pagar, tudo isso passa a fazer parte das preocupações dos novos ricos.
Dizia-me uma vez um homem que gozava de grande poder financeiro pessoal que lutava com um grande dilema: que não sabia se as pessoas que o rodeavam e pareciam ser companheiros fiéis, o faziam por serem seus amigos ou simplesmente porque ele era rico. E essa angústia persegui-o sempre, ao ponto de evitar relacionar-se com novos conhecidos. Preferiu o isolamento. Era um infeliz!
Pergunta-se então: onde está a felicidade? Provavelmente naquele que tem a coragem de se desfazer dos excessos de bens. De distribuir pelos que precisam. Mas como em tudo em que entra a mão do Homem, como não é humanamente possível que seja o filantropo, ele próprio, a actuar pessoalmente e a controlar o que pretende distribuir pelos necessitados, tem de confiar em organizações, em grupos que se prestam a cumprir honestamente a missão de repartir. Será que adquirir mantimentos num continente e enviá-los para outro distante, incluir nessa complicada operação múltiplos operadores, não acaba por beneficiar muita gente que não tem a ver com a miséria que se pretende diminuir? E até vai contribuir para encher os bolsos de quem já tem muito?
Por isso, dar, ser generoso, dividir com quem necessita dá trabalho. E preocupação. Se não for assim é um acto apenas de propaganda – porque geralmente essas atitudes são propagadas -, de alguém que não está disposto a ter maçadas. Não tem valor.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CONTENTE

Mesmo sem saber porquê
pois que tal não é preciso
é gostar do que se vê
e mostrar sempre um sorriso
contente,
contente
maravilha estar assim
sempre com ar de festim

Pode parecer doença
coisa física e mental
pois ter alegria intensa
lembra logo carnaval
contente,
contente
todos ao lado a chorar
quem ri a dissimular

Em época de tristeza
mostrar que é diferente
é p’ra já uma proeza
e que se anda a Poente
contente,
contente
será preciso inconsciência
ou deste mundo ausência?

Contente, contente
só com muita aguardente

QUE CONTENTES QUE NÓS ESTAMOS!


ENTÃO NÃO EXISTEM MOTIVOS, nesta altura, para que todos nós portugueses nos sintamos ultra-felizes em face dos acontecimentos que nos acabam de proporcionar razões mais do que suficientes para nos congratularmos com o facto de ter nascido neste torrãozinho pátrio e continuarmos a manter as nossas existências em local tão deslumbrante?
Não põe ser outra a minha opinião momentânea e, em face disso, conforme tenho determinado, interrompo os textos do meu livro “DESENCANTO POR ENQUANTO!...” para dar largas às notícias que, preenchendo agora os muitos espaços da Informação que ocupam os jornais, as rádios e as televisões portuguesas, permitem que os nossos compatriotas sintam que podem agora ufanar-se dos acontecimentos que vão melhorar imensamente as suas vidas.
De facto, pelas ruas fora, nos encontros com os amigos, nas conversas com os vizinhos, nas trocas de opiniões que constituem nesta altura o motivo principal dos telefonemas, não se ouve outra coisa que não seja a demonstração de regozijo que todos nós sentimos com o facto da PT ter solucionado o problema da venda da brasileira VIVO e da compra da também brasileira e igualmente empresa de comunicações telefónicas do País irmão de além Atlântico com um nome muito explícito – “OI”.
Que melhor poderia suceder a todos nós, cidadãos lusitanos, do que essa operação financeira que meteu no bolso da nossa PT qualquer coisa como 350 milhões de euros? Não tem razões José Sócrates para estar eufórico com tal solução e por isso não houve motivo para se justificar o discurso que resolveu fazer aos jornalistas para mostrar vaidosamente como foi deslumbrante a medida tomada através das acções do Estado, denominadas “golden shares”, atitude genial que só poderia sair de uma cabeça tão privilegiada como a do engenheiro primeiro-ministro?
Perante tamanho feito, os cidadãos deste País vão constatar que, a partir desta genial negociação, os impostos vão descer, o desemprego vai ser muito reduzido, a produção nacional atingirá níveis que nunca foram alcançados, as medidas governamentais, como sejam as diminuições visíveis das despesas públicas, entrarão nos eixos, a Justiça passa a ser exercida com eficiência, a educação passa a ser uma zona que vai preparar toda a nossa juventude para um futuro que lhe vai dar muito trabalho, que a burocracia oficial deixará de ser, de uma vez, um empecilho das nossas acções, enfim, não podemos deixar de concordar que esta “milagrosa” medida, tomada com a PT, vai solucionar todos os grandes problemas que o nosso País vem a enfrentar há alguns anos. Esta é uma razão indesmentível que a “festa” que os portugueses estão a fazer é mais do que justificada.
Por isso pergunto: então, perante tamanho feito não deveria eu também dar um ar de alegria ao meu blogue, sempre tão desencantado?
E, para além disso, também surgiu a notícia nos jornais de que essa figura a que só posso chamar de “esquisita”, e que se chama, há dúvidas, José Castelo Branco, convidado para comentar a lista masculina – e qual deveria ser? – dos denominados “sex platina”, considerou Sócrates como “o mais sexy”.
Não há dúvida, não podiam surgir mais motivos para que todos os portugueses se sentissem “ultra-orgulhosos” – como se diz tanto agora – com a benesse de serem naturais desta Terra e terem à frente dos poderes instituídos personalidades de tanto valor como aquela cabeça que chefia o Executivo actual.
Só faltou uma coisa a isto tudo: foi que tivesse sido anunciado, por quem o possa fazer, que o custo das chamadas telefónicas que pagamos no nosso País beneficiam com tanto dinheiro arrecadado pela PT e que, por isso, o seu custo e as condições contratuais que nos são impostas, desde que existe telefone em Portugal, tudo isso vai ser alterado para disposições muito mais favoráveis.
Mas nem pensar!... Os mamões, aqueles que auferem, por mês, por hora, por segundo, fortunas com esses lugares que ocupam, tais personalidades só se riem e quando mudam para outros é apenas para retirarem ainda maiores e mais apetecíveis proveitos.
E isto veio mesmo a calhar numa altura em que a "broca" do caso da Freeport tenha sido “arrumado” para escândalo de toda a gente, situação esta que se equivale a tantas outras que representam, do mesmo modo, o proteccionismo escandaloso que é atribuído àquelas figuras que são sempre resguardadas das leis que devem existir para todos de igual modo, apesar disso, os portugueses não escondem a sua alegria pelo caso que, esse sim, lhes vai trazer grandes benefícios directos.
?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Faço o possível para ler toda a poesia que me chega às mãos.
A que é publicada e apreciada, pelo menos pelos editores que lhe deram oportunidade de surgir impressa.
Concluo que não tenho sensibilidade suficiente para ser tocado por certos poemas sem métrica, sem rima, conjunto de palavras sem significado à primeira e à segunda vista.
Está muito para lá do meu entendimento.
Ou será que, tal como aquela denominada música, que é só barulho?
Também há poemas que não respeitam o silêncio…

A MALA

Ter sempre a mala pronta para a viagem
não ser apanhado de surpresa,
sem bagagem
com destreza
com a roupa bem arrumada
isso ajuda a não perder a oportunidade
e a jogar essa cartada
não sei se com felicidade
não é fácil encontrar uma boleia
e adiar o que já estava determinado
sem ter nada de especial na ideia
e ficando bastantes assuntos de lado
e seguramente alguma coisa esquecida
não é por aí que se falta ao compromisso
e como não se pode recusar a ida
pois foi o destino que a estabeleceu
não nos competindo a nós alterar
e havendo sempre a esperança de ser o Céu

Não me escondam a mala já fechada
preparada para a viagem que for
basta apenas descer a escada
afastando todo e qualquer pavor
não sei quem irei encontrar à chegada
se será alguém conhecido
que também fez troca de morada
o que causou na altura alarido
que partiu antes e nem se despediu
numa linda tarde de primavera
houve gente que muito sentiu
mas se por mim não há ninguém à espera?

Seja como for a mala está pronta
não é por aí que chego atrasado
e é forçoso levar bem em conta
que não faço isto com completo agrado
nem importa se vou de boa vontade
vou, e pronto!
todo e não metade
meio tonto
é como tantas mais
é outra viagem
todas desiguais

Agora que estou cansado de viver
de aturar uma fatigante malta
só espero não ter de andar a correr
tranquilidade é o que me faz falta

Haja até quem me desfaça a mala
que arrume as roupas em bom local
que me conduza a bonita sala
tudo feito com ar informal
e me indique o local onde vou restar
não sei se será longa a estadia
porque bem preciso de descansar
e não me causará grande alegria
se for o mesmo que passei por cáº
mas seja o que for
onde for
como for
terei sempre presente um oxalá
de que seja muito melhor do que aqui
de onde parto
e de cujo bem-estar sempre descri
por isso fiquei farto
mas de onde, apesar de tudo, levo saudades
das pessoas que me transmitiram amor
aonde fiz algumas amizades
e onde a luta me transmitiu calor
e que, mesmo com desenganos
que ocuparam uma parte da minha vida
houve sempre tempo para planos
até ao dia da partida

Pode ser que um dia
seja eu à espera e a desfazer a mala
de quem terminou a correria
e me caiba a mim conduzir à sala
e a ajudar as malas arrumar
e a acompanhar para o lugar do sossego
a quem tenha chegado a hora de arrimar
e mereça também seu aconchego

Se cá fica algo são papéis
Mas também não valem cinco réis

O DENUNCIANTE


O denunciante pode ter dois pesos e duas medidas. Tanto pode ser observado com a lente da utilidade, como pelo prisma do mau carácter… como chamam os brasileiros.
Se se trata de não deixar que fique impune um crime, sobretudo se inculpa injustamente gente inocente, nesse caso a ajuda da descoberta da verdade só pode merecer louvores. Se diz respeito a uma criança que, sem se poder defender, é, por exemplo, vítima da prática de pedofilia, dessa aviltante atitude doentia que, infelizmente, vem desde que o homem é homem, então, quem tem conhecimento desses factos tem o dever de não ficar calado.
Agora, os outros, aqueles que denunciam pelo prazer mórbido da perseguição do próximo, pagos ou não por isso, são movidos geralmente por razões de inveja dos que têm mais do que eles Tais gentes são merecedoras de desprezo, de mudança de passeio quando são cruzados na rua.
Os denunciantes de má memória, aqueles que eram sustentados pela antiga PIDE para indicarem cidadãos que não aceitavam o regime totalitário que existia em Portugal, tais “informadores”, como eram apelidados, praticavam um acto abominável. E, ainda por cima, a recompensa que lhes era atribuída era insignificante, dizem os que sabem dessas coisas.
Ainda se moverá por aí, mesmo com a idade já a pesar-lhes, se é que não se passaram ainda para o outro mundo, gente que tem a pesar-lhes na consciência o mal que praticaram, por muito que se tenham diluído na população em geral. Porteiros de prédios, empregados de certos cafés, restaurantes, hotéis, dos transportes públicos e detentores de outras profissões que mantinham um razoável relacionamento com o público, eram esses os preferidos da polícia política.,
Quem atravessava a vida a observar e a escutar o que se passava à sua volta, para depois preencher os relatórios que tinham como finalidade levar à cadeia, primeiro na António Maria Cardoso e, de seguida, no Aljube e noutras masmorras existentes para esse fim os que não aceitavam a situação política que era imposta, quem foi capaz de aderir a tal procedimento, se ainda for vivo andará provavelmente com a consciência a pesar-lhe.
Andará, de facto?