quarta-feira, 21 de julho de 2010

Chamar a atenção para situações que dão mostras de estar mal resolvidas, não se deve considerar crítica maldosa.
Antes podem contribuir para encontrar melhores soluções:
Felizes os que aceitam reparos construtivos. E os agradecem, seguindo-os.
Pobres, os que só apreciam as louvaminhas, sobretudo as que são facilitadas com intenções secundárias.
Louvores que esperam contrapartidas.

HÁBITOS

O hábito é fazer sempre igual
repetir o conhecido
o homem, tal ser mortal
perde por vezes sentido
e o não ter que inventar
mudar de jeito e de forma
até dá para descansar
e com isso se conforma

O hábito faz o monge
diz o popular ditado
que já vem de muito longe
o dia em que foi criado
p’ra quê hábito mudar
se aquilo que vestir
é que parece indicar
a forma de seduzir

Há hábitos que são bons
e outros que são bem maus
tal e qual como os sons
que têm diferentes graus
eu costumo fazer isto
a isso não me acostumo
actuar como previsto
é um vício como o fumo

Assim é que me dá jeito
não me obriguem a mudar
não pretendo ser perfeito
só para a’lguém agradar
o seguir por um caminho
que eu há muito conheço
como cantar um fadinho
e conseguir o sucesso

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Há períodos em que pensamos mais nas doenças. Porque no sentimos mais debilitados. Porque a angústia se revela mais profundamente no nosso interior. Também será porque tomamos conhecimento de que alguém conhecido entrou em crise de saúde. Julgo que grande parte dos seres humanos passa por estes períodos, ainda que alguns tomem mais consciência dessa situação do que outros.
Eu, nesta altura, encontro-me num desses momentos. Sinto-me debilitado e não aponto concretamente um mal. Se vou consultar a minha querida dra. Arlete não sei do que me posso queixar. Apetecia-me ser rico e dar entrada num desses hospitais para abastados, onde, à entrada, se deve pedir para verem tudo à lupa. Passar lá uns dias, fazer análises, investigações radiológicas de todas as espécies, deixar que os médicos de várias especialidades e com todos os avanços tecnológicos mais modernos bisbilhotem cada cantinho do meu corpo.
Caso concluíssem que não tinham encontrado nada errado no meu físico, poder eu então concluir com toda a segurança que, afinal, a doença estava no meu espírito. E, nesse caso, entregar-me completamente a uma qualquer crença, religiosa ou nem por isso, para tentar distrair as maleitas que me perseguem.
Se eu vivesse angustiado pelo pavor da morte, ainda se compreenderia que, por sugestão, eu andasse atormentado por fraquezas físicas, mas não, atingida que já está esta minha idade, estou convencido de que já preenchi o meu papel no teatro da vida e que o acto que se segue tem de ocupar outros actores. Estou completamente preparado para a cremação que me espera. Estou consciente de que as minhas cinzas caberão todas dentro de um frasco de compota. E que é isso que eu, afinal, valho…
Porque, então, ter de carregar este pesado fardo do mal-estar sem uma explicação clínica?
Para tentar consolar-me sem resposta a esta questão, agarro-me à esperança de que, uma manhã, acordarei já morto. Fica dito.



terça-feira, 20 de julho de 2010

Se eu olho e não vejo, se eu oiço e não entendo, se toco e não apalpo, o que é que ando cá a fazer neste mundo?

A CONSCIÊNCIA

Será que isso é vulgar
que obriga a grande ciência
para neste mundo andar
pôr de parte a consciência?
Não tê-la sempre presente
até sem mostrar p’ra fora
é não querer ser prudente
falhando na própria hora

Ser consciente dos actos
antes de os praticar
evitando espalhafatos
que possam embaraçar
esse é princípio ideal
que muito ajuda a viver
e evita muito mal
impedindo de sofrer

Mas então a consciência
é coisa que se explique?
É mais do que uma tendência
mas de que não se abdique
é a forma de pensar
ver a fundo consequência
e não tem de hesitar
se é boa a consciência

De consciência limpa andar
não ter de se arrepender
é bom caminho traçar
sem ter nada que temer
dizendo sempre as verdades
próximo não enganar
só provoca amizades
andar perto do amar

Dizer mal sem ter razão
acusar sem prova ter
é desdenhar o perdão
que se merece ao morrer
tudo está nas nossas mãos
na nossa própria inocência
querermo-nos como irmãos
só com boa consciência

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Mesmo que se teime no princípio de que o Homem é imutável, que se mantém igual desde que tem o carácter formado e vai percorrendo toda a sua existência até ao último dia sem alterações desse mesmo carácter, essa afirmação não tem base sustentável. No que diz respeito à generalidade dos seres humanos são as alegrias e as tristezas que provocam mutações na sua forma de ser original. Umas e outras actuam como bálsamo ou veneno.
Ninguém se cria a si próprio. Todos aparecemos feitos. Por dentro e por fora. O interesse pelo saber e o desenvolvimento da cultura cria, na verdade, camadas de tecido que se cola à forma original. O que está por baixo vem do começo, embora possa ser disfarçado, com o andar dos anos, devido às carapaças que se vão sobrepondo.
Ora, são essas roupagens suplementares que vão mudando as formas de ser do Homem e tais acréscimos tanto podem resultar do que a vida ensina como do que se obtém com a leitura e também em grande escala, resulta de um factor que não obedece à vontade própria: a sorte.
O sair a lotaria, por exemplo, a quem atravessa a vida lutando com dificuldades tem, forçosamente, que provocar alguma alteração comportamental no indivíduo bafejado por essa dita. Não tem de ser sempre para uma melhoria do chamado feitio. Pode até ocorrer o contrário mas, seja como for, o que é certo é que se verifica uma mudança. Já a inversa, o perder uma fortuna repentinamente, passando a ter fome quem antes vivia na abastança, tal situação ocasiona, de uma forma, maior aceitação por parte dos atingidos. Aí, não foi a sorte que interferiu, foi a falta dela. Ou de outra coisa, como aquela que se chama de má cabeça.
Seja como for, o ser humano vai-se modificando com o andar dos anos. Vai refinando os maus sentimentos existentes de origem, aguça a malandragem que transporta no seu íntimo, fica pior do que era. Raramente se mantém igual a antes. Mas o contrário, o passar de ruim a boa pessoa, como se chama vulgarmente, ser tratável quem anteriormente ninguém suportava, perder o azedume habitual de outros momentos, diminuir o envinagramento, tudo isso não é tão vulgar. Mas também acontece.
Há excepções? Pois há. Qualquer regra não tem obrigatoriamente que ser cumprida pela generalidade das pessoas. O disfarce é uma grande defesa do Homem.
Para tentar mostrar aquilo que não é. Para não se desnudar perante o mundo. São as subtilezas do ser humano.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ter um sonho e caminhar pela vida tentando transformá-lo em realidade é, só por si, uma justificação para se existir
Ao menos que esse sonho não se desfaça antes de chegarmos ao fim do corredor do nosso percurso.

MENTIR

Mentir
´e um acto necessário
para atrair
convencer adversário
o mentiroso
é fácil de detectar
com o seu falar meloso
está pronto para enganar

Mentir
não é tão difícil assim
repetir
mesmo tim-tim-por-tim-tim
algo que a outro se ouvir
e sem saber se é verdade
com outras cores colorir
e introduzindo maldade

Mentir
é para alguns um prazer
coisa gira
mesmo fazendo sofrer
começa por um acaso
e se pega continua
pode ter um curto prazo
não passar da sua rua
lá vai abrindo caminho
e com tal expansão
causa certo burburinho

O pior é se a mentira
se pega bem à memória
e mesmo que alguém fira
atravessa a História
e muitos anos mais tarde
como facto consumado
faz as vezes da verdade
e ninguém a põe de lado

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Todos os anos sucede o mesmo. Não constitui qualquer surpresa constatar que são muitos os hectares de propriedades que ardem por esse País fora, restando apenas apurar os números para saber se a época que corre é pior do que a que passou. E contentamo-nos quando se verifica alguma baixa de valores consumidos, registando essa melhoria, por pequena que seja, como demonstração de que os incendiários foram mais benevolentes agora do que no mesmo período do ano anterior.
Também, perante iguais catástrofes que ocorrem noutros países, damo-nos por satisfeitos sempre que os elementos apurados se apresentam por lá mais drásticos do que aqueles que são aqui anunciados. E respiramos de satisfação.
No entanto, vale a pena pararmos um pouco para pensar nas características daqueles que são os causadores criminosos dos fogos que provocam as destruições de valores, campesinos ou até de residências, que se repetem de ano para ano. Quem e como serão essas criaturas? São gente nova, diz-se, alguns são até apanhados mas, de uma forma geral, não são divulgados os perfis de tais incendiários. E continua-se sem ter uma ideia do tipo de pessoas que se dedica a tamanha malfeitoria.
Já tenho procurado colocar-me na mente de tais arrepiantes criaturas, tentando apanhar as sensações do prazer que poderão sentir no momento em que se encontram a provocar o foco inicial do incêndio que se há-de estender pelo campo fora. Terá de ser forçosamente de noite, para não ser notada a presença, logo em plena escuridão. E, em tais circunstâncias, iria assistir ao alargamento rápido das labaredas que tinham nascido de um simples fósforo que aterá as folhagens secas. E, logo de seguida, a imaginação mandar-me-ia abandonar o local, indo-me colocar numa zona de observação para satisfazer a contemplação da obra executada. Mas sempre cuidando para não ser visto. Sendo possível, faço por repetir a operação a certa distância e em que a linha da zona a incendiar seja contínua, por forma a criar uma fronteira de fogo.
Que prazer que isso me daria! E, na manhã seguinte iria assistir à azáfama de centenas de bombeiros, às aflições e choros de habitantes a verem as suas propriedades já a arder ou em perigo de serem atingidas e despejando baldes de água como se isso servisse para resolver o problema, ao mesmo tempo que o ruído das sirenes e até a minha própria participação na ajuda da tentativa de extinção, tudo isso serviria para aumentar o cenário do grande e impressionante espectáculo de que eu tinha sido o produtor.
Mas, saindo de cena, deixando de me pertencer o papel de protagonista, coloco-me agora no lugar de puro espectador, tentando interpretar os sentimentos dos actores, sobretudo daqueles cujos papeis são os de maior relevo, como sejam os incendiários propriamente ditos. E, como admito que se tratam de jovens que ainda se situam na fase experimental de vida (porque os casos de vinganças e confrontos pertencem aos mais velhos executarem), imagino que é o prazer dessa experiência que leva a praticar tais actos.
E é nessas circunstâncias que encontro mais facilidade em expor o motivo do prazer de assistir ao incêndio provocado. E mesmo que me custe chegar a tal extremo, sou levado a transpor o acto do incendiário ao de certa e excessiva juventude que encontra desmedido prazer em, através dos “sprays” de tintas de diversas cores, cobrir as superfícies, sejam elas quais forem, dar azo ao seu espírito destrutivo. Tanto faz que sejam monumentos valiosos, de muita antiguidade, como placas indicadoras de informações preciosas aos cidadãos, de paredes, portas, traseiras de autocarros, tudo que receba essa tinta horrorosa para dar largas ao acto de selvajaria que existe no íntimo de bastantes desses jovens.
Por muito que possa escandalizar os que cheguem a ler estas linhas, eu não consigo distanciar assim tanto a horrorosa atitude dos incendiários, dos destruidores de campos, florestas, arborizações, celeiros, currais cheios de animais, as residências dos que habitam por perto, com as dos que, nas cidades, sujam tudo, destroem coisas bonitas que os homens fazem para outros se deleitarem a contemplar ou para sua informação, só pelo simples prazer de encher de tinta e de escrevinhar frases sem sentido, ilegíveis, afrontosas quase sempre, inestéticas. Ambas as atitudes correspondem a um gozo lúgubre, a uma contribuição para um dia de amanhã pior do que o de hoje.
Cá por mim, essa camada de cidadãos, embora ainda não seniores, que nos torna mais negro o espectáculo da vida, não faz grande diferença uma da outra. Uns destroem, com prazer, o que a Natureza nos põe à disposição, nos campos, nas montanhas, nas aldeias. Os outros, também para seu gozo pessoal, conspurcam os locais mais habitados, nas cidades, nos sítios onde o Homem já empregou a sua arte e o seu saber. Estragam o ambiente.
Causam-me fúrias os dois.




domingo, 18 de julho de 2010


Crescer sem voltar a aprender,
sem recordar o aprendido e sem se esforçar para não esquecer é perder todo o tempo de que dispuser e
sem aproveitar o essencial da vida

POETAS PERDIDOS

Poetas desconhecidos
quantos existem no mundo
com tantos génios perdidos
que nunca saem do fundo
poetizam para si
imaginam, logo esquecem
por aqui e por ali
porque aos outros não convencem
ficam sós
tais eles Jós

Normalmente são modestos
não crêem no que lhes sai
será por serem honestos
ou porque a Musa os atrai?
Se também não há destino
a dar ao que sai da alma
só o que é mais cretino
é que lá perde a calma
escrever e guardar
também é amar

Usar costas de papel
por outros antes escrito
pode até saber a mel
a quem só usa palito
mas a penúria obriga
poeta rico não há
qu’isso de fazer cantiga
não dá dinheiro por cá
rime que rime
tanto deprime

A esperança dos poetas
Que nos cantos lá produzem
é que as obras secretas
só muito tarde é que luzem
quando os autores já se foram
e alguém vasculha os cestos
que noutro mundo onde moram
ninguém liga aos contextos
depois da ida
outra vida

Mas também há os que em vida
lá conseguem dar nas vistas
alcançam boa acolhida
seguiram as certas pistas
o normal não é assim
os génios, esses coitados
se quiserem olhem p’ra mim
verão como não dão brado
sempre mudo
eu me ajudo




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Muitas vezes me entrego à tortura de fazer o meu acto de contrição e sempre com o desejo de me conhecer profundamente. E, normalmente, acabo por concluir que é infrutífero tal esforço O arrependimento é algo que sucede só depois. Após
se ter tido um comportamento é que pode ser feita a auto-crítica. Porque a satisfação de ter procedido bem, essa geralmente não se verifica. Agora, o reconhecer-se que não se actuou da maneira mais conveniente, o desejar fazer uma marcha-atrás para emendar o que não saiu perfeito, esse acto de contrição faz vir ao de cima a justeza dos procedimentos. Só se arrepende quem tem consciência. Ou julga tê-la.. Só não aceitam os erros aqueles que se julgam sempre com razão. Dizer alguma coisa, ainda que seja uma verdade, sem tirar e provocar alguma vantagem em expressar o que vai dentro, sem remediar qualquer situação, em vez de tomar tal atitude será preferível não deixar sair da boca a primeira sentença que surge. Também emendar a mão depois do mal feito, normalmente já pouco serve para retirar os efeitos produzidos.
Termos a pretensão de que conhecemos o outro com quem nos damos, que a sua maneira de ser não constitui segredo para nós, é um equívoco que, muitas vezes, nos sai caro. Por mais íntimo que seja o próximo, com frequência somos surpreendidos por uma reacção inesperada, por uma atitude que nos deixa embasbacados. Sem palavras, como se diz. Isso, no que diz respeito aos outros. Mais afastados ou muito chegados. E é graças a essa falta de conhecimento completo que se pode manter um relacionamento mais ou menos estável. A ignorância do íntimo do outro mortal, muito embora possamos ter a pretensão de o compreender, é essa ignorância que suporta a convivência. E vice-versa.
O Homem, desde que começou a pôr em uso a sua própria vontade, coloca, mesmo sem dar por isso, a máscara com que atravessa a existência. Nalguns é mais perceptível que noutros, nos que se enganam a eles próprios. Ninguém gosta de ser um livro aberto. Até, como auto-defesa, se traja do que não é. Quantas vezes, mesmo inconscientemente, a máscara está lá e o próprio não dá por isso.
Os simples, os raros que não se escondem por detrás de uma aparência fabricada, não são providos de auto-protecção. O camaleão defende-se porque se confunde com o ambiente que o envolve. Parecer uma coisa e ser outra, por muito que espante quando se desnuda, tem a vantagem de manter viva uma relação que, de outra maneira, era impossível sustentar.
No que diz respeito ao conhecimento de nós próprios, acontece-me o que creio que sucederá a quase todos os mortais: convencemo-nos que sabemos o que somos, que não temos segredos quanto às nossas reacções, aos nossos comportamentos perante as diversas surpresas que o dia-a-dia nos reserva. Não há maior equívoco! Nós mesmos nos ignoramos com frequência. E, de certa maneira, ainda bem. Provavelmente, se não existissem dúvidas sobre aquilo que, na realidade, somos, teríamos de ser os primeiros a não nos apreciarmos.
Os vaidosos, esses convencem-se que se conhecem plenamente. E têm-se na conta de possuir, em elevado grau, todas as qualidades humanas. Fabricam a sua felicidade. Mas, talvez um dia caiam em si e descubram que estavam enganados. Que, afinal, são iguais aos outros, os vulgares. E é um desconsolo!
Vendo bem as coisas, a ignorância do que realmente somos e do que o muito próximo é, constitui a melhor forma de ir mantendo uma convivência saudável. Tão duradoira quanto possível.

sábado, 17 de julho de 2010

Os humores, provenientes das circunstâncias que se vivem, vão alterando os comportamentos.
É também o que se passa comigo.
Vou variando e ainda bem.

ADIAR

Tem razão quem não tem pressa
e para depois se deixa
sem medo de que se esqueça
nem de ouvir qualquer queixa
confiando na cabeça

P’ra quê andar a correr
afogueado labor
esteja onde estiver
algo se faz com rigor
tudo pode dar prazer

O cansaço não é prova
de que o labor sai perfeito
e se é matéria nova
pode sair sem defeito
seja prosa ou seja trova

Esperar com paciência
dar tempo ao tempo, então
é apostar na cadência
à corrida dizer não
e mostrar a sã prudência

O adiar é bem cómodo
o depois logo se vê
é um dito popular
em que muita gente crê
sem sair do patamar

Assim sem fazer alarde
Sem gritos de ter razão
Muito menos ser cobarde
Pensar com os pés no chão
Que amanhã pode ser tarde

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Muitas vezes me entrego à tortura de fazer o meu acto de contrição e sempre com o desejo de me conhecer profundamente. E, normalmente, acabo por concluir que é infrutífero tal esforço O arrependimento é algo que sucede só depois. Após
se ter tido um comportamento é que pode ser feita a auto-crítica. Porque a satisfação de ter procedido bem, essa geralmente não se verifica. Agora, o reconhecer-se que não se actuou da maneira mais conveniente, o desejar fazer uma marcha-atrás para emendar o que não saiu perfeito, esse acto de contrição faz vir ao de cima a justeza dos procedimentos. Só se arrepende quem tem consciência. Ou julga tê-la.. Só não aceitam os erros aqueles que se julgam sempre com razão. Dizer alguma coisa, ainda que seja uma verdade, sem tirar e provocar alguma vantagem em expressar o que vai dentro, sem remediar qualquer situação, em vez de tomar tal atitude será preferível não deixar sair da boca a primeira sentença que surge. Também emendar a mão depois do mal feito, normalmente já pouco serve para retirar os efeitos produzidos.
Termos a pretensão de que conhecemos o outro com quem nos damos, que a sua maneira de ser não constitui segredo para nós, é um equívoco que, muitas vezes, nos sai caro. Por mais íntimo que seja o próximo, com frequência somos surpreendidos por uma reacção inesperada, por uma atitude que nos deixa embasbacados. Sem palavras, como se diz. Isso, no que diz respeito aos outros. Mais afastados ou muito chegados. E é graças a essa falta de conhecimento completo que se pode manter um relacionamento mais ou menos estável. A ignorância do íntimo do outro mortal, muito embora possamos ter a pretensão de o compreender, é essa ignorância que suporta a convivência. E vice-versa.
O Homem, desde que começou a pôr em uso a sua própria vontade, coloca, mesmo sem dar por isso, a máscara com que atravessa a existência. Nalguns é mais perceptível que noutros, nos que se enganam a eles próprios. Ninguém gosta de ser um livro aberto. Até, como auto-defesa, se traja do que não é. Quantas vezes, mesmo inconscientemente, a máscara está lá e o próprio não dá por isso.
Os simples, os raros que não se escondem por detrás de uma aparência fabricada, não são providos de auto-protecção. O camaleão defende-se porque se confunde com o ambiente que o envolve. Parecer uma coisa e ser outra, por muito que espante quando se desnuda, tem a vantagem de manter viva uma relação que, de outra maneira, era impossível sustentar.
No que diz respeito ao conhecimento de nós próprios, acontece-me o que creio que sucederá a quase todos os mortais: convencemo-nos que sabemos o que somos, que não temos segredos quanto às nossas reacções, aos nossos comportamentos perante as diversas surpresas que o dia-a-dia nos reserva. Não há maior equívoco! Nós mesmos nos ignoramos com frequência. E, de certa maneira, ainda bem. Provavelmente, se não existissem dúvidas sobre aquilo que, na realidade, somos, teríamos de ser os primeiros a não nos apreciarmos.
Os vaidosos, esses convencem-se que se conhecem plenamente. E têm-se na conta de possuir, em elevado grau, todas as qualidades humanas. Fabricam a sua felicidade. Mas, talvez um dia caiam em si e descubram que estavam enganados. Que, afinal, são iguais aos outros, os vulgares. E é um desconsolo!
Vendo bem as coisas, a ignorância do que realmente somos e do que o muito próximo é, constitui a melhor forma de ir mantendo uma convivência saudável. Tão duradoira quanto possível.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

DESENCANTO POR ENQUANTO!...



Por muito que se tenha vivido e por bastante menos que nos falte para concluir o capítulo da vida, sempre se mantém a perspectiva do amanhã. Seja para dar seguimento a uma tarefa inconcluida, seja por haver esperança de que depois é mais oportuno terminá-la. O agora, nem sempre apetece. O já, é normalmente incómodo. Fazer de seguida cansa, muito embora possa resolver logo a questão pendente. Encarar na altura um problema pode não dar ocasião a meditar com tranquilidade. Sobre ele e quanto à melhor solução.
O logo se vê é a posição que tomam os que arrastam para depois o encarar com as situações. O “espera aí que depois resolvo”, pode ser uma defesa para as arrelias. Um pé no travão das coisas incómodas, daquelas que, quanto mais tarde melhor, mesmo que não as elimine dá espaço para mudar de rumo.
Essa frase do “há tempo”, faz tranquilizar até os que sabem que o assunto em mãos tem contornos de urgência. Com base na expressão de que o tempo cura tudo, o deixa andar acaba, por vezes, por dar razão a quem receia enfrentar situações complicadas. E a verdade é que, se não é a melhor solução o que o tempo acaba por proporcionar, pelo menos dá mais espaço para acalmar os espíritos daqueles que defrontam um incómodo.
Seja como for, o jogo do empurra, o espera aí um bocadinho, o quanto mais tarde melhor, tudo isso só pode ser considerado como uma manifestação de fraqueza. É deixar para depois o que pode ser feito logo. É manter uma preocupação pendente, é até ter medo do resultado do confronto com o problema.
Estou a escrever este texto e faço-me esquecido de que tenho marcado um encontro com um editor para apreciar os trabalhos que tenho arrecadados numa gaveta. Vou pensar melhor se devo correr esse incómodo. Se estou preparado para uma desilusão. Se não estarei a deitar achas para a fogueira das desilusões, se não poderei atacar a árvore das esperanças que constituem o veio da força para a manutenção das minhas produções.
Não digo nada. Quando arrumar os papéis que tenho sobre a mesa e sair do café logo vejo se os meus passos se encaminham para esse “juiz” da obra dos outros. Ainda não sei se não será mais um “logo veremos”.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A AREIA

A areia que escorre entre os dedos
lembra a vida que foge e não se agarra
é isso bem visível nos meus medos
desses que me perseguem com amarra

Vejo-a cair no fundo do poço
esse poço que é o fim da vida
é tão rápida a queda que não ouço
nem sinto a dor que provoca a partida

Areia fina que já fostes pedra
milhões de anos por ti passaram
apesar disso és algo que medra
voltarás a ser como te encontraram

As avestruzes no teu seio escondem
as cabeças medrosas, indecisas
e perguntam aos grãos que não respondem
pois aí não há soluções precisas

Mas a vida é tal como a areia
ensopada é igual à argamassa
seca, quando o vento a leva à boleia
rodopiando enquanto o tempo passa

Um dia, porém, leva-a o mar
não fica essa areia onde estava
mas outros bagos irão ocupar
tal espaço onde antes morava

A vida é assim: ondas de areia
ora compacta ou de grãos à solta
nada seguro nesta grande aldeia
que é o mundo sempre em revolta







DESENCANTO POR ENQUANTO...


Com frequência arrima-se-me ao pensamento a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: francamente, será que eu gostaria de ter a característica dos fingidores? E, neste particular, sobretudo o de ser capaz de transmitir a ideia de que aquilo que acabou de me ser dito e que não dá sinais de ter o mínimo interesse para sustentar uma conversa, essa palavra ou frase não foi ouvida por mim, dando eu os ares de ser surdo. Serei eu, portanto, capaz de fazer o papel de mouco, quando isso me convém?
Eu, por mim, já dei com pessoas que utilizaram esse truque comigo. Sobretudo quando, fazendo uso da minha condição de ser mais velho e de evidenciar mais saber que o meu interlocutor, pretendendo fazer uma correcção no discurso que estava a ser proferido pelo outro, avancei com uma sentença e deparei, depois disso, com o tal ar de quem não tinha entendido uma palavra que fosse possível extrair da minha fala.
Agora, da minha parte, nunca recorri a essa fuga para não ter de alimentar um diálogo que não merecia o menor segundo de atenção. Sempre caí na tentação de dar réplica, de alimentar a asneirada, de deitar achas para a fogueira do disparate. Replicar, tentar convencer o parceiro de que aquilo que ele acabou de dizer não tem ponta por onde se lhe pegue, esse é o meu hábito. Talvez possa considerar de mau hábito…
Só porque eu tenho mantido a convicção de que o mais natural, o mais lógico e até mesmo o mais humano é fazer frente ao que acaba de ser proferido e tentar ser didáctico, corrigindo, argumentando com lógica, mas não deixando que persista o erro que grassa no outro. Porém, na maioria dos casos, este sinal de boa vontade, este interesse em ajudar não é bem acolhido pela outra parte, criando-se até uma situação de mal-estar e de indignação por parte de quem é corrigido. E o mais sensato nestes casos é deixar passar e não intervir com propósitos de corrector.
No meu caso, porém, tenho grande dificuldade em fazer de fingidor. A minha cara não condiz com o gesto. Pôr o ar de quem é surdo, tendo ouvido perfeitamente o que me foi dito, não é fácil. Não tendo o espírito do enganador, será necessário muito treino e, mesmo assim, não há garantia de sucesso com essa interpretação de palco. Fazer de conta necessita de muito treino, para além da forma de ser própria que alguns cultivam. E quando me atiram com expressões como “espectacular”, por tudo e por nada, e intercalam no meio das frase aquele “digamos” que não vem nada a propósito, nessas ocasiões não há fingimento que resista.
Bem me apetece, por vezes, fazer o tal papel do surdo, de deixar correr o discurso do outro sem a menor intervenção da minha parte, de pôr até um sorriso simpático de quem está a apreciar muito a conversa. Mas sinto que não sou convincente. Fico até com a impressão de que deixo um rasto de falsidade que saberá ainda pior do que a franqueza que pusesse nas minhas observações.
Mas a vida é assim. Ingrata. Fomentadora de enganos e deslealdades. Há, pois, que suportá-la tal como ela se nos apresenta. Se não nos adaptamos às suas circunstâncias e procuramos fazer intervenções correctivas à nossa maneira, o menos que nos pode acontecer é ficarmos isolados do mundo, sendo tidos como seres insociáveis.
Ao fingimento, então!...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

DESEMPREGO

Cada um faz o que pode
o que sabe, o que o deixam
aquilo p’ra que lhe pagam
à espera que se acomode
já que os outros não se queixam
e também não o afagam

Se outra coisa fizesse
se aquilo que faz agora
não fosse do seu agrado
e algo mais merecesse
podia-se ir embora
partindo p’ra outro lado?

Emprego há com fartura
como dantes sucedia
e se podia escolher?
A vida hoje é bem dura
piora dia p’ra dia
o melhor é não mexer

Agora eu faço isto
sem patrão que me ordene
mas também sem ter quem pague
por agora não desisto
sem haver acto solene
oxalá ninguém me esmague

Nesta altura o que é melhor
a quem tem emprego mau
é fazer por conservar
pois será muito pior
escorregar do degrau
ficando a olhar p’ro ar