terça-feira, 20 de julho de 2010

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Mesmo que se teime no princípio de que o Homem é imutável, que se mantém igual desde que tem o carácter formado e vai percorrendo toda a sua existência até ao último dia sem alterações desse mesmo carácter, essa afirmação não tem base sustentável. No que diz respeito à generalidade dos seres humanos são as alegrias e as tristezas que provocam mutações na sua forma de ser original. Umas e outras actuam como bálsamo ou veneno.
Ninguém se cria a si próprio. Todos aparecemos feitos. Por dentro e por fora. O interesse pelo saber e o desenvolvimento da cultura cria, na verdade, camadas de tecido que se cola à forma original. O que está por baixo vem do começo, embora possa ser disfarçado, com o andar dos anos, devido às carapaças que se vão sobrepondo.
Ora, são essas roupagens suplementares que vão mudando as formas de ser do Homem e tais acréscimos tanto podem resultar do que a vida ensina como do que se obtém com a leitura e também em grande escala, resulta de um factor que não obedece à vontade própria: a sorte.
O sair a lotaria, por exemplo, a quem atravessa a vida lutando com dificuldades tem, forçosamente, que provocar alguma alteração comportamental no indivíduo bafejado por essa dita. Não tem de ser sempre para uma melhoria do chamado feitio. Pode até ocorrer o contrário mas, seja como for, o que é certo é que se verifica uma mudança. Já a inversa, o perder uma fortuna repentinamente, passando a ter fome quem antes vivia na abastança, tal situação ocasiona, de uma forma, maior aceitação por parte dos atingidos. Aí, não foi a sorte que interferiu, foi a falta dela. Ou de outra coisa, como aquela que se chama de má cabeça.
Seja como for, o ser humano vai-se modificando com o andar dos anos. Vai refinando os maus sentimentos existentes de origem, aguça a malandragem que transporta no seu íntimo, fica pior do que era. Raramente se mantém igual a antes. Mas o contrário, o passar de ruim a boa pessoa, como se chama vulgarmente, ser tratável quem anteriormente ninguém suportava, perder o azedume habitual de outros momentos, diminuir o envinagramento, tudo isso não é tão vulgar. Mas também acontece.
Há excepções? Pois há. Qualquer regra não tem obrigatoriamente que ser cumprida pela generalidade das pessoas. O disfarce é uma grande defesa do Homem.
Para tentar mostrar aquilo que não é. Para não se desnudar perante o mundo. São as subtilezas do ser humano.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ter um sonho e caminhar pela vida tentando transformá-lo em realidade é, só por si, uma justificação para se existir
Ao menos que esse sonho não se desfaça antes de chegarmos ao fim do corredor do nosso percurso.

MENTIR

Mentir
´e um acto necessário
para atrair
convencer adversário
o mentiroso
é fácil de detectar
com o seu falar meloso
está pronto para enganar

Mentir
não é tão difícil assim
repetir
mesmo tim-tim-por-tim-tim
algo que a outro se ouvir
e sem saber se é verdade
com outras cores colorir
e introduzindo maldade

Mentir
é para alguns um prazer
coisa gira
mesmo fazendo sofrer
começa por um acaso
e se pega continua
pode ter um curto prazo
não passar da sua rua
lá vai abrindo caminho
e com tal expansão
causa certo burburinho

O pior é se a mentira
se pega bem à memória
e mesmo que alguém fira
atravessa a História
e muitos anos mais tarde
como facto consumado
faz as vezes da verdade
e ninguém a põe de lado

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Todos os anos sucede o mesmo. Não constitui qualquer surpresa constatar que são muitos os hectares de propriedades que ardem por esse País fora, restando apenas apurar os números para saber se a época que corre é pior do que a que passou. E contentamo-nos quando se verifica alguma baixa de valores consumidos, registando essa melhoria, por pequena que seja, como demonstração de que os incendiários foram mais benevolentes agora do que no mesmo período do ano anterior.
Também, perante iguais catástrofes que ocorrem noutros países, damo-nos por satisfeitos sempre que os elementos apurados se apresentam por lá mais drásticos do que aqueles que são aqui anunciados. E respiramos de satisfação.
No entanto, vale a pena pararmos um pouco para pensar nas características daqueles que são os causadores criminosos dos fogos que provocam as destruições de valores, campesinos ou até de residências, que se repetem de ano para ano. Quem e como serão essas criaturas? São gente nova, diz-se, alguns são até apanhados mas, de uma forma geral, não são divulgados os perfis de tais incendiários. E continua-se sem ter uma ideia do tipo de pessoas que se dedica a tamanha malfeitoria.
Já tenho procurado colocar-me na mente de tais arrepiantes criaturas, tentando apanhar as sensações do prazer que poderão sentir no momento em que se encontram a provocar o foco inicial do incêndio que se há-de estender pelo campo fora. Terá de ser forçosamente de noite, para não ser notada a presença, logo em plena escuridão. E, em tais circunstâncias, iria assistir ao alargamento rápido das labaredas que tinham nascido de um simples fósforo que aterá as folhagens secas. E, logo de seguida, a imaginação mandar-me-ia abandonar o local, indo-me colocar numa zona de observação para satisfazer a contemplação da obra executada. Mas sempre cuidando para não ser visto. Sendo possível, faço por repetir a operação a certa distância e em que a linha da zona a incendiar seja contínua, por forma a criar uma fronteira de fogo.
Que prazer que isso me daria! E, na manhã seguinte iria assistir à azáfama de centenas de bombeiros, às aflições e choros de habitantes a verem as suas propriedades já a arder ou em perigo de serem atingidas e despejando baldes de água como se isso servisse para resolver o problema, ao mesmo tempo que o ruído das sirenes e até a minha própria participação na ajuda da tentativa de extinção, tudo isso serviria para aumentar o cenário do grande e impressionante espectáculo de que eu tinha sido o produtor.
Mas, saindo de cena, deixando de me pertencer o papel de protagonista, coloco-me agora no lugar de puro espectador, tentando interpretar os sentimentos dos actores, sobretudo daqueles cujos papeis são os de maior relevo, como sejam os incendiários propriamente ditos. E, como admito que se tratam de jovens que ainda se situam na fase experimental de vida (porque os casos de vinganças e confrontos pertencem aos mais velhos executarem), imagino que é o prazer dessa experiência que leva a praticar tais actos.
E é nessas circunstâncias que encontro mais facilidade em expor o motivo do prazer de assistir ao incêndio provocado. E mesmo que me custe chegar a tal extremo, sou levado a transpor o acto do incendiário ao de certa e excessiva juventude que encontra desmedido prazer em, através dos “sprays” de tintas de diversas cores, cobrir as superfícies, sejam elas quais forem, dar azo ao seu espírito destrutivo. Tanto faz que sejam monumentos valiosos, de muita antiguidade, como placas indicadoras de informações preciosas aos cidadãos, de paredes, portas, traseiras de autocarros, tudo que receba essa tinta horrorosa para dar largas ao acto de selvajaria que existe no íntimo de bastantes desses jovens.
Por muito que possa escandalizar os que cheguem a ler estas linhas, eu não consigo distanciar assim tanto a horrorosa atitude dos incendiários, dos destruidores de campos, florestas, arborizações, celeiros, currais cheios de animais, as residências dos que habitam por perto, com as dos que, nas cidades, sujam tudo, destroem coisas bonitas que os homens fazem para outros se deleitarem a contemplar ou para sua informação, só pelo simples prazer de encher de tinta e de escrevinhar frases sem sentido, ilegíveis, afrontosas quase sempre, inestéticas. Ambas as atitudes correspondem a um gozo lúgubre, a uma contribuição para um dia de amanhã pior do que o de hoje.
Cá por mim, essa camada de cidadãos, embora ainda não seniores, que nos torna mais negro o espectáculo da vida, não faz grande diferença uma da outra. Uns destroem, com prazer, o que a Natureza nos põe à disposição, nos campos, nas montanhas, nas aldeias. Os outros, também para seu gozo pessoal, conspurcam os locais mais habitados, nas cidades, nos sítios onde o Homem já empregou a sua arte e o seu saber. Estragam o ambiente.
Causam-me fúrias os dois.




domingo, 18 de julho de 2010


Crescer sem voltar a aprender,
sem recordar o aprendido e sem se esforçar para não esquecer é perder todo o tempo de que dispuser e
sem aproveitar o essencial da vida

POETAS PERDIDOS

Poetas desconhecidos
quantos existem no mundo
com tantos génios perdidos
que nunca saem do fundo
poetizam para si
imaginam, logo esquecem
por aqui e por ali
porque aos outros não convencem
ficam sós
tais eles Jós

Normalmente são modestos
não crêem no que lhes sai
será por serem honestos
ou porque a Musa os atrai?
Se também não há destino
a dar ao que sai da alma
só o que é mais cretino
é que lá perde a calma
escrever e guardar
também é amar

Usar costas de papel
por outros antes escrito
pode até saber a mel
a quem só usa palito
mas a penúria obriga
poeta rico não há
qu’isso de fazer cantiga
não dá dinheiro por cá
rime que rime
tanto deprime

A esperança dos poetas
Que nos cantos lá produzem
é que as obras secretas
só muito tarde é que luzem
quando os autores já se foram
e alguém vasculha os cestos
que noutro mundo onde moram
ninguém liga aos contextos
depois da ida
outra vida

Mas também há os que em vida
lá conseguem dar nas vistas
alcançam boa acolhida
seguiram as certas pistas
o normal não é assim
os génios, esses coitados
se quiserem olhem p’ra mim
verão como não dão brado
sempre mudo
eu me ajudo




DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Muitas vezes me entrego à tortura de fazer o meu acto de contrição e sempre com o desejo de me conhecer profundamente. E, normalmente, acabo por concluir que é infrutífero tal esforço O arrependimento é algo que sucede só depois. Após
se ter tido um comportamento é que pode ser feita a auto-crítica. Porque a satisfação de ter procedido bem, essa geralmente não se verifica. Agora, o reconhecer-se que não se actuou da maneira mais conveniente, o desejar fazer uma marcha-atrás para emendar o que não saiu perfeito, esse acto de contrição faz vir ao de cima a justeza dos procedimentos. Só se arrepende quem tem consciência. Ou julga tê-la.. Só não aceitam os erros aqueles que se julgam sempre com razão. Dizer alguma coisa, ainda que seja uma verdade, sem tirar e provocar alguma vantagem em expressar o que vai dentro, sem remediar qualquer situação, em vez de tomar tal atitude será preferível não deixar sair da boca a primeira sentença que surge. Também emendar a mão depois do mal feito, normalmente já pouco serve para retirar os efeitos produzidos.
Termos a pretensão de que conhecemos o outro com quem nos damos, que a sua maneira de ser não constitui segredo para nós, é um equívoco que, muitas vezes, nos sai caro. Por mais íntimo que seja o próximo, com frequência somos surpreendidos por uma reacção inesperada, por uma atitude que nos deixa embasbacados. Sem palavras, como se diz. Isso, no que diz respeito aos outros. Mais afastados ou muito chegados. E é graças a essa falta de conhecimento completo que se pode manter um relacionamento mais ou menos estável. A ignorância do íntimo do outro mortal, muito embora possamos ter a pretensão de o compreender, é essa ignorância que suporta a convivência. E vice-versa.
O Homem, desde que começou a pôr em uso a sua própria vontade, coloca, mesmo sem dar por isso, a máscara com que atravessa a existência. Nalguns é mais perceptível que noutros, nos que se enganam a eles próprios. Ninguém gosta de ser um livro aberto. Até, como auto-defesa, se traja do que não é. Quantas vezes, mesmo inconscientemente, a máscara está lá e o próprio não dá por isso.
Os simples, os raros que não se escondem por detrás de uma aparência fabricada, não são providos de auto-protecção. O camaleão defende-se porque se confunde com o ambiente que o envolve. Parecer uma coisa e ser outra, por muito que espante quando se desnuda, tem a vantagem de manter viva uma relação que, de outra maneira, era impossível sustentar.
No que diz respeito ao conhecimento de nós próprios, acontece-me o que creio que sucederá a quase todos os mortais: convencemo-nos que sabemos o que somos, que não temos segredos quanto às nossas reacções, aos nossos comportamentos perante as diversas surpresas que o dia-a-dia nos reserva. Não há maior equívoco! Nós mesmos nos ignoramos com frequência. E, de certa maneira, ainda bem. Provavelmente, se não existissem dúvidas sobre aquilo que, na realidade, somos, teríamos de ser os primeiros a não nos apreciarmos.
Os vaidosos, esses convencem-se que se conhecem plenamente. E têm-se na conta de possuir, em elevado grau, todas as qualidades humanas. Fabricam a sua felicidade. Mas, talvez um dia caiam em si e descubram que estavam enganados. Que, afinal, são iguais aos outros, os vulgares. E é um desconsolo!
Vendo bem as coisas, a ignorância do que realmente somos e do que o muito próximo é, constitui a melhor forma de ir mantendo uma convivência saudável. Tão duradoira quanto possível.

sábado, 17 de julho de 2010

Os humores, provenientes das circunstâncias que se vivem, vão alterando os comportamentos.
É também o que se passa comigo.
Vou variando e ainda bem.

ADIAR

Tem razão quem não tem pressa
e para depois se deixa
sem medo de que se esqueça
nem de ouvir qualquer queixa
confiando na cabeça

P’ra quê andar a correr
afogueado labor
esteja onde estiver
algo se faz com rigor
tudo pode dar prazer

O cansaço não é prova
de que o labor sai perfeito
e se é matéria nova
pode sair sem defeito
seja prosa ou seja trova

Esperar com paciência
dar tempo ao tempo, então
é apostar na cadência
à corrida dizer não
e mostrar a sã prudência

O adiar é bem cómodo
o depois logo se vê
é um dito popular
em que muita gente crê
sem sair do patamar

Assim sem fazer alarde
Sem gritos de ter razão
Muito menos ser cobarde
Pensar com os pés no chão
Que amanhã pode ser tarde

DESENCANTO POR ENQUANTO!...


Muitas vezes me entrego à tortura de fazer o meu acto de contrição e sempre com o desejo de me conhecer profundamente. E, normalmente, acabo por concluir que é infrutífero tal esforço O arrependimento é algo que sucede só depois. Após
se ter tido um comportamento é que pode ser feita a auto-crítica. Porque a satisfação de ter procedido bem, essa geralmente não se verifica. Agora, o reconhecer-se que não se actuou da maneira mais conveniente, o desejar fazer uma marcha-atrás para emendar o que não saiu perfeito, esse acto de contrição faz vir ao de cima a justeza dos procedimentos. Só se arrepende quem tem consciência. Ou julga tê-la.. Só não aceitam os erros aqueles que se julgam sempre com razão. Dizer alguma coisa, ainda que seja uma verdade, sem tirar e provocar alguma vantagem em expressar o que vai dentro, sem remediar qualquer situação, em vez de tomar tal atitude será preferível não deixar sair da boca a primeira sentença que surge. Também emendar a mão depois do mal feito, normalmente já pouco serve para retirar os efeitos produzidos.
Termos a pretensão de que conhecemos o outro com quem nos damos, que a sua maneira de ser não constitui segredo para nós, é um equívoco que, muitas vezes, nos sai caro. Por mais íntimo que seja o próximo, com frequência somos surpreendidos por uma reacção inesperada, por uma atitude que nos deixa embasbacados. Sem palavras, como se diz. Isso, no que diz respeito aos outros. Mais afastados ou muito chegados. E é graças a essa falta de conhecimento completo que se pode manter um relacionamento mais ou menos estável. A ignorância do íntimo do outro mortal, muito embora possamos ter a pretensão de o compreender, é essa ignorância que suporta a convivência. E vice-versa.
O Homem, desde que começou a pôr em uso a sua própria vontade, coloca, mesmo sem dar por isso, a máscara com que atravessa a existência. Nalguns é mais perceptível que noutros, nos que se enganam a eles próprios. Ninguém gosta de ser um livro aberto. Até, como auto-defesa, se traja do que não é. Quantas vezes, mesmo inconscientemente, a máscara está lá e o próprio não dá por isso.
Os simples, os raros que não se escondem por detrás de uma aparência fabricada, não são providos de auto-protecção. O camaleão defende-se porque se confunde com o ambiente que o envolve. Parecer uma coisa e ser outra, por muito que espante quando se desnuda, tem a vantagem de manter viva uma relação que, de outra maneira, era impossível sustentar.
No que diz respeito ao conhecimento de nós próprios, acontece-me o que creio que sucederá a quase todos os mortais: convencemo-nos que sabemos o que somos, que não temos segredos quanto às nossas reacções, aos nossos comportamentos perante as diversas surpresas que o dia-a-dia nos reserva. Não há maior equívoco! Nós mesmos nos ignoramos com frequência. E, de certa maneira, ainda bem. Provavelmente, se não existissem dúvidas sobre aquilo que, na realidade, somos, teríamos de ser os primeiros a não nos apreciarmos.
Os vaidosos, esses convencem-se que se conhecem plenamente. E têm-se na conta de possuir, em elevado grau, todas as qualidades humanas. Fabricam a sua felicidade. Mas, talvez um dia caiam em si e descubram que estavam enganados. Que, afinal, são iguais aos outros, os vulgares. E é um desconsolo!
Vendo bem as coisas, a ignorância do que realmente somos e do que o muito próximo é, constitui a melhor forma de ir mantendo uma convivência saudável. Tão duradoira quanto possível.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

DESENCANTO POR ENQUANTO!...



Por muito que se tenha vivido e por bastante menos que nos falte para concluir o capítulo da vida, sempre se mantém a perspectiva do amanhã. Seja para dar seguimento a uma tarefa inconcluida, seja por haver esperança de que depois é mais oportuno terminá-la. O agora, nem sempre apetece. O já, é normalmente incómodo. Fazer de seguida cansa, muito embora possa resolver logo a questão pendente. Encarar na altura um problema pode não dar ocasião a meditar com tranquilidade. Sobre ele e quanto à melhor solução.
O logo se vê é a posição que tomam os que arrastam para depois o encarar com as situações. O “espera aí que depois resolvo”, pode ser uma defesa para as arrelias. Um pé no travão das coisas incómodas, daquelas que, quanto mais tarde melhor, mesmo que não as elimine dá espaço para mudar de rumo.
Essa frase do “há tempo”, faz tranquilizar até os que sabem que o assunto em mãos tem contornos de urgência. Com base na expressão de que o tempo cura tudo, o deixa andar acaba, por vezes, por dar razão a quem receia enfrentar situações complicadas. E a verdade é que, se não é a melhor solução o que o tempo acaba por proporcionar, pelo menos dá mais espaço para acalmar os espíritos daqueles que defrontam um incómodo.
Seja como for, o jogo do empurra, o espera aí um bocadinho, o quanto mais tarde melhor, tudo isso só pode ser considerado como uma manifestação de fraqueza. É deixar para depois o que pode ser feito logo. É manter uma preocupação pendente, é até ter medo do resultado do confronto com o problema.
Estou a escrever este texto e faço-me esquecido de que tenho marcado um encontro com um editor para apreciar os trabalhos que tenho arrecadados numa gaveta. Vou pensar melhor se devo correr esse incómodo. Se estou preparado para uma desilusão. Se não estarei a deitar achas para a fogueira das desilusões, se não poderei atacar a árvore das esperanças que constituem o veio da força para a manutenção das minhas produções.
Não digo nada. Quando arrumar os papéis que tenho sobre a mesa e sair do café logo vejo se os meus passos se encaminham para esse “juiz” da obra dos outros. Ainda não sei se não será mais um “logo veremos”.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A AREIA

A areia que escorre entre os dedos
lembra a vida que foge e não se agarra
é isso bem visível nos meus medos
desses que me perseguem com amarra

Vejo-a cair no fundo do poço
esse poço que é o fim da vida
é tão rápida a queda que não ouço
nem sinto a dor que provoca a partida

Areia fina que já fostes pedra
milhões de anos por ti passaram
apesar disso és algo que medra
voltarás a ser como te encontraram

As avestruzes no teu seio escondem
as cabeças medrosas, indecisas
e perguntam aos grãos que não respondem
pois aí não há soluções precisas

Mas a vida é tal como a areia
ensopada é igual à argamassa
seca, quando o vento a leva à boleia
rodopiando enquanto o tempo passa

Um dia, porém, leva-a o mar
não fica essa areia onde estava
mas outros bagos irão ocupar
tal espaço onde antes morava

A vida é assim: ondas de areia
ora compacta ou de grãos à solta
nada seguro nesta grande aldeia
que é o mundo sempre em revolta







DESENCANTO POR ENQUANTO...


Com frequência arrima-se-me ao pensamento a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: francamente, será que eu gostaria de ter a característica dos fingidores? E, neste particular, sobretudo o de ser capaz de transmitir a ideia de que aquilo que acabou de me ser dito e que não dá sinais de ter o mínimo interesse para sustentar uma conversa, essa palavra ou frase não foi ouvida por mim, dando eu os ares de ser surdo. Serei eu, portanto, capaz de fazer o papel de mouco, quando isso me convém?
Eu, por mim, já dei com pessoas que utilizaram esse truque comigo. Sobretudo quando, fazendo uso da minha condição de ser mais velho e de evidenciar mais saber que o meu interlocutor, pretendendo fazer uma correcção no discurso que estava a ser proferido pelo outro, avancei com uma sentença e deparei, depois disso, com o tal ar de quem não tinha entendido uma palavra que fosse possível extrair da minha fala.
Agora, da minha parte, nunca recorri a essa fuga para não ter de alimentar um diálogo que não merecia o menor segundo de atenção. Sempre caí na tentação de dar réplica, de alimentar a asneirada, de deitar achas para a fogueira do disparate. Replicar, tentar convencer o parceiro de que aquilo que ele acabou de dizer não tem ponta por onde se lhe pegue, esse é o meu hábito. Talvez possa considerar de mau hábito…
Só porque eu tenho mantido a convicção de que o mais natural, o mais lógico e até mesmo o mais humano é fazer frente ao que acaba de ser proferido e tentar ser didáctico, corrigindo, argumentando com lógica, mas não deixando que persista o erro que grassa no outro. Porém, na maioria dos casos, este sinal de boa vontade, este interesse em ajudar não é bem acolhido pela outra parte, criando-se até uma situação de mal-estar e de indignação por parte de quem é corrigido. E o mais sensato nestes casos é deixar passar e não intervir com propósitos de corrector.
No meu caso, porém, tenho grande dificuldade em fazer de fingidor. A minha cara não condiz com o gesto. Pôr o ar de quem é surdo, tendo ouvido perfeitamente o que me foi dito, não é fácil. Não tendo o espírito do enganador, será necessário muito treino e, mesmo assim, não há garantia de sucesso com essa interpretação de palco. Fazer de conta necessita de muito treino, para além da forma de ser própria que alguns cultivam. E quando me atiram com expressões como “espectacular”, por tudo e por nada, e intercalam no meio das frase aquele “digamos” que não vem nada a propósito, nessas ocasiões não há fingimento que resista.
Bem me apetece, por vezes, fazer o tal papel do surdo, de deixar correr o discurso do outro sem a menor intervenção da minha parte, de pôr até um sorriso simpático de quem está a apreciar muito a conversa. Mas sinto que não sou convincente. Fico até com a impressão de que deixo um rasto de falsidade que saberá ainda pior do que a franqueza que pusesse nas minhas observações.
Mas a vida é assim. Ingrata. Fomentadora de enganos e deslealdades. Há, pois, que suportá-la tal como ela se nos apresenta. Se não nos adaptamos às suas circunstâncias e procuramos fazer intervenções correctivas à nossa maneira, o menos que nos pode acontecer é ficarmos isolados do mundo, sendo tidos como seres insociáveis.
Ao fingimento, então!...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

DESEMPREGO

Cada um faz o que pode
o que sabe, o que o deixam
aquilo p’ra que lhe pagam
à espera que se acomode
já que os outros não se queixam
e também não o afagam

Se outra coisa fizesse
se aquilo que faz agora
não fosse do seu agrado
e algo mais merecesse
podia-se ir embora
partindo p’ra outro lado?

Emprego há com fartura
como dantes sucedia
e se podia escolher?
A vida hoje é bem dura
piora dia p’ra dia
o melhor é não mexer

Agora eu faço isto
sem patrão que me ordene
mas também sem ter quem pague
por agora não desisto
sem haver acto solene
oxalá ninguém me esmague

Nesta altura o que é melhor
a quem tem emprego mau
é fazer por conservar
pois será muito pior
escorregar do degrau
ficando a olhar p’ro ar


HAVERÁ TEMPO!...


NESTA ALTURA em que o que anda a interessar os portugueses são os dias de praia, as férias, o não ocupar a cabeça com os problemas que, ainda que sejam cada vez maiores, todos fazem os possíveis para assobiar para o lado e, como toda a gente deve a alguém e alguma coisa, já não constitui preocupação excessiva que também esse assunto nos toque, a impressão que tenho é que cada vez menos pessoas se interessam em ler desgraças e muito menos em blogues que não constituem uma obrigação de serem analisados. Ando há uns dias a avisar que vou dar por finda ~ ou, no mínimo, vou dar uma folga – a este chorrilho de choradeiras. Mas hoje, não me fico pela ignorância dos acontecimentos. Não consigo deixar de me indignar. Por isso, cá vai e em resumo resumido:
- O Governo comprou 922 automóveis novos, tendo abatido 1,772 veículos que não considerou já suficientemente válidos para servir os múltiplos funcionários públicos das diferentes categorias por a maioria deles terem mais de sete anos de uso (imagine-se, o meu tem oito e a maioria dos portugueses desloca-se em carros com 20 e mais anos!), o que correspondeu, neste época de grande crise, a um dispêndio de bastantes milhões de euros. Segundo números prestados pela Parque de Veículos do Estado, em 31 de Dezembro passado o número total de automóveis que ali constavam era de 28.793, o que correspondia a um aumento de 1.222 em relação ao ano anterior.
Quando o Governo decidiu substituir cada três funcionários públicos por um que fosse admitido, o natural seria que procedesse da mesma forma em relação aos veículos de quatro rodas. Mas isso seria pedir demasiado aos senhores que, mesmo dando mostras de querer participar muito em corridas de competição, até quando se deslocam ao estrangeiro, numa atitude, no mínimo, ridícula, no capítulo do andar de rabinho tremido, nisso é que não abdicam das comodidades e, obviamente, tendo de ser em fofuras de último modelo.
- Outro tema fresquinho é o de terem sido tornadas públicas as faltas dos deputados ao Parlamento que, nalguns casos, mereciam mesmo a expulsão do cargo que mal exercem. Mais de 20 sessões plenárias há algumas, e os maus exemplos vêm de cima. Paulo Portas, um deles, já não compareceu dez vezes, mas nomes como José Luís Arnaut e outros constam da lista de esquecidos de que a funções de deputado constitui uma responsabilidade que não permite desculpas.
- Também de passagem, porque estas coisas que se referem a actos nada apetecíveis que ocorrem à sombra da Igreja Católica, nos tempos que passam hoje e em que o ser humano se mostra cada vez menos recomendável, não constituem os exemplos que muitos esperam colher de uma zona que tanto recomenda, no mínimo bondade, para não falar em santidade., aqui deixo o que não nos ajuda a suportar pacientemente o comportamento do ser humano. Um dos factos anunciados é o do mau tratamento que está a ser dado aos cães nas traseiras do Santuário de Fátima, onde apareceram esses pobres animais em estado deplorável, por causa, disse-se, de alguém que pertence àquela Igreja e que não dá mostras de amor aos bichos. E, a outra notícia que também não constitui um exemplo, é sobre o Vaticano estar a funcionar como ”offshore”, isto é de ponto de depósito de fortunas que fogem aos impostos do fisco. Com a designação de Vaticano, S.A., em que figuras de proa daquela Instituição religiosa efectuam operações financeiras tidas como arrojadas, incluindo lavagem de dinheiros e outras acções pouco recomendáveis para quem não deve “sujar” as mãos em bens monetários.
- Quando as afirmações que se ouvem de responsáveis, incluindo o Presidente da República, são de que é preciso aumentar as exportações, como se tivéssemos os armazéns repletos de produção nacional e o que faltasse era encontrar compradores estrangeiros, perante discursos completamente vazios de conteúdo e que não têm a menor utilidade, posto que o que se torna forçoso é começar pelo princípio, isto é, criarmos condições, facilitismos, ausências de burocracia, aberturas a iniciativas industriais vinda de fora, ofertas de espaço no nosso País para que capitais estranhos aqui cheguem para montar as suas fábricas e usar a nossa mão de obra, ao escutarmos gente que devia ter consciência do que diz e não usar apenas o palavreado para mostrar que são capazes, não podemos fazer outra coisa que não seja restarmos perplexos. E revoltados por que a nós não nos cabe tomar as iniciativas úteis que são fundamentais para poder fazer Portugal encontrar uma saída.
- Por último, dado que o País está numa situação económica insustentável – coisa que eu ando a escrever há imenso tempo -, afirmação que se ouve agora a todo o momento e que os comentadores de televisão e de jornais já não escondem, numa descoberta que só neste momento fazem, entendo que a minha vez de alertar o País se encontra ultrapassada. Repito o que sempre digo: ter razão antes de tempo tem pouca utilidade, sobretudo se não se dispõe do poder bastante para interferir na solução. Aproxima-se a hora de pagar as contas. Os que fizeram os gastos desnecessários não se dispõem a andar a pé ou de eléctrico e por isso compraram mais automóveis. E quando as coisas piorarem ainda mais, saem de cena e encafuam-se em lugares que os mantêm ainda com boa vida. Os de baixo, as multidões, os que se arrastam e já andam a remexer nos caixotes, que são uns agora mas serão mais dentro em breve, esses aguentam como podem. Até ver.
Não vou mais longe, por agora.
E, a partir de amanhã, vou ensaiar incluir neste meu blogue diário, trechos da minha obra intitulada “DESENCANTO POR ENQUANTO”, não só para dar uma ideia do que está por editar, ma também para desanuviar um pouco este espaço.Oxalá seja boa ideia

terça-feira, 13 de julho de 2010

SE EU NÃO ESCREVESSE O QUE FAZIA?


Se eu não escrevesse o que faria?
Se não pudesse passar ao papel
o que arde dentro e faz azia
seria de mim próprio infiel
estoirava
acabava
guardar só p’ra mim sem desabafar
recalcar no fundo as amarguras
já porque quem não gosta de falar
nas letras se vinga e nas pinturas

Quem escreve debita desalentos
em texto simples ou mesmo poemas
é uma forma d’abrir sentimentos
e igualmente de quebrar algemas
libertar-se
superar-se
no dia em que deixar de escrever
quando vier a sentir-me incapaz
é então a hora de perceber
que o que resta nada me traz
melhor é partir
deixar de existir
e quem cá ficar que faça as contas
que julgue os que primeiro partiram
e se conseguir que agarre as pontas
dos que quiseram mas não conseguiram

São assim os alcatruzes da vida
sobem p’ra encher descem e despejam
mesmo aqueles que passam de corrida
sem tempo que chegue p’ra o qu’almejam
mas génio mostram
mais tarde gostam
depois de cá não estarem p’ra ver
e de não lhes chegar a admiração
não tendo já por isso o prazer
de merecer especial menção

Enquanto por cá eu puder pensar
e possa escolher o que mais gosto
ao menos que não tenha de guardar
p’ra mim e tenha de esconder o rosto
envergonhado
culpado
por isso o qu’escrevo, o que pinto
melhor ou pior é para mostrar
porque o que deixo é bem o que sinto
outros que guardem ou queiram queimar

COMPARAÇÃO


NÃO SEI se esta minha dúvida tem assim tanta razão de ser. Depende, claro, do ponto de vista de que se parte. Será que se pode comparar um país doente com um ser humano com falta de saúde? Uma pessoa, em fase de se encontrar com demonstrações de fraqueza de várias espécies, de incómodos físicos, de dores até nalguma parte do corpo, por ter deixado prolongar essa enfermidade sem recorrer aos cuidados médicos, tal homem ou mulher pode equivaler-se a uma nação que, também por ter adiado a observação por técnicos para poder, a tempo, evitar o irreparável, atinge uma fase em que já pouco ou nada há a fazer para a sua salvação?
Tenho pensado seriamente neste dilema. Será, julgo eu, por, o Portugal em que nasci e habito se encontrar, nesta precisa altura, em confronto com uma luta de sobrevivência deveras inquietante, pois que os seus recursos são tão diminutos, as possibilidades de cura tão escassas, a competência daqueles que têm a seu cargo o prestar a assistência necessária tão débil, as reservas de alguma ajuda de retiradas do fundo do colchão tão insignificantes, que não se encontra força bastante para animar a população e, puxando por toda a esperança que ainda lhe reste, não consegue proteger-se no guarda-chuva que lhe estendem os optimistas de serviço.
Igualmente, devido a que a minha saúde pessoal também resolveu abanar-me, tendo-me agora avisado de que o meu desinteresse em recorrer à observação clínica a tempo, me faz pagar neste momento, com sofrimento duplo, o desinteresse que demonstrei em ser observado por quem tinha competência para o fazer, o panorama que se me apresenta é propício a que estabeleça a comparação que indico logo no início deste texto.
Como resultado desta situação, o que me salta como recurso é que, por minha parte, deixe de ser tão categórico nas observações que faço, neste meu blogue, no que se refere à situação, cada vez mais degradante, do nosso País. Não foi a tempo que os governantes auscultaram a Nação e fizeram o respectivo prognóstico para, em face dos resultados, diagnosticarem a doença que estava a invadir o corpo nacional. Por meu lado, não me sinto com competência suficiente para criticar os outros que não vêm, na devida altura, o estado da sua saúde. Se eu próprio actuei da mesma maneira, em relação ao meu corpo, o que devo fazer é resumir-me à minha insignificância e não levar tão a peito o desapego dos governantes que não tomaram as devidas cautelas quando ainda poderia existir alguma saída para a crise que avançava e que nós bem a víamos. No entanto, uma grande diferença existe: é que, cada um de nós tem autoridade suficiente para tomar a decisão que entender, sem ter de dar satisfações a ninguém; mas, no que diz respeito a uma Nação, como as más atitudes podem prejudicar toda uma população, há que actuar com consciência de que é os outros que se está a prejudicar quando não se toma o melhor caminho.
No que a mim diz respeito, o que tenho a fazer, portanto, é não persistir muito mais tempo com a linha que tenho seguido, e procurar não manter a mesma atitude a partir de agora. E, tal como está a acontecer com o nosso Portugal, resigno-me a aguardar o andamento das coisas. O que for logo se verá. E, quem sabe, às vezes produzem-se milagres!...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

UNIÃO IBÉRICA


O TÍTULO que saiu a seis colunas no acreditado “Expresso” não deixa a mais pequena dúvida. E ele diz assim: “A União Ibérica agrada cada vez mais”. Tal e qual. E, em todo o texto que enche o espaço descreve-se que a ideia consiste numa união federal entre Portugal e Espanha, a qual é apoiada por quase metade dos portugueses (45,6%) e por 31% dos espanhóis.
Este estudo feito pela Universidade de Salamanca aponta que a opinião vai na direcção de se atribuírem plenos direitos políticos aos cidadãos de um lado residentes no território vizinho e na formação de uma aliança estável como países ibéricos na União Europeia e na relação com a América Latina.
Este é um passo para a ideia que eu defendo há imensos anos, já muito antes da Revolução – o que me valeu uma perseguição por parte das forças policiais da ditadura –, e que não se instalou ainda com plena execução, apesar das dificuldades que temos, sobretudo do nosso lado, em sermos ouvidos com o devido respeito pelos países do grupo dos 27. O complexo que sempre se arrastou por cá, ao longo da História, e que a batalha de Aljubarrota marcou ainda mais o sentido de separação que começou nas escolas primária, tudo isso tem pesado, especialmente por parte dos detentores do poder do nosso lado, uma certa retracção quanto a irmos aprofundando formas de actuarmos de mãos dadas, em tudo que corresponda à melhoria da posição privilegiada de que, geograficamente, gozamos nesta ponta da Europa, toda rodeada por mar.
Eu não sinto perder nada do meu amor por Portugal, não vejo fugir a nossa rica língua, da mesma forma que as diferentes que se falam e escrevem nos vizinhos lá se manterá, e ambos os costumes, gastronomia, forma de actuar tudo permanecerá intocável, a moeda já é a mesma, as bandeiras cada um terá a sua, os hinos não se confundirão, mas a força para progredirmos, essa sim muito beneficiará no sentido de produzirmos em conjunto, cada um a dedicar-se ao que mais pode e sabe fazer mas formando um bloco para atacarmos os mercados mundiais de mãos dadas.
Os anti-espanhóis, que os há, esses preferem a tese antiga de que mais vale só do que mal acompanhado. Não pensam no futuro. Não se preocupam com o que se vai passar com os nossos descendentes. Mesmo numa altura em que a crise está a atacar a eito e que a Espanha não se encontra no máximo da sua riqueza, antes pelo contrário, até por isso seria o momento para estudarmos as possibilidades de unirmos forças e protegermo-nos mutuamente.
Leva tempo, demasiado, mas lá chegaremos. Se não for na época em que nos encontre ainda vivos, lá para diante as circunstâncias não perdoam e será o necessitarmos de um guarda-chuva que nos tape dos egoísmos europeus que convencerá que o que é inevitável não se pode ignorar.
Portugueses seremos sempre. Grande felicidade por Camões, Pessoa, e tantos virtuosos que foram naturais da nossa Terra, isso não perderemos nunca. Como, do outro lado, os Cervantes e todas as múltiplas figuras históricas que enchem o panorama das glórias espanholas, essas se manterão nos compêndios que ninguém pode retirar da riqueza dos vizinhos.
Nada disso briga com a conveniência de passarmos a ser a Ibéria. De termos as nossas regras e leis próprias e de aceitarmos as que sempre estiveram do lado de lá da fronteira. E, quanto a isso, não é por estar definido um traço dito fronteiriço que se estabelece um divórcio absoluto. Castela e Catalunha, tal como o Minho e o Algarve, mesmo com falares que se distinguem, estão incluídos no mesmo conjunto económico. Também os Estados Unidos da América lidam com conceitos legais que se diferenciam, mas não é por aí que os passaportes dos seus súbditos não são iguaizinhos
Mas, por muito que alguns atrasados me atirem pedradas por eu pretender encontrar forma de Portugal crescer como Nação e que deixe de ser este território humilde e pobre, que acreditem que eu mudarei de opinião, julgo que morrerei assim e, perdoem-me a teimosia, ainda ninguém me convenceu que este isolamento lusitano nos tem feito bem!
E que viva este Portugal que honra os seus antepassados, mas que pretende também que o seu futuro não seja uma terra de carpideiras!...