terça-feira, 13 de julho de 2010

SE EU NÃO ESCREVESSE O QUE FAZIA?


Se eu não escrevesse o que faria?
Se não pudesse passar ao papel
o que arde dentro e faz azia
seria de mim próprio infiel
estoirava
acabava
guardar só p’ra mim sem desabafar
recalcar no fundo as amarguras
já porque quem não gosta de falar
nas letras se vinga e nas pinturas

Quem escreve debita desalentos
em texto simples ou mesmo poemas
é uma forma d’abrir sentimentos
e igualmente de quebrar algemas
libertar-se
superar-se
no dia em que deixar de escrever
quando vier a sentir-me incapaz
é então a hora de perceber
que o que resta nada me traz
melhor é partir
deixar de existir
e quem cá ficar que faça as contas
que julgue os que primeiro partiram
e se conseguir que agarre as pontas
dos que quiseram mas não conseguiram

São assim os alcatruzes da vida
sobem p’ra encher descem e despejam
mesmo aqueles que passam de corrida
sem tempo que chegue p’ra o qu’almejam
mas génio mostram
mais tarde gostam
depois de cá não estarem p’ra ver
e de não lhes chegar a admiração
não tendo já por isso o prazer
de merecer especial menção

Enquanto por cá eu puder pensar
e possa escolher o que mais gosto
ao menos que não tenha de guardar
p’ra mim e tenha de esconder o rosto
envergonhado
culpado
por isso o qu’escrevo, o que pinto
melhor ou pior é para mostrar
porque o que deixo é bem o que sinto
outros que guardem ou queiram queimar

COMPARAÇÃO


NÃO SEI se esta minha dúvida tem assim tanta razão de ser. Depende, claro, do ponto de vista de que se parte. Será que se pode comparar um país doente com um ser humano com falta de saúde? Uma pessoa, em fase de se encontrar com demonstrações de fraqueza de várias espécies, de incómodos físicos, de dores até nalguma parte do corpo, por ter deixado prolongar essa enfermidade sem recorrer aos cuidados médicos, tal homem ou mulher pode equivaler-se a uma nação que, também por ter adiado a observação por técnicos para poder, a tempo, evitar o irreparável, atinge uma fase em que já pouco ou nada há a fazer para a sua salvação?
Tenho pensado seriamente neste dilema. Será, julgo eu, por, o Portugal em que nasci e habito se encontrar, nesta precisa altura, em confronto com uma luta de sobrevivência deveras inquietante, pois que os seus recursos são tão diminutos, as possibilidades de cura tão escassas, a competência daqueles que têm a seu cargo o prestar a assistência necessária tão débil, as reservas de alguma ajuda de retiradas do fundo do colchão tão insignificantes, que não se encontra força bastante para animar a população e, puxando por toda a esperança que ainda lhe reste, não consegue proteger-se no guarda-chuva que lhe estendem os optimistas de serviço.
Igualmente, devido a que a minha saúde pessoal também resolveu abanar-me, tendo-me agora avisado de que o meu desinteresse em recorrer à observação clínica a tempo, me faz pagar neste momento, com sofrimento duplo, o desinteresse que demonstrei em ser observado por quem tinha competência para o fazer, o panorama que se me apresenta é propício a que estabeleça a comparação que indico logo no início deste texto.
Como resultado desta situação, o que me salta como recurso é que, por minha parte, deixe de ser tão categórico nas observações que faço, neste meu blogue, no que se refere à situação, cada vez mais degradante, do nosso País. Não foi a tempo que os governantes auscultaram a Nação e fizeram o respectivo prognóstico para, em face dos resultados, diagnosticarem a doença que estava a invadir o corpo nacional. Por meu lado, não me sinto com competência suficiente para criticar os outros que não vêm, na devida altura, o estado da sua saúde. Se eu próprio actuei da mesma maneira, em relação ao meu corpo, o que devo fazer é resumir-me à minha insignificância e não levar tão a peito o desapego dos governantes que não tomaram as devidas cautelas quando ainda poderia existir alguma saída para a crise que avançava e que nós bem a víamos. No entanto, uma grande diferença existe: é que, cada um de nós tem autoridade suficiente para tomar a decisão que entender, sem ter de dar satisfações a ninguém; mas, no que diz respeito a uma Nação, como as más atitudes podem prejudicar toda uma população, há que actuar com consciência de que é os outros que se está a prejudicar quando não se toma o melhor caminho.
No que a mim diz respeito, o que tenho a fazer, portanto, é não persistir muito mais tempo com a linha que tenho seguido, e procurar não manter a mesma atitude a partir de agora. E, tal como está a acontecer com o nosso Portugal, resigno-me a aguardar o andamento das coisas. O que for logo se verá. E, quem sabe, às vezes produzem-se milagres!...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

UNIÃO IBÉRICA


O TÍTULO que saiu a seis colunas no acreditado “Expresso” não deixa a mais pequena dúvida. E ele diz assim: “A União Ibérica agrada cada vez mais”. Tal e qual. E, em todo o texto que enche o espaço descreve-se que a ideia consiste numa união federal entre Portugal e Espanha, a qual é apoiada por quase metade dos portugueses (45,6%) e por 31% dos espanhóis.
Este estudo feito pela Universidade de Salamanca aponta que a opinião vai na direcção de se atribuírem plenos direitos políticos aos cidadãos de um lado residentes no território vizinho e na formação de uma aliança estável como países ibéricos na União Europeia e na relação com a América Latina.
Este é um passo para a ideia que eu defendo há imensos anos, já muito antes da Revolução – o que me valeu uma perseguição por parte das forças policiais da ditadura –, e que não se instalou ainda com plena execução, apesar das dificuldades que temos, sobretudo do nosso lado, em sermos ouvidos com o devido respeito pelos países do grupo dos 27. O complexo que sempre se arrastou por cá, ao longo da História, e que a batalha de Aljubarrota marcou ainda mais o sentido de separação que começou nas escolas primária, tudo isso tem pesado, especialmente por parte dos detentores do poder do nosso lado, uma certa retracção quanto a irmos aprofundando formas de actuarmos de mãos dadas, em tudo que corresponda à melhoria da posição privilegiada de que, geograficamente, gozamos nesta ponta da Europa, toda rodeada por mar.
Eu não sinto perder nada do meu amor por Portugal, não vejo fugir a nossa rica língua, da mesma forma que as diferentes que se falam e escrevem nos vizinhos lá se manterá, e ambos os costumes, gastronomia, forma de actuar tudo permanecerá intocável, a moeda já é a mesma, as bandeiras cada um terá a sua, os hinos não se confundirão, mas a força para progredirmos, essa sim muito beneficiará no sentido de produzirmos em conjunto, cada um a dedicar-se ao que mais pode e sabe fazer mas formando um bloco para atacarmos os mercados mundiais de mãos dadas.
Os anti-espanhóis, que os há, esses preferem a tese antiga de que mais vale só do que mal acompanhado. Não pensam no futuro. Não se preocupam com o que se vai passar com os nossos descendentes. Mesmo numa altura em que a crise está a atacar a eito e que a Espanha não se encontra no máximo da sua riqueza, antes pelo contrário, até por isso seria o momento para estudarmos as possibilidades de unirmos forças e protegermo-nos mutuamente.
Leva tempo, demasiado, mas lá chegaremos. Se não for na época em que nos encontre ainda vivos, lá para diante as circunstâncias não perdoam e será o necessitarmos de um guarda-chuva que nos tape dos egoísmos europeus que convencerá que o que é inevitável não se pode ignorar.
Portugueses seremos sempre. Grande felicidade por Camões, Pessoa, e tantos virtuosos que foram naturais da nossa Terra, isso não perderemos nunca. Como, do outro lado, os Cervantes e todas as múltiplas figuras históricas que enchem o panorama das glórias espanholas, essas se manterão nos compêndios que ninguém pode retirar da riqueza dos vizinhos.
Nada disso briga com a conveniência de passarmos a ser a Ibéria. De termos as nossas regras e leis próprias e de aceitarmos as que sempre estiveram do lado de lá da fronteira. E, quanto a isso, não é por estar definido um traço dito fronteiriço que se estabelece um divórcio absoluto. Castela e Catalunha, tal como o Minho e o Algarve, mesmo com falares que se distinguem, estão incluídos no mesmo conjunto económico. Também os Estados Unidos da América lidam com conceitos legais que se diferenciam, mas não é por aí que os passaportes dos seus súbditos não são iguaizinhos
Mas, por muito que alguns atrasados me atirem pedradas por eu pretender encontrar forma de Portugal crescer como Nação e que deixe de ser este território humilde e pobre, que acreditem que eu mudarei de opinião, julgo que morrerei assim e, perdoem-me a teimosia, ainda ninguém me convenceu que este isolamento lusitano nos tem feito bem!
E que viva este Portugal que honra os seus antepassados, mas que pretende também que o seu futuro não seja uma terra de carpideiras!...

domingo, 11 de julho de 2010

EU SEI, EU SEI...

Mesmo antes, em pequeno
eu nunca me convenci
nem jamais disse em pleno
muito menos eu me cri
que era senhor da verdade
da tal, da absoluta
da que, com impiedade,
dá sempre começo a luta

Mais que falar é ouvir
sobretudo dos mais velhos
e aos poucos reunir
o melhor dos bons conselhos
daqueles que nunca mostram
sinais de sabedoria
e bem melhor se prostram
perante a boa mestria

Eu sei, eu sei nunca digo
temo bem estar enganado
Isto de ver só umbigo
sem mirar p’ra outro lado
tem perigos bem patentes
quando depois com prudência
com os outros já ausentes
pedimos é penitência
por esse e mais incidentes




OS "EU"


POR ESSE MUNDO FORA, onde existirem seres humanos, sempre se depara com gente que puxa pelo seu “eu” a propósito de tudo e de nada. Os artigos definidos para essa gente resume-se à primeira pessoa do singular, os restantes cinco parece não terem sido enunciados durante a primeira aprendizagem escolar e, pela vida fora, sobretudo se atingem posições de maior destaque do que os outros, fazem sobressair essa arrogância, pretendendo fazer ver que não existe o “nós”, que o “vós” é desprezível e que, o “eu “ sai sempre em primeiro lugar, com o “tu” em posição subalterna.
Não é verdade que, nas discursatas que muitos políticos que por cá temos, talvez mesmo todos, mas também é certo que outros actuantes em diferentes áreas dão preferência a esse prenome, todos os feitos, as defesas de teorias, as recomendações saem com o “eu” à cabeça? Por muito que os seus falares sejam feitos em nome de um partido, de um grupo, de uma comissão, até de um Governo não assumem que os temas que apresentam tenham origem de várias cabeças e vontades e que terá sido o resultado de um consenso de múltiplos participantes. Não senhor, é tudo obra exclusiva sua, o seu talento isolado é que produziu a decisão que é transmitida, boa ou má, porque o que importa é dar mostras de que a sua cabeça é privilegiada e o seu querer tem mais força do que o de vários que puxem para o mesmo lado.
Eu confesso o meu fraco. Não devia prestar grande atenção a tais modos de comportamento, já que, os que se encontram mais ou monos próximos, a esses faço o possível para não dar grande importância; mas se, cada vez que procure encontrar distracção num programa das nossas televisões, me sai no écran um fulano, dos que ocupam grande parte do tempo usado em tal aparelho, com afirmações de que “eu” quero, “eu” faço, “eu” mando, aí perco as estribeiras e a minha vontade é de desligar de imediato o aparelho. Mas a curiosidade é superior ao enfado. E, já agora, fico a tentar averiguar se, de facto, existe alguma boa nova de que valha a pena tomar conhecimento. E, na maior parte das vezes, não é isso que sucede. Trata-se de mais um elogio em boca própria, de outra soberba exibida. Uma tristeza!
Embora não me apeteça indicar exemplos, não posso deixar em claro os nomes de três figuras que usam e abusam do seu “eu”. Segundo parece, não têm a noção da má figura que fazem ao demonstrarem que tanto se amam a si próprios. Devem ser uns felizardos por essa característica, sobretudo porque eu pertenço ao grupo que suportam o desconsolo de uma convicção balofa, e, no mar das minhas dúvidas, suponho que não existe ninguém que saiba tudo, que tenha atingido o cúmulo da perfeição, que se encontra sempre disposto a comparecer perante seja quem for para discutir uma ideia que seja melhor do que a sua.
As três personagens mediáticas que não escondem as suas convicções no extremo da perfeição são, no meu modesto modo de apreciar e sem qualquer preocupação de ordem, os que não saem dos écrans de televisão e que aguardam ainda por melhores dias que o País lhes ofereça:
José Sócrates, inevitavelmente, será o primeiro a apontar; Paulo Portas, que bem se estica para conseguir o que ambiciona desde a sua juventude (altura em que eu até lhe proporcionei o primeiro emprego como jornalista); e Francisco Louça, que tem a sua utilidade como crítico político e que não consegue convencer os portugueses em número suficiente por se situar numa posição esquerdista que assusta ainda, apesar da Direita também ter dado o resultado que deu…
Face à notícia agora divulgada de, em casa e Basílio Horta, num almoço em Fevereiro passado, o primeiro-ministro convidou Paulo Portas para fazer parte do seu Governo, no cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, o que este, com bom senso, recusou, teria sido interessante assistir ao confronto de duas forças que, convictamente, se consideram ser donos e senhores da razão. Se não fosse para tremer de pavor, dava para rir à farta…
Mas deixemos os “eus” besuntarem-se com as suas vaidades, Desde que não prejudiquem o caminho que Portugal deve seguir para tentar salvar-se do descalabro que ninguém pode garantir que não esteja â vista, pois que satisfaçam a sua vaidade a mirar-se constantemente ao espelho.

sábado, 10 de julho de 2010

ODE À MORTE


Do que todo o ser tem medo
é o mais certo afinal
porque mais tarde ou mais cedo
ela surge tal e qual
rápida ou demorada
mesmo não sendo por mal
cara aberta ou disfarçada
no fim deixa o seu sinal

Mas porquê receio dela
só aparece uma vez
é certo que não é bela
mostra-se com altivez
mas também é salvadora
de sofrimentos atrozes
quando chega a sua hora
não atende quaisquer vozes

Eutanásia sua amiga
se não está proibida
compaixão a isso obriga
quem não tem outra saída
e acidente fatal
que calha a qualquer um
sendo resultado mortal
não há mais sítio nenhum

Se o homem pensasse bem
naquilo que tem mais certo
que depois não há mais vem
que destino não é perto
comportava-se melhor
enquanto por aqui mora
que a vida é uma flor
e a morte é um ir embora

Morte, morte não te ligo
quando quiseres aparece
morrer não é um castigo
pode ser uma benesse
estando farto de viver
até há quem a apresse
e estar perto de morrer
não há muito que o confesse

Cantemos, porém à morte
façamos essa justiça
é tornando o fraco forte
que mesmo sem haver missa
e com simples oração
deixamos ela levar
dos homens um nosso irmão
pond’outro no seu lugar

O homem tem essa arte
não quer ficar a perder
por cada um que parte
outros estão a nascer
a morte leva os que sobram
mas muitas vezes se engana
não são só os que soçobram
que interessam à fulana

De repente lá se morre
nem todos ela protege
quem anda no corre-corre
não tem vida que se inveje
por isso sem muita pressa
fazendo com calma tudo
até que o corpo arrefeça
e passando a ficar mudo

Não dizer mal da morte
dos ossos e da caveira
é ser-se até o mais forte
e mostrar boa maneira
o melhor é aceitá-la
como coisa natural
levando-a sempre na mala
pois ninguém é imortal

Se a morte não existisse
se tudo cá fosse eterno
imagine-se a doidice
o que seria este inferno
velhos, sim, é bem preciso
com saúde e alegria
mas novos maus dar sumiço
se não têm serventia

A morte faz o que deve
de certa forma o que pode
deixa este mundo mais leve
merece bem esta ode
eu não lhe tenho rancor
aceito sua altivez
mesmo não lhe tendo amor
cá espero a minha vez

Há quem consiga vencê-la
os que ficam assim pensam
bem vivos depois de vê-la
é fácil que se convençam
na cama de um hospital
vê-la passar de mansinho
a preparar funeral
que pode vir a caminho

Milagre da medicina
atrasa essa partida
pode ser a mão divina
que retardou a saída
ou será que a morte quis
mostrar que tem sua escolha
e feliz ou infeliz
de novo à vida se acolhe

O desistir de viver
é opção de cada um
quem comanda é o querer
e ter da vida um fartum
porém o não estar de acordo
pode ser que a morte pense
e não receber a bordo
quem a ele não pertence

Quem se indignar com isto
d’eu elogiar a morte
é não aceitar que Cristo
que também teve tal sorte
com todo o saber que tinha
podia acabar com ela
não a fazendo rainha
sentada numa estrela

Não, não julguem que é conluio
um acordo com a morte
que desta forma influiu
p’ra poder gozar da sorte
pois é tudo diferente
eu já tenho a minha conta
e perdi dose de crente
por isso pus-me na ponta

Andando estou sentado
para não m’afastar muito
e nunca sei se ao meu lado
lá estará com certo intuito
o que me pega na mão
e me apresenta à desdita
e só descubro se o caixão
s’encaminha p’ra desdita

O lume, a solução
tão temido tempos antes
hoje boa opção
dispensa participantes
do nada parte p’ró pó
é assim o ser humano
que isso do faraó
é coisa de gente insana

Fazer a cova na terra
lá meter o ente qu’rido
perder o que lá s’encerra
anos depois alarido
ao tirar ossos da cova
colocá-los em caixinha
fazer cerimónia nova
com mais uma ladainha

Aí, já morte se foi,
não lhe pertence o serviço
não constrói nem destrói
já não tem nada com isso
e a família distraída
quantas vezes perde o norte
e os parentes em vida
entregam-nos à pouca sorte

É que os covais das ossadas
parecem os d’Alemanha
nos tempos das malfadadas
e criminosas façanhas
sem saber a quem pertencem
alí se põem a monte
tal trato não merecem
e não há ninguém qu’as conte

A morte pois não culpemos
por nos levar quem amamos
quantas vezes não fazemos
aquilo que proclamamos
ajudando quem precisa
com bom gesto que se faça
a palavra paralisa
em má hora de desgraça

TAMARIZES DESTE MUNDO


QUEM, COM ALGUMA idade, bem se lembra da bela praia do Tamariz, quando era um local onde as elites, sobretudo financeiras, se reuniam a apanhar sol nos cadeirões que se estendiam ao longo do parapeito em frente da esplanada que ale sempre existiu, não poderá deixar de ficar surpreendido com os acontecimentos que ali ocorrem nesta altura. Eu ainda me recordo de ver, por exemplo, o Manuel Vinhas que, apesar de não necessitar daquele local para gozar os prazeres da praia, passava horas bem recostado, pois era uma oportunidade de trocar impressões com outras personalidades que por lá também passavam. Anos mais tarde, na minha vida profissional, tive ocasião de ter eorme ligação com o homem das cervejas e até em Angola existiu um largo convívio. É um saudosismo não de uma época, pois vivia-se em plena ditadura, mas sim de uma idade que, nós, os que não estávamos integrados naquela sociedade de privilegiados, dispúnhamos de saúde e de sonhos.
Também, quantas vezes eu pude ver a irmã cega do actual rei de Espanha, acompanhada dos seus amigos portugueses, passear naquela zona e fazer dali sua praia privilegiada!
O que sucede hoje no mesmo sítio? Bandos de negros – e não se veja aqui nenhuma característica de racismo – dominam todo o espaço e ocupam a areia em toda a sua extensão. Tratam-se de residentes em bairros que se situam nos arredores, na Galiza, S. João do Estoril, Caparide e outros locais e que, não tendo trabalho, optaram pelo Tamariz para fazer dali seu ponto de reunião. Estão no seu direito, num País livre não há que definir espaços e preferências, Ser branco, preto ou amarelo é exactamente igual perante a lei. Mas só uma coisa os pode distinguir: o comportamento. O não cumprirem as regras básicas da educação e o desrespeito pela execução absoluta dos fundamentos democráticos, que são aqueles que nos regem desde há 36 anos e que os que cá residem, sejam de que etnia sejam, isso é que não pode ser admitido. E há que tomar as medidas severas para que este País não tenha de sofrer para além daquilo que a crise já lhe impõe.
O que sucede é, porém, que as tropelias, os roubos, os distúrbios que ocorrem naquele clássico local de repouso, que só agora se tornaram notícia dos jornais e televisões, já há mais de um ano que os locais conhecem, pois eu, que costumo usar a gasolineira ali colocada há bastantes anos, fiquei a saber que existia um receio que foi aumentando, até porque a loja onde se paga o combustível, antes sempre aberta até para adquirir outros produtos, há tempos sempre fechada e a conta é liquidada através de um “guichet”, devido, informaram-me, à invasão de pretos que, vindos da praia do Tamariz, lá entram e roubam tudo…
Tenho amigos pretos, gente de grande qualidade que me merecem o maior respeito, um deles até me trata como pai, pois veio de Foi crescendo, paguei-lhe o liceu, fi-lo tirar a carta de condução, casou, teve filhos – agora até já um neto -, comprou automóvel e tem o seu apartamento pago, é muito respeitado onde exerce as suas funções de escritório, já foi visitar a mãe a Angola, depois de muitos anos, e continua por cá, visto ser este a sua Terra de adopção. Para mim é uma felicidade e a sensação de um dever cumprido.
Por isso, sinto-me à-vontade para criticar todos aqueles naturais de terras africanas e mais ainda os que já nasceram em Portugal e que não se integram nos costumes e formas de viver dos portugueses. Por muito que a revolta os assalte por falta de trabalho, o que é lastimável, têm de entender que também os brancos, com gerações lusitanas, lutam contra o mesmo dilema, não é por organizarem assaltos (mesmo que haja demasiados fora da lei que não têm qualquer ligação a países de África) que se podem considerar vingados da emigração que foram obrigados a fazer, eles ou os seus ascendentes.
Tudo isto sucede na ocasião em que as últimas sondagens apontam para um crescimento eleitoral do PSD, ao mesmo tempo que se verifica uma queda do CDS e do BE. Claro que isto são apenas tendências que, por sinal, se aproximam das que se conhecem existir em Espanha, França e até Alemanha, o que poderá ser consequência das medidas de austeridade que se impõem por toda a parte. Mas todos esses países recebem elevados números de imigrantes de diferentes origens, desde Norte de África até muçulmanos, que estão a provocar uma fricção de costumes que ocasiona desentendimentos. Não é, portanto, um problema exclusivo do nosso País e em todos os lados há zonas como o Martim Moniz de Lisboa, onde a mudança de comportamentos é bem visível.
Menos mal que o Governo e o PSD chegaram a acordo quanto às portagens nas Scut. Já é alguma coisa de positivo. Isso depois de tanta discussão que só nos tem de alegrar, apesar da vergonha que sempre nos fazem passar os homens ditos responsáveis, que tanto gostam das zaragatas para dar mostra de que a razão está sempre do seu lado, ainda que tenham de acabar por chegar a acordo, mas sempre com alegações de que a sua foi a vencedora…
O pior de tudo isto é que não existem, nem leis nem homens que sejam capazes de remediar os múltiplos dramas que nos envolvem. E já não me refiro apenas aos solucionáveis, pois vivemos num período em que não há capacidade para, dentro de um mínimo de espírito de colaboração, se procure ir encontrando, sucessivamente, maneiras de não estragarmos ainda mais o que já está a cair de podre.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

QUEIMAR AS PESTANAS

Lá vai o tempo, atrasado
em que queimar as pestanas
tinha o seu significado
por serem acções humanas

Sobretudo a juventude
que estudava à luz da vela
mantinha essa atitude
não vinha luz da janela

Hoje, com tanto avanço
não há perigo em queimar
as pestanas, um descanso

Nem estudo é de arrasar
e a vela só usa o tanso
a frase é só p’ra lembrar!

QUEIMAR AS PESTANAS


ESSA FRASE tão antiga, que vem do tempo em que os estudantes só contavam, à noite, com a luz de petróleo para se agarrarem aos livros e se prepararem para os exames, chegada a esta altura, ao século XXI, da profusão de luz para podermos efectuar os nossos trabalhos ou os nossos prazeres sem a menor dificuldade, melhor ainda do que com a luz do dia, esta expressão não tem aplicação a não ser em sentido figurado.
Mas, mesmo nestas circunstâncias, sempre valerá a pena recomendar a muita gente que se debruce sobre os problemas que tem para resolver e que os estude aplicadamente, como se tivesse que se apresentar perante um julgador das suas capacidades e fosse obrigado a tentar boa nota.
Quem, convencido que decorou toda a matéria e que não necessita aprofundar mais os conhecimentos, abandona o estudo e se prontifica a executar a tarefa que tem pela frente, ainda que o resultado da aprendizagem seja apenas o de “pegado com cuspo” esses podem depois deparar com uma obra que dá “com os burrinhos na água”. É o que sucede com mais frequência por cá.
Ora aí está com o que eu deparo ao pretender seguir as notícias que a nossa “bela” Imprensa de hoje nos pretende transmitir. Dou comigo de cócoras, isto é sem vontade de prosseguir a caminhada que terei ainda para percorrer. E isto é apenas uma amostra do que li.
Perante uma agência de viagens antes bem conceituada, a Marsans, de quem eu já fui cliente, a encerrar subitamente as portas e a deixar apeados sem férias, um número enorme de fregueses que, apesar da crise, já tinha as malas prontas para partir para diferentes destinos e gozar as suas poupanças (afinal ainda há disto!); face a uma afirmação de Cristiano Ronaldo de que terá pago, pelo silêncio de uma misteriosa barriga de aluguer, mais de 12 milhões de euros – o equivalente apenas ao seu ordenado de um ano -, ficando a pertencer-lhe exclusivamente a custódia do seu bebé, tendo havido quem já fez as contas de que a herança do jogador de futebol vale, neste momento, 180 milhões de euros; deixando a gente antiga bastante triste com a notícia de que o Rádio Clube Português vai despedir 36 trabalhadores e que deixa de funcionar aos domingos; tendo decorrido o 8 de Julho em que a CGTP saiu à rua para reclamar contra a situação fiscal que considera insuportável, como se tais saídas à rua fizessem algum efeito, para além da paralisação do trabalho; tomando conhecimento que se teve de que Miguel, também um jogador de futebol da selecção nacional, participou num tiroteio entre dois grupos de noctívagos frequentadores de discotecas; contemplando uma página inteira de um diário com a afirmada agressão de Filipe La Féria a uma costureira, porque não gostou do guarda-roupa feito para uma produção sua; e, por último, ao ter chegado a notícia de que o Tribunal Europeu de Justiça “chumbou” a decisão tomada pelo Estado português de ter utilizado a “golden share” para eliminar a vontade mostrada pelos accionistas da PT na assembleia-geral realizada há dias, o que vai dar ainda muito que falar, pois o Governo não deu, de imediato, mostras de aceitar pacificamente tal decisão; francamente, ao ler e ver nas televisões todas estas notícias, das mais variadas espécies, fecho os olhos e penso. E interrogo-me: Mas é este o País que me rodeia? É em tal pátio de zaragatas e de desentendimentos, em que todos se julgam com a absoluta razão, que eu tenho de continuar a viver?
A pergunta faço-a, mas a resposta que imagino não me satisfaz.E assim vou queimando as pestanas, mesmo sem luz de petróleo e servindo-me da tecnologia moderna do computador. Serve para alguma coisa

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ANDAR POR CÁ

Andar por cá a arrastar-se
sem que a idade ajude
vá lá a gente fiar-se
pois tudo nos desilude
e os dias vão passando
vem mais um aniversário
sem saber como e quando
acaba este calvário

O sofrer com a doença
ninguém quer mas tal sucede
lá se vai mantendo a crença
de vir o que bem se pede
p’ra não fugirmos à sina
de dar com o inesperado
situação que mofina
mesmo passando ao lado

Mas, p’ros novos ensinar
devem cá estar os mais velhos
se dizem não precisar
sempre metem os bedelhos
mesmo p’ra não repetir
os erros já praticados
para poder prosseguir
caminhos novos traçados

Ao menos que o sacrifício
que cada idoso suporta
preste algum benefício
e ajude a abrir a porta
qu’aos novos a vida oferece
com teoria sem prática
e a juventude merece

São assim as gerações
e os que ainda se movem
assumem obrigações
por isso não se comovem

RICOS


JULGO QUE não existirão grandes dúvidas de que, no que me diz respeito, não sou um acérrimo defensor das grandes fortunas e que, por isso, também não concordo com as medidas que lhes dão ainda maiores regalias. Em todas as situações mas, particularmente, quando o mundo atravessa períodos de grande debilidade económica e financeira e que a fome, em inúmeras áreas terrestres, não se consegue extinguir, sendo enormes as barreiras que separam os dois pólos opostos, é aí que os homens de bem devem procurar contribuir, dentro das limitações de cada um, para que diminuam tamanhas e tão terríveis anomalias.
Mas, dado que a vida dos seres humanos obedece a princípios que os crentes das religiões aceitam como sendo uma determinação superior, ou seja, em face da realidade com que deparamos desde que o Homo Sapiens se instalou nas suas múltiplas craveiras, mostra-nos a História que sempre existiu essa malfadada separação, com uns a viver em palácios e outros a dormir debaixo das pontes. E, por muito que tanta gente se indigne, que surjam políticas com a pretensão de eliminar tão cruéis diferenças – mas que os próprios homens depois as anulam, para obter benefícios próprios -, que se consumam milhões de páginas de literatura que os génios da escrita aproveitam para alimentar os seus romances, a verdade é que, século após século, ano atrás de ano, não se verifica uma actuação que consiga eliminar a tal desigualdade de vidas que, pelo menos da boca para fora, se proclama com tristeza em todos os momentos. E se Jesus Cristo foi a figura que ficou na História, desde há dois mil anos, a hastear a bandeira da bondade absoluta, continuando a ser venerado ao longo de todos os tempos pelos denominados cristãos, a linha religiosa que conta com maior número de seguidores, se, nesta era, fizesse nova aparição e repetisse a proclamação dos bons actos e da santidade, a dúvida quanto aos resultados que poderia conseguir é mais do que justificada. Penso que ninguém lhe ligaria e até talvez voltasse a ser escorraçado e condenado de novo à morte. Seria um empecilho!
Actualizando-me com os factos, vem a propósito referir a decisão tomada agora pelo Governo actual, obrigando os bancos estabelecidos em Portugal a prestar a informação permanente dos depósitos bancários, a pronto e a prazo, dos seus clientes, para poder taxar fiscalmente sobre os juros que cada um recebe. Poder-se-á encontrar justificação para tal medida, sempre sob o ponto de vista de controlar os muito ricos e fazê-los contribuir para ajudar o Estado a enfrentar as dificuldades e a poder actuar nesse flagelo que também é agora anunciada de que há cada vez mais famílias portuguesas a viver sob o estigma da pobreza. Moralmente está certo, mas o perigo no que respeita às fugas de capitais para paraísos fiscais, essa corrida para o exterior é um risco que pode sair mais caro do que a não cobrança de impostos a esses felizardos da excessiva fartura. E toda a gente sabe que o dinheiro não tem Pátria!
Acresce ainda que, segundo alguns legalistas, a norma que entra em vigor tem de ser decidida e votada na Assembleia da República, sendo que esta ausência de atitude já é um costume em relação ao que ocorre por cá, visto que o próprio Presidente tem de recorrer com frequência ao respectivo Tribunal, tantas são as decisões tomadas um pouco de ânimo leve, que impõem o olho crítico dos “sábios” constitucionalistas.
Eu só falo neste tema porque, na verdade, todos nós, cidadãos que ainda andamos atentos aos passos que os governantes dão, não podemos suportar mais que não exista um mínimo de cautela e de competência para que, antes de serem tornadas públicas decisões dos Executivos – deste como dos anteriores -, sejam tomadas todas as cautelas para que não esbarrem depois com as implicações em relação às normas legais.
O que não falta por aí são discursos de acusações sobre o que anda mal, o que são escassas são as indicações concretas das formas de solucionar os problemas. Do Governo, já se sabe. Mas do lado das Oposições também não são transmitidas operações concretas que possam ser aplaudidas ou repudiadas pelos habitantes.
Dizer mal, é fácil. Indicar caminhos e assumir a responsabilidade pelo que cada um faria se estivesse no Executivo, isso já é demasiado comprometedor. Eu, por mim, gostava de tomar conhecimento de um trabalho deste género para me podar pronunciar e ir formulando o meu apoio na hora de uma votação.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

QUALQUER DIA

Será um dia, será
hoje não, não me apetece
a vontade chegará
pode ser que me interesse
qualquer dia
de euforia
pegarei no tal assunto
e mesmo a contragosto
esforçarei o bestunto
actuarei mal disposto

Que isso do qualquer dia
costume bem português
faz parte da apatia
de quem o diz muita vez
qualquer dia
que mania!
há-de ser quando calhar
sem perder a paciência
há que saber esperar
e pôr de lado a urgência

Eu não sei quando será
que tal coisa eu farei
a altura chegará
e então descansarei
qualquer dia
tal poesia
surgirá da minha entranha
aquela que vai ficar
como autêntica façanha
deste poeta invulgar

E esse trabalho insano
a aguardar o tal dia
só pode ser por engano
que se chame poesia
qualquer dia
que alegria
e se for capaz de tal
hoje não é por certo
pois o meu estado normal
é não ter génio por perto

E se ajuda lá vier
de um talento que eu não tenho
nesse tal dia qualquer
encontrarei o engenho
qualquer dia
que alegria
e a obra sairá
autêntica melodia
e a frase morrerá
aquela do qualquer dia








VIVAMOS A FINGIR


SUSTER UM SORRISO na boca, dar início às conversas com os amigos sem apresentar um ar sorumbático, referir assuntos da vida que nos rodeia sempre com aspecto de que as coisas estão a correr de harmonia com os nossos desejos, comportar-se dessa maneira terá de ser a única forma de não transmitirmos aos outros sinais de descontentamento. Quem for capaz de se comportar desta maneira, seguramente que torna mais agradável o contacto com os parceiros. Pode não corresponder à verdade, mas o mundo também não aprecia excessivamente as clarezas e os disfarces, não só na política, conseguem passar aos outros uma forma cativante de angariar simpatias.
Digo isto para tentar convencer-me da maneira que eu devia adoptar e ter adoptado ao longo da minha vida, pois que não temos de andar por este mundo só para irmos acumulando aborrecimentos, pelo que o caminhar por veredas floridas, sem prestar atenção às plantas que se encontram já murchas, é, de facto, preferível a sentirmos o odor dos estrumes.
Os que leram o célebre livro do espanhol Miguel Cervantes, o belo “D. Quixote de la Mancha”, se prestaram atenção às aventuras de um sonhador que lutava contra o irreal e, na companhia do seu Sancho Pança, estava convencido da importância da sua missão, estará em melhores condições de se adaptar à situação actual do nosso País, em que são inúmeros os moinhos que merecem que se lhes provoque uma derrocada, mas que, por serem apenas míticos esses edifícios que desafiam a paisagem, todo o tempo que se perde a querer enfrentá-los é completamente desperdício, pois que não é com inofensivas espadas que se penetra nos bem defendidos torreões.
Só de passagem, pois não pretendo entrar em pormenores e não estou disposto a fazer papel do burro do pobre Sancho Pansa, apenas colho de passagem dois temas que li de relance na Imprensa de hoje:
1. - que Carlos Queiroz “encaixou” 800 mil euros com o feito de ter sido o seleccionador nacional da equipa de futebol portuguesa (10% do que a FIFA atribuiu em prémios à FPF)
2. – que, ao mesmo tempo, a nossa Federação sofreu grande prejuízo com o referido evento.
Então não é com alegria que devemos encarar este acontecimento?

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sendo pequeno ou grande
não o tendo lá faz falta
o preciso é que o pé ande
em perna curta ou alta

É isso mesmo o pé
que há quem o mostre exaltando
pois se não cheira a chulé
é muito útil andando

Há quem tenha um pé de meia
se ponha em pé de igualdade
e quem tenha a alma cheia
de sorte e felicidade

A água pé é bem boa
bebida em hora certa
na província ou em Lisboa
sabe bem se a sede aperta

Ter-te aqui ao pé de mim
agarradinha ao teu macho
é como uma tampa assim
a tapar sempre o seu tacho

Se o magoo lá vou eu
a andar ao pé coxinho
pois foi o que aconteceu
ao meu querido pezinho

No transporte, se está cheio
lá tenho de ir de pé
de outra forma não há meio
ali não há canapé

Para fazer o caldito
à lareira, lá na terra
no tripé o caldeirito
se usa e nunca erra

A montanha lá no alto
mostra ao longe e mostra ao pé
cá em baixo no asfalto
só se vê é o sopé

Quando incomoda o ruído
e não dá para banzé
não se ouve nem gemido
andar só pé ante pé

Também há aquele ainda
que põe a postura falsa
e não será muito linda
é mesmo um pé de salsa

E quem actua com manha
usando a falsa fé
não podendo ser aranha
vai sempre em bico de pé

Com tudo isto, afinal
para quem procura paz
aqui neste Portugal
deve andar de pé atrás







RISOTAS


QUE CONTENTE que eu fiquei! Que grande ajuda que foi dada para afastar a angústia que me devora! Que excelente notícia que foi dada a todo o povo português! Ronaldo é pai!...
Com 25 anos de idade nasceu-lhe um filho e a mãe não se sabe quem é!
Toda a comunicação social exortou e apropriou-se de notícia de tamanha importância. Deu-lhe honras de tempo de antena especial e de primeiras páginas, indo continuar, está mais que visto, por longo tempo com a cobertura de tão deslumbrante acontecimento.
Nuno Gomes, outro jogador de futebol – e é preciso dizê-lo, pois pode haver alguma gente que não esteja muito ao corrente -, também foi pai no mesmo dia em que Ronaldo tomou conhecimento do seu caso e teve sorte por isso, dado que a coincidência lhe valeu um canto de uma notícia que lhe foi dedicada.
Perante um caso de tão alta importância, como que nascerem crianças por esse mundo fora seja um sucedimento raro e os mais de seis mil milhões de habitantes que ocupam o Globo surgiram por artes mágicas, temos de nos render às evidências e confirmar o que estamos todos fartos de saber: que há situações normais e correntes que, por razões especiais, são elevadas ao máximo da importância e que é isso que, no nosso mundo, distingue enfaticamente umas minorias da grandeza de população que nasce, vive e morre sem que alguém perca tempo a tomar conhecimento da sua existência.
Agarro-me assim a tão entusiasmante notícia que os portugueses receberam nesta altura e não a deixo fugir sem a aproveitar neste meu blogue. Não há má disposição que resista a tanta alegria. Cristiano Ronaldo, que não deixou grande marca na sua passagem pela África do Sul, em contrapartida foi pai de uma criança. E, por sinal, esse rapazinho nasceu rico! Que mais poderia desejar, já que, segundo parece, de boa saúde ele é?
Conclui-se então que a paternidade sucedida a Ronaldo representa uma boa nova, mas como, infelizmente, não há bela sem senão, há que acrescentar o panorama com que nos debatemos na nossa Terra.
Poderei, assim, acrescentar alguma coisa. É que este nosso rectângulo sofre do mal da baixa natalidade, o que ocasiona o envelhecimento demográfico de que somos vítimas. Os indicadores relativos à fecundidade apontam para 1,3 nascimentos por casal, ou seja cada dois proporcionam o aparecimento de um novo rebento e pouca parte de outro, ao memo tempo que é cada vez mais tarde que se realizam casamentos lusitanos e a nascença do primeiro filho encontra-se na faixa dos 28,6 anos para as mães.
E, claro, não podia faltar o motivo da crise. O desemprego, as necessidade das progenitoras trabalharem fora de casa, a cada vez maior falta de meios, tudo isso é responsável pela baixa natalidade da população branca, enquanto que, por parte das revoadas de imigrantes de diferentes origens e raças, se verifica um enorme desabrochar de nascimentos, sendo que, portugueses como são por verem a luz no nosso País, contribuem para que, dentro de alguns anos, a característica lusitana que, já por si, é descendente de diversos tipos de povos que ocuparam a Península Ibérica, sobretudo de nórdicos, acabará por mudar de cor, numa espécie de vingança dos que, com as descobertas e as nossas ocupações de terras longínquas, passando os loiros a desaparecer e vindo a ser o escuro que tomará conta de todo o território.
Chorar? Para quê? Rir? Também não serve para nada. Aceitar o que for, como sempre fizemos antes. Eu, por mim, ponho-me a imaginar o que será e só me resta encolher os ombros e aguardar por mais notícias alegres que possam prestar ajuda para poder continuar este blogue.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

TRISTE LISBOA

Rua vazia
de gente viva
onde é que pára
população?
Eu bem queria
cidade activa
não fosse rara
certa tensão
mas não se vê
o movimento
a alegria
duma cidade
neste café
onde eu assento
não há quem ria
só alta idade
estamos pois
a caminhar
no tal sentido
do cemitério
p’ra um depois
um certo esgar
sem alarido.
Esta é a sina
de um País
em decadência
já sem vontade
força latina
nem cicatriz
se vê essência
cá na cidade
até faz sol
e pouco frio
o clima é bom
não é por isso
velho briol
sem desafio
perdeu o tom
e o feitiço
e as tabernas
que alegravam
já pouco existem
sem freguesia.
Há poucas pernas
que não integram
e não resistem
à correria
ruas bem tristes
de ti Lisboa
já não existes
já foste boa.


ANGÚSTIA


POIS É ISSO. E volto ao tema de ontem. Esta angústia que me anda a roer por dentro, que me acompanha ao longo dos dias, que me tira todas as forças para me ir mantendo neste mundo que, no meu entender, já nem merece que nos inquietemos por ela, a minha e a dos outros que também a têm, pois as amostras que o ser humano nos anda a dar, não só de hoje pois já vem tudo de muito longe, não justificam que nos inquietemos pelas más acções que saem permanentemente das obras do Homem, essa tamanha amargura que eu vou acumulando não justifica que, pelo menos no meu caso, continue a dedicar atenção a tudo que se movimenta ao cima da Terra.
Eu julgo saber (tenho sempre dúvidas) que este estado de alma é caso que merece a ajuda de um psiquiatra. Talvez essa parte da ciência possa fazer alguma coisa de benéfico, no sentido de me afastar dos pensamentos e das observações que me colocam neste estado de apreensão. Que o dedicar-me aos meus quadros, aos meus poemas, à literatura pura e simples, sem ter de intervir nas ocorrências que, quer em Portugal quer em todas as civilizações que, cada vez mais, utilizam as novas tecnologias para provocar desentendimentos sucessivos entre os que se mantêm vivos e que julgam que a morte nunca os atingirá, que o encafuar-me na minha própria personalidade, o isolar-me dos problemas terrestres me pode transmitir alguma serenidade, eu imagino que uma recomendação deste tipo dada por quem é fiel seguidor dos princípios psicológicos talvez me retire parte desta angústia. Só que o pior é que, no que me diz respeito, o olhar para dentro, o contemplar-me, o avaliar aquilo que sou e o que valho, o panorama que se apresenta não é, de forma alguma, muito agradável. Não fico embevecido.
E ao acompanhar o que se passa neste nosso País, depois de ter suportado na pele o que foi antes, com conhecimento das partes tristes da nossa História que se procuram em ocultar e que os feitos heróicos não compensam, ao não poder ignorar o que, depois da Revolução e nesta altura concreta, tem vindo a desenrolar-se, é, francamente, entusiasmante ser-se espectador e, sem querer, participante?
Depois de 80 anos de vida, ela própria muito activa, recheada de acontecimentos que não são normais nos cidadãos comuns, tendo visitado mais de 60 países, sempre profissionalmente, com actividades de responsabilidade, com sustos e alegrias, sempre com a preocupação de manter o sentido de ética e de bom comportamento, ainda que consciente de que nem sempre esses objectivos foram completamente atingidos, chegado a esta altura teria aspirado contemplar tudo que me rodeia, quer no meu próprio País quer no espaço lá fora, pois aquilo que me é dado assistir é a uma amálgama de más criaturas, de gente que tem como única preocupação o seu bem estar próprio e que não hesita em sacrificar o próximo para tal obter.
E, só de passagem, ao ter ouvido hoje que o Bastonário da Ordem dos Advogados garantiu, perante as televisões, que o julgamento do caso Casa Pia vai acabar por prescrever, então face a esta pouca vergonha há ainda alguém que admita valer a pena insurgirmo-nos em Portugal contra as patifarias que cá ocorrem?
De facto, como já ouvi dizer, este nosso mundo seria um enorme aborrecimento se todos os seus ocupantes fossem boas pessoas, se não provocassem conflitos, se não houvesse zangas, se a luta pela melhoria de vida de cada um não tivesse que ser uma constante, se a inveja não existisse, se a maldade figurasse apenas nos livros dos maus exemplos. Tal como nos comportamos, pelo menos, sempre se divertem os que sentem prazer com o mal dos restantes, sobretudo quando há os que saem vencedores dos encontrões que dão aos outros.
Será assim. Mas eu já não consigo continuar a assistir a um tão triste espectáculo. Já fui actor demasiado tempo e protagonista involuntário, pois apenas assistente, em muitas dessas cenas. Tenho direito a ter a minha angústia, sobretudo se não me resta outra alternativa que não seja o de também fazer parte desta imensidão de más feitorias.
Em todos os momentos penso neste dilema. E, como não sou excepção e não posso deixar de sentir a tal inveja corrente, arrepelo-me ao contemplar aqueles que não param para pensar e que tudo que ocorre lhes é indiferente! … Pelo menos terão, isso sim, uma dose de felicidade muito mais elevada do que aquela que eu gostaria de ter. Só que ninguém é senhor de escolher as suas formas de sentir.
Vamos a ver quanto tempo me aguento nesta posição de amargura. Recuso-me a ler o que escrevi. Certamente arrepender-me-ia e por isso não olho para trás.

domingo, 4 de julho de 2010

TRISTEZAS FADISTAS

As tristezas cá se cantam
motivos há para as ter
cantá-las pouco adiantam
não se deixa de sofrer

Na vida não fica espaço
p’rao mesmo tempo ter tudo
o fado canta o que faço
mas não posso fazer tudo

O fado espelha a alma
daqueles que mais sentem
o cantar algo acalma

Se dizem contrário mentem
pois há quem o leve à palma
e se calam consentem

FARTO, FARTINHO


TENHO ANDADO a vegetar por este mundo. Vontade de permanecer por este vale de lágrimas, confesso que não é, da minha parte, excessiva. Refugio-me no que escrevo, na prosa e na poesia, de vez em quando com alguma pintura, mas cada vez mais chego à conclusão que me ando a enganar a mim mesmo. Na verdade, pretender deitar para o exterior quando o que há cá dentro não tem valor que justifique tal ânsia, essa aspiração tem que resultar naquilo que é a realidade com que me deparo: ninguém se mostra interessado em ler o que debito no computador. Fica tudo no disco e, apesar da informação que recebo periodicamente de que atingiu a casa dos mais de oito mil leitores deste blogue, não sei se serão sempre as mesmas pessoas que, de passagem, lá visitam o endereço que já facilitei a umas tantas criaturas que fizeram o favor de tomar nota, e nada mais do que isso, pois que comentários que ficam registados, esses não posso considerar que sejam tantos que me convençam que, a concordar ou a discordar, sempre existe gente que lá vai seguindo os meus desconsolos.
E é isto. Não me sinto nada entusiasmado a prosseguir com este enfadonho fardo que escrevo diariamente. Aquilo que eu nunca gostei de fazer, que é o considerar-me como qualquer coisa que vale a pena, tem-me mantido em frente do computador a, diariamente, depois de me enfiar nas notícias que são propagadas nos meios de comunicação social, desabafar uma opinião que não acrescenta nada ao que ocorre no mundo que me rodeia.
Entendo, portanto, que o melhor é reflectir sobre se devo parar. Não vale a pena escrever mais com a tentação de que os outros apreciam o que debito nesta máquina infernal.
Este texto, que nem releio, foi redigido de uma assentada. Nem o contemplo depois de estar escrito. O que está, está.
O que desejo, pois, é que todos compreendam a minha posição. A mim basta encafuar-me e ficar mudo. Se me convencerem a mudar de opinião e, ao mesmo tempo, se vier a sentir a falta deste descarregar para o computador, não porque julgue que os outros necessitam de ter contacto com as minhas linhas e os meus poemas, mas apenas e só, egoisticamente, por ser a mim que este exercício faz bem, então, não digo que todos os dias, como até agora, mas de vez em quando, de tempos a tempos, então poderá recomeçar o que paro nesta altura.
A partir de agora este meu compromisso não está garantido. Já veremos o que sucede amanhã.