quarta-feira, 23 de junho de 2010

VALER A PENA

O Pessoa é que sabia
é sua a bonita frase
no café onde escrevia
usou isso como base
se a alma não é pequena
é preciso experimentar
se de facto vale a pena
na vida assim caminhar

Mas da alma a medida
é coisa que não se apura
nos caminhos desta vida
ainda que com candura
muita coisa faz sentir
que algo vale a pena
pelo menos o sorrir
mesmo com alma pequena

O poeta é assim
descobre no infinito
tal como fazer jardim
sem o menor requisito
mas inventar frases belas
que soam bem ao ouvido
como atirar às donzelas
canções sem menor sentido

O Fernando que adoramos
um génio na nossa escrita
que brilhou em vários ramos
sendo longa a sua pista
nisto da alma medida
de ser grande ou ser pequena
em mim não obtém guarida
acho que não vale a pena

SALVE-SE QUEM PUDER!


NÃO HAVERÁ MUITOS PORTUGUESES que sintam satisfação em apontar erros ao nosso comportamento, o de hoje e o que tivemos ao longo de muitos séculos de História. A tendência, pois, é para recordar apenas os momentos em que nos salientámos de uma boa parte do resto do mundo, especialmente na altura em que, saindo deste rectângulo na ponta oeste da Europa, nos propusemos a descobrir o que ninguém ainda conhecia, para além dos indígenas viventes em localidades muito distantes e esses, por sua vez, com total desconhecimento do que existia para além das localidades onde se movimentavam.
Como eu tenho afirmado repetidamente, a Esfera terrestre evoluiu, as circunstâncias foram-se alterando com o desenvolvimento que o Homem, ele próprio, foi implantando, devido às evoluções das ciências, o que não permitiu que tudo permanecesse inalterado, incluindo as crenças religiosa, as quais não podiam manter-se, levando os diferentes cidadãos, uns mais do que outros, a ter de alterar as leituras de velhos documentos, mantidos como indiscutíveis marcas do seu aparecimento.
Quero dizer e uma vez mais o repito, que, no caso português, não será natural que mostremos reacções negativas sempre que alguém entende ser mais útil à nossa população que a abanemos e lhe chamemos a atenção para as ineficácias próprias que muitos teimam em não querer divulgar. Por sinal é isso que pretendo fazer neste blogue e julgo que, se apenas me dedicasse aos elogios, não merecia importância a sua leitura, dado que nós somos peritos em elogios, sobretudo quando os objectivos que estão na nossa mira deixam de existir… e sobre isto nem é preciso, nesta altura, pôr mais texto na carta!...
Surgiu agora a notícia, vindo do exterior, que Portugal é o 9.º País mais pobre no seio da União Europeia. E a Eurostat adianta que os portugueses se encontram, há três anos, consecutivos, a marcar passo no que respeita ao seu poder de compra e, no que se refere à possibilidade de pagamento das contas em dívida pelos nossos concidadãos, o lugar que se ocupa nesse particular é o de nos mantermos na zona bem cimeira.
O curioso do estudo feito é que o Luxemburgo, essa pequena Nação encalhada no meio do Continente, apresenta uma riqueza que ascende a três vezes a da maioria dos seus parceiros europeus, para além de não sofrer o drama do desemprego, em que a maioria dos seus trabalhadores exercem funções fora das suas fronteiras, nos vizinhos que lhe estão pegados.
Por aqui se pode tirar uma ilação: a de que não é por sermos pequenos que nos situamos numa craveira tão fraca. E, tendo também a vantagem de sermos banhados por um oceano, daí não retiramos as evidentes vantagens. Logo, o que se impõe é que, em vez de nos iludirmos com as nossas qualidades, estudemos onde se encontram os nossos defeitos, apontemo-los e procuremos corrigi-los com a maior urgência.
Por seu lado, a Europa também se encontra numa fase em que não consegue desembaraçar-se dos egoísmos de uns certos parceiros, e em que aquilo que esteve na base da Guerra Mundial de que alguns ainda bem se recordam, pode agora voltar a criar inimizades que são absolutamente prejudiciais aos que se idealizou para este Continente e que chegou a anunciar-se como sendo desejável a criação de uns Estados Unidos da Europa. Cada vez se caminha mais para o contrário desse ideal e, por muitas reuniões que se realizem, a verdade é que os umbigos de cada um permanecem mais salientes do que o interesse no bem comum.
Sendo assim, não é só de Portugal que temos de apontar os erros, pois parece que se está a chegar a um extremo de se estar a implantar um “salve-se quem puder” e, neste caso, ainda mais necessário é que, nós portugueses, cuidemos bem da nossa vida e que não desdenhemos dos que não assobiam para o lado, especialmente se o mal que já esteve mais longe de surgir por aí, já não os atingir, dada a sua idade.

terça-feira, 22 de junho de 2010

HÁBITOS

O hábito é fazer sempre igual
repetir o conhecido
o homem, tal ser mortal
perde por vezes sentido
e o não ter que inventar
mudar de jeito e de forma
até dá para descansar
e com isso se conforma

O hábito faz o monge
diz o popular ditado
que já vem de muito longe
o dia em que foi criado
p’ra quê hábito mudar
se aquilo que vestir
é que parece indicar
a forma de seduzir

Há hábitos que são bons
e outros que são bem maus
tal e qual como os sons
que têm diferentes graus
eu costumo fazer isto
a isso não me acostumo
actuar como previsto
é um vício como o fumo

Assim é que me dá jeito
não me obriguem a mudar
não pretendo ser perfeito
só para a’lguém agradar
o seguir por um caminho
que eu há muito conheço
como cantar um fadinho
e conseguir o sucesso

FUTEBOL ADORMECE


TER SIDO O RESULTADO do jogo de futebol com a Coreia do Norte tão expressivo, em que Portugal saiu ontem vencedor por sete golos a zero, isto quando, haveria a ideia de que iríamos sofrer um grande bocado, recordando o que se passou há vários anos e em que, bem me lembro, depois de estarmos a perder por e a zero, foi o Eusébio quem nos salvou do desastre, acabando o resultado a nosso favor, esse feito fez renascer, por algum tempo, o ânimo neste povo que, digam lá o que quiserem, tem a sua felicidade muito relacionada com o que se passa no reino do jogo num campo com onze jogadores de cada lado.
Não terá sido apenas por se tratar de um adversário que, mesmo no mundo político de Esquerda, não conta com grandes simpatias e eu, que já visitei a Coreia do Sul e estive mesmo na fronteira no paralelo 38, como já o disse aqui, ao ter contemplado os militares do lado Norte com semblantes deveras carrancudos, também não guardo boa recordação dessa gente que, ao fim e ao cabo, não tem culpa de viver num território que tem sido dirigido por um fanatismo ditatorial de que não se sabe bem quando lhe caberá a vez de se libertar de tamanha fatalidade.
Mas, voltando à vitória propriamente dita, vamos ver quanto tempo durará a alegria dos portugueses e se ela chegará para fazer esquecer por muito tempo as agruras de vida difícil que atravessamos. Pelo menos, como portugueses que somos e que temos tendência a conformarmos facilmente com as agruras, encontrando sempre analgésicos que vão aliviando os males, mesmo que não sejam apenas temporários, pode ser que, se conseguirmos um resultado reconfortante no próximo jogo que tivermos de defrontar no campeonato mundial na África do Sul, possamos prolongar por mais algum tempo a falta de meios de subsistência que se vão agravando em Portugal.
E, de cachecol ao pescoço, de bandeira na mão ou à janela, com as caras pintadas com as cores nacionais, apitando fortemente a buzina dos automóveis, fazendo esse ruído horroroso das cornetas inventadas agora, dizem que para dar força aos jogadores, tudo isso servirá para nos entreter e ainda bem que existem meios para desviar a atenção para acontecimentos que criam um interregno nas nossas preocupações.
Pelo menos por agora ficamos mais satisfeitos com o que nos rodeia. O futebol tem destas coisas. E nem os submarinos que temos que pagar lá mais para diante, os milhares de eucaliptos que foram cortados e que deram enormes benefícios a quem conseguiu interferir para que a autorização ministerial fosse conseguida, tudo isso e o muito que se arrasta neste País sem que se verifique interesse em resolver vai sendo entretido com os futebóis que sempre aparecem e que servem às mil maravilhas para que a vida continue, má mas aparentemente aceitável.
Quem governa tem sempre, neste nosso País, algum acontecimento que distrai a população e lhe dá motivo para se manter sem ultrapassar as medidas. Eu bem gostaria de ver a marcação de uma manifestação popular numa altura em que, num campo de futebol, se estivesse a jogar uma partida que se sobrepõe a todos os assuntos que interessam a Portugal. Nem o Carvalho da Silva nem ninguém desfilaria pela avenida da Liberdade…

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

DESEMPREGO


CUSTA-ME MUITO ter de admitir o que vou expor e que foi, tempos atrás, neste mesmo blogue, objecto de uma apreciação que, por sua vez, causou uma pequena invasão de reclamações de alguns leitores que ainda não defendem um ponto de vista que, nas circunstâncias que atravessamos, será igual ao meu. Como já estou habituado, tive, também agora, aparentemente razão antes de tempo. E o tempo mais um pouco adiante o mostrará.
Tratam-se das leis laborais que ainda são adoptadas em Portugal e que, dadas as dificuldades que atravessamos e do elevadíssimo número de desempregados que estão registados nos respectivos centros, aquelas não podem continuar a ser mantidas, pois que os empresários, mesmo quando, eventualmente, por ter chegado uma encomenda de produtos que não era esperada, necessitam de aumentar provisoriamente o número de trabalhadores, não se atrevem a fazê-lo, pois bem sabem que, quando voltarem a diminuir as encomendas, se encontram perante o dilema de não poder dispensar os excedentes e, ao fazê-lo, são forçados a pagar indemnizações que ultrapassam as capacidades de tesouraria de que dispõem.
É evidente que ninguém pode afirmar que dispõe da certeza de que a liberalização das leis do trabalho, facilitando a dispensa de trabalhadores sempre que as entidades empregadoras se enfrentam com baixas de vendas dos seus produtos, essa possibilidade abra perspectivas para diminuir o elevado panorama de gente sem trabalho. Os seres humanos, que são tanto os que têm empresas como os que trabalham nelas, não são gente liberta de subterfúgios e de tendências a fugir às leis sempre que podem tirar algum proveito em seu favor. Sabemos perfeitamente do que são capazes os homens e mulheres que habitam este mundo e, no caso português, maior obrigação temos de ter quanto a defendermo-nos das “espertezas saloias” que sabemos tão bem existirem.
Mas, mesmo condicionados por estas características, é essencial e urgente fazer alguma coisa para não permanecermos com a cruz incomensurável do desemprego que reina e nos afoga na nossa República. E, ainda que a experiência não seja a ideal para solucionar o problema, há que tentar esta ou outras, mas o que não podemos é sentarmo-nos a contemplar e a aguardar por algum milagre, que caia não se sabe sequer de onde.
Estando este Governo de José Sócrates entregue ao que lhe vier a acontecer, não dependendo já da sua actuação o permanecer muito mais tempo no seu lugar e, menos ainda, melhorar a desagradável imagem que foi acumulando ao longo dos seus dois mandatos, é certo que dispõe de uma posição que se pode considerar a mais confortável para tentar novas possibilidades e, se mudar de atitude quanto ao que tem sido o seu comportamento e desta vez explicar abertamente aos portugueses o que pretende com as acções que vier a tomar, neste caso da mudança das leis do trabalho já nem lhe importa muito o que lhe chamarem, pois que os tais 150 mil empregos que prometeu quando se perfilou para conduzir o anterior Gabinete, promessa que nunca conseguiu realizar, neste momento concreto já ninguém se dá ao trabalho de lhe apontar o dedo por qualquer falta, pelo que assim poderia tentar “limpar-se” das asneiras que foi acumulando ao longo dos seus dois mandatos. De resto, se a Espanha, com o Governo socialista, já adoptou esta medida de facilitar as leis laborais, mais um aconchego teria o nosso primeiro-ministro se vier a ter a coragem de empreender algo semelhante. E se não resultar, pois já não estará sozinho.
Mas, já agora, aqui deixo uma pergunta, de que conheço a resposta mas que considero ser importante que o Ministro respectivo explique à população o que se passa: vêm-se, com alguma frequência, nas montras de certas lojas, pedidos de empregados, e essas solicitações mantêm-se durante longo tempo. Então que se passa com os desempregados? Pois já me foi dito que os que se disponibilizam para ocupar tais lugares, ao estarem a receber o subsídio de desemprego, como o seu valor é igual ou superior ao salário que lhes é proposto pelos estabelecimentos que anunciam, não trocam uma coisa por outra, tanto mais que, se deixarem o desemprego e passarem a ocupar um trabalho perdem o subsídio que recebem e não voltam a tê-lo.
Então isto não tem solução? Não poderiam os novos eventuais patrões ser obrigados a comunicar ao Instituto do Desemprego cada vez que surgisse uma situação dessas, de modo a que os desempregados crónicos não continuassem a receber apoios para se manterem com o estatuto de não empregado? Mas esses casos teriam de ser rigorosamente fiscalizados, para evitar eventuais vinganças, maus comportamentos que, a existirem, teriam de ser judicialmente reprimidas.
Enfim, trata-se de um problema que não se pode admitir que se prolongue sem que as entidades responsáveis permaneçam mudas e quedas. Discutir banalidades e não chegar a conclusões que beneficiem as situações difíceis com que nos debatemos, a isso assiste-se todos os dias. E o grave é que, neste nosso País, ninguém se preocupa em meter as mãos nos problemas e em resolvê-los. Uma tristeza!...
Também, dedicar atenção a este assunto quando, uma boa parte da população portuguesa está a roer as unhas perante o desafio de futebol que se vai jogar hoje, contra a Coreia do Norte, e em que os que trabalham vão para e os desempregados estar a contemplar as televisões, é, de facto, uma falta de sentido de oportunidade da minha parte! Mas é só para contariar.

domingo, 20 de junho de 2010

DEFEITOS

Como oposto aos defeitos
nos seres humanos existem
virtudes com certos jeitos
que às más acções lá resistem
vale a pena recordar
algumas dessas purezas
e assim poder ficar
com umas tantas surpresas

Num mundo de correrias
em que tudo tem urgência
com tão raras cortesias
é bom mostrar paciência
e quando se vê qu’alguém falta
e nem sequer dá razão
nem a todos o que assalta
é conceder o perdão

Com aqueles que só brigam
e mostram grande arrogância
é verdade que se intrigam
se resposta é tolerância
mais ainda se interrogam
como com compreensão
com isso alguns afogam
alguma má criação




MAIS ALGO DE SARAMAGO


NÃO ME FICO PELO blogue que ontem redigi sobre o Prémio Nobel da Literatura que tinha a nacionalidade portuguesa e nos honrou por esse facto. Achei pouco. E, sobretudo depois de ter visto a enorme difusão de opiniões que as diferentes comunicações sociais fizeram surgir sobre a morte de Saramago, não me apeteceu ficar a dar a ideia de que não considerei suficientemente digno de registo o passamento em Lanzarote do escritor e que terá sido por isso que não me estendi em comentários mais aprofundados. Pois, nada disso!
Comecei a fixar-me em Saramago quando não era ainda um escritor marcado pelo sucesso, mas na altura, em 1975, em que soube da sua nomeação como director-adjunto do “Diário de Notícias”, diário que tinha ficado ligado pela sua actuação anterior à política vigente, salazarista e marcelista, e que, também pelo seu poder económico, se situava na primeira linha da Imprensa portuguesa. Atravessava-se a época do PREC, do gonçalvismo, dos oportunistas revolucionários que pretendiam aproveitar a actuação de alguns militares para implantar um outro sistema político ditatorial com grande influência do Partido Comunista. Quem acompanhou de perto toda a situação que se viveu nessa altura, especialmente os que tinham dado o corpo ao manifesto durante a vigência do regime apertado e que pretendiam, acima de tudo, que a Revolução fosse portadora de um sistema de pureza democrática, tanto quanto fosse possível, não podiam conformar-se com uma repetição à Esquerda do que se tinha vivido, durante largos anos, à Direita. E esse confronto, apesar de pacífico, teve lugar com vários cenários, sendo que o jornalismo ocupou um papel preponderante por parte dos que não se deixaram envolver por efeitos que, até pelo conhecimento do que ocorria nos Países de Leste, não eram desejáveis aqui na ponta oeste da Europa.
O que me fez, pois, dedicar grande atenção a José Saramago nessa ocasião foi o acto da sua autoria de despedir duas dúzias de jornalistas do “DN” que não se dispuseram a acatar as instruções dadas por ele de que, quem não estivesse conforme com uma actuação profissional condizente com a política comunista, o caminho que deveriam seguir era o da “porta da rua” – assim claramente. Ora, este gesto não me saiu do pensamento durante muitos anos e não é agora, apesar do falecimento do responsável por tal gesto, que vou fazer um retrocesso na minha forma de recordar factos concretos. E de deixar de lastimá-los.
Numa altura em que desfilam, em todas as manifestações mediáticas, personalidades a fazer declarações pretensamente muito elogiosas do ser humano que foi Saramago, mesmo aquelas de que não se esperaria tais posições de tão desmedido afecto – atitude que é muito praticada no nosso País, sempre que convém sobressair nos noticiários -, por isso mesmo não deixo de referir, ao menos neste blogue, um comentário de que assumo inteira responsabilidade.
Quero acrescentar que, no que diz respeito à sua actuação como escritor, e de forma bem clara que, sendo leitor de todas as suas obras, algumas digeridas com inegável apreço e outras com menor entusiasmo – isto no capítulo puramente literário -, há que reconhecer que um homem que se formou intelectualmente a si próprio e que, concretamente na área da escrita, mesmo sendo tarde que deu à luz grande parte das suas obras, não receou os ataques que pudessem surgir por parte de sectores mais ligados à religião católica e exteriorizou a opinião que levava consigo de convencido ateu – o que a mim nunca me convenceu inteiramente.
Não me é permitido honestamente entrar na área da intimidade das intenções dos que praticam seja o que for, e por isso não posso nem devo classificar o motivo que levou José Saramago a optar pela demonstração de uma animosidade clara em relação a certas consagradas fidelidades na área do catolicismo. Defrontar uma força como é a que, bem organizada, está difundida em muitas partes do mundo e tem a sua base num Estado forte, como é do Vaticano, escolhendo temas, como a Bíblia, para pôr a sua imaginação em riste e difundir questões e incredulidades em relação a casos que não merecem discussão por parte dos que crêem fervorosamente no que tem sido transcrito ao longo de séculos, tal atitude corresponde à que foi tomada pelo escritor (de que não me recordo neste momento do nome) que entendeu atirar-se contra Maomé, o que lhe valeu uma decretação à morte no meio islâmico. E teve de viver escondido durante anos, o que, em contrapartida, lhe valeu uma divulgação mundial do seu feito e do livro de que foi autor.
Não estou a comparar, mas que, por parte de Saramago, esse caso de ter colocado a sua vida em perigo não ocorreu isso é indesmentível, pois que o extremismo religioso não se pratica nos cristãos, mas essa circunstância pode ser posta em equação.
Tenho de esclarecer que, no que a mim diz respeito, não existe a menor revolta pelo facto de o Velho e o Novo Testamento terem sido postos em causa pelo nosso Prémio Nobel. Eu, que no reino das minhas permanentes dúvidas, não consigo sair da agnosticidade, tanto mais que levo em conta que todas as leis e determinações que as diferentes religiões assumem como suas, são originárias de seres humanos que, a seu tempo, as transmitiram aos descendentes, E, como não escondo nos meus diferentes textos, essa figura, que ninguém consegue descobrir cientificamente como apareceu, o Homem, tem dado largas mostras de se ter enganado com frequência e todos os dias deparamos com erros que se vão sucedendo.
Em conclusão e no que se refere a José Saramago, muito embora o entusiasmo que é demonstrado agora seja facilmente ultrapassado, em face de acontecimentos que não faltarão já a seguir (se, no futebol, fizermos boa figura ou se formos maltratados, tudo constituirá notícia mais importante), pois o Homem não se mantém muito fiel ao que deixa de figurar nas primeiras páginas dos jornais, é importante que se continue a respeitar o seu nome e o facto de ser um Prémio Nobel da Literatura, muito embora a intenção oficial de recomendar a leitura nas escolas dos seus livros, não se mostre muito viável, dado que, de novo o critico neste aspecto, o seu não seguimento de regras de facilitação da leitura, da raridade de pontuações, o que nunca foi devidamente explicada pelo próprio, os extensíssimos parágrafos, as ausências de maiúsculas nos nomes próprios, isso, que as traduções em línguas estrangeiras não revelam, não lhe darão a perspectiva de, tal como outros autores portugueses do passado, se manter como ponto de referência literária. É o que eu penso.
Mas, caso curioso, como sabem os leitores que me têm seguido, neste meu blogue mas desde sempre e muitos anos atrás o demonstrei, o meu interesse em que Portugal seja considerado, no mundo e sobretudo na Europa, um País com importância, ressalta no erro histórico que temos pago e que, neste momento que se atravessa se agudiza de dia para dia e piorará, é uma situação em que, mais ano menos ano, acabará por se solucionar. Foi a solução que se encontrou, por exemplo, com a criação do Benelux. Pois aqui, as minhas opiniões coincidem com as que José Saramago também expressou recentemente, ou seja, que em lugar de existir um Portugal e uma Espanha, neste conjunto tão bem situado na ponta do Continente, o que passaria a ser um forte bloco seria (e julgo que será, embora já cá não esteja para ver) simplesmente a Ibéria, com todos os seus princípios tradicionais, a língua (ou as línguas), os Governos, etc. Mas isso já tratei e fica para outra ocasião.
Peço desculpa se não entro na fila dos que, mesmo que com certa surpresa, aparecem a lançar elogios sem conta nem medida. Eu, que respeito o escritor e lhe reconheço inegáveis e justos méritos como tal, não tenho de fingir que não há defeitos a assinalar, de que é um mal de que todos nós padecemos. E que, mesmo que sejam inferiores às qualidades, não se desfazem com a morte!...

sábado, 19 de junho de 2010

ESCRITOR


Isto de ser escritor
porque muito escreve
com fervor
e se atreve
e o querer ser poeta
sem desistir
e de uma forma secreta
persistir
este afã, tal teimosia
como agora é o que faço
na esperança de que algum dia
me compensem o cansaço
e tenha valido a pena
por exemplo
ter afastado a pintura
que era um outro templo
a pertencer à tortura
só espero que o meu fim
seja no momento exacto
sem toques de clarim
e não firmando contrato
não ficando texto a meio
nem verso por acabar
p’ra não haver remedeio
e ser outro a emendar
o que estava feito antes
com susto e suor
e surjam alguns pedantes
a roubarem o autor

Mas isto de ser escritor
e de pouco génio poeta
se não o fez com primor
e usou mal a caneta
em vida
despercebido
não teve boa guarida
e mal foi ouvido
resta ainda a boa esperança
de passados muitos anos
tenha a bem-aventurança
de reconhecidos enganos
porque isso já se passou
com figuras conhecidas
e foi algo que marcou
algumas vidas sofridas
entre elas bem destaco
alguém que por Lisboa
consumiu muito tabaco
esse Fernando Pessoa
que deixou a papelada
espalhada por gavetas
que só depois foi juntada
e inspirou mais poetas
como sucedeu comigo
que o tenho sempre presente
e bem alto eu o digo
e nisso eu sou um crente
por um Pessoa ter havido
reconhecido só depois
se agora sou desvalido
mais tarde seremos dois

Se há quem tanto se gabe
sem razão para o fazer
não sei se a mim me cabe
gozar de tal prazer
presunção
e água benta
isso está na nossa mão
basta que nos dê na venta

Pois isto de ser escritor
e de também versejar
o preciso é ter amor
e em si acreditar
boa escrita
bons poemas
é tudo uma desdita
dificuldades extremas
à espera que um editor
jogue na carta certa
e acredite que o autor
é uma sua descoberta
que valha a pena
apostar
que nesta vida terrena
para mais tarde ganhar
o respeito dos leitores
que são sempre os julgadores.

PARTIU SARAMAGO


JOSÉ SARANAGO, aos 87 anos, fartou-se de andar por cá. Sim, porque seja qual for o apreço ou o contrário que uns tantos tenham tido pelo único Prémio Nobel da Literatura que conseguimos registar nos nossos livros de honra, a verdade é que se tratou de uma personalidade nacional que, como algumas poucas outras, levou o nome de Portugal a ser proferido por esse mundo fora.
Não se trata de, como é um radical hábito lusitano, depois de mortos considerarmos todas, até os grandes malandros, como “ao fim e ao cabo não era até má pessoa!”. Nada disso, é preciso que fique bem claro. E eu, com a maior independência e com absoluto sentido de razoabilidade, não pretendo deixar passar na obscuridade do meu interior aquilo que penso de um homem que, tendo sido muito discutido - e tenho de referir-me exclusivamente à sua escrita -, foi também uma figura que conseguiu implantar-se, enfrentando um vasto leque de azedumes em relação à preferência política que exibia e que deixou uma má imagem quando, depois do 25 de Abril, ocupou o lugar de director do “Diário de Notícias”, tendo despedido um grande número de jornalistas que não davam mostras de serem partidários daquela corrente.
Mas esse péssimo momento do ser humano mal comportado, não pode obscurecer o que mais importa analisar e que é o valor que alcançou na área literária. Embora se mantenha ainda uma larga camada de leitores que considera bastante “amaçarocada” a sua escrita em livros, ou seja, nunca tenha ficado explicada a razão por que o autor em causa desse mostras de tanto odiar o uso de parágrafos e desprezasse o emprego de pontuação, tal como as maiúsculas e minúsculas nos nomes, castigando os leitores com a decifração do que eram perguntas e respostas, não terá sido por isso que, ainda que como forma de graça, se dissesse nas tertúlias das livrarias que Saramago era o escritor mais vendido… mas o menos lido! Tratou-se, sem dúvida, de uma crítica proveniente de ambientes invejosos.
Como sempre sucede, agora que já não podemos contar com ele para vermos ressurgir obras novas (excepto as que, por ventura, se encontrem ainda em gavetas de familiares seus), o mais natural é que apareçam reedições em série e que comece a ser entendido o seu estilo antes criticado, devido à intervenção clarificadora de pareceres literários que se debruçarão sobre o Nobel desaparecido, tirando dúvidas aos que se queixavam de que não conseguiam passar da página 40 dos suas diferentes obras.
Eu, que nunca quis desistir da leitura até ao fim de cada volume, porque, tal como faço com a gastronomia, que para dizer que não gosto sou forçado a provar e até a degustar o suficiente, reconheço que, sem paixão e, por vezes, com alguma dose de teimosia, sempre procurei encontrar justificação para o Nobel que lhe foi atribuído, se bem que leve em conta a justificação de que os júris do Prémio não lerem, em muitos casos, os originais, pois são as traduções que são utilizadas para a respectiva apreciação e mais pelos conteúdos do que propriamente pela forma linguística utilizada.
Seja como for, o que há que reconhecer e respeitar é o papel criativo que José Saramago desempenhou e continua a representar na lista honrosa dos Prémios Nobel, o que tem como resultado colocar o nome de Portugal na mente de um grande número de cidadãos do mundo. E, por muito que existam outras referências que até se sobreporão largamente aos que se situam nas áreas criativas, tais como, no nosso caso, a Amália, o Eusébio e agora, até mesmo Cristiano Ronaldo, não é justo que não prestemos a devida homenagem a quem, por não se situar na zona dos milhões de apreciadores, deixe de constituir exemplo honroso que glorifica igualmente Portugal.
Já que as circunstâncias em que nos encontramos nesta altura não sejam de molde a criar um ambiente que nos envaideça como cidadãos deste País, pelo menos que aproveitemos os raros acontecimentos que obrigam alguma parte do Planeta a ouvir falar com respeito da nossa Terra.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

MEMÓRIA

Tanta falta que ela faz
quando a ela recorremos
e se ela se compraz
não mostra o que queremos

É assim a tal memória
faz-nos sofrer com desgraças
recordar-nos cada história
que nem vê-la com mordaças

Certos nomes, certas caras
que precisamos lembrar
são situações bem claras
que a memória faz passar

Coisas passadas há anos
que os tempos já tinham posto
no fundo dos oceanos
não nos causam o desgosto

Mas ocorrências de há pouco
essas de que ‘inda paira o cheiro
deixam-nos como um bacoco
ardeu tudo num fumeiro

Pois a memória é assim
muitas vezes nos ajuda
compensa a dizer que sim
quando não teima em ser muda

Queixamo-nos muitas vezes
da falta que ela nos faz
então a nós portugueses
muita arrelia nos traz

Memórias da ditadura
é coisa que ninguém quer
é matéria muito dura
não é algo de prazer

Mas recordar coisas belas
bons momentos já passados
é como acender as velas
em honra de seres amados

Temo-nos que conformar
com as lembranças melhores
que já não querem voltar
a fazer seus favores

Memórias más nem pensar
mas são essas as que chegam
só dão para enfadar
e nos aconchegam

Se no botão eu pudesse
escolher o que me apraz
talvez nunca eu fizesse
olhar sempre para trás

Memória que até dá jeito
para lembrar os favores
que me trouxeram proveito
no que conta a desamores
então já não acho graça
mais vale não ter memória
que isso de mulheraça
é tema p’ra outra história

MEMÓRIAS...


JÁ HÁ BASTANTE TEMPO que cheguei à conclusão de que todas as escritas que produzo, não só neste blogue mas também em múltiplas intervenções que deixo espalhadas, não se destinam a ensinar nada mas, pelo contrário, servem para eu próprio aprender alguma coisa. O facto de ser obrigado a reflectir o suficiente para que as ideias saiam o mais escorreitas possível, esse esforço resulta de um recurso à memória e de transportar o que estava armazenado em conteúdos trabalhados para o que julgo valer alguma coisa na altura em que escrevo. É evidente que não se trata, propriamente, de aprender coisas novas, mas resulta de se aplicar a atenção em matérias que, se não fossem transcritas, passariam quase despercebidas no recôndito do meu pensamento.
Porém, conscientemente reconheço que, o facto de se encontrar passada a juventude, e o tempo decorrido até à data ter aglomerando acontecimentos que, com erros e com acertos, formou um certo armazém de sabedoria que ajuda a reflectir com mais clareza e a permitir uma base de escolha relativamente fértil, essa circunstância leva-me a desabafar perante o computador.
Concretamente hoje, que não me surge o apetite de focar temas da actualidade, pois, por muito que eu busque fazer apelo a temas simpáticos que ainda por aí ocorram, não só nesta Terra mas ao longo do Planeta, a verdade é que se torna difícil descobrir, no meio do vasto noticiário que a comunicação transporta até nós, alguma coisa que possa mostrar um panorama de felicidade e de bem-estar dos homens. Estejam eles onde estejam e com exclusão dos felizardos que sempre ganham com as crises e com as desgraças da maioria.
E como vivemos uma época em que as distâncias já quase não contam, tudo leva segundos a passar de um continente a outro e, como é maior o número de más notícias que são difundidas, constitui uma raridade divulgar um acontecimento que deixe os seres humanos mais confiantes em relação ao futuro que os espera. Sobretudo aquilo que é oferecido aos vindouros.
Recordar-me eu de que, para ir, por exemplo, a Angola, tardava uma semana, ainda que fosse uma viagem relativamente cómoda num navio como o “Vera Cruz”, e hoje, por avião dos modernos – porque os primeiros também não constituíam assim uma experiência tão agradável -, esse trajecto até dá para dormir e acordar já no destino, ter essa experiência, como ocorreu comigo mais de uma vez, e em que, para cumprir a tarefa de jornalista em terras angolanas, para fazer uma reportagem para uma publicação nacional, tinha de utilizar o correio aéreo para enviar os escritos, pois nessa altura nem sequer existia ainda o fax, e em que recebi por telegrama a notícia de que tinha de reescrever 42 páginas, porque as anteriores tinham sido impedidas pela Censura, ao remexer na memória tais acontecimentos ou outros não posso fugir a certa confusão na minha cabeça, ao ponto de não conseguir definir se as aventuras jornalísticas desse período eram mais desafiantes do que as ocorrem hoje.
Daí que, quando me entusiasmam a escrever as minhas memórias, eu faço sempre um exame sobre se valerá a pena, numa fase da vida actual em que as gentes de hoje, especialmente os que nasceram já depois do 25 de Abril, despertar o seu interesse e se serão até capazes de meter-se na pele dos que sofreram as consequências da ditadura que nos limitava, a nós, os que, por motivo das profissões que exercíamos, roçávamos os cotovelos com os que se encontravam ao serviço do esquema então em vigor. E muitos deles houve que, depois do movimento revolucionário, apanharam o comboio em andamento e se imiscuíram nos “democratas” como coisa sua!
Provavelmente teria valido a pena, em vez desta recordação, prosseguir com apreciações ao que se passa nesta altura. Mas, olhem, foi uma variante. Peço desculpa.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

AR

Todo o ar que se respira
que puro está quando entra
já o suor que se transpira
a sujidade concentra
esse mesmo ar bendito
que não provoca pecado
faz um trabalho bonito
entra bom sai viciado

A volta que esse ar dá
no nosso corpo por dentro
não é simples oxalá
é da vida enorme centro
se algo se entupir
não deixando circular
o que vem logo a seguir
é morrer com falta de ar

Afinal tanta labuta
por quem quer ser o maior
o homem que muito luta
tem pelo ar grande amor
e enquanto ele trabalha
mete nos pulmões seu ar
pois que se este lhe falha
não dá p’ra continuar

O homem tem de estragar
o que dá a natureza
não sabendo aproveitar
em toda a sua grandeza
até a água a gastar
que toda a vida bebeu
quando um dia se acabar
será um ar que lhe deu

VIVA O FUTEBOL!


JÁ NÃO CHEGAVA sermos um País de tão baixa produtividade em condições normais, para, nesta altura difícil, virem as transmissões televisivas ocasionar ainda mais paragens na actividade dos portugueses que têm funções a cumprir. E essa confirmação já surgiu nos noticiários vindos de fora, considerando que somos a Nação que, durante o campeonato do mundo de futebol, mais paralisa para haver possibilidade de um número enorme de cidadãos se colocarem perante os écrans televisivos e, não só durante a hora e meia que dura cada jogo, mas, já agora, passar mais um tempinho na conversa com os parceiros do espectáculo.
Esta realidade não há ninguém entre nós, sobretudo da área dos responsáveis na governamentação e anexos, que mostre coragem em assinalar publicamente, sobretudo quando, como foi sublinhado num noticiário, até na Assembleia da República, a sala de trabalhos ficou vazia quando se realizou o confronto entre Portugal e a Costa do Marfim. E como, até não conseguimos ganhar, o empate deu motivo para que, logo a seguir e até durante algum tempo posterior, mesmo nos dias seguintes, os comentadores de casa se debruçassem sobre as razões de não termos saídos vencedores, acusando este e aquele e, em particular, o seleccionador que, nestas circunstâncias, é quem tem de levar com as culpas todas.
É evidente que, como portugueses que somos todos, não temos de excluir ninguém da nossa Pátria deste vício futebolístico que, como já se dizia no tempo de Salazar, faz parte do triplo carimbo que nos foi posto: fado, Fátima e futebol. Mas, dadas as circunstâncias que atravessamos, de uma crise que não perdoa nem se distrai com fogachos ocasionais, parece que o que deveriam aproveitar os elementos que fazem parte do Executivo era fazer um apelo a todos os considerados trabalhadores – e nisso seria bom que a CGTP colaborasse, mas está quieto! – para mostrarem que os seus interesses são mais defendidos com as mangas arregaçadas dos felizardos que ainda têm emprego, do que refastelarem-se a assistir ao decorrer dos confrontos de bola que, por muito que nos toquem, não podem contribuir para aumentar o desequilíbrio da nossa Balança, claramente com paragens ou reduções na produção, já bastando as “pontes” que os feriados proporcionam e que não há forma de serem eliminados.
Eu bem sei, que se fosse um elemento do Governo que surgisse a declarar publicamente que as televisões estavam impedidas de transmitir os relatos visíveis da referida prova internacional, me defrontaria com a maior greve que o nosso País já suportou. Era a maior afronta que se fazia aos nossos “trabalhadores” e os sindicatos, com os seus mentores também tão amigos de ser produtivos, tomariam a liderança de exigir que o Executivo caísse por tão monstruosa maldade!
Realmente, preso por ter cão e por não ter, é um lema que se pratica muito por cá. E como os que se sentam nas cadeiras do poder também, estou quase certo, não abdicam de seguir esses acontecimentos, o mais cómodo é não tomar qualquer medida que seja considerada antipática à maioria dos portugueses.
Por isso, este blogue é cómodo. Não suporta quaisquer responsabilidades!...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

MUDAR O POVO

Eu sofro tanto por ver
em cada dia que passa
este País a morrer
entregue à sua desgraça

Foram tantas eleições
muitas escolhas, mudanças
houve várias opções
e outras tantas alianças

As disputas foram várias
zangas também um fartum
e promessas como árias
ninguém augurou jejum

Na escolha de quem governa
que desde setenta e quatro
se tem visto como alterna
que nem cenas de teatro

Sucedem-se Presidentes
todos prometem mudar
mas nenhum trouxe presentes
que apetecesse cantar

Nesta altura de mudança
com Cavaco a presidir
nasce mais uma esperança
de que se vai progredir

Mas então mudar Governo
votar outro Presidente
vai fazer com que este inferno
altere assim de repente?

Eu por mim julgo que não
não digo nada de novo
é precisa a opção
de trocar cabeça ao povo

MENOS PORTUGUESES


AS ESTATÍSTICAS são, por vezes, elementos que nos oferecem tanto boas como más notícias. Mas, no decurso dos tempos mais recentes, são elas que orientam os nossos comportamentos e nos proporcionam quer melhor futuro ou mesmo o seu contrário.
As estimativas da população de 2009, reveladas pelo INE, indicam que a natalidade em Portugal no ano recorrido marcou uma descida significativa e isso, afirma-se, dada a crise que se vive actualmente no nosso País. O declínio demográfico e social fixou-se numa diferença acentuada em relação aos anos anteriores e isso não obstante o número de imigrantes que se instalaram em Portugal, sendo sabido que, nessa área, a sua taxa de natalidade é maior do que a nossa.
No que diz respeito à população propriamente dita, o saldo não é tão negativo porque foi superior o número de estrangeiros entrados do que de portugueses buscando residência lá fora.
Haverá razões concretas para a diminuição de nascimentos, que se estabelece em 5% relativamente a 2008, sendo de considerar o desemprego de ambos os cônjuges, as limitações de trabalho às mulheres grávidas e também o envelhecimento da população nacional, ao ponto de nos situarmos, no grupo da União Europeia, como um dos países com maior percentagem de gente envelhecida.
Será que, face a estes dados, se pode concluir que os portugueses estão em vias de desaparecer? Que a invasão de povos de outras origens e a proliferação de natalidades com outras nacionalidades provocará, no futuro, uma mudança de sangue e de características, diluindo-se as que são nossas, as lusitanas, que, como se diz acima, têm tido, ao longo da nossa existência, propensão para procurar locais fora de portas, até para terras bem longínquas, com usos e costumes muito diferenciados dos nossos, essa facilidade e conveniência de melhorar de vida contribuirá certamente para os números que as estatísticas nos mostram.
O conhecimento que é dado pelas estatísticas é que, por cá, a média de nascimentos é de um filho por casal, sendo também constatado que é cada vez mais tarde que se verifica o nascimento de um descendente, fixando-se a idade das mães com a primeira natalidade nos 28,6 anos.
Sobretudo, devido à fuga de África de milhões de naturais daquele Continente, no caso europeu e, em particular de oriundos de terras que foram antes colónias nossas, portanto com a facilidade da língua e dos hábitos que eles já conhecem, dada essa particularidade, o nosso País – ainda que não seja o único por esse mundo fora -, tem sido receptor de gente que aqui procura melhoria de condições de vida. E, sendo casais formados, a continuação dos seus laços familiares concretiza-se em terras lusas.
Outra pergunta que podemos fazer e que não constitui a menor preocupação em termos de raça é esta: será que, no prazo de uns tantos anos, cinquenta ou à volta disso, a cor da pele dos portugueses escurece, pois nós sempre demos o exemplo de, nas zonas africanas (e noutras) onde nos instalámos, termos sido pioneiros em misturar raças, não tendo a menor relutância em criar o que constitui uma marca da nossa especialidade: a dos mulatos.
É certo que na Holanda, por exemplo, a união das duas cores, dos loiros e dos pretos, se tem tornado vulgar, mas nesse aspecto não foram pioneiros na mistura. E, no que nos diz respeito, não foi apenas nas descobertas que os portugueses deram esse passo. A partir do momento em que assentámos arraiais nas florestas africanas e depois na regiões indianas tal como em Terras de Vera Cruz, logo deixámos o nosso sinal, não mostrando qualquer repulsa pela possibilidade de continuar o “fabrico” de novos seres humanos.
Mas isso passou-se em tempos. Não é o que ocorre nesta altura. E, tendo em conta o abandono que se verifica no interior do nosso País, em que existem aldeias onde só permanecem os velhos, os que não abandonaram os locais onde nasceram e ali aguardam para serem depositados os seus restos nos cemitérios que ainda se mantêm. Por aí se pode concluir que o desaparecimento de nacionais é um fenómeno que pode contribuir para o que se chamará de desaparecimento do modelo físico português.
Por outro lado, como a invasão de chineses, não só nos mais recônditos sítios em Portugal mas em tudo que constitui razão para se instalarem com as suas lojas, será caso igualmente para podermos admitir que, algumas décadas adiante, os lindos olhos dos homens e mulheres portugueses se transformarão em pequenas gretas que caracterizam os povos do Oriente longínquo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

LUSOFONIA

(trecho de um cântico longo da autoria de José Vacondeus)
Canto II

O mundo dormindo à nossa volta
não se preocupava com uns loucos
como nós, portugueses, cá à solta
e que por sinal éramos bem poucos
não levando em conta os nossos feitos
não se apercebendo da importância
e menos dos seus futuros proveitos

Só séculos depois lá despertaram
assustados entenderam então
que terras onde as nossas naus chegaram
passaram a ser da nossa comunhão
Que horror! Que injustiça, gritaram
um País tão pequeno não merece
aquilo que nos dizem que ganharam
mas que a nós, grandes, só enfurece

Todas as invejas não se esconderam
mais a mais se em terras africanas
grandes riquezas lá apareceram
e nem mesmo trovas camonianas
cantaram o que nós não descobrimos
estiveram lá anos enterradas
e o seu bom valor nunca sentimos
pois não chegaram lá nossas enxadas

Depois, a nossa visita a terras velhas
foi para recordar só os heróis
mas também para construir grelhas
para ajudar futuro no depois
de onde saímos escorraçados
sem jeito para mostrar nosso amor
levamos lá hoje alguns recados
mostramos nosso lado sedutor

E a verdade sim deve ser dita
recordando nosso comportamento
com toda aquela gente bem aflita
foi com alguma pena o momento
em que o nosso coração ficou
metade por lá onde estivemos
e até hoje não se explicou
como entendermo-nos não soubemos

Em África nossa língua ficou
melhor ou pior igual se fala
o luso-afro lá se implantou
e os naturais disso fazem gala
por muitos outros sítios se perdeu
a semente não pegou bem na terra
na Ásia e na China lá morreu
aquilo que a lusíada encerra

CABO DAS TORMENTAS/CABO DA BOA ESPERANÇA


SERÁ QUE os portugueses ainda se mantêm interessados em saber, de ciência certa, se Sócrates mentiu ou não quando, no Parlamento, afirmou não ter tido conhecimento prévio de que estavam a decorrer negociações para a compra da TVI pela PT ou fosse lá por quem fosse, por forma a terminar com a emissão das sextas-feiras, em que Manuela Moura Guedes mantinha um programa que lhe era absolutamente indesejável? Nesta fase de aperto dos cintos e com a previsão de piores dias que se aproximam, andarão os nossos compatriotas, a maioria, os de parcos meios de se sustentarem, para não falar já dos desempregados e sem subsídio (que isto é outra história que não se enfrenta com a devida competência), a procurar apurar a verdade, se temos um primeiro-ministro mentiroso ou se tudo não passa de uma ocupação de tempo e de um gasto com comissões que não servem para nada e só fazem figuras tristes perante todo o País?
Julgo eu que os cidadãos deste País, aqueles que ainda procuram andar em dia com os acontecimentos que nos rodeiam, terão há muito tempo a sua opinião formada. Dessa já o José Sócrates não consegue livrar-se, ma também não interessa nada, pois existe a consciência de que as circunstâncias políticas, que se vão mantendo por cá, não são propícias à abertura de portas à realização de eleições legislativas, havendo que esperar primeiro pela luta pelo lugar em Belém e, só depois, se o titular que lá se instalar assim o entender, se poderá pensar em substituições do actual Executivo.
O triste no meio de tudo isto é que, desejando alguns de nós fazer um exame das possibilidades de ser encontrada a pessoa ideal para pegar na condução política de Portugal, fazemos uma corrida pelas figuras que por aí andam e se prontificarão para enxotar o mal visto responsável principal pelo estado das coisas a que se chegou nesta Terra, mesmo aí não conseguimos descortinar uma que nos possa transmitir ainda que uma relativa tranquilidade no que diz respeito a competência, a honestidade política, com o mínimo de bom senso, e possuidor do intuito de cuidar mais e melhor dos problemas nacionais do que dos seus próprios e do grupo partidário que representará, que dará uma imagem de não ser o tal que sabe tudo e que não se debate com dúvidas, essa personalidade, no panorama que eu tenho na cabeça, não surge por forma a deixar-me descansado.
Atravessamos nesta altura – e vem bem a propósito pelo campeonato do mundo de futebol que se está a realizar na África do Sul – um verdadeiro Cabo das Tormentas. Mas, sonhadores como temos que ser, apesar de tudo, tal como fizeram os nossos navegadores que se lançaram mares fora na descoberta do que viesse, antes do desconhecido mas agora do que sabemos bem o que procuramos, a essa curva do caminho temos de chamar Cabo da Boa Esperança.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

ASSOBIA-LHE ÁS BOTAS

Tudo o que temos e parte
deixando as mãos vazias
talvez por não termos arte
ou por falta de energias
isso que foi nosso antes
e depois deixou de o ser
até os próprios amantes
choram depois de perder

Há quem lute p’ra guardar
o que está mesmo a fugir
faz tudo para agarrar
acaba sem conseguir
tinha de ir lá se foi
já não chegam cambalhotas
mais vale fazer de herói
Há certas botas que guincham
outras rangem ao andar
as que apertam e pés incham
como as que fazem suar
mas quando alguém lh'asobia
é o sinal de partida
não se trata de mania
mas sim concreta fugida
Perdida que é a esperança
de reaver o perdido
às botas com a sua andança
só lhe resta o olvido
lá longe o assobio
do dono atarantado
pode ser um desafio
nada é recuperado

O POVO OPINA


BEM GOSTARIA eu de não voltar a este tema, porque, pelo menos, seria sinal de que, com a quantidade enorme de problemas por resolver que por cá se arrastam, este já estaria no lugar que lhe compete, no arquivo dos berbicachos solucionados e, por isso, mesmo, já encontrados os seus responsáveis. Mas não é nada disso que sucede e, pelo contrário, ao cabo de demasiado tempo passado sobre o acontecimento em causa e cujas consequências dos muitos milhões que têm de ser desembolsados pelo Estado – isso lá para diante, para os que então se encontrarem na posição governamental com tal encargo -, a comunicação social volta agora, com mais evidencia do que na altura do sucedido, a rebater a questão dos célebres submarinos adquiridos a um fornecedor alemão e de que se diz existirem inúmeros interveniente, com comissões em que já ganharam saborosas fortunas, pois a negociata é, segundo se diz, de molde a ter deixado muita gente ultra bem aviada.
Mas, o que aparece agora com o ar de revelação inesperada, por via de escutas efectuadas a duas figuras conhecidas, e que aguarda que a Justiça portuguesa faça o seu trabalho – e com rapidez, se não é pedir demasiado a um sector que nos tem trazido com justificada revolta -, é que essa operação da aquisição dos tais submersíveis (tão essenciais à nossa Marinha, como ainda conseguem existir uns tantos oficiais desse sector a aplaudir a operação, afirmando que esses submarinos são essenciais à nossa frota, imagine-se!), se pode incluir num outro enigma que também pertence aos segredos das investigações que, em Portugal, não chegam nunca ao seu final: ao do caso Portucale que, como sabe quem ainda não o esqueceu, tem a ver com a autorização concedida pelo ministro do Executivo, então CDS, para serem cortados milhares de sobreiros, “embrulho” esse em que foi divulgado o nome do então tesoureiro do mesmo PP, Abel Pinheiro, que se mantém apontado como participante no problema e em que, repito, se cometeu o grande crime de destruir uma imensidão de árvores de enorme riqueza ambiental.
Pois agora, a notícia divulgada refere-se a terem sido apanhados nas escutas, tanto o agora presidente do CDS, Paulo Portas, como o mesmo interveniente apontado na Portucale, esse Abel Pinheiro, que, com a ajuda financeira prestada pelo BES ao CDS, terão prestado a sua participação em ambos os casos, por sinal os dois com estrondosas consequências de prejuízo para o nosso País.
Serão, de facto, essas figuras merecedoras da crítica dos portugueses? Podem ser indicados como culpados? Terão de ser afastadas as ideias pouco benévolas que correm nas cabeças de muitos dos nossos cidadãos, sobretudo neste período difícil que se atravessa e em que as saídas indevidas de dinheiros públicos têm de ser largamente criticadas? Se sim ou não é coisa que tem de ser dada a conhecer aos cidadãos do nosso País, com absoluta clareza e com completa justiça. Os Tribunais não podem ficar com o peso de mais esta situação, não dando mostras de actuar com clareza, rapidez e total isenção. Ninguém perdoará que a máquina judiciária não proceda de acordo com as leis e com a urgência que o caso merece. Doa a quem doer. Sejam quem forem os culpados.
Os portugueses, esses já formaram a sua opinião. Mas pode estar errada. E se assim é, tal se deve à demora em fazer funcionar os meios de que se dispõem para indicar os inocentes e culpar os que têm de pagar pelo mal feito.
É que, como sucede neste País de comportamentos estranhos, não fiquem admirados se, entretanto, não for anunciado um qualquer “site” a pretender “sacudir a água do capote” e a convencer os duvidosos de que há quem sofra com as acusações públicas que foram lançadas no ambiente populacional. E, claro, os juízes têm de passar a ser as vítimas, pois que se não querem fazer esse papel, então que se despachem e cumpram depressa e bem as suas funções!...