quarta-feira, 5 de maio de 2010

"PERIGO AMARELO"


NÃO É DE AGORA, pois há muitos anos, salvo erro terá sido até Eça de Queiroz que lançou a expressão do “Perigo Amarelo”, tratando-se de algo que fez pensar e que poderia vir a acontecer, certamente sem o espírito de maldade que sobressai da frase ela própria. Em finais do século XIX e princípios do seguinte, começou-se a prever que a dimensão da China e a expressão populacional que representava e aumentaria no futuro daquela época faria com que o Mundo pudesse chegar a defrontar-se com a “invasão” que iria representar a saída, fronteiras fora, de chineses que procurassem solucionar as suas vidas em terras distantes.
Essa situação foi-se conservando em “banho Maria”, sem ser levada a cabo, por diversas razões que fizeram com que as portas largas desse País longínquo não se abrissem com facilidade. Nem para sair nem mesmo para entrar, pois as visitas não eram acolhidas com grande entusiasmo. E, quando chegou a altura do ditador Mao-Tse-Tung, aí, durante toda a sua governação, ainda mais custoso se tornou que o intercâmbio de cidadãos se verificassem e o estrangeiro para eles consistia numa visão e num imaginário que não se encontrava ao alcance nem das suas bolsas nem das autorizações legais de saída. Eu, que tive ocasião de passar a fronteira chinesa, entrando por Macau, naquela época de repressão maoista, pude verificar como a população vivia atrofiada e submissa. Mas muito trabalhadora.
A produção resultante do trabalho meticuloso, mas mal pago, dos cidadãos chineses não alcançava muitos mercados, até também porque o desenvolvimento tecnológico levou tempo a chegar às indústrias locais. As exportações não fizeram, durante muitos anos, parte das preocupações dos responsáveis governativos, mas nem tudo dura toda a vida e a morte do ditador contribuiu para que os seus sucessores começassem a entender que o abrir as portas para a colocação do que saia das fábricas, a pouco e pouco modernizadas, e com a vantagem, dificilmente acompanhada pelos mercados externos, de os salários incrivelmente baixos do operariado e o elevado número de horas diárias de produção tornar os preços de venda difíceis de competir pela maior parte dos produtos que se comercializavam e comercializam em todo o espaço terrestre, essa alternativa consistia uma possibilidade para a República da China avançar para fora do seu espaço.
Era o tal “perigo amarelo” que entendeu que deveria mostrar-se e, a pouco e pouco, deu o passo que estava previsto há muitos anos. Com o silêncio que a emigração chinesa consegue manter quando se instala em qualquer parte do estrangeiro, a expansão mundo fora começou a ter lugar, não só com os próprios emigrantes mas através de lojas de artigos provenientes desse extremo Oriente, em que os próprios funcionários vendedores são orientados por organizações que comandam todas as operações, desde o proporcionar os investimentos indispensáveis até à preparação dos locais de alojamento, por forma a que os emigrantes chineses, sem conhecerem a língua do País de acolhimento, possa beneficiar de todas as facilidades minimamente exigíveis. E elas nem sequer são muitas.
E assim, se foi espalhando pela Esfera terrestre uma onda de população chinesa, e essa expansão de famílias e mercadorias em grande escala tem contribuído para que a balança de pagamentos da China tenha atingido um saldo positivo de tanta relevância que hoje, mesmo sem se ter conhecimento dos números que não saem do segredo do seu Governo, se sabe que até os E.U.A. representam uma quota parte bastante volumosa de dívidas àquele País.
E no capítulo da população da China, ela é hoje de cerca de mil e trezentos milhões, ou seja um quinto de gente de todo o Mundo. Quer dizer, portanto, que a “invasão chinesa” é uma constante e Portugal, naturalmente, não podia fugir a essa mancha oriental, sendo que, mesmo nos mais ignorados recantos do nosso País, deparamos com as chamadas “lojas dos chineses”, onde se podem adquirir numerosas produtos, quer de origem daqueles comerciantes quer de outras procedências, todos a preços inferiores aos que se comercializam em estabelecimentos correntes. E, para além dessa característica, as horas de funcionamento ultrapassam todas as que são praticadas pelos cumpridores zelosos de horários correntes e não há feriados que impeçam que as portas sejam escancaradas para receber os possíveis compradores. A sua agilidade comercial faz com que aproveitem todas as circunstâncias para oferecer aos potenciais clientes produtos que seriam impensáveis por outros mercadores. Todos se lembram que, quando, por motivo de uma euforia futebolística, as bandeiras portuguesas foram colocadas nas janelas nacionais, logo elas ficaram disponíveis nas “lojas dos chineses”, por sinal, bandeiras essas feitas na própria China, por sinal com um erro dos castelos que não tiveram tempo para estudar convenientemente. Mas eram baratas e venderam-se…
Não podemos criticar quem sai do seu canto para, pelo mundo fora, procurar melhorar a sua vida. Nós, quando emigramos também somos produtivos, a única diferença é que, quando trabalhamos na nossa própria Terra, aqui não fazemos o menor esforço para criar competitividade e para contribuirmos para melhorar a nossa balança de pagamentos.
Aprendemos alguma coisa com esse exemplo dado pelos chineses? Se nós, em nossa Casa, fizéssemos o mínimo esforço para produzirmos com qualidade, preço e em quantidade que fizesse com que os preços de venda pudessem competir nos mercados estrangeiros, seguramente que as condições de vida difícil que atravessamos não seriam tão causticantes. Isso, claro, com uma governação inteligente, positiva, de bom senso e sem interesses egoístas de viver faustosamente à custa de posições alcançadas por favores que fazem uns aos outros e não pelo valor próprio de cada um.
Mas, “perigo ibérico” nunca fomos e nunca seremos. Com ou sem a ajuda dos vizinhos do lado.

terça-feira, 4 de maio de 2010

CACILHEIROS

Apeteceu-me um dia
recordar o passado,
andar para trás
muitos anos,
pôr o saudosismo em acção.
E fui ao Cais das Colunas
às que lá não estão
(que apareceram entretanto)
mas que eu as vi
na memória
e descendo aqueles degraus
molhei os pés no Tejo,
que frescura!
que odor!
que beleza as gaivotas em liberdade.
Como me recordo
dos cacilheiros que saiam logo dali
e chegavam ao mesmo sítio,
os cabos para os prender ao cais
eram atirados
com precisão
fixavam-se nas amarras
e as gentes,
sem aguardar o encosto completo
saltavam,
corriam para os seus destinos,
os imediatos,
enfiavam-se na praça,
nessa bela praça,
no Terreiro do Paço,
que podia ser ainda mais bonito,
muito mais bonito,
mas as gentes nem dão por isso,
a Praça do Comércio (que nome!)
não tem ajuda do poder
para a tornar muito mais atractiva.
Correm para a vida,
os populares,
os cacilheiros, já bem encostados,
deixam sair os passageiros,
os mais calmos,
também esses já sem se importar
que o Cais das Colunas
já não seja o que era antes.
É gente da outra Banda
que dorme lá
que ganha a vida deste lado,
que transformou Cacilhas,
o Ginjal,
Trafaria,
Caparica
em dormitórios.
Tu, cacilheiro, foste o culpado.
Antes da ponte
eras dono e senhor
do rio,
só tu ligavas as margens
do Tejo que,
no final, parece um oceano.
Eras o patrão do Tejo.
Agora, já não és essencial,
imprescindível,
única solução.
Mas continuas a ser útil,
desejado,
e, sobretudo, manténs a tradição
alimentas o saudosismo,
és uma relíquia preciosa
para a memória,
mas também os que não usam a ponte,
a que já teve dois nomes,
que são bastantes,
e ainda bem,
porque tu,
ó cacilheiro dos velhos tempos
pode ser que acabes por vencer
a modernidade,
a que deitou abaixo as colunas
e arredou para mais longe
o local onde te encostas para descansar,
de cada viagem,
fazendo-te perder a graça,
essa de ver entrar e sair a populaça,
no sítio certo, junto às colunas.
Foi isso que a imaginação
trouxe até mim,
o olhar para o Tejo e contemplar,
sentado em frescos bancos
de pedra,
com a barra ao fundo,
vária navegação circulando,
respirando o ar marítimo,
mastigando pipocas
e pevides,
compradas ao velho do tabuleiro,
que sonho!
E, de repente,
caí em mim.
Esta Lisboa que faz a inveja
de outras grandes capitais
que não têm este rio
a seus pés,
esta cidade que deslumbra as outras,
mas que, em lugar de olhar para fora,
para a água salgada,
para as ondas com a sua espuma,
para o reluzir do Sol no Tejo,
vira-se para dentro,
para o seu umbigo,
e nem parece ser
terra de Navegadores,
antigos mas recordados,
ficando-se com a impressão de que
se tem vergonha
de ficar à borda do mar das Descobertas.
Não merecemos o que temos,
e tu, ó cacilheiro,
ainda serás algo,
já pouco,
que tem de nos avivar a memória,
chamar a atenção para
o pouco que nos resta.
A modernidade?
Pois sim, mas sem destruir
as jóias do passado.
Que bonito é ver o cacilheiro
encolhidinho,
ao lado do grande paquete,
majestoso,
que passa
a abarrotar de tecnicismo,
orgulhoso do seu porte,
transportando uma multidão
a olhar sobranceiro
o pequeno cacilheiro,
a ínfima embarcação
a cruzar o Tejo na sua humildade
como um pedinte
se aproxima
do carro de luxo
num semáforo.
Ó cacilheiro,
modesto trabalhador que
nasce, vive e morre
sempre com o mesmo mister,
com a mesma viagem,
repetitiva,
monótona,
mas prestando um serviço,
sendo útil,
indispensável,
com gente sempre à sua espera,
que o aguarda a olhar para o relógio,
como quem combinou com o namorado
um encontro.
Ó cacilheiro,
Tu, em que as gaivotas
tuas conhecidas
poisam na amurada
saudando-te,
lembrando-te quem és,
não te deixando sonhar com fantasias,
com luxos,
com atitudes que não são as tuas.
Tu és o que és
e nós queremos-te assim.


TERREIRO DO PAÇO


TODOS OS DIAS, ou quase, temos assistido nas televisões ao espectáculo deplorável, que faria rir se não provocasse pena, da inauguração de qualquer obra terminada ou em fase final – quando não é o contrário, ou seja a colocação da primeira pedra -, em que o primeiro-ministro se desloca, sempre com uma grande comitiva de sabujadores que não perdem ocasião para serem fotografados ao lado do “patrão”, dando mostras de que todos têm pouco que fazer nos lugares em que as suas obrigações públicas deviam impor preocuparem-se mais com a resolução de problemas deste País.
A última vez que este “filme” foi mostrado – antes da reunião que teve com o líder do PSD - foi o da vistoria ao Terreiro do Paço, para José Sócrates verificar o estado das obras ali realizadas para dar acolhimento à visita que o Papa fará a Lisboa e em que, segundo informou a notícia, ali se realizará uma missa com a presença de 80 mil católicos.
Quer dizer, aquela obra, que se tem prolongado por muitos meses, até mesmo mais de um ano, não para o acontecimento que diz respeito a Bento XVI mas para outros arranjos que parece incluírem a própria calçada, tem provocado o incómodo a centenas de milhares de lisboetas que, sobretudo os que são obrigados a atravessar a Praça do Comércio por necessidade de cruzar o lindo local vindos ou idos do ou para o barco que os transporta desde ou do outro lado do rio, tal reparação constitui uma demonstração de como os trabalhos que se realizam na nossa Terra tardam sempre, inexplicavelmente, muito tempo e causam transtorno a muita gente. Para além de custarem dinheiro que faz falta para outros empreendimentos mais urgentes.
Neste caso, sobretudo por se tratar de uma área que constitui um ponto sensível da nossa capital, as obras por realizar que, ao longo do rio e na zona perto, deveriam ter constituído a inclusão na lista das prioridades – isso, logicamente, quando ainda não nos encontrávamos no estado precário em que estamos -, agora e sem entrar em grandes gastos, deveria ter consistido há muito na remoção de todo o enorme entulho que ali se encontra depositado há meses, constituído por pedras e montes de terra. É uma vergonha assistir-se a um desmazelo tão claro, não se entendendo o motivo por que António Costa, os vereados respectivos e os muitos assistentes que são pagos pelo Município, não se terem incomodado antes com a falta de tal limpeza, não permitindo que se tenham acumulando todos os desperdícios das obras que lá vão avançando lentamente. E, na altura em que escrevo este texto, todo aquele vergonhoso espectáculo ainda se mantém, embora tenha já sido anunciada a reabertura aos cidadãos daquele espaço.
No entanto, a visita que Sócrates fez ao Terreiro do Paço serviu, pelo menos, para se ficar a saber que o Governo vai dar um passo que, há já muitos anos (mais de 40), o autor deste blogue tem vindo a dar a ideia para que fosse realizado: que as arcadas que rodeiam a praça sejam ocupadas com cafés e outros estabelecimentos de grande qualidade, até com música ao vivo (como se pode ver, por exemplo, na Piazza de S. Marcos, em Veneza), com exposições de pintura e outras manifestações artísticas, dando vida própria a uma zona que se pode classificar como beneficiando de uma beleza própria invulgar, ao mesmo tempo que, ficou prometido, se procederá à remoção dos ministérios que lá se encontra há anos, dando lugar a hotéis de ultra luxo e sendo substituídos os espaços por museus e outras actividades mais adequadas ao sítio. Isto, apesar de não se ter pensado, como eu sempre referi, em ser criado, como sucede em Madrid, há muitos anos, um chamado Bairro dos Ministérios, onde se reúnam todas essas instituições, com os serviços de apoio adequados e com transportes garantidos.
Parece que, finalmente, ainda que em parte, o passo para melhorar a Praça do Comércio vai ser dado, pelo que me congratulo por, mais uma vez, ter tido razão muito tempo antes dos acontecimentos. Mas não se trata de ganhar por antecipação, o que importa é que, por fim – quando for e sem investimento público, porque não é esta a altura mais apropriada -, se realize aquilo que a capital tanto pede há muitos anos.
Sinto-me satisfeito por isso, por ter sido revelada a intenção. E sobretudo, quando os investimentos que se podem e devem fazer no nosso País não têm que sair do erário público, mas sim através de aplicações privadas – como é de supor que será este o caso e através de concursos de concessão -, sendo pena que a acção não tenha tido efectivação anos atrás, quando tanto se falava de auto-estradas, aeroportos e gigantismos que, obviamente, tinham de constituir encargos suportados através de empréstimos estrangeiros.
Vamos lá ver se não se trata de mais um processo de intenção, posto que de promessas estão os portugueses cheios, sabido como é que, por cá, prometer é fácil, o executar é que custa muito… sobretudo trabalho, que é coisa de que se tem horror.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

TEMPO PERDIDO


Quem já fez muito pela vida fora
e não tem apoio para fazer mais
tem até razão p’ra dizer agora
já passou o tempo dos jogos florais

O que fica feito por aí anda
guardado está mas sem grande aprumo
e como sempre se o autor desanda
corpo e papeis ficarão em fumo

Lágrimas, soluços não valem a pena
o melhor será ficar conformado
ninguém valoriza toda esta cena
pois o destino é ser ignorado

Por aqui me fico, a pensar no ar
e a ir escrevendo coisas sem sentido
mas com consciência de que o meu estar
já só representa um tempo perdido

TEIMOSIA


“O PIOR SINAL que se poderia dar internacionalmente era comportarmo-nos sempre a mudar de planos” – esta a frase que José Sócrates resolveu tirar da manga para mostrar que se justifica que, da sua parte, se mantenha sempre, sem alterar, mesmo o que ficou provado que foi uma medida desacertada. É assim que se comportam os teimosos, os convencidos, os vaidosos com as obras que fazem, aqueles que não ouvem as opiniões dos outros, por muitos que eles sejam, porque a razão, segundo eles, se encontra sempre do seu lado.
E esta afirmação peremptória que, na visita que fez à Ovibeja – claro que o primeiro-ministro tem de andar sempre a tomar ar, em vez de estudar afincadamente os múltiplos problemas que Portugal tem para solucionar -, não se importando pelo facto de ter sido bastante vaiado e insultado pelos assistentes àquela feira de Beja. Tendo mesmo chegado a acrescentar: “Esse é o nosso plano e vamo-nos manter firmes”.
O que é que se pode fazer a um homem que, tendo conseguido chegar à posição de chefe de um Governo, se vivêssemos numa ditadura e tivesse sido, imaginemos, um sucessor de Salazar, a impressão que nos deixa é a de que seguiria fervorosamente o estilo do político das botas, com a diferença de que não conseguiria ser o guarda-livros poupado que, em vez de gastar desalmadamente, ia acumulando no Banco de Portugal toneladas de oiro, mesmo que fosse à custa de todas as carências do Povo português. Também Salazar não se teria preocupado com os computadores Magalhães, embora, nas escolas primárias se aprendesse mais do que acontece actualmente. Porém, sem o mínimo de saudades desse tempo horroroso – e quem o viveu em pleno, sabe bem o que foi -, não pode deixar de ter graça referir um acontecimento que se passou com um ministro da sua época, em que Salazar, que tinha marcado um encontro com essa personalidade, lhe telefonou pedindo para ele passar por S. João do Estoril, onde residia no Verão o ditador, pois “o seu carrito estava avariado”, referindo-se ao automóvel que se encontrava ao seu serviço. Se essa é uma diferença, com graça, em relação ao que ocorre hoje, em que cada membro do Governo tem ao seu dispor um lote de viaturas de luxo e vários motoristas disponíveis, mesmo assim tal não constitui grande escândalo, embora, de director-geral para baixo, devessem ser eliminados automóveis exclusivos e menos ainda condutores próprios às suas ordens, existindo, como eu tenho largamento opinado neste blogue, um serviço de carros concentrado e em que cada qualificado servidor
do Estado teria de requisitar transporte, o qual chegaria o que estivesse disponível, com o motorista que também calhasse.
Mas tudo isto vem a propósito do finca-pé de Sócrates que, tendo subido excessivamente depressa de Zé Ninguém a personalidade saliente, não tem capacidade para meter a mão na consciência, reconhecer quando pratica erros – como qualquer mortal – e não ter receio de aparecer em público a pedir desculpa por uma determinada medida que admitia ser correcta mas que, depois de experimentada, saiu mal.
Não nos bastava a todos nós, portugueses, ter de sofrer as consequências de uma crise mundial que, podendo ter sido aliviada na nossa Terra, não o foi por inoperância do Governo, para, nesta fase de tortura e de perspectivas que espreitam com maiores limitações ainda do nosso estilo de vida e de aumento sucessivo de desemprego, há que suportar um primeiro-ministro com tais características de presunção injustificada.
Também não sei, é verdade, que político haveria por aí que, nas actuais circunstâncias, pudesse dar garantias de fazer um papel que não fosse tão afrontoso, como é o que Sócrates mostra. Pode-se admitir até que não seria fácil encontrá-lo, sobretudo porque o cargo e as suas consequências não se mostram muito apetitosos nas circunstâncias em que estamos.
Digo isto mas, provavelmente, haverá quem se ponha em sentido para ocupar um lugar importante como é o de primeiro-ministro. Mesmo tendo de pagar cara a ambição.

domingo, 2 de maio de 2010

ANDAR POR CÁ

Andar por cá a arrastar-se
sem que a idade ajude
vá lá a gente fiar-se
pois tudo nos desilude
e os dias vão passando
vem mais um aniversário
sem saber como e quando
acaba este calvário

O sofrer com a doença
ninguém quer mas tal sucede
lá se vai mantendo a crença
de vir o que bem se pede
p’ra não fugirmos à sina
de dar com o inesperado
situação que mofina
mesmo passando ao lado

Mas, p’ros novos ensinar
devem cá estar os mais velhos
se dizem não precisar
sempre metem os bedelhos
mesmo p’ra não repetir
os erros já praticados
para poder prosseguir
caminhos novos traçados

Ao menos que o sacrifício
que cada idoso suporta
preste algum benefício
e ajude a abrir a porta
qu’aos novos a vida oferece
com teoria sem prática
e a juventude merece

São assim as gerações
e os que ainda se movem
assumem obrigações
por isso não se comovem

DESENRASQUEI-ME


PASSOU o 1º de Maio e eu sem computador. Foi exactamente no Dia do Trabalhador que esta máquina diabólica resolveu deixar-me sem Internet. E sendo um sábado e logo depois o domingo, não pude contar com a ajuda de um trabalhador para me resolver este problema. Limitei-me a ouvir o Carvalho da Silva, o trabalhador que tem um emprego há anos, a CGTP, que preencheu um largo período da tarde da televisão, clamando contra os capitalistas que são, afirmou ele, os culpados da crise que atravessamos e apelando para os direitos dos trabalhadores, que, segundo disse e redisse, são os únicos sacrificados do mal que cá chegou.
Foram, por isso, dois castigos. O do aparelho que, hoje em dia, faz enorme falta para podermos registar o que nos atormenta na nossa cabeça, e o chefe dos sindicalistas que, com gritos de raiva, se insurgiu contra os baixos salários dos que trabalham, dos subsídios de desemprego que não devem ser tocados e contra a burguesia que é uma camada de malandros, os patrões, que cada vez mais sacrificam os trabalhadores.
Pois foi isto que me sucedeu ao mesmo tempo. E me deixou ainda mais desconsolado com o País que temos. Com os Sócrates, por um lado, e com os Carvalhos da Silva, por outro. E sem poder enviar o meu blogue, como faço todos os dias, mas, ao mesmo tempo, também não sobrecarregando aqueles que me lêem com mais uma opinião, que vale tanto como o que aqueles dois afirmam.
Se, por um lado, ouvimos o primeiro-ministro, como o fez na Assembleia da República, com demonstrações de querer manter as acções de dispêndio e de endividamento que todos sabem que não podem ser sequer pensados, sem indicação de projectos coerentes que criem o espírito de fomento da produtividade, que é coisa que, por cá, em Portugal, nunca existiu em termo reais, até mesmo desde a criação do País, e, por outro lado, tomámos conhecimento daquilo que Carvalho da Silva deitou pela boca fora, deixando a convocatória para, no dia 29 de Maio, se levar a cabo mais uma manifestação dita grandiosa, em que os trabalhadores irão reivindicar trabalho para os desempregados.
Como é que podemos ficar descansados quando é este o panorama que se apresenta aos portugueses, em que só somos capazes de usar a voz para mostrarmos que existimos e, no que diz respeito a fazer obra, a sermos produtivos, a enriquecermos Portugal com o nosso esforço, a exportarmos aquilo que formos capazes de produzir, a sabermos tirar partido do mundo que gira em redor e não fazer como quando só descobrimos mas não conseguimos extrair proveito dessa nossa chegada em primeiro lugar, por culpa dos que mandam e dos que obedecem, dos patrões (dos chefes) e dos trabalhadores (dos cidadãos) – se queremos, de facto, estabelecer essa divisão -, se não conseguimos deixar de ser perdulários e só gastarmos o que temos na carteira, se não fizermos nada disso, bem podem os Sócrates e os Carvalhos da Silva que temos por cá produzir discursos, os quais não solucionam nenhum problema.
O que o 1.º de Maio deveria incutir em todos os cidadãos portugueses, pois é isso que faz falta se este País quer, de facto, salvar-se do afundamento que ameaça a nossa vivência, é o espírito da produtividade, com empresas bem geridas e com funcionários que se dediquem, com toda a convicção de que não podem gastar o tempo com frivolidades (vejam como a Alemanha saiu do estado em que ficou depois da Grande Guerra, que perdeu e em que ficou destruída, sendo hoje a mais forte do grupo europeu), e, evidentemente, com um Governo que dê o exemplo de saber conduzir com competência a Nação.
É com um José Sócrates e com um Carvalho da Silva, para falar apenas nestes dois, que iremos lá? Ou será preciso que todos os portugueses, todos, metam a mão na consciência e sejam capazes de, com a maior humildade e sem preconceitos de patriotismos serôdios, reconhecer que o nosso comportamento como cidadãos, em que damos sempre mostra de que a nossa tendência é a de não seguir as regras, é a de desobedecer o que é para o bem de todos, é de usarmos de toda a esperteza para trabalharmos menos e de não cumprirmos horários e usarmos os telefones de serviço para uso próprio, o de sacrificarmos os funcionários e não sermos capazes de organizar as funções de quem serve com capacidade de produzir mais, melhor e com menos esforço, é com tudo isso e com o que falta aqui enumerar que julgamos ser possível sarar as feridas nacionais de séculos?
É isto tudo que eu, que percorri o mundo quase inteiro e assisti ao que se passa em muitos lugares da nossa Esfera, contemplo ma minha janela da vida. Mas, como sou um de todos nós, não me excluo. Também mereço o que sofro.
Ah! E já agora explico o título deste blogue de hoje: é que, com a ajuda de um estimado vizinho, conseguiu-se ultrapassar o problema do computador. E lá sai sem a participação de um trabalhador, que hoje, feriado e Dia do mesmo, não havia nenhum disponível. E, já agora, pergunto: não será de criar uma espécie de “bombeiros dos computadores”? Com tantos desempregados que há e bastantes saberão mexer nestes aparelhos, para emergências de fins de semana e de noite teriam certamente quem os chamasse tipo distribuidores de pizas. O Carvalho da Silva não se lembra disso ou tamanho encargo é demais ou é contra os que ele tanto diz que pretende defender?

sábado, 1 de maio de 2010

DESILUSÃO

Ilusões, todos as têm
é sinal de se estar vivo
esperanças que mantêm
e que provoca incentivo

Esperar por alcançar
algo que se tem em mente
e ter mesmo de esperar
todo o tempo pela frente

Quem espera sempre alcança
e o que nos salva é a fé
lá diz o sábio povão

Mas quem anda nesta dança
tem de saber como é
sentir a desilusão

UM SUSTO!...


QUALQUER CIDADÃO português que acompanhe minimamente o percurso da situação difícil que o nosso País atravessa é natural que se preocupe com a comparação que tem sido feita, com justeza ou não, com o que ocorre na Grécia, pois a similitude, ainda que não seja aceite por algumas personalidades de destaque, não pode deixar de criar algum temor em relação ao aumento de dificuldades que já foram anunciadas pelo poder político e acentuadas no encontro que teve lugar ente Sócrates e Passos Coelho.
Por muito que o próprio ministro das Finanças tenha procurado, em diversas ocasiões, aliviar o ambiente, anunciando que o paralelismo é descabido, essa atitude não é, como se sabe, muito acatada, sobretudo porque os avisos que surgem de fora apontam para uma outra eventualidade, o que não retira o desassossego que mina nos espíritos dos cidadãos nacionais.
Não só por isso mas também por isso, não se compreendem as notícias tão divulgadas quanto às remunerações afrontosas de todos os tipos que têm sido aplicadas e autorizadas a elementos relacionados com empresas com intervenção do Estado, quer nas áreas das gestões (que foi divulgado já terem custado, as 17 empresas cotadas no PSI-20, 76 milhões de euros quer nas situações de administradores não executivos, que chegam a receber 7.400 euros por reunião, perante valores deste calibre não é possível pôr de parte a eventualidade de Portugal atingir, dentro de algum tempo, uma posição parecida com a que ocorreu com a Grécia e que se afirma ter sido motivada por uma má actuação do seu Governo, que não foi capaz de actuar com rigidez nos abusos que também ocorreram por lá e que os media têm divulgado. É de notar que, por parte de Sócrates, este tema nunca foi abordado com a clareza que e impõe.
Volto à preocupação que não é escondida pela população de uma forma geral, pois nesta altura a sua reacção é apenas de crítica, de indignação e de protesto velado entre amigos e familiares. Mas, o que é difícil imaginar, é o que poderá ocorrer na altura em que for declarada oficialmente a insustentabilidade financeira do País, face aos compromissos assumidos… se isso vier a suceder.
E a pergunta a fazer é se, nessa circunstância, será chamado à responsabilidade o culpado maior ou o conjunto de individualidades que terão contribuído para se ter chegado a tão grave ponto. Se, como é habitual entre nós em que a culpa morre sempre solteira, ninguém for considerado autor do descalabro, então, os que se aproveitaram dos momentos passados e aumentaram substancialmente os seus pecúlios passarão a actuar numa outra área e, isso é mais do que provável, continuarão a usufruir de benesses que as condições e as redes criadas lhes facilitarão.
Claro que uma das vias que poderá ser encontrada para deixar clara a situação, talvez venha a ser através da criação de uma Comissão de Inquérito, à semelhança da que está a actuar presentemente e é extraída da Assembleia da Republica (mas que seja eficiente e formada por gente capaz), que possa vir a demonstrar uma resposta clara e precisa, bem diferente daquilo que se tem observado na nos é dado observar através da televisão e que prova que, em grande percentagem, do Parlamento fazem parte bastantes indivíduos completamente incapazes de levar a cabo uma acção que, podendo ter a sua utilidade, acaba por não resultar minimamente.
Basta, porém, de fazer-se mais qualquer referência à Comissão de Inquérito que tem andado a entreter-se com perguntas de tamanho maior do que as respostas que são dadas e sem efeito positivo. Por mim, chega.
Agora, depois da reunião havida entre Sócrates e Passos Coelho e do aparente compromisso assumido sobretudo pelo chefe do Governo, dado que é dele que depende o bom resultado que se poderá obter com o referido acordo, poderemos, por este tempo mais próximo, ficar na expectativa, tudo dependendo, claramente, da capacidade de humildade que o primeiro-ministro passar a demonstrar.
Porém, há que deixar claro que, após a sessão havida agora na Assembleia da República, em que José Sócrates não mostrou a mínima capacidade para não impor os seus pontos de vista, afirmando-se como sendo o único que está na posse da verdade, é natural que o portugueses se interroguem de novo se não se trataram as promessas feitas de que, pelo menos nesta ocasião, os dois partidos, PS e PSD actuariam com espírito de compreensão mútua, se esse compromisso será levado a cabo para retirar dificuldades suplementares a Portugal para não atingir o ponto dramático da Grécia.
O susto que pregou Sócrates, com essa sua actuação no Parlamento, leva-nos a prevenir que temos de estar preparados para o pior que ameaça estar ainda para vir. Aqui fica o aviso.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

ANGÚSTIA


Angústia
é ter dor no vazio
e não nos podermos queixar
de um ponto qualquer do corpo
é sentir a falta de algo
e o estar farto do demasiado
é o não poder respirar bem fundo
e o ter ar a mais no peito
o ler e arrepelar-se
e o não ver nas escritas
aquilo que consolaria
é o fazer a sua própria obra
e ficar insatisfeito
arrependido
por a ter iniciado

Angústia
é o estar só
ou mal acompanhado
é o ter gosto pela música
e só ouvir ruído
é querer fazer poesia
e só lhe sair rima
é ver nas livrarias as obras saídas
e interrogar-se: e as minhas
que continuam guardadas?

Sim, angústia
quando aparece
custa a ir-se embora
se é que vai algum dia
enquanto por cá se anda.

Logo pela manhã, ao despertar
ela aí está
matreira, à espreita
a castigar o cérebro
a implicar com os projectos
quando os há
a encher os ouvidos
com o não vale a pena
com o porquê e para quê
com o desconsolo

Angústia
é má conselheira
pode provocar a inveja
se não for bem interiorizada
e aí
deixa de ser um mal próprio
para passar
a ser mal ao próximo
e isso há que evitar

Angústia
cada um tem a sua
e rege-a conforme pode
se é que pode
porque quem não a sente
também não terá consciência
de que há algo
que deve mudar
em si
e no que se encontra
à sua volta

Angústia
como a minha
já me habituei
incomoda-me
mas também me desperta
para tentar emendar os erros
para mudar de caminho
para o outro ao lado
que não será muito distante
só que não é o mesmo
o de antes

Oh Angústia
se não a tivesse
sentia-me envolvido pelo rebanho
era igualzinho aos outros
não havia nada em mim
que me despertasse
que criasse a revolta interior
aquela que me faz escrever
o que escrevo
e não me obrigasse a fazer a pergunta:
para quê?

CONTRADIÇÕES


“O GOVERNO TEM DE FAZER O ESFORÇO e só ir gastar naquilo que for prioritário”, esta a frase que o ministro das Finanças lançou, precisamente agora, numa altura em que se apertam os perigos que grassam à volta de Portugal. E garantiu ainda Teixeira dos Santos que vão ser várias as medidas para se reduzir o défice estabelecido para este ano, não adiantando, no entanto, quais os pontos cruciais onde se verificará essa decisão governamental.
Porém, o que se ouviu já hoje da boca de Sócrates, no Parlamento (e eu esperei até esta hora para poder tomar contacto com essa sessão, no princípio), em que deu mostras de manter a sua sobranceria e em que, em confronto com o deputado do PSD, deu ideia de que nada tinha ocorrido no encontro que se realizou com o líder do mesmo Partido, essa atitude deixou-me perplexo e muito preocupado em relação aos efeitos benéficos que podem ser esperados da boa vontade e do acordo que teve lugar aparentemente em S. Bento.
Mas, apesar desse espectáculo do primeiro-ministro, não nos resta outra opção que não seja não levar em conta aquele ar de ter sempre razão. E vamos em frente, por agora e pelo menos aqui no blogue.
Terá sido importante que, finalmente, até mesmo bastante tarde, dê a impressão que tenha surgido nas cabeças dos homens que se encontram com a responsabilidade de gerir os nossos destinos, o espírito de enfrentar a situação, visão esta já tão propagada por diversas vozes que se levantaram avisando que se impunha que não prosseguíssemos numa enganosa vida de gastar sem ter onde ir buscar os meios, a não ser através de empréstimos exteriores, o que conduziu à posição em que nos encontramos.
E por muito que os portugueses se indignem por não assistir, por parte desses homens públicos, incluindo, obviamente José Sócrates, a um reconhecimento da sua falta de atenção perante as realidades que há muito tempo eram visíveis e palpáveis, o que importa, na situação actual, e tirando o maior partido do gesto de colaboração que o PSD apresentou, é fazer todos os possíveis para recuperar o que foi perdido em oportunidades que existiram e, mesmo que isso saia agora mais caro e que as portas dos emprestadores estrangeiros estejam nesta altura já retraídas e as suas condições em juros tenham subido bastante, por isso mesmo é que haverá que apurar o sentido das opções nos gastos que forem absolutamente necessários. E, nesse aspecto, o discurso que fez ontem o ministro da Obras Públicas, garantindo que os projectos em curso para a alta velocidade e para o novo aeroporto vão prosseguir, não podem deixar indiferentes os portugueses.
O pior é que, na área populacional – e não digo dos trabalhadores porque essa expressão tem sempre um sentido político, o que não tem de vir agora ao caso -, não se põem termo às greves, que são levadas a cabo para obtenção de melhoria de condições laborais, naturalmente com exigências de maiores salários, pois que por muito justas que sejam as queixas, o que é certo é que, pelo menos da parte do Estado, não existem meios financeiros que cheguem para, nesta altura, se satisfazer o que consta dessas greves. E se não existir a consciência dessa realidade, o que pode aparecer a seguir será muito pior do que o que suportamos hoje.
Eu bem alarmo aqui: atenção às reformas! Cuidado com o 13º mês e o subsídio de Natal! Se não tivermos o mínimo de compreensão no período que atravessamos, aquilo que pode vir a seguir será ainda mais penalizante do que nesta altura passa com os salários baixos.
Já não é o momento para outra Revolução do tipo militar, como foi a do 25 de Abril. Se se deparasse agora com outra revolta, essa seria de característica diferente mas sim social e não contava com a organização que, pior ou melhor, sempre se verificou na altura em que actuaram os chamados “capitães”.
Não quero ter razão. Não me alegra nada se acertar antes de tempo com o que pode ocorrer mais tarde. Mas, quem viveu bastante o antes e o depois de 1974, não tendo nada a perder com o que afirma neste blogue, não quer partir deste mundo e deixar um Portugal que não foi capaz de honrar o seu passado longínquo, o das descobertas e o da Lusofonia, perdendo agora o tento e não sendo capaz de encontrar uma solução inteligente.
Porque também eu afirmo, sem medo da repetição de vozes valorosas de tempos antigos, que, cada vez mais, sinto que a minha Pátria é a minha língua!...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONTENTE


Mesmo sem saber porquê
pois que tal não é preciso
é gostar do que se vê
e mostrar sempre um sorriso
contente,
contente
maravilha estar assim
sempre com ar de festim

Pode parecer doença
coisa física e mental
pois ter alegria intensa
lembra logo carnaval
contente,
contente
todos ao lado a chorar
quem ri a dissimular

Em época de tristeza
mostrar que é diferente
é p’ra já uma proeza
e que se anda a Poente
contente,
contente
será preciso inconsciência
ou deste mundo ausência?

Contente, contente
só com muita aguardente

BEM DISPOSTO?



ESTA É a pergunta habitual que se ouve em Portugal e que, sobretudo, em programas na televisão, naqueles em que existe contacto com o público, os apresentadores, na falta de outras coisas úteis para encher o tempo, dirigem com frequência. E a resposta que deveria ser dada era com outra pergunta: e temos razões para estar bem dispostos?
Entrando então no tema, face à situação económica e social – já nem me refiro à política – a que nos fizeram chegar, os portugueses, apesar da enorme dificuldade que tem a sua maioria em entender minimamente o que é isso do “rating” e das percentagens de défice que são repetidas aos cidadãos, a única coisa que compreendem é a dificuldade que se avoluma todos os dias para ir vivendo neste País, mas mesmo assim lá lhes entra na cabeça que, ao cabo de mais de uma dezena de anos em que temos sido governados com verdadeiro desleixo, chegámos ao ponto de termos conseguido ser um enorme devedor ao estrangeiro, pois o próprio Estado e as entidades financeiras, um para dar vazão à sua aventureira atitude de gastar mais do que era admissível fazer, sobretudo com obras faraónicas que deveriam ter aguardado pelos momentos apropriados e os segundos, os bancos, para poderem ganhar verdadeiras fortunas a emprestar ao Zé Povinho que, não podendo alugar andares, como antigamente, porque até desapareceram, a moda passou a ser a de se endividar para se constituir dono da sua própria casa, nem que levasse 30 ou mais anos a pagar.
E a bola de fogo foi-se avolumando, ao ponto de o negócio residir nos emprestadores bancários cometerem empréstimos no exterior com um juro favorável e efectuarem operações cá por casa, com outros juros mais elevados. E enquanto as coisas ia correndo sem grandes sobressaltos, aí sim, andava tudo bem disposto. Mas o que aconteceu há anos com o caso da “Dona Branca” repete-se agora de outra forma, em que, na hora de pagar o que se deve e em que o dinheiro fraqueja, quando os juros das dívidas sobem e o que era bom antes passou a constituir um inferno, nessa altura, quer o Estado quer os devedores nacionais, são forçados a adoptar medidas que, como diz o Povo, é ao “mexilhão” que cabe a vez de deitar as mãos à cabeça.
Mas nós temos a fama e o proveito de sermos uns desenrascados, mesmo que seja à custa de atitudes de salve-se quem puder. E, valha-nos isso, nesta altura verificou-se um procedimento que só honra uma parte, e que foi a sua estimuladora: a de o “líder” do principal partido da Oposição, Pedro Passos Coelho, do PSD, se ter prontificado a, pondo de parte as diferenças políticas que o separam do PS, colaborar com o Governo no sentido de serem encontradas soluções para, a bem de Portugal – como afirmou -, serem tomadas todas as medidas que sirvam para nos distanciarmos, em termos comparativos, com o que ocorre com a Grécia, que necessita mais de 100 mil milhões de euros para pôr as contas em ordem.
José Sócrates deve, por isso, ter respirado fundo. Mesmo não sendo afastado da responsabilidade que lhe cabe como principal motor da situação em que nos encontramos, pois que, ainda que vindo a origem de tudo de trás, de anteriores Executivos, a verdade é que, já em plena crise, não se verificou, na sua condução governativa, uma actuação reflectida e humilde que encaminhasse o Estado português em direcções diferentes das presunçosas seguidas, as quais contribuíram claramente para o esgotamento de fundos e para uma posição de fragilidade que nos pode conduzir ainda – ninguém garante o contrário – a uma situação muito próxima da banca rota.
Como eu tenho advertido repetidamente neste meu blogue diário, os perigos aproximavam-se e aproximam-se a uma velocidade assustadora. Para já vão-se limitar os subsídios de desemprego, pondo-se pôr fim a algumas “espertalhices”, chamemos-lhe assim, de muitos desempregados que não aceitam trabalho para se manter com aquela ajuda que todos os outros portugueses suportam. Mas, não desisto de sublinhar esse facto, o que ocorre com as reformas: será que conseguiremos salvar-nos desse descalabro, se suceder, e que poderá vir a constituir também uma medida que o Governo terá de enfrentar, com reduções e, quem sabe, com cortes drásticos? Todas essas greves que estão a multiplicar-se em diferentes áreas não serão abandonadas pelos seus autores sindicalistas, pois o perigo que é real não leva a que essas organizações reflictam sobre as consequências que todos pagarão devido às exigências que são feitas numa altura em que não é possível atender a benefícios, por mais justos que eles sejam… se forem?
Por agora, a atitude do PSD pode deixar-nos um pouco mais descansados. Se se verificarem resultados positivos da convivência agora estabelecida entre os dois Partidos, quem sabe o que resultará das próximas eleições? Mas isso e muito mais fica para mais tarde…

quarta-feira, 28 de abril de 2010

BUSCA DE ACALMIA


Mar que em mim existe revoltado
na busca continuada de acalmia
não consegue manter-se sossegado
no longo caminhar do dia-a-dia
e os ventos que sopram em redor
não deixam que as ondas me descansem
cada vez a angústia é maior
sem haver alguns que me esperancem

Os seis mil milhões que por todo o mundo
se movimentam cada um à sua
tendo de viver em cada segundo
desejando que nada os obstrua
uns conseguindo outros nem por isso
a grande maioria se debate
com o que na vida é grande enguiço
e torna o dia-a-dia em combate

Por isso se escuta tanta queixa
de gente p’lo desânimo tocada
a quem a felicidade não deixa
alegre marca da sua passada
as excepções existem, são bastantes
causando inveja aos que ao contrário
têm razão para ser protestantes
por sofrerem penas neste calvário

Eu, por mim, luto contra o mar revolto
as ondas permanentes que atormentam
vendo o vento que anda sempre solto
todos minha inspiração atormentam
num vai e vem de baixos e de altos
nos bons poemas, noutros um horror
em pensamentos, tristes sobressaltos
que deixam marca de enorme dor

Mas é esse, do poeta o martírio
encontrar o sítio e o momento
p’ralcançar conveniente delírio
em que se estando a sentir o vento
ele traga por vezes bons auspícios
e talento que quase sempre falta
e que provoca tantos sacrifícios
até fazer chegar algo à ribalta

Acalmia é coisa que se busca
bastante para o espírito sossegar
p’ra não haver aquilo que ofusca
o que esteja pronto para dar
mas quando por muito que se procure
a tranquilidade não aparece
não há ninguém que bem se aventure
porque o génio fugiu, não se merece

COMISSÕES? FOGE!...


É UMA PENA termos de chegar à conclusão que, cada vez que em Portugal se forma uma comissão, logo deparamos com um grupo de pessoas que não resolvem nenhum problema, que não conseguem chegar a uma conclusão e que só servem para empatar as decisões. Então não é o que se está a passar com esta Comissão Parlamentar para averiguar a verdade do que ocorreu com o caso tão falado da PT/TVI, incluindo a Taguspark e todos os grupos que fizeram parte de tal problema?
No fundo, a preocupação principal é a de apurar se o primeiro-ministro terá ou não mentido na Assembleia da República ao ter afirmado que desconhecia que a empresa dos telefones com participação do Estado estava a efectuar negociações com os espanhóis para a compra da estação de televisão, o que proporcionou a Manual Ferreira Leite ter chamado mentiroso ao chefe do Governo.
Quer dizer: movimentam-se várias criaturas, pagas pelo erário público, para se porem no lugar de polícias e fazerem interrogatórios repetitivos e arrastados a vários elementos que são considerados como eventuais participantes na referida operação, mas, no fundo o que sucede é uma “guerra” entre partidos políticos das Oposições, por um lado e o PS por outro. E, face a esse confronto, em lugar de a preocupação residir na descoberta da verdade, aquilo a que se assiste é a acusações sucessivas, uns a defender a todo o custo José Sócrates e outros a empregarem-se com denodo na busca de provas de que o responsável número um do Governo terá faltado à verdade, num lugar que tem de ser respeitado por todos os que intervêm naquele Hemiciclo.
É mais do que seguro que não se apurará a tal verdade, pois a falta de provas é evidente e apenas as aparências, por mais claras que sejam, é o que sairá no final do trabalho da Comissão.
Mas, a pergunta que se tem de fazer, face ao espectáculo a que se tem assistido nas transmissões televisivas das sessões dessas perguntas e respostas, é se valerá ainda a pena chegar a uma conclusão indesmentível, sabendo-se que José Sócrates, quando sair do lugar que ocupa não poderá gabar-se de nunca ter sido alvo de dúvidas, de desconfianças e de acusações por parte dos cidadãos que, mesmo sem provas, não deixam de manifesta-lhe reprovação por atitudes, promessas e afirmações que, segundo parece, claramente caíram mal num grande número de cidadãos.
Se a situação política nacional fosse outra, se tivessem já aparecido no panorama opções que permitissem aos potenciais votantes, na altura própria, efectuar uma escolha e retirar Sócrates de cena, então valeria a pena persistir numa campanha de “desprestigização” da personagem que conhece a situação e que, portanto, não dá ainda mostras de estar preocupado com a porta de saída. As eleições recentes no PSD talvez venham a constituir uma opção se, ao contrário do que se verifica nesta altura, o PS perder um número maior de aceitantes, como as sondagens ainda mostram. Até lá, se essa situação se mantiver, podem organizar-se as comissões que quiserem, fazerem perguntas repetitivas que entenderem e encher os ouvidos dos assistentes com um espectáculo chocante, porque tudo ficará na mesma.
Comissões, seja do que for, é coisa que não cabe no espírito “portuguesista” que é o nosso. Temos dificuldade em trabalhar em grupo. Não temos vocação para dar passagem aos outros e do que gostamos é de nos acotovelarmos, seja com palavras seja com o chega para lá que utilizamos em várias alturas.
O que é pena é que se perca tempo e dinheiro com estes ensaios de democracia. Não se é democrata por decreto. E cá volto eu: ensine-se essa prática desde os bancos da escola primária e talvez, no final dos próximos 36 anos, consigamos estar mais perto do seu uso natural. Por enquanto, não sabemos ainda utilizá-la.
Não vem completamente a propósito mas, já agora, vamos esperar para saber o que sairá de positivo do encontro que tem lugar hoje entre Pedro Passos Coelho e José Sócrates. Impõe-se que surja alguma esperança de que, face à situação periclitante que se atravessa, pelo menos se suspendam as quezílias que não ajudam nada a encontrar soluções para salvar Portugal do pior. E deixemo-nos de “comissionites”!...

terça-feira, 27 de abril de 2010

AMIGOS NOSSOS


Ter amigos nos humanos
quem não tem esse desejo?
Melhor ainda que manos
que nem sempre dão ensejo
ambição
é uma sorte encontrar
tamanha felicidade
porque sempre pode dar
prova de fidelidade
comoção
Mas nos homens é seguro
encontrar até demais
o que quero é com apuro
ter amigos animais
são seguros
que não pedem nada em troca
dão-nos inteiro amor
chega-lhes uma beijoca
para sermos seu tutor
como muros
O pior é quando humano
sem o mesmo sentimento
sem temer de fazer dano
não cuida do seu sustento
se desleixa
deixando de ser patrono
já não sendo novidade
o gesto é o abandono
mas que grande crueldade
sem queixa
Isso mostra afinal
que o homem é bem pior
do que qualquer animal
seja ele o que for
perverso
por isso prefiro até
amigo de quatro patas
tê-lo aqui bem ao pé
passando horas pacatas
e converso



AJUDAR SÓ A GRÉCIA?


A SITUAÇÃO actual da necessidade de ajudar a Grécia a sair da grave crise que está a viver, e em que já foi definido o apoio através da intervenção da União Europeia, a qual vai ser concretizada com a participação de dois terços do montante necessário pelos parceiros da Europa e um terço pelo Fundo Monetário Internacional, o que representa muitos milhares de milhões de euros, irá provavelmente criar condições novas de actuação de todo o conjunto, actualmente de 27 membros, apressando certamente, pelo menos é o que muitos desejam, a instituição de um núcleo denominado Estados Unidos da América. Eu, por mim, também gostaria que tal se concretizasse.
Na verdade, até agora, uma certa dispersão de atitudes – não se pode pôr de parte a exclusão assumida pela Grã Bretanha no que respeita à não aderência à moeda única, ao euro, o que, se se tratasse um país de menor importância, obviamente que teria constituído motivo para uma tomada de força rígida por parte de todos os outros participantes -, tem provocado um adiar sucessivo no que respeita à formação de um agrupamento que, em profundidade, obedeça a regras unitárias de actuação, ainda que conservando, como é natural, as características próprias de cada um, como a língua, os hábitos e costumes, os governos e todas as instituições adjacentes no que respeita à condução local de cada País.
Os anos que têm passado e a demora em chegar-se a uma comunhão perfeita de todos os participantes no capítulo de se poder afirmar estar a ser cumprida a regra de “um por todos e todos por um”, esse adiamento repetido, mesmo com as realizações de tratados sucessivos que procuram ir melhorando os relacionamentos, tal arrastar doentio, resultante das teimosias nas defesas de interesses próprios de alguns membros, essas tardanças só têm servido para que, aquilo a que se chama União Europeia, se encontre ainda na fase de aproximação da Europa desejada. O que, evidentemente, é bem distante àquilo que se impõe que constitua a concretização da ideia tal como ela nasceu na cabeça do seu fundador.
Por isso albergo agora alguma esperança de que a ajuda que a Grécia tanto necessita e que está em fase de concretização, com grandes probabilidades de vir também a ser pedida por outros parceiros que não se encontram muito longe da complicada situação grega, venha a servir para despoletar a fase seguinte de uma União Europeia que, como é sabido, corre actualmente o risco de ir perdendo consistência, em face de algumas atitudes pouco conciliadoras que têm sido mostradas perante casos concretos que vêm a lume assiduamente.
Nós, portugueses, bem podemos e devemos aspirar que tal não suceda. A unidade da Europa é fundamental para que, por cá, se consiga levar por diante uma política democrática que é essencial para que prossigamos com os desígnios do 25 de Abril, de que foi agora comemorado o seu 36º aniversário. Os ensinamentos que vierem do exterior e no nosso Continente poderão abrir as mentes daqueles que, convencidos das suas razões, como sendo as únicas certas, não têm ainda consciência de que o emendar erros faz parte da caminha do Homem e que ninguém se encontra incólume de os praticar.
A quem caiba esta advertência, que enfie a carapuça…

segunda-feira, 26 de abril de 2010

FUTURO - UM MISTÉRIO


Cheguei a uma altura
em que ando pelo mundo
sem saber para onde olhar
já não me interessa a figura
nem procuro ver o fundo
para onde vou ficar

Para trás foi o que foi
já nada será mudado
não vale a pena lembrar
e se agora algo dói
o melhor é pôr de lado
e o futuro adivinhar

Mas futuro? Que mistério!
Nesta ânsia de escrever
acumular prosa e verso
já não é nada de sério
mesmo dando algum prazer
serve tanto como um terço

E AGORA?


PASSADA que foi a comemoração de mais um aniversário do 25 de Abril, acontecimento esse que vale sempre a pena recordar, sobretudo por ter posto fim a um calvário que foi o anterior período político, na fase em que se encontrava já de desmedido desencontro com o que ocorria em quase todo o mundo, sobretudo como seguimento ao optado após o final da Grande Guerra Mundial que impôs a adopção de regimes abertos à Liberdade e em que os que ainda se mantiveram agarrados aos vários totalitarismos foram, salvo algumas excepções – dentro das quais umas tantas ainda se conservam teimosamente hoje -, aceitando, ainda que com diferentes nuances de democracias, que, mesmo a contragosto em certos casos, não tiveram outra alternativa, repito recordada que foi a referida data não devemos meter na gaveta o sucedido e antes dedicarmos algum tempo a memorizar o que ocorreu.
Pois, somos nós, sobretudo os que passámos pelo velho regime, primeiro sob a batuta de Oliveira Salazar e, após a morte deste, suportando a falta de vontade própria devidamente assumida de Marcelo Caetano, que se sujeitou às pressões de grupos conservadores, somos nós, sobretudo, quem pode fazer uma reflexão sobre o que teria sucedido em Portugal se a revolta militar, fossem quais fossem os fundamentos que a tornaram possível, não se tivesse efectivado. E vários cenários são imagináveis dependendo tais conclusões de factores diferentes, desde as inclinações políticas que cada um aceita até à percentagem de optimismo ou pessimismo que reside dentro dos portugueses.
Claro que tal hipótese é completamente impensável, mas com alguma boa vontade e grande dose de sonho poder-se-á admitir como se encontraria Portugal nesta altura se, de facto, não se tivesse passado a Revolução de Abril. Eu, pelo menos, já me tenho surpreendido com tal pensamento. E espanto-me perante os resultados que surgem na minha ideia.
Admitindo, pois, que não teria ocorrido a revolta dos militares e que, devido a isso, quer Américo Tomás, em Belém, quer Caetano, em S. Bento, ambos se manteriam nos seus postos, e que a guerra de África, em face disso, prosseguia durante mais algum tempo, com a implantação do então chamado Mercado Comum e a adesão que logo começou, progressivamente, de outros países europeus, a situação política portuguesa não poderia continuar como estava e impunha-se, mesmo contra a vontade de muitos conservadores cá ainda instalados, que aderíssemos ao sistema, caso contrário passaríamos a ser outra Albânia ainda que com características políticas completamente diferentes das seguidas naquela local no sul do Continente.
Agora, teria certa graça histórica assistir à mudança a que Thomás teria de se sujeitar, ainda que roendo as unhas, e observar o chefe do Governo de então a ser obrigado a negociar com os movimentos africanos, mesmo que encontrando-se em situação pouco cómoda por o tempo ter jogado a favor dos adversários nas ex-colónias. O que será mais difícil imaginar é se, já em posição incómoda, estaríamos em condições de discutir a permanência dos portugueses nos territórios do Ultramar, em igualdade de circunstâncias dos naturais e mantendo as suas actividades, sobretudo os que já tinha nascido naquelas paragens.
Que diferença se verificaria se esse sonho tivesse sido afinal uma realidade! Por muito que, nesta altura, as relações entre Portugal e os novos países africanos se possam considerar amistosas, a alternativa que teria lugar seria da maior utilidade para essas Nações neófitas mas, especialmente para nós, representaria uma enorme ajuda, pois o crescimento económico que se está a verificar, sobretudo em Angola, permitiria que não paralisasse a ida daqui de nacionais para aquele e outros territórios e o intercâmbio de actividades contribuísse para o nosso próprio desenvolvimento.
Não estamos bem no relacionamento actual com as antigas províncias ultramarinas? Estamos, mas, nessas circunstâncias, seria outra coisa!...

domingo, 25 de abril de 2010

REVOLTA


Que revolta
desconsolo
ansiedade
bem queria dar a volta
e ir até ao miolo
da minha obscuridade

Verdade
mistérios
respostas claras
estou pleno de vontade
que me mostrem factos sérios
sem inventos e sem taras

A suceder
a dar-se
ter fé como crentes
não terei o que temer
que usar qualquer disfarce
para me mostrar às gentes

Séculos passados
dois mil anos foram
sem provar
nem fanáticos nem letrados
nem aqueles que tanto oram
no que eu quero acreditar

Ter fé é preciso
querer saber
respostas das questões
terei de perder o siso
basta entregar-me ao crer
sem pôr quaisquer condições

Triste ignorância
querer aprender
com independência
só me restará a ânsia
de ir sem satisfazer
tão grande impaciência

Sacanices
e invejas
grandes perseguições
um mundo de aldrabices
só beatas nas igrejas
o perdão com confissões

É o céu
e o inferno
bondade e Satanás
desconfiam do ateu
e até o próprio Governo
sem fazer a marcha atrás

Ser sério,
honesto
frontal
não aceitar o mistério
há que não dar o pretexto
de sem saber dizer mal

Será assim
vida fora
sempre igual
pergunto à volta e a mim
mas não sei aonde mora
quem me dê algum sinal

Por isso
contrariado
temente
fechado no meu ouriço
sem fé e amargurado
não sinto o que outrem sente

No Além
fora do mundo
ali
será que haverá alguém
que me faça ver bem fundo
aquilo que nunca vi ?

25 DE ABRIL


ESTA DATA tem de marcar, todos os anos, uma mudança que deveria ter sido radical, em 1974, na vida de Portugal e dos portugueses. Sem ser necessário historiar o que é conhecido de todos, sobretudo os que viveram já crescidos o acontecimento na altura, mesmo assim, por se tratar do fim de um período excessivamente longo de uma ditadura e termos entrado, embora com defeitos, naquilo que se considerou então como ser uma época de Liberdade, sem recorrer a esse particular histórico basta que, nesta altura a que chegámos, façamos um balanço da vida que foi proporcionada aos portugueses. E, especialmente aqueles que viveram o antes, e com profissões como a minha, melhor satisfação tiveram de sentir na referida data memorável.
Mas não nos fica mal se reconhecermos que a Democracia bem executada, como a que já é um procedimento normal de alguns países onde esse regime tem alguns anos de prática – como a Grã Bretanha, por exemplo, que já leva mais de 300 anos de regime democrático -, essa experiência ainda não chegou ao nosso Rectângulo, sobretudo quando se sabe que são necessárias várias gerações para que, com a maior naturalidade, desde a infância, os habitantes não façam qualquer esforço para utilizar os meios que são fundamentais para que um regime desse tipo seja praticado.
Por isso, com enorme frequência se assiste a atitudes dos nossos nacionais, em que se incluem, obviamente, os políticos portugueses, as quais trazem ainda uma dose pesada de comportamentos herdados do passado de antes da Revolução. Ninguém consegue seguir naturalmente as regras praticadas nos países de regime democrático, pois são necessários muitos anos de aplicação antes de aceder sem pensar aos novos procedimentos, em particular esse, tão importante, de não interferirmos nas opiniões de cada um que nos rodeia.
E é por isso que, neste blogue, em mais de uma ocasião tenho proclamado a ideia de, tal como o José Sócrates foi tão entusiasta com os computadores Magalhães e com o ensino do inglês, o que também deveria passar a existir – e digo eu, com prioridade – tem de ser, nos primeiros anos da escola primária, que o ensino da prática democrática, incutindo nos mais jovens o espírito da humildade e da ânsia de ouvir dos outros alguma coisa que enriqueça os seus conhecimentos, deve aplicar-se.
Isso de dizer, como se ouve constantemente os deputados afirmarem com arrogância, que “não recebem lições de Democracia de ninguém”, essa demonstração de um fundo totalitário é que deveria desaparecer radicalmente, sobretudo dos mais responsáveis da política portuguesa. Aprender a ser democrata é uma experiência de que todos os portugueses necessitam, a começar, obviamente, pelos que não se devem nunca desviar de tal uso.
Esta comemoração, mais uma, da data fundamental do nosso novo regime político, não deveria servir apenas para deixar no calendário a marcação de um feriado e para no Parlamento se ouvirem os discursos habituais de circunstância que não adiantam nem atrasam aquilo que se passa em Portugal. Se existisse bom senso neste País e sobretudo consciência daquilo que é mais importante e separando isso do que é supérfluo, meter-se-ia indubitavelmente a mão na consciência e far-se-ia um exame dos múltiplos erros que se têm cometido ao longo destas três décadas.
Mas isso, para a nossa maneira de ser, é um acto de que não precisamos! Não cometemos asneiras, tudo é feito com total conhecimento dos nossos actos, que consideramos os melhores e não precisamos de saber mais! É essa a convicção mais corrente que reina entre nós todos. E só nos insurgimos contra o mal que os outros praticam, ignorando aquele que é da nossa própria autoria.
Não é que o José Sócrates não mereça todas as críticas que lhe são feitas, pois um primeiro governante deste Portugal tão sofredor não pode escapar aos “insurgimentos” que a população lhe dedica, sobretudo quando tantas asneiras saem da sua actuação. Mas também devemos observar bem aquilo com que a população nacional mais se encanta. Porque trabalhar com sentido da obrigação que nos cabe, sermos conscientes de que há que produzir o mais possível para podermos ter excedentes para exportar, não perdermos tempo com conversas no meio das nossas actividades, como se vê permanentemente, sobretudo quando se encontram mais de dois trabalhadores em actuação, se formos cumpridores dos nossos deveres, entrando e saindo a horas e não arranjando sempre desculpas para faltarmos às nossas obrigações, se isso suceder com naturalidade, então temos todo o direito de fazer as críticas aos outros, nem que seja ao Sócrates, que, por sinal, se anda agora a dedicar exclusivamente às inaugurações de acontecimentos sem o mínimo de valor, provavelmente para ocultar aquilo que seria importante fazer.
É que, se estamos como estamos, não é por acaso e bem podemos sair para a rua de bandeirinhas na mão a cantar louvores ao 25 de Abril, que só com isso não vamos a lado nenhum… E é aqui que reside a explicação por que digo, logo no início deste texto, que a mudança com o 25 de Abril “deveria ter sido radical” em relação a deixarmos ficar para trás todo o comportamento de tipo ditatorial. Será só por não ter havido tempo suficiente para tal?

sábado, 24 de abril de 2010

A ESFERA



Fala-se aí do futuro
do que vai p’ralém do muro
daquilo que não se vê
que hoje não está â mercê.
Daqui a mil anos, pois
do mundo nesse depois
bem se pode imaginar
e tudo fantasiar

Que o Homem, suponhamos
perdeu todos os seus ramos
desapareceu da Terra
a sua mão já não erra
e outros seres ficaram
e até se multiplicaram
libertos do ser humano
e de todo o seu dano

Ao deixar de haver humanos
desapareciam planos
aquilo que fosse, seria
com toda a assimetria
da força da Natureza
seria então a beleza
a nascer por sua conta
sem a mais plena afronta
de quem se julga melhor
e se arma em patrão-mor
de tudo à sua volta
causando a maior revolta
na Natureza calada
sujeita à mão desvairada
de quem de tudo é dono
e se arvorou colono
da Esfera terrestre, enfim
fazendo disso um festim

Quando o Homem for, em suma
o resto de coisa nenhuma
lembrança arqueológica
em que já não conta a lógica
talvez outra espécie venha
diferente, mas que tenha
um espírito melhor
eu seja mais consciente
que traga sempre na mente
defender tudo o que é belo
tratar com grande desvelo
aquilo que é natural
animal e vegetal
na terra como no mar
consumir sem desgastar
conservar o mais possível
mas sem chegar ao horrível
de extinguir o que existe
tornando a vida tão triste
já com tantas raridades
frutos das barbaridades
do Homem tão egoísta
e mais que o Papa, papista
quem vier em seu lugar
que aprenda com todo o mal
que quem estava deixou
e a tristeza cavou.

Esta é uma esperança
de quem crê que a herança
que os terrestres vão deixar
a quem tomar seu lugar
daqui a milhares de anos
já com distintos fulanos
com outra mentalidade
e plenos de puridade
aproveitando a ciência
mas usando-a com prudência
p’ra manter o Natural
entre Homem e animal
entre Homem e plantas
e muitas mais coisas, tantas.

Sim senhor, é optimismo
num futuro bem distante
pode chamar-se ateísmo
nenhum deus disse quejante
mas como este mundo está
a cair no precipício
o Homem já não vai lá
já nem vale o sacrifício

A Terra no infinito
ficará p’ra sempre à espera
venham outros com seu fito
dar à Esfera outra quimera

GRANDES DÍVIDAS


SABIDO QUE é que a leitura da sentença do julgamento final do tristemente célebre processo Casa Pia, já está marcada, para 9 de Julho que aí vem, respira-se de alívio pelos mais de 5 anos decorridos desde que começou toda a série já classificada como uma horrível telenovela com o desfecho ainda por ser conhecido. Não adianto, como é natural, se serão ou não castigados e com justiça adequada os intervenientes em toda a pouca vergonha que, nos tempos que correm, se considera como normal, pois até os membros da Igreja católica e alguns políticos de renome de todo o mundo têm sido apontados como também actores dessas malvadezas. Este o panorama que se vive nos tempos que correm, se bem que, como é historicamente sabido, já nos tempos recuados da Grécia e da Roma de então, essas práticas e outras teriam lugar. E os homossexuais também apontam essas origens para amenizar o que está agora na moda não esconder.
De facto, se nos entregarmos à análise dos problemas de enorme gravidade para os Homens dos nossos dias (e refiro-me ao caso português, que é o que mais nos interessa), tais situações passam para segundo plano, pelo menos ao nível da Justiça que temos por cá. E, às revoadas, vão aparecendo à superfície os casos que fazem esquecer os que ficam soterrados pelas novidades.
Tem primazia, por agora, a situação das contrapartidas na compra de pouco bom senso dos submarinos, pois que até aí se está agora a concluir que houve uma sobrevalorização do montante real que deveria figurar no contrato de compra aos alemães – uma autêntica trapalhada que deveria levar a julgamento quem interveio na operação, de cima abaixo -, mas daí se parte também para muitas dúvidas que pairam sobre outros contratos de compra de material militar, como os helicópteros e actividades de assistência indispensável, o que demonstra serem muito obscuras as operações que resultam de tais aquisições que, a partir do elemento mais graduado do Ministério, deveriam ser minuciosamente observadas por elementos da Polícia, pois que se trata, segundo se admite, de maquiavélicas acções de “dinheiro ao bolso”. Só que, quem poderá saber alguma coisa sobre tamanha embrulhada, não dá mostras de querer colaborar para que o nosso País, tão envolto em dívidas externas e internas, possa, no mínimo, recuperar alguma coisa do que constitui um encargo de grande dimensão.
Mas é apenas o Estado que tem sobre as costas enormes dÍvidas que não sabe como liquidar? Pelos vistos, até grandes empresas nacionais se vêem em palpos de aranha para solver os seus compromissos. A Sonae, por exemplo, tida como uma bem administrada sociedade de que é o patrão mor Belmiro de Azevedo, trouxe a público a notícia de que deve 1,2 milhões de euros a fornecedores, sendo que parte do referido montante ter transitado do ano anterior. Seguramente que esta holding sabe como resolver os problemas próprios, mas este caso só serve para provar que todo o País se encontra numa fase difícil. Por isso não admira que a TAP tenha declarado um prejuízo, referente a 2009, de 12 milhões de euros, o que, pelos vistos, este ano aumentará, agora com a ajuda da paralisação recente motivada pelo vulcão da Islândia.
Valha-nos a tal esperança a que os portugueses, desde D. Afonso Henriques, se agarram com unhas e dentes. Oxalá a Comunidade Europeia, se ela já estiver mais operacional e unida quando dela precisarmos, puder deitar-nos uma mão se for caso disso.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

À ESPERA


Aqui estou eu à frente do papel
à espera que a inspiração me chegue
olhando para a rua a ver passar
aqueles que não olham para a folha
em branco à espera de estar cheio
de letras, de palavras e de versos

Serão felizes esses que não puxam
por um génio que não lhes faz falta?
Quem sabe se não seria melhor
conhecer tudo sobre o futebol
preocupar-me só com o meu clube
e andar em dia com o jet-set?

Se fosse assim, poemas não fazia
e descansava quem viesse a ler
todos os versos livres e bem livres
porque de rima mesmo nada têm
e a cadência é o que lhes resta
mas mesmo assim encheram o papel

QUEREMOS TRABALHO!...


O DESEMPREGO em Portugal não pára de aumentar e os governantes, apesar de muitas promessas, não dão mostras de saber como inverter a situação. O número oficial já ultrapassa os 600 mil, mas a realidade ainda será pior, pois existe gente que não encontra trabalho e que, apesar disso, não recorreu ainda aos serviços montados para efectuar os seus registos. Trata-se, sem dúvida, de um perigoso elemento que pode alterar os comportamentos dos cidadãos atingidos, quer por via directa quer por influência de casos em redor.
As razões deste flagelo são conhecidas, pois que as empresas que ainda poderiam atrever-se a receber novo colaboradores, em face da crise que envolve todo o País não se arriscam a garantir por tempo indefinido a manutenção de empregados acabados de admitir.
No entanto, como costuma dizer o povo, quem não tem cão caça com gato ou, por outras palavras, em caso de extrema necessidade as regras têm de ser ultrapassadas. E, se é certo que os trabalhadores necessitam de ter os seus os seus lugares minimamente assegurados, não podendo ser despedidos sem razões que a lei admite, na situação actual e para se tentar pôr cobro à onda de desemprego que grassa pelo nosso Portugal, o que é forçoso encarar é se não será preferível a quem está desempregado conseguir ter actividade e remuneração, ainda que seja sem garantia de permanecer toda a vida no mesmo local, do que ver passar os meses e até os anos à busca de ocupação e, por outro lado, ter também o Estado que suportar o subsídio que é atribuído em tais circunstâncias. E são muitos milhões de euros que são gastos.
É bem sabido que, nos Estados Unidos da América, desde sempre que não se verifica essa norma de não poderem as empresas mudar de funcionários sempre que as circunstâncias o impõem. E o resultado que sempre se verificou, evidentemente quando a tal crise ainda não se tinha instalado, foi o de que os patrões, perante os seus funcionários cumpridores e úteis nas funções que desempenhavam, não desejavam perder a sua colaboração e até os compensavam com sucessivas melhores condições para os ir mantendo. Hoje, naturalmente não ocorre isso, posto que as baixas de vendas e as reduções necessárias de trabalhadores em cada local que sofre prejuízos obriga a que outros cuidados façam criar também lá o desemprego. Mas os tempos, espera-se, mudarão. E a normalidade que Obama parece estar a proporcionar talvez já não tarde assim tanto a ser presenciada.
Agora, no que se refere a Portugal, mesmo indo este texto levantar alguma celeuma, sobretudo junto dos sindicalistas inveterados, dos promotores das greves sejam quais forem as consequências para a economia, assim mesmo atrevo-me a apresentar esta sugestão que, obviamente, na fase em que ainda estamos não será atendida por ninguém… excepto pelos 600 mil desocupados com que deparamos a cada passo.
Se fosse aberta, por um período estabelecido, a possibilidade de, apenas nas situações novas – e é forçoso reforçar este princípio - não ser necessário fazer contratos a prazo, podendo os empregadores passar a admitir colaboradores por tempo não estabelecido contratualmente, a pergunta que faço é se essa medida não iria provocar um certo arrojo em todas as empresas no sentido de não terem receio de aumentar os seus quadros que, depois e perante a actuação positiva desses admitidos, poderia resultar em emprego seguro.
Mas se há quem prefira manter o panorama da paralisação, em vez de serem tomadas medidas que, por muito pouco seguras que sejam, sempre dará ocasião a que os que andam por aí a roçar-se pelas parede possam usufruir de um salário… enquanto dura, se é isso que os portugueses que se encontram à frente das organizações sindicais e aí têm os seus ordenados garantidos preferem, então que assumam a responsabilidade dos seus actos. E, quanto aos governantes, se não têm coragem para propor esta medida provisória à Assembleia da República, pois que dêem a cara e suportem as consequências.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

D. QUIXOTE DE LA MANCHA


Viver sonhando, cavaleiro andante,
fidalgo adormecido com leituras
acompanhado por seu ajudante
Sancho Panza, o homem das gorduras
foi pela pena de Miguel Cervantes
que nasceu Don Quixote de la Mancha
uma obra das mais extravagantes
que nos livros provocou avalancha.
Limpou armas velhas de antepassados
estudou nome para o seu cavalo
pôs nisso todos os melhores cuidados
passou a ser mais um fiel vassalo
Rocinante se veio a chamar
embora belo exemplar não fosse
também de princesa veio precisar
uma donzela com um fundo doce
e a uma moça de bom parecer
que pouco conheceu o cavaleiro
crendo que seria sua mulher
e que daria força ao guerreiro
Dulcinea de seu nome criou
e sem mais esperas, de corpo inteiro
os seus trajos de guerra enfiou
com os cuidados de homem solteiro
colocou a espada e a lança na mão
e sem ter de dar contas a ninguém
montando Rocinante com paixão
partiu por aqueles campos além.

São longas histórias do trajecto
com dormidas em casebres bem pobres
imaginando-se sob bom tecto
e crendo comer à mesa dos nobres
falando a sós com muitas fantasias
procurando os moinhos de vento
quais gigantes que eram manias
mais do que isso eram tormento
pois que as suas velas que giravam
eram para Quixote braços compridos
que aos cavaleiros ameaçavam
com seus rodopios e seus grunhidos
o escudeiro Sancho Panza, coitado,
bem procurava o amo acordar
pois não seria um qualquer malvado
mas apenas moinho em seu rodar.
E também em suas mulas dois frades
foram alvo do sonho de Quixote
que picou Rocinante com vontades
de dar aos dois monges um chifarote.
Vinham de preto duas criaturas
pareceram a Quixote malvados
sendo autores das mais negras loucuras
merecendo assim ser castigados.
Teve o escudeiro de acudir
mas mesmo assim acabou tudo mal
pois não foi nada fácil conseguir
convencer que era gente de moral
pelo que Quixote clamou aos gritos
por Dulcinea, flor da formosura
para que o salvasse dos atritos
a si mesmo, o da boa figura.
De tudo que ao fidalgo sucedeu
engenhoso de tristes aventuras
não se daria com qualquer plebeu
por maiores que fossem as bravuras.
Mas aos famosos também o fim chega
p’ra D. Quixote não houve perdão
e o Céu não lhe deu nenhuma achega
dando como finda sua missão
morreu rodeado de alguns amigos
de Sancho Panza e do seu barbeiro
e de outros que correram perigos
sofrendo alguns enganos do guerreiro
a todos confessou naquela hora
no mais belo e puro castelhano
pois devia afirmá-lo sem demora
que o seu nome era Alfonso Quijano
e D. Quixote já não se chamava
odiava histórias profanas
assim como uma atitude brava
com antigas manias espartanas.

Esta a confissão de Miguel Cervantes
depois do seu belo livro terminar
não era possível fazê-lo antes
mas foi uma atitude exemplar

CORAGEM DE CAVACO


CONFESSO que a minha reacção foi de não me incomodar excessivamente com o caso que ocorreu durante a visita de Cavaco Silva a Praga. Considerei a situação como uma excessiva má educação de um chefe de Estado de um País que o nosso Presidente visitava e não me preocupei em ir mais longe. Mas as coisas evoluíram, pelo menos por cá. Alguns cronistas de jornais não esconderam a sua fúria em relação, sobretudo, ao facto do nosso Presidente não ter sido capaz de reagir a uma má actuação de Vaclav Klaus, o “dono da casa” que recebia uma visita portuguesa. E aí, reflecti melhor e achei que deveria expressar também a minha opinião. Não podia ficar indiferente.
Enfim, no que diz respeito ao checo que entendeu dar ares de grande pregador, provavelmente por não ter perdido ainda o que constituiu um hábito naquelas áreas, no antigamente em que havia um que mandava e todos os outros obedeciam, com a imagem do Stalin ainda presente no seu espírito e querendo imitar também o novo ditador da Venezuela, no que se refere a um Vaclav fora de moda europeia não me apetece sequer fazer um comentário. Nem importa sequer avaliar se o que ele disse pode ou não corresponder a uma eventual realidade. O que sim tenho de deplorar é que o representante máximo de Portugal que se encontrava como convidado do “mestre-escola” praguiano, ao escutar a tradução simultânea das opiniões expressas pelo anfitrião não tivesse sido capaz de mostrar que não podemos admitir que, naquelas condições, tivéssemos de receber avisos e ensinamentos de alguém que não tinha o direito de se expressar naqueles termos.
Cada um de nós, português, pode e talvez até deva advertir de que o caminho que levamos não será o mais indicado para nos conseguirmos libertar de uma situação que nos pode conduzir a uma saída dramática, seja ela parecida ou não com a que a Grécia enfrenta hoje. Eu, aqui neste blogue, não escondo a preocupação com que vivo de, se não optarmos por outra via diferente da que o Governo de Sócrates segue, podermos vir a acordar um dia destes com a banca rota a bater-nos à porta. E faço os possíveis para advertir quem me lê que a nossa obrigação como cidadãos é a de tudo fazermos para colaborar das formas que nos forem possíveis para participar na salvação que depender ainda dos concidadãos. Uma delas, por exemplo, é a de não aderirmos a qualquer tipo de greves que façam paralisar por mais pequena que seja a máquina que contribua para enriquecer o nosso património. E que, também com o mesmo espírito, procuremos utilizar apenas produtos nacionais, para evitar os gastos com as importações. Mas tudo isso são comentários tidos dentro da nossa casa…
Agora, que venha um fulano qualquer, estrangeiro, e ainda por cima aproveitando-se da visita que lhe é feita por um nosso representante oficial, a “ralhar” connosco e a prevenir-nos de que estamos perto do que ocorre com a Grécia, pelo que devemos tomar medidas que façam baixar o nosso défice, por muita verdade que isso seja, ninguém fica satisfeito por ver o nosso Presidente da República engolir em seco, fazer um risinho amarelo e não responder como merecia quem teve um comportamento de tão baixo nível.
Quando o rei de Espanha respondeu ao homem da Venezuela “por que no te callas?”, ficou bem gravada na cabeça de todo o mundo que os espanhóis não se rebaixam, por muito mal que lhes corram as coisas. Era a altura de mostrar que também nós, por muito pequeno que seja este rectângulo, não nos submetemos a más criações de outros, nem que sejam os que estiveram um largo número de anos sob a alçada da então União Soviética, engoliram em seco e fizeram tudo que eles mandaram!...
Não sei se esta falta de coragem de Cavaco Silva não pesará na altura do povo se deslocar às urnas para deitar o seu voto para escolher se haverá reeleição ou se preferirá um Presidente novo. Nunca se sabe!...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

AGONIA


Os meus poemas são feitos com esforço
para lá mesmo do que posso
e insisto
e persisto
e quero convencer-me
que vale a pena.
É uma pena !
Não leiam, não,
faço questão
são um desastre.
Mas vou escrevendo
lá vou fazendo
e, se possível, com certa rima
que se aproxima
da perfeição
que é p’ra agradar
ao paladar
de quem os sabe saborear
devagar
p’ra não ter indigestão

Assim lá saem
maduros caem
triste figura
pobre do homem que não resiste
e que insiste
nesta falsura
de ser poeta
que é uma treta
digo eu, não sei,
se houvesse lei
que dominasse
e não deixasse
ser poeta quem não pode sê-lo
não estaria aqui a escrevê-lo,
e a lê-lo.

Poupava-os a este flagelo
Será que isso de ser poeta, cabe em mim?
Por fim !
Ou sou eu quem não cabe na poesia?
Que agonia !

VULCÕES



NINGUÉM PODE DIZER o contrário, de que eu não sou um crítico persistente em relação ao comportamento generalizado do ser humano, acusando-o de ser o causador principal dos acontecimentos que mais inconvenientes provocam no ambiente mundial. E, por ambiente, não me limito ao ar que se respira ou a todos os prejuízos que são provocados pela acção do Homem. Vou mais longe porque, como é bem sabido, muitos factores têm influência nas condições de vida de todos os habitantes terrestres, como sejam as guerras e guerrilhas que se criam em diferentes zonas do Globo, as agora tão frequentes acções com origem nos grupos que, não constituindo países, nem por isso deixam de causar enormes danos, como são os denominados terroristas ou com outras designações de iguala significado.
O tão falado aquecimento global, com origem, como é sabido, no excesso de utilização de combustíveis com origem no petróleo, o qual não se conseguiu ainda ser limitado, apesar da Cimeira de Copenhaga, pois acabou num fracasso quanto a um acordo generalizado, aguarda ainda por mais reuniões dos principais responsáveis para poder vir a ser enfrentado como uma necessidade imperiosa se queremos, na nossa Esfera, conseguir uma vivência mais adequada às nossas necessidades.
E, para não falar já da bomba atómica que, encontrando-se também nas mãos de pequenas Nações que não prestam a garantia de resguardar o seu uso só para fins pacíficos, essa arma destruidora constitui uma ameaça que paira sobre as nossas cabeças e ninguém está em condições de garantir que não acontecerá um dia o desastre nuclear cujos efeitos são incalculavelmente de enorme destruição (a propósito, a peça de teatro de minha autoria, com o título “E a Terra, indiferente, continua rodando”, foca este tema do fim do mundo e algum dia aparecerá ao público).
Pois é agora que cabe a alusão ao caos provocado pelos efeitos do vulcão que, na Islândia, desencadeou uma catástrofe provocada pelas cinzas que se espalharam por uma larga mancha na Europa, o que deu ocasião a que, cerca de 7 milhões de passageiros de carreiras aéreas, tivessem ficado retidos nos países de onde iriam partir para outros destinos, no que foram impedidos devido a dezenas de aeroportos terem sido obrigados a encerrar os seus movimentos. E foi praticamente uma semana que obrigou tanta gente foi obrigada a alterar as suas vidas, com os prejuízos muito avultados que tal representou.
Quer dizer, portanto, que a Natureza entendeu, uma vez mais e agora através desta forma de agressão, intrometer-se na actuação dos seres humanos, podendo-se portanto tomar consciência de que alguma existe que tem mais força do que a acção do Homem, por muito que se julgue ser o único senhor das decisões terrestres, tem de estar atento a situações que não dependem da sua vontade.
O que ocorreu recentemente em diferentes partes do Mundo, no Haiti, na Madeira e antes em outras zonas com os tsunamis, os ciclones, as inundações, os maremotos, os tremores de terra e os próprios terramotos, tudo isso são acções decorrentes de “atitudes” tomadas pela Mãe Natureza e aí o Homem não tem mais que procurar o remédio para atender às vítimas humanas que não têm a quem reclamar os efeitos dos acontecimentos.
Talvez seja caso para começarmos a pensar seriamente se se justificam as questiúnculas que se “armam” permanentemente, se todas essas invejas, preconceitos e egoísmos com que se depara no dia-a-dia por parte dos habitantes do nosso Globo. Pensemos bem nisso!

terça-feira, 20 de abril de 2010

QUANTOS




Não é fácil ir contando
o que na vida fizemos
e se vai avolumando
e chega a atingir extremos

Daquilo que desistimos
os erros que cometemos
até o que conseguimos
e aquilo que não demos

Felicidade perdida
quantos amigos morreram
o que ficou nesta vida

Quanto outros perderam
por falta de acolhida
que de nós não receberam

NÃO APRENDEMOS!


NA VERDADE já não se pode. A paciência tem limites. É que, neste País, os acontecimentos que se sucedem vão dando mostras de que não conseguimos, nós portugueses, quer sejamos elementos situados no poder ou estejamos a fazer parte da população geral, não somos capazes de ter a cabeça bem colocada no seu lugar e, especialmente numa altura em que temos para enfrentar situações bem difíceis que ninguém sabe se conseguiremos levar a bom porto, desperdiçamos toda a nossa capacidade em acções que não constituem a menor valia para lá chegarmos. E temos o ano de 2013 como limite imposto pelo PEC.
Na área da governação já nem é preciso pôr mais na carta. Quem lá está parece ter esgotado todas as medidas que nos podem levar a concluir que Portugal conseguirá ultrapassar a situação a que o fizeram chegar. Cada dia que passa é maior o número de especialistas em economia que asseveram que não seremos capazes de fugir de uma situação em tudo semelhante à que a Grécia já defronta.
Já há bastante tempo que, neste blogue, tenho vindo a lançar o aviso de que se impunha avançar com resoluções que ainda fossem a tempo de podermos escapar do pior. Mas não estive e cada vez estou menos isolado. Foram crescendo as intervenções que, sobretudo aos espectadores das várias estações de televisão, avisavam que o perigo estava à espreita. Apesar disso, nesta altura ainda há quem mantenha a esperança de que sairemos incólumes do desastre!
Será por isso que, especialmente por parte de algumas organizações sindicais, não param as reivindicações, sobretudo reclamando maiores salários, que, embora nalguns casos com justificação, na maioria das situações não olham às dificuldades que se atravessam e exigem o que parece impossível de conseguir. Por agora.
O que se passa com os professores, por exemplo, por muito que sejam aceitáveis as exigências que vão fazendo, será altura de fazer ver a essa camada populacional, sem dúvida com capacidade para avaliar concretamente como nos encontramos, que não podem continuar a ser conduzidos por elementos que, sendo sempre os mesmos, os estão a envolver numa onde de opinião pública que não se pode considerar benéfica para quem tem a seu cargo o ensino das diferentes classes de alunos.
Há que dizer que é preciso dar uma trégua a tais posições extremas. Já chega de greves e de manifestações de rua. E até a imagem que se dá lá fora, em que o nosso estatuto de Nação europeia se fica a assemelhar a outros países em que o bom comportamento cívico não faz parte das suas preocupações.
Era de supor que a FENPROF, sempre com Mário Moreira à frente das disputas – o que faz com que se levante a questão de saber se esse sindicalista não terá uma profissão que lhe garanta o ordenado mensal -, entendesse não basta ter razão (se é que a tem) para se criarem as movimentações que, nesta altura, repito, nesta altura, são completamente descabidas.
E o ter o sindicalista Carvalho da Silva aparecido a clamar que a diminuição claramente necessária do elevado número de funcionários públicos provoca uma diminuição de eficiência de serviços na Administração, essa teoria só podia partir de quem, tendo a sua remuneração garantida pelo ordenado que lhe paga a CGTP, não se incomoda muito em tomar consciência de que se encontra cada vez mais perto o momento em que o Estado não só não terá dinheiro para pagar os salários dos seus funcionários, pois o grande risco é que venha a ser muito mais profunda a carência.
Podem todos os Carvalhos da Silva deste País andar convencidos de que têm a solução para o problema em que nos encontramos envolvidos. Mas olhem para a Grécia!...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A CHUVA



A chuva molha a cidade
Fica mais triste, escurece
É duro, mas é verdade
É assim, quando aparece

Tocada a vento, então,
Mais agreste fica ainda
Nela o Homem não tem mão
Mas por vezes é bem vinda

Sim, há gente que a deseja
Que tanto implora por ela
É o pão da sua boca

Ela é sua benfazeja
Desponta como uma estrela
Toda a chuva será pouca