quinta-feira, 3 de junho de 2010

MEMÓRIA

Tanta falta que ela faz
quando a ela recorremos
e se ela se compraz
não mostra o que queremos

É assim a tal memória
faz-nos sofrer com desgraças
recordar-nos cada história
que nem vê-la com mordaças

Certos nomes, certas caras
que precisamos lembrar
são situações bem claras
que a memória faz passar

Coisas passadas há anos
que os tempos já tinham posto
no fundo dos oceanos
não nos causam o desgosto

Mas ocorrências de há pouco
essas de que ‘inda paira o cheiro
deixam-nos como um bacoco
ardeu tudo num fumeiro

Pois a memória é assim
muitas vezes nos ajuda
compensa a dizer que sim
quando não teima em ser muda

Queixamo-nos muitas vezes
da falta que ela nos faz
então a nós portugueses
muita arrelia nos traz

Memórias da ditadura
é coisa que ninguém quer
é matéria muito dura
não é algo de prazer

Mas recordar coisas belas
bons momentos já passados
é como acender as velas
em honra de seres amados

Temo-nos que conformar
com as lembranças melhores
que já não querem voltar
a fazer seus favores

Memórias más nem pensar
mas são essas as que chegam
só dão para enfadar
e nos aconchegam

Se no botão eu pudesse
escolher o que me apraz
talvez nunca eu fizesse
olhar sempre para trás

Memória que até dá jeito
para lembrar os favores
que me trouxeram proveito
no que conta a desamores
então já não acho graça
mais vale não ter memória
que isso de mulheraça
é tema p’ra outra história

MEMÓRIA




Que coisa preciosa é a capacidade que cada um tem de conservar na memória imagens, ideias, frase, acontecimentos que, quando a ocasião se proporciona, voltam a surgir na nossa imaginação.
É, de facto, agradável reter no subconsciente aqueles momentos que nos deram satisfação. Tenham eles ocorrido recentemente ou sejam recordações mais remotas, até da nossa distante infância.
Eu memorizo, com frequência, a minha situação quando entrei para a primeira classe na escola da D. Beatriz., sentado num banquinho comprado pelos meus pais e colocado logo à frente da aula e em que guardava um respeito e um comportamento respeitoso que eram impostos naquela altura à rapaziada que passava a frequentar as escolas.
E, se bem que a palmatória, tão em uso nessa época, constituísse o pavor maior, mesmo assim a minha memória fixa-se nesse momento. E não é com desconsolo ou com azedume que a minha memória funciona com tal recordação. Pelo contrário, tenho saudades de tal período e da imagem da professora.
Porém, as memórias também pregam partidas. Sem constituir o nosso desejo, algumas vezes nos conduzem a situações que bem desejaríamos que fossem esquecidas. Mas a nossa vontade não é suficiente para arredar da cabeça o que aparece sem pedir licença.
Também mantemos no registo muita aprendizagem que se fixou por necessidade de a repetir nos tempos de estudo, por exemplo enunciar as preposições, tal como na minha época se tinham que repetir de cor os nomes dos rios portugueses e seus afluentes, e ainda hoje, sem ser necessário dar mostras dessa sapiência, nos saem da boca várias dessas memorizações antes impostas. De facto, esse saber não incomoda nada e tudo indica que o que hoje se aprende é menos do que nas quatro classes iniciais dos estudos na infância dos hoje bastante seniores.
Seja como for, a memória é um bem de que o Homem saudável dispõe e quando, por razões de enfermidade, se perde tão agradável recôndito, nessa altura é que se dá conta da falta que faz chamar à cena o que só nós, os proprietários das lembranças, perdemos.
Mas, sejamos também justos. Há ocasiões em que a falha de memória nos é útil. Sendo autêntica, não há outro remédio que não seja declará-lo com honestidade. Mas também serve de desculpa para falhas que outras razões provocam. E, nessa altura, o “ai esqueci-me!” serve mesmo de desculpa para aliviar uma falta que tenha sido cometida.
“Esta cabeça!...” é uma frase que se aceita dos mais velhos. Mas aquela cabeça, ainda que com algumas “brancas” que atrapalhem, ou mesmo com a falta de cabelo continua a ser, enquanto se anda por cá, a servir para ocupar os momentos de silêncio, de repouso, de conversação com nós próprios. E esses, nos animais racionais, são situações que merecem a compreensão de todos.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

VELHICE

Que fazes aqui tu velho
sentado neste jardim
aguardas acaso o fim
farto de te veres ao espelho?

Olha que o tempo passado
bom ou mau, seja qual for
deves guardar com amor
e não apartá-lo ao lado

O que viveste foi vida
ninguém t’a pode tirar
o que se pode guardar
é sempre antes da partida

Há quem fosse mais feliz
que a sorte lhe não faltasse
mas talvez a quem amasse
vivesse noutro país

Conforma-te, pois, meu velho
que chorar não vale a pena
se a vida não foi pequena
deixo-te aqui um conselho

IDOSOS


Estive todo o dia sem internet e só agora é que consegui que a Clix me resolvesse o problema. Coisas deste País em que tudo é uma enorme dificuldade.

CADA VEZ me convenço mais de que a idade das pessoas que têm o habito de reflectir e de tentar encontrar respostas aos problema que se apresentam, essa constância tem alguns efeitos e, com naturalidade, surgem soluções e conceitos que demonstram como é valiosa a experiência de vida.
O artigo que Mário Soares publicou ontem no “Diário de Notícias”, em que torna públi8ca a sua opinião quanto aos efeitos que a crise está a causar nos portugueses das classes sociais mais desfavorecidas, nos jovens mas igualmente nos velhos e especialmente nas pessoas com pensões de miséria, na pobreza envergonhada, que é tão merecedora de consideração, e também nos empresários sem sucesso, esse texto não pode deixar de causar o maior sentido de cordialidade por parte dos que, mesmo nunca tendo sido seguidores das acções políticas do Homem que, tendo sido muita coisa de útil no nosso panorama nacional, agora, nos seus 85 anos de idade, não deixa cair os braços e utiliza os meios que ainda possui para lançar alto a sua voz de protesto ou de aplauso.
E é ele que se insurge contra os poderosos que continuam impunes e se atira contra o despesismo do Estado que continua a gozar da impunidade, acusando os poderes públicos de não interferirem no sentido de se pôr termo a uma política que tem conduzido o País ao estado em que se encontra. Quer dizer, Mário Soares, sem papas na língua, aponta o dedo ao Governo, portanto ao secretário-geral do seu Partido, José Sócrates, e não esconde o desapontamento que sente em relação ao resultado obtido pela sua actuação. Não o diz claramente, mas não deixa dúvidas no que se refere ao que pensa.
De igual modo, a si pertence o desacordo em relação ao apoio dado pelo PS à candidatura e Manuel Alegre à Presidência da República, apresentando como razões a esta sua atitude, as exclusivamente pertencentes à área política, pelo que acusa Sócrates de ter cometido um erro grave.
A preocupação que tenho vindo a demonstrar neste meu blogue no que diz respeito à situação cada vez mais derrapante em que se encontra o nosso País, apontando factos concretos e também não deixando de apontar soluções para alguns casos, este meu estado de espírito não se afasta daquilo que Mário Soares está agora a tornar conhecido, mesmo quando, como ele sabe, até aqui tenho-me desviado algumas vezes de certas preferências que o antigo Presidente da República defende. Ou defendeu. Mas, em Democracia, a não concordância total com um parceiro que tem ideias não condizentes com as nossas, não pode significar que, quando coincidimos, mantenhamos uma posição de adversidade, que só serve para não se encontrar nunca um entendimento, logo uma forma de se progredir num objectivo que, esse sim, pode ser comum.O receio a que Soares se refere de não serem de excluir actos de violência semelhantes aos que ocorreram na Grécia, consequência do desagrado popular face à governação que não corresponde à preferência dos habitantes, essa possibilidade já aqui apontei neste meu trabalho diário. E, tal como outras antecipações a acontecimentos que acabaram por suceder, só desejo que me engane no espectáculo desastroso que poderá surgir à cena e de que seremos todos nós, portugueses, a sofrer as consequências. Para além de tudo, pela má impressão que daríamos ao resto do mundo e à Europa que, melhor ou pior, sempre nos poderá deitar uma mão, em caso de extrema necessidade.

terça-feira, 1 de junho de 2010

ESTAFERMOS

Muito amor diz-se eterno
são juras de namorados
ninguém diz que tais amados
mandam juras p’ro inferno

Um bom livro é bom amigo
por muito mau que ele seja
também provoca inveja
se escrever eu não consigo

Ter a certeza é banal
naqueles que pouco sabem
e na dúvida não cabem
dentro do erro fatal

E são sempre os negativos
que nunca dizem que sim
não concordam com o fim
usam mal os adjectivos

Sou daqueles que acredita
que quanto mais estudamos
mais ignorância alcançamos
descobrindo tal desdita

O tempo, tal corredor
sendo até bom conselheiro
acaba por ser coveiro
de tristeza ou grande amor

E quem não quer fazer nada
mas na crítica bem faz
fecha os olhos e zás-trás
desembainha a espada

Oposições aos governos
estão lá mesmo para isso
p’ra prestar um bom serviço
demitir os estafermos

TERRÍVEL DESEMPREGO


SÃO INÚMERAS e bem difíceis de vencer as dificuldades que se apresentam aos portugueses nesta fase específica que atravessamos que, de resto, se acrescentam às que vinham sendo suportadas em épocas anteriores e que, também tem de ser expressado, desde que este País existe nunca deixaram de existir, pois a nossa História é bem explícita quanto ao facto de a maioria dos cidadãos lusitanos nunca terem beneficiado de uma vida que lhes fosse facilitada.
Mas teve de nos calhar a nós, neste século XXI, o vir a sofrer as consequências de uma crise mundial e a circunstância de nos ter calhado um Governo que não foi capaz de encontrar formas de prevenir Portugal contra o pior que lhe podia suceder, mesmo tendo tipo tempo para nos poupar ao pior, já que, obviamente, da totalidade das penas isso não o iria alcançar.
Mas, tudo isto está dito. Não interessa já andar a bater sempre no mesmo tema. Não produzimos – agora e sempre -, somos inconscientes em relação às realidades que nos envolvem, não somos dados a sacrifícios e deixamos sempre para os outros o intervirem na solução dos problemas, deixamo-nos levar pelas ondas da sorte e confiamos permanentemente no “eles”, que é como quem diz, no Estado, somos trabalhadores, sim, mas só quando nos encontramos a actuar no estrangeiro, onde se sabe que os mandriões são colocados na rua, pois não existe aí o impedimento de se ser despedido por não cumprimento das obrigações de produzir muito, mas na nossa própria casa usamos todos os esquemas para ludibriar as entidades patronais, especialmente se ela se situa na função pública.
Tudo isso é mais do que conhecido e quem não gosta de tomar conhecimento das características que nos marcam, o que faz é prolongar a existência de defeitos que deveríamos ser nós próprios a tentar eliminá-los.
Mas, com tudo isto, com todo este desfilar de grandes manchas negras que ressaltam das nossas características, o verdadeiramente doloroso é que o pesadelo que nos está a perseguir e que não é conhecida medicina que tenha capacidade para sarar essa doença, tem o nome de desemprego e, de dia para dia, esse número, por muito que algumas estatísticas enganosas venham dizer o contrário, aumenta, ao ponto de nos encontramos agora com cerca de 700 mil portugueses a lutar com a falta de rendimento, logo a sofrer largamente o que se pode já apelidar de miséria, de falta de recursos para fazer frente até para comer.
Quem é que, com este espectáculo pungente, se dispõe a tomar conta do Executivo e a sofrer as consequências das manifestações ameaçadoras, das greves que, mesmo não solucionando nada antes aumentando as carências, se sucedem, na exigência de “melhores condições de trabalho”, das CGTPs todas, para, pelo menos garantir os salários dos seus dirigentes, mas sem apresentar formas de conseguir empregos para os que os desejam? Esta pergunta, embora feita, não obtém contestação. Reclamar, sim. Solucionar, isso ninguém aparece para o fazer.
O desemprego que, em consciência, se apresenta como sendo o maior problema, sobretudo num país em degradação, especialmente porque não são apresentadas perspectivas que apontem caminhar-se para o fim dessa debilidade social, essa catástrofe pode provocar as mais imprevistas alterações de ordem social e até política, com consequências que, como nos tem mostrado também a História em diferentes cenas internacionais, são muitas vezes dramáticas.
Portugal que, no capítulo das revoluções, tem-se comportado, nos seus mais de 800 anos, com um comportamento relativamente calmo, com ausência de sangue, se lhe calhar – oxalá não – deixar-se envolver por uma onda de desempregados que não suportem por mais tempo a sua situação, ninguém pode garantir que não surja uma movimentação que, nesse caso, ainda mais difícil se tornará a procura de uma mudança do panorama.
É duro escrever isto. É verdade. Mas, nós os que exprimimos as nossas opiniões, devemos andar a fingir que não é nada connosco?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

COSTUME

Ao que nos acostumamos
o difícil é mudar
parece bem como estamos
para quê pois variar?
O costume é um vício
nem é preciso pensar
representa benefício
porquê portanto mudar?

O costume da leitura
de comprar no mesmo lado
de não alterar figura
de preferir estar calado
cada um tem seu costume
e às vezes bem estranho
como usar um perfume
que só sai depois do banho

No comer se impõe também
o que nos habituamos
há quem olhe com desdém
pr’aquilo que nós gostamos
cada um e cada qual
tem seu costume de anos
até mesmo num casal
não há comunhão de manos

Quando se perde um costume
sendo hábito antigo
é com algum azedume
como quem perde um amigo
são os outros normalmente
que nos forçam a mudar
pois nunca nasce da gente
um costume afastar

AGRICULTRURA Á PORTUGUESA


CAVACO SILVA, numa das suas visitas ao interior do País, em pleno Alentejo lançou um desafio para que os agricultores portugueses se entregassem com entusiasmo à sua actividade, posto que, no seu entender, a agricultura será uma via de peso de que nos poderemos servir para colocar no estrangeiro os produtos nacionais da terra. E, com isto, parece ter descoberto alguma coisa de que não tínhamos a menor ideia.
Com o respeito que tem de merecer o Supremo Magistrado da Nação, seja ele qual for, aquilo com que deparamos frequentemente é que as mais bem situadas personalidades na hierarquia do Estado andam frequentemente desfasados das realidades portuguesas e, de vez em quando, “descobrem” soluções para os problemas portugueses que, quem não anda distraído e tem alguma vivência no seio do panorama, já conhece há muito tempo.
Falemos então da agricultura nacional. E eu, que especificamente lidei com esta área quando fui director, durante alguns anos, de uma publicação que teve larga difusão nessa zona e que se chamava “o País Agrícola”, estou em condições de poder opinar quanto a um sector que já foi da certa importância no conjunto económico português. É o que vou fazer neste espaço.
Somos um País pequeno, todos sabem, e, por tal motivo, as propriedades destinadas à agricultura também são de tamanho reduzido, com excepção do Alentejo onde, desde tempos remotos, se encontram ainda os chamados grandes proprietários, atendendo às dimensões proporcionais do nosso espaço como Nação. Logo, os restantes habitantes que se dedicam a tal actividade, de Norte a Sul, não são mais do que limitados cultivadores de terras com características de utilizadores de ferramentas não mecanizadas e produtores de pequenas quantidades de géneros que são consumidos em família e o que sobra é posto à venda em mercados relativamente perto.
Lisboa, como consumidora de certo tamanho, recordo que desde os tempos da Praça da Figueira, onde as carroças, vindas das regiões do Oeste, se acumulavam toda a noite, pela rua dos Correeiros fora, à espera da abertura das portas de madrugada para descarregarem os vegetais que ali eram destinados, e, nos dias de hoje, já não utilizando o transporte muar ou com bois mas sim por via motriz, também continua a consumir o que os fornecedores de vegetais vão trazendo.
Só que actualmente, a concorrência com os produtos oriundos do estrangeiro, sobretudo as frutas, obriga a que os preços sejam estabelecidos por essa via e, ao invés, ou seja no que diz respeito a podarmos ser nós a exportar para fora das fronteiras, aí já nos faltam as capacidades para conquistarmos mercados que não estão à mão de semear.
Ora, é aí precisamente que os nossos governantes, os de hoje mas também os de sempre, não sabem nem aprendem as regras que são essenciais para podermos estar à altura de preços e qualidades que interessem os mercados mais longe, mesmo os europeus, mas menos ainda os de outros continentes. Eu, que tive oportunidade de trazer de Israel a possibilidade de nos ensinarem como se conquista o interesse de potenciais compradores estrangeiros de produtos agrícolas, não consegui interessar, na altura, dois ministros sucessivos detentores da respectiva pasta, pois não foram capazes de entender que seria um passos importante se o Governo de então tivesse apadrinhado a proposta.
É que nós, como pequenos agricultores que somos, não temos, a nível individual, capacidade de investimento e de produção suficientes para estudarmos quais os produtos que são susceptíveis de suportar a concorrência do exterior, que características devem ter e que preços é que são susceptíveis de interessar aos potenciais compradores. Só uma instituição que aglutine todo o sector nas múltiplas actividades que vão desde o cultivo e até à recolha e apresentação, é que estará em condições de enfrentar tamanha tarefa. E isso, tal como sucede em Israel – pequeno País que nem terrenos de qualidade possui -, é que seria útil termos colhido os ensinamentos e o apoio técnico, o que não sucedeu na altura a que me referi. Mas, um dia, num espaço mais oportuno, relatarei os acontecimentos que constituem a prova de que, quando não sabemos também não queremos dar mostras da nossa ignorância. E vem sempre aquela frase dos políticos que, a mim, me causa a maior das vergonhas: “não recebemos lições de ninguém!”
Este episódio não é do conhecimento de Cavaco Silva mesmo que, por sinal, o seu pai até tenha sido um dos participantes duma excursão de agricultores que “o País Agrícola” organizou a Israel… E bastante me felicitou pelo facto.

domingo, 30 de maio de 2010

DESCONSOLADO

Aqui estou eu, desconsolado
a ver passar o mundo
à minha volta
sem que nele interfira
sem que o melhore
mas também pouco
o piorando.
Sou mais um
dos milhares de milhões
que por cá andam
a consumir o ar,
a água, o ambiente,
o espaço
e que contribui para que o amanhã
seja muito pior,
mais escasso de tudo,
menos belo,
menos natural.

Aqui estou, enfastiado
já sem me importar
com o que vem a seguir,
com o que vai ser o futuro,
aquele que não me vai encontrar...
para me desconsolar

sábado, 29 de maio de 2010

AFINAL

Ao não estar pronto em seu dia
seja por bem ou por mal
quem procura a harmonia
só persegue o afinal
o mau assim
tem seu fim
porque isso do finalmente
leva tempo a conseguir
não é bem o que se sente
quer a sério ou a fingir

Afinal sempre vieste
é desabafo de amigo
a prova de que quiseste
trocar impressões comigo
se nos vemos
nos entendemos
assim acordo lá chega
e as mãos num bom aperto
põem fim a qualquer pega
afinal está tudo certo

Não era assim afinal
mas sim de outra maneira
é como no prato o sal
se é demais sai asneira
peso e medida
não causa ferida
está escrito no destino
há que ter um ideal
mas quando se perde o tino
não se chega ao afinal

Afinal tão simples era
afinal não custa nada
já chegou a primavera
do ar fresco, uma lufada
que delícia
tal carícia
impossível afinal
há muita coisa na vida
mas copiar tal e qual
faz-se mesmo de fugida

O fim de tudo lá chega
sem se alcançar ideal
vê-se muita gente grega
p’ra pôr o ponto final
o mortal
o fatal
e o que se diz nesse dia
como é regra geral
terminou a agonia
lá se foi o afinal


HÁ MUITO A FAZER!...


QUE ISTO POR CÁ anda verdadeiramente frustrante nem vale a pena repetir. É isso mesmo que eu tenho demonstrado neste meu blogue, ao ponto de me encontrar saturado de bater repetidamente na teimosa tecla. No panorama político, como é natural em Democracia, os detentores do poder e as oposições defendem pontos de vista diferentes, até antagónicos nos extremos, e, sobretudo porque a crise que serve também de enorme escusa não proporciona grandes alternativas. São mais as ameaças do que as posições com efeitos práticos. E a “massa falida”, para chamar-lhe alguma coisa, mantém-se num arrastamento a aguardar que se verifique uma porta de saída que não deixe demasiado mal vistos os contendores. O Presidente da República, com eleições já à vista, também não deseja correr excessivos riscos de ver os potenciais apoiantes mudarem de preferência ou, em derradeira atitude, optarem pelo voto em branco. Daí também, talvez, a sua anuência em relação aos casamentos “gays”, embora sendo nítida a sua opinião contrária.
Quer isto dizer, portanto, que não nos encontramos perante um clima que leve a enfrentar a situação dentro das regras democráticas, ou seja através de uma queda do Executivo, por via de qualquer sistema constitucionalmente aceitável. Também não se descortina a existência de uma frente, militar ou outra, que faça prever uma mudança forçada da situação nacional. De igual modo, perante a exposição externa que, nesta altura, é da maior importância que não dê mostras de fragilidade tanto política como social, já que a económica é do domínio de todos os observadores, para não se perder cada vez mais a possibilidade de recorrermos aos empréstimos do exterior, o mais prudente é mantermos a aparência, pelo menos essa, de que vamos conseguindo sustentar um esquema que, com os pesados apertos fiscais que surgiram agora, poderá conseguir equilibrar as contas públicas.
Por outro lado, ainda que sejam compreensíveis os protestos que se verificam na área laboral portuguesa, tanto as manifestações nas ruas como as greves que são propostas e efectuadas por iniciativa de organizações sindicais, com a CGTP em primeiro plano, todas essas demonstrações de frontalidade não têm outro resultado que não seja contribuir para aumentar a dureza do problema, com incómodos que se traduzem em mais gastos, quer do erário público quer da zona privada. Para não falar na diminuição de produtividade, que é um dos sectores que mais necessita de instigação aos portugueses para contribuírem, o melhor que for possível, para modificar, de forma drástica, o défice de produção que se arrasta há muitos anos no nosso País.
Perante este panorama, que é possível concluir de modo a encontrar uma solução para o drama que nos é apresentado e em que os aumentos, na área da fiscalidade, sobrecarregam cada vez mais os bolsos, já tão vazios, dos contribuintes de baixa valia? Todos os comentadores que, nesta fase, já não escondem o seu pessimismo, ainda que, há relativamente pouco tempo, ou não dessem claramente mostras da situação grave que já se vivia ou até enfileiravam no optimismo criminoso do Governo, esses não conseguem manter os pontos de vista, ditos positivos, e não se retraem quanto a lançar avisos em relação ao que se perfila para fazer sofrer ainda mais os nossos cidadãos.
O tema do corte nas despesas públicas tem sido, finalmente, o que mais salta da boca e da ponta das canetas dos mesmos comentadores. E, alguns deles, foram os críticos que enviaram comentários a este meu blogue, pois os que o lêem sabem que, desde há bastante tempo, clamo por esse via e aponto os items que merecem e mereciam a intervenção dos governantes. Só que, ainda há muita coisa para fazer na referida área. Nem entendo, por isso, o motivo por que José Sócrates, o tal dito homem de convicções fortes e, mesmo praticando a mentira sem complexos, não mete a mão de vez em todos os dispêndios excessivos que fazem empobrecer o já miserável tesouro público. Se é tão valente como quer fazer crer, atire-se de cabeça aos mais ricos, aplique regras que doam os poderosos – sobretudo os que vivem dos dinheiros do Estado – e, só então, embora excessivamente tarde, pois as medidas de poupança deveriam ter começado há cerca de dois anos, poderá dar mostras de que só peca pelo atraso.
Com tantos assessores ao seu serviço, haverá algum que talvez leia este blogue. E, mesmo sem indicar a origem das indicações que tenho aqui registado, siga os que considerar mais úteis.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SEPARAR

Trabalhar são oito horas
e descansar outras oito
tudo tem suas demoras
sem precisar ser afoito

Cada coisa em sua altura
seja de noite ou de dia
até tempo de leitura
transmite certa harmonia

Cada coisa por seu lado
e nada de confusão
a mistura é um enfado

Há que fazer distinção
e ter o maior cuidado
trabalho e descanso não!


ENTREVISTAS E ENTREVISTADORES


ESTE CASO já ocorreu há umas semanas, mas vale a pena voltar a ele. Trata-se do que se passou com o deputado socialista, Ricardo Rodrigues, que, numa entrevista que lhe estava a ser feita por dois jornalistas de uma publicação semanal portuguesa, antes desta terminar se levantou e meteu no bolso dois gravadores dos profissionais de Informação, abandonando o local, por sinal no interior da Assembleia da República, sem atender às reclamações dos entrevistadores. Esse episódio ficou gravado nas câmaras televisivas e, dado ser muito pouco corrente na actividade jornalística tamanho desaforo, deu ocasião a que constituísse um assunto de larga difusão, suscitando duas frentes opostos, os que defenderam o deputado e os que o acusaram fortemente por tal gesto.
Tive ensejo, como outra gente, de ler o conteúdo das perguntas e respostas que deram motivo a Ricardo Rodrigues para ter tido aquele gesto de meter no seu próprio bolso os equipamentos dos inquiridores e sair porta fora. E, como antigo jornalista, com muitos anos de profissão – interrompida, a certa altura, por razões políticas do antes do 25 de Abril, em que fui impedido de continuar a exercer a actividade -, recuperada após a Revolução, vou aqui expressar o meu ponto de vista acerca desta ocorrência que, há que dizê-lo, não deixa nenhuma das partes, entrevistadores e entrevistados, em boa posição.
Devo esclarecer as pessoas de hoje, sobretudo os que nunca tiveram relacionamento com a época que vem desde 1950, altura em que eu entrei na profissão com o nascimento de uma revista que se chamava “Mundo Ilustrado” – haverá pouca gente que se recorde do acontecimento -, que, naquela época, as limitações que eram impostas pela Censura, com o apoio da PIDE, polícia política, que controlava minuciosamente as actuações dos homens da Imprensa, não havia margem para grandes extravasamentos por parte dos que tinham como profissão a difícil arte/ciência do jornalismo. E eu, que tive a oportunidade de seguir instruções de um grande profissional que se chamou Norberto Lopes, aprendi um princípio que nunca abandonei, sobretudo depois da Revolução, em que a Liberdade tinha aberto as portas a um trabalho que só dependia e depende das capacidades de quem dispunha e dispõe de um órgão de Informação para registar as respostas dos entrevistados. E essa regra era e é a de que o jornalista nunca deve expressar uma opinião, por muito que não concorde com as afirmações do entrevistado, reservando-se sempre a pôr as questões e estas baseadas em casos concretos que merecem um esclarecimento por parte de quem se está a ouvir. Sugestões, hipóteses, “ses”, isso não tem de fazer parte do questionário, a menos que esse lado se prontifique a sujeitar-se a um interrogatório do tipo policial que, sobretudo em televisão, não é admissível.
Ora bem, as perguntas que, a certa altura da entrevista, começaram a ser feitas, entraram, verifiquei-o, em áreas melindrosas, as quais dó poderiam ser abordadas com o prévio consentimento do entrevistado e, neste caso, não havia motivo para as não aceitar. Mas, de qualquer forma, mesmo sucedendo que as questões não agradavam a quem se pretendia ouvir, a afirmação, registada em entrevista, de que “nessa área não estou disposto a responder” – o que, em qualquer caso, é já uma forma de contestar -, era motivo suficiente para ser o assunto arredado da conversa.
Mas, pegar nas cassetes que são propriedade dos jornalistas e a sua arma de trabalho e metê-las no bolso, esse acto só pode ter uma classificação: a de desvio de propriedade alheia, burla. E esse acto, sendo praticado por um deputado da Nação, não deveria constituir senão um grave gesto que merece ser denunciado e igualmente penalizado. Tudo o que for feito de forma diferente, só num País como o nosso se encontra e com uma Democracia que, na verdade, ainda se situa muito longe de ser seguida e respeitada, é que se aceita sem penalizações a um gesto como o que um deputado socialista, como poderia ter sido de outro qualquer partido, foi capaz de fazer.
Neste caso, o PS deveria actuar para remediar tamanha vergonha. Pode um dos seus membros não ter capacidade para cumprir a sua obrigação de bom comportamento, mas compete ao grupo político a que pertence interferir para defender aquilo que, por sinal, foram os socialistas que contribuíram para ser instalado em Portugal: a Democracia.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ESPANTO

Esta vida é um espanto
Este mundo bem espanta
O humano desencanta
Seja por nada ou por tanto

Há quem abafe com manto
A dor que sai da garganta
Mas não há é quem garanta
Que o mundo muda em encanto

Quem acredita entretanto
Que ter fé algo adianta
Anda perto de ser santo

Porque isto não tem planta
Nenhuma em qualquer canto
Caiu e não se alevanta



O BACALHAU DO BASÍLIO


TANTO SE FALA - e alguma coisa, não muito acertada, tem sido feita, no sentido de procurar diminuir os gastos excessivos por parte do Estado -, e tanto tem sido este tema debatido sem que, na realidade, tenha sido “atacada” (esta é a expressão) a fundo a forma de reduzir drasticamente as despesas que bem poderiam ter sido já anuladas em ocasiões atrás, que nunca é demais aproveitar todas as formas de comunicação para acrescentar o que seja possível para incentivar os governantes a darem todos os passos essenciais, de forma a não ser somente pela via dos impostos que seremos capazes de equilibrar, quanto possível as nossas contas públicas.
Já aqui, neste blogue, por mais de uma vez, referi o sector dos transportes e das mordomias de que usufruem demasiados privilegiados que se situam na área do Estado. É que, quanto a usufruírem da comodidade de disporem de um automóvel ao seu serviço exclusivo, bem como de motorista, também ele fixo, essa situação só aceitável quando um país não atravessa um período de dificuldades financeiras, como é o nosso caso actual, já deveriam estas condições terem sido modificadas e, em vez disso, ser criado um departamento, com oficina própria de reparações e garagem para arrecadação das viaturas a aguardar requisição justificada, assim como, cada vez que fosse necessário utilizar tais serviços, o automóvel posto à disposição seria o que estivesse disponível, tal como o condutor que se encontrasse operacional. Só os ministros e secretários de Estado é que ainda poderiam dispor de serviços permanentes, mas todos os restantes, incluindo directores-gerais e lugares abaixo, só teriam direito aos serviços desde que os requisitassem, justificadamente, ao tal departamento, com poderes bastantes para negar a utilização se não se encontrasse devidamente regulado o pedido.
Mas, claro, não é apenas neste capítulo concreto da redução de dispêndios que devem limitar-se as medidas urgentes a tomar. Existem muitos sectores que merecem uma actuação pronta da Governação. Por exemplo, o caso do AICEP. Há vários anos que este Instituto, que até há pouco tempo se chamava apenas ICEP – nunca se compreende claramente o motivo por que se resolve, um belo dia, mudar os nomes para tudo ficar na mesma -, sempre teve e continua a ter como objectivo o de propagar no estrangeiro os produtos que poderemos exportar e, ao mesmo tempo, procurar interessar capitais de fora para virem instalar-se em Portugal com a abertura de novas iniciativas industriais, a fim de enriquecerem o activo nacional, ao mesmo tempo que podem proporcionar a criação de empregos. Ora bem, ao contrário do que eu sempre clamei e em que não fui ouvido pelos “sábios” que têm estado instalados nos postos de comando oficial, nunca se deu um passo que fosse no sentido de serem aglomerados, no mesmo Instituto, os intuitos de criar as condições essenciais para que as empresas exportadoras portugueses descobrissem novos mercados, ao mesmo tempo que se procederia ao fomento do nosso turismo fora de portas. E eu sou explícito.
Um exemplo que é bem visível para quem se desloca ao estrangeiro encontra-se, de forma clara, em Nova Iorque onde, a pouca distância e num bairro conhecido, se situa uma loja do AICEP, uma outra destinada ao turismo português e, um pouco adiante, a loja da TAP. Quer dizer, são três serviços, por sinal a pagarem rendas caríssimas, com diferentes directores e pessoal respectivo em cada função, quando o que seria admissível era apenas um local destinado aos três objectivos, com um só director e menos pessoal, mas este devidamente preparado para servir as respectivas missões. Podia ser até um estabelecimento de maior gabarito, com a designação de PORTUGAL bem saliente, o que constituiria até uma amostra poderosa da nossa existência. Isso, sobretudo porque nos E.U.A., um enorme número de habitantes não tem uma ideia bem formada da existência, até geográfica, do nosso País.
Mas esta ocorrência não é um exclusivo de Nova Iorque, pois verifica-se por muitas partes no exterior e as despesas que se suportam com o não conhecimento das realidades e também com a falta de imaginação daqueles que têm como função ir remodelando o que se encontra mal explorado, igualmente por preguiça de fazer bom serviço, tais gastos mal aproveitados vão-se mantendo e, como sucede agora, mesmo com as deficiências de orçamento no sector público, não se verificam os gestos e as propostas que alterem o que já se considerou tradicional.
Daqui lanço um desafio a Basílio Horta., actual presidente do AICEP: se lhe cabe a responsabilidade de desenvolver as exportações e de convencer investidores e grandes empresas do exterior para se instalarem na nossa Terra, convença o ministro que tem a seu cargo a Economia, logo também o turismo, certamente bem fora destes problemas, a ser o autor da modificação que proponho ou outra até mais apropriada. Mas não se deixe ficar sentadinho no seu gabinete e a aguardar pelo dia em que será colocado noutras funções, pois o despedimento está sempre fora de causa nos postos equivalentes ao que ocupa e a exigência de responsabilidades também é atitude que não se usa por cá.
Claro que eu escrevo isto e abordo outros assuntos mais sempre sem a menor esperança de que surja algum dia uma personalidade com poder, coragem, alguma humildade em reconhecer valor nas opiniões do outros e vontade de alterar o que não estará muito bem, que dê o passo decisivo para sair da rotina histórica que tanto gostamos de manter.
Mas, como estou vivo, já vivi bastante para ver muita coisa, não estou limitado por quaisquer compromissos que me atem a língua e as mãos, o que constituiu, aliás, sempre um princípio que me guiou pela vida fora, mesmo quando, como jornalista se pagavam caros tais atrevimentos, é neste blogue que dou largas ao que julgo útil ao meu País. E até agradeço os comentários, mesmo discordantes, que me chegam…
Quanto a Basílio Horta que, como pessoa respeito e reconheço a sua cordialidade, só tenho que voltar a pedir desculpa por lhe mostrar certa discordância que, como sucedeu quando exerceu as funções de ministro da Economia e por decisões erradas não existia bacalhau no nosso País e, por isso, tomei uma posição que não lhe agradou – o que provocou a sua ordem de ser retirada a publicidade ao Jornal que eu dirigia -, tendo, depois de sair do Governo, sido ele a fazer questão em cumprimentar-me, uma vez que nos encontrámos no Parlamento. E fomos almoçar, com o prato obrigatório de bacalhau…

quarta-feira, 26 de maio de 2010

CHORAR

Em tempo de magras vacas
só apetece é chorar
se são poucas as patacas
quem tem fé é só orar

É o que por cá se passa
já sem rumo este País
em que nem mesmo a chalaça
põe a maioria feliz

Afinal é a saída
já antiga e de agora
acalma qualquer ferida

Porque chorar não tem hora
sempre serve de guarida
e o palhaço também chora

DESEMPRGO - SOLUÇÃO?


EU JÁ SEI que me vai cair em cima uma imensidão de comentários descompondo-me por escrever hoje esta opinião que, por sinal, não é a primeira vez que a expresso. Mas é que eu, defendendo nesta altura um princípio que não estaria nos meus horizontes anos atrás – e, evidentemente, antes do 25 de Abril -, perante as circunstâncias que se vivem em Portugal na actualidade, com mais de 700 mil desempregados e com perspectivas de não se ficar por aqui, não se descortinam saídas muito diferentes desta que exponho agora.
A CGTP, o PCP, o BE e a própria UGT, para além de muitas outras organizações ligadas ao sindicalismo, como é óbvio e embora não tenham soluções para o grave problema que atormenta centenas de milhar de famílias nacionais, tais grupos vão enraivecer-se face a esta realidade e, se não for encontrada outra saída que não seja a que aponto agora – e não sou só eu que recorro a este derradeiro caminho, só que não dão mostras do mínimo de coragem para divulgarem o que admitem -, acabando por, dentro de normas legais, o Estado optar por tal via, bem pode vir a casa abaixo mas, desde que devidamente explicada à população a vantagem de tal medida, não haverá outro meio de tentar diminuir o desemprego. E, acima de todos os enfileiramentos políticos, o que é preciso que se enraíze na cabeça dos portugueses é que, nesta altura, não se trata de ser de direita ou de esquerda, mas apenas de tudo fazer para salvar a pele, para evitar os males maiores que espreitam e que não há qualquer greve que os evite.
Vamos, então a isso e expliquemos o que pretendo colocar neste blogue: nos Estados Unidos da América (e não só neste País), desde sempre que a liberalização nos empregos foi a forma de criar enorme ligeireza no mercado de trabalho. Quer dizer, tanto empresários como trabalhadores nunca estiveram confrangidos por contratos que ligavam uns e outros, por tempos definidos ou para todo o sempre, pelo que a manutenção de lugares e a mudança para outras actividades consideradas mais interessantes pelos dependentes dos salários não forçou a que, de um lado e do outro, ainda que contra as suas vontades, permanecessem com os mesmos relacionamentos.
Claro que os chamados patrões, perante funcionários que demonstravam grande capacidade para exercerem os seus trabalhos, só desejavam mantê-los nos seus lugares e até compensá-los com melhores condições, para não perderem a sua colaboração. Era e é a lei da oferta e da procura. Quem tem consciência de que se aplica com rigor, honestidade e profissionalismo nas funções que exerce, também tem a garantia de que o emprego onde actua está garantido. E tudo faz para que os resultados da empresa sejam alcançados, pois que isso é também uma garantia de que não existe o risco de o encerramento por falência ou diminuição de proventos.
Todos nós por cá temos a consciência de que a garantia de um emprego para toda a vida, através das leis que não permitem os despedimentos, a menos que se tratem de faltas gravíssimas que, mesmo essas, necessitam da intervenção dos Tribunais de Trabalho que, como sabemos, raramente tiram razão ao chamado trabalhador, e o resultado dessa actuação é a de que um enorme número de funcionários, públicos ou privados, depois de se encontrarem comodamente instalados nas suas funções, o menos por que se preocupam é com o serem produtivos e cumpridores das regras que deviam ser seguidas em qualquer função por conta de outrem.
Dai também, os nossos emigrantes serem tão respeitados nos trabalhos no estrangeiro e, dentro das nossas portas, portarem-se de maneira verdadeiramente criticável. É que a protecção do trabalho na nossa Terra retira-lhes o receio de serem dispensados. E daí, Portugal ser um País de tão baixa produção e não conseguir suprir o mercado nacional, obrigando às importações que provocam, como nos encontramos agora, com tão grande défice entre o que consumimos e o que produzimos. E, no que respeita às exportações, esse mesmo efeito é o da balança de pagamentos se apresentar com tão grande desequilíbrio em nosso desfavor. Claro, que a deficiência na área dos gestores também contribui, e muito, para o baixo rendimento do trabalho. Mas esse é outro mal português e aí igualmente há que fazer muito. O terem terminado as escolas técnicas, que muito ensinavam na prática comercial e industrial, tem dado mostras do mau caminho que tem sido percorrido há bastantes anos.
A questão que se pode pôr é se, levando por diante a medida de emergência que aqui deixo vincada, o cancro do desemprego, em tão alta escala como agora se encontra, se manterá ou se, pelo contrário, face à abertura dos empregadores de não serem obrigados a manter os lugares ocupados sem serem necessários, ainda que constituam prejuízo para as suas empresas, se verificaria uma grande facilidade de fazer entrar nas fábricas, escritórios e todo o tipo de actividades muita gente que se encontra desocupada. É natural que não se verificasse uma mudança radical de um dia para o outro, mas se o Executivo incentivasse tal oportunidade, estou convencido que seria uma forma de provocar um substancial aumento de gente a trabalhar. O problema é que, tal como as coisas se encontram, não se pode continuar, em que as duas situações que mais pesam na vida impossível que cá se instalou, a do desemprego e o da baixa produtividade, logo da impossibilidade de colocarmos no estrangeiro o que cá podemos produzirr, na indústria, na agricultura e nas mais pequenas empresas, isso, se se mantiver, será o fim do nosso País e, não havendo um Portugal de cabeça levantada, também não terão lugar todos os Carvalhos da Silva que apareçam.
Não vou acrescentar mais ao que está exposto. Nem é preciso ser génio da economia para entender o que acaba de ser exposto. Todos os senhores Maneis e as senhoras Marias do nosso País entendem o que acabou de ser escrito. E era com uma simplicidade equivalente que os governantes que temos deveriam ser explícitos com os portugueses. Mas não. Não são capazes. E quando resolvem botar faladura fazem-no com uma linguagem que ninguém entende, nem eles…
Eu sei o que me espera. Vá lá. Venham esses comentários a chamar-me nomes. Eu sofri antes do 25 de Abril e a PIDE bem me fez pagar duramente por discordar com o que ocorria politicamente por cá… agora, não tenho de me esconder de ninguém.

terça-feira, 25 de maio de 2010

DESMISTIFICAÇÃO

Não quero que quem me observa
Acabe com má ideia
Que a poesia conserva
De tristeza uma mão cheia

Não senhor, não é verdade
Que o pessimismo impere
E que se incuta a vontade
De só ver o mal que fere

Alguma angústia, é certo
Invade a poesia
Nem de longe, nem de perto
Constitui a maioria

Cá por mim posso falar
Faço esforço quando escrevo
Ficarei no limiar
Da desgraça e do enlevo

Por vezes me escapa a mão
P’ra lágrima e suspiro
Se é assim peço perdão
Tudo que disse retiro

No fundo há sempre fé
Que o amanhã seja melhor
A vida é o que é
Antes assim que pior

Afinal o que é verdade
É que os poemas chorados
Dão mais ar de piedade
Levam mais longe os recados

Ao reler o que está escrito
O triste encontro mais
Pois perdura no que é dito
E lido em jogos florais

Quero que fique bem claro
Não sendo um contentinho
Também não sou tão amaro
Com a mente em desalinho

Basta de falar de mim
O que importa é o mundo
Com seu princípio e fim
E coisas belas em fundo

SOCRATIANOS


CHEGÁMOS a um ponto em que, já sem nenhum tipo de cerimónias, acusamos, por tudo e por nada, José Sócrates de estar a ser o pior político de todos os tempos. Tudo que corre mal no nosso País, sem muitas excepções – atrevo-me a dizer, sem andar muito longe da verdade -, faz com que a maioria dos portugueses logo atira a flecha contra o engenheiro, pois tem de ser ele o autor dos erros, das desculpas não apresentadas, das faltas à responsabilidade que devia, sempre ser aplicadas a alguém. Não se safa dessa o pobre homem!..
E, quanto a esta afirmação, não escondo a minha dúvida, de entre as milhentas que assaltam o meu pensamento, se realmente, nós, portugueses, nos conhecemos verdadeiramente ou se alguma vez nos preocupamos conscientemente em fazer um exame, a cada passo em que somos forçados a analisar os nossos actos, para podermos chegar à conclusão de que o passo dado foi o mais correcto. E, tenho de confessá-lo, sinto-me muito mais inclinado para concluir que a nossa propensão não é essa de nos vermos correctamente ao espelho e de ver nele reflectida a imagem dos nossos procedimentos.
Em muitas ocasiões da minha vida e, particularmente, da minha profissão, tendo sido forçado a ouvir e transcrever o que me afirmavam inúmeros entrevistados, e não pude deixar de constatar que um enorme número de compatriotas, especialmente aqueles que exercem funções de alguma responsabilidade, não dão mostras de estar dispostos a reconhecer os seus erros e mesmo quando são apontados por alguma deficiência de que os cidadãos se queixam, encontram sempre razões para se desvincular dos eventuais erros e, na maioria dos casos, “passam a bola” para um parceiro mais próximo. Não tem forçosamente, por se ocupar o cargo de primeiro-ministro, de se arcar com todas as culpas do que ocorre de errado em Portugal. É verdade que é nessas funções que cabe efectuar as mudanças dos tais responsáveis, mudando-os de lugar ou simplesmente dispensando-os de continuarem a exercer funções públicas. Temos de admitir que, se essa tarefa lhe coubesse, na largueza de acontecimentos errados que se praticam por cá, o chefe do Executivo não teria tempo para fazer mais nada e, no caso do actual, não poderia fazer os seus exercícios diários de corrida e de estar presente em todas as cerimónias de inauguração que constituem um “vício” que, de modo nenhum, dispensa.
Mas, atendendo ao assunto propriamente dito, todos aqueles funcionários públicos nacionais que têm a seu cargo funções que são analisadas por todos os cidadãos, merecendo a crítica e a indignação dos que andam atentos ao que se passa no nosso País, os inúmeros disparates com que se depara não são praticados propriamente por José Sócrates. Dou apenas um exemplo, entre milhentos, de quem, nas estradas portuguesas, depara com os sinais identificativos de direcções e de nomes de povoações, se interroga sobre se será o próprio primeiro-ministro quem, em vez de colocar tais informações a pelo menos 100 metros antes da mudança de condução, os fixa já sobre o local de viragem, é evidente que não chega tão longe e antes acusa o funcionário de uma instituição pública que não executa bem o seu trabalho. Só que não é um caso, são inúmeros. E, já agora que ando pelas estradas e ruas, também me indigno contra os outros “engenheiros” dos diferentes municípios, mas sobretudo os de Lisboa, que têm a seu cargo a manutenção condizente dos semáforos da capital – por exemplo na rua Ferreira Borges, entre muitas outras – e que, muito bem sentadinhos nos seus gabinetes, o que os preocupa apenas é o recebimento dos seus salários e o chegar o mais tarde possível ao seu “trabalho”. E venham lá desmentir-me esses fulanos. Isto, para não referir as obras particulares em muitos prédios de Lisboa, que se prolongam por imensos meses e até anos, sem se verificarem alterações, o que demonstra claramente como funcionam os serviços respectivos onde, digo eu, actuam inúmeros “sócrates” que, se actuassem nas funções do verdadeiro, bem nos poderíamos queixar quanto ao seu procedimento.
E é igualmente nas mais variadas repartições públicas, nos próprios ministérios, e mesmo nas Juntas de Freguesia que nos estão cerca, que deparamos, a cada passo, com funcionários, tanto de baixa categoria como os seus chefes, que ali se encontram somente para ir esperando pelo dia da reforma, por mais longínqua que ela esteja (e, na actualidade, nem já representam qualquer garantia da sua manutenção). Lá serem responsáveis, assumirem as suas obrigações, terem consciência dos seus próprios actos e entenderem que o País que é o de todos nós não pode igualar os outros mais adiantados se, cada um não pensar e estudar a fundo antes de actuar e de deixar sair pela boca fora o que lhe vem à cabeça, ter esse cuidado é coisa que não está nos nossos costumes. Não somos diferentes do Homem em causa.
E, dito isto, não retiro da crítica um enorme número dos chamados “trabalhadores” privados portugueses que, atirando-se contra o actual primeiro-ministro por este ser tão mau governante, no fundo o do que eles fazem parte é de um clube que, não estando oficialmente constituído, se poderá chamar de “Clube dos Socratianos”, pois todos se consideram como sendo os possuidores exclusivos das suas razões, os que falam de dedo levantado e que, mesmo actuando mal em relação à sua família, consideram sempre que as dos outros se encontram em piores condições de atenção do que a sua.
Um Sócrates não podia sair do vazio. Veio dos dez milhões que fazem parte da nossa portugalidade. É um deles. Com os mesmos defeitos e com algumas virtudes das que também temos. É um convencido. Um dos que lhe saem sempre os cálculos errados. Que nunca cumpre as datas e os orçamentos. Que tem sempre uma desculpa para os resultados não serem os que previa, pois que as circunstâncias é que mudaram de repente. Que, como os alunos, só estuda mesmo em cima dos exames. E cola com cuspo o que está nas sebentas.
Eu disse sebentas? Isso era antes. Agora, nem isso. O “logo se vê” é que está na moda. E os resultados no nosso País, estão aí para o demonstrar.
Só falta mudarmos de nome. Em lugar de portugueses, o que temos de passar a chamarmo-nos é: socratianos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

COMO, QUANDO, PORQUÊ

Nós, que apenas povo somos
que só nos cabe aceitar
do País só nos dão gomos
e bastantes de amargar
há também quem descrê
e bem pergunta porquê

Sempre aguardando resposta
e nunca ninguém lha dando
sabe quem perdeu a aposta
conformado vai ficando
em nada e em ninguém crê
para saber para quê

Neste mundo foi cá posto
e não deu opinião
e agora a contragosto
bem pode gritar que não
mesmo com certo assomo
se interroga: e como?

Se há que seguir em frente
pois parado é morrer
tem de fazer de inocente
dar mostras de não saber
esperar por quem responde
e lhe diga para onde

E não serve qualquer hora
há momentos ideais
quando se quer ir embora
nem todas são mesmo iguais
há que ir até andando
a questão é saber quando

Ir sozinho é um dilema
sempre é bom ter companhia
para defrontar problema
mesmo o do dia-a-dia
mas p’ra pedir a alguém
tem sempre de saber quem