quinta-feira, 22 de abril de 2010

CORAGEM DE CAVACO


CONFESSO que a minha reacção foi de não me incomodar excessivamente com o caso que ocorreu durante a visita de Cavaco Silva a Praga. Considerei a situação como uma excessiva má educação de um chefe de Estado de um País que o nosso Presidente visitava e não me preocupei em ir mais longe. Mas as coisas evoluíram, pelo menos por cá. Alguns cronistas de jornais não esconderam a sua fúria em relação, sobretudo, ao facto do nosso Presidente não ter sido capaz de reagir a uma má actuação de Vaclav Klaus, o “dono da casa” que recebia uma visita portuguesa. E aí, reflecti melhor e achei que deveria expressar também a minha opinião. Não podia ficar indiferente.
Enfim, no que diz respeito ao checo que entendeu dar ares de grande pregador, provavelmente por não ter perdido ainda o que constituiu um hábito naquelas áreas, no antigamente em que havia um que mandava e todos os outros obedeciam, com a imagem do Stalin ainda presente no seu espírito e querendo imitar também o novo ditador da Venezuela, no que se refere a um Vaclav fora de moda europeia não me apetece sequer fazer um comentário. Nem importa sequer avaliar se o que ele disse pode ou não corresponder a uma eventual realidade. O que sim tenho de deplorar é que o representante máximo de Portugal que se encontrava como convidado do “mestre-escola” praguiano, ao escutar a tradução simultânea das opiniões expressas pelo anfitrião não tivesse sido capaz de mostrar que não podemos admitir que, naquelas condições, tivéssemos de receber avisos e ensinamentos de alguém que não tinha o direito de se expressar naqueles termos.
Cada um de nós, português, pode e talvez até deva advertir de que o caminho que levamos não será o mais indicado para nos conseguirmos libertar de uma situação que nos pode conduzir a uma saída dramática, seja ela parecida ou não com a que a Grécia enfrenta hoje. Eu, aqui neste blogue, não escondo a preocupação com que vivo de, se não optarmos por outra via diferente da que o Governo de Sócrates segue, podermos vir a acordar um dia destes com a banca rota a bater-nos à porta. E faço os possíveis para advertir quem me lê que a nossa obrigação como cidadãos é a de tudo fazermos para colaborar das formas que nos forem possíveis para participar na salvação que depender ainda dos concidadãos. Uma delas, por exemplo, é a de não aderirmos a qualquer tipo de greves que façam paralisar por mais pequena que seja a máquina que contribua para enriquecer o nosso património. E que, também com o mesmo espírito, procuremos utilizar apenas produtos nacionais, para evitar os gastos com as importações. Mas tudo isso são comentários tidos dentro da nossa casa…
Agora, que venha um fulano qualquer, estrangeiro, e ainda por cima aproveitando-se da visita que lhe é feita por um nosso representante oficial, a “ralhar” connosco e a prevenir-nos de que estamos perto do que ocorre com a Grécia, pelo que devemos tomar medidas que façam baixar o nosso défice, por muita verdade que isso seja, ninguém fica satisfeito por ver o nosso Presidente da República engolir em seco, fazer um risinho amarelo e não responder como merecia quem teve um comportamento de tão baixo nível.
Quando o rei de Espanha respondeu ao homem da Venezuela “por que no te callas?”, ficou bem gravada na cabeça de todo o mundo que os espanhóis não se rebaixam, por muito mal que lhes corram as coisas. Era a altura de mostrar que também nós, por muito pequeno que seja este rectângulo, não nos submetemos a más criações de outros, nem que sejam os que estiveram um largo número de anos sob a alçada da então União Soviética, engoliram em seco e fizeram tudo que eles mandaram!...
Não sei se esta falta de coragem de Cavaco Silva não pesará na altura do povo se deslocar às urnas para deitar o seu voto para escolher se haverá reeleição ou se preferirá um Presidente novo. Nunca se sabe!...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

AGONIA


Os meus poemas são feitos com esforço
para lá mesmo do que posso
e insisto
e persisto
e quero convencer-me
que vale a pena.
É uma pena !
Não leiam, não,
faço questão
são um desastre.
Mas vou escrevendo
lá vou fazendo
e, se possível, com certa rima
que se aproxima
da perfeição
que é p’ra agradar
ao paladar
de quem os sabe saborear
devagar
p’ra não ter indigestão

Assim lá saem
maduros caem
triste figura
pobre do homem que não resiste
e que insiste
nesta falsura
de ser poeta
que é uma treta
digo eu, não sei,
se houvesse lei
que dominasse
e não deixasse
ser poeta quem não pode sê-lo
não estaria aqui a escrevê-lo,
e a lê-lo.

Poupava-os a este flagelo
Será que isso de ser poeta, cabe em mim?
Por fim !
Ou sou eu quem não cabe na poesia?
Que agonia !

VULCÕES



NINGUÉM PODE DIZER o contrário, de que eu não sou um crítico persistente em relação ao comportamento generalizado do ser humano, acusando-o de ser o causador principal dos acontecimentos que mais inconvenientes provocam no ambiente mundial. E, por ambiente, não me limito ao ar que se respira ou a todos os prejuízos que são provocados pela acção do Homem. Vou mais longe porque, como é bem sabido, muitos factores têm influência nas condições de vida de todos os habitantes terrestres, como sejam as guerras e guerrilhas que se criam em diferentes zonas do Globo, as agora tão frequentes acções com origem nos grupos que, não constituindo países, nem por isso deixam de causar enormes danos, como são os denominados terroristas ou com outras designações de iguala significado.
O tão falado aquecimento global, com origem, como é sabido, no excesso de utilização de combustíveis com origem no petróleo, o qual não se conseguiu ainda ser limitado, apesar da Cimeira de Copenhaga, pois acabou num fracasso quanto a um acordo generalizado, aguarda ainda por mais reuniões dos principais responsáveis para poder vir a ser enfrentado como uma necessidade imperiosa se queremos, na nossa Esfera, conseguir uma vivência mais adequada às nossas necessidades.
E, para não falar já da bomba atómica que, encontrando-se também nas mãos de pequenas Nações que não prestam a garantia de resguardar o seu uso só para fins pacíficos, essa arma destruidora constitui uma ameaça que paira sobre as nossas cabeças e ninguém está em condições de garantir que não acontecerá um dia o desastre nuclear cujos efeitos são incalculavelmente de enorme destruição (a propósito, a peça de teatro de minha autoria, com o título “E a Terra, indiferente, continua rodando”, foca este tema do fim do mundo e algum dia aparecerá ao público).
Pois é agora que cabe a alusão ao caos provocado pelos efeitos do vulcão que, na Islândia, desencadeou uma catástrofe provocada pelas cinzas que se espalharam por uma larga mancha na Europa, o que deu ocasião a que, cerca de 7 milhões de passageiros de carreiras aéreas, tivessem ficado retidos nos países de onde iriam partir para outros destinos, no que foram impedidos devido a dezenas de aeroportos terem sido obrigados a encerrar os seus movimentos. E foi praticamente uma semana que obrigou tanta gente foi obrigada a alterar as suas vidas, com os prejuízos muito avultados que tal representou.
Quer dizer, portanto, que a Natureza entendeu, uma vez mais e agora através desta forma de agressão, intrometer-se na actuação dos seres humanos, podendo-se portanto tomar consciência de que alguma existe que tem mais força do que a acção do Homem, por muito que se julgue ser o único senhor das decisões terrestres, tem de estar atento a situações que não dependem da sua vontade.
O que ocorreu recentemente em diferentes partes do Mundo, no Haiti, na Madeira e antes em outras zonas com os tsunamis, os ciclones, as inundações, os maremotos, os tremores de terra e os próprios terramotos, tudo isso são acções decorrentes de “atitudes” tomadas pela Mãe Natureza e aí o Homem não tem mais que procurar o remédio para atender às vítimas humanas que não têm a quem reclamar os efeitos dos acontecimentos.
Talvez seja caso para começarmos a pensar seriamente se se justificam as questiúnculas que se “armam” permanentemente, se todas essas invejas, preconceitos e egoísmos com que se depara no dia-a-dia por parte dos habitantes do nosso Globo. Pensemos bem nisso!

terça-feira, 20 de abril de 2010

QUANTOS




Não é fácil ir contando
o que na vida fizemos
e se vai avolumando
e chega a atingir extremos

Daquilo que desistimos
os erros que cometemos
até o que conseguimos
e aquilo que não demos

Felicidade perdida
quantos amigos morreram
o que ficou nesta vida

Quanto outros perderam
por falta de acolhida
que de nós não receberam

NÃO APRENDEMOS!


NA VERDADE já não se pode. A paciência tem limites. É que, neste País, os acontecimentos que se sucedem vão dando mostras de que não conseguimos, nós portugueses, quer sejamos elementos situados no poder ou estejamos a fazer parte da população geral, não somos capazes de ter a cabeça bem colocada no seu lugar e, especialmente numa altura em que temos para enfrentar situações bem difíceis que ninguém sabe se conseguiremos levar a bom porto, desperdiçamos toda a nossa capacidade em acções que não constituem a menor valia para lá chegarmos. E temos o ano de 2013 como limite imposto pelo PEC.
Na área da governação já nem é preciso pôr mais na carta. Quem lá está parece ter esgotado todas as medidas que nos podem levar a concluir que Portugal conseguirá ultrapassar a situação a que o fizeram chegar. Cada dia que passa é maior o número de especialistas em economia que asseveram que não seremos capazes de fugir de uma situação em tudo semelhante à que a Grécia já defronta.
Já há bastante tempo que, neste blogue, tenho vindo a lançar o aviso de que se impunha avançar com resoluções que ainda fossem a tempo de podermos escapar do pior. Mas não estive e cada vez estou menos isolado. Foram crescendo as intervenções que, sobretudo aos espectadores das várias estações de televisão, avisavam que o perigo estava à espreita. Apesar disso, nesta altura ainda há quem mantenha a esperança de que sairemos incólumes do desastre!
Será por isso que, especialmente por parte de algumas organizações sindicais, não param as reivindicações, sobretudo reclamando maiores salários, que, embora nalguns casos com justificação, na maioria das situações não olham às dificuldades que se atravessam e exigem o que parece impossível de conseguir. Por agora.
O que se passa com os professores, por exemplo, por muito que sejam aceitáveis as exigências que vão fazendo, será altura de fazer ver a essa camada populacional, sem dúvida com capacidade para avaliar concretamente como nos encontramos, que não podem continuar a ser conduzidos por elementos que, sendo sempre os mesmos, os estão a envolver numa onde de opinião pública que não se pode considerar benéfica para quem tem a seu cargo o ensino das diferentes classes de alunos.
Há que dizer que é preciso dar uma trégua a tais posições extremas. Já chega de greves e de manifestações de rua. E até a imagem que se dá lá fora, em que o nosso estatuto de Nação europeia se fica a assemelhar a outros países em que o bom comportamento cívico não faz parte das suas preocupações.
Era de supor que a FENPROF, sempre com Mário Moreira à frente das disputas – o que faz com que se levante a questão de saber se esse sindicalista não terá uma profissão que lhe garanta o ordenado mensal -, entendesse não basta ter razão (se é que a tem) para se criarem as movimentações que, nesta altura, repito, nesta altura, são completamente descabidas.
E o ter o sindicalista Carvalho da Silva aparecido a clamar que a diminuição claramente necessária do elevado número de funcionários públicos provoca uma diminuição de eficiência de serviços na Administração, essa teoria só podia partir de quem, tendo a sua remuneração garantida pelo ordenado que lhe paga a CGTP, não se incomoda muito em tomar consciência de que se encontra cada vez mais perto o momento em que o Estado não só não terá dinheiro para pagar os salários dos seus funcionários, pois o grande risco é que venha a ser muito mais profunda a carência.
Podem todos os Carvalhos da Silva deste País andar convencidos de que têm a solução para o problema em que nos encontramos envolvidos. Mas olhem para a Grécia!...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A CHUVA



A chuva molha a cidade
Fica mais triste, escurece
É duro, mas é verdade
É assim, quando aparece

Tocada a vento, então,
Mais agreste fica ainda
Nela o Homem não tem mão
Mas por vezes é bem vinda

Sim, há gente que a deseja
Que tanto implora por ela
É o pão da sua boca

Ela é sua benfazeja
Desponta como uma estrela
Toda a chuva será pouca

AI AS ESCUTAS!


QUEM TENHA chegado de uma longa estadia num País longínquo e tenha perdido o contacto com as situações que ocorrem e ocorreram nos tempos mais próximos em Portugal, seguramente que, ao pretender actualizar-se, se defronta com uma incompreensão dos problemas que parecem constituir as preocupações base deste nosso País. Sobretudo, se se ativerem apenas às notícias que a comunicação social divulga, neste caso a confusão ainda terá de ser maior e levará algum tempo até se identificarem com a balbúrdia que se instalou mas cabeças dos portugueses. Digo, dos nacionais que acompanham os noticiários que dominam a atenção de um grande número. E isso numa altura em que outras preocupações de extrema importância deveriam estar a figurar nos cabeçalhos dos jornais, pois que esses assuntos interferem directamente com a nossa vida ou até com a nossa sobrevivência…
Refiro-me ao que enche as colunas dos jornais e que tem em todos os títulos a palavra repetitiva que, em circunstâncias normais, é pouco usual. E é ela o substantivo “escutas”.
De há uns tempos para cá que não se lê outra coisa que não se refira às conversas havidas entre José Sócrates e Armado Vara, focando nessa comunicações telefónica temas que, segundo alguns, pecam por porem em causa o comportamento do primeiro-ministro, segundo parece por terem sido feitas afirmações que comprometem o chefe do Governo. Segundo parece!
A verdade, porém, é que, a partir do momento em que o caso se tornou em problema político, logo o aproveitamento dessa situação passou a constituir uma arma de arremesso da maior utilidade para quem está interessado em derrubar o primeiro-ministro, o que, naturalmente, é compreensível nestas coisas das lutas pelo poder. E quando se alargou o tema das tais chamadas telefónicas ao assunto em que Figo se encontra envolvido – mesmo sem o querer -, o do Taguspark, mais ainda ânsia de conhecer o conteúdo dessas escutas se tem feito notar.
Desde que o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, fez o primeiro despacho ordenando a destruição dos discos com as gravações, dado que transcrições dessas conversas circulavam por outros departamentos do Ministério Público, surgiram as ordens de várias origens para que não restasse um único documento que mostrasse o que tinha sido dito entre comunicações em que um dos protagonistas foi José Sócrates. Todos os cuidados foram tomados para que não restasse nem um único elemento comprometedor dos tais “desabafos”.
No entanto, há que ter em conta que estamos em Portugal. Neste País de “xico-espertos” que são capazes de todas as malandrices para fugir ao que fica estabelecido. E, devido a esta característica, eu por mim ainda tenho esperanças de que, um dia, lá mais para diante e quando o Governo mudar de mãos, apareça, por obra e graça de uma mão malandra, algum documento que pretenda soltar toda a verdade do que nesta altura reside num mistério. Vamos aguardar.
Porém, aquilo que apetece deitar cá para fora é apenas uma coisa bem simples: se, realmente, as referidas escutas não contêm nenhum elemento que ponha em má situação o José Sócrates, mesmo tendo sido usados palavrões que, entre amigos, não escandaliza que sejam ditos, qual o motivo por que o chefe do Governo não acabou com todas as dúvidas e não autorizou que fossem tornadas públicas essas trocas de opiniões telefónicas que tanta tinta têm feito gastar e que colocam o interveniente principal numa posição incómoda der ser julgado pela imaginação dos portugueses, que, nestas circunstâncias, tendem até em exagerar o que poderá ser a realidade.
Se, como disse Louçã no Parlamento, Sócrates está “mais manso” nas suas intervenções no Hemiciclo, até será ocasião para que dê mostras dessa mansidão e venha mostrar aos portugueses que não há motivos para duvidarem dele em qualquer comportamento que tenha tido e que nunca pôs a segurança, o bom nome, a actuação correcta como político em qualquer risco e que nada tem a esconder que mereça a crítica dos lusitanos.
O pior é se não é nada disso que se trata e que o esconder as “escutas” é a única maneira de não deixar passar para o exterior alguma coisa de certa gravidade. Saber-se-á um dia!...

domingo, 18 de abril de 2010

BUSCA DE ACALMIA

Mar que em mim existe revoltado
na busca continuada de acalmia
não consegue manter-se sossegado
no longo caminhar do dia-a-dia
e os ventos que sopram em redor
não deixam que as ondas me descansem
cada vez a angústia é maior
sem haver alguns que me esperancem

Os seis mil milhões que por todo o mundo
se movimentam cada um à sua
tendo de viver em cada segundo
desejando que nada os obstrua
uns conseguindo outros nem por isso
a grande maioria se debate
com o que na vida é grande enguiço
e torna o dia-a-dia em combate

Por isso se escuta tanta queixa
de gente p’lo desânimo tocada
a quem a felicidade não deixa
alegre marca da sua passada
as excepções existem, são bastantes
causando inveja aos que ao contrário
têm razão para ser protestantes
por sofrerem penas neste calvário

Eu, por mim, luto contra o mar revolto
as ondas permanentes que atormentam
vendo o vento que anda sempre solto
todos minha inspiração atormentam
num vai e vem de baixos e de altos
nos bons poemas, noutros um horror
em pensamentos, tristes sobressaltos
que deixam marca de enorme dor

Mas é esse, do poeta o martírio
encontrar o sítio e o momento
p’ralcançar conveniente delírio
em que se estando a sentir o vento
ele traga por vezes bons auspícios
e talento que quase sempre falta
e que provoca tantos sacrifícios
até fazer chegar algo à ribalta

Acalmia é coisa que se busca
bastante para o espírito sossegar
p’ra não haver aquilo que ofusca
o que esteja pronto para dar
mas quando por muito que se procure
a tranquilidade não aparece
não há ninguém que bem se aventure
porque o génio fugiu, não se merece

MELHOR NÃO LIGAR


ORA VEJAM LÁ se vale a pena andarmo-nos nós a escandalizar com os pagamentos equivalentes aos que ocorrem nos países de petróleo aos seus magnatas e que são feitos a alguns gestores de empresas portuguesas em que o Estado tem participação! Para que serve tanta conversa que tem sido gasta com o que dizem ser um escândalo nos ordenados e subvenções que são atribuídas aos Mexias e outros quejandos? Então não é que, em reuniões de Assembleias-Gerais da EDP e da PT, os accionistas votaram agora mesmo a concordância com a manutenção de tais atribuições monetárias?
Sendo assim, o melhor é deixarem os portugueses vulgares de querer dar opinião no que respeita a decisões tomadas por entidades situadas em plano superior, pois o que lhe cabe é apenas o pagarem as taxas que, por exemplo estas duas empresas de fornecimento em exclusivo de electricidade e de serviço telefónico, aplicam aos portugueses, que esses, mesmo em democracia, não têm mais remédio que não seja acatar o que lhes impõem, sem oportunidade de mudar de fornecedores.
Isto de ser possível que António Mexia, presidente da EDP, tenha metido ao bolso 3,1 milhões de euros pela sua actuação num ano, e que Zeinal Bava, presidente da PT, “só” lhe tenham cabido 2,5 milhões, a par de muitos outros “mandões” de empresas também comparticipadas pelo Estado não se fiquem muito longe, só quer dizer que vivemos num País onde a vergonha de quem é beneficiado e o desinteresse dos que podem mudar as circunstâncias e nada fazem, todos contribuem para que este barco que é Portugal se continue a afundar e que, como disse agora o presidente da Checoslováquia a Aníbal Cavaco Silva, não estaremos muito longe de alinhar com a situação da Grécia e que seria bom que nos precavêssemos em relação ao possível desinteresse dos restantes países da Comunidade Europeia em nos prestar auxílio, pois teremos que ser nós próprios, em primeiro lugar, a mostrar que tudo fazemos para não cair no buraco.
O que nos vale, neste caos da crise financeira e social que tem corrido o mundo e que tem alargado as suas asas por diversas frentes, incluindo a nossa, é que, na situação dramática que teve origem na Islândia e tem tapado quase todo o céu da Europa com a nuvem vulcânica, desta vez e até hoje – vamos a ver o que se vai passar ainda – conseguimos sair ilesos. Apenas o Presidente Cavaco Silva e a sua equipa sofreram os efeitos da impossibilidade utilizar a via aérea para regressar a Portugal da sua viagem nem por isso bem escolhida à República Checa. Em alguma coisa teríamos que ser favorecidos pelas decisões super naturais. Já que, no capítulo do excesso de chuva não nos podemos considerar muito felizardos este ano.
Mas também, lá vamos conseguindo disfarçar as poucas satisfações que as circunstâncias nos proporcionam. E, para isso, tudo nos serve para olhar para o lado a assobiar. As tolerâncias de ponto que o Executivo entendeu conceder por motivo da visita próxima do Papa Bento XVI a Portugal, sendo que, da parte da tarde do dia 11 de Maio, no dia 13 e da parte da manhã do sai 14, o trabalho de muita gente fica relegado para segundo plano. Isto numa altura de crise e de contenção, como diz o Bloco de Esquerda… mas nisto até terá alguma razão.
É por isso que faço a pergunta logo no início deste texto: valerá a pena andarmo-nos a amofinar com o que ocorre nesta Terra de gente do deixa andar?

sábado, 17 de abril de 2010

IMAGINAÇÃO

Bendita imaginação
que nos mostra o invisível
aonde não chega a mão
àquilo que é impossível
de alcançar
de agarrar
mas nos traz felicidade
porque dá p’racreditar
que não será p’la idade
que passou tempo d’amar

Imaginar tem defeitos
porque engana quem o faz
coloca tudo a preceito
convence do que é capaz
de fazer
de acontecer
torna os sonhos tão belos
quando acordado se está
imaginam-se castelos
tudo o que bom virá

Imaginar o terrível
coisa que não apetece
é transformar o visível
em coisa que não se esquece
só belezas
não tristezas
mesmo não sendo verdade
o que importa é a alegria
seja qual for a idade
nunca mostrar apatia

E aquilo que não temos
saúde, dinheiro e amor
importa é se parecemos
ter isso ao nosso redor
desfrutar
enganar
quem de nós tem certa pena
não sabendo imaginar
que nesta vida terrena
o bom é imaginar






MÉDICOS PRECISAM-SE


NÃO É A PRIMEIRA vez que tenho este tema como preferido no meu blogue. E, provavelmente, se ainda me restar paciência, saúde e dinheiro suficiente para ir aguentando os custos do papel e da tinta no computador, voltarei ao assunto, posto que, neste País, as deficiências, os maus procedimentos de quem nos governa, seja lá quem for, prolongam-se por tempos fora, sucedendo-se cabeças (?) que nos comandam e mantendo-se os defeitos sem que ninguém lhes presta a atenção suficiente para dar a volta aos problemas.
Há quantos anos, desde que sucedeu a Revolução – porque antes nem valeria a pena queixarmo-nos, porque o caminho era Caxias – se levanta o problema de que os estudantes que pretendem seguir o caminho da medicina deparam com a porta fechada da Faculdade respectiva, por só serem admitidos os estudantes saídos do secundário com notas muito elevadas, a rondar os 20 valores? Como se, para ser médico, para além da vocação, que essa sim, é necessária, e só se apura depois de se ficar a conhecer ao longo do curso superior, será realmente saber muito de matemática, de geografia e de outras disciplinas que não interferem na profissão que a rapaziada pretende seguir!
O resultado dos diferentes Executivos que têm tido o encargo de levar com o mínimo de sabedoria a governação de Portugal é de que não existiu, até agora, um só responsável que tivesse olhado para este problema com o mínimo de atenção. E o que acabou por suceder e agora constitui uma grave dificuldade, é a da falta de profissionais portugueses de medicina, sobretudo nos centros de saúde e nos hospitais, ao ponto de se estarem a contratar estrangeiros e de até aproveitar imigrantes vindos dos países de leste, por sinal bem formados, que estão a actuar em várias profissões, mas sobretudo na construção civil, para preencherem as falhas de que se queixam os utentes dos serviços médicos.
Depois, porque também está a ser divulgado, as condições de trabalho dos nossos clínicos ao serviço do Estado não são as mais desejáveis, quer no que se refere a material para ser executada uma actuação com eficiência, como no que diz respeito ao pagamento de serviços. Daí o terem saído, desde Janeiro deste ano, mais de 500 médicos com reforma antecipada, os quais, como seria natural, se prontificam a actuar nas áreas privadas.
O que todos ficamos à espera é da solução que o conjunto de Sócrates vai ser capaz de encontrar perante este dilema que nem necessita de grande competência para se chegar a uma conclusão. Esta é uma oportunidade para o socratianismo mostrar o que realmente vale. Vamos lá ver!
Andamos, nós ao que ainda dedicamos algum tempo a observar e a comentar os acontecimentos relacionados com a governação no nosso País, a dizer sempre o mesmo. Recordo-me que, há cerca de vinte anos, todos acreditávamos que iríamos ser em breve modernos, ricos e europeus. Contemplava-se o século XXI, que já se encontrava à vista, com uma esperança enorme de que Portugal iria alinhar com os mais adiantados parceiros europeus, mas já quando Guterres proferiu a declaração do “pântano”, em 1991, logo aí foi o início do declínio que veio sempre a acentuar-se durante todo o período que decorreu até aos dias de hoje. E, com Sócrates, a situação foi só a piorar. Não importa agora fazer o exame analítico dos erros cometidos.
Com isto não quero dizer que foi exclusivamente de Sócrates a culpa da quebra verificada neste nosso País, mas a ele cabe-lhe a maior parte da responsabilidade, sobretudo devido ao facto de nunca querer receber dos outros alguma imaginação que é o défice maior que se encontra no primeiro-ministro e por se considerar sempre o maior no panorama, já por si tão fraco, que domina a área política nacional.
Agora, deparamo-nos todos com o resultado de tantos erros cometidos e esse da falta de médicos é um daqueles que, se tivesse sido atacado a tempo, não faria com que se chegasse, nesta altura, a uma posição tão deplorável.
Mudar de Governo neste momento, embora seja o que apeteça, não é a medida mais apropriada, especialmente para não causar mau ambiente no exterior e fazer baixar ainda mais a confiança naqueles que nos observam atentamente, porque têm os seus créditos connosco e não podem perder o mínimo de esperança quanto à eventualidade de continuarmos a necessitar dos seus empréstimos
.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

SONHAR

Que bom é sonhar sonho agradável
Dormir acordado e ver o distante
O que se deseja e não é viável
Por muito que dure ou seja um instante

Sobretudo o sonhar acordado
O que se quis, tanto se desejou
Isso mesmo, o que andou ali ao lado
Por muito querê-lo se escapou

Porém o mundo é este em que vivemos
Ingrato, vingativo e bem maldoso
Só nos dá aquilo que não queremos

Porque tudo o que nos pode dar gozo
Isso escapa-nos das mãos e não vemos
Resta-nos sonhar em dia chuvoso

PROBLEMAS RELIGIOSOS


A ONDA que está agora a tomar foros de inquietação mundial, isto é, o número elevado de elementos pertencentes à Igreja católica que se têm entregado à prática da pedofilia, ao ponto do problema ter chegado já a obrigar o Papa a referir-se ao assunto e de se aguardarem medidas que ponham ponto final num crescendo preocupante, esta situação tem de provocar, como é natural, que alguns dos próprios seguidores da Religião católica se interroguem sobre a desconfiança que tem de existir em relação aos membros que se devem classificar como exemplares e que não se sabe, ao fim e ao cabo, se não farão parte desse número que vai sendo denunciado aqui e ali.
Pensando seriamente no problema com o mínimo de independência que é possível manter nestas circunstâncias, pois que, no capítulo das práticas religiosas, todas elas são originárias da imposição humana e, por isso, as opiniões que forem expressas são-no também por outros homens, há que ter sempre presente que cada uma das crenças religiosas utiliza os princípios e as práticas que os seus maiores entendem serem as adequadas e, se constituem uma regra, todos os seus seguidores lhes devem total obediência. Mas só esses.
Porém, quando extravasam para o exterior de cada comunidade os efeitos desses procedimentos, aí já se justifica que surjam pontos de vista que interfiram criticamente no seu comportamento. É o caso da actuação pedófila por parte de membros que se situam na escala hierárquica do Vaticano, seja ela qual for, como tem sido divulgado pela comunicação social de todo o Globo.
A pedofilia é um crime execrável e sobre isso não há que estabelecer discussão. Lá se a sua prática tem a ver ou não como a homossexualidade, como o afirmou o secretário-geral do Papado, essa já será uma discussão que, pelos vistos, merece concordância e discordância, conforme já se começou a verificar por partes antagónicas posições. Mas, seja ela praticada por quem for, mandam os princípios do Direito que se apliquem os castigos impostos pelos cânones legais da cada País. Essa tem de ser a regra.
Mas, em virtude de se ter levantado a questão, especialmente por parte de um grupo de homossexuais católicos, denominado Novos Rumos, de se pôr fim ao celibato dos padres, ponto este que já não é novo no ambiente da Igreja de Roma e cuja solução tem sido sucessivamente adiada, sabe-se agora que a Conferência Episcopal Portuguesa, reunida nesta altura em Fátima, irá divulgar a sua opinião por estes dias. Há que aguardar, uma vez mais, que a matéria em causa será objecto de solução ou se tudo ficará na mesma.
Seja como for, o que é importante referir é que cada organização religiosa, de todas as que existem no nosso Planeta, tem o direito de estabelecer as suas próprias regras de conduta e de actuação no interior do seu próprio território. Mas, da mesma maneira que, por exemplo agora em França, se levanta o problema de proibir a circulação, dentro do seu País, de mulheres muçulmanas com a cara tapada pela “burka”, todos os comportamentos públicos que se verificarem por grupos, religiosos ou não, que estejam legalmente constituídos, esses não podem fugir às reacções que provocarem nos cidadãos de cada localidade, se ferirem ou intervierem na regular vivência desse povo.
A crença religiosa é um direito que, especialmente nos países democráticos, é aceite sem discussão. A prática dos seus rituais também não deve oferecer contestação. E, sobretudo se, como parece ser o que acontece aos seres humanos, o seguimento desses princípios conduz a uma aproximação da felicidade, mais uma razão para que ninguém interfira em tais comportamentos. O que não quer dizer que sejam admissíveis quebras de legalidades, a coberto de qualquer protecção religiosa.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

RECEITA PARA HOMEM

Tome-se um homem qualquer
a viver numa casinha
junto da sua mulher
com vida sossegadinha
de manhã para o trabalho
o almoço contadinho
o cabelo já grisalho
o fato bem compostinho
como todos passa os dias
sempre iguais mas não se importa
não tem nenhumas manias
e com pouco se conforta
seu cigarrito lá fuma
de leitura pouco gosta
de futebol sim, em suma,
e no seu clube aposta
um cafezinho à saída
com os colegas de luta
altura de uma bebida
e também de uma disputa
p’ra defender suas cores
e jogar no totobola
que aliviaria as dores
e descansaria a cachola
dava p’ra pagar ao banco
a hipoteca malvada
talvez abrisse um estanco
passaria a ter criada
mas se isso não se der
que é o que se tem mais certo
lá continua a viver
sujeito a todo o aperto
de chegar ao fim do mês
com a carteira vazia
que isso de rigidez
é tal e qual a azia
depois de uma almoçarada
como aos domingos se passa
dia de não fazer nada
e de gozar a madraça
pois o dinheiro não dá
para ter outra opção
p’ra além daquilo que há
e que é ver televisão
já que na segunda-feira
de novo o mundo rola
e quer se queira ou não queira
filho segue p’ra escola
a mulher vai trabalhar
o autocarro está
como sempre a abarrotar
mas outro meio não há
para ao serviço chegar
repete-se assim a cena
tem sido igual toda a vida
também não há que ter pena
basta esperar a partida
com certa resignação
a velhice não perdoa
as doenças também não
por tal não se gasta à toa
prevenir o amanhã,
os amigos vão morrendo
já é pouca a vida sã
o remédio é ir vivendo
com certa resignação
à espera do seu caixão.

Este é o homem modelo
o que nasce, vive e morre
que não sendo pesadelo
faz o que pode e lhe ocorre
não é muita a ambição
e de ter mais bem gostava
não sai do que está à mão
quando pode desencrava
sem ser muito resoluto
já que tem muitas cautelas
norma que lhe vem de puto
evitando as mazelas
e conservando os empregos
não mudando de patrões
já que os desassossegos
é que causam confusões
mais vale pouco que nada
dizem os mais cautelosos
caem sempre em borrada
os que são gananciosos
casado, muito calminho
com um filho que consola
não sendo um coitadinho
tem casinha pachola
nos arredores da cidade
e p’ra ser feliz já dá
não vive da caridade
quem quer demais sofrerá.

Mas ser assim comedido
não ter ambições na vida
justifica ter nascido
e andar por cá de fugida?
Resposta eu cá não tenho
nem quero ser eu juiz
por isso me abstenho
não sei o que é ser feliz.
Homem modelo é assim
nunca desejar de mais ?
Eu falarei por mim
nem todos são iguais
mesmo sem ter o talento
dos grandes homens de génio
há que lutar cem por cento
ainda que falte oxigénio

Com o filho já crescido
que partiu p’ra sua rota
manteve o seu apelido
e é um rapaz janota
os seus estudos lá cumpriu
até onde quis chegar
e a uma moça pediu
para com ele casar
o trabalho o afogou
tinha o destino traçado
uma casa pois comprou
com o dinheiro emprestado
começou tudo de novo
está visto, tinha que sê-lo
é essa a sina do povo
claro, do homem modelo

De vez em quando vem um
que sai daquele padrão
não sendo assim tão comum
juntos fazem multidão
alguns de cabeças espertas
os que fazem por passar
por portas semi-abertas
onde tentam se esgueirar
e quando conseguem ficam
à frente dos que esperam
e assim sempre debicam
pois são eles que aceleram
e de carro ou a pé
de cotovelo em riste
fazem o seu finca-pé
mas que é triste, isso é triste.
Os outros, que poucos são,
sobressaem da manada
nasceram com o condão
de deixar obra do nada;
são os génios, os tocados
pelo dom da Providência
serão os iluminados
na escrita ou na ciência
ou também em qualquer arte
com trabalho e muito empenho
são os chamados aparte
os que mostram ter engenho.
Só que a regra geral
é que os espertos enricam
acumulam capital
como o fazem não explicam;
os outros, os geniais,
quase sempre até morrer
mesmo sendo os anormais
não conseguem convencer
e só depois da partida
e até passados anos
é então reconhecida
a obra de alguns fulanos
com estátua em jardim
ou numa rua o nome
pagando-se assim por fim
a alguém que passou fome.

É este o mundo que temos
em que o homem-modelo
mesmo que não aprovemos
é o que leva o selo
de cumpridor, direitinho
levando uma vida inteira
sem sair do seu caminho
sempre com eira e beira

Saudemos tal personagem
Prestemos-lhes a homenagem

Mas seguir o seu caminho
a mim não causa fascínio!











UNIDOSES


JÁ SABEMOS qual é a decisão do Governo no que respeita à venda de unidoses de remédios nas farmácias. Pelo menos as dúvidas estão ultrapassadas, posto que a ministra da Saúde, em entrevista concedida a Miguel de Sousa Tavares - o encarregado pela RTP de fazer agora o papel de interrogador de figuras mediáticas, o que, expresso a minha opinião, não lhe sai muito bem, e, quanto a isso, depois de assistir a mais umas tantas tarefas do mesmo tipo, não deixarei de referir o que penso concretamente sobre essa missão -, deixou bem claro que se trata de uma medida que apresenta custos muito elevados e que são os próprios laboratórios a dar mostras de não quererem aderir a essa alternativa.
Ora, era precisamente esse pormenor que justificava também um “aperto” por parte do entrevistador, dado que, há mais de 30 anos, por acaso em Londres, fui protagonista de uma situação em que um médico de um hotel requisitou, até pelo telefone, uma medicina para serem tomadas apenas duas doses, e as duas pastilhas apareceram numa frasco não original e com um rótulo colado no exterior e o nome do remédio escrito à mão. Isso, repito, ocorreu em 1970!
Por aqui se pode ver o estado de atraso em que nos encontramos no que se refere à Europa. Pelos vistos, na Grã Bretanha – e não só, pois há conhecimento de que outros países seguem o princípio da venda de unidoses de medicamentos – os laboratórios farmacológicos não têm o poder que por cá se verifica e não existirá uma associação dos farmacêuticos com a mesma força que tem a que domina a situação no nosso espaço.
Eu nem me sinto vocacionado para discutir a opinião da ministra da Saúde, pois cheira-me a sua tomada de posição a falta de coragem em enfrentar o finca-pé do “patrão” da instituição das farmácias, o que prova, sem necessidade de qualquer chapéu de chuva, que o mais cómodo é não levantar confrontos, mesmo que esses representem uma economia importante nos gastos públicos e, evidentemente, um gasto bem menor por parte dos doentes que, especialmente neste período de baixas de rendimentos, lhes calharia de forma bem positiva.
Cada um que pense o que quiser. Eu, com o meu blogue absolutamente independente de quaisquer interesses, só me permitindo apontar aquilo que já verifiquei lá fora, não me conformo e, quando vêm dizer que os próprios médicos não são partidários de receitar unidoses, como já foi dito na comunicação social, então ainda mais revoltado me sinto. E a única resposta que dou é de que não acredito que os tratadores da saúde pública levantem barreiras no que respeita a facilitar a vida dos mais necessitados.
Mas, ao mesmo tempo, fico a falar sozinho.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

OS BURROS


Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais

UMA BURRADA


ESTA HISTÓRIA dos submarinos só serve para mostrar como os homens têm sempre opiniões diferentes e que, por isso, é difícil conseguir um consenso onde existam dois seres humanos. Para alguns oficiais da força armada portuguesa, os seus pontos de vista são de que é absolutamente necessário que, na nossa vasta área marítima, não faltem estes assombrosos elementos náuticos e apresentam as suas justificações; no que respeita a outros sabedores, também da Marinha portuguesa, e para a maioria dos cidadãos e até de grande número de políticos que já expressaram as suas ideias, tratam-se de dispêndios que representam um gasto desnecessário para um País como o nosso e sobretudo numa época em que atravessamos uma carência assustadora de falta de fundos públicos.
Prefiro, aqui neste blogue, não entrar em tal polémica da necessidade militar, ainda que, como não poderia deixar de ser, sempre na óptica das opções ligadas ao princípio de que é forçoso ter sempre presente de que não se pode perder de vista a necessidade de salvaguardar as nossas potencialidades financeiras, se me fosse pedida a opinião não hesitava em evidenciar a minha negativa, relegando para outra oportunidade o estudo sobre se a escolha da compra deveria caber aos submarinos ou se era aconselhável efectuar outra opção, por exemplo barcos ultra-rápidos para impedir as entradas ilegítimas, que não param, especialmente de estupefacientes. Mas, repito, esta questão caberia a quem se encontra mais dentro do problema do que um simples curioso que tem de confessar o seu alheamento a este tipo de problemas.
Ora, se o ministro da Defesa que, na altura, resolveu autorizar a referida aquisição, no caso Paulo Portas, que , tal como eu agora, não se encontrava devidamente habilitado para permitir ou proibir, tratou-se, como se verifica agora, de um erro que todos nós temos agora que pagar, e só lhe ficará bem se aceitar a parte de culpa que lhe cabe, muito embora não se lhe deva assacar na totalidade, penso eu, o acto de que foi o autor principal.
O mais escandaloso ainda é que, como parece que sucede sempre que se efectuam compras no exterior de material dito de guerra, surgem sempre os habilidosos das comissões, o que torna, inevitavelmente, mais caras as aquisições, dado que é forçoso carregar na factura os montantes que ficam pelo caminho.
E, nesta situação específica, por ter sido preparado um contrato que, embora tendo interferido no mesmo um ou mais escritórios de advogados portugueses (que, ao que parece, metem sempre o seu “saber” nestas coisas), não salvaguarda devidamente as contrapartidas de compras de produção nacional no valor – total ou parcial, não está muito bem esclarecido -, ainda piora a operação e traz mais prejuízo à parte nacional, com a agravante de fazer prolongar todo o problema para tempos indefinidos… como é nosso costume.
Isto, para não falar já, na notícia que tem corrido por aí de que as contrapartidas que ofereciam os franceses pela compra dos submarinos do seu fabrico eram superiores aos do consórcio alemão GSC que ganhou a parada.
Quer dizer e em resumo: Tratou-se de uma “burrada” – com perdão dos burros – de um número pouco definido de homens públicos, de cabeças que se pavoneiam por aí como sendo todas de grandes inteligências, muito respeitados e, ainda por cima, exibindo posições de responsabilidade, os quais, escorregando entre as mãos de quem deveria exigir pagamento das culpas, nem que fosse por uma exibição nacional da sua incompetência, antes, sem demonstrar a menor vergonha, aí se encontram prontos para interferir as vezes que forem precisas em outras operações que prejudicarão, de qualquer maneira, o pouco que já valemos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

TARDE PARA SER CEDO

Ir para quê tão depressa
se tempo é muito o que tenho
não fiz nenhuma promessa
nem nisso faço empenho
Já é tarde?
Pois que aguarde!

Tenho tempo, se é cedo
assim vou mais descansado
não é caso p’ra ter medo
de lá chegar atrasado
Vou a horas
Sem demoras

‘Inda é cedo p’ra ser tarde
talvez se diga com medo
e há mesmo quem aguarde
por ser tarde p’ra ser cedo
Tarde ou cedo
É segredo

Ir a tempo é nossa sina
o difícil é na hora
esperar numa esquina
desistir e ir-se embora
Paciência tem limites
Acabaram-se os convites

Por depressa que se ande
e por muito que se corra
há quem mais do que nós ande
e dá ordens p’ra que morra
Devagar
Hà que chegar

Aí não passam as horas
p’ra esses, para os que partem
acabaram-se as demoras
e os outros que se fartem
Cá ficam outros com pressas
A pedir as suas meças




O MARECHAL


É O COSTUME que nós, na nossa Terra, não perdemos. Passados anos sobre a morte de alguém que, por isto ou por aquilo, se terá distinguido no meio onde actuava, é sabido que lá vem uma homenagem. E acontece que, em alguns casos, até é justa, só pecará por ser tardia mas, em bastantes caos, não se justificará tanto pela importância excessiva que lhe é dada.
Fernando Pessoa, será um exemplo a relembrar, pois sendo a figura que tanto merece os louvores que lhe são atribuídos, tendo falecido em 1935 enquanto foi vivo teve de se contentar com a profissão que exercia de ajudante de guarda-livros, com um emprego mesquinho que levava a cabo num pequeno escritório situado num terceiro andar de uma daquelas ruas da Baixa. E, no que respeita a atenção prestada por editores quanto às suas obras guardadas em gavetas, só a “Mensagem” mereceu a luz do dia, permanecendo o resto, bem vasto, a aguardar a altura em que se descobriu que tinha existido ali um génio. Quantos, outros que tal ou parecidos, em diversas áreas de produção genial, terão ficado na ignorância do mundo, do que o rodeava e do largo panorama existente?
Vem isto a propósito da homenagem prestada agora ao marechal Spínola. E, neste caso, não se pode dizer que se tenha tratado de uma figura que, em vida, tenha passado despercebida. Muito pelo contrário.
O facto de lhe ter sido concedido o posto, pouco habitual, de marechal, já por aí representou que, enquanto se movimentou no nosso País, ainda lhe foi reconhecido mérito para tanto, tendo aí recebido o privilégio de lhe ter sido atribuído o lugar de Presidente da República do nosso País, depois da Revolução de 1974. Mas, antes disso, foram-lhe confiados pelo regime de Salazar lugares de confiança, não só no meio militar como também na área civil, como governador colonial em África.
É verdade que, a dada a altura, não se conformou com o sistema seguido nas guerras em que estávamos envolvidos no Continente africano e, embora a coberto da sua alta posição militar, escreveu o livro que, há que reconhecê-lo, abriu portas ao movimento dos chamados “capitães de Abril”, o qual deu azo à reviravolta política em Portugal. E terá sido por isso que lhe coube o privilégio de ser nomeado primeiro Presidente das República.
Tudo bem. Só que, nessas funções, em lugar de se ter demitido por incapacidade de levar a cabo a solução dos problemas que se levantaram com o regresso das tropas portuguesas de África, o que lhe cabia como responsável pelos acontecimentos era a luta frontal para que os portugueses que viviam nos que passaram a ser novos países africanos tivessem permanecido nas suas funções, até porque um grande número deles já era natural de cada lugar onde exerciam as suas profissões. Teria sido útil e justo que as negociações para que tal sucedesse não fossem abandonadas e que não se tivesse verificado o drama ocorrido de milhares de compatriotas nossos, alguns, e de naturais das terras de que tiveram de sair desembarcassem em Lisboa, com uma mão à frente e outra atrás.
Mantenho a opinião de que o marechal Spínola, em lugar de se ter refugiado na reforma confortável que passou a gozar, deveria ter assumido o papel que lhe cabia, ainda que alterando alguma coisa nos princípios que defendia quanto à volta a dar no nosso relacionamento com os novos Estados criados. Mas isso é tema para um trabalho mais prolongado. O que sim, era importante e poderia ter resultado em algo positivo na altura, consistia não no abandono das funções que exercia, mas num combate frontal e valente que, no mínimo, teria evitado que o general Costa Gomes o substituísse. E, nesse aspecto, talvez ainda tenhamos que assistir a uma homenagem semelhante, já que há quem lhe tenha atribuído um certo valor.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

OS DENTES

Os dentes, eles são tantos
doerem não admira
são razão de muitos prantos
quem não grita até suspira

Os molares e os caninos
que os de leite já partiram
na época de pequeninos
tiveram-nos mas partiram

Mas depois quando se estragam
há que riscá-los da lista
cá se fazem cá se pagam

Há pois que ir ao dentista
e os postiços se agarram
p’ra não ofender a vista


DOUTORES E ENGENHEIROS


NESTE PAÍS DE DOUTORES, em que quem não seja tratado com um título académico não merece o respeito público e até se procura divulgar essa condição, autêntica ou falsa, para que, à frente de toda a gente, seja tratado por “senhor doutor”, já tanto faz que os presumidos tenham de facto frequentado um curso superior, pois que, na época actual, essa condição não representa que o indivíduo em causa tenha aprendido alguma coisa para além do que a maioria sabe.
Devo esclarecer convenientemente esta afirmação. É que, como é sabido, muitos dos ensinos que a juventude de hoje tem seguido são, como um diário recentemente classificou, “cursos de treta”. A engenharia, por exemplo, quando era ministrada apenas no Instituto Superior Técnico, de Lisboa, nas suas várias especialidades, representava a garantia de se conseguir um saber com base sustentável, fruto dos cem anos de ensino exigente que ali sempre se praticou. Hoje em dia, existem 526 cursos de engenharia em todo o País, com licenciaturas e mestrados, o que é evidentemente excessivo e não presta a menor garantia de que os “engenheiros” saídos dessas “fábricas” não estarão à altura das exigências de uma profissão com tanta responsabilidade como até a evolução da tecnologia requer. Aliás, será caso para perguntar se os inúmeros erros que se têm verificado – ver o caso do túnel DO Terreiro do Paço, por exemplo - não será consequência do pouco escrúpulo que existirá nos cursos relâmpago que existem por aí.
Mas esta situação ocorre em muitas outras áreas do ensino superior. No sector da Economia, por exemplo, que era antes uma carreira que, na maioria dos casos, vinha das Escolas Comerciais e depois passando pelo Instituto Comercial, saindo daí para o ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras), onde se seguia para Economia ou para Finanças, bastantes dos ainda actuantes nesta área são provenientes de tais fornadas – e eu falo por experiência própria, embora não tivesse aproveitado os ensinamentos conseguidos, por preferir o jornalismo -, tal aprendizagem era conseguida com a maior exigência por parte dos professores, havendo que cumprir horários rígidos e os “chumbos” também surgiam por mais de dez ausências ao longo de um ano (o que era preciso “chorar” aos mestres para retirarem as faltas que a necessidade de trabalhar muitas vezes provocava!). Hoje, tendo acabado o ensino profissional (o comercial e o industrial), coisa que antes não sucedia, pois só através da passagem pelos liceus é que se podia seguir para outras faculdades, o que muito me contrariou, talvez se note um menor conhecimento prévio das áreas que têm a ver com as actividades que têm ligação ao sector comercial e industrial.
Em resumo, pois. A negociata que surgiu no sector do ensino, tudo com as aprovações dos diferentes governos que tomaram o comando das operações, em lugar de proporcionar um aumento de conhecimentos nas gerações que preencheram o espaço após a Revolução, o que provocaram foi uma avalancha de “doutores” e “engenheiros” que, devido até à crise que se instalou, fazem parte em grande número dos desempregados portugueses.
Nos países onde a classificação de doutor é só atribuída aos médicos e isso como profissão e não como classificação social e em que todos os restantes são apenas o “senhor tal” e não com qualquer prefixo indicativo de situação privilegiada na sociedade, aí o que interessa, da facto, são os conhecimentos que foram obtidos nas escolas e não o “canudo” que é apenas sinal de vaidade.
Eu não me canso de repetir aquilo que tenho escrito em diversas ocasiões e que, não consistindo a solução de tudo é, pelo menos, uma enorme preparação para um futuro de que tanto Portugal necessita. Repito: a instituição nas escolas primárias (insisto em usar esta denominação) de uma classe de Democracia, em que a pequenada aprenda a saber ouvir, a responder só na altura certa, a respeitar a opinião dos outros, mesmo que seja diferente da sua, a pensar antes de falar e, sobretudo, a entender que a sua Liberdade termina onde começa a dos outros, essa aprendizagem é fundamental para ir formando as gerações futuras. Defendo o princípio de que o comportamento desses alunos e futuros cidadãos passaria a não necessitar de “doutoramentices” para marcar as suas posições profissionais. Numa Nação como a nossa, com apenas três dezenas de anos de prática democrática, com as enormes diferenças sociais que se mantêm e ainda com uma enorme percentagem de iliteracia na população, dar esse passo enquanto, na área da política, os antigos continuam a agredir-se mutuamente e nada avança que torne o nosso País mais próximo da Europa, preocuparmo-nos com o ensino da prática democrática e isso logo na altura das primeiras letras, essa via proporcionar-nos-ia abandonarmos os complexos dos doutores de tudo e, especialmente, do nada!...

domingo, 11 de abril de 2010

MODISMOS

Com tantos recursos o português
sem necessidade de quaisquer ismos
não queremos que com desfaçatez
nos imponham até brasileirismos

Falta de gosto, grande ingratidão
para bastantes dos nossos antanhos
que foram os mestres da ilusão
e que não merecem erros tamanhos

Pois querem mostrar que são bem falantes
largam o “digamos”, falta-lhes a língua
não são afinal mais do que talantes
nem sabem falar como nós falamos

Passou depressa o tempo do “pois”
houve ainda aquele do “portanto”
e outros vícios vieram depois
não parou por aí o nosso espanto

Hoje em dia ”de alguma maneira”
gentes que se dizem profissionais
lançam nos ares sem eira nem beira
o termo horroroso do “logo mais”

Como poderá ser que o nosso povo
consiga usar esta língua bem
se os ignorantes largam como novo
palavras, expressões de Zé-ninguém

E também por dá cá aquela palha
espantam “espectáculo” para tudo
é expressão de quem só se baralha
quando melhor seria ficar mudo

Que nas rádios e nas televisões
só se admita gente preparada
p’ra defender aquilo que Camões
deixou a Portugal: a língua amada

Qualquer língua avança, é bem certo
mesmo com aquele “boé” horrível
mas não podemos deixar de ter perto
tudo que tem de estar inamovível

Se são esses os apresentadores
que merecemos, há que resignar,
para os puristas são só as dores
já sem esperança de os ver mudar


RTP



É BEM VERDADE que, tudo que represente gastar o menos possível no que diga respeito a dinheiros do nosso Estado, constitui uma medida acertada, até obrigatória, e digna de aplauso de todos os cidadãos deste País. As circunstâncias em que vivemos nesta altura obrigam-nos a todos, quer os responsáveis da governação quer a população em geral, a ter tento nas despesas, a fim de procurarmos resistir, o menos mal que nos for possível, às agruras que ainda nos ameaçam e que ninguém nos garante de que estejamos libertos. O exemplo do que se passa na Grécia constitui um aviso que não podemos perder de vista.
Levanto esta questão agora, face ao custo que representou a actuação da RTP no ano de 2009. Foram 2,1 milhões de euros que os portugueses tiveram de suportar, o que representa 201 euros a cada um dos habitantes nacionais.
Tem-se levantado a questão de saber se a televisão oficial deve ou não ser privatizada, o que levou já o Governo a esclarecer que não vê necessidade nessa operação, pois que o que é preciso é efectuar o saneamento financeiro, opinião do próprio ministro das Finanças. De resto, a publicidade que a RTP comercializa, no ano passado atingiu 48,6 milhões de euros, tendo representado uma parte dos ingressos que, com efeito, estão bastante longe dos encargos totais da emissora.
Será, pois, de admitir que, quer a RTP como a estação de rádio nacional, se justifica que se mantenham a ser geridas pelo Estado, posto que existe a necessidade de que, fora dos interesses comerciais, não faltem os serviços de informação, absolutamente isentos, que levem aos portugueses os dados que possuam a utilidade que corresponde a duas unidades de utilidade pública. A defesa da língua portuguesa, por exemplo, através de profissionais que garantam o uso rigoroso do nosso idioma, será uma das exigências a fazer a tais vozes e figuras que prestem o seu serviço naquelas unidades.
Mas é tão vasta a mancha dos chamados serviços públicos, utilizando programações de entretenimento que contenham sempre o princípio de fazer chegar à população portuguesa aquilo que as estações privadas muitas vezes desprezam, tem tanta margem para captar a atenção e o interesse dos ouvintes e espectadores esse tipo de actuação, que se poderá dizer que, enquanto for possível, mesmo representando um encargo controlado, não deverão passar para o sector privado tais benefícios para a população.
Agora, no que não se poderá perder de vista é, com absoluto escrúpulo, o sentido da prestação de um serviço que será de constituir de utilidade indiscutível. É sabido que, no caso de programas de teatro, é muito raro que as televisões particulares se interessem pela sua apresentação. E, tratando-se de autores portugueses, nesse caso então pode-se dizer que não prestam a menor cobertura a tal sector. Quer dizer, as áreas de cultura, sempre ligadas ao entretenimento – isso tem de ser prioridade absoluta -, como concursos relacionados com a literatura, a poesia, música e outras artes que não conseguem atrair em demasia o cidadão comum, tais domínios, se apresentados com motivos de atracção e com prémios que a própria publicidade poderá facilitar, esse sector poderá constituir uma ocupação dos espaços televisivos e radiofónicos.
Em conclusão, pois, o que importa para justificar o que se gasta com a RTP e com a rádio oficial, em todos os seus canais, é que a sua serventia seja exclusivamente orientada para um serviço que se presta, sempre sob a cobertura de programas interessantes que atraiam e não aborreçam os cidadãos. Coisa difícil, por certo, mas, sobretudo em Portugal, que não é um País com largas manchas de população demasiado instruída, o proveito a tirar-se desse serviço, o procurar-se actualizar os cidadãos principalmente os do interior com dados que, um grande número deles, não teve ocasião de recolher nas escolas primárias de épocas passadas, essa utilidade não há dinheiro que chegue para pagar.
Será por existir essa responsabilidade por parte dos elementos que formam a administração e as chefias de serviços que haverá que proceder a escolhas acertadas e, nesse caso, as atribuições de salários terão de ser de acordo com as funções que desempenham, mas sempre sem nunca, em situação nenhuma, excederem o que pode ser considerado razoável, de acordo com a situação do País. Mas tudo isto, concordo, é pedir demais.

sábado, 10 de abril de 2010

DIZER MAL

É fácil ver os defeitos
dos outros, claro está
podem-se tirar proveitos
pois dar é que ninguém dá

Alguém de que não se gosta
ou que não se simpatiza
fica logo bem exposta
a ser alvo da brisa

Ter língua muito afiada
não é raro, não senhor
serve para a punhalada
dada de longe, sem dor

Dizer mal mesmo sem bases
metendo dedo na ferida
mostra do que são capazes
os filhos da malparida

Não se dão conta, porém
de que o veneno que espalham
tem voltas de vai e vem
por vezes os amortalham

O pior é quem diz mal
do outro se diz amigo
afirmando-se leal
retira-lhe o abrigo

Amigos assim, meu Deus
bem melhor ter inimigos
são como os fariseus
só representam perigos

Mas há quem diga também
em forma de ideal
desprezando até o bem:
falem de mim, mesmo mal!






JORNALISTA ANTIGO


ISTO de ter muitos anos de actividade e de, nessa actividade, ter convivido com muita gente que estava ligada ao regime anterior e, depois do 25 de Abril, desde o primeiro dia, também me ter relacionado, até com mais afectividade, com a maioria daqueles que intervieram na nova política, quer por participação no acontecimento quer por, após o facto consumado, terem aderido dando mostras de entusiásticos democratas, essa antiguidade profissional deu-me azo a historiar, no meu conhecimento íntimo e pessoal, muitos casos que me têm recomendado várias pessoas que deveriam ser passados a livro de memórias. Mas eu, que tenho outras obras para divulgar, tenho-me recusado sempre a dar largas a tais escândalos, como alguns se podem assim classificar. Para inimigos, já chegam os que poderei ter, mesmo sem ser por minha própria iniciativa, mas sobretudo por lhes ter sido algum dia útil e não gostarem de o reconhecer.
Muita dessa gente e alguma ainda viva, tenho que o dizer, por ter compromissos algo comprometedores assumidos com a situação da época da ditadura, teve de usar de todas as manigâncias para dar a ideia de que o seu espírito de Liberdade vinha de tempos anteriores e que até tinha sofrido as consequências de não se mostrarem então coniventes com esse regime. E o certo é que bastante de tal gente, pela sua necessidade de enganar – porque também há muitos que preferem fingir que acreditam -, tem conseguido, ao longo destes 36 anos, ir garantindo a sua credibilidade e até, em casos excessivos, com enorme sucesso e fazendo mesmo parte de iniciativas governamentais e de lugares apetitosos que lhes são confiados por apagamento ou ignorância dos seus passados comprometedores.
Há que excluir deste grupo, sem sombra de dúvidas, aquelas figuras que, mesmo tendo participado em acções concretas que eram regidas pelo salazarismo e seguinte, não podem ficar marcados ad etaernum, pois a sua capacidade intelectual, de competência na sua área e até de utilidade que ainda podem transmitir ao nosso País, tudo isso é bastante para não serem renegados da vida no campo democrático. Há exemplos disso e a generosidade política manda que não sejam feitas discriminações dessa espécie. O que perturba são todos aqueles que, não assumindo o seu passado político, fazendo tudo para que os outros os tomem como autênticos democratas “desde sempre”, se passeiam na nova época assumindo posições e recebendo mesmo honrarias debaixo dessa falsidade revoltante. Poderia indicar uma boa dezena de nomes desses engenhosos e contar até algumas histórias de que tenho conhecimento, directo ou por pertencer ao conhecimento de quem se movimentava, por razões profissionais, como era o meu caso, nos meandros dos sabujadores de profissão.
Não me façam perder a paciência, que eu um dia, se as coisas continuarem a caminhar em Portugal como se assiste hoje a tanta falsidade, ainda surjo, neste blogue ou de uma outra forma diferente, com os nomes e os acontecimentos que me estão a engasgar excessivamente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

CALVÁRIO

Há ou não razão p’ra desanimar
neste calvário imenso em que vivemos?
se um dia isto tiver de acabar
e d’algo pior ainda tememos
e não se passa só em Portugal
o mundo inteiro não está melhor
para se conseguir fugir do mal
tanto faz que se vá p’ra onde for

A Terra anda toda ela às voltas
acalmia é pouco que se encontra
pois muitos malvados andam às soltas
já não escapa nada em qualquer montra
e nas finanças grandes roubalheiras
na política grassa a corrupção
pouca vergonha já não tem fronteiras
ao nosso lado pode estar ladrão

Não é bem assim, dizem confiados
os que ainda não sofreram danos
mas um dia destes ficam calados
se os atingirem alguns fulanos
é que isto de trabalhar não dá
não é bastante p’ra levar a vida
se é isso que se passa por cá
é igual aos que vêm de fugida

Calvário da vida não chega a todos
há os que conseguem bem escapar
para uns tantos os terem a rodos
outros nunca precisam de suar
ainda bem, pois não é regra geral
o ser feliz é coisa que existe
para os que só enfrentam o mal
há sempre aquele que a tudo resiste

ATENÇÃO À GRÉCIA!



O AVISO que, um dia destes, um governante grego fez a um jornalista da televisão portuguesa, com a frase “tenham cuidado que isto que nos está a suceder anos, em breve acontecerá a vocês!”, esta advertência deveria ser bem entendida e pensada pelos responsáveis portugueses, para não dizerem depois que foram apanhados de surpresa.
Mas este tipo de conselhos não pegam nos membros do Governo que temos, a começar, como é totalmente sabido, pelo primeiro-ministro que, sempre que surge em qualquer inauguração ou visita a obra executada, por mais insignificante que seja, lá vai ele com as discursatas sem ponta por onde se lhes pegue, e em que as afirmações são repetidamente de elogio em causa própria, de que somos os melhores de todos, que nos encontramos numa posição invejável e com outras maravilhas que só ele é que é capaz de se convencer que somos um País que vive nesta altura um período de cinco estrelas.
Na verdade, o exemplo daquilo que está a ocorrer no País da Acrópole, o que nos tem de provocar grande lástima até porque alguma coisa nos liga a esse povo, para não falar já na língua, que chegou, muitos séculos atrás, a este extremo europeu e que deixou marca na origem de muitas das nossas palavras, essa prova lastimável não pode deixar-nos indiferentes e cabe-nos agora lutar, no seio da Comunidade, para que seja prestada uma ajuda que retire aqueles parceiros do afogo por que passam. Por outro lado, ninguém sabe qual é o dia de amanhã e, quanto mais não seja, até por esse motivo se justifica plenamente que tomemos uma posição positiva na referida causa.
Mas, para além dessa razão um pouco egoísta, no que todos os membros comunitários têm obrigação de participar é na luta para que o que começou por ser apenas um mercado comum, atinja rapidamente o objectivo que justificou a sua criação: a de uma família unida num Continente e em que não só a moeda deve ser comum – apesar de se manterem ainda umas tantas tristes excepções -, mas em que os interesses de diferentes ordens não podem deixar de se encontrar relacionados uns com os outros, na ordem jurídica mas não só, pois que apenas uma Assembleia comunitária em Bruxelas não é bastante para que os diferentes povos, com línguas distintas e ainda bem, se sintam afastados da caminhada que tem de ser levada em absoluta harmonia e com uma ligação estreita que assente numa política de mãos irmãmente dadas.
Não sei se, depois de tantos anos em que as dúvidas ainda se verificam nos 27 países que fazem parte da Comunidade, se chegará alguma vez aos tão sonhados Estados Unidos da Europa. Confesso-me duvidoso em relação a tal ideal, segundo é a minha forma de ver o problema. Pois, provavelmente, os seres humanos que fazem parte deste Grupo não perderão de moto próprio o espírito egoísta que faz parte da sua formação. É que eles são isso mesmo: seres humanos. E estão ainda por descobrir Homens que sejam capazes de pôr de parte interesses próprios e se entreguem abertamente ao bem geral!
A não ser que uma guerra, ainda muito pior do que aquela de que se sofreram as consequências em todo o mundo – e ainda não tinha sido descoberta a bomba atómica -, obrigue a darem as mãos aqueles que, nas actuais circunstâncias, se mostram ainda esquisitos em relação até à moeda única e a muitos outros acordos de governação, que poriam fim a muitas causas de mau entendimento que já não têm justificação. Uma delas seria a da “invasão” em massa de imigrantes de outros continentes, que, sendo de proteger, não pode continuar em moldes como tem ocorrido até hoje.
Mas esta é uma opinião, como haverá muitas. E é bom que se pense naquilo que vai ser o futuro, dado que o que poderá ocorrer em Portugal tem tudo a ver com o que se passar fora de portas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

GENTE

Todos por cá somos gente
com membros, tronco e cabeça
que fala verdade e mente
que cai e também tropeça

Boa gente
Sã e doente

Há de tudo neste mundo
muitos mil de milhões
todos querem ir ao fundo
na procura de opções

Quem sente
É boa gente

Quem cá nos põe de repente
não pergunta se queremos
vimos aumentar a gente
sem saber se cabemos

Seja ateu ou crente
Cada um é bem diferente









VENDER? NEM ÁGUA!...


COM TODA ESTA BUSCA que se constata afligir alguns dos políticos que se situam à frente do grupo mais responsável pelo estado em que se encontra o País, e não só esses mas também aqueles que surgem nos écrans televisivos e nos artigos de jornais a opinar sobre a forma de solucionar o grave défice nas contas públicas, um dos temas que é constantemente repetido é o da necessidade absoluta de Portugal se dedicar energicamente à exportação das suas produções, pois que, cada vez em menor escala, tem sido desenvolvida essa área que, em termos económicos, pode compensar as compras que somos obrigados a fazer no estrangeiro, como, por exemplo, os combustíveis, mas não só.
Pois bem, essa é a teoria. Mas transformar esse desejo em atitude prática já é outra conversa. Há vários meios para podermos receber dinheiros de fora, quer em divisas quer na moeda que agora pertence a toda a Europa, o Euro, e o turismo, todos o sabemos, é um meio de cá ficar o que é oriundo de países estranhos. Mas, obviamente, a colocação de produção nacional a ser consumida no exterior constitui a via mais antiga de receber a contrapartida, ou seja o produto monetário que entra e que contribui para enriquecer os cofres nacionais.
Nada disto é novidade e qualquer português, por mais afastado que se encontre dos princípios económicos, sabe que, tal como os salários, que são oriundos de fora de casa, também os pagamentos que entram pela porta dentro constituem um contributo para se poder viver melhor em família.
Agora, o que não se consegue pôr em funcionamento é a forma como se realizará esse desejo, já que está provado que os portugueses, desde os tempos em que se expulsaram os judeus do nosso País, oferecendo de mão beijada à Holanda esse privilégio, não fomos nunca capazes de dar mostras de possuir essa habilidade de vender e tal se verificou fartamente com a descoberta de “novos mundos”, em que, nem por isso, conseguimos tirar partido desse facto, como sucedeu, por exemplo, com os ingleses e com os holandeses, que apareceram em terras estranhas muito depois de nós.
Mas a mim, como já me referi concretamente a este ponto, o que me custa a entender é que, existindo por cá um organismo, antes chamado ICEP e que, desde há pouco tempo, passou a ter um acrescento de uma letra, pois agora denomina-se AICEP – esquisitices bem ao nosso modo! -, cujo objectivo, desde a sua criação, é o de abrir portas por esse mundo, por forma a indicar caminhos aos nossos produtores, a fim de que sejam facilitados os contactos para serem efectuadas posteriormente as vendas correspondentes, essa actividade nunca foi desenvolvida em moldes que correspondam às nossas necessidades e isso, digo eu que tenho acompanhado assiduamente tal actividade, por deficiência de organização e por os elementos humanos que estão inseridos em tal propósito não serem aqueles que têm características de bons vendedores. Há “doutores” a mais e “caixeiros-viajantes” a menos!
Se o Estado investisse convenientemente neste organismo, se o Ministério de Economia (que julgo ser o pelouro a que pertence o AICEP) acompanhasse convenientemente os resultados que são obtidos em cada destino e fomentasse, dentro do País, a ligação dos produtores, provavelmente os objectivos já teriam sido alcançados, incluindo o sector do turismo, posto que um os gastos excessivos no Orçamento do Estado que resultam dos diferentes escritórios abertos no estrangeiro, não são compensados com os resultados esperados, e isto também por não pertencer ao mesmo conjunto a promoção turística que, essa é feita à parte, com todos os elevados encargos que isso representa.
Mas, ao fim e ao cabo, está mais que demonstrado que as forças públicas nacionais não conseguem solucionar o problema da colocação dos nossos produtos nos mercados estrangeiros, nem mesmo quando se perfilam negócios de contrapartidas, como foram os que se proporcionaram com a compra dos tais submarinos (que negociata!), em que dispusemos da oportunidade de vender o equivalente a mil e 400 milhões de euros e nem isso fomos capazes de fazer, o que, aliás, sucedeu também com 400 milhões de euros na compra dos helicópteros e isso para não referir as compras pela TAP de aviões que, se sabe, podem ser adquiridos com as mesmas contrapartidas que nunca aproveitamos.
Então, um Sócrates, que passa a vida a gabar a sua actuação governamental, não é capaz de substituir as suas passeatas pelo norte de África e pelas suas corridinhas ridículas e pegar nestes assuntos que são de extremíssima importância para Portugal?
Enfim, é por estas e por outras que a minha esperança em assistir ainda a uma ressurreição da economia portuguesa se encontra cada vez mais longe de ser recuperada. A História desta nossa época, um dia contará como foi possível aglomerar tanta incompetência em meia dúzia de anos. E como não sou eu que mando (!), resta-me apenas assistir a um estado deplorável da actuação de cabeças que não servem para liderar nem uma mercearia, quanto mais um País.
Ficaremos desta forma per omnia seculo, seculorum… Já não serão é outros oito séculos, que a tanto não chegamos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ALEGRE PRESIDENTE

Se Alegre assim pensa
lá tem as suas razões
que ser poeta compensa
ao menos cria ilusões

P’ra poder ser Presidente
a poesia até conta
diz o Manel bem contente
com sua resposta pronta

Políticos há bastantes
alguns até fazem rima
é hoje como era antes
mas merecem pouca estima

Mas Presidente poeta
que gosta de ladainhas
se lhe der uma veneta
até canta às alminhas

Que essas, que já lá estão
não interferem no voto
não têm opinião
e nada lhes cai no goto

Se Presidente em Belém
por cá para pouco serve
se poesia faz bem
então que Deus o conserve

Dar poesia ao País
aqui onde rima falta
é tornar algo feliz
e ir distraindo a malta

Tal como com estes versos
nada muda tudo resta
os políticos adversos
também lhe fazem a festa

Sim Senhor, Manuel Alegre
nessa luta vai em frente
procura que se integre
esta tão dispersa gente

À volta de qualquer cousa
mas sempre com alegria
porque a vida é uma rosa
se tem junta a poesia



POETA PRESIDENTE?


ANDA JÁ há algum tempo a anunciar que vai concorrer às eleições para a Presidência da República, o que talvez possa ser considerado como tratando-se de uma proposição excessivamente antes do tempo ideal. O seu concorrente principal – porque poderão surgir ainda outras disposições semelhantes, como é costume suceder -, Aníbal Cavaco Silva, gozando da posição privilegiada por se tratar de disposição para repetir as funções que já exerce, parece não estar muito preocupado com a concorrência. Dizem os hábitos que, naquele lugar, quem se submete a novo escrutínio por se encontrar já a desempenhar o papel que venceu da primeira vez, vê sempre repetido o exercício anterior, até porque não lhe é permitido sujeitar-se a nova votação. São oito anos e fica por aí.
Pois Manuel Alegre, com uma caminhada já sua conhecida, pretende tentar de novo a possibilidade de se instalar no Palácio de Belém, e, para isso, é natural que busque os apoios que considerar mais fiáveis, entregando-se desde agora à tarefa de percorrer o País e de estar presente em almoços e jantares, bem à portuguesa, que lhe são proporcionados em vários locais do nosso território e sempre com demonstrações de grande entusiasmo por parte dos apaniguados que os há sempre à espreita de uma oportunidade que as circunstâncias poderão proporcionar se…
No entanto, mesmo tendo sido constatado que Cavaco Silva não se mostrou nunca disposto a dar mostras inequívocas de discordância com algumas atitudes, políticas e não só essas, tomadas pelo Governo de Sócrates – e também os momentos que se atravessaram não foram os mais apropriados para criar ambientes de tensão, pois houve sempre que atender que não convinha transferir lá para fora, para os credores, um panorama de desentendimento -, apesar dessa ausência de posição clara o mais expectável é que os portugueses não se sintam muito animados a fazer agora experiências com a mudança do primeiro Magistrado da Nação. Isto é o que eu penso, mas não é de descurar outra hipótese e, neste caso, o depósito da maioria dos votos no poeta político será de levar em conta. Mas ainda estamos longe do momento concreto.
Manuel Alegre, que esteve exilado largos anos na Argélia, onde compartilhou com o meu saudoso Fernando Piteira Santos uma fuga da perseguição da PIDE, sofreu na pele os efeitos da ditadura. É, por isso, alguém que tem experiência do que representou ter enfrentado um sistema que não perdoava a quem não comungava desses ideais, coisa que, na larga maioria dos políticos que se repimpam hoje com as regalias de que usufruem todos os que só passaram a existir depois do 25 de Abril, não é muito corrente encontrar parceiros. E essa posição tem de constituir um activo que, com o andar dos tempos, tem vindo a perder valor.
Será, porém, que os portugueses levarão muito em conta essa circunstância? Eu, por mim, julgo que não. Todos os cidadãos nacionais que passaram já a chamada meia-idade, ou seja que viveram mesmo o regime da “outra Senhora”, uns muito desiludidos com a falta de competência em ter sido bem utilizada a Democracia que tanto se aspirava e outros já com as esperanças perdidas de assistirem a um Portugal que compense o mau que se passou antes, não serão capazes de acreditar que tudo valeu a pena.
Só nos resta, portanto, é sentarmo-nos e esperar…


terça-feira, 6 de abril de 2010

FAÇO ISTO

Eu agora faço isto
só escrever e nada mais
é verdade, não resisto
a pensar jogos florais

Primeiro à mão, com caneta
num sítio de inspiração
é o que precisa um poeta
para encher o seu borrão

Mas se isso não fizesse
por p’ra tal não ser capaz
seria alguém que apodrece

Sem encontrar nunca a paz
e aos poucos lá fenece
o que também tanto faz!




AH, QUE ENTREVISTA!...


COMO EU GOSTAVA de poder entrevistar em plena televisão o nosso José Sócrates. Garanto que não o iria acusar de nenhuma falta, que não faria o papel de julgador, que não faria qualquer exclamação perante alguma afirmação que o primeiro-ministro entendesse demonstrar. Não senhor, nada disso. Só faria perguntas e, naturalmente, se o entrevistado abusasse das repetições de elogios à sua obra, nessas circunstâncias chamá-lo-ia à realidade e pedia-lhe para não insistir em elogios em boca própria. Que o que tinha que fazer era só responder às minhas perguntas.
Agora, o que eu levaria era um trabalho de casa o melhor preparado possível, pois que muita matéria existe que pode ser apresentada ao responsável do Governo e a que o mesmo tem obrigação ou, pelo menos, o dever de esclarecer os portugueses, libertando-o também a ele de uma série longa de acusações surdas que, ao não serem esclarecidas, constituem uma permanente mancha negra que paira sobre a sua cabeça. Quem sabe se sem razão para tanto.
Uma das questões que lhe apresentaria era a de se não o incomodava que umas tantas figuras que se pavoneiam no nosso ambiente nacional e que usufruem de escandalosas remunerações em empresas que, de algum modo, têm dependência do erário estatal. A notícia que foi divulgada recentemente de que António Mexia, presidente da EDP, recebeu 3,1 milhões de euros no ano de 2009, o que deu 8.500 euros por dia, não passou, obviamente, sem conhecimento de Sócrates. E mesmo que o poder do número do Governo não chegue para pôr cobro a estas monstruosidades, no mínimo o que se esperaria era que se ouvisse da sua boca algum comentário que desse mostras aos cidadãos nacionais, que se arrastam pelo País a lutar com as maiores dificuldades de sobrevivência, de que, da sua parte, era visível um claro descontentamento.
Por outro lado, também os restantes administradores da empresa EDP levaram para casa cerca de 17 milhões de euros como remunerações e outros atributos em 2009, acrescentando-se a esta pouca vergonha o caso da ZON, que tanta publicidade faz nas televisões para tentar aumentar os seus ganhos, e cujos administradores arrecadaram 4,8 milhões de euros.
Mas será “apenas” isto? É claro que não! Para além do muito que não chega ao conhecimento público, aquilo que se consegue ir sabendo diz que há de tudo, os que recebem fortunas e aqueles que, não tendo excessiva interferência no andamento das tais empresas, lá vão depositando nas suas contas verbas também apreciáveis. Por exemplo, o advogado Daniel Proença de Carvalho, por ser “chairman” da mesma firma, recebeu, de uma só vez, 250 mil euros, e, na Controlinvesta, Joaquim Oliveira teve direito a 21 mil por ser vogal não executivo da mesma empresa. Mas, já Rodrigo Costa teve direito a 3.500 por dia, isso para além de 300 mil de prémio de exercício, os quais juntou a 347 mil por prémios referentes a “exercícios anteriores”.
Mas a lista de “felizardos” com estes tipos de benesses, não se fica por aqui. A relação é longa e nem todos (ou até bem poucos) são assinalados publicamente.
E já agora, dado que se levantou nesta altura a questão de fazer referência aos inúmeros projectos de engenharia de casas na zona da Guarda que Sócrates executou (ou só assinou, o que á no mesmo), quando já exercia funções de deputado – o que não é autorizado -, também viria esta questão à baila, como acréscimo das inúmeras faltas que há a apontar ao governante.
Ora aí está o que faria parte das inúmeras perguntas que apresentaria a José Sócrates e não só deste tipo mas de muitos outros temas que andam na boca dos portugueses mas que nenhum entrevistador tem sido capaz de propor ao primeiro ministro.
O mais provável, porém, é que o visado, ao tomar conhecimento de que seria eu a colocar-me na sua frente e com a fama de independente que eu sempre tive e mantenho, nessas circunstâncias não aceitaria dar a entrevista. Digo eu…

segunda-feira, 5 de abril de 2010

CIRCUNSTÂNCIAS

Há aqueles que na vida acreditam
que a sina é que comanda o destino
e por isso tal princípio debitam
que ainda antes de se ser menino
como dizia filósofo espanhol
sem ter de usar qualquer arrogância
que todo aquele que goza do sol
está sujeito a toda a circunstância

Assim, as circunstâncias e o homem
atravessam em conjunto este mundo
e por muito que não queiram que tomem
a atenção perde-se num segundo
e o facto de um passo dado então
cria a circunstância do acidente
podia ser em outra ocasião
mas foi ali e com esse existente

Também ficar rico assim de chofre
só porque comprou o número certo
passar a utilizar sempre o cofre
e não sentir já de dinheiro aperto
foi ou não foi essa tal circunstância
de ter então comprado a cautela
quando raramente tinha tal ânsia
e não sabe por que lhe deu aquela

Ortega y Gasset foi autor da tese
de que o homem e as circunstâncias
não é princípio que alguém despreze
e por muito que goze de abundâncias
não vive isolado do que à volta
lhe proporciona bem e mal
pois que mesmo dispondo de escolta
não difere de um qualquer mortal

O que há então que esperar com ânsias
é que a vida a nós nos gratifique
com a melhor de boas circunstâncias
que tal sorte de todo modifique
o que depois nos pode suceder
que as doenças por longe lá andem
que o trabalho tenha bom correr
e que todos malefícios desandem

TERRÍVEL BUROCRACIA


SE ME PUSESSEM A QUESTÃO de ter de resolver o problema da burocracia, se me coubesse essa difícil tarefa de encontrar a forma de ultrapassar a chamada papelada, os triplicados e quadruplicados que são impostos tantas vezes por serviços públicos a que se recorre para resolver uma questão pendente, tenho de confessar que não era portador de uma solução tirada assim do chapéu. Seria obrigado a pensar muito, a formular várias tentativas de resposta, a não ter grande dificuldade em determinados casos mas, no cômputo geral, numa tomada de posição que servisse a generalidade das situações, aí, seguramente, não seria capaz de, no estado em que se encontra todo o esquema que provoca tantas dificuldades e demoras, ter a medida exacta e generalista que pusesse termo a essa arrepiante travão da actividade humana.
E, segundo parece, tal maleita onde impera com mais galhardia é nos países latinos, sendo que Portugal, para ser campeão de alguma coisa, se situa à cabeça desse grupo.
Na verdade, neste nosso cantinho existe a ideia de que há um determinado prazer em não ver simplificada a vida do próximo. Verifica-se a impressão de que não gostamos, todos nós, que os outros resolvam os seus problemas com excessiva facilidade. E, como a administração pública é composta por lusitanos de gema, sendo que os seus superiores surgem exactamente dessa mole popular e os cumpridores do estabelecido pelas cabeças acima também não fazem nenhum esforço em aliviar as exigências, é na burocracia que depositam todos os seus maus humores, a qual constitui até uma espécie de vingança por o público que acorde aos guichets não pertencer ao grupo dos funcionários públicos. Isto digo eu, mas admito que estarei a exagerar.
Seja como for, o que não constitui um ponto de vista que possa ser incluído no mundo das dúvidas é exactamente esse da peste da burocracia e mesmo com a chegada e uso profuso da Internet, tal facilidade não serve, neste nosso País, para eliminar as duplicações que vêm do tempo do papel químico. Trata-se de uma doença transmissível que os burocratas não abandonam e que passa, de geração em geração, por não sermos capazes de resolver os problemas, ainda que as novas tecnologias ofereçam condições para se mudar o rumo dos “empanturranços”.
Mas, eu quando digo, para não me comprometer, que não tenho a solução milagrosa para pôr fim à burocracite aguda de que padecemos, sempre me atrevo a adiantar que, pelo menos, criando um curso rápido, de 2 a três dias, para que todos os funcionários públicos pudesse frequentar sem afastamento demasiado longo dos serviços – e isso, incluindo desde directores-gerais -, cujo efeito seria o de introduzir no espírito desses trabalhadores a tendência para facilitar, tanto quanto possível, a rapidez de execução, procurando evitar as paralisações habituais de papelame, de secretária em secretária, de repartição em repartição, o que normalmente se traduz em meses e até anos de demora dos portugueses que são obrigados a sofrer as consequências dos que não têm pressa nenhuma em fazer andar o País.
Se esta achega não tem pernas para andar, então que se instituam outras formas, mas manter-se o estado de sonolência que existe entre nós, provavelmente desde o rei Afonso Henriques, sobretudo agora com a junção da crise que também vai servindo de desculpa para tudo e para nada, a isso é que é forçoso pôr termo, e se não fosse por outras razões pelo menos com o argumento de que as empresas estrangeiras que pretendem instalar-se por cá não se sujeitam a esperas de autorização que os investimentos paralisados não suportam.
Pensem nisto os “timoneiros” governamentais, se é que são capazes de cansar o cérebro!...






domingo, 4 de abril de 2010

PASTOR



Se tivesse que ser outra coisa
na vida
e me dessem a escolher
logo à partida
se soubesse o que sei hoje
por pouco que seja
esteja como esteja
talvez tivesse optado por ser pastor
por certo estranho
junto do meu rebanho
para os outros que me olhariam
andando por montes e vales
entregue ao não te rales
mas sempre com papel e caneta
a inspirar-me na Natureza
e a reproduzir sua beleza
e só pensar nos bons actos
que o ser humano poderia fazer
e pondo bem longe a hora de morrer

Que bom seria ser pastor
viver isolado das maldades
ser feliz
de raiz
ouvir apenas os balidos
das minhas companheiras
as ovelhas
e de vez em quando os ladridos
do fiel amigo
sempre atento ao perigo
que possa existir
de alguma fugir
do grupo que me dá
esta profissão de pastor

De manhã à noite
ter a imaginação
sempre em acção
ver passar as estações do ano
todas elas úteis e benéficas
sentir o sol e o vento,
mas ter presente o talento
beijando cada flor do caminho
cuidando em raízes não pisar
e deslumbrando o olhar
sem ambições, sem maldades
pegando no cordeirinho
que também quer o seu caminho
e, de vez em quando,
fazendo saltar os poemas
agarrado ao cajado
que também puxa pelos temas
sem pretender compreender
o mundo que se atravessa
e que desde ali não se pode ver

E à noite, recolhidas as ovelhas,
abrigado no curral, pensar
à luz do petróleo, sonhar
lembrar-me que os ricos
sofrem por querer mais
que eu com os meus nicos
sou feliz, por demais.

Ser pastor neste mundo
é o que eu queria no fundo.