sexta-feira, 14 de maio de 2010

PAPA PARTE


O PAPA, depois da canseira que tem representado para o próprio a sua visita a Portugal, tendo partido hoje de Fátima para o Porto, segundo o que se pode deduzir da opinião pública, que não era muito favorável, pois que, depois de João Pulo II, se apresentava difícil competir com a popularidade que o anterior Pontífice conquistou, com esta sua passagem marcou uma mudança, estando a transmitir simpatia e um certo ar de bondade. Os católicos, apostólicos, romanos, que é a maioria do povo português, têm razões para, pelo menos neste sector, poderem contrapor satisfação à má impressão que, também um grande número de cidadãos nacionais, vai acumulando do governante político que temos. Mas, hoje que é o dia da partida para Roma, despedindo-se de Portugal, cá ficamos todos a pensar na “trajectória de recuperação”, que é a única compensação que nos resta.

QUEM, até ao último momento, anda a comer lagosta quando, as suas possibilidades já não chegam nem para camarões, para não dizer até para uma simples açorda, ao dar-se conta de que a carteira está vazia e que as dívidas mesmo ao padeiro já são muito elevadas, então, repentinamente, passa a alimentar-se apenas de pão seco, quem assim procede só pode ter uma designação: a de cabeça tonta e de inconsciente em relação às realidades que o envolvem.
Este exemplo chega para apontarmos o dedo a quem cabe, perfeitamente, esta caricatura. O que, com todo o ar sabedor e sem admitir conselhos, fez com que, perante uma crise que é mundial, bem sabemos, mas que se distinguia à distância que nos atingiria, fechou os olhos e não quis, teimosamente, começar a tempo a tomar as medidas que se impunham para não ter de actuar agora em extremo de causa.
O IVA, o IRS, o IRC e outros impostos vão subir a partir de 1 de Julho próximo. Isso, entre outras medidas que visam obter fundos para o Estado enfrentar a crise. Ficou decidido ontem em Conselho de Ministros. Não há outro remédio. Bruxelas impôs, essa é que é a verdade, muito embora o primeiro-ministro não tivesse tido a coragem de o relatar na reunião que teve com os jornalistas, a qual foi transmitida ao País. Esperemos, porém, que o perigoso sonhador Sócrates, através da notícia que ele próprio fez chegar ao conhecimento dos portugueses, com o ar pateticamente alegre de um vencedor do campeonato de futebol, que o crescimento económico do 1.º trimestre deste ano foi mais benéfico por cá do que o que sucedeu no resto da Europa – o que é animador, mas não justifica o cognome que o governante logo lhe atribuiu, de “trajectória de recuperação” -, não resolva considerar que esse passo transitório faça com que fiquemos descansados em relação ao futuro. E, igualmente, Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças que dá mostras de manter comunhão de ideias com o seu chefe, deverá sentar-se e analisar melhor as contas que têm de ser bem feitas, se bem que não se livre já dos maus conselhos que tem passado para o parceiro e comandante.
Estava mais do que garantido de que não era possível fugir à subida dos impostos, da mesma maneira que os cortes nas despesas públicas constituíam e continuam a representar uma medida que tinha e continuará a ter de ser feita. Mas, no que diz respeito a este gesto, também ele deveria ter sido motivo de uma atitude prioritária do Executivo, e há ainda muitíssimo por fazer. Incompreensivelmente, o chefe do Governo e os seus ministros não se debruçaram com critério apurado sobre este problema que, está mais do que claro, é o que custa mais a Sócrates deitar a mão. Enfrentar situações que implicam retirar benesses e proventos no meio que lhe está próximo, porque resulta de favores que concedeu largamente a figuras que o têm apoiado e é visível que o puxar o lustro ao umbigo não é coisa que se abandone pelo caminho. Essas medidas que, no seu Governo ou no próximo, têm de ser tomadas a fundo, também por ordem de Bruxelas – que é quem, na Europa, ao fim e ao cabo, ralha e manda, quando não assiste a uma acção adequada por parte de um Governo pertencente à União Europeia -, levarão um corte drástico e, provavelmente, nos carros de luxo que são usados por suas excelências, que terão de passar a andar de bicicleta, pois que nós somos desses que nos transferimos sempre no oito para o oitenta – o que, neste caso, é precisamente ao contrário.
Parecerá uma afirmação espirituosa esta da bicicleta, mas, depois do uso e abuso das viaturas último modelo que são atribuídas a funcionários do Estado – e não são apenas os membros do Governo -, o que poderá acontecer, sempre por ordem de Bruxelas, pelo menos enquanto este Poder existir, é o fim das marquesices, já que não foram capazes de seguir uma alternativa que eu tenho largamente defendido nos meus escritos, de que isso dos carros e dos motoristas fixos ao serviço dos “Senhores” deveria ser substituído pela requisição da viatura que estivesse disponível e do condutor também nessas condições. Verificar-se-ia uma redução de automóveis e de motoristas, na ordem dos 70 por cento.
Mas isso é excessivo, pelo menos nesta altura ainda…

quinta-feira, 13 de maio de 2010

VOLTAR PARA TRÁS


Dizem depois é melhor
que há perdão, complacência
que do mal venha o menor
que não falte a paciência
porque p’ra trás ninguém volta

Que os que ficam, se aguentem
se tolerem aos demais
que chorem os que mais sentem
a falta de outros mortais
que p’ra trás não há quem volte

Sem perder a esperança
uns com fé outros sem ela
com ilusão de criança
se entra nessa viela
já que p’ra trás ninguém volta

Por cá já todos sabemos
o que é isso de estar vivo
e há razões quando tememos
o que há de mais nocivo
só que p’ra trás não se volta

E por muito mau que seja
mais vale ir suportando
e não há que ter inveja
daqueles que vão ficando
pois que p’tra trás ninguém volta

DÚVIDAS


AINDA com o Papa entre nós, assistindo, pessoalmente ou através dos órgãos de comunicação social, ao trajecto que lhe foi preparado, talvez não seja o momento mais apropriado para nos dedicarmos a questões de maior complexidade. No entanto, talvez também por isso, seja possível fazer uma paragem e raciocinar um pouco. Experimentemos.

SEMPRE QUE oiço alguém dizer que só lhe apetece é acabar de vez com qualquer coisa com que não está de acordo, dou comigo a pensar nas consequências de tal atitude e no que viria a seguir se fosse possível fazer a vontade aos tais descontentes.
Isto, dito só assim, não obterá, por certo, um consenso muito generalizado. Pois que, na vida dos cidadãos surgem sempre situações que não se solucionam apenas com a exterminação, pura e simples, de uma causa original. E darei alguns exemplos:
No caso das touradas, aqueles que são contra o que se chama de sofrimento dos protagonistas em tais espectáculos, os touros, costumam defender a tese de que se deveria terminar com a criação de tais animais. E era precisamente isso que sucederia, pois que um touro, que é criado até cerca dos quatro/cinco anos antes de chegar à idade de ser corrido nas praças, atingindo um valor de mercado que ultrapassa muito o que representaria se se destinasse apenas ao consumo da carne, se não tivesse aquele propósito seria uma raça que teria unicamente o caminho dos talhos e, com essa alteração, não se passariam a cultivar cuidadosamente os referidos animais. Daí o ter lugar a interrogação se o Homem pratica melhor acção num ou noutro caso. E haja quem responda.
E, já agora, a talhe de foice, pode-se pôr a interrogação de se é mais útil quando nos pomos a pensar nos problemas que nos assaltam ou se é preferível dizer como aquele que afirma “não ter tempo para pensar”. Se, pormo-nos a matutar sobre situações hipotéticas que podem ocorrer ou tentarmos descortinar motivos que levantam dúvidas, será saber-se utilizar proveitosamente o espaço cerebral que possuímos ou se, pelo contrário, não tendo a menor utilidade encontrarmos a resposta, é preferível arredar das ideias tais assuntos. Em resumo, se se está mais próximo da felicidade não castigando a imaginação com questões que assaltam os nossos pensamentos ou se, pelo contrário, aflige-nos a ignorância e fazemos conjecturas quanto a eventuais contestações que poderemos encontrar pelo nosso próprio esforço de cabeça. Mesmo que nunca consigamos obter satisfação no que respeita à verdade absoluta.
Ter dúvidas é, para alguns, uma constante, ser portador da consciência do engano com frequência representa também uma preocupação que não transporta em si grandes doses de felicidade. Será por isso que os seguros da sua ciência e da correcção dos seus actos andarão mais perto de ser felizes do que aqueles que, embora não deixando de exercer as suas funções, lá vão caminhando com a amargura da indecisão.
O Homem luta sempre entre os dois pólos. Vá lá saber-se se é preferível optar por um dos dois pólos opostos.
E, já agora, uma dúvida deverá ocorrer, nestas alturas, a muitos dos portugueses que não têm horror ao pensamento: será que um governante novo, que surgisse nesta fase da vida portuguesa e substituísse o José Sócrates, seria (ou será) capaz de solucionar os graves problemas que nos afectam? As suas acções, por mais condizentes que fossem (sejam) em ralação ao que os nossos cidadãos consideram serem as ideais, resolveriam (resolvem) em profundidade uma crise que se tem vindo a arrastar ao longo dos últimos tempos?
Vale a pena fazer o exercício da imaginação para tentar tomar partido por uma de duas coisas: ou o sossego proveniente da boa opção que tenhamos sido capazes (ou tido a sorte) de tomar ou a amargura de não se vislumbrar, através da eventual substituição, de solução que tranquilize quem anda a tentar endireitar as suas vidas.
As dúvidas constituem uma sina que os portugueses, queiram ou não, transportam desde o início da sua existência como povo. Até talvez seja uma forma de ir mantendo a vontade de conservar o que somos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

CONFISSÃO


Dizer a outro, em segredo
o mal que tenhamos feito
confessar
libertar
fazê-lo até com medo
mostrando o que é defeito

Fazendo-o na sacristia
também no confessionário
recolhido
escondido
para alguns é agonia
será até um calvário

Mas com a fé a mandar
no dizer de quem confessa
liberta-se
desperta-se
pode outra vez começar
quanto ao mau de trás esqueça

Dessa forma a consciência
volta a dormir descansada
liberta
aberta
p’ra dar nova sequência
a seguinte caminhada

Já livre então dos pecados
tranquilo fica o crente
ar puro
passado o muro
malefícios perdoados
só há que seguir em frente

É assim o ser humano
inventa religiões
esperteza
ardileza
como uma nódoa no pano
tudo sai com esfregões

Quem não crê que por contar
lá vem perdão para asneiras
realista
ateísta
será até acabar
portador dessas besteiras

E se for homem de bem
dos seus erros consciente
pensador
com rigor
para sempre lá retém
e paga por não ser crente

PROMESSAS, PROMESSAS...


RESULTOU realmente num sucesso a organização da visita que se iniciou ontem do Papa Bento XVI. Correu tudo com enorme profissionalismo, o que demonstra que quando por cá se quer e o empenhamento é a fundo, somos capazes de realizar obra. Sobretudo, se se trata de algo que diz respeito a uma demonstração ao estrangeiro, aí os resultados são de primeira ordem. Já o que diz respeito a procedimentos dentro da nossa própria Casa e em que os proveitos são para nosso uso, aí a coisa fia mais fino. Sai, com demasiada frequência, mal. E isso porque estudamos mal e apressadamente os problemas. Não temos paciência. E, como sucede com as obras, nunca se cumprem os objectivos.

MAS deixemos, por agora, esta visita papal, com a ida hoje a Fátima e depois ao Norte, e falemos de um tema que se refere concretamente a todos nós cá de Casa. Falemos de promessas. E perguntemos para que servem as que são feitas, sobretudo quando elas surgem da boca de José Sócrates, a garantir aos portugueses o que ele saberá que não pode concretizar.
Então não será muito mais sensato – como eu tenho andado a solicitar neste blogue – que os responsáveis pela condução do Governo mostrassem toda a verdade de que têm conhecimento em cada momento e, mesmo que seja dura e pouco animadora no que respeita à conquista de simpatia pública, é, sem sombra de dúvida, a mais indicada para ir preparando os portugueses para situações que, devido à crise mundial, não se mostram com o aspecto de serem as mais favoráveis?
Quando Sócrates, em pleno Parlamento, afirmou, não há muito tempo, com a maior arrogância e até indisposto com um deputado que lhe terá feito a pergunta sobre eventuais aumentos de impostos, que não desejava repetir mais vezes que os impostos não seriam aumentados e que essa era a sua garantia, nesta altura, dando o dito por não dito – aliás, atitude que era mais do que esperada por todos, manos por ele, claro -, nem se digna explicar e pedir desculpa por ter emendado a mão. E, para além disso, já é público de que o TGV não irá sair de Lisboa, mas sim do Poceirão, o que também representa uma marcha atrás de toda a teimosia socratiana. Além de se tratar de uma completa estupidez técnica e política.
E é este o panorama que nos mostra o responsável número um do Executivo nacional (responsável é como quem diz), porque teimar em medidas, contra a maioria das opiniões de muita agente com certa responsabilidade técnica, para se verificar posteriormente, até mesmo alguns dias passados, que essa casmurrice não tinha razão de ser e que a única saída é proceder de maneira exactamente ao contrário do que estava garantido, ter essa forma de actuar é, para além de ridículo, uma prova de que não merece o mínimo de confiança dos compatriotas nacionais.
No meio de toda esta falcatrua política, com o Benfica a ganhar o campeonato e o Papa a dar ânimo aos praticantes religiosos ou a sustentar uma certa fé de que virá alguma ajuda para solucionar os problemas que vivemos nesta época, Portugal vai sofrendo as consequências da má actuação governativa para aliviar os efeitos da crise que foi provocada lá fora, mas que poderíamos ter conseguido suportar com menos dificuldade.
Não é altura propícia para se efectuarem eleições e escolher um novo líder político. Não se pode brincar em cima da corda bamba. Por outro lado, é natural que não se tenha uma grande certeza quanto ao homem que estará em conduções de levar o nosso País a bom porto, para além de que não será fácil que um ser consciente das realidades e com algum grau de competência deseje assumir tal papel, pois que as finanças do Estado não dão para enfrentar todas as dívidas que são deixadas para alguém as solucionar. E os compatriotas que por cá andarem também não mostrarão grande disposição para ter de pagar todas as estroinices que se foram praticando no decorrer dos últimos Governos.
Não sei se Fátima chegará para perdoar as promessas não cumpridas e as fanfarronices de uns tantos políticos que, acompanhando José Sócrates por motivos claros de ir aguentando os “tachos” que ainda lhes dão certas benesses, não têm forma de escapar da crítica que surgir no momento devido, pois que essa má imagem lhes ficará pegada ao corpo, enquanto a memória dos portugueses não se distrair com outros acontecimentos. Mas, as dívidas que cá ficam para pagar, não permitem o esquecimento.

terça-feira, 11 de maio de 2010

DEUS

O Deus de que se fala
é uma mancha
uma sombra
não tem imagem
não é visível
há quem O imagine sentado
com barba branca
olhos azuis
a roupagem até aos pés
pois não se pode idealizar
um Deus de gravata
de casaco e calças vincadas
com o cabelo cortado e penteado
de unhas arranjadas
e sapatos com sola
e atacadores.
Terá de ser uma névoa
que não fala
que soam as Suas palavras
nos nossos ouvidos
vindas de dentro de nós próprios
perguntamos-Lhe algo
e Ele responde sem som
fala sem ser ouvido
sentimos o Seu afago
mas sem que use as mãos
procuramos entender as Suas razões
não discutimos o que nos parece serem Seus erros
um Deus nunca se engana
mesmo quando nos inquietamos
com as injustiças que ocorrem no mundo
com a fome que mata as crianças
com os abanões da Natureza
com as guerras que não são evitadas
com as epidemias que matam milhões
aceitamos
seguimos em frente
dizemos “graças a Deus”.
O Homem é previdente
é prudente
é sobretudo temeroso
teme discordar do desconhecido
mesmo quando não vê
o melhor é não discutir
e colocar-se do outro lado.

Não tem certezas
mas, pelo sim pelo não,
manda o bom senso
não levantar dúvidas.

Seja o que Deus quiser!...

PAPA CHEGA


A VISITA QUE HOJE COMEÇA de Bento XVI não altera a vida nacional. Constitui uma honra, é verdade, mas os problemas com que nos debatemos cá se mantêm. Por isso os temas a tratar não se desviam do habitual.
REALMENTE, a crise chega a todos. Até os bancos portugueses se queixam de sofrer as suas consequências. Veja-se lá, que os resultados do trimestre passado dos bancos Santander-Totta, BES, BCP e BPI mostraram que todos ganharam menos 10 por cento do que em igual tempo do ano transacto, o que deu que o seu lucro foi apenas de 1 milhão de euros por dia! E a culpa foi da quebra dos juros que eram cobrados e, sobretudo, pela diferença entre esses mesmos juros cobrados e os que foram pagos, movimentação essa que se encontra na base dos ganhos que as instituições de crédito conseguem obter.
Este preâmbulo serve apenas para aliviar o que vou escrever a seguir. E trata-se de algo sobre um artigo de Mário Soares que, todas as semanas, no “Diário de Notícias”, preenche uma página e que, deste vez, para além da preocupação demonstrada no que se refere à situação que grassa na União Europeia, de que eu também tenho dado mostras e por isso compartilho, pois verifica-se o perigo de se afundar o sonho dos seus criadores, em que a solidariedade entre os Estados membros tem de se manter sempre presente e ser cada vez mais forte, mas esse princípio está a dar mostras de não ser seguido por alguns países desta Europa. Ora sucede que, o político nacional agora retirado e que é uma personalidade que eu respeito ainda que nem sempre compartilhe das suas opiniões na totalidade abarca, aponta, no referido texto, a opinião sobre o Povo português, que, segundo ele, “tem dado mostras, nos últimos trinta e seis anos de democracia, de grande sensatez, pois sabe o que quer e não se deixa facilmente enganar”.
Já algumas vezes, e pessoalmente, tive ocasião de discordar de um outro ponto de vista soarista, até quando, em certa ocasião, largou que, no seu Governo, desempenhava as funções de “uno inter pares”, coisa que eu julgo incompatível com a missão de um primeiro-ministro e em relação aos seus membros governativos, e agora volto a não seguir o pensamento do meu querido e antigo companheiro de lutas, pois tenho de lhe deixar aqui expresso que lhe está a fazer falta meter-se no meio da mancha popular para se ambientar com aquilo que são, na verdade, os portugueses, estes quase dez milhões de almas que, mantidos propositadamente incultos pelo salazarismo, porque era seu princípio de que, quanto mais ignorantes menos reclamam, e que também não lhes foi dada grande ocasião para, depois do 25 de Abril, poderem obter mais conhecimentos concretos e úteis as camadas que foram surgindo, porque a instrução não se tem revelado apropriada e a rapidez e facilidade de seguir carreiras superiores, que são excessivas e de espírito amargamente comercialista, não tem sido a que se pode classificar como a que melhor prepara os futuros homens que têm de tomar conta da vida nacional, é por tudo isto que considero que Mário Soares, no seu artigo, não foi capaz de mostrar conhecimento do que são as realidades nacionais.
Basta assistir, na televisão, às perguntas que são frequentemente feitas na rua aos passantes, sobretudo aquelas que respondem sobre “se mandasse o que fazia?”, para se formar uma ideia do que, neste ano de 2010, ainda continuamos a ser o que sempre fomos e a mostrar o pouco que sabemos. E digo isto com a maior das tristezas e não culpando os cidadãos, mas sim quem não sabe criar as condições ideais para diminuirmos a distância que nos separa dos mais adiantados.
Se Mário Soares se embrenhar na via pública, não só nas ruas de Lisboa mas por esse País fora, nas cidades, vilas e aldeias portuguesas, sobretudo aí, logo chegará à conclusão daquilo que somos e do que valemos nos dias de hoje. E isso de julgar, ingenuamente, que a má opinião que se tem vindo a formar sobre a actuação de José Sócrates – em que eu cheguei a depositar alguma esperança de que seria capaz de levar Portugal a um razoável porto -, é fruto de diatribes políticas, para usar a sua expressão, e que isso “só serviu para levar a opinião pública a admirá-lo pela sua resistência”, tal opinião, por muito filiada que esteja pelo partido que fundou (ainda Sócrates não existia), não é seguida por um número elevado de nacionais do nosso País.
Que não se sabe onde estará uma personalidade capaz de ocupar, com cabeça, bom senso e competência as funções de primeiro-ministro, quando a isso estaremos de acordo, e que até, a existir alguém, nas presentes condições de tão grande risco do futuro de Portugal, esse alguém não se apresentará, pois as consequências são excessivamente perigosas, também concordo, mas que este Sócrates tenha mostrado capacidade para evitar que a crise mundial encontrasse no nosso País campo tão fértil para se espalhar, neste particular não posso, de maneira nenhuma, estar de acordo com o que escreveu.
O melhor, meu caro Mário Soares é que permaneça sossegado no seu canto, gozando um merecido descanso, escrevendo as suas memórias ou outros textos que estejam de harmonia com a sua sapiência, dirigindo a sua Fundação que eu visito com frequência, e estando com os seus verdadeiros amigos. Já é muita coisa. Mas não se confunda com esses arrivistas que vão ficar na História numa página negra, de entre as várias que fazem parte do volume das tristezas nacionais.
Hoje, que chega a Portugal o Papa Bento XVI, e em que muitas atenções estão voltadas para esta visita, ocorrendo, como se sabe, a dispensa de trabalho decretada pelo Governo, vou estar atento. Não sei se haverá algum comentário a fazer. Mas trata-se de um acontecimento que, neste período tão complicado para o nosso País, poderá aliviar, de certo modo, as angústias. Valha-nos isso.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

PERSEVERANÇA


Essa enorme qualidade
de querer chegar ao certo
não importa com que idade
esteja ela longe ou perto
se chama perseverança
parecida à teimosia
se precisa confiança
e mostra boa valia
pois s’aos outros fizer bem
dará certa esperança
de poder ir mais além
com sua perseverança

É preciso confiança
na’strada que se percorre
se ela vem de criança
é coisa que nunca morre
é crime grave tirar
e forçar a desistir
os que no seu caminhar
se propunham conseguir
ao contrário de uns tantos
que desistem à partida
é caso para festança
se se dá grande acolhida
à maior perseverança

SALVA-VIDAS


SEMPRE vai ocorrer hoje o encontro de ex-ministros das Finanças com o Presidente da República. Parece ser um recurso a que os impacientes sabedores de economia pretendem deitar mão, com o propósito de deixar claro junto dos portugueses que os ditos técnicos de economia não alinham pelas actuações que o Governo de Sócrates insiste em seguir ou, numa outra perspectiva, de tornar mediáticas as suas personalidades, o que, seja qual for a intenção, se trata de uma postura que, em termos democráticos, tem de ser aceite e até louvada.
Embora, nem os referidos ex-governantes nem o Supremo Magistrado da Nação tenham poderes suficientes para obrigar o engenheiro primeiro-ministro a mudar de comportamento (o locatário de Belém só em derradeira alternativa), é no mínimo valioso que se aclare cada vez mais que existe – ou existiu - uma forma de podermos ultrapassar o grau de afundamento a que chegámos e a que ainda estamos condenados e que, se não atingirmos a barca salva-vidas é porque um homem só, que teve aconselhamentos para alterar o seu mau comportamento, teimosamente agarrado a uma prática governamental que nem num regime ditatorial se entendia, não se desviou do seu convencimento pessoal.
Nesta altura, na véspera de o Papa satisfazer, com a sua presença no nosso País, a fé de um enorme número de portugueses e, ao mesmo tempo, contribuir em larga medida para alastrar o nome de Portugal por toda a comunicação mundial, o que também é um factor de propaganda turística de excelente utilidade, e agora, conhecido também que já é o vencedor do campeonato de futebol deste ano, o que igualmente serve para descontrair as grandes massas que descarregam nesse desporto e no clubismo de preferência, no caso o Benfica, as suas amarguras do desemprego ou de escassez de meios de sobrevivência, enquanto isso vai ocorrendo umas tantas personalidades procuram ainda encontrar ouvidos que auscultem as suas teses de ponderação no que se refere a gastos que podem ser afastados para mais tarde, exactamente para que, no mínimo, os futuros governantes não se encontrem a braços com pagamentos megalómanos de dívidas contraídas antes por políticos que não quiseram saber do que viria depois.
“Quem vier que feche a porta”, dirá provavelmente Sócrates para os seus botões, acrescentando “e quem cá estiver que apague a luz!”
Não Sócrates. Não tem desculpa., digo eu. Não se trata de socialismo ou outra qualquer ideologia política – se é que o PS, nesta altura, segue algum princípio político! O que está em causa é tudo fazer para que não seja, por seu intermédio, que Portugal se veja obrigado a pôr escritos nas portas, e que o futuro imediato fique completamente comprometido quanto a poder seguir um historial que, ainda que com muitos erros cometidos em diversas épocas, mesmo assim conseguiu chegar até aqui e com passagens de grande vaidade para os portugueses.
E, já agora, um comentário à fartura de dispensas de ponto e de feriados por tudo e por nada que, nesta época de pouca produção e de necessidade de darmos mostras de que queremos fazer mais e melhor, não se compreende. Não é necessário, para aumentar ainda mais o pouco que já se trabalha no nosso País, inventar constantemente paralisações de um País que é um produtor de baixa qualidade e pouca quantidade. Mas o homem que passa o tempo em inaugurações de mediocridades e sempre acompanhado por um batalhão de gente que se pendura, esse não compreende que tem de mudar completamente de maneira de proceder.
Mal empregada Democracia que, em lugar de provocar mais vergonha dos que não são capazes de viver com regras seguras dentro da Liberdade que lhes foi confiada, o que estão a contribuir os governantes actuais na nossa Terra é para, cada vez, produzirmos menos, não transmitindo o exemplo que pertence a quem deveria ser o primeiro a arregaçar as mangas, em lugar de se pavonear em passeatas e em inaugurações despropositadas.
Mal ou bem, pelo menos que o que deixo no blogue mostre, quando todo este calvário passar, que alguma coisa ficou escrita que demonstra que houve quem se insurgiu, tempos antes, quando o pior ainda era uma perspectiva vaga, mostrando o mau caminho por que se ia andando.

domingo, 9 de maio de 2010

A PALAVRA

Neste mundo de palavras
Mais ou menos expressivas
É um terreno onde as lavras
São feitas com evasivas

Palavra mãe é amor
Pobre é palavra dó
Palavra sofrer é dor
Triste é sentir-se só

Há palavras p’ra dizer
Se se quer ou não fazer
O que vai na nossa alma

As palavras que escolher
Seja homem ou mulher
São serenas ou sem calma

DITO E REDITO


EMBORA A ESPERADA vitória do Benfica no jogo de hoje e a expectativa com a visita do Papa a Portugal, já no dia 11, estejam na ordem do dia e, por isso, ocupem a atenção de um grande número de portugueses, a verdade deve ser que, bem no fundo de cada um de nós, o que não nos deixe libertos da preocupação principal é a situação a que nos deixaram chegar os governantes, apesar dos inúmeros avisos que foram surgindo de diversas origens e que, com um mínimo de competência e humildade – as duas coisas que mais faltam ao grupo de José Sócrates -, não teria atingido foros de comparação com a situação grega e, se bem que o caos seja de ordem mundial, se poderia ter torneado em certa medida.
Bem, mas isto está dito e redito. Não constitui nenhuma novidade. Já se tornou um lugar comum acusar José Sócrates e a sua pesporrência como sendo o grande culpado da situação que se atravessa no nosso território. Por isso, penso eu que não vale a pena “bater mais no ceguinho”.
Chegados a este ponto já tão perto da derrocada, que se pode ainda fazer para tentar evitar o pior que não está completamente afastado do campo das possibilidades? Esta a grande questão que poderá bailar nas cabeças de alguns compatriotas que se dediquem ao exercício de pensar.
Será que, se a coisa se agravar mais, as agitações de rua que têm tido lugar na Grécia também se poderão verificar por cá? Irá a CGTP, por exemplo, tomar a iniciativa de ir comandar a violência e contribuir para tornar mais difícil a recuperação financeira, económica e social que, já nesta altura, se encontram tão debilitadas? O desemprego, grande drama da sociedade, não encontrará forma de se dissolver e as suas consequências serão incontroláveis? Conseguiremos convencer-nos, nós portugueses, de que temos de fazer o nosso papel de cumprir a missão que nos cabe de produtores em cada uma das actividades que exercermos, sem gastar o tempo em futilidades e em acções de puro interesse pessoal, pois só assim é que cada um contribui para que Portugal tenha o que vender ao estrangeiro, bem feito e a preços competitivos?
Trata-se de uma série de obrigações que nos pertencem e que os que ocupam os lugares na governação, do Estado ou das autarquias, os que tenham a responsabilidade de comandar lugares públicos e dirigir empresas, acima das quais se encontra a de saber orientar os que desempenham as funções de cumprir regras estabelecidas, por forma a que não vejam os seus esforços serem perdidos por má preparação de quem “manda”, será que todos esses se compenetram do dever que lhes cabe?
É, pois, mais do que evidente que, uns e outros, têm que ter presente os princípios de humildade suficientes para ir sempre emendando o que for mal dirigido e feito, e, ao contrário do que é uma regra socratiana, depois de executado, se não correu como era esperado, devem emendar a mão e não ter o receio de se darem por culpados.
Deixemos, pois, passar o dia de hoje, para ver quem ganhou o campeonato de futebol, dado que isso constitui uma tão grande preocupação nacional, e passemos o período em que o Papa se encontra na nossa Terra, que também é outro tema de enorme atracção deste País católico. Posto isso, como o problema persiste, demos as mãos e tenhamos a fé, esta bem mais terrena, de que o tal bom senso, a que tanto me refiro, arribe a este rectângulo agora de chuva intensa, mas que aguarda sempre pelos dias de Sol, que esse, felizmente, sempre vai aparecendo, embora neste período, com maior ausência.

sábado, 8 de maio de 2010

BONITA BURRA

Grandes olhos
bem expressivos
simpatia, essa aos molhos
em momentos bem furtivos
ancas firmes reboludas
peitos de frango encorpado
sem necessidade de ajudas
pernas altas, bem formadas
cintura de bailarina
andar de gazela airosa
boca rasgada, bem fina
dentes de pedra preciosa
mãos fluentes, expressivas
quais belas pombas voando
mostrando que são activas
de tudo não destoando
bracinhos bem torneados
essa é ela, a beleza
o que deixa extasiados
e sem perder a firmeza
homens, mulheres e quem for
sem gostar
ou com amor
calada
firme
esticada
ainda há quem o afirme
é um prazer para a vista
e fica bem no retrato
qual obra de grande artista
de olhar não se fica farto.

Porém
mal deixa sair da boca
seja o que for para além
mesmo que seja pouca
qualquer palavra que seja
aí, beleza que foste
tudo de mais sobeja
nem m’encostando a um poste
aguento ter de ouvir
cada palavra um erro
cada som de afligir
toda tu és um berro
misturado com gemidos
que saem em vez de voz
parecida com balidos
que só podem causar dós

Chego assim à conclusão
que mais vale mulher feia
deselegante, podão
gorda que nem baleia
mas que como companhia
seja um grande consolo
que nos encha de alegria
de cabeça com miolo
se a vista não se regala
ao menos enche os ouvidos
e a alma se exala
e afasta pr’os olvidos
as desgraças desta vida

Melhor que lindo e brilhante
um bom feio deslumbrante

TEIMOSIA


EU NÃO ENTENDO e julgo que ninguém entenderá o que passa apela cabeça de alguns dos membros do actual Governo português que se recusam a ouvir – e, portanto, a seguir – as propostas que lhes são apresentadas pelos partidos da Oposição, cujo objectivo é o de reduzir o défice que constitui a grande preocupação de todos os que estão atentos às contas públicas e ao futuro que se apresenta a Portugal. Estará demonstrado que certos cortes nas despesas que pesam nos orçamentos da governação não constituem fantasias mas, simplesmente, são atitudes exequíveis e que só pecam por não estarem já a serem aplicadas. Mas o Executivo de Sócrates, arrogante como sempre tem sido, não é capaz de estudar as propostas que lhes chegam ao conhecimento e, sem o menor complexo, aceitar agradecido o que lhes surge de quase TODO O País e, mesmo que tenha de fazer referência à origem dos tais conselhos, mostrar garbosamente aos portugueses que não olhe às origens das recomendações, pois o que lhe interessa, acima de tudo, é o melhor para Portugal e, com isso, dar provas de que a votação no seu agrupamento constituiu um passo certo por parte dos cidadãos nacionais.
Já foi há algum tempo que o PSD, por um lado, e o próprio PCP, por outro, ambas as Oposições apresentaram propostas que são merecedoras da aceitação ou, no mínimo, de discussão por parte do Governo PS, sendo que uma delas, por exemplo, se refere às consultas que são feitas frequentemente a gabinetes privados, tanto de advogados como de economistas e de outras especialidades, as quais resultam em pagamentos de milhões de euros, quando esse trabalho deveria ser feito por muitos técnicos funcionários públicos de que o próprio Estado é o “patrão”. Mas muitas mais recomendações constam das referidas propostas a que o próprio ministro da Economia se referiu na Assembleia da República, considerando-as como “uma mão cheia de nada”, mas não foi capaz de debater em público cada uma dessas sugestões, como lhe cabia fazer, para ficar demonstrado que, na verdade, o Governo tinha motivos para não as considerar importantes.
Vá lá que, com dificuldade, o Sócrates vai dando o braço a torcer e, como quem não quer a coisa, aqui e ali sempre capitula das suas teimosias e agora, finalmente, surgiu o anúncio de que a ponte sobre o Tejo e outras obras públicas ficarão para mais tarde. Oxalá que este passo ainda permita ao Executivo evitar o pior e que não cheguemos a um ponto semelhante ao que ocorre na Grécia, posto que ajudas da Europa não estão assim tão garantidas e não sentirmos a vergonha de darmos mostra de que não somos capazes de aprender com o mal dos outros.
Em resumo, pois: deixem-se os governantes de utilizar a sua arrogância, a sua vaidade que custa cara aos cofres do Estado, e puxem pela humildade e pelo bom senso em benefício do País que têm de servir com o mínimo de competência. Todos os portugueses aspiram pela boa colaboração honesta entre todos os que têm a responsabilidade de se sentar nas cadeiras do poder e os que aguardam pela sua vez para se colocarem no mesmo lugar, pois essa é a única forma, nesta altura crítica do País, de mostrarem a sua utilidade em prol do bem comum nacional.
Se assim não procederem, uns e outros, sem excepção, só estão a contribuir para que, dentro de algum tempo, não exista uma Nação que necessite dos seus serviços.
E essa coisa que se ouve repetidamente no Parlamento, tanto por parte de deputados do PS como dos outros da Oposição, de que não aceitam lições de Democracia de ninguém, quando é isso precisamente o que lhes faz muita falta, pois que este País, onde essa prática só existe há apenas 36 anos, ninguém se pode gabar de ser um fiel seguidor das regras de saber ouvir, de dar ocasião a que os demais apresentem as suas razões, de aproveitar as boas ideias quando são melhores do que as nossas e ser humildes ao ponto de o reconhecer e, nessas condições, receber o que se pode chamar de “lições” ou simplesmente opiniões que poderão ser úteis para resolver múliplos problemas, como aqueles que enfrentamos neste momento.
A terminar tenho de me referir à aparente discordância do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, do inamovível Sócrates, tendo saído já a nota de que está mais de acordo com Cavaco Silva do que com o seu chefe directo. É que aquela do teimoso ter declarado que “mal vai um Governo que muda de opinião”, só podia sair da sua boca e esta frase talvez fique na triste História deste período quando, mais tarde, se ensinar nas escolas a forma de não governar!...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

PORTUGUÊS DA SILVA

Não deve haver outro igual
por esse mundo de Cristo
é nascido em Portugal
não há nada como isto

bem diferente
e é gente

Tudo que faz sem rigor
é preciso é ficar feito
ao princípio no frescor
quer usar todo o preceito

eu não sou
aí não estou

Mas no decorrer da obra
os defeitos aparecem
tempo afinal não sobra
complicações aborrecem

não é meu o engano
é de qualquer outro magano

Enquanto os meticulosos
perdem tempo a estudar
e querem ser rigorosos
o luso é de desenrascar

é preciso é ficar feito
sair de qualquer jeito

Nada é um problema
quando muito é um fado
há que encontrar um esquema
ele virá de algum lado

a vida é a madressilva
do bom português da silva

Enquanto houver por cá um
com outro, um seu igual
tudo isto é um fartum
que forma o Portugal

com todos estes fulanos
vivemos há longos anos

Querem mudar o País
igualá-lo ao de lá fora
mas p’ra se ser aprendiz
falta querer e demora

dos outros temos inveja
mas vontade não sobeja

Lá simpatia não falta
consolar outros do mal
perguntar pela malta
e o cumprimento formal

tendo na mão telefone
não há quem o abandone

Bem custam as despedidas
dizer adeus muito tarda
há sempre coisas esquecidas
porque falar é à barda

recado dá-se depressa
despedir essa é que é essa!

Os horários p’ra cumprir
é coisa que bem molesta
não há horas p’ra sair
mas p’ra entrar vem da festa

O relógio, que chatice
Segui-lo é uma tolice

O perfeito português
desses da antiga escola
p’ra entrar na sua vez
deixa os outros com cachola

passar à frente é lei
costume de toda a grei

A pé ou no seu carrinho
sem poder ultrapassar
até insulta o vizinho
p’ra ser primeiro a chegar

p’ra quê não se sabe bem
pois tem de esperar alguém

Lusitano é só defeitos?
Mas quem tal asneira disse?
Também tem os seus proveitos
usa sua doutorice

porque não faltam doutores
mesmo sendo só rumores

Cada um por esse mundo
tem suas debilidades
mas bem visto lá no fundo
descobrem-se habilidades

e os defeitos também
afinal quem os não tem?

Só que aqui, o País
mesmo sem ser ideal
podia ser mais feliz
mostrar outro Portugal

com gente hábil capaz
de mostrar ser eficaz

Há, porém que aceitar
o que deixou tal Henrique
se não se puder mudar
pois que seja e que fique

Até que mostre o futuro
sendo derrubado o muro
e que um Portugal diferente
honre o antigamente
das descobertas, enfim
que a essas dizemos sim

PORTUGUÊS SOU!...


SE NÓS PRÓPRIOS não nos conhecemos, mas fazemos questão em afirmar que não precisamos que nos expliquem como são as nossas características, terá alguma utilidade que alguém, sendo português assumido, faça uma análise independente de qualquer tipo de posição política, social ou económica e, sujeitando-se às discordâncias que sempre as há e ainda bem, expresse o seu ponto de vista e aguarde até por rectificações, apoios ou complementos que mostrem que não nos enfiamos no nosso julgamento ou até que não estamos interessados em olhar para nós próprios.
A minha maneira de observar este problema é que, por pouco que sirva tocarmos este sino, ao fim e ao cabo algum som sempre soará nos ouvidos e na consciência de uns tantos, ainda que não chegue para melhorar o comportamento das massas, pois que isso só terá possibilidade de acontecer, primeiro, se o exemplo que pode vir daqueles que têm obrigação de estar sempre atentos e não se afastarem da competência, da honestidade e do bom senso, os que se propõem ser governantes, se o seu comportamento estiver do lado da perfeição possível e, em segundo lugar, se as juventudes de hoje e as que vierem já de seguida beneficiarem de uma aprendizagem profícua da prática da Democracia. Então, talvez dentro de uma década, no mínimo, os portugueses que surgirem serão bem diferentes, para melhor, dos que actualmente ainda ocupam os seus espaços.
Hoje em dia, as nossas característica são, na verdade, muito específicas, em que a simpatia, sobretudo perante os estrangeiros, é mais do que evidente, mas dando mostras, entre os conterrâneos, de uma enorme falta de vontade de aplicar a sua actuação pessoal para contribuir para que o todo nacional se altere no bom sentido. Sempre que podemos – porque me incluo, evidentemente -, entregamo-nos nas mãos “deles”, passamos-lhes a responsabilidade de serem perfeitos, cumpridores e que actuem sempre em nosso benefício.
Por outro lado, no que respeita ao cumprimento de regras, de fazermos o mínimo de esforço para não fechar os olhos às mais pequenas obrigações que nos cabem como cidadãos, e isso em diversos capítulos, quer sendo na protecção que nos cabe do ambiente, na condução de viaturas de aplicarmos aquilo que nos foi ensinado na altura da obtenção das respectivas cartas, como seja até o fazer-se sempre o sinal quando se muda de direcção e isso para não falar nas passagens dos peões ou no aparcamento dos automóveis, mas, mesmo circulando a pé, aí também todos nós faltamos aos mínimos cuidados, se bem que, por outro lado, as autoridades camarárias, também constituída por parceiros nossos, não cuida de facilitar as condições para que os munícipes não ultrapassem os seus deveres.
Ser português é criticar os demais e não olhar para os nossos defeitos, é, no trabalho, procurar manter o emprego com o menor esforço possível e tirando as melhores proveitos dos lugares que se ocupa, como seja o uso do telefone permanentemente em utilidade pessoal e não desperdiçar todas as benesses que uma ocupação laboral lhe conceda, é sair das funções para fumar o seu cigarrito no exterior, ao mesmo tempo que sorve o seu cafezinho a conversar com os companheiros, é igualmente não aceitar que o outro pertença a um clube de futebol diferente do que é o seu preferido e, dentro desse espírito, é interferir nas opiniões alheias, impondo a sua como a autêntica, a única, discutindo por tudo e por nada e isso bem se vê no nosso Parlamento, onde, sendo constituída por elementos lusitanos, pertencer a um grupo politicamente adversária significa não merecer expor as suas ideias.
Isto um resumo do que é ser português. Ficou-nos até hoje no espírito a vivência de morarmos num pátio, onde, apesar de sermos forçados a compartir um espaço comum, muito limitado até, não mostramos capacidade para nos ajudarmos uns aos outros, por forma a que a zona onde nos movimentamos seja o mais bem organizada possível, limpa, cordata e em que um vizinho deita a mão ao do lado quando esteja nece4ssita de ajuda, por enorme que seja a diferença de pensamentos de ambos.
O pátio da nossa vida, desde que Afonso Henriques não foi capaz de se entender com a mãe e montou casa própria, pequenina e à beira-mar situada, estabeleceu uma independência e marcou características específicas ao povoléu que já cá estava e ao que veio a seguir.
Bem ou mal, somos nós portugueses os que, com defeitos e virtudes, nos vamos arrastando neste vale de lágrimas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

PRODUTOS DE UMA VIDA


De tanta coisa que eu fiz
tudo sendo de raiz
muito me falta fazer
e que valha a pena ler

É esse o meu intuito
por isso produzo muito
se não é de qualidade
que valha p’la quantidade

Bem cansados deixarei
quem avaliar o que sei
depois da minha partida

A ler resmas de papel
literatura de cordel
mas produto de uma vida

PARQUE MAYER



ALGUM PORTUGUÊS, mesmo que seja um lisboeta convicto, tem conhecimento perfeito de todo o “imbróglio” que representou e ainda se mantém, o caso do Parque Mayer e do terreno onde esteve instalada, durante anos, a antiga Feira Popular? Estamos nós, cidadãos, em condições de poder dar razão ou de acusar quem quer que seja face à vergonha de se arrastar durante anos infinitos o problema de não se ver reconstruído o local onde, durante gerações, se apresentavam as chamadas “Revistas à Portuguesa” e no espaço onde, durante os meses da Primavera e Verão, tinha lugar a festa permanente das distracções populares e dos velhos restaurantes com as comidas tradicionais portuguesas?
Ocorreu agora, à pressa, um julgamento em que estiveram indicados como prováveis implicados um Presidente e outros adjuntos, tidos antes como responsáveis pela má solução do problema que envolveu também a empresa Bragaparques, isso porque o Tribunal arquivou o processo por falta de provas. Igualmente sem castigo também ficou o administrador da empresa, pois já antes tinha sido absolvido pelo Tribunal da Relação de Lisboa do crime de tentativa de corrupção junto do vereador da C.M.L. José Sá Fernandes.
Quer dizer, desde 2003, quando a Assembleia Municipal lisboeta aprovou a permuta de terrenos para permitir a reconversão do Parque Mayer, a expectativa era a de que se iria assistir às obras no Parque Mayer, de molde a que aquele espaço renascesse e pudesse Lisboa contar com aquilo que constitui uma tradição que vem de longe. Mas passaram todos estes anos e tudo se encontra vergonhosamente com o ar de abandono, ao mesmo tempo que, no que se refere ao terreno onde existiu a Feira Popular, também nada foi feito e a pressa em desactivar o espaço não foi nunca entendido.
Se o Juiz deu como não provados actos ilícitos, não considerando matéria criminal todo o processo, assim podemos ficar descansados em relação a uma situação extremamente confusa e que dá motivo para existirem desconfianças profundas, por parte dos cidadão, de que algo de estranho se terá passado no meio de todo o emaranhado de trocas e baldroca, e que, com isso, alguém, como é um triste costume neste nosso País, arrecadou algumas verbas substanciais, para além de ter contribuído para que a capital portuguesa ficasse privada de dois locais de enorme interesse não só para os lisboetas como para todos os que visitam o espaço ulissiponense.
É isto que se passa em Portugal e com os portugueses. Inacreditável para quem, de outra Nação, oiça a história contada. Mas nós, habituados que estamos, desde sempre, a só sabermos reclamar por aumentos de ordenados e diminuição de horas de trabalho, nestes casos de verdadeiro assalto ao que constitui patrimónios de todos, aí ficamo-nos conformados e nem sequer levantamos a voz para exigir cumprimento dos deveres daqueles que estão colocados em lugares, pagos pelos nossos impostos, e que não são capazes de cumprir as obrigações que lhes cabem.
Que a carapuça caiba a quem se sentir atingido, por mais que queira disfarçar.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

EMIGRANTES PORTUGUESES

Portugueses emigrantes
que partistes à deriva
estais melhor do que antes
daí a alternativa

Sem saber falar a língua
do país que te acolheu
foi mesmo sair à míngua
de quem por aí se benzeu

Chegados p’ra trabalhar
onde seja e o que seja
é preciso começar
por vezes dura peleja

Mas o espírito de luta
grande ânsia de viver
faz com que qualquer labuta
seja aceite p’ra vencer

Sacrifício, economias
e força p’ra trabalhar
sem tempo para folias
e nunca desanimar

Submissos mas contentes
respeitadores do à volta
são aceites pelas gentes
nunca expressam revolta

Trabalham mais do que todos
produzem com ambição
juntam dinheiro a rodos
p’ra regressar à Nação

Se voltam nunca se sabe
pois filhos nascem lá fora
e a decisão só cabe
no tempo exacto e na hora

Seja como for então
a pergunta sempre fica
não sendo seres de ficção
que mistério os modifica?

Porquê os que cá estão
como os outros portugueses
só sabem dizer que não
e ao trabalho poucas vezes?

Se dentro das nossas portas
fôssemos como os de fora
não havia horas mortas
nem havia que ir embora

Portugal outro seria
competindo com maiores
grande inveja causaria
sem precisar de favores

Só que quando os emigrantes
ao solo pátrio regressam
ficam logo como antes
e na moleza tropeçam

Será pois do nosso solo
ou do Sol que alumia
que não se encontra consolo
e se perde a energia?

Se não há superstições
e a verdade outra será
é porque lá fora os patrões
não são iguais aos de cá?

Que responda quem souber
e pertença aos temerosos
com sindicatos teimosos
a lutar é de temer

Fica cada um na sua
a cura é bem remota
a mudança não se nota
e o mal não se atenua

Leis do trabalho estão
fora da realidade
e sendo esta a verdade
não se verá solução

"PERIGO AMARELO"


NÃO É DE AGORA, pois há muitos anos, salvo erro terá sido até Eça de Queiroz que lançou a expressão do “Perigo Amarelo”, tratando-se de algo que fez pensar e que poderia vir a acontecer, certamente sem o espírito de maldade que sobressai da frase ela própria. Em finais do século XIX e princípios do seguinte, começou-se a prever que a dimensão da China e a expressão populacional que representava e aumentaria no futuro daquela época faria com que o Mundo pudesse chegar a defrontar-se com a “invasão” que iria representar a saída, fronteiras fora, de chineses que procurassem solucionar as suas vidas em terras distantes.
Essa situação foi-se conservando em “banho Maria”, sem ser levada a cabo, por diversas razões que fizeram com que as portas largas desse País longínquo não se abrissem com facilidade. Nem para sair nem mesmo para entrar, pois as visitas não eram acolhidas com grande entusiasmo. E, quando chegou a altura do ditador Mao-Tse-Tung, aí, durante toda a sua governação, ainda mais custoso se tornou que o intercâmbio de cidadãos se verificassem e o estrangeiro para eles consistia numa visão e num imaginário que não se encontrava ao alcance nem das suas bolsas nem das autorizações legais de saída. Eu, que tive ocasião de passar a fronteira chinesa, entrando por Macau, naquela época de repressão maoista, pude verificar como a população vivia atrofiada e submissa. Mas muito trabalhadora.
A produção resultante do trabalho meticuloso, mas mal pago, dos cidadãos chineses não alcançava muitos mercados, até também porque o desenvolvimento tecnológico levou tempo a chegar às indústrias locais. As exportações não fizeram, durante muitos anos, parte das preocupações dos responsáveis governativos, mas nem tudo dura toda a vida e a morte do ditador contribuiu para que os seus sucessores começassem a entender que o abrir as portas para a colocação do que saia das fábricas, a pouco e pouco modernizadas, e com a vantagem, dificilmente acompanhada pelos mercados externos, de os salários incrivelmente baixos do operariado e o elevado número de horas diárias de produção tornar os preços de venda difíceis de competir pela maior parte dos produtos que se comercializavam e comercializam em todo o espaço terrestre, essa alternativa consistia uma possibilidade para a República da China avançar para fora do seu espaço.
Era o tal “perigo amarelo” que entendeu que deveria mostrar-se e, a pouco e pouco, deu o passo que estava previsto há muitos anos. Com o silêncio que a emigração chinesa consegue manter quando se instala em qualquer parte do estrangeiro, a expansão mundo fora começou a ter lugar, não só com os próprios emigrantes mas através de lojas de artigos provenientes desse extremo Oriente, em que os próprios funcionários vendedores são orientados por organizações que comandam todas as operações, desde o proporcionar os investimentos indispensáveis até à preparação dos locais de alojamento, por forma a que os emigrantes chineses, sem conhecerem a língua do País de acolhimento, possa beneficiar de todas as facilidades minimamente exigíveis. E elas nem sequer são muitas.
E assim, se foi espalhando pela Esfera terrestre uma onda de população chinesa, e essa expansão de famílias e mercadorias em grande escala tem contribuído para que a balança de pagamentos da China tenha atingido um saldo positivo de tanta relevância que hoje, mesmo sem se ter conhecimento dos números que não saem do segredo do seu Governo, se sabe que até os E.U.A. representam uma quota parte bastante volumosa de dívidas àquele País.
E no capítulo da população da China, ela é hoje de cerca de mil e trezentos milhões, ou seja um quinto de gente de todo o Mundo. Quer dizer, portanto, que a “invasão chinesa” é uma constante e Portugal, naturalmente, não podia fugir a essa mancha oriental, sendo que, mesmo nos mais ignorados recantos do nosso País, deparamos com as chamadas “lojas dos chineses”, onde se podem adquirir numerosas produtos, quer de origem daqueles comerciantes quer de outras procedências, todos a preços inferiores aos que se comercializam em estabelecimentos correntes. E, para além dessa característica, as horas de funcionamento ultrapassam todas as que são praticadas pelos cumpridores zelosos de horários correntes e não há feriados que impeçam que as portas sejam escancaradas para receber os possíveis compradores. A sua agilidade comercial faz com que aproveitem todas as circunstâncias para oferecer aos potenciais clientes produtos que seriam impensáveis por outros mercadores. Todos se lembram que, quando, por motivo de uma euforia futebolística, as bandeiras portuguesas foram colocadas nas janelas nacionais, logo elas ficaram disponíveis nas “lojas dos chineses”, por sinal, bandeiras essas feitas na própria China, por sinal com um erro dos castelos que não tiveram tempo para estudar convenientemente. Mas eram baratas e venderam-se…
Não podemos criticar quem sai do seu canto para, pelo mundo fora, procurar melhorar a sua vida. Nós, quando emigramos também somos produtivos, a única diferença é que, quando trabalhamos na nossa própria Terra, aqui não fazemos o menor esforço para criar competitividade e para contribuirmos para melhorar a nossa balança de pagamentos.
Aprendemos alguma coisa com esse exemplo dado pelos chineses? Se nós, em nossa Casa, fizéssemos o mínimo esforço para produzirmos com qualidade, preço e em quantidade que fizesse com que os preços de venda pudessem competir nos mercados estrangeiros, seguramente que as condições de vida difícil que atravessamos não seriam tão causticantes. Isso, claro, com uma governação inteligente, positiva, de bom senso e sem interesses egoístas de viver faustosamente à custa de posições alcançadas por favores que fazem uns aos outros e não pelo valor próprio de cada um.
Mas, “perigo ibérico” nunca fomos e nunca seremos. Com ou sem a ajuda dos vizinhos do lado.

terça-feira, 4 de maio de 2010

CACILHEIROS

Apeteceu-me um dia
recordar o passado,
andar para trás
muitos anos,
pôr o saudosismo em acção.
E fui ao Cais das Colunas
às que lá não estão
(que apareceram entretanto)
mas que eu as vi
na memória
e descendo aqueles degraus
molhei os pés no Tejo,
que frescura!
que odor!
que beleza as gaivotas em liberdade.
Como me recordo
dos cacilheiros que saiam logo dali
e chegavam ao mesmo sítio,
os cabos para os prender ao cais
eram atirados
com precisão
fixavam-se nas amarras
e as gentes,
sem aguardar o encosto completo
saltavam,
corriam para os seus destinos,
os imediatos,
enfiavam-se na praça,
nessa bela praça,
no Terreiro do Paço,
que podia ser ainda mais bonito,
muito mais bonito,
mas as gentes nem dão por isso,
a Praça do Comércio (que nome!)
não tem ajuda do poder
para a tornar muito mais atractiva.
Correm para a vida,
os populares,
os cacilheiros, já bem encostados,
deixam sair os passageiros,
os mais calmos,
também esses já sem se importar
que o Cais das Colunas
já não seja o que era antes.
É gente da outra Banda
que dorme lá
que ganha a vida deste lado,
que transformou Cacilhas,
o Ginjal,
Trafaria,
Caparica
em dormitórios.
Tu, cacilheiro, foste o culpado.
Antes da ponte
eras dono e senhor
do rio,
só tu ligavas as margens
do Tejo que,
no final, parece um oceano.
Eras o patrão do Tejo.
Agora, já não és essencial,
imprescindível,
única solução.
Mas continuas a ser útil,
desejado,
e, sobretudo, manténs a tradição
alimentas o saudosismo,
és uma relíquia preciosa
para a memória,
mas também os que não usam a ponte,
a que já teve dois nomes,
que são bastantes,
e ainda bem,
porque tu,
ó cacilheiro dos velhos tempos
pode ser que acabes por vencer
a modernidade,
a que deitou abaixo as colunas
e arredou para mais longe
o local onde te encostas para descansar,
de cada viagem,
fazendo-te perder a graça,
essa de ver entrar e sair a populaça,
no sítio certo, junto às colunas.
Foi isso que a imaginação
trouxe até mim,
o olhar para o Tejo e contemplar,
sentado em frescos bancos
de pedra,
com a barra ao fundo,
vária navegação circulando,
respirando o ar marítimo,
mastigando pipocas
e pevides,
compradas ao velho do tabuleiro,
que sonho!
E, de repente,
caí em mim.
Esta Lisboa que faz a inveja
de outras grandes capitais
que não têm este rio
a seus pés,
esta cidade que deslumbra as outras,
mas que, em lugar de olhar para fora,
para a água salgada,
para as ondas com a sua espuma,
para o reluzir do Sol no Tejo,
vira-se para dentro,
para o seu umbigo,
e nem parece ser
terra de Navegadores,
antigos mas recordados,
ficando-se com a impressão de que
se tem vergonha
de ficar à borda do mar das Descobertas.
Não merecemos o que temos,
e tu, ó cacilheiro,
ainda serás algo,
já pouco,
que tem de nos avivar a memória,
chamar a atenção para
o pouco que nos resta.
A modernidade?
Pois sim, mas sem destruir
as jóias do passado.
Que bonito é ver o cacilheiro
encolhidinho,
ao lado do grande paquete,
majestoso,
que passa
a abarrotar de tecnicismo,
orgulhoso do seu porte,
transportando uma multidão
a olhar sobranceiro
o pequeno cacilheiro,
a ínfima embarcação
a cruzar o Tejo na sua humildade
como um pedinte
se aproxima
do carro de luxo
num semáforo.
Ó cacilheiro,
modesto trabalhador que
nasce, vive e morre
sempre com o mesmo mister,
com a mesma viagem,
repetitiva,
monótona,
mas prestando um serviço,
sendo útil,
indispensável,
com gente sempre à sua espera,
que o aguarda a olhar para o relógio,
como quem combinou com o namorado
um encontro.
Ó cacilheiro,
Tu, em que as gaivotas
tuas conhecidas
poisam na amurada
saudando-te,
lembrando-te quem és,
não te deixando sonhar com fantasias,
com luxos,
com atitudes que não são as tuas.
Tu és o que és
e nós queremos-te assim.