sexta-feira, 16 de abril de 2010

PROBLEMAS RELIGIOSOS


A ONDA que está agora a tomar foros de inquietação mundial, isto é, o número elevado de elementos pertencentes à Igreja católica que se têm entregado à prática da pedofilia, ao ponto do problema ter chegado já a obrigar o Papa a referir-se ao assunto e de se aguardarem medidas que ponham ponto final num crescendo preocupante, esta situação tem de provocar, como é natural, que alguns dos próprios seguidores da Religião católica se interroguem sobre a desconfiança que tem de existir em relação aos membros que se devem classificar como exemplares e que não se sabe, ao fim e ao cabo, se não farão parte desse número que vai sendo denunciado aqui e ali.
Pensando seriamente no problema com o mínimo de independência que é possível manter nestas circunstâncias, pois que, no capítulo das práticas religiosas, todas elas são originárias da imposição humana e, por isso, as opiniões que forem expressas são-no também por outros homens, há que ter sempre presente que cada uma das crenças religiosas utiliza os princípios e as práticas que os seus maiores entendem serem as adequadas e, se constituem uma regra, todos os seus seguidores lhes devem total obediência. Mas só esses.
Porém, quando extravasam para o exterior de cada comunidade os efeitos desses procedimentos, aí já se justifica que surjam pontos de vista que interfiram criticamente no seu comportamento. É o caso da actuação pedófila por parte de membros que se situam na escala hierárquica do Vaticano, seja ela qual for, como tem sido divulgado pela comunicação social de todo o Globo.
A pedofilia é um crime execrável e sobre isso não há que estabelecer discussão. Lá se a sua prática tem a ver ou não como a homossexualidade, como o afirmou o secretário-geral do Papado, essa já será uma discussão que, pelos vistos, merece concordância e discordância, conforme já se começou a verificar por partes antagónicas posições. Mas, seja ela praticada por quem for, mandam os princípios do Direito que se apliquem os castigos impostos pelos cânones legais da cada País. Essa tem de ser a regra.
Mas, em virtude de se ter levantado a questão, especialmente por parte de um grupo de homossexuais católicos, denominado Novos Rumos, de se pôr fim ao celibato dos padres, ponto este que já não é novo no ambiente da Igreja de Roma e cuja solução tem sido sucessivamente adiada, sabe-se agora que a Conferência Episcopal Portuguesa, reunida nesta altura em Fátima, irá divulgar a sua opinião por estes dias. Há que aguardar, uma vez mais, que a matéria em causa será objecto de solução ou se tudo ficará na mesma.
Seja como for, o que é importante referir é que cada organização religiosa, de todas as que existem no nosso Planeta, tem o direito de estabelecer as suas próprias regras de conduta e de actuação no interior do seu próprio território. Mas, da mesma maneira que, por exemplo agora em França, se levanta o problema de proibir a circulação, dentro do seu País, de mulheres muçulmanas com a cara tapada pela “burka”, todos os comportamentos públicos que se verificarem por grupos, religiosos ou não, que estejam legalmente constituídos, esses não podem fugir às reacções que provocarem nos cidadãos de cada localidade, se ferirem ou intervierem na regular vivência desse povo.
A crença religiosa é um direito que, especialmente nos países democráticos, é aceite sem discussão. A prática dos seus rituais também não deve oferecer contestação. E, sobretudo se, como parece ser o que acontece aos seres humanos, o seguimento desses princípios conduz a uma aproximação da felicidade, mais uma razão para que ninguém interfira em tais comportamentos. O que não quer dizer que sejam admissíveis quebras de legalidades, a coberto de qualquer protecção religiosa.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

RECEITA PARA HOMEM

Tome-se um homem qualquer
a viver numa casinha
junto da sua mulher
com vida sossegadinha
de manhã para o trabalho
o almoço contadinho
o cabelo já grisalho
o fato bem compostinho
como todos passa os dias
sempre iguais mas não se importa
não tem nenhumas manias
e com pouco se conforta
seu cigarrito lá fuma
de leitura pouco gosta
de futebol sim, em suma,
e no seu clube aposta
um cafezinho à saída
com os colegas de luta
altura de uma bebida
e também de uma disputa
p’ra defender suas cores
e jogar no totobola
que aliviaria as dores
e descansaria a cachola
dava p’ra pagar ao banco
a hipoteca malvada
talvez abrisse um estanco
passaria a ter criada
mas se isso não se der
que é o que se tem mais certo
lá continua a viver
sujeito a todo o aperto
de chegar ao fim do mês
com a carteira vazia
que isso de rigidez
é tal e qual a azia
depois de uma almoçarada
como aos domingos se passa
dia de não fazer nada
e de gozar a madraça
pois o dinheiro não dá
para ter outra opção
p’ra além daquilo que há
e que é ver televisão
já que na segunda-feira
de novo o mundo rola
e quer se queira ou não queira
filho segue p’ra escola
a mulher vai trabalhar
o autocarro está
como sempre a abarrotar
mas outro meio não há
para ao serviço chegar
repete-se assim a cena
tem sido igual toda a vida
também não há que ter pena
basta esperar a partida
com certa resignação
a velhice não perdoa
as doenças também não
por tal não se gasta à toa
prevenir o amanhã,
os amigos vão morrendo
já é pouca a vida sã
o remédio é ir vivendo
com certa resignação
à espera do seu caixão.

Este é o homem modelo
o que nasce, vive e morre
que não sendo pesadelo
faz o que pode e lhe ocorre
não é muita a ambição
e de ter mais bem gostava
não sai do que está à mão
quando pode desencrava
sem ser muito resoluto
já que tem muitas cautelas
norma que lhe vem de puto
evitando as mazelas
e conservando os empregos
não mudando de patrões
já que os desassossegos
é que causam confusões
mais vale pouco que nada
dizem os mais cautelosos
caem sempre em borrada
os que são gananciosos
casado, muito calminho
com um filho que consola
não sendo um coitadinho
tem casinha pachola
nos arredores da cidade
e p’ra ser feliz já dá
não vive da caridade
quem quer demais sofrerá.

Mas ser assim comedido
não ter ambições na vida
justifica ter nascido
e andar por cá de fugida?
Resposta eu cá não tenho
nem quero ser eu juiz
por isso me abstenho
não sei o que é ser feliz.
Homem modelo é assim
nunca desejar de mais ?
Eu falarei por mim
nem todos são iguais
mesmo sem ter o talento
dos grandes homens de génio
há que lutar cem por cento
ainda que falte oxigénio

Com o filho já crescido
que partiu p’ra sua rota
manteve o seu apelido
e é um rapaz janota
os seus estudos lá cumpriu
até onde quis chegar
e a uma moça pediu
para com ele casar
o trabalho o afogou
tinha o destino traçado
uma casa pois comprou
com o dinheiro emprestado
começou tudo de novo
está visto, tinha que sê-lo
é essa a sina do povo
claro, do homem modelo

De vez em quando vem um
que sai daquele padrão
não sendo assim tão comum
juntos fazem multidão
alguns de cabeças espertas
os que fazem por passar
por portas semi-abertas
onde tentam se esgueirar
e quando conseguem ficam
à frente dos que esperam
e assim sempre debicam
pois são eles que aceleram
e de carro ou a pé
de cotovelo em riste
fazem o seu finca-pé
mas que é triste, isso é triste.
Os outros, que poucos são,
sobressaem da manada
nasceram com o condão
de deixar obra do nada;
são os génios, os tocados
pelo dom da Providência
serão os iluminados
na escrita ou na ciência
ou também em qualquer arte
com trabalho e muito empenho
são os chamados aparte
os que mostram ter engenho.
Só que a regra geral
é que os espertos enricam
acumulam capital
como o fazem não explicam;
os outros, os geniais,
quase sempre até morrer
mesmo sendo os anormais
não conseguem convencer
e só depois da partida
e até passados anos
é então reconhecida
a obra de alguns fulanos
com estátua em jardim
ou numa rua o nome
pagando-se assim por fim
a alguém que passou fome.

É este o mundo que temos
em que o homem-modelo
mesmo que não aprovemos
é o que leva o selo
de cumpridor, direitinho
levando uma vida inteira
sem sair do seu caminho
sempre com eira e beira

Saudemos tal personagem
Prestemos-lhes a homenagem

Mas seguir o seu caminho
a mim não causa fascínio!











UNIDOSES


JÁ SABEMOS qual é a decisão do Governo no que respeita à venda de unidoses de remédios nas farmácias. Pelo menos as dúvidas estão ultrapassadas, posto que a ministra da Saúde, em entrevista concedida a Miguel de Sousa Tavares - o encarregado pela RTP de fazer agora o papel de interrogador de figuras mediáticas, o que, expresso a minha opinião, não lhe sai muito bem, e, quanto a isso, depois de assistir a mais umas tantas tarefas do mesmo tipo, não deixarei de referir o que penso concretamente sobre essa missão -, deixou bem claro que se trata de uma medida que apresenta custos muito elevados e que são os próprios laboratórios a dar mostras de não quererem aderir a essa alternativa.
Ora, era precisamente esse pormenor que justificava também um “aperto” por parte do entrevistador, dado que, há mais de 30 anos, por acaso em Londres, fui protagonista de uma situação em que um médico de um hotel requisitou, até pelo telefone, uma medicina para serem tomadas apenas duas doses, e as duas pastilhas apareceram numa frasco não original e com um rótulo colado no exterior e o nome do remédio escrito à mão. Isso, repito, ocorreu em 1970!
Por aqui se pode ver o estado de atraso em que nos encontramos no que se refere à Europa. Pelos vistos, na Grã Bretanha – e não só, pois há conhecimento de que outros países seguem o princípio da venda de unidoses de medicamentos – os laboratórios farmacológicos não têm o poder que por cá se verifica e não existirá uma associação dos farmacêuticos com a mesma força que tem a que domina a situação no nosso espaço.
Eu nem me sinto vocacionado para discutir a opinião da ministra da Saúde, pois cheira-me a sua tomada de posição a falta de coragem em enfrentar o finca-pé do “patrão” da instituição das farmácias, o que prova, sem necessidade de qualquer chapéu de chuva, que o mais cómodo é não levantar confrontos, mesmo que esses representem uma economia importante nos gastos públicos e, evidentemente, um gasto bem menor por parte dos doentes que, especialmente neste período de baixas de rendimentos, lhes calharia de forma bem positiva.
Cada um que pense o que quiser. Eu, com o meu blogue absolutamente independente de quaisquer interesses, só me permitindo apontar aquilo que já verifiquei lá fora, não me conformo e, quando vêm dizer que os próprios médicos não são partidários de receitar unidoses, como já foi dito na comunicação social, então ainda mais revoltado me sinto. E a única resposta que dou é de que não acredito que os tratadores da saúde pública levantem barreiras no que respeita a facilitar a vida dos mais necessitados.
Mas, ao mesmo tempo, fico a falar sozinho.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

OS BURROS


Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais

UMA BURRADA


ESTA HISTÓRIA dos submarinos só serve para mostrar como os homens têm sempre opiniões diferentes e que, por isso, é difícil conseguir um consenso onde existam dois seres humanos. Para alguns oficiais da força armada portuguesa, os seus pontos de vista são de que é absolutamente necessário que, na nossa vasta área marítima, não faltem estes assombrosos elementos náuticos e apresentam as suas justificações; no que respeita a outros sabedores, também da Marinha portuguesa, e para a maioria dos cidadãos e até de grande número de políticos que já expressaram as suas ideias, tratam-se de dispêndios que representam um gasto desnecessário para um País como o nosso e sobretudo numa época em que atravessamos uma carência assustadora de falta de fundos públicos.
Prefiro, aqui neste blogue, não entrar em tal polémica da necessidade militar, ainda que, como não poderia deixar de ser, sempre na óptica das opções ligadas ao princípio de que é forçoso ter sempre presente de que não se pode perder de vista a necessidade de salvaguardar as nossas potencialidades financeiras, se me fosse pedida a opinião não hesitava em evidenciar a minha negativa, relegando para outra oportunidade o estudo sobre se a escolha da compra deveria caber aos submarinos ou se era aconselhável efectuar outra opção, por exemplo barcos ultra-rápidos para impedir as entradas ilegítimas, que não param, especialmente de estupefacientes. Mas, repito, esta questão caberia a quem se encontra mais dentro do problema do que um simples curioso que tem de confessar o seu alheamento a este tipo de problemas.
Ora, se o ministro da Defesa que, na altura, resolveu autorizar a referida aquisição, no caso Paulo Portas, que , tal como eu agora, não se encontrava devidamente habilitado para permitir ou proibir, tratou-se, como se verifica agora, de um erro que todos nós temos agora que pagar, e só lhe ficará bem se aceitar a parte de culpa que lhe cabe, muito embora não se lhe deva assacar na totalidade, penso eu, o acto de que foi o autor principal.
O mais escandaloso ainda é que, como parece que sucede sempre que se efectuam compras no exterior de material dito de guerra, surgem sempre os habilidosos das comissões, o que torna, inevitavelmente, mais caras as aquisições, dado que é forçoso carregar na factura os montantes que ficam pelo caminho.
E, nesta situação específica, por ter sido preparado um contrato que, embora tendo interferido no mesmo um ou mais escritórios de advogados portugueses (que, ao que parece, metem sempre o seu “saber” nestas coisas), não salvaguarda devidamente as contrapartidas de compras de produção nacional no valor – total ou parcial, não está muito bem esclarecido -, ainda piora a operação e traz mais prejuízo à parte nacional, com a agravante de fazer prolongar todo o problema para tempos indefinidos… como é nosso costume.
Isto, para não falar já, na notícia que tem corrido por aí de que as contrapartidas que ofereciam os franceses pela compra dos submarinos do seu fabrico eram superiores aos do consórcio alemão GSC que ganhou a parada.
Quer dizer e em resumo: Tratou-se de uma “burrada” – com perdão dos burros – de um número pouco definido de homens públicos, de cabeças que se pavoneiam por aí como sendo todas de grandes inteligências, muito respeitados e, ainda por cima, exibindo posições de responsabilidade, os quais, escorregando entre as mãos de quem deveria exigir pagamento das culpas, nem que fosse por uma exibição nacional da sua incompetência, antes, sem demonstrar a menor vergonha, aí se encontram prontos para interferir as vezes que forem precisas em outras operações que prejudicarão, de qualquer maneira, o pouco que já valemos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

TARDE PARA SER CEDO

Ir para quê tão depressa
se tempo é muito o que tenho
não fiz nenhuma promessa
nem nisso faço empenho
Já é tarde?
Pois que aguarde!

Tenho tempo, se é cedo
assim vou mais descansado
não é caso p’ra ter medo
de lá chegar atrasado
Vou a horas
Sem demoras

‘Inda é cedo p’ra ser tarde
talvez se diga com medo
e há mesmo quem aguarde
por ser tarde p’ra ser cedo
Tarde ou cedo
É segredo

Ir a tempo é nossa sina
o difícil é na hora
esperar numa esquina
desistir e ir-se embora
Paciência tem limites
Acabaram-se os convites

Por depressa que se ande
e por muito que se corra
há quem mais do que nós ande
e dá ordens p’ra que morra
Devagar
Hà que chegar

Aí não passam as horas
p’ra esses, para os que partem
acabaram-se as demoras
e os outros que se fartem
Cá ficam outros com pressas
A pedir as suas meças




O MARECHAL


É O COSTUME que nós, na nossa Terra, não perdemos. Passados anos sobre a morte de alguém que, por isto ou por aquilo, se terá distinguido no meio onde actuava, é sabido que lá vem uma homenagem. E acontece que, em alguns casos, até é justa, só pecará por ser tardia mas, em bastantes caos, não se justificará tanto pela importância excessiva que lhe é dada.
Fernando Pessoa, será um exemplo a relembrar, pois sendo a figura que tanto merece os louvores que lhe são atribuídos, tendo falecido em 1935 enquanto foi vivo teve de se contentar com a profissão que exercia de ajudante de guarda-livros, com um emprego mesquinho que levava a cabo num pequeno escritório situado num terceiro andar de uma daquelas ruas da Baixa. E, no que respeita a atenção prestada por editores quanto às suas obras guardadas em gavetas, só a “Mensagem” mereceu a luz do dia, permanecendo o resto, bem vasto, a aguardar a altura em que se descobriu que tinha existido ali um génio. Quantos, outros que tal ou parecidos, em diversas áreas de produção genial, terão ficado na ignorância do mundo, do que o rodeava e do largo panorama existente?
Vem isto a propósito da homenagem prestada agora ao marechal Spínola. E, neste caso, não se pode dizer que se tenha tratado de uma figura que, em vida, tenha passado despercebida. Muito pelo contrário.
O facto de lhe ter sido concedido o posto, pouco habitual, de marechal, já por aí representou que, enquanto se movimentou no nosso País, ainda lhe foi reconhecido mérito para tanto, tendo aí recebido o privilégio de lhe ter sido atribuído o lugar de Presidente da República do nosso País, depois da Revolução de 1974. Mas, antes disso, foram-lhe confiados pelo regime de Salazar lugares de confiança, não só no meio militar como também na área civil, como governador colonial em África.
É verdade que, a dada a altura, não se conformou com o sistema seguido nas guerras em que estávamos envolvidos no Continente africano e, embora a coberto da sua alta posição militar, escreveu o livro que, há que reconhecê-lo, abriu portas ao movimento dos chamados “capitães de Abril”, o qual deu azo à reviravolta política em Portugal. E terá sido por isso que lhe coube o privilégio de ser nomeado primeiro Presidente das República.
Tudo bem. Só que, nessas funções, em lugar de se ter demitido por incapacidade de levar a cabo a solução dos problemas que se levantaram com o regresso das tropas portuguesas de África, o que lhe cabia como responsável pelos acontecimentos era a luta frontal para que os portugueses que viviam nos que passaram a ser novos países africanos tivessem permanecido nas suas funções, até porque um grande número deles já era natural de cada lugar onde exerciam as suas profissões. Teria sido útil e justo que as negociações para que tal sucedesse não fossem abandonadas e que não se tivesse verificado o drama ocorrido de milhares de compatriotas nossos, alguns, e de naturais das terras de que tiveram de sair desembarcassem em Lisboa, com uma mão à frente e outra atrás.
Mantenho a opinião de que o marechal Spínola, em lugar de se ter refugiado na reforma confortável que passou a gozar, deveria ter assumido o papel que lhe cabia, ainda que alterando alguma coisa nos princípios que defendia quanto à volta a dar no nosso relacionamento com os novos Estados criados. Mas isso é tema para um trabalho mais prolongado. O que sim, era importante e poderia ter resultado em algo positivo na altura, consistia não no abandono das funções que exercia, mas num combate frontal e valente que, no mínimo, teria evitado que o general Costa Gomes o substituísse. E, nesse aspecto, talvez ainda tenhamos que assistir a uma homenagem semelhante, já que há quem lhe tenha atribuído um certo valor.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

OS DENTES

Os dentes, eles são tantos
doerem não admira
são razão de muitos prantos
quem não grita até suspira

Os molares e os caninos
que os de leite já partiram
na época de pequeninos
tiveram-nos mas partiram

Mas depois quando se estragam
há que riscá-los da lista
cá se fazem cá se pagam

Há pois que ir ao dentista
e os postiços se agarram
p’ra não ofender a vista


DOUTORES E ENGENHEIROS


NESTE PAÍS DE DOUTORES, em que quem não seja tratado com um título académico não merece o respeito público e até se procura divulgar essa condição, autêntica ou falsa, para que, à frente de toda a gente, seja tratado por “senhor doutor”, já tanto faz que os presumidos tenham de facto frequentado um curso superior, pois que, na época actual, essa condição não representa que o indivíduo em causa tenha aprendido alguma coisa para além do que a maioria sabe.
Devo esclarecer convenientemente esta afirmação. É que, como é sabido, muitos dos ensinos que a juventude de hoje tem seguido são, como um diário recentemente classificou, “cursos de treta”. A engenharia, por exemplo, quando era ministrada apenas no Instituto Superior Técnico, de Lisboa, nas suas várias especialidades, representava a garantia de se conseguir um saber com base sustentável, fruto dos cem anos de ensino exigente que ali sempre se praticou. Hoje em dia, existem 526 cursos de engenharia em todo o País, com licenciaturas e mestrados, o que é evidentemente excessivo e não presta a menor garantia de que os “engenheiros” saídos dessas “fábricas” não estarão à altura das exigências de uma profissão com tanta responsabilidade como até a evolução da tecnologia requer. Aliás, será caso para perguntar se os inúmeros erros que se têm verificado – ver o caso do túnel DO Terreiro do Paço, por exemplo - não será consequência do pouco escrúpulo que existirá nos cursos relâmpago que existem por aí.
Mas esta situação ocorre em muitas outras áreas do ensino superior. No sector da Economia, por exemplo, que era antes uma carreira que, na maioria dos casos, vinha das Escolas Comerciais e depois passando pelo Instituto Comercial, saindo daí para o ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras), onde se seguia para Economia ou para Finanças, bastantes dos ainda actuantes nesta área são provenientes de tais fornadas – e eu falo por experiência própria, embora não tivesse aproveitado os ensinamentos conseguidos, por preferir o jornalismo -, tal aprendizagem era conseguida com a maior exigência por parte dos professores, havendo que cumprir horários rígidos e os “chumbos” também surgiam por mais de dez ausências ao longo de um ano (o que era preciso “chorar” aos mestres para retirarem as faltas que a necessidade de trabalhar muitas vezes provocava!). Hoje, tendo acabado o ensino profissional (o comercial e o industrial), coisa que antes não sucedia, pois só através da passagem pelos liceus é que se podia seguir para outras faculdades, o que muito me contrariou, talvez se note um menor conhecimento prévio das áreas que têm a ver com as actividades que têm ligação ao sector comercial e industrial.
Em resumo, pois. A negociata que surgiu no sector do ensino, tudo com as aprovações dos diferentes governos que tomaram o comando das operações, em lugar de proporcionar um aumento de conhecimentos nas gerações que preencheram o espaço após a Revolução, o que provocaram foi uma avalancha de “doutores” e “engenheiros” que, devido até à crise que se instalou, fazem parte em grande número dos desempregados portugueses.
Nos países onde a classificação de doutor é só atribuída aos médicos e isso como profissão e não como classificação social e em que todos os restantes são apenas o “senhor tal” e não com qualquer prefixo indicativo de situação privilegiada na sociedade, aí o que interessa, da facto, são os conhecimentos que foram obtidos nas escolas e não o “canudo” que é apenas sinal de vaidade.
Eu não me canso de repetir aquilo que tenho escrito em diversas ocasiões e que, não consistindo a solução de tudo é, pelo menos, uma enorme preparação para um futuro de que tanto Portugal necessita. Repito: a instituição nas escolas primárias (insisto em usar esta denominação) de uma classe de Democracia, em que a pequenada aprenda a saber ouvir, a responder só na altura certa, a respeitar a opinião dos outros, mesmo que seja diferente da sua, a pensar antes de falar e, sobretudo, a entender que a sua Liberdade termina onde começa a dos outros, essa aprendizagem é fundamental para ir formando as gerações futuras. Defendo o princípio de que o comportamento desses alunos e futuros cidadãos passaria a não necessitar de “doutoramentices” para marcar as suas posições profissionais. Numa Nação como a nossa, com apenas três dezenas de anos de prática democrática, com as enormes diferenças sociais que se mantêm e ainda com uma enorme percentagem de iliteracia na população, dar esse passo enquanto, na área da política, os antigos continuam a agredir-se mutuamente e nada avança que torne o nosso País mais próximo da Europa, preocuparmo-nos com o ensino da prática democrática e isso logo na altura das primeiras letras, essa via proporcionar-nos-ia abandonarmos os complexos dos doutores de tudo e, especialmente, do nada!...

domingo, 11 de abril de 2010

MODISMOS

Com tantos recursos o português
sem necessidade de quaisquer ismos
não queremos que com desfaçatez
nos imponham até brasileirismos

Falta de gosto, grande ingratidão
para bastantes dos nossos antanhos
que foram os mestres da ilusão
e que não merecem erros tamanhos

Pois querem mostrar que são bem falantes
largam o “digamos”, falta-lhes a língua
não são afinal mais do que talantes
nem sabem falar como nós falamos

Passou depressa o tempo do “pois”
houve ainda aquele do “portanto”
e outros vícios vieram depois
não parou por aí o nosso espanto

Hoje em dia ”de alguma maneira”
gentes que se dizem profissionais
lançam nos ares sem eira nem beira
o termo horroroso do “logo mais”

Como poderá ser que o nosso povo
consiga usar esta língua bem
se os ignorantes largam como novo
palavras, expressões de Zé-ninguém

E também por dá cá aquela palha
espantam “espectáculo” para tudo
é expressão de quem só se baralha
quando melhor seria ficar mudo

Que nas rádios e nas televisões
só se admita gente preparada
p’ra defender aquilo que Camões
deixou a Portugal: a língua amada

Qualquer língua avança, é bem certo
mesmo com aquele “boé” horrível
mas não podemos deixar de ter perto
tudo que tem de estar inamovível

Se são esses os apresentadores
que merecemos, há que resignar,
para os puristas são só as dores
já sem esperança de os ver mudar


RTP



É BEM VERDADE que, tudo que represente gastar o menos possível no que diga respeito a dinheiros do nosso Estado, constitui uma medida acertada, até obrigatória, e digna de aplauso de todos os cidadãos deste País. As circunstâncias em que vivemos nesta altura obrigam-nos a todos, quer os responsáveis da governação quer a população em geral, a ter tento nas despesas, a fim de procurarmos resistir, o menos mal que nos for possível, às agruras que ainda nos ameaçam e que ninguém nos garante de que estejamos libertos. O exemplo do que se passa na Grécia constitui um aviso que não podemos perder de vista.
Levanto esta questão agora, face ao custo que representou a actuação da RTP no ano de 2009. Foram 2,1 milhões de euros que os portugueses tiveram de suportar, o que representa 201 euros a cada um dos habitantes nacionais.
Tem-se levantado a questão de saber se a televisão oficial deve ou não ser privatizada, o que levou já o Governo a esclarecer que não vê necessidade nessa operação, pois que o que é preciso é efectuar o saneamento financeiro, opinião do próprio ministro das Finanças. De resto, a publicidade que a RTP comercializa, no ano passado atingiu 48,6 milhões de euros, tendo representado uma parte dos ingressos que, com efeito, estão bastante longe dos encargos totais da emissora.
Será, pois, de admitir que, quer a RTP como a estação de rádio nacional, se justifica que se mantenham a ser geridas pelo Estado, posto que existe a necessidade de que, fora dos interesses comerciais, não faltem os serviços de informação, absolutamente isentos, que levem aos portugueses os dados que possuam a utilidade que corresponde a duas unidades de utilidade pública. A defesa da língua portuguesa, por exemplo, através de profissionais que garantam o uso rigoroso do nosso idioma, será uma das exigências a fazer a tais vozes e figuras que prestem o seu serviço naquelas unidades.
Mas é tão vasta a mancha dos chamados serviços públicos, utilizando programações de entretenimento que contenham sempre o princípio de fazer chegar à população portuguesa aquilo que as estações privadas muitas vezes desprezam, tem tanta margem para captar a atenção e o interesse dos ouvintes e espectadores esse tipo de actuação, que se poderá dizer que, enquanto for possível, mesmo representando um encargo controlado, não deverão passar para o sector privado tais benefícios para a população.
Agora, no que não se poderá perder de vista é, com absoluto escrúpulo, o sentido da prestação de um serviço que será de constituir de utilidade indiscutível. É sabido que, no caso de programas de teatro, é muito raro que as televisões particulares se interessem pela sua apresentação. E, tratando-se de autores portugueses, nesse caso então pode-se dizer que não prestam a menor cobertura a tal sector. Quer dizer, as áreas de cultura, sempre ligadas ao entretenimento – isso tem de ser prioridade absoluta -, como concursos relacionados com a literatura, a poesia, música e outras artes que não conseguem atrair em demasia o cidadão comum, tais domínios, se apresentados com motivos de atracção e com prémios que a própria publicidade poderá facilitar, esse sector poderá constituir uma ocupação dos espaços televisivos e radiofónicos.
Em conclusão, pois, o que importa para justificar o que se gasta com a RTP e com a rádio oficial, em todos os seus canais, é que a sua serventia seja exclusivamente orientada para um serviço que se presta, sempre sob a cobertura de programas interessantes que atraiam e não aborreçam os cidadãos. Coisa difícil, por certo, mas, sobretudo em Portugal, que não é um País com largas manchas de população demasiado instruída, o proveito a tirar-se desse serviço, o procurar-se actualizar os cidadãos principalmente os do interior com dados que, um grande número deles, não teve ocasião de recolher nas escolas primárias de épocas passadas, essa utilidade não há dinheiro que chegue para pagar.
Será por existir essa responsabilidade por parte dos elementos que formam a administração e as chefias de serviços que haverá que proceder a escolhas acertadas e, nesse caso, as atribuições de salários terão de ser de acordo com as funções que desempenham, mas sempre sem nunca, em situação nenhuma, excederem o que pode ser considerado razoável, de acordo com a situação do País. Mas tudo isto, concordo, é pedir demais.

sábado, 10 de abril de 2010

DIZER MAL

É fácil ver os defeitos
dos outros, claro está
podem-se tirar proveitos
pois dar é que ninguém dá

Alguém de que não se gosta
ou que não se simpatiza
fica logo bem exposta
a ser alvo da brisa

Ter língua muito afiada
não é raro, não senhor
serve para a punhalada
dada de longe, sem dor

Dizer mal mesmo sem bases
metendo dedo na ferida
mostra do que são capazes
os filhos da malparida

Não se dão conta, porém
de que o veneno que espalham
tem voltas de vai e vem
por vezes os amortalham

O pior é quem diz mal
do outro se diz amigo
afirmando-se leal
retira-lhe o abrigo

Amigos assim, meu Deus
bem melhor ter inimigos
são como os fariseus
só representam perigos

Mas há quem diga também
em forma de ideal
desprezando até o bem:
falem de mim, mesmo mal!






JORNALISTA ANTIGO


ISTO de ter muitos anos de actividade e de, nessa actividade, ter convivido com muita gente que estava ligada ao regime anterior e, depois do 25 de Abril, desde o primeiro dia, também me ter relacionado, até com mais afectividade, com a maioria daqueles que intervieram na nova política, quer por participação no acontecimento quer por, após o facto consumado, terem aderido dando mostras de entusiásticos democratas, essa antiguidade profissional deu-me azo a historiar, no meu conhecimento íntimo e pessoal, muitos casos que me têm recomendado várias pessoas que deveriam ser passados a livro de memórias. Mas eu, que tenho outras obras para divulgar, tenho-me recusado sempre a dar largas a tais escândalos, como alguns se podem assim classificar. Para inimigos, já chegam os que poderei ter, mesmo sem ser por minha própria iniciativa, mas sobretudo por lhes ter sido algum dia útil e não gostarem de o reconhecer.
Muita dessa gente e alguma ainda viva, tenho que o dizer, por ter compromissos algo comprometedores assumidos com a situação da época da ditadura, teve de usar de todas as manigâncias para dar a ideia de que o seu espírito de Liberdade vinha de tempos anteriores e que até tinha sofrido as consequências de não se mostrarem então coniventes com esse regime. E o certo é que bastante de tal gente, pela sua necessidade de enganar – porque também há muitos que preferem fingir que acreditam -, tem conseguido, ao longo destes 36 anos, ir garantindo a sua credibilidade e até, em casos excessivos, com enorme sucesso e fazendo mesmo parte de iniciativas governamentais e de lugares apetitosos que lhes são confiados por apagamento ou ignorância dos seus passados comprometedores.
Há que excluir deste grupo, sem sombra de dúvidas, aquelas figuras que, mesmo tendo participado em acções concretas que eram regidas pelo salazarismo e seguinte, não podem ficar marcados ad etaernum, pois a sua capacidade intelectual, de competência na sua área e até de utilidade que ainda podem transmitir ao nosso País, tudo isso é bastante para não serem renegados da vida no campo democrático. Há exemplos disso e a generosidade política manda que não sejam feitas discriminações dessa espécie. O que perturba são todos aqueles que, não assumindo o seu passado político, fazendo tudo para que os outros os tomem como autênticos democratas “desde sempre”, se passeiam na nova época assumindo posições e recebendo mesmo honrarias debaixo dessa falsidade revoltante. Poderia indicar uma boa dezena de nomes desses engenhosos e contar até algumas histórias de que tenho conhecimento, directo ou por pertencer ao conhecimento de quem se movimentava, por razões profissionais, como era o meu caso, nos meandros dos sabujadores de profissão.
Não me façam perder a paciência, que eu um dia, se as coisas continuarem a caminhar em Portugal como se assiste hoje a tanta falsidade, ainda surjo, neste blogue ou de uma outra forma diferente, com os nomes e os acontecimentos que me estão a engasgar excessivamente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

CALVÁRIO

Há ou não razão p’ra desanimar
neste calvário imenso em que vivemos?
se um dia isto tiver de acabar
e d’algo pior ainda tememos
e não se passa só em Portugal
o mundo inteiro não está melhor
para se conseguir fugir do mal
tanto faz que se vá p’ra onde for

A Terra anda toda ela às voltas
acalmia é pouco que se encontra
pois muitos malvados andam às soltas
já não escapa nada em qualquer montra
e nas finanças grandes roubalheiras
na política grassa a corrupção
pouca vergonha já não tem fronteiras
ao nosso lado pode estar ladrão

Não é bem assim, dizem confiados
os que ainda não sofreram danos
mas um dia destes ficam calados
se os atingirem alguns fulanos
é que isto de trabalhar não dá
não é bastante p’ra levar a vida
se é isso que se passa por cá
é igual aos que vêm de fugida

Calvário da vida não chega a todos
há os que conseguem bem escapar
para uns tantos os terem a rodos
outros nunca precisam de suar
ainda bem, pois não é regra geral
o ser feliz é coisa que existe
para os que só enfrentam o mal
há sempre aquele que a tudo resiste

ATENÇÃO À GRÉCIA!



O AVISO que, um dia destes, um governante grego fez a um jornalista da televisão portuguesa, com a frase “tenham cuidado que isto que nos está a suceder anos, em breve acontecerá a vocês!”, esta advertência deveria ser bem entendida e pensada pelos responsáveis portugueses, para não dizerem depois que foram apanhados de surpresa.
Mas este tipo de conselhos não pegam nos membros do Governo que temos, a começar, como é totalmente sabido, pelo primeiro-ministro que, sempre que surge em qualquer inauguração ou visita a obra executada, por mais insignificante que seja, lá vai ele com as discursatas sem ponta por onde se lhes pegue, e em que as afirmações são repetidamente de elogio em causa própria, de que somos os melhores de todos, que nos encontramos numa posição invejável e com outras maravilhas que só ele é que é capaz de se convencer que somos um País que vive nesta altura um período de cinco estrelas.
Na verdade, o exemplo daquilo que está a ocorrer no País da Acrópole, o que nos tem de provocar grande lástima até porque alguma coisa nos liga a esse povo, para não falar já na língua, que chegou, muitos séculos atrás, a este extremo europeu e que deixou marca na origem de muitas das nossas palavras, essa prova lastimável não pode deixar-nos indiferentes e cabe-nos agora lutar, no seio da Comunidade, para que seja prestada uma ajuda que retire aqueles parceiros do afogo por que passam. Por outro lado, ninguém sabe qual é o dia de amanhã e, quanto mais não seja, até por esse motivo se justifica plenamente que tomemos uma posição positiva na referida causa.
Mas, para além dessa razão um pouco egoísta, no que todos os membros comunitários têm obrigação de participar é na luta para que o que começou por ser apenas um mercado comum, atinja rapidamente o objectivo que justificou a sua criação: a de uma família unida num Continente e em que não só a moeda deve ser comum – apesar de se manterem ainda umas tantas tristes excepções -, mas em que os interesses de diferentes ordens não podem deixar de se encontrar relacionados uns com os outros, na ordem jurídica mas não só, pois que apenas uma Assembleia comunitária em Bruxelas não é bastante para que os diferentes povos, com línguas distintas e ainda bem, se sintam afastados da caminhada que tem de ser levada em absoluta harmonia e com uma ligação estreita que assente numa política de mãos irmãmente dadas.
Não sei se, depois de tantos anos em que as dúvidas ainda se verificam nos 27 países que fazem parte da Comunidade, se chegará alguma vez aos tão sonhados Estados Unidos da Europa. Confesso-me duvidoso em relação a tal ideal, segundo é a minha forma de ver o problema. Pois, provavelmente, os seres humanos que fazem parte deste Grupo não perderão de moto próprio o espírito egoísta que faz parte da sua formação. É que eles são isso mesmo: seres humanos. E estão ainda por descobrir Homens que sejam capazes de pôr de parte interesses próprios e se entreguem abertamente ao bem geral!
A não ser que uma guerra, ainda muito pior do que aquela de que se sofreram as consequências em todo o mundo – e ainda não tinha sido descoberta a bomba atómica -, obrigue a darem as mãos aqueles que, nas actuais circunstâncias, se mostram ainda esquisitos em relação até à moeda única e a muitos outros acordos de governação, que poriam fim a muitas causas de mau entendimento que já não têm justificação. Uma delas seria a da “invasão” em massa de imigrantes de outros continentes, que, sendo de proteger, não pode continuar em moldes como tem ocorrido até hoje.
Mas esta é uma opinião, como haverá muitas. E é bom que se pense naquilo que vai ser o futuro, dado que o que poderá ocorrer em Portugal tem tudo a ver com o que se passar fora de portas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

GENTE

Todos por cá somos gente
com membros, tronco e cabeça
que fala verdade e mente
que cai e também tropeça

Boa gente
Sã e doente

Há de tudo neste mundo
muitos mil de milhões
todos querem ir ao fundo
na procura de opções

Quem sente
É boa gente

Quem cá nos põe de repente
não pergunta se queremos
vimos aumentar a gente
sem saber se cabemos

Seja ateu ou crente
Cada um é bem diferente









VENDER? NEM ÁGUA!...


COM TODA ESTA BUSCA que se constata afligir alguns dos políticos que se situam à frente do grupo mais responsável pelo estado em que se encontra o País, e não só esses mas também aqueles que surgem nos écrans televisivos e nos artigos de jornais a opinar sobre a forma de solucionar o grave défice nas contas públicas, um dos temas que é constantemente repetido é o da necessidade absoluta de Portugal se dedicar energicamente à exportação das suas produções, pois que, cada vez em menor escala, tem sido desenvolvida essa área que, em termos económicos, pode compensar as compras que somos obrigados a fazer no estrangeiro, como, por exemplo, os combustíveis, mas não só.
Pois bem, essa é a teoria. Mas transformar esse desejo em atitude prática já é outra conversa. Há vários meios para podermos receber dinheiros de fora, quer em divisas quer na moeda que agora pertence a toda a Europa, o Euro, e o turismo, todos o sabemos, é um meio de cá ficar o que é oriundo de países estranhos. Mas, obviamente, a colocação de produção nacional a ser consumida no exterior constitui a via mais antiga de receber a contrapartida, ou seja o produto monetário que entra e que contribui para enriquecer os cofres nacionais.
Nada disto é novidade e qualquer português, por mais afastado que se encontre dos princípios económicos, sabe que, tal como os salários, que são oriundos de fora de casa, também os pagamentos que entram pela porta dentro constituem um contributo para se poder viver melhor em família.
Agora, o que não se consegue pôr em funcionamento é a forma como se realizará esse desejo, já que está provado que os portugueses, desde os tempos em que se expulsaram os judeus do nosso País, oferecendo de mão beijada à Holanda esse privilégio, não fomos nunca capazes de dar mostras de possuir essa habilidade de vender e tal se verificou fartamente com a descoberta de “novos mundos”, em que, nem por isso, conseguimos tirar partido desse facto, como sucedeu, por exemplo, com os ingleses e com os holandeses, que apareceram em terras estranhas muito depois de nós.
Mas a mim, como já me referi concretamente a este ponto, o que me custa a entender é que, existindo por cá um organismo, antes chamado ICEP e que, desde há pouco tempo, passou a ter um acrescento de uma letra, pois agora denomina-se AICEP – esquisitices bem ao nosso modo! -, cujo objectivo, desde a sua criação, é o de abrir portas por esse mundo, por forma a indicar caminhos aos nossos produtores, a fim de que sejam facilitados os contactos para serem efectuadas posteriormente as vendas correspondentes, essa actividade nunca foi desenvolvida em moldes que correspondam às nossas necessidades e isso, digo eu que tenho acompanhado assiduamente tal actividade, por deficiência de organização e por os elementos humanos que estão inseridos em tal propósito não serem aqueles que têm características de bons vendedores. Há “doutores” a mais e “caixeiros-viajantes” a menos!
Se o Estado investisse convenientemente neste organismo, se o Ministério de Economia (que julgo ser o pelouro a que pertence o AICEP) acompanhasse convenientemente os resultados que são obtidos em cada destino e fomentasse, dentro do País, a ligação dos produtores, provavelmente os objectivos já teriam sido alcançados, incluindo o sector do turismo, posto que um os gastos excessivos no Orçamento do Estado que resultam dos diferentes escritórios abertos no estrangeiro, não são compensados com os resultados esperados, e isto também por não pertencer ao mesmo conjunto a promoção turística que, essa é feita à parte, com todos os elevados encargos que isso representa.
Mas, ao fim e ao cabo, está mais que demonstrado que as forças públicas nacionais não conseguem solucionar o problema da colocação dos nossos produtos nos mercados estrangeiros, nem mesmo quando se perfilam negócios de contrapartidas, como foram os que se proporcionaram com a compra dos tais submarinos (que negociata!), em que dispusemos da oportunidade de vender o equivalente a mil e 400 milhões de euros e nem isso fomos capazes de fazer, o que, aliás, sucedeu também com 400 milhões de euros na compra dos helicópteros e isso para não referir as compras pela TAP de aviões que, se sabe, podem ser adquiridos com as mesmas contrapartidas que nunca aproveitamos.
Então, um Sócrates, que passa a vida a gabar a sua actuação governamental, não é capaz de substituir as suas passeatas pelo norte de África e pelas suas corridinhas ridículas e pegar nestes assuntos que são de extremíssima importância para Portugal?
Enfim, é por estas e por outras que a minha esperança em assistir ainda a uma ressurreição da economia portuguesa se encontra cada vez mais longe de ser recuperada. A História desta nossa época, um dia contará como foi possível aglomerar tanta incompetência em meia dúzia de anos. E como não sou eu que mando (!), resta-me apenas assistir a um estado deplorável da actuação de cabeças que não servem para liderar nem uma mercearia, quanto mais um País.
Ficaremos desta forma per omnia seculo, seculorum… Já não serão é outros oito séculos, que a tanto não chegamos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ALEGRE PRESIDENTE

Se Alegre assim pensa
lá tem as suas razões
que ser poeta compensa
ao menos cria ilusões

P’ra poder ser Presidente
a poesia até conta
diz o Manel bem contente
com sua resposta pronta

Políticos há bastantes
alguns até fazem rima
é hoje como era antes
mas merecem pouca estima

Mas Presidente poeta
que gosta de ladainhas
se lhe der uma veneta
até canta às alminhas

Que essas, que já lá estão
não interferem no voto
não têm opinião
e nada lhes cai no goto

Se Presidente em Belém
por cá para pouco serve
se poesia faz bem
então que Deus o conserve

Dar poesia ao País
aqui onde rima falta
é tornar algo feliz
e ir distraindo a malta

Tal como com estes versos
nada muda tudo resta
os políticos adversos
também lhe fazem a festa

Sim Senhor, Manuel Alegre
nessa luta vai em frente
procura que se integre
esta tão dispersa gente

À volta de qualquer cousa
mas sempre com alegria
porque a vida é uma rosa
se tem junta a poesia



POETA PRESIDENTE?


ANDA JÁ há algum tempo a anunciar que vai concorrer às eleições para a Presidência da República, o que talvez possa ser considerado como tratando-se de uma proposição excessivamente antes do tempo ideal. O seu concorrente principal – porque poderão surgir ainda outras disposições semelhantes, como é costume suceder -, Aníbal Cavaco Silva, gozando da posição privilegiada por se tratar de disposição para repetir as funções que já exerce, parece não estar muito preocupado com a concorrência. Dizem os hábitos que, naquele lugar, quem se submete a novo escrutínio por se encontrar já a desempenhar o papel que venceu da primeira vez, vê sempre repetido o exercício anterior, até porque não lhe é permitido sujeitar-se a nova votação. São oito anos e fica por aí.
Pois Manuel Alegre, com uma caminhada já sua conhecida, pretende tentar de novo a possibilidade de se instalar no Palácio de Belém, e, para isso, é natural que busque os apoios que considerar mais fiáveis, entregando-se desde agora à tarefa de percorrer o País e de estar presente em almoços e jantares, bem à portuguesa, que lhe são proporcionados em vários locais do nosso território e sempre com demonstrações de grande entusiasmo por parte dos apaniguados que os há sempre à espreita de uma oportunidade que as circunstâncias poderão proporcionar se…
No entanto, mesmo tendo sido constatado que Cavaco Silva não se mostrou nunca disposto a dar mostras inequívocas de discordância com algumas atitudes, políticas e não só essas, tomadas pelo Governo de Sócrates – e também os momentos que se atravessaram não foram os mais apropriados para criar ambientes de tensão, pois houve sempre que atender que não convinha transferir lá para fora, para os credores, um panorama de desentendimento -, apesar dessa ausência de posição clara o mais expectável é que os portugueses não se sintam muito animados a fazer agora experiências com a mudança do primeiro Magistrado da Nação. Isto é o que eu penso, mas não é de descurar outra hipótese e, neste caso, o depósito da maioria dos votos no poeta político será de levar em conta. Mas ainda estamos longe do momento concreto.
Manuel Alegre, que esteve exilado largos anos na Argélia, onde compartilhou com o meu saudoso Fernando Piteira Santos uma fuga da perseguição da PIDE, sofreu na pele os efeitos da ditadura. É, por isso, alguém que tem experiência do que representou ter enfrentado um sistema que não perdoava a quem não comungava desses ideais, coisa que, na larga maioria dos políticos que se repimpam hoje com as regalias de que usufruem todos os que só passaram a existir depois do 25 de Abril, não é muito corrente encontrar parceiros. E essa posição tem de constituir um activo que, com o andar dos tempos, tem vindo a perder valor.
Será, porém, que os portugueses levarão muito em conta essa circunstância? Eu, por mim, julgo que não. Todos os cidadãos nacionais que passaram já a chamada meia-idade, ou seja que viveram mesmo o regime da “outra Senhora”, uns muito desiludidos com a falta de competência em ter sido bem utilizada a Democracia que tanto se aspirava e outros já com as esperanças perdidas de assistirem a um Portugal que compense o mau que se passou antes, não serão capazes de acreditar que tudo valeu a pena.
Só nos resta, portanto, é sentarmo-nos e esperar…


terça-feira, 6 de abril de 2010

FAÇO ISTO

Eu agora faço isto
só escrever e nada mais
é verdade, não resisto
a pensar jogos florais

Primeiro à mão, com caneta
num sítio de inspiração
é o que precisa um poeta
para encher o seu borrão

Mas se isso não fizesse
por p’ra tal não ser capaz
seria alguém que apodrece

Sem encontrar nunca a paz
e aos poucos lá fenece
o que também tanto faz!