segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

CONFIANÇA

Ter confiança
em toda a gente
com esperança
ir para a frente,
avante, avante
há que vencer
ser-se gigante
é só querer
basta lutar
e a cara dar
aguentar
sem desarmar
faz falta fé
na tal vitória
com finca-pé
lá se faz história.
Bater, bater
no mesmo ponto
até vencer
sem ficar tonto
mas confiança
perdê-la não
desde criança
com devoção
porque ganhar
é sempre o lema
e avançar
soa a poema.
Bater, bater
grito de guerra
e a combater
é nossa a Terra.

Quem lança tal
grito histérico
não tem igual
é bem esférico
mas o que tem
é vozeirão
convence bem
qualquer pavão
mesmo medroso
sob a plumagem
mas desejoso
de molduragem
mas no seu caso
por incapaz
dá sempre azo
a Frei Tomás
faz o que eu digo
não o que faço
no meu abrigo
só ameaço
não custa tanto
estimular
lançar o canto
do atacar
desde que o perigo
não bata à porta
porque comigo
a coisa é torta.

Ter confiança
em todo o mundo
só esperança
que lá no fundo
fique quieta
sossegadinha
por ser só treta
que desalinha
esta cabeça
que bem sossega
por mais que peça
pois não se entrega
a outro afazer
por mais confuso
pois tal querer
é quase abuso

Mas p’ra viver
assim de lado
até morrer
bem estafado
sem ter cumprido
um lema certo
nem ter perdido
rumo de perto
há que deixar
dogmas cair
e caminhar
já sem sentir
censuras vagas
que fazem rir
por serem gagas
e não parar
mesmo no erro
até entrar
no seu enterro.

Que a vida é isso
tempo a passar
não há feitiço
é só esperar
qu’algo aconteça
sem s’ímportar
sem ter pressa
se vê depois
que a tal vida
só ou a dois
terá saída
deixa saudades
aos que cá ficam
poucas vontades
até debicam
algo que resta
que vai ficando
já pouco presta
p’ra todo o bando

Cá fica o mundo
entregue aos bichos
já tão imundo
pleno de lixos
e tal confiança
diz o poeta
nem por herança
nem como treta
se vai manter.
Vitória fica
noutro viver
em chafarica
que então houver
s’é que haverá
onde viver
já sem maná.
Avante, pois,
mas para onde
se o depois
já não responde.
É pôr de parte
entusiasmo
pois quem reparte
o seu orgasmo
mas já não goza
sequer fecunda
tem fraca prosa
que bem se afunda
se não houver
mudança tal
que deixe ter
um mundo igual
ao que há hoje
qu’está perdido
que bate e foge
solta um gemido.

Não vale a pena
fingir que sim
que é outra cena
nada é ruim
deixa-te estar
lá no teu canto
porque o gritar
não te faz santo.
Todo alarido
que aqui se faz
não tem sentido
não é capaz
de dar a volta
de despertar
quem anda à solta
sem acordar
para a verdade
p’ra não andar
pela cidade
sem rumo certo
sem qualquer norte
longe ou perto
da sua sorte.
Porque afinal
ter confiança
no bem, no mal
com esperança
sonho perdido
desperdiçado
não conseguido
o desejado.

Avante, pois
p’ra quê, senhores
se então depois
perdem-se amores.
Fica quieto
no teu cantinho
no teu espeto
sossegadinho
dizer que sim
dizer que não
é sempre fim de uma ilusão.

MINISTÉRIO ANUNCIA


NÃO É DE AGORA que, quando um membro do Governo amua com um órgão de informação, sobretudo a escrita, aquilo que faz de seguida é dar ordens aos serviços respectivos para cortar a publicidade que conste do orçamento do seu pelouro, como forma de castigar aquele meio da falta de namoro por parte do jornal ou revista em causa. Aconteceu agora, no que respeita ao semanário “Sol”, por razões bem conhecidas de todos nós que seguimos as notícias ainda bem frescas, como ocorreu no tempo em que Manuel Pinho, o dos “cornos”, era ministro da Economia e retirou a publicidade à TVI – veio agora a público -, especialmente aquela referente ao sector do turismo, em 2009, organismo presidido por Luís Patrão, ex-chefe de gabinete de José Sócrates, cujos montantes ascendiam a cerca de 150 mil euros, tendo beneficiado do desvio a RTP e a SIC. Porém, acrescento eu agora, no tempo em que Basílio Horta foi ministro da Economia (e é quase sempre este o sector que comanda a distribuição da publicidade pelos meios de informação), dado a uma campanha que o semanário que eu dirigi durante dez anos, “o País”, ter mantido uma campanha contra a inexplicável – e nunca isso ficou esclarecido – falta de bacalhau no nosso País, quando em Espanha o mesmo produto, que ali não é tão usado como cá, era até colocado pendurado nas árvores das estradas que ligavam Portugal à Galiza, a Badajoz e na fronteira do Algarve, pois de cá faziam-se excursões para ir adquirir no outro lado o que tinha desaparecido misteriosamente do mercado. E como havia rumores que se tratava de uma atitude nunca aclarada por parte de Basílio Horta, tendo aparecido o fiel amigo à venda, com fartura, depois da campanha do referido semanário, o custo de tal posição foi o de o Ministério ter desviado muitas centenas de contos de publicidade para outros órgãos que não levaram a peito a estranha ausência de bacalhau. Haverá quem se lembre.
Isto tudo quer dizer o quê? Que os homens que ocupam lugares de comando nos governos, sejam eles de que partido forem, quando se querem vingar de alguém ou de alguma coisa não olham a meios e esquecem as suas obrigações públicas, as éticas, os valores que obrigam que quem está ao serviço do Estado é forçado a pôr de lado questões pessoais e ter em vista somente, exclusivamente, aquilo que melhor convém ao País e à sua população.
Isso de explicar os problemas e de pedir até desculpa por ter sido cometido algum erro, é atitude que os governantes têm dificuldade em assumir. Pode ser que tirando unas e pondo lá outros as coisas mudem. Pode ser. Mas, até isso suceder, como tanto se deseja nesta altura, as dúvidas têm de persistir. Já nem é preciso um bom… basta um menos mau!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

OUVE BEM

Ouve bem, por favor, o que te digo
Não tapes os ouvidos quando falo
Talvez não seja sempre um livro aberto
Mas, por certo,
Não é só quando calo
Que podes aparecer ao postigo

As coisas que eu tenho p’ra dizer
Julgo eu, não são despiciendas
Algo terão de importância
São a ânsia
De fazer com que entendas
Até onde vai o meu querer

Mas se convencer-te eu não consigo
Se não é bastante o meu esforço
Fico-me por aqui e não avanço
Não alcanço
Também se não atinjo não me torso
Só pode ouvir-me quem é meu amigo

ESCUTAS... DIVULGUEM-NAS!


ESTÁ POR DEMAIS falado e escrito o tema das escutas em que José Sócrates tem vindo a sair, cada vez mais, muito mal nas diversas “fotografias” em cada intervenção do próprio ou de qualquer dos seus apaniguados em que a sua imagem se afunda sem aparente solução. Eu, por mim, como não tive acesso aos tais telefonemas que, segundo dizem, se verifica uma perigosa situação em que a Democracia é bastante abalada – mas, até agora, ainda não foi possível tornar conhecidas essas escutas, pelo que o segredo que tem sido mantido tem contribuído largamente para piorar, digo eu, o verdadeiro conteúdo das conversas -, dado que a minha posição é semelhante, penso eu, à de todas as outras que têm vindo a ser divulgadas, tenho-me reservado a exprimir uma atitude radical, o que não quer dizer que não alimente também as minhas suspeitas, reservando por ora para mim a opinião final que poderá surgir na altura em que se passe a conhecer concretamente tudo aquilo que se disse nos tais telefonemas.
Bem, no entanto aquilo que se pode exprimir é que o que tem sido classificado como tentativa de “censura” à comunicação social, se não se verificou, de facto, andou por lá perto, e tudo indica ter sido produzida, não por via directa do sector oficial, mas com a intervenção da área financeira e através de empresas que, essas sim, ou dependem, total ou parcialmente, do dinheiros públicos, ou estão muito sujeitas à boa vontade dos poderes dependentes do Governo. Não é, portanto, a mesma coisa, mas o resultado é muito parecido.
Quer dizer, pelo que já foi divulgado e provocou a venda maciça de alguns títulos que até se encontravam em má situação financeira, o que, por isso, muito gratos ficaram aos erros praticados pelo grupo de Sócrates – que também aqui tem dado largas provas de inaptidão para gerir os seus próprios interesses -, todas as acções que tinham como objectivo calar a TVI, nem que fosse pela sua compra através da PT que, como é sabido, se trata de uma empresa próspera que se encontra muito dependente do Estado, as manobras que levaram José Eduardo Moniz a deixar aquela televisão e se ter transferido para uma outra organização da mesma área mas ainda com canal por abrir, o que lhe valeu, segundo apareceu a notícia, um lucro de alguns milhões de euros (ao menos isso), toda essa manobra, a pretensão de afastar Mário Crespo e o mais que ainda faltará divulgar constitui o enredo do folhetim que tem ocupado os noticiários e cujo final poderá constituir um drama pesado para alguém, para não dizer para o nosso próprio País. E isso se acabar, por exemplo, por resultar numas eleições antecipadas, perante o descalabro em que nos encontramos, se se chegar à também à saída forçada, ainda voluntária que seja do actual primeiro-ministro que, não podemos escondê-lo, está a representar um empecilho à necessária e urgente solução dos nossos autênticos problemas e que dizem respeito ao agravamento constante da crise que e não tem ninguém no Governo com cabeça fria capaz de encontrar soluções (é uma frase demasiado comprida, mas também este romance está-se a prolongar excessivamente), perante isso, a saída de Sócrates parece não representar um saneamento absoluto dos problemas actuais.
O que tem de custar a admitir, sejam quais forem as razões, aliás contradizentes por parte de especialistas na área do Direito, é que, para pôr ponto final na série de informações que aparecem constantemente a pretender relatar o conteúdo das tais conversas telefónicas entre diversos elementos relacionados com o primeiro-ministro, é que não sejam passadas para o conhecimento público, com absoluta limpidez, o que foi que se disse que tanto alvoroço tem provocado. Se José Sócrates não se sente atingido pelo que for divulgado, então que seja ele próprio a fazer essa declaração, para que os juízes, que parecem estar a querer protegê-lo, não fiquem limitados a um receio de se mostrarem contrários ao Governo. Urge acabar com o que parece ser para que não se exager em demasia o que a imaginação produz.
Se isso não for feito, então não se queixem os que estão a ser acusados nas ruas, uns pelo que fizeram ou não e outros por aquilo que tudo indica que tentaram encobrir.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

AS SAUDADES

As saudades que levo quando parto
E deixo para trás tudo o que gosto
Dizer adeus à vida mesmo que farto
É tristeza que lembra um sol posto

E logo que partem as andorinhas
Vinda a hora de mais outras viagens
Deixam-nos saudades as pobrezinhas
Cujos destinos são outras paragens

Saudades temos nós de quem morreu
E deixou na nossa alma um vazio
Ficando só à vista escuro véu

Aquilo que passou de ser verdade
A imagem de quem se foi, partiu
Porque o que nos resta é a saudade

DURÃO BARROSO CONTINUA


BARROSO conseguiu a reeleição para presidente da comissão europeia, como também viu a sua nova comissão obter um largo apoio do Parlamento, apesar de algumas críticas e exigências que, nestes casos são até naturais e desejáveis. Quer dizer, Durão Barroso obteve na Europa aquilo que lhe faltou quando exerceu as funções de primeiro-ministro em Portugal. Tal como os nossos emigrantes, distinguiu-se pela sua actuação acertada no estrangeiro, quando aqui, na sua Terra, não deixou saudades e foi mesmo o princípio da continuidade que veio depois e se mantém ainda hoje de governações sucessivas que têm conduzido o País à situação que hoje atravessa. Com a crise tornou-se tudo mais difícil, é verdade, mas mesmo sem ela não estaríamos a gozar de uma vida desafogada, também não é mentira.
Mas, nas suas funções que desempenha no grupo concreto do Continente Europeu, há que dizer que perdeu, nos últimos momentos, alguma capacidade de liderança, tendo utilizado certas manobras de equilíbrio para conseguir ir mantendo alguma aceitação por parte de todos os membros da Comunidade. Por isso se espera que, nesta reeleição, venha agora com maior espírito empreendedor e consiga provocar uma maior união entre todos os membros de um conjunto que só se compreende a sua existência se se verificar uma união de interesses e uma força que possa fazer frente às contrariedades que estão bem presentes nesta altura.
A legitimidade democrática de que goza novamente o português Barroso não lhe dá margem para desculpas, se não conseguir dirigir uma orquestra que não pode desafinar. Todos os seus membros, cada um com o instrumento que lhe cabe, têm que encontrar a harmonia para que não sejam dadas fífias.
Nós por cá apenas podemos desejar que o nome de Durão Barroso fique registado pelo seu bom trabalho e que o período que vai ocorrer durante esta nova eleição deixe o nome de Portugal, ao menos aí, sobressaído do panorama europeu. E a ambição nacional é também a de que os nossos deputados em Bruxelas dêem mostras de ser capazes de não fazer má figura. Pelo menos, que não se repitam as queixinhas que fez recentemente o representante do PSD e também agora candidato às eleições para presidente desse grupo partidário, pois não é no Parlamento Europeu que se têm de debater os problemas internos do nosso País e quem não tem o bom senso necessário para entender esse princípio básico, então que regresse a casa… e se explique.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A VELHINHA

Velha, velhinha, à minha porta dorme
Envolta em trapos, num volume enorme
Guarda em seus sacos relíquias, saudades
Lembranças boas, também de maldades

Já viveu melhor, talvez confortável
A vida traiu-a, não foi afável
Teve a sua casa, mesmo que alugada
Perdeu o que tinha, ficou sem nada

Agora a pobre anda pelas escadas
De dia, os jardins são o seu conforto
Depara às vezes com portas fechadas

Um saco, porém, não perde de vista
São cartas, senhores, pequenos nadas
D’alguém que deixou p’ra trás uma pista

ASSESSORES À FARTA!



FRANCAMENTE, nem sei já por que é que dou comigo a incomodar-me com certas notícias que surgem na comunicação social, sobretudo referentes ao nosso País, pois o habitual é que as asneiras se sucedam e que as que são originárias dos nossos governantes, dada a sua frequência, já nem nos deverem causar surpresa.
A que nos agrediu nesta altura foi a das nomeações efectuadas no segundo Governo de José Sócrates que, em grandes títulos nos jornais, se dizem superarem as que foram feitas por Santana Lopes e por Durão Barroso. E a lista é bem clara, pois que, nos cinco meses que durou a coligação PSD/PP foram colocadas mais de 1250 pessoas, das quais 940 para gabinetes ministeriais e no período de dois meses e meio em que Pedro Santana Lopes exerceu funções de líder do Executivo, em termos globais colocaram-se mais de 1.000 funcionários, sendo que 946 para servirem os ministros. Se, no tempo de António Guterres que foi primeiro-ministro entre Outubro de 1995 e Junho de 1999, o número total de empregos criados no funcionalismo público atingiu os 5.597 indivíduos, dos quais, só para quadros dirigentes, o número subiu a 3.465, pois não é que, em pouco mais de três meses, José Sócrates não perdeu tempo e para os respectivos ministérios permitiu a entrada de 997 pessoas?
Ora, haverá alguém neste Portugal que não se sinta seriamente preocupado por estes números, num período que, não tendo começado agora, já há muito tempo que deveria ter criado um espírito de precaução governativa para evitar que o futuro, como se verifica hoje, se apresentasse com extremas dificuldades para sairmos do atoleiro em que o País se encontra?
Por estes números se pode concluir que os governantes maiores, quando se sentam nos seus cadeirões, apenas dedicam atenção ao que ocorre na altura das suas governações, deixando para os futuros substitutos das suas funções a solução dos problemas que cada um deixa. O que importa é que, em cada momento, a imagem não seja degradada e que as populações se mostrem satisfeitas com as actuações dos que têm o encargo de governar… o que, verdade seja dita, não tem acontecido nos períodos menos antigos.
É por estes motivos que mantenho um grande desconsolo com o que nos é mostrado pelos governantes, aqueles que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo e a pensar bem antes de agir. O livro que tenho há bastante tempo para publicar e que, com o andar dos acontecimentos cada vez tem mais matéria a aumentar as suas páginas, com o título “Desencanto por Enquanto” – há, por aí, algum editor disposto a fazer o lançamento que julgo merecer? - , essa obra vai acumulando razões de queixa que, divulgadas com bonomia, poderão servir para alimentar algum futuro contador de história autênticas que esteja pronto a relatar um período da nossa vida pública.
Por enquanto, parte dos textos ficam relatados neste blogue diário e. a seu tempo, alguns passarão a aumentar o número de páginas do volume que, por ventura, vier a sair. É só aparecer editor a oferecer-se, que eu, bater à porta de senhores tão importantes, é coisa que não faço. E, sobretudo nesta altura em que as acusações saltam por todos os lados de que José Sócrates anda a perseguir a comunicação social que não o adula, e isso é uma posição que não tomo nem nunca tomei quando exerci as minhas funções jornalísticas, quem sabe se não haverá algum sector editorial que não se queira colocar na posição incómoda de dar cobertura a quem se julgue no direito de fazer críticas, como é o meu caso, se bem que sempre com a devida compostura e tentando interpretar o pensamento dos outros, pois todos cometemos erros… mas nem todos somos chefes de governos.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

REFORMA

Trabalhar toda uma vida
à espera que chegue a hora
de terminar a corrida
de se dar o bota-fora
do trabalho já se vê
isso sem ser despedido
e s’o sossego antevê
se não está iludido
a reforma é mesmo isso
ficar na cama até tarde
não ter nenhum compromisso
fazer da preguiça alarde

Mas tudo na vida finda
e com o tempo até farta
sendo ao princípio bem-vinda
chega a não pôr mais na carta
a pensar-se no trabalho
no tempo da confusão
e até de algum zangalho
que fez parte da função
e se tempo não se ocupa
com algo que encha o ego
pois o que mais preocupa
é não ter desassossego

Que quer afinal o homem
esse ser insatisfeito
que não gosta que o domem
e em tudo põe defeito?
Se trabalha, reclama
se descansa, se aborrece
fica farto do pijama
pôr gravata lh’apetece
e agora que o tempo sobra
já usa mais o dinheiro
reclama a quem lhe cobra
e até se sente solteiro

Quando s’entra na reforma
pois chega a terceira idade
por um lado se conforma
e por outro não lhe agrade
o passar a ser um velho
que só recebe e não paga
pouco se vê ao espelho
e recordações apaga
dos jovens tem certa inveja
mas também deles tem pena
é-lhes dada de bandeja
crise que não é pequena



REFORMAS AMIGAS


QUE OUTROS temas poderão ser abordados numa fase de preocupação máxima no que diz respeito ao futuro, do que o que tem a ver com as reformas dos portugueses? É óbvio que, o dia-a-dia que temos de enfrentar, já dá suficiente trabalho e muito sofrimento para que nos consigamos manter na corda bamba em que somos forçados a tentar o equilíbrio. Mas ao pensarmos no que nos poderá suceder quando chegar a hora de nos retirarmos da actividade profissional que exercemos num determinado momento, esses que ainda não atingiram tal meta terão de sentir uma certa inquietação quanto ao não poderem pôr de parte o admitirem que as condições financeiras do sector que couber quanto à responsabilidade de sustentar tal obrigação possam vir a sofrer alterações substanciais.
Pois é isso. O assunto das reformas não pode, por mais alheios que andemos da análise da situação actual, encontrar-se longe dos nossos pensamentos e, aqueles que começam a vislumbrar a data em que se despedirão dos companheiros de trabalho, esses, particularmente, mais sentirão a vontade de lá chegar mas, ao mesmo tempo, andarão algo apreensivos pela dúvida quanto a ser ultrapassada a ameaça de que a crise também atingirá o sector dos que só vivem ajudados pelo valor que lhes cabe na pensão resultante das contas feitas em relação ao que descontaram ao longo da sua vida profissional.
É verdade que, bem no íntimo, manterão a tal esperança, a última a morrer, de que conseguirão escapar a essa desgraça que, a passar-se realmente, será um descalabro que não haverá política que consiga suster as consequências da demonstração de que não há dinheiro publico que chegue para liquidar as reformas dos portugueses. E é bom que essa esperança nunca morra, pelo menos para que se consigam terminar as derradeiras caminhadas pela vida com o pouco, sendo só pouco, que vier todos os meses aquecer os bolsos dos mais velhos.
Não falo agora, por demasiado debatido, na situação daqueles que, sendo as excepções mas, mesmo assim demasiados, auferem reformas verdadeiramente escandalosas e não merecidas. Não serão os que mais valem, mas tiveram a esperteza, a habilidade, a manha de conseguir serem colocados em posições de privilégio. E, se falarmos, por exemplo, nas reformas vitalícias dos ex-políticos, que, em 2010, recebem um valor médio de 1.900 euros mensais, pelo que a despesa pública
com as respectivas subvenções se fixam na casa dos 8,8 milhões, mais 5,6 por cento do que no ano passado e que, no que vem a seguir, crescerá ainda mais. Os ex-deputados, por exemplo, fazem parte dos beneficiários que têm garantida a pensão enquanto forem vivos.
Agora, a possibilidade que dá a lei de os portugueses poderem recorrer à reforma antecipada, isto é, antes de atingirem os 65 anos, mesmo sofrendo alguma penalização por esse motivo – desde que não tenha a ver com a saúde ou com acidente laboral -, essa antecipação provoca custos de vária ordem, tanto no capítulo financeiro como no social. Por um lado, se a não saída total do mercado de trabalho no período estabelecido não deixa margem para que outros, mais novos, possam preencher os seus lugares, dando ocasião a que o desemprego continue a constituir outra aflição que tanto está a pesar no campo social do nosso País, representa, por outro lado, uma não diminuição nas receitas da segurança social, pois os descontos que continuam a produzir proporciona o ir arrecadando verbas para fazerem face, durante o maior tempo que for possível, às pensões dos que se mantém já no descanso da reforma.
Trata-se, portanto, de um problema que os governos têm nas mãos. Ou o prolongarem o período de trabalho e não ser aos 65 anos, mas mais tarde, que os trabalhadores passam a ter acesso a esse regalia, o que representa a não possibilidade de abrir portas aos que se encontram no desemprego e são muitíssimos, ou, actuando de forma exactamente contrária e atender, acima de tudo, à redução de gente sem encontrar forma de ocupação profissional, fomentando a corrida à reforma e deixando para depois, para os futuros governantes, o problema de conseguir dinheiro para fazer frente às reformas.
Há quem saiba responder a este dilema? Não vale a pena preocuparmo-nos hoje com o que pode muito bem vir a passar-se no horizonte que anda por aí a rondar-nos?
Não. Essa do copo meio cheio e meio vazio é uma forma de dizer coisas sem querer dizer nada. Para isso mais vale não haver sequer copo. E será que o tal copo, que é de vidro, até mesmo de cristal se vai manter inteiro, não se quebrando entretanto?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

RIR DE MIM PRÓPRIO

Não sou muito de me rir
sobretudo a contra-gosto
o que é preciso é sentir
para se ver bem no rosto

A gargalhada sentida
de dentro da alma sai
essa sim por mim querida
como chega também vai

Vistas as coisas no fundo
se há algo p’ra me rir
o melhor deste mundo

P’ra mim é de mim fugir
este pobre moribundo
nem sabe p’ra onde ir

FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS



CADA VEZ me convenço mais de que não existe em Portugal a consciência da situação real que o nosso País atravessa e que, por sinal, também é sofrida por diferentes nações, da Europa mas não só. E esse afastamento do concreto, se é notado no que ocorre na actualidade, mais ainda se constata em relação ao futuro e não só ao distante mas sobretudo o que estará aí a bater à porta.
Quando surgem manifestações de vários agrupamentos laborais a exigir que o Estado – e particularmente este – proceda a melhorias das condições de trabalho, com o aumento dos ordenados e das regalias subsequentes, pondo os sindicatos em primeiro plano para organizar tais reclamações, a ideia que tem de nos saltar é que ainda há muita gente por aí que se encontra alheada do panorama generalizado que somos forçados a viver.
Ninguém duvida de que os salários da maioria esmagadora dos trabalhadores por conta de outrem são cada vez mais insuficientes para fazer face ao custo de vida em Portugal, mas é igualmente certo que aqueles que não se encontram na situação de estar à porta das empresas a reclamar o pagamento de salários em atraso e na esperança de que a mesma não feche as portas, esses, seguramente, não fazem manifestações a pedir aumentos salariais. E só pedem às alminhas para que, pelo menos, aquilo que têm tido, não acabe…
No que se refere aos funcionários públicos, os que encontram agora, por via dos seus sindicatos, em fase de expandirem a sua reclamação pelo facto de não lhes ter sido comunicada a melhoria dos seus vencimentos e até das condições que existem das suas reformas, sabendo-se que o número de trabalhadores naquela área é, por cá, elevadíssimo e que, pelo menos por agora, se trata de uma contratação que salvaguarda qualquer tipo de despedimento, o que se esperaria em último lugar era que, por muito justos que sejam os seus anseios de melhoria de condições de vida, fosse dessa área de trabalho que saltassem, neste momento concreto, as ameaças de manifestações de rua e, eventualmente, de greves.
Neste blogue, que me parece que algumas pessoas lêem, pelo menos pelos comentários que recebo, tenho dados mostras da minha preocupação pela inconsciência que existe ainda por aí quanto ao que nos devemos precaver em relação ao futuro que se aproxima e que, em face das múltiplas notícias que chegam todos os dias, não são de molde a permitir-nos atitudes desacauteladas. E, quem tem a sua vida ligada ao sector público, maior obrigação tem de não enfileirar em aventuras que podem aumentar ainda mais o risco em que se vive em Portugal.
Bem bastam as insustentáveis situações de ordenados altíssimos e todas as condições excepcionais de que usufruem uns tantos fulanos que, pelo facto de estarem instalados em altos cargos e especialmente em empresas com ligação ao erário público, se regalam com o que lhes cabe nesta Democracia nacional, em que as desigualdades sociais são tão exploradas.
Não se compenetrem os funcionários públicos da camisa de onze varas em que se metem, com as exigências a uma “patrão” que se encontra em vias de fechar a porta., que está a dar mostras claras de que é muito debilitada a sua posição financeira e não importa agora perdermos tempo a investigar a quem ca
be a culpa, não pensem bem, não e depois não se queixem de que, tal como uma fábrica, uma empresa, uma organização particular, chegam um dia ao ministério ou a uma das suas dependências e encontrem a porta fechada e um aviso pendurado no portão a indicar que se encontra “encerrado para balanço”, que é o mesmo que dizer que está ser feito apuramento dos activos para pagar aos credores externos.
Parece uma gracinha, pois parece. Mas há que ver depois se também se fazem manifestações para ver quem ri mais alto… ou se, pelo contrário, é para ver quem chora arrependido.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ACERTAR

Ter sempre razão
é uma doença
é provocação
pode até ser crença

Melhor é por vezes
dizer coisas tontas
ignorar as teses
fazer poucas contas

É bom enganar-se
s’aprender com isso
do certo fartar-se
não ter compromisso

Falhar no que diz
depois emendar
é mostrar cariz
senso salutar

Agora esse orgulho
de estar sempre certo
tem ar de entulho
pregar no deserto

O normal humano
que pensa acertado
aceita o engano
é bem educado

Pela vida fora
razão lá vai tendo
na última hora
já não tem remendo

GREGOS


ESTAMO-NOS A VER gregos com tudo isto que, numa rapidez impressionante, está a ocorrer e que diz directamente respeito ao nosso País. O panorama que foi apresentado em Bruxelas, em que um comissário europeu comparou – ou quase o fez – a nossa situação económica e financeira com a que está a passar-se na Grécia, essa semelhança criou, de imediato, um mal estar no ambiente mundial, sobretudo junto dos países e das instituições que, até agora, acorriam a responder às nossas solicitações de empréstimos, no que resultou que, nesse mesmo dia, tivessem subido os juros que estavam a ser praticados e que, na praça portuguesa, a Bolsa sofresse uma baixa espectacular que, para os grandes investidores, foi motivo de elevadas perdas, ao ponto de se terem desvalorizado acções, com o reflexo de percas que atingiram milhares de milhões de euros, não tendo escapado desse descalabro alguns bancos nacionais. A fuga à Bolsa ocasionou que se tivesse transaccionado de imediato o triplo das acções que se movimentaram no mês anterior e, obviamente, o que marcou foi o sentido da venda em correria.
E, perante esta situação assustadora, o ministro das Finanças Teixeira dos Santos, depois de, na véspera, ter dado sinais de que se iria demitir perante o caso do financiamento à Madeira, em entrevista concedida à cadeia americana de televisão CNN, declarou abertamente que “Portugal não precisa de qualquer espécie de ajuda externa”, acrescentando que não vamos solicitar a intervenção de instituições internacionais. Uma confusão instalada na cabeça de Teixeira dos Santos!
Se não estamos a vermo-nos gregos com o que sucede, com o que se diz e com o que se faz, então começa a não ter sentido essa frase tão antiga que representava uma situação aflitiva que nos colocava em má posição.
Já não nos bastava a embrulhada em que nos envolveram com a situação denominada “Face Oculta”, com as suas escutas e as demonstrações de que se tinha passado por uma estranha conversa tida pelo primeiro-ministro, com sintomas de compadrios com figuras públicas e em que se deram mostras bem nítidas de que alguma atitude antidemocrática estava a ser preparada para pôr cobro a incómodos elementos da comunicação social que não aceitavam o comportamento de Sócrates como governante, situação essa que, com a ajuda de elementos da Justiça, não foi esclarecida junto dos portugueses, como se impunha que tivesse sucedido, não chegou esse perturbador acontecimento e logo a seguir apareceu aquela da comparação com o mau momento que a Grécia atravessa.
A nós, seguidores linguísticos do idioma grego, tendo presente a Ilíada e a Odisseia nas obras literárias que nos foram ensinadas e em que a própria palavra “filosofia” representa a “fala grega”, tem de nos custar assistir a esta dificuldade que ocorre lá longe no Mar Egeu. Mas, amigos- -amigos, problemas aparte, e só isso nos chega para ter de seguir o caminho contrário e procurarmos resolver as questões económicas e financeiras que também nos afectam, aproveitando até o exemplo que motivou a situação que se vive na Grécia, para actuar de maneira a não poderem ser feitas comparações.
Vermo-nos gregos para deixar pelo caminho esta denominação que nos foi aplicada é já uma séria tarefa. Vamos a ver se conseguimos vencer esta dura provação, o que será bem difícil. Venham lá os optimistas do costume, que essa não é a minha especialidade nesta altura em que nos encontramos, sobretudo com os governantes que temos.
Já sei, a mim não me vai calhar nenhuma posição bem remunerada como tantas que por aí têm feito calar muita gente. Mas também não me fiz nunca e agora muito menos a tais bandalhices!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

BALANÇA

Tudo na vida é uma balança
dois pratos estão sempre a aguardar
no fundo sempre existe a esperança
de ver alguma coisa a balançar

A balança da vida bem assusta
sobem e descem pratos que lá estão
e o nosso nem sempre está em cima
dado o peso da insatisfação

Os grandes desencontros com a sorte
tudo isso faz pesar mais no prato
mas o bem estar, o sentir-se forte
chega-nos alegria até no trato

Que o nosso prato suba é o desejo
que todos nós levamos nesta vida
o preciso é que não falta ensejo
e que se acabe vencendo a corrida

Contrabalançar o bom e o mau
lembrar tudo aquilo que já passou
subindo na vida cada degrau
descendo sempre que se enganou

E a balança está a observar
para que lado cai mais cada braço
para dar algum tempo a emendar
o que terá sido algum fracasso

Orientar na balança o fiel
é missão que só a cada um cabe
é nisso que constitui o papel
daquele que disto pouco sabe

ELE É ASSIM...



QUE NINGUÉM GOSTA que os outros falem da sua vida privada e tornem públicas situações que só dizem respeito ao próprios, isso é o mais natural deste mundo. Mas, como diz o povo, quem anda à chuva molha-se e se não quer ser salpicado por essa água o que tem a fazer é não sair de casa quando o mau tempo faz a sua aparição.
Por outras palavras: se o Manuel do talho só canta nos fundos da sua loja e não faz demonstrações públicas daquilo que entoa, ninguém tem o direito de criticar se canta bem ou mal, é lá com ele; agora, se o mesmo Manuel do talho resolve abrir a porta do seu estabelecimento e se põe aos gritos a dar mostras da sua voz para que toda a rua o oiça, nesse caso fica sujeito a que haja pessoal que se revolte e que exija que se cale, porque não gosta, fazendo críticas severas ao seu procedimento.
Escrevo isto para fazer a comparação com o caso José Sócrates. Parece pouco esclarecedor mas, no fundo, não é tanto. Se o primeiro-ministro tem tanta aversão à comunicação social e se até poderá ter alguma razão no que diz respeito a certa pouca ética que se verifica em determinados casos concretos, na sua posição de chefe de um Governo não pode, nem deve, enfrentar a classe, pois as suas funções são outras e inegavelmente muito mais importantes do que fiscalizar o comportamento das televisões e dos jornais. Se não está nem nunca esteve disposto a não se melindrar com as opiniões dos que, na actual Imprensa, seja ela escrita ou falada, então não teria concorrido ao lugar que ocupa, fosse com maioria absoluta ou só relativa, a menos que tivesse esperanças de actuar em regime de força, com domínio total e com uma maioria confortável.
Porém, as circunstâncias políticas em que vivemos não lhe dão essa possibilidade. E ainda bem, digo eu. Logo, perante o desconforto que José Sócrates sente perante os casos em que se julga atingido por críticas que ele próprio interpreta como injustas, aquilo a que deita a mão, não medindo o limite a que está sujeito, é o utilizar o pouco poder de que dispõe e, procurando não olhar a meios, seguir vias antidemocráticas, tudo fazendo para arredar do seu caminho essas incomodidades, não hesitando em servir-se também de ajudas que sempre tem, dada a posição privilegiada de que goza, de elementos que não hesitam em servir o poder a troco de qualquer benesse. E casos desses têm-se visto com fartura.
A pouco e pouco a situação no nosso ambiente governamental foi-se agravando e, como é natural, a imagem do primeiro-ministro é a que sai, em primeiro lugar, mais mal tratada no conjunto de figuras que se encontram relacionadas com os problemas mais sérios do dia-a-dia actual. Nem podia ser de outra maneira. E aqui volto a referir a comparação, mesmo desfigurada, com o Manuel do talho que desatou a cantar à porta da loja. Ninguém o mandou exercer esse papel e se o fez não se pode queixar de haver quem não goste e o diga claramente. Tem de suportar.
Mas não há nada a fazer em relação ao José Sócrates. Ele é assim e, no nosso País, verdade seja dita, não se encontra sozinho. É um feitiozinho bem português, em que queremos dar nas vistas, mas não aceitamos que haja quem não pense de igual modo como nós o fazemos de nós próprios. A Democracia enche-nos a boca. Todos, logo no dia a seguir ao 25 de Abril, saímos à rua a proclamar a nossa condição de autênticos democratas … de sempre! Ninguém foi capaz de assimilar modestamente que essa atitude de saber ouvir os outros, de não nos considerarmos como tendo sempre razão, de não insistirmos para que os outros concordem connosco, de aceitar que a nossa juventude de hoje ainda tem muito que aprender para que, daqui a três gerações, talvez nos possamos gabar de que a Democracia se encontra já a ser uma prática natural dos portugueses, disso estamos laionda bem longe de poder encarar tal realidade.
E este José Sócrates, que não teve bastante vida anterior à Revolução que lhe possa dar uma ideia clara da diferença entre as duas situações, não estando também muito bem acompanhado, talvez porque nem isso lhe interesse excessivamente pois que a adulação ao redor de certa gente é uma espécie de medicina para lhe dar força, não admira que não esteja em muito boas condições para exercer um lugar que requer, para além de competência, bom senso, saber e outras características em que não deve faltar uma dose apreciável de humildade.
Mas isso é coisa que não sai apenas das eleições, dado que o essencial é que os proponentes a determinados lugares se sintam preparados para disputá-los. E não é de esperar que o ser humano, na sua ânsia de ser sempre aquele que está acima dos outros, seja capaz de fazer tão importante exame de consciência.
Parece-me que disse tudo!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

RUMORES

A verdade dita assim
sem antes ser preparada
pode ser algo ruim
ter efeito de pedrada

Por outro lado a mentira
tem de ser sempre danosa
pode provocar a ira
mesmo sendo piedosa

Mas ela dita à socapa
usando d’alguns primores
disfarçada sempre escapa

Espalhada aos arredores
lá se agarra como lapa
disfarçada de rumores

ORDENADOS CHORUDOS


JÁ AQUI me referi a este tema e voltarei a ele as vezes que forem precisas, por muito que as entidades que deveriam, há muito tempo, pôr termo a esta vergonha, não dêem mostras de meter mão no assunto ou só o vão fazendo, como agora foi tornado público, de modo cauteloso, para não causar grandes desconsolos naqueles que, usufruindo de regalias inaceitáveis dentro da crise geral que atravessamos, não convém aos amigos que governam que amuem demasiado.
Pois quero referir-me ao que chegou agora – só agora – ao conhecimento da generalidade dos cidadãos portugueses, de que o Ministério das Finanças, através do seu braço empresarial, a Parpública, que tem o subtítulo Participações Públicas e gere as participações do Estado nas empresas com participação estatal, deu instruções para que as sociedades com estas características não procedam a “actualizações”, este ano, dos vencimentos dos seus administradores. E vem já a propósito referir que o presidente desta Instituição, José Plácido Reis, aufere mensalmente apenas 134.197 euros.
Não me vou gabar de que este blogue terá tido influência numa decisão do Governo, pois só admirava que não tivesse sido tomada já um ou dois anos atrás, dado que a crise que nos ataca fortemente não começou em 2010, mas, de qualquer forma, como sempre é melhor tarde do que nunca, não podemos deixar de nos congratularmos por acabar por ser considerada uma decisão que, ao fim e ao cabo, muito pouco afecta a vida regalada que levam alguns dos detentores de certos cargos, pois os vencimentos que obtêm são mais do que suficientes para não sentirem faltas de grandes coisas.
E, só para ficarmos com uma ideia daquilo que digo, aqui deixo alguns dos ordenados desses privilegiados que, este ano, não vão ver aumentados esses benefícios:
O que ganha mais de todos é o presidente dos TAP, o brasileiro Fernando Pinto, que recebe 420.000 euros; e logo a seguir vem Faria de Oliveira, que aufere 371 mil; depois Henrique Granadeiro, da PT, com 365 mil; vindo atrás Guilherme Costa, da RTP, com 250 mil; seguindo-se Fernando Nogueira, do ISP, com 247.938; e depois Vítor Constâncio, do Banco de Portugal e Carlos Tavares, com 245.552. E a lista prossegue, daqueles que foram tornados públicos os seus vencimentos: Vítor Santos, 233.857, do ERSE; Guilhermino Rodrigues, 133.000, da ANA e por aí abaixo até ao último de que se tem conhecimento público, o “pobrezinho”, da Carris, José Manuel Rodrigues, que aufere apenas 58.865 euros por ano.
Pretendendo seguir o mesmo exemplo, no sector das instituições de crédito, por imposição do CMVM, as remunerações das suas administrações são divulgadas publicamente, o que, pelo menos, deixa de ser uma “caixinha” no segredo dos deuses.
Quando as pensões dos reformados aumentaram ao Estado mais de 1,1 mil milhões de euros em 2009, do sector privado e de ex-funcionários públicos, ou seja, atingiram os 16 mil e 196 milhões, a pergunta a fazer é quanto pesa neste montante os que, pertencendo já este grupo, em quanto é que contribuem para atingir tal montante. E se não influencia ainda, estará a chegar a altura em que pesarão bastante.
A pouco e pouco, sem grandes pressas, vamos progredindo, pelo menos no sector da vergonha. É já um passo em frente. Vamos a ver se ainda iremos a tempo de conseguir que não nos aproximemos é à falta de avisos que os que ainda poderão fazer alguma coisa de mais positivo, e em que não terão desculpa depois de que ninguém lhes disse nada.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ADIAR

Tem razão quem não tem pressa
e para depois se deixa
sem medo de que se esqueça
nem de ouvir qualquer queixa
confiando na cabeça

P’ra quê andar a correr
afogueado labor
esteja onde estiver
algo se faz com rigor
tudo pode dar prazer

O cansaço não é prova
de que o labor sai perfeito
e se é matéria nova
pode sair sem defeito
seja prosa ou seja trova

Esperar com paciência
dar tempo ao tempo, então
é apostar na cadência
à corrida dizer não
e mostrar a sã prudência

O adiar é bem cómodo
o depois logo se vê
é um dito popular
em que muita gente crê
sem sair do patamar

Assim sem fazer alarde
Sem gritos de ter razão
Muito menos ser cobarde
Pensar com os pés no chão
Que amanhã pode ser tarde

O VETO


DEPOIS de todo o alvoroço que tem tido lugar neste nosso País e que ainda se vai manter, julgo eu, durante largo tempo, primeiro em relação ao Orçamento do Estado e também quanto à revisão da Lei das Finanças Regionais, isso por agora, em que os milhares de milhões andam continuamente nas bocas de todos os intervenientes que temos por cá, isso enquanto as centenas e até dezenas de magros euros constituem as preocupações dos outros milhões, esses sim, de portugueses que lutam pelo seu dia-a-dia, aguarda-se agora pela atitude que vai tomar Cavaco Silva e se o seu eventual veto porá, por agora, um ponto final na “guerra” em que estão envolvidos partidos e Governo. No confronto sim, não na solução.
Atrevo-me a antecipar este texto à decisão do Presidente, pois que não vai ser fácil a posição que for tomada e isso porque, seguramente, a sua opinião pessoal, como simples cidadão, será uma e, na qualidade de próximo futuro concorrente à reeleição para Belém, então tem de ser outra em termos e em conveniência política. Isto, porque lhe convém não afastar do seu horizonte os votos de muitos militantes socialistas que, naturalmente, podem não ficar satisfeitos por ver o seu partido não ser favorecido na passagem das propostas saídas do Parlamento e sujeitas à decisão presidencial. Ainda que, nestas circunstâncias, a darem-se, ainda haja o recurso ao Tribunal Constitucional que, provavelmente, será o caminho que se deparará antes da decisão final. Tudo isto, claro, são conjecturas minhas, mas não estarão totalmente fora de virem a constituir uma realidade.
Mas, no fundo, todos os participantes no panorama actual da política portuguesa acumulam sérias dúvidas e muitos receios quanto ao resultado dos passos que devem dar na conjuntura que se apresenta. No que se refere a Cavaco Silva, está dito acima com o que o tem de preocupar. Já do ponto de vista de José Sócrates, este, perante a imagem desfavorável que tem vindo a acumular, ninguém lhe pode garantir que, em eventuais próximas eleições, venha a atingir a tão desejada maioria absoluta. No caso das várias oposições de hoje, especialmente as que se podem situar na área da possibilidade de obterem votos suficientes para governar – mas nunca maiorias parlamentares -, essas não terão provavelmente qualquer atracção pelo chamado poder, pois, a não ser para depois se lastimarem do estado em que encontraram as contas públicas, o que lhes caberia enfrentar seriam os graves problemas que já existem hoje e que, dia após dia, se vão tornando de mais difícil solução. E de choradeiras e críticas ao que ocorreu durante a actuação dos Executivos anteriores, dessas acusações estão os portugueses fartos e não podem suportar mais desculpas para não governar de forma minimamente razoável. Todos os Executivos que ocuparam as cadeiras do poder, sendo de ideologias diferentes dos anteriores, desde o início do período democrático que se têm servido desse argumento, de culpar quem ocupou os seus lugares, para mostrar que lhes coube a eles emendar os erros dos antecessores. Nunca apareceu um novo protagonista que se preocupasse apenas em enfrentar o futuro deixando para trás o que tinha passado. É, pelos vistos, outra característica dos portugueses, pois que todos somos detentores de determinados comportamentos que são bem característicos da nossa raça.
Vamos lá ver o que acontece na fase seguinte daquilo a que já chamei folhetim ou telenovela com actores de segunda categoria. Tudo é possível.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

CHORAR

Em tempo de magras vacas
só apetece é chorar
se são poucas as patacas
quem tem fé é só orar

É o que por cá se passa
já sem rumo este País
em que nem mesmo a chalaça
põe a maioria feliz

Afinal é a saída
já antiga e de agora
acalma qualquer ferida

Porque chorar não tem hora
sempre serve de guarida
e o palhaço também chora

AMEAÇAS


O CONSELHO DE ESTADO, reunido por iniciativa do Presidente da República e para tentar servir de apelo ao bom senso de todos os participantes principais nos problemas que envolvem o nosso País, acabou, ao cabo de cinco horas de reunião, por, como era de esperar, apenas deixar sair para o exterior a preocupação de que, se não forem capazes os intervenientes no caminhar político da Nação de encontrar um consenso mínimo, o futuro que se apresenta ao virar da esquina será ainda mais negro do aquele que já se contempla na actualidade. E todos os que estiveram presentes nesse Conselho e que tiveram oportunidade de expor as suas razões, sobretudo aqueles que mais influem na solução dos casos que se encontram agora na montra, sabe-se que se limitaram a seguir o programa pré-estabelecido e, quanto ao resto, limitaram-se a usar da palavra para aconselhar o bom senso e fazer o pedido de responsabilidade a todos os intervenientes nas eventuais soluções dos problemas existentes.
Ao fim e ao cabo, as ameaças, depois desmentidas, que foram espalhadas da demissão do Governo face às exigências de o Estado ter de contribuir financeiramente para o Executivo madeirense, e em que, tanto Sócrates como o ministro das Finanças, foram referidos de que seria esse o seu gesto na eventualidade de não conseguirem o apoio parlamentar à sua recusa de desviar dinheiros públicos para o arquipélago madeirense, pelo menos essa atitude terá ficado, por agora, fora de conjecturas. Por agora.
Ao mesmo tempo que ocorreu este encontro de alto nível, em Bruxelas, o comissário europeu Almunia, responsável pelos assunto económicos e financeiros desta área da Comissão Europeia, fazia declarações aos jornalistas em que a posição de Portugal foi apontada como atravessando um período de enormes dificuldades, até mesmo muito críticas, e com sucessiva perda de competitividade. E, em vistas disso, logo a nossa dívida pública excessivamente elevada serviu de comparação com outros casos, com alguma distância em relação ao da Grécia, salientando que este País merece algum desanuviamento da tensão existente dado o plano de austeridade que ali começou já a ser executado. No que a nós diz respeito, as atenções voltaram-se todas para a situação perigosa que atravessamos, recomendando a penalização de imediato da emissão da dívida pública, tendo desde logo, a partir dessa altura, Portugal sofrido a subida do preço dos empréstimos que sejam, a partir de agora, solicitados. E o resultado foi o de terem baixado rapidamente os valores cotados na nossa Bolsa.
Enfim, não vou aqui expor, mais uma vez, o retrato da posição portuguesa no panorama internacional. O que tenho vindo a anunciar como aviso está aí, infelizmente, a dar-me razão.
Agora, estas ameaças, agora desmentidas, vindas do sector governamental de abandonarem o “barco”, deixando-o navegar ao sabor das ondas numa altura em que a tempestade mais estragos provoca no casco da embarcação, uma atitude deste tipo não beneficiaria ninguém e menos ainda o capitão que, não se tendo acautelado mesmo face aos repetidos avisos que os passageiros lhe lançaram, correria o risco de só passar a dispor de um salva-vidas que não chegaria sequer para acomodar toda a sua tripulação.
Uso esta linguagem marítima, porque talvez seja só esta que José Sócrates entenderá, não por ter sido marinheiro mas porque, quem está habituado a meter tanta água, pode respeitar um ambiente conhecido.
Não é altura para graças, lá isso não. Mas chorar já não resolve nada!
Ainda algum alargamento de opinião no que respeita às declarações prestadas pelo ministro das Finanças, ao fim da tarde, que, ao serem anunciadas, provocaram algum alvoroço. Seria que, por fim, o responsável pelos dinheiros públicos nacionais, não se conformaria com a decisão tomada pelas oposições, contrariando o decidido pelo PS de fechar a torneira de financiamentos ao Governo da Madeira e iria então apresentar a sua demissão? Foi o que se pensou antes de ouvir Teixeira dos Santos. Mas não foi isso que aconteceu. E, ao mesmo tempo que se ouviam as queixas do ministro, em S. Bento José Sócrates recebia, a seu pedido, Manuela Ferreira Leite, para uma troca urgente de pontos de vista. Não se sabe, na altura em que escrevo, o que saiu desse encontro.
Continua, pois, o folhetim dramático a que os portugueses assistem, deixando o final do enredo para a altura em que ficaremos a conhecer quem casa com quem e se os maus da fita sempre terão o castigo que merecem. Nesta caso, são os espectadores que vão pagar e bem caro…

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AQUILO QUE VEJO

Aquilo que vejo
que atrai meus olhos
que me causa ensejo
mesmo sendo aos molhos
eu acredito?
É verdade pura?
Não será um mito?
Uma desventura?
Mas vejo e pergunto:
poderei eu crer
constitui assunto
para eu ver
e aquilo que é dado
algo como queixa
será um recado
que a vida me deixa
uma prevenção
com certa importância
chama-me a atenção
provoca-me ânsia
abre-me o sentido
mas olho parando
e o despercebido
agora pensando
com calma observo
a ideia apurada
por fim lá conservo
a vista do nada
e aquilo que eu via
e que os olhos liam
tinha mais valia
e todos deviam
cá por este mundo
ter algum rigor
olhar sempre a fundo
que tudo tem valor



Por isso m’interrogo
procuro resposta
faço-o como um jogo
é quase uma aposta
tudo por que passo
e atrai minha vista
se causa embaraço
constitui uma pista?
Como em tanto assunto
não sei responder
até ser defunto
terei de aprender




PESSIMISMO


PODEM acusar-me de não ser suficientemente optimista por forma a transmitir aos leitores que acompanharão este meu blogue alguma dose de esperança em relação ao futuro português que nos aguarda. Aceito essa acusação. Mas o que não poderão dizer é que, só para agradar, ando aqui a inventar boas perspectivas no horizonte, porque sempre é mais agradável pintar quadros com cores alegres do que deixar nas telas imagens tenebrosas que fazem até arrepiar.
Seja como for, quem, daqui a um certo tempo tiver memória e encontre interesse em referir os que têm razão antes de tempo – do que tenho sido várias vezes apelidado -, poderá fazer-me justiça. E a razão deste meu ponto de vista é a de que considero preferível avisar o pior a tempo, para dar ocasião a que se criem as condições mínimas de defesa, do que depois, já em plena catástrofe, sendo forçados a remendar as situações e não conseguindo executar uma obra que mereça ser recordada na História. Vejamos o que se tem passado no Haiti, onde dizem que existiram sinais de que o terramoto era previsível, mas que não se verificou o mínimo, pelo menos de aviso, de maneira a que a surpresa não fosse tão prejudicial.
Quanto ao que pode suceder a Portugal, como consequência de vários factores e em que a crise mundial tem um peso assinalável, mas que também a menos boa atitude por parte dos políticos que têm tido a responsabilidade de conduzir a governação nos últimos tempos contribuiu com enorme irresponsabilidade para a situação que se atravessa – e para a que vem aí -, devido a tudo isso é condenável que se continue a não querer falar verdade aos portugueses, avisando-os de que, mais do que nunca, é obrigatório que cada um dos cidadãos, seja qual for a actividade que desenvolva, deve assumir a sua responsabilidade, procurando não criar ainda mais estragos do que aqueles que suportamos e são alheios às nossas vontades.
Se um primeiro-ministro e todos os seus sequazes tiverem (ou já tivessem tido) a coragem de falar claro e não esconder o que, por muito duro que seja, tem de ser dado a conhecer aos cidadãos nacionais, talvez se pudessem ter evitado certas greves que já ocorreram e as que se anunciam, pois que, quando um devedor se abre honestamente perante um credor e lhe comunica que não tem meios materiais que possam saldar a dívida e que a única via pela qual será possível encontrar solução é através de um acordo de bom senso, nesta altura, face a uma realidade bem explicada, convincente, que poderá acontecer que devedor e credor se juntem num esforço comum e, daí saia a solução dos problemas.
Agora, como o Governo não tomou nem dá sinais de tomar essa posição, e apenas o Chefe do Estado, que não tem meios governativos para actuar, foi capaz de ser claro no sue último discurso, ainda muitos portugueses andam a viver num mundo da fantasia e exigem do Estado aquilo que ele não pode dar, mas que também não explica claramente que se encontra numa posição complicada em termos financeiros, sobretudo porque, no capítulo dos gastos, não consegue entrar a fundo e de cortar tudo, mas mesmo tudo, que possa ser evitado. Por exemplo – e apenas um, de fugida – os gastos que se anunciam com a proclamação do centenário da implantação da República (e atenção, que eu sou republicano), em que são de dezenas de milhares de euros que estão previstos, isso e muito mais que faz parte de uma lista que, há muito, deveria estar feita, não há ninguém que seja capaz de rasgar das folhas de despesas. Festas, festanças, jantaradas, comemorações, viagens… nesta altura, nem pensar!
E se for bem entendido que metade da riqueza produzida em Portugal é gasta pelo Estado, então se compreenderá a verdade nua e crua. E como, no Orçamento do Estado, agora apresentado, se encontra o “compromisso” de, até ao ano de 2048, se liquidarem todas as dívidas, internas e externas, então fica bem claro que é o próprio Governo actual que subscreve a duração do martírio em que vivemos.
O Conselho de Estado que decorreu ontem e de que ainda não são conhecidos elementos que ajudem a prever o futuro, não pode v ir aliviar este texto que eu bem gostaria de ter escrito com outro espírito.
Chamem-me derrotista, chamem-me. E eu não serei o último a rir, só porque não acho graça nenhuma e tenho esperança de que não me caberá a mim o apagar a luz e o fechar a porta!...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

ODE A PESSOA


Oh! Pessoa
tu que me inspiras, que me orientas
na minha cabeça ecoa
o que em mim sustentas
com o teu génio ou o dos teus heterónimos
com rima ou sem ela
mas sempre bela
afastando os demónios.
Ajuda-me, oh! Pessoa
a escrever esta ode
pensando em Lisboa
saindo como pode
com esforço, com rompantes
contrariando o ruído do café que me acolhe
que tem algo de igual ao teu que era dantes
mas que, tal como contigo,
é o café que escolhe
a freguesia, qual porto de abrigo
é ele que anima a que olhe
e veja o que me rodeia, o mau e o bom
aquilo que me foi dado apreciar,
deleitar
e ouvir o som
com agrado ou sem ele
E desde que me conheço
é o que peço:
que Aquele,
o que comanda,
não deixe a banda
à solta.
Pessoalmente penso assim
não me importa saber
se outros julgam igual a mim,
eu sei o que fazer
com a inspiração do poeta,
não basta pegar na caneta
e divagar,
pessoar,
procurar
no íntimo do sentimento
o que tiver mais cabimento
para saudar,
gritar
que poeta serei quem for
mas por amor
ao génio de um poeta dedico
e por aqui me fico
a compreendê-lo
e a relê-lo.

Ele, que dizia não ser nada
era tudo
perdido em frente da sua janela
ou sentado no café, à mesa,
procurando a frase mais bela
e encontrando com certeza
a sua inspiração
interpretando os sonhos do mundo
com devoção
bem no fundo
carregando a carroça da vida
com o fervor de um crente
que sabe que só há ida
por isso olhando sempre em frente
sem saber que o futuro
lhe traria tanta aclamação,
que transporia o muro
da vulgarização.

Oh! Fernando
tu que não sabias o que eras
nem como nem quando
que não crias deveras
nas certezas do mundo,
que só a Tabacaria era verdadeira
porque a vias ao fundo
da tua rua inteira
onde compravas os cigarros
da mesma maneira
que sacudias os catarros
e bebias a tua jeropiga
para acalmar a ânsia de versejar
e respirar
e produzir outra cantiga
sem fadiga,
naturalmente,
mas preocupadamente
a pensar que os versos criavam nada
que acontecia zero
que não havia fada
capaz de mudar, mesmo em desespero
a vida sensaborona,
triste e pesada,
qual matrona
pavoneada.
Hoje, o mundo sempre igual continua
parece diferente, mas nada mudou
aqui nesta como em qualquer outra rua
quer para quem trabalha e também estudou
porque os políticos continuam a falar
na busca de eleitor,
a dissertar
mas não são capazes, nem querem mudar
seja o que for
lá se vão enchendo
porque o que dá lucro vai-se mantendo
que o povo, esse fica,
a gritar pelo Benfica
sem eira nem beira
agarrado à bandeira
como se fosse da Pátria a salvação
a gritar nos estádios com emoção
contra quem seja
tendo na mão a cerveja
que dá calor
tremor
mas não altera os resultados
dos futebóis ou dos pecados.
Hoje está tudo na mesma
como a lesma.

Vês, Pessoa ?
Não fui capaz.
Estás onde estás
e eu estou onde estou
e não sei quando vou.
Verás que a minha intenção era boa
que me esforcei
mas o génio não agarrei.
Não digo como tu
que não sei o que serei,
sei sim, foi o génio que ficou no baú
e que também nada herdei
e como deixei de fumar
continuo sem achar
a Tabacaria
a que te trazia
o fumo da inspiração,
a divinização.

Perdoa-me, Fernando
Continuarei procurando
mas será tarde
para fazer alarde
de algo que me falta
para trazer à ribalta
coisa de valor,
mas amor
esse sim, não perdi
e como mostro aqui
não serei capaz
mas lá contumaz
é o que até agora tenho sido
e estou decidido
a prosseguir
enquanto a vida mo permitir.

Pessoa houve um,
não haverá mais nenhum
e se alguém o prometeu
não fui nem serei eu.

CEM DIAS - CEM ANOS!...


ULTRAPASSADO que está o susto de não se ver a aceitação maioritária, no Parlamento, do Orçamento do Estado, pois nenhum partido correu o risco de assumir a responsabilidade de fazer cair o Governo actual e com isso provocar eleições – que seria um presente envenenado a quem viesse a vencer de seguida e fosse obrigado a tomar conta de um Executivo com a tarefa de tomar conta de um País num período que será, sem dúvida, um dos mais difíceis da História política, económica e social portuguesa dos últimos tempos -, passada, pois, essa preocupação, como o tempo corre velozmente logo surgiu a data da comemoração dos cem dias de governação socratiana, neste seu segundo mandato.
Pois bem, neste País em que qualquer situação serve de motivo para uma comemoração, com o festim, maior ou menor que a data proporciona, tal tinha que suceder. E lá se aproveitou para se colocar a primeira pedra no local para onde vai ser transferido o Museu dos Coches, com a pompa e a circunstância que serviram para José Sócrates e a sua vasta comitiva fazerem folga na procura de soluções para os problemas graves e urgentes que há que enfrentar, sem descanso, nesta nossa Terra. E o momento foi aproveitado também, como os bajuladores tanto gostam, para ouvir as bacoradas do costume proferidas pelo primeiro-ministro. Só que ninguém pensou no tempo perdido com tal acto, especialmente porque não se tratou de uma acção considerada urgente, pois o Museu, onde se encontra há imensos anos, podendo não ser o ideal poderia muito bem esperar por uma ocasião onde todos os gastos devem ser evitados pois fazem falta para atender a inúmeras situações de absoluta urgência.
E é isto o País que temos. E é este o Governo que nos calhou, por sinal escolhido pelos portugueses. Toda a atenção que é forçoso dedicar e para o que já estamos largamente atrasados para vencer a crise, fazendo sobressair dessa tarefa o enorme perigo, que está mais perto do que imaginamos. O de o dinheiro para pagar as reformas começar a dar mostras de, dentro de certo tempo, não vir a ser suficiente para atender os cada vez em maior número de retirados da vida activa pela idade, sendo que, para que isso possa ser evitado, e até mesmo retardado o mais possível, se tenham que encarar as situações que nos estão a bater à porta há largo tempo e sejam postas por ordem de urgência todas as que fazem parte da longa lista de malefícios.
A redução do défice público situa-se nos primeiros lugares desse rol, bem como o ataque ao desemprego tem de figurar também na prioridade das prioridades, logo seguido do fomento da exportação (para o que o organismo chamado agora AICEP, existente há muitos anos sem a letra inicial A, que foi só a mudança que se verificou, seja chamado à responsabilidade de efectuar um trabalho positivo e com resultados à vista, pois é esta instituição que tem a obrigação de abrir portas e de lutar pelo estudo das possibilidades de vendas dos produtos portugueses no estrangeiro, assim como no capítulo de procurar investidores de fora para dentro).
Mas outros temas têm de ser encarados com toda a coragem, como é o caso da Madeira, em que as “birras” de Jardim devem ser denunciadas e havendo que chamá-lo publicamente à realidade da situação financeira de Portugal, de que a Madeira faz parte.
O que o conjunto governativo de Sócrates deverá fazer é deixar-se de fantasias folclóricas e meter cabeça e ombros à tarefa de tudo fazer para que a situação dificílima que atravessamos seja alterada, por mais impopulares que tenham der ser os meios utilizados, sempre, claro, dentro dos preceitos democráticos.
O Plano de Estabilidade e Crescimento, que vai até 2013, título muito falado mas cujo conteúdo minucioso não é do conhecimento da generalidade dos cidadãos, por forma a mostrar que há motivos para, apesar de tudo, reinar ainda, por pouca que seja, alguma esperança, mas sempre divulgando a verdade dos factos, não escondendo nada e chamando os portugueses a participarem na luta que tem de ser conjunta, tal Plano pode talvez constituir aquilo que o Governo entende ser uma saída. Provavelmente a única. Oxalá não esteja mais uma vez enganado.
Mas, ainda duas palavras para referir o almoço realizado nas instalações do primeiro-ministro, em que foram convidados todos os elementos femininos do Executivo actual. Tratou-se de mais uma fantasia de Sócrates. Este homem não consegue ter uma ideia que seja a tradução de uma boa cabeça, de uma noção correcta das acções correctas. Que interessa fazer esta diferença, que talvez tivesse justificação se fosse Santana Lopes o chefe do Governo, dando largas à atracção indesmentível do referido político pelo sexo oposto?
Mas é com isto que vamos assistindo ao desmoronamento de um País que tanto custou a erguer. Fica-se contente por saber que a Grécia está muito pior do que nós, que a Espanha tem mais desempregados do que deste lado do fronteira, que a nossa área marítima é a maior da Europa (mesmo que não a saibamos utilizar). Mas, quanto ao resto, é o que sabemos e é ao que assistimos.
Cem dias passaram. Mais de três meses. E, entretanto, nada ocorreu que possa constituir um activo de bom trabalho levado a cabo pelo elenco de Sócrates. E não se trata de perseguição ao homem. Não há já tempo para estes pormenores. Mas que a aflição vai aumentando e que o fim da linha não está muito longe, lá isso…
O que se passará em Portugal daqui a cem anos? Haverá algum sábio, desses que usufruem nesta altura de bons rendimentos salariais e de pensões, que seja capaz de prever o futuro?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

DESPERDIÇAR O TEMPO

Só quando se chega a uma certa etapa da vida
é que descobrimos o tempo que desperdiçámos
o que não aproveitámos na corrida
e tudo aquilo que não alcançámos
o mal que com que utilizámos aquilo que tivemos
a pouca atenção que dedicámos ao que valia a pena
porque saber não soubemos
tirar partido de cada cena
e as preocupações que nos absorveram
distraindo toda a ilusão
não nos favoreceram
retirando grande parte da nossa atenção.

Só muito tarde é que entendemos
que a vida é tão passageira
que tudo o que perdemos
que deixamos sem eira nem beira
ficando pelo caminho da nossa andança
não aproveitando o melhor possível
e que, num prato da balança,
de forma bem visível
devem ser colocadas as boas situações
enquanto, no outro lado,
envergonhados como ladrões
sem querer dar grande brado
se podem olvidar os maus momentos,
olvidar não, talvez esconder
porque mesmo sem os largar aos quatro ventos
e isso não dê grande prazer
sempre será bom trazer à nossa memória,
de vez em quando, pelo menos,
aquilo que não tendo grande história
por serem males pequenos
o que poderia não ter sido feito
mas que, de certa maneira,
na altura deu algum jeito
e que mesmo sendo asneira
constituiu uma aprendizagem,
se é que serviu para não se repetir
e até para dar certa coragem
para conseguir fugir
de um possível desterro
e não voltar
ao mesmo erro
praticar.

Agora, com um passado que existiu,
com alguma coisa para contar,
pois houve gente que não viu
e por isso não pode divulgar
aquilo que merecer a pena
ser ouvido
e colocar em cena
para não cair no olvido.
Mesmo que não se diga nada
serve de lastro
para a longa caminhada
e faz parte de um cadastro
que, volta não volta,
saltará à memória
provocando ou não revolta
conforme seja a sua história
e a consciência de cada qual
filtrará o que ainda animará a existência
procurando talvez não voltar a fazer igual
pois para tanto não haverá paciência
e por muito que não haja já
grande vontade de mais longe ir
quem sabe o que se passará por cá
e daquilo de que teremos de fugir

Aqueles que estiverem agora
com a idade que já tivemos,
os que falta ainda muito para se irem embora
e sabem mais do que aquilo que soubemos
esses podem fazer melhor ideia
de que o tempo que têm para percorrer
nesta vida que é uma cadeia
em que se é feliz e há sofrer

deve ser o melhor aproveitado quanto puderem,
emendando sempre o mais rapidamente possível
o que sair mal e não souberem
como fazer melhor e ter nível
esses, por muito que não estejam interessados
em aprender mais alguma coisa
precisam de ser motivados
para deixar obra jeitosa
será pelos seus próprios meios
que evitarão fazer asneiras
e defrontar bloqueios
tendo de ultrapassar barreiras
tendo então ocasião de verificar,
e oxalá não seja demasiado tarde
que às vezes há que parar
sem medo de que lhes chamem cobarde
e então aí fazer a prova dos nove
fazendo aparecer a tal balança e nessa altura,
imitando aquele que sempre se comove
sujeitar-se à tortura
de nos dois pratos equilibrados
poder confirmar qual de ambas posições
pode dar maiores cuidados
se entre as duas acções
umas que boa disposição deixaram
e outras que apetece esquecer
sendo que todas ensinaram
a melhor conseguir viver

Se for preferível
partir na ignorância,
como tudo é discutível
é relativa a importância
e se julgar melhor para os outros deixar
o apuramento das suas acções,
assim deve ficar
e atender as suas opiniões
se é que alguém se interessará por isso,
então, não deixe cair os braços,
e faça o seu serviço
que é como quem diz
ponha o cérebro a funcionar
e ainda que não seja muito feliz
aceite o que lhe vier a calhar
aguarde apenas pelo dia da partida
sem reclamar contra nada
que todos têm a sua ida
seja qual for a via usada

Embora eu não me sinta capaz
de me deixar facilmente entregue
só ao que a vida nos traz
seja o que for que se segue
com o passar dos dias
enquanto funcionar a minha cabeça
não me deixo dominar por apatias
e não me peçam que esqueça
só me entregando ao que vem a seguir
mesmo já sabendo do que se trata
nunca pude sacudir
muita coisa mesmo chata
tanto o que deixei de fazer
como o que saiu menos bem

E agora,
com os meios técnicos que já estão
a ser usados sem demora
e à nossa disposição
que esse computador tão eficaz
a que eu não aderi com entusiasmo
mostra daquilo que é capaz
provocando tanto pasmo
e deixando o muito que fará adivinhar
não sendo já necessário guardar papéis
já valerá a pena deixar
tanto os feles como os méis
pois o tal “disco” pode tudo arquivar
e depois alguém poderá haver
que se incomode com a divulgação
que dê a conhecer
aquilo que constituiu a preocupação
do que ficou feito
não deixar escondido
e que de qualquer jeito
seja bastante difundido
que ponha nos pratos da tal balança
o que aqui deixo bem gravado
e que no final de tal dança
diga se de facto causa agrado
porque se não, bem simples é
deitar fora o disco e pronto…
nem vale a pena chamar-me tonto!

´É GASTAR VILANAGEM!...



NÃO HÁ PALAVRAS que cheguem para mostrar o que nos vai no íntimo como irritação quanto aos procedimentos dos governantes, desses que se esgotam a elogiar-se em boca própria, afirmando descaradamente que não há ninguém melhor do que eles e que, verdade verdadeira, são todos piores uns do que os outros, venham eles de que partido vierem e que, não é por serem substituídos nos postos de comando em que lutam para serem escolhidos, que as coisas melhoram neste País em vias de cair da tripeça.
Tomei hoje conhecimento de uma notícia que, mesmo farto de contemplar disparates, não acreditaria que pudesse suceder, sobretudo nesta fase da difícil vida nacional. Então não é que, por via do Orçamento do Estado que acabou por passar na rede das oposições, ficou definido que a equipa de ministros do grupo de Sócrates (e não incluindo secretários de Estado), vai gastar, em 2010, mais 3,2 % do que foi atribuído no ano findo, sendo certo que, na época passada, foram as seguintes as verbas atribuídas e gastas pelos detentores dos referidos cargos público e isso em milhares de euros: viagens e hotéis 1437,8; combustível 818,1; telemóveis 558,5; carros 1.004,3; ajudas de custo 533,3; estudos 247; horas extraordinárias 1.124,3.
Pois bem, não entrando em pormenores, a minha atenção fica-se sobretudo na rubrica horas extra, sendo certo que a maior parte se atribui aos motoristas, aos seguranças e às secretárias que têm de aguardar que suas excelências libertem os seus serviços, já que não se encontrou ainda forma de solucionar este problema que, no que se refere sobretudo aos condutores das viaturas, apontei já, tempos atrás, o modo de acabarem esses gastos. Não vou repetir agora o que ficou escrito.
Mas a pergunta a deixar aqui expressa tem a ver com a falta de capacidade de, em vez de se recomendarem cortes drásticos em tais gastos improvisados, se dá mais uma margem para que nada falte aos diferentes ministros que se preparam para atravessar o ano que está à frente. Por aqui se pode ficar com uma ideia da falta de disposição governamental de ser aí, no alto da pirâmide, que deve surgir o exemplo de poupança, mostrando a todos os portugueses que a época que se viveu (e que nunca deveria ter existido nas circunstâncias autênticas que jamais foram de grandes extravagâncias) das “vacas gordas”, nesta altura, mais do que sempre, é ideal fora de questão.
Custa-me a admitir que o Governo, como lhe compete, recomende mais produtividade aos portugueses e, ao mesmo tempo, contenção nos gastos desnecessários, quando não mostra disposição em reduzir, naquilo que lhe diz respeito, todas as despesas que têm de ser evitadas.
No fundo, a dificuldade existe na descoberta do remédio capaz de solucionar a grave crise em que estamos envolvidos e que, por muito que se ande a esconder a verdade no que respeita ao futuro, mesmo o mais próximo, no íntimo dos governantes não pode permanecer uma extrema esperança de que tudo correrá sobre rodas e que Portugal não vai sofrer dificuldades acrescidas.
Sendo assim, mais vale ir aproveitando o que ainda existe, porque depois logo se vê como nos safaremos dos problemas. É um princípio bem português e que, até à data, tem desenrascado a malta de cá.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

MENTIRA

Espalhar uma mentira
sempre com um ar sisudo
provocará certa ira
e deixa o da verdade mudo

Tanto se espalha uma peta
convencendo os que a escutam
que ninguém diz que é treta
e até quase a desfrutam

A mentira construída
com jeito e habilidade
é como uma ferida

Que só tratada a metade
provoca uma recaída
e nem se salva a verdade

MENTIR



ATRAVESSAMOS toda uma vida e, ao termos por isso passado por múltiplas situações inevitáveis, não somos capazes de trazer à memória todas as mentiras com que fomos confrontados e nem sequer enumerar aquelas que tiveram origem em nós próprios.
É verdade que, a grande maioria dessas apelidadas “petas”, pela sua insignificância nem merecem ser retidas no pensamento. São aquelas de ocasião que não provocam danos e que, na maior parte dos casos, servem para desculpar os autores de qualquer falta passageira cometida.
Depois, a maior parte dos que mentem sem grande necessidade de o fazerem, praticam mal esse acto, engasgam-se, coram, usam até mal os gestos para ajudar ao convencimento do que dizem, mas a construção da mentira tem pouco fundamento e, por isso, deixam incrédulos os que os ouvem.
Pelo contrário, é preciso ter cuidado com os mentirosos treinados, os que não se equivocam e têm a lição bem estudada, que utilizam mesmo pormenores que ajudam a tornar mais aceitável uma mentira difícil de convencer.
Pior é quando uma verdade, da maior importância em ser divulgada, é recebida com desconfiança e logo considerada falsa à partida. Aí, perde-se a expansão de um argumento útil a muita gente.
Quem são, afinal, os maiores mentirosos? É bem conhecida a opinião generalizada dos cidadãos terrestres. E esse ponto de vista aplica-se também e com forte razão fundamentada ao que se passa no nosso País.
Nos sistemas ditatoriais faz pouca falta recorrerem os seus praticantes superiores ao uso da mentira. Não se consulta a opinião pública para conhecer se agradam ou não as medidas tomadas ou as que se venham a tomar. Nestas circunstâncias não se torna necessário recorrer à mentira para tentar convencer os cidadãos. Basta não dizer nada. Já em Democracia, em que a conquista do voto popular é imprescindível para se alcançar o poder, prometer o desejável mas impossível de atingir é o princípio mais comum dos praticantes da política. Criar ilusões de que serão atingidas benesses de que os cidadãos irão gozar se optarem por determinada escolha, essa é a atitude fundamental para que as urnas se encham de aderentes a uma causa. Depois, o não se cumprir o prometido, isso é consequência futura e até lá sempre passa algum tempo.
A mentira é uma característica própria do ser humano. Até dá a impressão de que o Homem não sabe viver sem utilizar no dia-a-dia a sua mentirinha. Nem que seja aquela que é considerada como piedosa que, muitas vezes, ajuda a que os mais infelizes sofram menos.

domingo, 31 de janeiro de 2010

ABRE-TE

Abre-te, abre-te caminho
deixa-me ver para a frente
eu quero sair do ninho
mostrar como sou valente

Mesmo sem depois saber
se no fim da caminhada
algo de bom lá estiver
que agrade à minha chegada
quero partir, eu confio
onde estou é que não fico
eu aceito o desafio
não serei mais mafarrico

Abre-te, abre-te minha estrada
estás em frente, é só andar
ocupo a minha jornada
estou pronto para me cansar

Tem sido assim toda a vida
na busca de algo melhor
à procura da saída
mesmo que seja com dor

Se só com muito trabalho
com dor e grande cansaço
aproveitando um atalho
e sem medo de fracasso
for possível lá chegar
eu espero não desistir
até em mim se acabar
a força p’ra poder ir

Mesmo de rastos lá vou
até ver que se acabou!...


CONSELHO DE ESTADO


CHEIRA a princípio de uma caminhada para reocupar o lugar de Belém e, quanto a isso, cada um faz o que pode para preparar o seu futuro, sempre que seja dentro das normas legais e éticas. É o que parece querer representar a convocatória de Cavaco Silva para a reunião do Conselho de Estado ainda esta semana. Mas, por outro lado, dadas as circunstâncias amargas que se vivem no nosso País e as dificuldades nítidas em encontrar resposta positiva, todas as iniciativas são bem aceites e a esperança de que alguma coisa de bom saia dos que ainda têm nas mãos alguma possibilidade de procurar saída, todas elas serão bem vindas. Realize-se, pois, mais esse Conselho e que os seus membros não utilizem tal reunião apenas para mostrar que estão vivos, mas que façam ouvir as suas vozes no sentido de tentarem acrescentar algo de útil, não receando referir as verdades e já que a ordem de trabalhos incide sobre os desafios do futuro e para uma análise da situação política.
Sendo a quinta vez que, com este Presidente da República, tem lugar um encontro desta instituição, dada a situação muito delicada que Portugal atravessa há que esperar que não se trate de uma reunião, por sinal a 40ª desde que foi constituída, sem resultados palpáveis, visíveis, úteis, e que os seus 20 membros, com o Presidente, não saiam da mesa com a sensação de que foi infrutífera a iniciativa.
Os portugueses que começam a estar pausadamente conscientes da situação que se vive e do que ainda virá a enegrecer o panorama, e de como são duvidosas as medidas positivas que esperam do poder, quando se sabe que a dívida pública, só em juros, atingirá os 5,5 milhões de euros no final deste ano, para além de o saldo das contas públicas se apresentar negativo em mais de 14 mil milhões de euros, tudo isto acrescido da taxa do desemprego que, segundo tudo indica, já chegou os dois dígitos, ao não presenciarem os cortes que se impõem nos gastos públicos em termos de verdadeira necessidade, e de não assistirem a só serem feitas despesas no que é absolutamente essencial, é evidente que, face a essa situação, têm de aguardar por qualquer “milagre”, seja ele qual for, que surja de um sector que mantendo, pelo menos, alguma tranquilidade política, seja capaz de trazer certa esperança para os espíritos mais atingidos pela realidade económica, financeira, social que se vive no nosso País.
Será que o próximo Conselho de Estado anunciará possibilidades de ultrapassarmos o desassossego em que vivemos? Mostrará esta Instituição, que não serve apenas para dar lugares honrosos a personalidades que, tendo já exercido funções importantes ou encontrando-se ainda dentro delas, que os seus parceiros não aparecem somente para dar lustro às suas honrarias?
Se ao menos os nossos vizinhos espanhóis se encontrassem numa situação que pudesse constituir uma ajuda de valor ao nosso caso, nem que fosse com a continuidade de importações dos produtos portugueses e com a contratação de muita mão-de-obra nacional como sucedeu antes, ainda poderíamos antever uma saída por essa porta! Mas, tal como se encontram, embora dispondo de meios mais viáveis de sair da crise, ainda levará algum tempo até isso suceder. Se este conjunto peninsular já estivesse integrado numa nação ibérica, sem sujeição de nenhuma das partes à outra e mantendo a suas características próprias, seria possível que o drama comum fosse solucionado com maior força e determinação. Mas como essa comunhão sempre encontrou aljubarrotistas dispostos a estarem orgulhosamente sós, não é essa a posição e cada um chora os seus problemas isoladamente.
Já sei. Os mesmos de sempre revoltam-se perante esta ideia que defendo há muitops anos, desde os tempos em que a Censura me proibiu de voltar a este tema. Mas o
futuro dirá se se trata de ter razão antes de tempo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

LIBERDADE

O teu nome só por si vale ouro
gritar por ele enche de luz a alma
gozar a liberdade é miradouro
em que a boa vista nos acalma

Nação livre é país abençoado
é luz que alumia os caminhos
onde ninguém está amordaçado
todos podem voar quais andorinhos

Ser livre é ir mais longe mais distante
sem fronteiras e sem impedimentos
mudando de via em qualquer instante
rumando com marés e com bons ventos

Quando depois de estar anos trancado
se atinge muito a custo a liberdade
bem parece um sonho ser acordado
sem ter na frente a pesada grade

Respirar fundo o bom ar liberto
mostrar ao alto toda a alegria
deixar de haver medo encoberto
viver correndo atrás da fantasia

Há que manter, porém, toda a atenção
para vários valores bem definidos
porque o que se ganhou com paixão
não pode retornar aos abatidos

Se não for a prudência a comandar
e o bom senso a ditar os passos
tudo se pode num ápice esfumar
e pôr a liberdade em estilhaços

A minha liberdade bem cumprida
não pode, não deve pisar a tua
posto que o que se levou de vencida
ainda espreita por aí na rua

A tentação do poder está viva
desejosos de o ter há bastantes
p’ra apanhar em contrapé, à deriva
os mais descuidados e confiantes

Os tempos mudam, mudam-se os propósitos
as vontades também não são as mesmas
se antes iguais hoje apósitos
agora lindos antes abantesmas

Mas o que se mantém é a verdade
mesmo que esquecidos os princípios
por muito que falte hoje a lealdade
e por isso abundem os mancípios

Mais do que nunca falta-nos gritar
para que oiçam todos muito alto
a liberdade só pode restar
se estiver presente na ribalta

Liberdade não é libertinagem
não dá p’ra agredir os que mal a usam
só os anos de muita aprendizagem
ajudam os que dela não abusam

Quem não sabe viver em liberdade
quem aspira por uma ditadura
o que merece é a descaridade
de seguir vivendo em noite escura

Liberdade é só pr’a quem merece
para todos que outros deixam soltos
só desta maneira é que apetece
que vivamos alegres, desenvoltos

Mas liberdade milagres não faz
não basta tê-la pr’a mudar o mundo
é preciso usá-la, ser capaz
de entendê-la bem, do princípio ao fundo

O risco de a perder está sempre à esquina
basta abusar da sua brandura
sobretudo nesta terra latina
onde há gente que aspira p’la censura

Para ser livre só com gerações
e sem justiça não há liberdade
pois não basta que hajam eleições
faz falta grande dose de humildade

Humildade sim, dos outros ouvir
aceitar os que não pensam igual
e até nunca se deixar cair
no triste afã de pregar moral

Terrorismo, agora tão na moda
da liberdade enorme inimigo
é verdade, tira a vontade toda
de ainda conservá-la como abrigo

Mas há que resistir à tentação
de combatê-lo só com violência
e ter a força como solução
pois também é preciso paciência

Se o terror o que quer é destruir
aquilo que não tem: a liberdade
então o que faz falta é instruir
abrindo-se as portas à verdade

Mostrando que cada um pode crer
naquilo que lhe parecer mais certo
não tem é o direito de fazer
com que os outros os sigam de perto

Enfim, ser livre não é fácil cousa
é preciso ser forte e consciente
bem enganado anda quem repousa
na crença qu’isso é p’ra toda a gente

JUSTIÇA, QUEM A ACODE?


TANTOS a falar de Justiça. Tantos a queixarem-se do seu mau uso neste País, que é o nosso. Tantos de acordo com a necessidade de ser feito com urgência o necessário para que tudo entre nos eixos e que, por fim, possam os portugueses usar do direito de terem uma Justiça célere, competente, justa. Nisto, pelo menos, há entendimento e mesmo os intervenientes profissionalmente nesse sector da maior importância, embora discordando por vezes de certas medidas que são apontadas, no fundo são unânimes em reconhecer que como estão as coisas é que não devem continuar.
Ocorreu há dias mais uma abertura do Ano Judicial. E, como sempre, esse acto revestiu-se da solenidade tradicional, com a presença das mais altas figuras do sector e o apadrinhamento do Presidente da República. Como é tradicional, não faltaram os discursos proferidos pelas entidades mais envolvidas no sector, todos eles reveladores de que nos encontramos num “centro de um furacão que os tribunais já começaram a sentir e pelo qual vão pagar”, e de que “um novo boom de acções de dívida desabará nos tribunais”, segundo o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, assim como o Bastonário dos Advogados deixou sair de que “há sinais de que a Justiça está politizada”.
Mas foi Cavaco Silva, na sua posição presidencial, que não deixou dúvidas quanto ao seu pensamento referente à situação que se vive neste campo. De entre o muito que afirmou, ficou claro da sua parte que “muitas das leis produzidas entre nós não têm adequação à realidade, sendo necessário legislar com maior rigor”, assim como “a Justiça em Portugal atravessa um momento delicado”, e ainda que “os atrasos na Justiça alcançaram níveis preocupantes para a imagem de Portugal”, acrescentando ainda que “as leis para a corrupção não são ajustadas”.
Esta posição de revolta quanto ao estado em que se encontra a Justiça no nosso País tem constituído um tema repetidamente aludido neste meu blogue. Inquietamo-nos muito com a deficiência, a incompetência e o desleixo com que correm determinadas áreas da vida pública nacional, mas, no que se refere a uma das mais importantes armas da Democracia, aí não somos capazes de colocar os seus participantes em sentido e de responsabilizar os culpados de tão vergonhoso cumprimento da actividade dos tribunais, começando pelas acções que são necessárias antes, por forma a que, quando chegam aos julgamentos, não existam impedimentos para que os magistrados actuem com rapidez e com absoluta justeza.
Na abertura do Ano Judicial, também esteve presente José Sócrates. Mas o primeiro-ministro, que é tão falador quando se trata de lançar os elogios em causa própria, ali nem abriu o bico. Poderia não ser o local ideal para o fazer, admito, mas que, antes ou depois, deveria dar mostras da sua posição e do que estará nas mãos do Governo fazer para que acabem de vez as anomalias judiciárias.
Depois, também a separação da política e da Justiça, que tem razão de ser quando não existem motivos para intervir porque o sector que representa os cidadãos não é confrontado com as reclamações que são notórias há anos, essa separação tem permitido que não haja forma do ministro da Justiça, em nome do Executivo, meta a mão a fundo e, com o apoio do Parlamento, efectue as alterações que todos concordam em dever ser feitas.
Andamos neste jogo do empurra, tão ao gosto dos portugueses, e assim prosseguimos até já termos ar para respirar.