sexta-feira, 12 de março de 2010

CALADO


Ter que fazer
não ser capaz
nem querer morrer
sem deixar p’ra trás
obra aceitável
para recordar
ser memorável
não ser vulgar

Mas e o génio?
bem que o procuro
qual oxigénio
em túnel escuro
se não o alcanço
fica por fazer
não terei descanso
sem desfalecer
até conseguir
antes de partir

Só os papéis
manuscritos no café
esforços cruéis
de quem faz finca-pé
em não ser um qualquer
quem cá ficar que diga
o que lhe aprouver
pois ninguém é obrigado
a manter esta luta
e se calhar é calado
que é a melhor conduta
dizer alto é vergonha
de se ficar a saber
o que cada um sonha
e, sem o conseguir… morrer

CAVACO DIZ...


A ENTREVISTA que o Presidente da República concedeu à RTP, por sinal a segunda ao longo da sua condição naquele lugar, tendo sido aguardada com compreensível interesse por se tratar de uma período que muito está a preocupar os portugueses, depois das suas respostas terem sido digeridas pelos que acompanham as evoluções da nossa vida política e social e de os comentadores habituais terem divulgado os seus pareceres, há que, cada um por si, tentar extrair das afirmações dadas a Judite de Sousa – por sinal, uma boa profissional nesta área – o que for importante para se concluir o que estará na cabeça de Cavaco Silva, já que é ele que tem a responsabilidade de procurar equilibrar as várias frentes que, cada uma no seu lugar, defendem os seus respectivos pontos de vista.
Pois bem, também me cabe o direito de deixar neste blogue aquilo que pude interpretar das palavras que o locatário de Belém quis que passassem para a opinião pública.
Em primeiro lugar, não indo ao ponto de tentar adivinhar se existiu qualquer estabelecimento de acordo quanto às perguntas que iriam ser postas, o que, como profissional antigo da comunicação social, não desejo admitir – pelo menos, nos múltiplos encontros de entrevistas que tive, em várias partes do mundo e com diferentes personalidades, nunca me foi posta essa condição, que eu, obviamente, não aceitaria -, tenho de reconhecer que Cavaco Silva trazia o trabalho de casa bem decorado. E as respostas que deu às perguntas da entrevistadora revestiram-se sempre de um cuidado extremo em não ferir susceptibilidades nos vários sectores que se encontram de costas no panorama de confronto que se verifica em Portugal nesta altura.
Para além de se ter mostrado pouco crédulo no que diz respeito ao Governo afirmar que desconhecia o negócio que se estava a preparar entre a PT e a TVI, não foi muito além dessa dúvida e antes procurou transmitir a ideia de que, ao contrário do que se anuncia por vezes, as relações entre ele e o primeiro-ministro são absolutamente institucionais, que é a forma melhor de dizer que não existem divergências graves entre ambos os comportamentos.
Em resumo, portanto, o que se tem de concluir das afirmações do Presidente é que, por sua iniciativa, não se deve esperar que o Governo venha a ser demitido, pois não omitiu que tais atribuições cabem, em primeiro lugar, ao Parlamento e é este que tem a incumbência de fiscalizar as acções e de votar uma moção de censura. Se isso não aconteceu, a ele só lhe cabe estar sem interferir, disse.
Numa palavra: a ideia com que eu fiquei desta entrevista é que Cavaco Silva, embora diga que falta muito tempo para dar a conhecer se se recandidata ao lugar, este foi o primeiro passo para deixar os portugueses seus partidários descansados quanto à sua vontade em repetir as funções.
Resta agora aos adversários já anunciados quanto a conquista da Presidência da República, ou os que venham, por ventura, ainda a surgir, tomarem as posições que considerarem mais convenientes para fazer frente ao que já está a preparar-se para permanecer no posto.
Afinal, também não é por aí que o Pais se defende melhor ou pior das avalanchas que poderão surgir para complicar mais ainda a situação de crise que nos atormenta e que não vai ficar por aqui, com PEC ou sem ele, já que o que surgiu neste documento do Governo não parece ser suficiente para remendar os buracões que foram criados ao longo de um passado que chegou até aos nossos dias e que, esse sim, deveria ter sido levado a cabo com precaução, bom senso, sentido das realidades, limitação das condições financeiras e sociais que estivemos a viver, ao contrário de umas partidas de mau gosto que uns tantos nos quiseram pregar. E, sobre isso, o Presidente não quis adiantar nada que pudesse sobressaltar as hostes, embora haja que reconhecer que tem de haver todas as cautelas no sentido de não se deitarem achas para a fogueira, pois que já nos chega ter de suportar as consequências de uma crise mundial que, não há que escondê-lo, da parte portuguesa teve o acréscimo de uma má governação. No entanto, ainda que enfrentando esses riscos, de um Presidente sempre se espera, particularmente quando as coisas não estão a correr de harmonia com as necessidades nacionais, que, sem ir às últimas consequências, dê mostras ao País de que não se encontra conformado com os erros mais evidentes que tenham sido tomados pelo Governo em exercício. E isso não foi presenciado na referida entrevista.
A História, se houver quem a queira escrever com independência, contará toda a verdade, para que os vindouros, especialmente os que cá estiverem para pagar as favas, apontem os dedos acusadores e tentem encontrar uma saída para a herança que lhes é deixada.
Nesta altura em que termino este texto, ao fim da tarde, ainda no Parlamento não foi votado o Orçamento. Mas, é mais do que certo que o mesmo passará, com as habituais abstenções de quem não se quer comprometer nem com o sim nem com o não. Dizer mal, pois sim; comprometerem-se, isto está quieto!

quinta-feira, 11 de março de 2010

MORTE

Eu oiço o sino da morte
Dar badaladas por mim
Tenho pronto o passaporte
Estou preparado p´ro fim

O que não quero é que então
Olhem p´ra cova a chorar
Pois a incineração
Deixa cinzas p´ra espalhar

É triste pensar na morte?
Aceitá-la consciente?
É isso ser-se mais forte?

Basta enfrentar o real
Partir como toda a gente
E a todos ser igual.

EUTANÁSIA



O CIDADÃO COMUM português, ao deparar com o tempo que perdem muitas das figuras politicas por cá, com quezílias de trazer por casa, dessas que não resolvem nenhum dos enormes problemas que temos pela frente, chega a interrogar-se se, na realidade, não existem tantas e tão variadas situações que bem poderiam ser atendidas por esses mesmos senhores que, quando não andam entretidos com inaugurações de obras que ainda nem sequer estão prontas ou, como é o caso do próprio José Sócrates, gastam horas, dias e semanas a tentar destruir o que chamam de “ataques de difamação” por parte dos que não se encontram alinhados com as suas preferência, sem sequer o conseguirem fazer junto da maioria da opinião pública e, o que é mais grave, só desperdiçam energias e períodos de trabalho que deveriam dedicar a governar bem o País, deixando que as coisas corram por si e não dando mostras de que, efectivamente, estão dispostos a deitar mãos à tarefa positiva que lhe compete levar a cabo, esse cidadão comum atrás referido está cada vez mais baralhado e com poucas ou nenhumas esperanças de chegar a ver melhora neste nosso País.
É certo que a crise, essa maldita que também tem as costas largas, absorve o maior espaço do cérebro daqueles que quase dão em loucos a reduzir aqui, a transferir para acolá, a calcular percentagens, a analisar esquemas e mapas, a comparar o que se passa em casa com o que os outros países revelam, especialmente os da Europa, a preparar elementos que tenham pretensões de mostrar aos portugueses que, afinal, não estamos assim tão mal como dizem, e com a crise se vão desculpando.
E isso, a que se pode dar o nome de dar o lustro ao que está excessivamente baço, sendo uma forma de tentar mostrar serviço, muito embora os resultados práticos não saiam nos variados cantares de vitória que os socratianos deixam sair das suas gargantas.
Não foi este Executivo que, no meio do turbilhão de gravíssimos problemas que nos amarguram a existência, apareceu com aquela dos “casamentos” entre pares do mesmo sexo? Eu já nem pretendo discutir se essa forma de acabar com o que alguns chamam de “discriminação” é ou não justa, pois o que me indigna é que esta tese tenha surgido precisamente num momento em que o natural era que estivessem os responsáveis absorvidos com o estudo e solução de altíssimos berbicachos que envolvem Portugal e que fazem o País correr sérios perigos num futuro que nem sequer se situa muito distante dos dias de hoje.
Se atentarmos neste apetite dos “casamentos” em que Sócrates até se empenhou bastante, como deu ideia, então talvez tivesse maior relevo a discussão do problema, tão discutido por esse mundo, da eutanásia, o que, pelo menos daria alguma mostra de que o Governo português, já que também dedica tempo, nesta altura, a problemas secundários, então levaria este, deveras importante, ao Parlamento, para ver como pairavam as opiniões dos que têm como missão votar as propostas que lhes chegam.
Concordo que esta não é a altura mais apropriada para se encarar este problema. Mas, o tema em si sempre chamaria mais as atenções do que aquele dos “casamentos” de homens com homens e de mulheres com mulheres.
De facto, permanecer Portugal sem surgir sequer uma tentativa de conhecer os que pensam os seus habitantes no que diz respeito ao sofrimento dos enfermos que não têm medicamente qualquer possibilidade de prolongar, com o mínimo de ausência de sofrimento, as suas vidas, deixarmos correr as coisas e não tomando conhecimento do que ocorre em outros países, a Suíça por exemplo, onde, a pedido dos próprios, se aplica legalmente a eutanásia, ficarmos assim, parados e indiferentes, sem cuidarmos de conhecer a opinião maioritária através de um referendo, é uma situação que merece, no mínimo, um comentário num blogue.
Digo eu, para dizer que, no meu caso, se me vier a acontecer encontrar-me nessa ponta final sem assistência para terminar o sofrimento, nessa altura sentirei grande revolta. Pois no meu fim tenho o direito de ser eu a decidir!

quarta-feira, 10 de março de 2010

AS QUINAS

Em certa manhã de nevoeiro
Vai despertar aqui no País
A esperança de ser feliz
Trazida por um alvissareiro?
II
Em Terra de tantos pacientes
Ainda há fé em epopeias
Pois o sangue que corre nas veias
Vem de outrora, de antigas gentes
III
Por mais que se julgue adormecida
A ânsia do Mostrengo matar
Grande coragem não vai faltar
Sempre se vai dar a acometida
IV
Tanta apagada e vil tristeza
Que é apanágio do Português
Não quererá que um dias, talvez
Ponha à mostra a sua sageza
V
Para os últimos deixarem de ser
P’ra entrarem no comboio perdido
Há que soltar o ar abatido
E sem demora correr, correr
VI
Olhemos aqui para os vizinhos
Esses, doutros tempos, Castelhanos
E honremos os velhos Lusitanos
Seguindo então novos caminhos
VII
Por mais que estejam adormecidos
Mesmo que pouco e mal se lute
Não se há-de perder o azimute
No fim não sairemos vencidos
VIII
Discutir-se-ão muitas opções
Os políticos debitarão
Mas negar, nunca o negarão
Esse mar que nos cantou Camões
IX
Seguro que vai ser necessário
Que a fome nos ataque primeiro
E que se faça um grande berreiro
A lastimar o nosso calvário
X
Mas p’ra atingir tão grato projecto
D’a os da Europa sermos iguais
Só teremos, oh simples mortais
Que rogar ao Supremo Arquitecto

COMISSÕES


CADA VEZ que se forma em Portugal uma comissão, especialmente por iniciativa da Administração estatal, todos os que por cá ainda prestamos alguma atenção a estas coisas de se encontrarem lugares bem pagos para os amigos do Poder, ficamos alerta e na expectativa de vir a entender se algo de proveitoso para o interesse público sai desses conjuntos de indivíduos que passam a fazer parte uma qualquer motivação de momento.
Isto, para dizer aquilo que eu penso que será opinião geral dos portugueses: que os habitantes do nosso País se encontram fartos de medidas “inventadas” com ausência total de produtividade e em que os dinheiros públicos são gastos desalmadamente e sem contribuírem para a melhoria dos nossos problemas.
O caso que se tem assistido, através do programa televisivo que cobre os acontecimentos na Assembleia da República, em que, ao longo de dias seguidos, cerca de trinta deputados dos diversos partidos com acento no Hemiciclo apresentaram perguntas, muitas delas repetitivas, aos cidadãos convocados para o efeito e, nesta situação, com relação a dúvidas levantadas sobre a actuação governamental no capítulo da liberdade de Imprensa, as prolongadas sessões que deram mostra da falta de preparação dos membros partidários que, acima de tudo, terão preferido marcar terreno com respeito ao grupo partidário que representaram – e, obviamente, situando-se nas posições condizentes com os interesses defendidos por cada agrupamento -, tais sessões não terão servido rigorosamente para nada e apenas constituíram a regra das comissões que no nosso País são constituídas sempre que se pretende não resolver problema nenhum.
Esta Comissão de Ética, Sociedade e Cultura, que é este o seu nome – ridículo pelo título, como inoperante quanto ao objectivo -, só vem provar aquilo que nós, portugueses, e não são apenas os elementos dos serviços públicos, desde Sócrates até aos níveis mais para baixo, não estamos destinados a saber solucionar as nossas próprias questões. É uma pena ter de concluir isto, mas eu não sou capaz de encontrar outra razão para a inutilidade que se verifica nos resultados cada vez que se entende formar uma comissão seja do que for, para passarmos a bola a um grupo que fica com o encargo de apresentar conclusões… as quais nunca são comunicadas, porque, na generalidade, também não adiantam nada de positivo.
No caso em análise, reconheço que, pelo menos, das horas longamente perdidas com a referida reunião, alguma coisa passou para o exterior e isso devido a depoimentos de alguns dos interrogados, especialmente de Henrique Granadeiro: é que José Sócrates não sabia o que se estava a passar quando a PT estudava a possibilidade de adquirir uma posição na Media Capital. A ser verdade, também fico deveras intrigado. Pois será possível que um primeiro-ministro, tão atacado com os disparos que saem de todos os lados, não esteja ao corrente de um passo tão importante que estava a ser preparado por uma empresa pública da dimensão da PT? E então, José Eduardo Moniz, ao ter feito declarações que muito comprometeram o chefe do Governo, não disse verdades?
E cá ficamos nós muito entretidos com comissões que se formam constantemente. O que é preciso é deixar a ideia de que a grande preocupação nacional é a de esclarecer, o mais possível, todas as dúvidas que pairam em vários campos da vida nacional. Se os portugueses andam confusos e com falta de aclaramento de muitas situações que ocorrem por cá… não é à falta da existência de comissões!

terça-feira, 9 de março de 2010

CALVÁRIO

Há ou não razão p’ra desanimar
neste calvário imenso em que vivemos?
se um dia isto tiver de acabar
e d’algo pior ainda tememos
e não se passa só em Portugal
o mundo inteiro não está melhor
para se conseguir fugir do mal
tanto faz que se vá p’ra onde for

A Terra anda toda ela às voltas
acalmia é pouco que se encontra
pois muitos malvados andam às soltas
já não escapa nada em qualquer montra
e nas finanças grandes roubalheiras
na política grassa a corrupção
pouca vergonha já não tem fronteiras
ao nosso lado pode estar ladrão

Não é bem assim, dizem confiados
os que ainda não sofreram danos
mas um dia destes ficam calados
se os atingirem alguns fulanos
é que isto de trabalhar não dá
não é bastante p’ra levar a vida
se é isso que se passa por cá
é igual aos que vêm de fugida

Calvário da vida não chega a todos
há os que conseguem bem escapar
para uns tantos os terem a rodos
outros nunca precisam de suar
ainda bem, pois não é regra geral
o ser feliz é coisa que existe
para os que só enfrentam o mal
há sempre aquele que a tudo resiste

GASTAR POUCO - PEC



FOI O QUE SE ESPERAVA. Nem podia ser de outra maneira. Ao tomar-se, por fim, conhecimento do que ia sair do Programa de Estabilidade e Crescimento, que o Governo andou a preparar - obviamente contra a sua vontade, posto que José Sócrates, que tem andado desde sempre a proclamar o bom caminho que o nosso País levava, não parecia estar convencido de que era forçoso dar uma volta grande no panorama existente -, face à realidade que foi dada agora a conhecer aos habitantes deste País, perderam-se as esperanças vãs que os optimistas profissionais ainda mantinham, e as medidas drásticas lá foram mostradas para tentar que a má situação financeira que atravessamos chegue ao seu final. Mas sem o dizer com aquela clareza de humildade que era forçoso que fosse mostrada pelo próprio Sócrates, o que vai ocorrer a partir de agora é exactamente o contrário do que tinha sido sempre proclamado no arrastar do tempo passado.
No fundo, ainda bem que tal ocorreu, pois, mesmo demasiado tarde, mais vale fazer-se alguma coisa do que mantermo-nos agarrados a uma política que não se encaixava nas realidades dos nossos dias. Sempre se procura atrasar o bater no fundo de que já se começaram a ouvir alguns estrondos.
A verdade, porém, é que o apertar do cinto, o ter de poupar onze mil milhões de euros até 2013, o terem sido adiadas, sabe-se lá durante quantos anos, as leviandades que Sócrates insistia em querer manter, como parte do TGV e as auto-estradas não urgentes e talvez até nem necessárias, o terem as deduções no IRS de passar a ser diminuídas e quem ganha mais do que 150 mil euros anuais ir sofrer o aumento dos impostos, tudo isso irá atacar, sobretudo, a classe média e não se sabe ainda se todas estas medidas – que poderiam e deveriam ter surgido há dois anos atrás -, agora, com efeitos muito penalizadores, temo de nos interrogar se todas essas medidas não irão criar uma crise política, com consequências difíceis de prever. Mas que era urgente tomar medidas, com isso temos de nos conformar…
O recuo do Governo em relação ao seu comportamento anterior, o que provocou que um grande número de portugueses se tivesse mostrado, desde há certo tempo, desinteressado de acompanhar o que os participantes do Poder estiveram a engendrar, por não ser esperada já capacidade para emendar o que estava a sair visivelmente mal, essa atitude agora surgida, esses grandes passos atrás só vêem dar razão a quem, com persistência, acusava os culpados de estarem a conduzir Portugal para um beco sem saída. Disso não me arrependo.
Nesta altura, não é fácil prever se ainda há tempo para remendar o que se encontra bastante roto. Por isso mesmo, o que seria salutar era que o próprio José Sócrates se tivesse apresentado perante os portugueses e justificasse, ele próprio e não um ministro, a mudança radical que o seu Executivo introduz na condução do seu conjunto governamental.
“Errare humanum est”, deveria ser a expressão que o principal culpado deste horror em que nos encontramos teria de proferir com a mão no peito. É altura de acabar com os elogios em boca própria, com as arrogâncias de que ninguém faria melhor do que ele e aceitar que havia formas de evitar o pior de todos os males que nos atingiram e que, esperemos, não fiquem só por aqui.
No capítulo do desemprego, que é um dos factores mais gravosos do sector social português, não foi este Programa que veio trazer novidades. Também não existem “milagres” que ponham cobro a este deplorável mal que pode produzir grandes revoltas nos atingidos por tal desgraça. Nem se sabe se existe alguém que tire do chapéu a solução de tamanho problema! Logo, não constitui um retrato pessimista, se houver quem proclame por uma atenção muito particular no que diz respeito a esse campo aberto para uma posição violenta por parte de quem se sente incapaz para alimentar a sua família.
Logo, não existindo nenhuma certeza em relação ao que virá a seguir, em termos de possível novo Governo e se aparecerá outro grupo parlamentar em posição de comando nas bancadas de S. Bento, pois até o principal partido da Oposição ainda se encontra sem chefia encontrada, exactamente também por tudo isso é que José Sócrates tem a obrigação de não fugir às responsabilidades que lhe cabem e dar demonstração clara de que se assume como parte da culpa quanto às consequências de tudo o que de difícil solução puder vir a passar-se.
Com este vício tão nacional de culpar sempre quem esteve e nunca quem está, não admira que o próximo futuro venha a ser a repetição de cenários já conhecidos: o choradinho de que foi encontrada a situação económica nacional num estado deplorável. Mas o que os portugueses precisam é de alguém que venha disposto a encarar o futuro e com soluções, pois do passado já todos nós conhecemos o historial.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A AVAREZA

No poupar há algum ganho
dizem os tais cautelosos
mas isso de ser tacanho
já pertence aos mais medrosos
sovinice
gastar demais é tontice
pode levar à pobreza
como também é tolice
preferir a avareza
sabujice

Ter muito e não ter nada
não ajudar quem precisa
muito merece a piada
daquele que bem avisa
e critica
que ao chamar-lhe sovina
está a falar com franqueza
é bem ave de rapina
quem pratica a avareza
com larica

O contrário do guardar
com medo que tudo acabe
o grande prazer de dar
é a generosidade
bem fazer
afinal o que se tem
quando partimos do mundo
fica cá para alguém
gastar tudo num segundo
desfazer

STANLEY HO


CONHECI-O HÁ ANOS, pois foi através de uma entrevista que, por casualidade, lhe fiz uma vez há anos, quando se encontrava em Portugal, a passar uns dias em Cascais, e em que me recebeu em sua casa, surgindo a abrir a porta em calções e com uns chinelos, ele, um dos homens mais ricos do mundo, de nome Stanley Ho.
Na altura, o Casino Estoril não fazia ainda parte da enorme lista de activos do magnata, pois encontrava-se nas mãos dos descendentes de Teodoro dos Santos, esse sim que tinha sido do meu relacionamento sendo eu ainda muito rapazinho, e em que ele era ainda um empregado de uma tabacaria na rua da Madalena. Muito mais tarde, na altura da entrevista, o magnata era apenas conhecido pelo “chinês”, pois muito poucos sabiam o seu verdadeiro nome, dado que, de sua propriedade, era pouco mais do que o Hospital Particular, aliás adquirido por razões um pouco ligadas ao acidente que motivou a morte do toureiro Manuel dos Santos, mas isso é outro assunto que não cabe aqui neste texto.
Pois, a referida entrevista que fiz e publiquei no meu jornal, “o País”, foi mesmo a calhar ao homem que se queixou amargamente de que estava, na altura, a ser perseguido – versão dele próprio - pelo então Governador-Geral de Macau (ali colocado pelo Movimento dos Capitães de Abril) que ele relatou lhe estar a proibir imensos projectos de desenvolvimento no território, então ainda sob administração portuguesa, e que sentia a ameaça de que a exploração do jogo naquela província ultramarina (como se dizia na época) não lhe iria ser renovada. E foi graças a esse queixa publicada e às seguintes provas desse estado de espírito que ele próprio me ficou a remeter com regularidade, elementos a que fui dando mostra pública pelo interesse que representavam, pois todas elas eram acompanhadas de elementos que não deixavam dúvidas jornalísticas da sua veracidade, foi por via disso que, um belo dia, recebi pessoalmente uma chamada telefónica do Presidente da República, general Ramalho Eanes, perguntando-me se eu estava seguro das notas que estavam a ser publicadas e, nessas circunstâncias, se eu me disporia a receber uma pessoa (o futuro Governador) para lhe mostrar todas as provas que tinha recebido de Stanley Ho.
Entretanto, dentro da isenção que sempre demonstrei ao desempenhar as funções de director de um jornal nacional que fez questão, durante toda a sua existência, de manter uma absoluta independência, não se sujeitando a qualquer pressão como, segundo parece, nesta altura tanto se verifica por cá, não recebi qualquer compensação por ter sido tomada a posição de dar voz pública ao que estava claro que se tratava apenas de uma perseguição de características com aparência política, ao que, na época, tinha foros de malvadez, e que era muito simplesmente um ataque frontal ao capitalismo, como eram consideradas então certas movimentações de empresários que procuravam expandir as suas actuações (e, com isso, criar emprego, o que hoje não acontece!).
Foi através desta actuação jornalística que eu fiquei a conhecer o indigitado seguinte Governador de Macau, que, ao ter tomado posse desse lugar pouco tempo depois, desde logo alterou o estado de confronto que existia antes em relação ao empresário queixoso. E tudo se modificou a partir dessa altura, ao ponto de ter Stanley Ho, como me havia prometido pessoalmente, expandir a sua actividade para Portugal Continental, o que sucedeu, sobretudo, com a posse que passou a ter do Casino Estoril e que, depois, se alargou para outras áreas.
Na verdade, a única atenção que recebi do grande empresário foi o de uma visita a Macau, através da única via então existente, a de Hong Kong, onde me ofereceu em sua casa um almoço e me fez a tal declaração de que, a partir desse altura, estava disposto a investir largamente em Portugal. O que sucedeu.
Nunca mais voltei a ter contacto com o “chinês”. As várias vezes que visitou o nosso País não proporcionaram que nos tivéssemos encontrado, o que bem demonstra que, por verdadeira influência circunstancial que tivesse tido a minha intervenção na mudança de atitude do magnata, não permaneceu qualquer rastro de ligação. E é assim que deve ser, pois o jornalismo não tem de servir de ponte de interesses entre dois profissionais, um do jornalismo e outro das aplicações do dinheiro.
Sei agora que, com os seus quase noventa anos, se encontra bastante doente num hospital de Hong Kong. Ainda lhe conheci uma das mulheres que, segundo parece terá falecido. Tem outra, nesta altura, e 17 filhos. Que, devido à crise, a sua fortuna está agora avaliada “apenas” em mi milhões de dólares norte-americanos.
E é assim que se faz a História. São, como sempre defendo em tese, as circunstâncias da vida que proporcionam mudanças na labuta de cada um de nós. Afinal, muito rico ou completamente longe disso, todos acabamos da mesma maneira. Não há como dar a volta.

domingo, 7 de março de 2010

DESPERDIÇAR O TEMPO

Só quando se chega a uma certa etapa da vida
é que descobrimos o tempo que desperdiçámos
o que não aproveitámos na corrida
e tudo aquilo que não alcançámos
o mal que com que utilizámos aquilo que tivemos
a pouca atenção que dedicámos ao que valia a pena
porque saber não soubemos
tirar partido de cada cena
e as preocupações que nos absorveram
distraindo toda a ilusão
não nos favoreceram
retirando grande parte da nossa atenção.

Só muito tarde é que entendemos
que a vida é tão passageira
que tudo o que perdemos
que deixamos sem eira nem beira
ficando pelo caminho da nossa andança
não aproveitando o melhor possível
e que, num prato da balança,
de forma bem visível
devem ser colocadas as boas situações
enquanto, no outro lado,
envergonhados como ladrões
sem querer dar grande brado
se podem olvidar os maus momentos,
olvidar não, talvez esconder
porque mesmo sem os largar aos quatro ventos
e isso não dê grande prazer
sempre será bom trazer à nossa memória,
de vez em quando, pelo menos,
aquilo que não tendo grande história
por serem males pequenos
o que poderia não ter sido feito
mas que, de certa maneira,
na altura deu algum jeito
e que mesmo sendo asneira
constituiu uma aprendizagem,
se é que serviu para não se repetir
e até para dar certa coragem
para conseguir fugir
de um possível desterro
e não voltar
ao mesmo erro
praticar.

Agora, com um passado que existiu,
com alguma coisa para contar,
pois houve gente que não viu
e por isso não pode divulgar
aquilo que merecer a pena
ser ouvido
e colocar em cena
para não cair no olvido.
Mesmo que não se diga nada
serve de lastro
para a longa caminhada
e faz parte de um cadastro
que, volta não volta,
saltará à memória
provocando ou não revolta
conforme seja a sua história
e a consciência de cada qual
filtrará o que ainda animará a existência
procurando talvez não voltar a fazer igual
pois para tanto não haverá paciência
e por muito que não haja já
grande vontade de mais longe ir
quem sabe o que se passará por cá
e daquilo de que teremos de fugir

Aqueles que estiverem agora
com a idade que já tivemos,
os que falta ainda muito para se irem embora
e sabem mais do que aquilo que soubemos
esses podem fazer melhor ideia
de que o tempo que têm para percorrer
nesta vida que é uma cadeia
em que se é feliz e há sofrer
deve ser o melhor aproveitado quanto puderem,
emendando sempre o mais rapidamente possível
o que sair mal e não souberem
como fazer melhor e ter nível
esses, por muito que não estejam interessados
em aprender mais alguma coisa
precisam de ser motivados
para deixar obra jeitosa
será pelos seus próprios meios
que evitarão fazer asneiras
e defrontar bloqueios
tendo de ultrapassar barreiras
tendo então ocasião de verificar,
e oxalá não seja demasiado tarde
que às vezes há que parar
sem medo de que lhes chamem cobarde
e então aí fazer a prova dos nove
fazendo aparecer a tal balança e nessa altura,
imitando aquele que sempre se comove
sujeitar-se à tortura
de nos dois pratos equilibrados
poder confirmar qual de ambas posições
pode dar maiores cuidados
se entre as duas acções
umas que boa disposição deixaram
e outras que apetece esquecer
sendo que todas ensinaram
a melhor conseguir viver

Se for preferível
partir na ignorância,
como tudo é discutível
é relativa a importância
e se julgar melhor para os outros deixar
o apuramento das suas acções,
assim deve ficar
e atender as suas opiniões
se é que alguém se interessará por isso,
então, não deixe cair os braços,
e faça o seu serviço
que é como quem diz
ponha o cérebro a funcionar
e ainda que não seja muito feliz
aceite o que lhe vier a calhar
aguarde apenas pelo dia da partida
sem reclamar contra nada
que todos têm a sua ida
seja qual for a via usada

Embora eu não me sinta capaz
de me deixar facilmente entregue
só ao que a vida nos traz
seja o que for que se segue
com o passar dos dias
enquanto funcionar a minha cabeça
não me deixo dominar por apatias
e não me peçam que esqueça
só me entregando ao que vem a seguir
mesmo já sabendo do que se trata
nunca pude sacudir
muita coisa mesmo chata
tanto o que deixei de fazer
como o que saiu menos bem

E agora,
com os meios técnicos que já estão
a ser usados sem demora
e à nossa disposição
que esse computador tão eficaz
a que eu não aderi com entusiasmo
mostra daquilo que é capaz
provocando tanto pasmo
e deixando o muito que fará adivinhar
não sendo já necessário guardar papéis
já valerá a pena deixar
tanto os feles como os méis
pois o tal “disco” pode tudo arquivar
e depois alguém poderá haver
que se incomode com a divulgação
que dê a conhecer
aquilo que constituiu a preocupação
do que ficou feito
não deixar escondido
e que de qualquer jeito
seja bastante difundido
que ponha nos pratos da tal balança
o que aqui deixo bem gravado
e que no final de tal dança
diga se de facto causa agrado
porque se não, bem simples é
deitar fora o disco e pronto…
nem vale a pena chamar-me tonto!

E O TEMPO VAI PASSANDO...


PARA ALÉM do que se vai tomando conta pelas noticias diárias dos jornais, sempre algo de novo e de mais minucioso se lê nos fins de semana, através de uns tantos periódicos que pretendem – e, por vezes, conseguem – levar os leitores a tomarem posições, especialmente por intermédio dos comentadores que gozam da fama de se encontrarem melhor informados e de transmitirem, com verdades ou com sugestões e meias palavras, mais algumas achas para a fogueira política que se alarga por esta mata, cansada de sensacionalismos, e que tem um nome, apesar de tudo ainda muito querido por todos nós: Portugal.
Não podemos deixar de reconhecer que não é vulgar existir um País que sustente um primeiro-ministro durante tanto tempo com tão ferozes acusações ou, no mínimo, suspeições de diferentes matrizes, desde a incompetência até à falta de honestidade, como é o que se passa com José Sócrates. Muitos outros casos que se passaram em países como a Grã-Bretanha, por exemplo, não tendo atingido graus de tanta gravidade e persistência, foram bastantes para que os próprios não se tivessem mantido nos lugares, optando pelo afastamento voluntário para sossego dos cidadãos naturais.
De facto, a falta de transparência que tem sido uma constante deste Governo que navega, nesta altura, com clara ausência de iniciativas, ao ponto do seu Chefe não se incomodar em manter uma agenda de viagens internacionais com uma intensidade que, no mínimo, é incompreensível que tenha sido estabelecida sabendo-se que a sua presença no posto caseiro seria o mais aconselhável, sobretudo para quem não se disponha a voltar as costas aos graves problemas que afectam a Nação, tudo isso está a contribuir para que os portugueses se vejam abandonados e pressintam que os males maiores que se prevêem não tenham quem lhes ponha um travão, a tempo e com inteira responsabilidade.
Se Sócrates se deslocou a Moçambique e nem assistiu à greve geral da função pública que ocorreu por cá e se tem programadas idas à Líbia, à Argélia, à Tunísia, aos E.U.A. e depois ao Brasil, não é também o seu desgaste político que, em consciência, o não leva a fazer tudo para dar mostras de que não há razões para que os portugueses se sintam vazios de um poder que os deixa entregues a si próprios. E isso, na mesma altura em que o Presidente da República se tenha deslocado em visita à Catalunha e a Andorra. Tudo passeatas que, segundo parece, não podiam, de nenhuma maneira, ser transferidos para momento mais tranquilo…
Que importa, pois, que se ande a proclamar através de tudo que se considera ser comunicação social e que esteja já na boca da população, que José Sócrates é mentiroso? Se são os políticos de todas as facções, não pertencentes ao PS, que o apontam como não merecendo crédito as suas declarações, mesmo que elas sejam proferidas na Assembleia da República, que mais é preciso para que um primeiro-ministro que se preze se prontifique a enfrentar pessoalmente os seus atacantes e utilize todos os meios de que possa dispor para tirar todas as dúvidas, com elementos convincentes? Não era o que faria qualquer pessoa que se encontrasse em idênticas circunstâncias e tivesse consciência da sua absoluta inocência?
Ainda por cima com uma crise que também envolve o PSD e perante os pequenos partidos que não têm condições para actuar por sua própria conta para interferir na salvação do País, e em que as datas que e aproximam não são as mais aconselháveis para que o Presidente da República tome a iniciativa de interferir na mudança do Executivo, com eleições antecipadas ou outra medida com igual efeito, pois isso iria complicar ainda mais a imagem externa portuguesa dado que, já por si, por se encontrar o País tão endividado, não é aconselhável que aumentem as desconfianças dos credores já existentes, sendo assim e como se aguarda que, na próxima segunda-feira seja mostrado finalmente o conteúdo do Plano de Estabilidade e Crescimento, para que o País fique a saber quais são os passos que vão ser propostos, então, neste fim de semana, só nos resta esperar, pacientemente mas preocupados, pelo que vai ser o seguimento deste folhetim doloroso de que estamos a ser espectadores e de que sofreremos as consequências.
É o que há para dizer neste domingo, que não será pleno de Sol escaldante, pois que nem a meteorologia tem ajudado a que os ânimos se desanuviem nesta Terra que já foi um lugar de clima temperado. Ao menos isso!...

sábado, 6 de março de 2010

O OPTIMISTA

Será bom ser optimista
ver as coisas cor do céu
para o mal não ter vista
e gostar do que Deus deu

Se está mau virá melhor
não há fel que sempre dure
que venha seja o que for
que as dores há quem as cure

A meia garrafa cheia
é coisa de mais valia
porque mesmo com areia
nunca está meio vazia

Sempre a sorrir bem contente
mesmo andando a tropeçar
o caminho é para a frente
não vale a pena chorar

Nascer e morrer feliz
é lema dos optimistas
quem o sabe é quem o diz
ouvindo doces harpistas

Para quê contrariar
os que andam tão contentes
o que fazem é gostar
do que pensam e são crentes

Desilusões não as têm
tudo vem graças a Deus
mesmo aquilo que não vêem
é por vontade dos Céus

Eu não sei se gostaria
de seguir por essa pista
nenhuma delas seria
nem isso nem pessimista

O mundo é o que é
pleno de baixos e altos
há que geri-lo de pé
andando às vezes aos saltos

E como ninguém pediu
para vir a este mundo
aceitá-lo sem fastio
é o que resta, no fundo






O OPTIMISTA SOARES!...


TEM DIAS, como se costuma dizer sempre que não se verifica uma constância no comportamento e nas opiniões de um cidadão cá do burgo. E é isso que também se passa comigo, que sou um ser humano normal deste nosso País. E tal afirmação refere-se ao estado de espírito que vou mantendo em relação aos acontecimentos que nos são dados a contemplar, no respeitante ao todo o espaço mundial mas, muito naturalmente, sobretudo no que se refere ao País que nos calhou ser o nosso, posto que cada um de nós nasce onde as circunstâncias, em particular dos nossos progenitores, proporcionam que apareçamos na face da Terra.
Não é, por isso, sempre igual a disposição que sustento e dou a conhecer quanto ao que vai ocorrendo neste Portugal que, como muitos pensarão, não tem dado grandes motivos para nos sentirmos satisfeitos com o caminhar penoso que vamos sendo obrigados a suportar.
Ao ler hoje a entrevista que concedeu Mário Soares ao jornal “Público”, tendo partido para esse exercício com um sentimento pessimista, fui aliviando tal disposição perante as afirmações do homem que salvou a Democracia nos primórdios do aproveitamento da Revolução, do criador do Partido Socialista, do primeiro-ministro e do Presidente da República, tudo funções que foi exercendo ao longo dos 34 anos que já passaram desde o 25 de Abril. E o seu optimismo que, nos 85 anos de idade já cumpridos que apresenta hoje, se confirma, o que talvez se justifique, pois a luta feroz que manteve na época da Ditadura e os percalços que enfrentou para fortalecer as conquistas democráticas que, por várias vezes, pareciam querer fugir, tudo conseguido com desmedida abertura de espírito em relação ao que vinha a seguir, é essa prática que lhe não consegue fazer perder a esperança de que, por muito mal que estejam as coisas, o amanhã trará melhorias.
Li e reli essa entrevista, mas, apesar de ter por Mário Soares uma continuada admiração, mesmo nas contradições no que respeita ao meu e ao seu modo de analisar as situações políticas, assim mesmo não posso deixar de expor o meu enorme desconsolo por não comungar da esperança em ver Portugal sair honrosamente da situação em que foi colocado, por culpa da crise mundial que afectou grandes zonas internacionais, mas especialmente pela incompetência em que os dirigentes políticos, sobretudo os que tiveram a seu cargo a governação nacional nos últimos dez anos.
Ficar-se satisfeito pelos progressos obtidos a partir do momento da consolidação da Democracia, como se isso não fosse o mínimo que se aguardava após tanto tempo de Ditadura, para mim não é bastante para cantarmos hossanas. Só que há que reconhecer que, devido ao atraso que ainda mantemos em comparação com os outros parceiros do espaço europeu, é enorme o que falta conquistar para diminuirmos tamanha distância. E o certo é que cada vez mais nos afastamos das várias metas alcançadas pelos que devem servir de referência.
No que diz respeito à zona europeia, eu que também aspiro, desde a criação da CEE, por uns Estados Unidos da Europa, não posso situar-me em posição mais desconsolada por ver que nada disso sucede e que, cada dia que passa, as Nações que fazem parte do conjunto não mostram desejos de se submeter a uma política unitária e de força, o que muito nos poderia ajudar na situação actual. Cada um por si é exactamente o contrário do que necessitamos todos e a própria União Ibérica, que eu defendo desde há muitos anos, é um ideal que, especialmente do lado de cá, não obtém grande sucesso prático, com prejuízo para os dois lados. Soares mostra esperança no futuro, eu, realista como sou, vejo-o cada vez mais longe.
É fácil afirmar-se que se tem confiança no povo português e que, na política, é preciso ir buscar os melhores e confiar nas novas gerações. Por muito certa que seja esta afirmação, aquilo que se enfrenta e não se pode escamotear, sob pena de ser maior a surpresa quando as coisas ainda piorarem mais, a verdade é que as três décadas decorridas desde o Abril não foram aproveitadas convenientemente para que a Democracia tivesse entrado na prática das novas gerações, sobretudo porque os exemplos que têm sido dados não são de molde a entusiasmar os que não sentiram na pela o que foi o despotismo e, ao contrário da opinião que já expressei neste blogue, da necessidade imperiosas de ser criada nas escolas primárias (insisto na expressão) uma classe de “prática democrática”, que é particularmente o saber ouvir e o de não querer ser sempre o dono da razão – como José Sócrates faz no sua actuação governativa -, o comportamento dos políticos em exercício só exemplifica o inverso do que deve ser um País que respeita todas as regras da livre opinião.
Quem me dera que, enquanto por cá ando e já que conheci profundamente o que foi uma ditadura, na minha profissão de jornalista, a esperança de ver Portugal encontrar o caminho certo e os escolhidos para o poder fossem capazes de reconhecer os erros, quando os praticam – porque são seres humanos -, não venha a surgir qualquer revolta que leve a que um regime de força se aproveite dos disparates dos governantes que temos e se implante neste extremo de terra à beira-mar plantada.
E as dívidas que há para pagar no futuro, próximo e mais longínquo, com os cortes severíssimos que há que fazer já amanhã (nas reformas, por exemplo), poderão constituir o motivo para que se criem as condições para voltar a suceder o que já cá tivemos… e aí é que a Europa nos poderia, de facto, prestar a ajuda que nos salvaria dessa catástrofe.
Eu já nem me atrevo a dizer nada!

sexta-feira, 5 de março de 2010

SER HUMANO

É triste, mas é verdade
mesmo com muita idade
a esfera onde vivemos
em que toda a fé que temos
nos leva a acreditar
no pouco que vai mudar,
é mistério o futuro
tudo para lá é escuro
só nos resta ir vivendo
gozando o que vamos tendo

Mas enquanto cá andamos
mesmo se muito falamos
vidas não vão melhorando
e se tal for assim, quando?
as guerras, essas não param
há sempre os que disparam
para matar do outro lado
os que têm o mau fado
de não estar no sítio certo
quer vivam longe ou perto
porque o que importa é ganhar
diz quem anda a matar
sem saber bem porquê
pois aquilo que se vê
é que o ser humano é mau
impiedoso em alto grau

Pode ser que isto mude
que surja outra atitude
e que algo de eficaz
traga ao mundo então a paz.
Pode ser, não acredito,
mas basta estar-se aflito
para surgir solução
e passar a ser irmão
quem antes se detestava
e o Homem que não amava
passa a ser melhor amigo
só p’ra fugir ao perigo.

Mesmo que seja a fingir
e tendo até que fugir
mais vale isso do que a guerra
pois o mal da nossa Terra
é sofrer de muita inveja
e nunca achar que sobeja
tudo aquilo que já tem
o Homem, filho da mãe…

E o mundo, esse avança
não pára e não descansa
até que em certa altura
se acaba a fartura,
a agua é bem escasso
o ar falta no espaço
a terra deixa de dar
de comer e até o mar
farto de se explorado
diz que peixe foi riscado
do mapa das iguarias
pertence às velharias
e que o Homem, inventor,
descobre que com pastilhas
se come como as ervilhas.

E o ser humano, então,
aprenderá a lição
de que o mundo encheu de mais
e que tais biliões, tais,
de gente que já não cabe
e rejeita que não sabe
que o fim é inevitável
e que pr’a ser habitável
vê que o caminho a seguir
é só o de reduzir
todos aqueles que sobram
e que, por estarem cá… cobram !




OS BLOGUES


COMPREENDO perfeitamente a relutância que mostram certos políticos em relação aos blogues e também, no que diz respeito aos jornais e alguns jovens jornalistas, que consideram ser uma concorrência desleal o utilizar-se os computadores para divulgar opiniões que poderão ser emitidas por qualquer um e por sua conta própria.
Eu, como antigo jornalista, na altura em que esta facilidade não existia, compreendo claramente tal oposição, pois que nas colunas dos periódicos é que se deveria, prioritariamente, dar mostras do que cada um pensa. Porém, com o avançar das tecnologias e com o declínio, que infelizmente se nota, na compra de publicações (e basta ver como, sobretudo nos diários, essa economia dos utilizadores é cada vez mais evidente), o recurso a este meio para não deixar que fique no íntimo de cada um, sobretudo se se tratam de pessoas que têm alguma facilidade em utilizar a escrita, tal atitude é bastante compreensível. Por outro lado, o público leitor que segue atentamente as colunas com colaborações jornalísticas, depara frequentemente com esses espaços ocupados por participantes que não mostram mérito especial, o que afasta logo às primeiras linhas, o seguimento dos assuntos apresentados. As escolhas, na verdade, não são as melhores e também aí são as conveniências que funcionam e não o espírito de cumprimento de uma direcção jornalística apurada.
No meu caso em que, para além de profissional da Imprensa, também a colaboração que prestei com colunas fixas em diferentes diários ocupou a minha atenção, adoptei agora este meio que, diariamente, relato o meu desassossego no que diz respeito ao que se passa no mundo em que nos encontramos e, particularmente, no País que é o nosso e em que, com grande tristeza, os assuntos a serem discutidos se encontram tão mal tratados e também, posto que cabe nesta altura a vez a serem outros os comentadores a ocupar as colunas nos mesmos periódicos onde colaborei, utilizo este meio do meu blogue que, por sinal, face às estatísticas que recebo periodicamente me dizem que existe ainda um bom número de leitores em permanente aumento a seguirem o que opino.
Francisco Pinto Balsemão que se situa na área dos profissionais dos jornais e revistas, especialmente como empresário, na intervenção que teve agora na Comissão da Ética, mostrou claramente que não é da sua preferência o uso dos blogues. E isso compreende-se perfeitamente, dada a sua ligação estreita com a vida do “Expresso” e de outras publicações. Se eu ainda tivesse algo a ver com as edições de que fui director, por exemplo o semanário “o País” além de outras, provavelmente não veria com bons olhos que fosse cada vez maior a expansão dos blogues, se bem que, tenho de dizê-lo, existem alguns que não valorizam em nada os que se empregam a fundo para que esta via tenha o mínimo de qualidade. Mas a vida é assim. O público leitor é quem escolhe e dá a sua preferência ao que mais se adapta aos seus gostos. Normalmente, no que diz respeito aos produtos jornalísticos, inclina-se mais para as publicações que assumem posições políticas da sua inclinação e esse mesmo público não é atraído por jornais que mostrem uma absoluta e rigorosa independência, como foi o caso de “o País”, ao longo dos seus dez anos de existência.
Pois aqui estou eu agora a defender essa total independência, muito embora não me escuse neste blogue a denunciar casos que merecem crítica severa, como é a situação que se dá nesta altura em relação ao primeiro-ministro de Portugal. Mantive-me, enquanto pude, em pura observação, para ver se a personagem em causa alterava o seu comportamento. Como isso não aconteceu nem se acredita que venha a suceder, então, a partir dessa convicção, não me foi possível dar cobertura favorável a quem está a fazer mal ao nosso País. E é tudo!

quinta-feira, 4 de março de 2010

ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

E vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

É T I C A ?


A AUDIÇÃO que ocorreu ontem, com Manuela Moura Guedes, a tão falada “locutora” – desculpem-me, mas é assim que eu ainda classifico os intervenientes das notícias nas televisões -, em que foi-lhe dada a palavra para esclarecer quanto aos diversos temas que lhe foram apresentadas pelos representantes partidários na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura (que nome mais estranho!) e em que lhe foi dado tempo para se explicar com clareza, devo confessar que esse acto me provocou o maior fastio e enorme convicção de que, quer de um lado quer do outro, de quem pergunta e de quem responde, o sentido de utilidade em esclarecer andou muito longe de um objectivo que deveria estar sempre presente nessa mesma Comissão.
As perguntas feitas, longas, mastigadas, empasteladas, não transmitiram aos espectadores, portanto aos portugueses, uma preocupação em aclarar o que andará confuso na cabeças dos interessados em conhecer o que ocorre cá pelo País e, em vias disso, pôr ponto final nas barafundas que se verificam na governação, sobretudo no que diz respeito ao tema do “Jornal de Sexta-feira”, em que Manuela Moura Guedes foi a protagonista de todo o “drama” ocorrido e que meteu também os espanhóis da Prisa no capítulo da interferência nas acções tomadas quanto à mudança de atitude nas notícias que aquela estação televisiva, a TVI, transmitia.
Mas, no que se refere às resposta dadas por Manuela Moura Guedes, também elas se situaram no campo da confusão e do recalcamento das mesmas expressões, da repetição do antes dito, da introdução de casos que nada tinham a ver com o assunto que ali era preciso deixar esclarecido. Foi um enfastiamento que, sobretudo para os mais atentos e muito interessados em tirar dúvidas, entristeceu bastante, dando prova de que há, entre mesmo gente que tem obrigação de ser clara, até pela profissão que exercem, não se verifica a simplicidade de expressão e, antes pelo contrário, o que ocorre é uma dificuldade bem visível de utilizar a nossa língua, com vocábulos apropriados e deixando de lado os “embrulhos”, agora tanto na moda, que só castigam os ouvidos de quem pretende ser esclarecido.
Eu, por mim, só posso acrescentar o que já disse na altura própria: os jornalistas de agora, os que não tiveram ocasião de aprender antes com verdadeiros mestres da profissão – o que aconteceu comigo com o grande professor que foi Norberto Lopes, que me disse em diferentes ocasiões que “os jornalistas quando entrevistam não expressam a sua opinião, por mais em desacordo que estejam com os entrevistados, nem comentam, apenas colocam as questões e podem complicar com novas perguntas para tentar conseguir o maior esclarecimento possível” -, essa classe de jornalismo não entende hoje que este princípio não pode nem deve ser violado. E com isto digo tudo!
Claro que José Sócrates merece e precisa de ser apontado e criticado abertamente. É um princípio da Democracia. Para isso existem os comentadores, os editoriais e outros modos de expressar opiniões. Mas nunca em entrevistas.
Só que hoje, infelizmente, os profissionais dessa difícil actividade, o que pretendem é salientar-se e pôr-se em bicos de pés. Eu, como sou do tempo em que os nomes dos profissionais dos jornais, das rádios e depois televisões, nem sequer eram conhecidos, reajo mal a quem desconhece este princípio. E, no caso de Manuela Moura Guedes, não posso concordar com a sua actuação como “jornalista”, o que não quer dizer que esteja de acordo com o comportamentoJosé Sócrates. Isso é que não!

quarta-feira, 3 de março de 2010

DIREITOS E DEVERES

O Homem tem seus direitos
os gregos foram primeiros
e a Demo com seus defeitos
teve aí os seus obreiros

Os romanos se seguiram
as Doze Tábuas criaram
mas os plebeus não se riram
longe dos nobres ficaram

A Revolução Francesa
fez algo p’lo cidadão
trouxe alguma firmeza
na sua Declaração

Mas só a França lucrou
a Europa estava fora
e o mundo nem se atinou
com tais sinais de aurora

Foi precisa uma guerra
que espalhou p’lo Universo
malefícios de quem erra
mostram o Homem perverso

No fim as Nações Unidas
lá do Homem se lembraram
p’ra tapar muitas feridas
a Declaração criaram

A segunda, a que existe
extensiva a todo o mundo
mantendo o dedo em riste
mas pouco eficaz no fundo

Muçulmanos, por exemplo
tolerância não conhecem
e mesmo crentes no templo
as mulheres só obedecem

Respeitar opiniões
é coisa que não aceitam
provocando explosões
aos que no Islão rejeitam

Porém há tantos que tais
que aos outros não dão direitos
e mandando querem mais
julgando-se até perfeitos

Pois todas as ditaduras
de quaisquer ideologias
têm as mesmas posturas
de severas tutorias

Mas de direitos falando
úteis p’ra todos os seres
é bom não ir olvidando
que também há os deveres

Uns e outros são irmãos
até gémeos por sinal
e todos os cidadãos
devem ter esse ideal

Direitos têm de haver
essa regra é de ouro
mas deveres não esquecer
fazem parte do tesouro

Nunca é demais lembrar
quem os direitos quer ter
que os deveres têm de estar
ao lado de cada ser

DINHEIRO SEM PÁTRIA


ESTÁ MAIS QUE DITA esta frase que vem de longe: o dinheiro não tem pátria. E, cada dia que passa, sobretudo nesta época em que os capitais circulam livremente, através desses circuitos denominados como paraísos fiscais, os “offshores”, se confirma que não existem impedimentos para que os investimentos, sobretudo em produtos financeiros atinjam montantes não previstos em tempos atrás. A fuga de poupanças portuguesas para esses tais “paraísos” ascendeu a 12,6 mil milhões de euros em 2009, o que significa cerca de 44% superior ao registado no ano anterior, representando tal montante a possibilidade de ter a fuga aos impostos a razão principal de tais movimentações. Por outro lado, se esse montante tivesse sido aplicado em operações económicas, industrias e comerciais do nosso País, teria sido uma enorme ajuda para o relançamento da nossa situação económica.
Mas não vale a pena chorarmos o que poderia ter sido feito e não foi, pois quem dispõe de fundos que se encontram livres de aplicações e, de uma forma geral, não se dispõe a aplicá-los em benefício deste nosso País que atravessa um período de enormes dificuldades, mas sim em lugares que prestem todas as garantias de permanecerem seguros de não serem utilizados em fins que, como sucedeu com os bancos que não devolvem aos “depositantes” as quantia lá colocadas, e em que estes se defrontam agora com situações verdadeiramente calamitosas, esses investidores só têm que reflectir se lhes interessa ou não ajudar Portugal ou preferem cuidar a todo o custo dos seus interesses pessoais.
Porém, o que caberia aos governantes fazer era criar as condições e divulgá-las abertamente de que a aplicação dos dinheiros guardados e sem aplicação poderiam ser utilizados em fundos de garantia absoluta, tanto quanto ao juro como no que respeita à segurança. Se o Estado precisa de recorrer a empréstimos estrangeiros para suportar os encargos que tem de enfrentar, pagando juros que até aumentaram recentemente, dada a descida de confiança que é resultante da actuação do Executivo que temos, então bem poderia estimular os portugueses poupados para não se servirem dos “offshores”, mas deslocando-se apenas à Caixa Geral de Depósitos mais próxima e ficarem sossegados de que não se trataria de um dinheiro mal aplicado.
Se Basílio Horta, presidente do AICEP, anda a clamar que “seria mais fácil atrair investimento se a Justiça fosse melhor”, como quem diz que a imagem que Portugal transmite para o estrangeiro não ajuda a que capitais de fora se instalem em Portugal. Mas, quanto às funções que o AICEP exerce, e em relação às quais sempre fui muito exigente e não só pelo elevado custo deste departamento que possui escritórios em diversos pontos do mundo, mas sobretudo por é nestas mãos que se encontra a nossa possibilidade de exportar produtos nacionais e de atrair investimentos estrangeiros, neste aspecto há muito a dizer e haveria, por parte do primeiro-ministro, a obrigação de prestar a maior atenção a tão importante sector.
Isto é uma “descoberta” de alguém com enorme imaginação? É evidente que não. Trata-se apenas de uma atitude que não sai da cabeça dos governantes, que esses, coitados, andam preocupados com outros problemas, os das difamações, os da defesa da sua honra e, claro, com as viagens, que essas gozam-se e já ninguém as tira, mesmo se o Executivo for à sua vida!