sábado, 20 de fevereiro de 2010

AS TERMAS

Há-as de todos os tipos
Lindas e apalaçadas
As que só usam os ricos
Que aí passam temporadas

Como há as medianas
Que bolsos magros suportam
São quase sempre espartanas
Os clientes não se importam

A que eu uso é especial
Há anos que a escolhi
Para mim é uma praxe

No centro de Portugal
Amei-a logo que a vi
Tem por nome Alcafache

RICAS REFORMAS


QUE OUTROS temas poderão ser abordados numa fase de preocupação máxima no que diz respeito ao futuro, do que o que tem a ver com as reformas dos portugueses? É óbvio que, o dia-a-dia que temos de enfrentar, já dá suficiente trabalho e muito sofrimento para que nos consigamos manter na corda bamba em que somos forçados a tentar o equilíbrio. Mas ao pensarmos no que nos poderá suceder quando chegar a hora de nos retirarmos da actividade profissional que exercemos num determinado momento, esses que ainda não atingiram tal meta terão de sentir uma certa inquietação quanto ao não poderem pôr de parte o admitirem que as condições financeiras do sector que couber quanto à responsabilidade de sustentar tal obrigação possam vir a sofrer alterações substanciais.
Pois é isso. O assunto das reformas não pode, por mais alheios que andemos da análise da situação actual, encontrar-se longe dos nossos pensamentos e, aqueles que começam a vislumbrar a data em que se despedirão dos companheiros de trabalho, esses, particularmente, mais sentirão a vontade de lá chegar mas, ao mesmo tempo, andarão algo apreensivos pela dúvida quanto a ser ultrapassada a ameaça de que a crise também atingirá o sector dos que só vivem ajudados pelo valor que lhes cabe na pensão resultante das contas feitas em relação ao que descontaram ao longo da sua vida profissional.
É verdade que, bem no íntimo, manterão a tal esperança, a última a morrer, de que conseguirão escapar a essa desgraça que, a passar-se realmente, será um descalabro que não haverá política que consiga suster as consequências da demonstração de que não há dinheiro publico que chegue para liquidar as reformas dos portugueses. E é bom que essa esperança nunca morra, pelo menos para que se consigam terminar as derradeiras caminhadas pela vida com o pouco, sendo só pouco, que vier todos os meses aquecer os bolsos dos mais velhos.
Não falo agora, por demasiado debatida, na situação daqueles que, sendo as excepções mas, mesmo assim excessivos, auferem reformas verdadeiramente escandalosas e não merecidas. Não serão os que mais valem, mas tiveram a esperteza, a habilidade, sobretudo a cunha partidária, a manha de conseguir serem colocados em posições de privilégio. E, se falarmos, por exemplo, nas reformas vitalícias dos ex-políticos, que, em 2010, recebem um valor médio de 1.900 euros mensais, pelo que a despesa pública com as respectivas subvenções se fixam na casa dos 8,8 milhões, mais 5,6 por cento do que no ano passado e que, no que vem a seguir, crescerá ainda mais, então haverá muito a colocar no papel. Os ex-deputados, por exemplo, fazem parte dos beneficiários que têm garantida a pensão enquanto forem vivos.
Agora, a possibilidade que dá a lei de os portugueses poderem recorrer à reforma antecipada, isto é, antes de atingirem os 65 anos, mesmo sofrendo alguma penalização por esse motivo – desde que não tenha a ver com a saúde ou com acidente laboral -, essa antecipação provoca custos de vária ordem, tanto no capítulo financeiro como no social. Por um lado, se a saída do mercado de trabalho no período estabelecido não deixa margem para que outros, mais novos, possam preencher os seus lugares, pois que é sabido que as empresas privadas se esforçam para não substituir trabalhadores saídos por outros novos, no que resulta que o desemprego continue a constituir a aflição que tanto está a pesar no campo social do nosso País, por outro lado, uma diminuição nas receitas da segurança social, pois os descontos que deixam de ser feitos proporciona o não ir arrecadando verbas para fazerem face, durante o maior tempo que for possível, às pensões dos que se mantém já no descanso da reforma, essa situação também é da maior gravidade.
Trata-se, portanto, de um problema que os governos têm nas mãos. Ou o prolongarem o período de trabalho e não ser aos 65 anos, mas mais tarde, que os trabalhadores passam a ter acesso a esse regalia, o que representa a não possibilidade de abrir portas aos que se encontram no desemprego e são muitíssimos, ou, actuando de forma exactamente contrária e atender, acima de tudo, à redução de gente sem encontrar forma de ocupação profissional, fomentando a corrida à reforma e deixando para depois, para os futuros governantes, o problema de conseguir dinheiro para fazer frente ao pagamento das reformas.
Há quem saiba responder a este dilema? Não vale a pena preocuparmo-nos hoje com o que pode muito bem vir a passar-se no horizonte que anda por aí a rondar-nos?
Não. Essa do copo meio cheio e meio vazio é uma forma de dizer coisas sem querer dizer nada. Para isso mais vale não haver sequer copo. E será que o tal copo, que é de vidro, até mesmo de cristal se vai manter inteiro, não se quebrando entretanto?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

AS QUINAS

Em certa manhã de nevoeiro
Vai despertar aqui no País
A esperança de ser feliz
Trazida por um alvissareiro?
II
Em Terra de tantos pacientes
Ainda há fé em epopeias
Pois o sangue que corre nas veias
Vem de outrora, de antigas gentes
III
Por mais que se julgue adormecida
A ânsia do Mostrengo matar
Grande coragem não vai faltar
Sempre se vai dar a acometida
IV
Tanta apagada e vil tristeza
Que é apanágio do Português
Não quererá que um dias, talvez
Ponha à mostra a sua sageza
V
Para os últimos deixarem de ser
P’ra entrarem no comboio perdido
Há que soltar o ar abatido
E sem demora correr, correr
VI
Olhemos aqui para os vizinhos
Esses, doutros tempos, Castelhanos
E honremos os velhos Lusitanos
Seguindo então novos caminhos
VII
Por mais que estejam adormecidos
Mesmo que pouco e mal se lute
Não se há-de perder o azimute
No fim não sairemos vencidos

O CÁOS COMPLETO



EXISTEM, de facto, razões de sobra para que os portugueses, aqueles que procuram acompanhar a evolução, positiva ou negativa, do seu País, obviamente mais nas áreas da política, a que se liga o sector económico, financeiro, social e outros, se encontrem cada vez mais confusos quanto até às suas preferências no que diz respeito a escolher quem se encontrará em melhores condições para procurar salvar Portugal da derrocada em que se encontra e que, à primeira vista, não se encontra muito à mostra ao ponto de transmitir confiança suficiente à maioria dos lusitanos.
Fixando a atenção no Partido Socialista, por mais que se recordem, os que têm idade para isso, do período em que ocorreu a manifestação da Alameda e em que os socialistas de Mário Soares foram decisivos para acabar com a ameaça de uma ditadura comunista que as condições que se viviam no pós-Revolução tanto favoreciam que se seguisse esse caminho, os tempos agora são outros e, com excepção da Almeida Santos que interferiu nessa histórica actuação socialista e de poucos que ainda se encontram no largo do Rato, todo o resto não tem nada a ver com o espírito de tal época… e muito menos José Sócrates. Eu que, na altura da Fonte Luminosa, actuei dentro das minhas possibilidades e prestei a minha colaboração de apoio a tal busca de se instalar a Democracia no nosso País, agora não posso encontrar-me mais desassossegado face a um cenário que se apresenta cada vez mais escuro e perigoso que ameaça conduzir-nos para uma hecatombe cuja solução é muito difícil de conceber.
O Sócrates, gozando do privilégio das oposições não estarem organizadas de forma a poderem tomar a responsabilidade de assumir a governação, também no interior do seu próprio partido, por mais que tenha querido mobilizar os seus membros para fazerem frente aos ataques sucessivos, sobretudo por parte da comunicação social, quanto aos vários casos em que se vê envolvido e sem acusação formalizada, como sejam a Freeport e a Face Oculta, com isso o que deu foi criar a ocasião para que surgissem alguns sinais pouco claros de divisão no interior do PS, mas, até agora, ninguém se mostrou com capacidade para afirmar, alto e bom som, que há condições para substituir o actual secretário-geral por outro socialista que possa exercer o lugar de primeiro-ministro, e isso sem necessidade de eleições. Estas, também, numa altura tão periclitante para conseguirmos ultrapassar as dificuldades que atravessamos, a terem lugar fora do período estabelecido com normalidade, só constituiria um problema ainda maior do que já temos em mãos. No caso do Presidente da República, no exercício do seu poder, demitir o Governo, esta atitude, para além das razões apontadas, na sua situação concreta não seria o mais conveniente, pois que a luta que terá de desenvolver para renovar o seu mandato em Belém não lhe proporcionaria um benefício visível para a conquista de votos.
Isto quer dizer, em resumo, que José Sócrates que, por sua livre vontade, não dá sinais de demitir-se das funções que ocupa, está o que se chama “de pedra e cal”. Nem tenho muito a certeza de que, se o PSD conseguir eleger um comandante que implante a união dentro das suas hostes, ficará em condições para convencer o eleitorado a dar-lhe uma maioria parlamentar.
Quem, no meio disto tudo, anda a espreitar a sua oportunidade é o Paulo Portas. Ele, que já foi ministro até de uma pasta que seria a última a atribuir-lhe (e que deixou a marca dos submarinos adquiridos, tema que ainda irá dar muito que falar, sobretudo se chegar a ocupar de novo um posto governamental), com o gosto que se lhe conhece de subir a um poleiro que lhe encha o ego, não espanta nada que não recuse fazer uma perninha do seu PP com o PS, se esta for uma saída que convenha aos dois grupos partidários.
Mais barafunda do que esta em que estamos metidos é quase impossível de atingir. E o triste também é que a nossa vizinha Espanha, não tendo conseguido ultrapassar a sua própria crise, com um desemprego nesta altura que já alcançou níveis altíssimos, não nos deixe grandes margens de esperança para uma ajuda que bem útil seria vinda daquele lado.
É, realmente, o que se chama um cáos geral!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

EMIGRANTES PORTUGUESES

Portugueses emigrantes
que partistes à deriva
estais melhor do que antes
daí a alternativa

Sem saber falar a língua
do país que te acolheu
foi mesmo sair à míngua
de quem por aí se benzeu

Chegados p’ra trabalhar
onde seja e o que seja
é preciso começar
por vezes dura peleja

Mas o espírito de luta
grande ânsia de viver
faz com que qualquer labuta
seja aceite p’ra vencer

Sacrifício, economias
e força p’ra trabalhar
sem tempo para folias
e nunca desanimar

Submissos mas contentes
respeitadores do à volta
são aceites pelas gentes
nunca expressam revolta

Trabalham mais do que todos
produzem com ambição
juntam dinheiro a rodos
p’ra regressar à Nação

Se voltam nunca se sabe
pois filhos nascem lá fora
e a decisão só cabe
no tempo exacto e na hora

Seja como for então
a pergunta sempre fica
não sendo seres de ficção
que mistério os modifica?

Porquê os que cá estão
como os outros portugueses
só sabem dizer que não
e ao trabalho poucas vezes?

Se dentro das nossas portas
fôssemos como os de fora
não havia horas mortas
nem havia que ir embora

Portugal outro seria
competindo com maiores
grande inveja causaria
sem precisar de favores

Só que quando os emigrantes
ao solo pátrio regressam
ficam logo como antes
e na moleza tropeçam

Será pois do nosso solo
ou do Sol que alumia
que não se encontra consolo
e se perde a energia?

Se não há superstições
e a verdade outra será
é porque lá fora os patrões
não são iguais aos de cá?

Que responda quem souber
e pertença aos temerosos
com sindicatos teimosos
a lutar é de temer

Fica cada um na sua
a cura é bem remota
a mudança não se nota
e o mal não se atenua

Leis do trabalho estão
fora da realidade
e sendo esta a verdade
não se verá solução

PORTUGUESES FORA DE PORTAS


NÃO É nenhuma novidade da minha parte. Já aqui me referi ao êxito que têm os nossos emigrantes e isso não é só de hoje mas sempre sucedeu ao longo da história das vivências de portugueses em terras estrangeiras. São tão raros os casos de insucessos que, de uma forma geral, não são conhecidas situações de desventura dos que são forçados ou optam pela vida fora das nossas fronteiras, sendo as mais antigas as que ocorriam no Brasil, desde a época da sua descoberta, e em que, mesmo com as anedotas que eram divulgadas dos “portugas” que ali se instalavam e deram mostras de grande vontade de trabalhar e de sucessos empresariais, apesar disso ou talvez por via disso serviram de exemplo ao próprios “brasucas”, que não demonstravam tanta apetência pela labuta diária.
E, pelo mundo fora, fosse e seja o destino que os acolheu e acolhe, há que reconhecer que os bons resultados constituem uma demonstração de que os portugueses, fora das suas fronteiras, são exemplares pela sua dedicação ao trabalho e ao bom comportamento como cidadãos.
E se isso se deu sempre em relação aos emigrantes lusitanos de todas as classes, na época actual temos exemplos bem nítidos de figuras que, por cá, nas suas actuações destacadas, nem por isso deram mostras de excepcional capacidade e, deixadas essas funções, ao ocuparem posições salientes no estrangeiro têm-se distinguido ao nível internacional. E, se queremos apontar dois casos paradigmáticos, não precisamos de ir mais longe, fixando a nossa atenção nas duas figuras que são bem conhecidas lá fora, em Durão Barroso e António Guterres, um mais do que o outro mas ambos com actuações merecedoras de louvor e com um sucesso indesmentível. No entanto, tendo sido os dois primeiros-ministros em Portugal, nessas funções não deixaram nada de notável e os seus sucessores até se queixaram publicamente de heranças políticas merecedoras de críticas. Já sabemos que Vítor Constâncio foi admitido como vice-governador do Banco Europeu, lugar que ocupará em Junho próximo e essa importante função lá fora poderá constituir a demonstração de competência de mais um português que dará mostras de que, passadas as nossas fronteiras, profissionalmente servimos de exemplo, como sucede a tantos outros, com as mais diversas ocupações.
Tudo isto para levantar a questão de, mesmo tratando-se de uma interrogação com certa dose de ironia, se os portugueses se deslocassem em bloco para outra zona diferente deste na Península Ibérica, não nasceria um país perfeito, com um povo impecável, trabalhador, cumpridor das regras, disposto a exercer as suas tarefas em bloco e com o intuito único de construir o seu futuro pleno de sucessos. E, obviamente, daí surgiriam os políticos, também eles portugueses, que, então sim, seriam profissionais que não seriam merecedores das críticas que, para cá das fronteiras, lhes são feitas e com toda a razão. Que grande sonho!...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A FORÇA

Esta força que temos e desconhecemos
e que está muito bem escondida
pelo que não sabemos
que a temos em vida

E é melhor assim, não haver consciência
para não a usar mal
e sempre haver clemência
num momento fulcral

A força das palavras é melhor
do que a força dos braços
é a razão que impera onde for
preferem ser usados em abraços

Se a força que podemos ter
for mal utilizada
será ocasião para aprender
que a vida é um quase nada

A força de vontade essa sim
é bem útil ao ser humano
ajuda a chegar até ao fim
sem nunca sofrer grande dano

A força
Não reforça
Mesmo que torça

PAÍS DE VELHOS


ESTÁ DITO E REDITO que Portugal é, cada vez mais, um País de velhos. Nem é preciso irmos propositadamente a uma terra do interior, a uma pequena aldeia seja onde for por esses campos fora, onde a juventude praticamente não existe, pois se nos sentarmos algum tempo numa rua de Lisboa ou do Porto ou mesmo de alguma das nossas cidades maiores a assistirmos ao movimento, para descobrirmos que o número maior de pessoas que passam é constituído por gente que deixou, há bastante tempo, de fazer parte dos homens de amanhã.
Dizem as estatísticas que o número de portugueses de idade é três vezes maior ao de novos. E isso quer dizer, entre outras coisas, que o futuro do nosso País está seriamente comprometido e que só contando com as crianças que nasçam entretanto, filhos de imigrantes, pessoas de outras origens e sem tradição lusitana, só concedendo a nossa nacionalidade a essas crianças de cores diferentes das nossas e de línguas e costumes paternos que não se assemelham aos que assumimos, apenas dessa forma será possível solucionar o escasso nascimento dos chamados portugueses de gema, o que, valha a verdade, até será possível que altere e melhore bastante a qualidade daquilo que somos hoje.
Como historicamente é sabido, aquilo que se pode chamar de características específicas dos portugueses surgiu de uma mistura de diferentes povos que, nos longínquos antanhos, resolveram vir instalar-se nesta Península e que, com as suas misturas em que interferiram os muçulmanos nos primeiros séculos da nossa era até à altura da sua expulsão, para além de franceses que, na sua invasão na zona das Beiras deixaram alguma marca, não esquecendo o que, no tempo de Afonso Henriques, surgiu da comunhão galaico-lusitana que, ainda hoje, constitui uma marca específica, este modelo situado nesta Península que, verdade seja dita, deveria ter grande satisfação (não gosto de usar a expressão orgulho) em ser bem diferente de todos os outros da Europa, nesta altura da vida e face às vagas de imigrantes que se instalam nesta ponta deveria cuidar de aumentar o rejuvenescimento das suas hostes, de forma a que não se confrontasse, daqui a poucos anos, perante a realidade de ver perdidas as ligações às suas origens.
Digo acima e reflicto sobre as consequências. Na verdade, perante os caminhos que têm sido seguidos no nosso País pelos maiores responsáveis da conduta nacional, face ao comportamento pouco recomendável, pelo menos dentro de portas, dos cidadãos portugueses, ninguém pode garantir que a introdução de sangue exterior no vaso que tem sido usado por cá não constitua uma melhoria que leve a que muito se altere no que diz respeito a levantarmos esta Pátria, com um passado histórico que muito nos honra, ao nível que nos deveria caber.
É mais uma esperança das muitas que acalentamos. E mais uma menos uma, não e por aí que se perde ou ganha alguma coisa. Toda a vida foi aí que constituiu a resistência que, a muito custo, conseguiu fazer com que tivéssemos chegado até aqui. Mal, mas vivos!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

FUTURO

Neste País onde estamos
onde nascemos, vivemos
ainda nos conservamos
temos aquilo que temos

E é pouco, coisa pouca
e cada dia é menos
a caixa vai estando oca
à fartura só acenos

Mas que podemos fazer
que nos resta nesta hora
em que é enorme o muro?

Já nem se pode crer
não serve ir para fora
não me apetece o futuro




CARNAVAL PORTUGUÊS



AINDA NÃO ENTENDI o motivo por que recebo seguidamente mails com denúncias sobre situações que ocorrem neste nosso País e que dão bem mostras do assalto a que está sujeito todo um povo que não tem forma de colocar tudo nos eixos, pois que as revoluções que tiveram lugar em Portugal sempre foram bastante desajeitadas e se o antes estava mal, o que veio a seguir nem por isso foi bem aproveitado.
Mas, vamos ao assunto que me ocupa hoje. E apenas reproduzo aquilo que me apareceu no écran do computador.
Trata-se de mais uma situação revoltante e sobre a qual não vão existir esperanças de que alguma chamada autoridade nacional se dê ao incómodo de reagir, não sei mesmo se o conseguiria se quisesse ou se, por razões de cooperativismo profissional e de conveniência para que não lhe chegue também a vez de assistir ao seu caso também denunciado, faz ar de distraído e cala a boca bem caladinha. Preparem-se então para o tema:
Um senhor que me dizem chamar-se Jorge Viegas Vasconcelos, que foi presidente de uma coisa chamada ERSE, por extenso Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos e que, segundo parece, é um organismos que ninguém conhece e muito menos para o que serve, esse senhor pediu a demissão do cargo que exercia porque, afirma-se, não concordou com os aumentos do preço da electricidade que o próprio considerou serem insuficientes.
Pois bem, ao ir para casa em virtude da sua decisão de terminar com as funções que exercia, de acordo com o estabelecido na própria empresa referida, partiu com um pagamento mensal e durante dois anos de 12 mil euros, isso até encontrar outro emprego.
Consta que alguém procurou saber no Ministério da Economia, de que depende a dita ERSE, que legalidade havia nesta atribuição de um vencimento a alguém que se despede por livre vontade e a resposta parece ter sido de que se trata de um acordo no interior da dita empresa e que os seus administradores têm o estatuto de gestores públicos, os quais criaram um esquema vantajoso para eles próprios, não podendo ser alterado por qualquer determinação oficial.
Mas a notícia que está a gora ser divulgada e que chegou ao meu computador acrescenta que o demissionário senhor Vasconcelos vencia mensalmente 18 mil euros mensais, mais ajudas de custo e dentro do tempo legal de 14 meses. E ainda acrescenta a referida informação sobre a actividade da referida ERSE, esclarecendo que consiste em “fazer cumprir as disposições legislativas para o sector energético”.
Compreende-se então a “utilidade” daquele organismo. É que afinal não é o Governo, os tribunais, até a polícia que fazem cumprir as leis. Esta entidade reguladora, que foi inventada nitidamente só para ajudar uns amigos, tem actividade para tentar a conciliação entre as partes envolvidas, o consumidor e o prestador de serviços eléctricos. E é tudo. E, tal como ela, tantos outros organismos existem e gastam dinheirões ao Estado apenas para servirem os interesses de grupos.
Ainda querem que seja feita uma lista das economias nas despesas estrondosas que causam o descontrolo das contas públicas? Que andam a fazer os ministros, já que, no que se refere a Sócrates, esse só sabe colocar primeiras pedras e fazer discursos revoltantes!...
Então não é um Carnaval permanente que se vive no nosso País? Nada se pode levar a sério, pois só à gargalhada é que se têm de enfrentar as situações que um grande número de sortudos (para lhes chamar só assim) mostra nos sambódromos cá da nossa terra. É rir, é rir, para ver se se atrasa o choro…

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

CONFIANÇA

Ter confiança
em toda a gente
com esperança
ir para a frente,
avante, avante
há que vencer
ser-se gigante
é só querer
basta lutar
e a cara dar
aguentar
sem desarmar
faz falta fé
na tal vitória
com finca-pé
lá se faz história.
Bater, bater
no mesmo ponto
até vencer
sem ficar tonto
mas confiança
perdê-la não
desde criança
com devoção
porque ganhar
é sempre o lema
e avançar
soa a poema.
Bater, bater
grito de guerra
e a combater
é nossa a Terra.

Quem lança tal
grito histérico
não tem igual
é bem esférico
mas o que tem
é vozeirão
convence bem
qualquer pavão
mesmo medroso
sob a plumagem
mas desejoso
de molduragem
mas no seu caso
por incapaz
dá sempre azo
a Frei Tomás
faz o que eu digo
não o que faço
no meu abrigo
só ameaço
não custa tanto
estimular
lançar o canto
do atacar
desde que o perigo
não bata à porta
porque comigo
a coisa é torta.

Ter confiança
em todo o mundo
só esperança
que lá no fundo
fique quieta
sossegadinha
por ser só treta
que desalinha
esta cabeça
que bem sossega
por mais que peça
pois não se entrega
a outro afazer
por mais confuso
pois tal querer
é quase abuso

Mas p’ra viver
assim de lado
até morrer
bem estafado
sem ter cumprido
um lema certo
nem ter perdido
rumo de perto
há que deixar
dogmas cair
e caminhar
já sem sentir
censuras vagas
que fazem rir
por serem gagas
e não parar
mesmo no erro
até entrar
no seu enterro.

Que a vida é isso
tempo a passar
não há feitiço
é só esperar
qu’algo aconteça
sem s’ímportar
sem ter pressa
se vê depois
que a tal vida
só ou a dois
terá saída
deixa saudades
aos que cá ficam
poucas vontades
até debicam
algo que resta
que vai ficando
já pouco presta
p’ra todo o bando

Cá fica o mundo
entregue aos bichos
já tão imundo
pleno de lixos
e tal confiança
diz o poeta
nem por herança
nem como treta
se vai manter.
Vitória fica
noutro viver
em chafarica
que então houver
s’é que haverá
onde viver
já sem maná.
Avante, pois,
mas para onde
se o depois
já não responde.
É pôr de parte
entusiasmo
pois quem reparte
o seu orgasmo
mas já não goza
sequer fecunda
tem fraca prosa
que bem se afunda
se não houver
mudança tal
que deixe ter
um mundo igual
ao que há hoje
qu’está perdido
que bate e foge
solta um gemido.

Não vale a pena
fingir que sim
que é outra cena
nada é ruim
deixa-te estar
lá no teu canto
porque o gritar
não te faz santo.
Todo alarido
que aqui se faz
não tem sentido
não é capaz
de dar a volta
de despertar
quem anda à solta
sem acordar
para a verdade
p’ra não andar
pela cidade
sem rumo certo
sem qualquer norte
longe ou perto
da sua sorte.
Porque afinal
ter confiança
no bem, no mal
com esperança
sonho perdido
desperdiçado
não conseguido
o desejado.

Avante, pois
p’ra quê, senhores
se então depois
perdem-se amores.
Fica quieto
no teu cantinho
no teu espeto
sossegadinho
dizer que sim
dizer que não
é sempre fim de uma ilusão.

MINISTÉRIO ANUNCIA


NÃO É DE AGORA que, quando um membro do Governo amua com um órgão de informação, sobretudo a escrita, aquilo que faz de seguida é dar ordens aos serviços respectivos para cortar a publicidade que conste do orçamento do seu pelouro, como forma de castigar aquele meio da falta de namoro por parte do jornal ou revista em causa. Aconteceu agora, no que respeita ao semanário “Sol”, por razões bem conhecidas de todos nós que seguimos as notícias ainda bem frescas, como ocorreu no tempo em que Manuel Pinho, o dos “cornos”, era ministro da Economia e retirou a publicidade à TVI – veio agora a público -, especialmente aquela referente ao sector do turismo, em 2009, organismo presidido por Luís Patrão, ex-chefe de gabinete de José Sócrates, cujos montantes ascendiam a cerca de 150 mil euros, tendo beneficiado do desvio a RTP e a SIC. Porém, acrescento eu agora, no tempo em que Basílio Horta foi ministro da Economia (e é quase sempre este o sector que comanda a distribuição da publicidade pelos meios de informação), dado a uma campanha que o semanário que eu dirigi durante dez anos, “o País”, ter mantido uma campanha contra a inexplicável – e nunca isso ficou esclarecido – falta de bacalhau no nosso País, quando em Espanha o mesmo produto, que ali não é tão usado como cá, era até colocado pendurado nas árvores das estradas que ligavam Portugal à Galiza, a Badajoz e na fronteira do Algarve, pois de cá faziam-se excursões para ir adquirir no outro lado o que tinha desaparecido misteriosamente do mercado. E como havia rumores que se tratava de uma atitude nunca aclarada por parte de Basílio Horta, tendo aparecido o fiel amigo à venda, com fartura, depois da campanha do referido semanário, o custo de tal posição foi o de o Ministério ter desviado muitas centenas de contos de publicidade para outros órgãos que não levaram a peito a estranha ausência de bacalhau. Haverá quem se lembre.
Isto tudo quer dizer o quê? Que os homens que ocupam lugares de comando nos governos, sejam eles de que partido forem, quando se querem vingar de alguém ou de alguma coisa não olham a meios e esquecem as suas obrigações públicas, as éticas, os valores que obrigam que quem está ao serviço do Estado é forçado a pôr de lado questões pessoais e ter em vista somente, exclusivamente, aquilo que melhor convém ao País e à sua população.
Isso de explicar os problemas e de pedir até desculpa por ter sido cometido algum erro, é atitude que os governantes têm dificuldade em assumir. Pode ser que tirando unas e pondo lá outros as coisas mudem. Pode ser. Mas, até isso suceder, como tanto se deseja nesta altura, as dúvidas têm de persistir. Já nem é preciso um bom… basta um menos mau!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

OUVE BEM

Ouve bem, por favor, o que te digo
Não tapes os ouvidos quando falo
Talvez não seja sempre um livro aberto
Mas, por certo,
Não é só quando calo
Que podes aparecer ao postigo

As coisas que eu tenho p’ra dizer
Julgo eu, não são despiciendas
Algo terão de importância
São a ânsia
De fazer com que entendas
Até onde vai o meu querer

Mas se convencer-te eu não consigo
Se não é bastante o meu esforço
Fico-me por aqui e não avanço
Não alcanço
Também se não atinjo não me torso
Só pode ouvir-me quem é meu amigo

ESCUTAS... DIVULGUEM-NAS!


ESTÁ POR DEMAIS falado e escrito o tema das escutas em que José Sócrates tem vindo a sair, cada vez mais, muito mal nas diversas “fotografias” em cada intervenção do próprio ou de qualquer dos seus apaniguados em que a sua imagem se afunda sem aparente solução. Eu, por mim, como não tive acesso aos tais telefonemas que, segundo dizem, se verifica uma perigosa situação em que a Democracia é bastante abalada – mas, até agora, ainda não foi possível tornar conhecidas essas escutas, pelo que o segredo que tem sido mantido tem contribuído largamente para piorar, digo eu, o verdadeiro conteúdo das conversas -, dado que a minha posição é semelhante, penso eu, à de todas as outras que têm vindo a ser divulgadas, tenho-me reservado a exprimir uma atitude radical, o que não quer dizer que não alimente também as minhas suspeitas, reservando por ora para mim a opinião final que poderá surgir na altura em que se passe a conhecer concretamente tudo aquilo que se disse nos tais telefonemas.
Bem, no entanto aquilo que se pode exprimir é que o que tem sido classificado como tentativa de “censura” à comunicação social, se não se verificou, de facto, andou por lá perto, e tudo indica ter sido produzida, não por via directa do sector oficial, mas com a intervenção da área financeira e através de empresas que, essas sim, ou dependem, total ou parcialmente, do dinheiros públicos, ou estão muito sujeitas à boa vontade dos poderes dependentes do Governo. Não é, portanto, a mesma coisa, mas o resultado é muito parecido.
Quer dizer, pelo que já foi divulgado e provocou a venda maciça de alguns títulos que até se encontravam em má situação financeira, o que, por isso, muito gratos ficaram aos erros praticados pelo grupo de Sócrates – que também aqui tem dado largas provas de inaptidão para gerir os seus próprios interesses -, todas as acções que tinham como objectivo calar a TVI, nem que fosse pela sua compra através da PT que, como é sabido, se trata de uma empresa próspera que se encontra muito dependente do Estado, as manobras que levaram José Eduardo Moniz a deixar aquela televisão e se ter transferido para uma outra organização da mesma área mas ainda com canal por abrir, o que lhe valeu, segundo apareceu a notícia, um lucro de alguns milhões de euros (ao menos isso), toda essa manobra, a pretensão de afastar Mário Crespo e o mais que ainda faltará divulgar constitui o enredo do folhetim que tem ocupado os noticiários e cujo final poderá constituir um drama pesado para alguém, para não dizer para o nosso próprio País. E isso se acabar, por exemplo, por resultar numas eleições antecipadas, perante o descalabro em que nos encontramos, se se chegar à também à saída forçada, ainda voluntária que seja do actual primeiro-ministro que, não podemos escondê-lo, está a representar um empecilho à necessária e urgente solução dos nossos autênticos problemas e que dizem respeito ao agravamento constante da crise que e não tem ninguém no Governo com cabeça fria capaz de encontrar soluções (é uma frase demasiado comprida, mas também este romance está-se a prolongar excessivamente), perante isso, a saída de Sócrates parece não representar um saneamento absoluto dos problemas actuais.
O que tem de custar a admitir, sejam quais forem as razões, aliás contradizentes por parte de especialistas na área do Direito, é que, para pôr ponto final na série de informações que aparecem constantemente a pretender relatar o conteúdo das tais conversas telefónicas entre diversos elementos relacionados com o primeiro-ministro, é que não sejam passadas para o conhecimento público, com absoluta limpidez, o que foi que se disse que tanto alvoroço tem provocado. Se José Sócrates não se sente atingido pelo que for divulgado, então que seja ele próprio a fazer essa declaração, para que os juízes, que parecem estar a querer protegê-lo, não fiquem limitados a um receio de se mostrarem contrários ao Governo. Urge acabar com o que parece ser para que não se exager em demasia o que a imaginação produz.
Se isso não for feito, então não se queixem os que estão a ser acusados nas ruas, uns pelo que fizeram ou não e outros por aquilo que tudo indica que tentaram encobrir.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

AS SAUDADES

As saudades que levo quando parto
E deixo para trás tudo o que gosto
Dizer adeus à vida mesmo que farto
É tristeza que lembra um sol posto

E logo que partem as andorinhas
Vinda a hora de mais outras viagens
Deixam-nos saudades as pobrezinhas
Cujos destinos são outras paragens

Saudades temos nós de quem morreu
E deixou na nossa alma um vazio
Ficando só à vista escuro véu

Aquilo que passou de ser verdade
A imagem de quem se foi, partiu
Porque o que nos resta é a saudade

DURÃO BARROSO CONTINUA


BARROSO conseguiu a reeleição para presidente da comissão europeia, como também viu a sua nova comissão obter um largo apoio do Parlamento, apesar de algumas críticas e exigências que, nestes casos são até naturais e desejáveis. Quer dizer, Durão Barroso obteve na Europa aquilo que lhe faltou quando exerceu as funções de primeiro-ministro em Portugal. Tal como os nossos emigrantes, distinguiu-se pela sua actuação acertada no estrangeiro, quando aqui, na sua Terra, não deixou saudades e foi mesmo o princípio da continuidade que veio depois e se mantém ainda hoje de governações sucessivas que têm conduzido o País à situação que hoje atravessa. Com a crise tornou-se tudo mais difícil, é verdade, mas mesmo sem ela não estaríamos a gozar de uma vida desafogada, também não é mentira.
Mas, nas suas funções que desempenha no grupo concreto do Continente Europeu, há que dizer que perdeu, nos últimos momentos, alguma capacidade de liderança, tendo utilizado certas manobras de equilíbrio para conseguir ir mantendo alguma aceitação por parte de todos os membros da Comunidade. Por isso se espera que, nesta reeleição, venha agora com maior espírito empreendedor e consiga provocar uma maior união entre todos os membros de um conjunto que só se compreende a sua existência se se verificar uma união de interesses e uma força que possa fazer frente às contrariedades que estão bem presentes nesta altura.
A legitimidade democrática de que goza novamente o português Barroso não lhe dá margem para desculpas, se não conseguir dirigir uma orquestra que não pode desafinar. Todos os seus membros, cada um com o instrumento que lhe cabe, têm que encontrar a harmonia para que não sejam dadas fífias.
Nós por cá apenas podemos desejar que o nome de Durão Barroso fique registado pelo seu bom trabalho e que o período que vai ocorrer durante esta nova eleição deixe o nome de Portugal, ao menos aí, sobressaído do panorama europeu. E a ambição nacional é também a de que os nossos deputados em Bruxelas dêem mostras de ser capazes de não fazer má figura. Pelo menos, que não se repitam as queixinhas que fez recentemente o representante do PSD e também agora candidato às eleições para presidente desse grupo partidário, pois não é no Parlamento Europeu que se têm de debater os problemas internos do nosso País e quem não tem o bom senso necessário para entender esse princípio básico, então que regresse a casa… e se explique.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A VELHINHA

Velha, velhinha, à minha porta dorme
Envolta em trapos, num volume enorme
Guarda em seus sacos relíquias, saudades
Lembranças boas, também de maldades

Já viveu melhor, talvez confortável
A vida traiu-a, não foi afável
Teve a sua casa, mesmo que alugada
Perdeu o que tinha, ficou sem nada

Agora a pobre anda pelas escadas
De dia, os jardins são o seu conforto
Depara às vezes com portas fechadas

Um saco, porém, não perde de vista
São cartas, senhores, pequenos nadas
D’alguém que deixou p’ra trás uma pista

ASSESSORES À FARTA!



FRANCAMENTE, nem sei já por que é que dou comigo a incomodar-me com certas notícias que surgem na comunicação social, sobretudo referentes ao nosso País, pois o habitual é que as asneiras se sucedam e que as que são originárias dos nossos governantes, dada a sua frequência, já nem nos deverem causar surpresa.
A que nos agrediu nesta altura foi a das nomeações efectuadas no segundo Governo de José Sócrates que, em grandes títulos nos jornais, se dizem superarem as que foram feitas por Santana Lopes e por Durão Barroso. E a lista é bem clara, pois que, nos cinco meses que durou a coligação PSD/PP foram colocadas mais de 1250 pessoas, das quais 940 para gabinetes ministeriais e no período de dois meses e meio em que Pedro Santana Lopes exerceu funções de líder do Executivo, em termos globais colocaram-se mais de 1.000 funcionários, sendo que 946 para servirem os ministros. Se, no tempo de António Guterres que foi primeiro-ministro entre Outubro de 1995 e Junho de 1999, o número total de empregos criados no funcionalismo público atingiu os 5.597 indivíduos, dos quais, só para quadros dirigentes, o número subiu a 3.465, pois não é que, em pouco mais de três meses, José Sócrates não perdeu tempo e para os respectivos ministérios permitiu a entrada de 997 pessoas?
Ora, haverá alguém neste Portugal que não se sinta seriamente preocupado por estes números, num período que, não tendo começado agora, já há muito tempo que deveria ter criado um espírito de precaução governativa para evitar que o futuro, como se verifica hoje, se apresentasse com extremas dificuldades para sairmos do atoleiro em que o País se encontra?
Por estes números se pode concluir que os governantes maiores, quando se sentam nos seus cadeirões, apenas dedicam atenção ao que ocorre na altura das suas governações, deixando para os futuros substitutos das suas funções a solução dos problemas que cada um deixa. O que importa é que, em cada momento, a imagem não seja degradada e que as populações se mostrem satisfeitas com as actuações dos que têm o encargo de governar… o que, verdade seja dita, não tem acontecido nos períodos menos antigos.
É por estes motivos que mantenho um grande desconsolo com o que nos é mostrado pelos governantes, aqueles que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo e a pensar bem antes de agir. O livro que tenho há bastante tempo para publicar e que, com o andar dos acontecimentos cada vez tem mais matéria a aumentar as suas páginas, com o título “Desencanto por Enquanto” – há, por aí, algum editor disposto a fazer o lançamento que julgo merecer? - , essa obra vai acumulando razões de queixa que, divulgadas com bonomia, poderão servir para alimentar algum futuro contador de história autênticas que esteja pronto a relatar um período da nossa vida pública.
Por enquanto, parte dos textos ficam relatados neste blogue diário e. a seu tempo, alguns passarão a aumentar o número de páginas do volume que, por ventura, vier a sair. É só aparecer editor a oferecer-se, que eu, bater à porta de senhores tão importantes, é coisa que não faço. E, sobretudo nesta altura em que as acusações saltam por todos os lados de que José Sócrates anda a perseguir a comunicação social que não o adula, e isso é uma posição que não tomo nem nunca tomei quando exerci as minhas funções jornalísticas, quem sabe se não haverá algum sector editorial que não se queira colocar na posição incómoda de dar cobertura a quem se julgue no direito de fazer críticas, como é o meu caso, se bem que sempre com a devida compostura e tentando interpretar o pensamento dos outros, pois todos cometemos erros… mas nem todos somos chefes de governos.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

REFORMA

Trabalhar toda uma vida
à espera que chegue a hora
de terminar a corrida
de se dar o bota-fora
do trabalho já se vê
isso sem ser despedido
e s’o sossego antevê
se não está iludido
a reforma é mesmo isso
ficar na cama até tarde
não ter nenhum compromisso
fazer da preguiça alarde

Mas tudo na vida finda
e com o tempo até farta
sendo ao princípio bem-vinda
chega a não pôr mais na carta
a pensar-se no trabalho
no tempo da confusão
e até de algum zangalho
que fez parte da função
e se tempo não se ocupa
com algo que encha o ego
pois o que mais preocupa
é não ter desassossego

Que quer afinal o homem
esse ser insatisfeito
que não gosta que o domem
e em tudo põe defeito?
Se trabalha, reclama
se descansa, se aborrece
fica farto do pijama
pôr gravata lh’apetece
e agora que o tempo sobra
já usa mais o dinheiro
reclama a quem lhe cobra
e até se sente solteiro

Quando s’entra na reforma
pois chega a terceira idade
por um lado se conforma
e por outro não lhe agrade
o passar a ser um velho
que só recebe e não paga
pouco se vê ao espelho
e recordações apaga
dos jovens tem certa inveja
mas também deles tem pena
é-lhes dada de bandeja
crise que não é pequena



REFORMAS AMIGAS


QUE OUTROS temas poderão ser abordados numa fase de preocupação máxima no que diz respeito ao futuro, do que o que tem a ver com as reformas dos portugueses? É óbvio que, o dia-a-dia que temos de enfrentar, já dá suficiente trabalho e muito sofrimento para que nos consigamos manter na corda bamba em que somos forçados a tentar o equilíbrio. Mas ao pensarmos no que nos poderá suceder quando chegar a hora de nos retirarmos da actividade profissional que exercemos num determinado momento, esses que ainda não atingiram tal meta terão de sentir uma certa inquietação quanto ao não poderem pôr de parte o admitirem que as condições financeiras do sector que couber quanto à responsabilidade de sustentar tal obrigação possam vir a sofrer alterações substanciais.
Pois é isso. O assunto das reformas não pode, por mais alheios que andemos da análise da situação actual, encontrar-se longe dos nossos pensamentos e, aqueles que começam a vislumbrar a data em que se despedirão dos companheiros de trabalho, esses, particularmente, mais sentirão a vontade de lá chegar mas, ao mesmo tempo, andarão algo apreensivos pela dúvida quanto a ser ultrapassada a ameaça de que a crise também atingirá o sector dos que só vivem ajudados pelo valor que lhes cabe na pensão resultante das contas feitas em relação ao que descontaram ao longo da sua vida profissional.
É verdade que, bem no íntimo, manterão a tal esperança, a última a morrer, de que conseguirão escapar a essa desgraça que, a passar-se realmente, será um descalabro que não haverá política que consiga suster as consequências da demonstração de que não há dinheiro publico que chegue para liquidar as reformas dos portugueses. E é bom que essa esperança nunca morra, pelo menos para que se consigam terminar as derradeiras caminhadas pela vida com o pouco, sendo só pouco, que vier todos os meses aquecer os bolsos dos mais velhos.
Não falo agora, por demasiado debatido, na situação daqueles que, sendo as excepções mas, mesmo assim demasiados, auferem reformas verdadeiramente escandalosas e não merecidas. Não serão os que mais valem, mas tiveram a esperteza, a habilidade, a manha de conseguir serem colocados em posições de privilégio. E, se falarmos, por exemplo, nas reformas vitalícias dos ex-políticos, que, em 2010, recebem um valor médio de 1.900 euros mensais, pelo que a despesa pública
com as respectivas subvenções se fixam na casa dos 8,8 milhões, mais 5,6 por cento do que no ano passado e que, no que vem a seguir, crescerá ainda mais. Os ex-deputados, por exemplo, fazem parte dos beneficiários que têm garantida a pensão enquanto forem vivos.
Agora, a possibilidade que dá a lei de os portugueses poderem recorrer à reforma antecipada, isto é, antes de atingirem os 65 anos, mesmo sofrendo alguma penalização por esse motivo – desde que não tenha a ver com a saúde ou com acidente laboral -, essa antecipação provoca custos de vária ordem, tanto no capítulo financeiro como no social. Por um lado, se a não saída total do mercado de trabalho no período estabelecido não deixa margem para que outros, mais novos, possam preencher os seus lugares, dando ocasião a que o desemprego continue a constituir outra aflição que tanto está a pesar no campo social do nosso País, representa, por outro lado, uma não diminuição nas receitas da segurança social, pois os descontos que continuam a produzir proporciona o ir arrecadando verbas para fazerem face, durante o maior tempo que for possível, às pensões dos que se mantém já no descanso da reforma.
Trata-se, portanto, de um problema que os governos têm nas mãos. Ou o prolongarem o período de trabalho e não ser aos 65 anos, mas mais tarde, que os trabalhadores passam a ter acesso a esse regalia, o que representa a não possibilidade de abrir portas aos que se encontram no desemprego e são muitíssimos, ou, actuando de forma exactamente contrária e atender, acima de tudo, à redução de gente sem encontrar forma de ocupação profissional, fomentando a corrida à reforma e deixando para depois, para os futuros governantes, o problema de conseguir dinheiro para fazer frente às reformas.
Há quem saiba responder a este dilema? Não vale a pena preocuparmo-nos hoje com o que pode muito bem vir a passar-se no horizonte que anda por aí a rondar-nos?
Não. Essa do copo meio cheio e meio vazio é uma forma de dizer coisas sem querer dizer nada. Para isso mais vale não haver sequer copo. E será que o tal copo, que é de vidro, até mesmo de cristal se vai manter inteiro, não se quebrando entretanto?