quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

REFORMA

Trabalhar toda uma vida
à espera que chegue a hora
de terminar a corrida
de se dar o bota-fora
do trabalho já se vê
isso sem ser despedido
e s’o sossego antevê
se não está iludido
a reforma é mesmo isso
ficar na cama até tarde
não ter nenhum compromisso
fazer da preguiça alarde

Mas tudo na vida finda
e com o tempo até farta
sendo ao princípio bem-vinda
chega a não pôr mais na carta
a pensar-se no trabalho
no tempo da confusão
e até de algum zangalho
que fez parte da função
e se tempo não se ocupa
com algo que encha o ego
pois o que mais preocupa
é não ter desassossego

Que quer afinal o homem
esse ser insatisfeito
que não gosta que o domem
e em tudo põe defeito?
Se trabalha, reclama
se descansa, se aborrece
fica farto do pijama
pôr gravata lh’apetece
e agora que o tempo sobra
já usa mais o dinheiro
reclama a quem lhe cobra
e até se sente solteiro

Quando s’entra na reforma
pois chega a terceira idade
por um lado se conforma
e por outro não lhe agrade
o passar a ser um velho
que só recebe e não paga
pouco se vê ao espelho
e recordações apaga
dos jovens tem certa inveja
mas também deles tem pena
é-lhes dada de bandeja
crise que não é pequena



REFORMAS AMIGAS


QUE OUTROS temas poderão ser abordados numa fase de preocupação máxima no que diz respeito ao futuro, do que o que tem a ver com as reformas dos portugueses? É óbvio que, o dia-a-dia que temos de enfrentar, já dá suficiente trabalho e muito sofrimento para que nos consigamos manter na corda bamba em que somos forçados a tentar o equilíbrio. Mas ao pensarmos no que nos poderá suceder quando chegar a hora de nos retirarmos da actividade profissional que exercemos num determinado momento, esses que ainda não atingiram tal meta terão de sentir uma certa inquietação quanto ao não poderem pôr de parte o admitirem que as condições financeiras do sector que couber quanto à responsabilidade de sustentar tal obrigação possam vir a sofrer alterações substanciais.
Pois é isso. O assunto das reformas não pode, por mais alheios que andemos da análise da situação actual, encontrar-se longe dos nossos pensamentos e, aqueles que começam a vislumbrar a data em que se despedirão dos companheiros de trabalho, esses, particularmente, mais sentirão a vontade de lá chegar mas, ao mesmo tempo, andarão algo apreensivos pela dúvida quanto a ser ultrapassada a ameaça de que a crise também atingirá o sector dos que só vivem ajudados pelo valor que lhes cabe na pensão resultante das contas feitas em relação ao que descontaram ao longo da sua vida profissional.
É verdade que, bem no íntimo, manterão a tal esperança, a última a morrer, de que conseguirão escapar a essa desgraça que, a passar-se realmente, será um descalabro que não haverá política que consiga suster as consequências da demonstração de que não há dinheiro publico que chegue para liquidar as reformas dos portugueses. E é bom que essa esperança nunca morra, pelo menos para que se consigam terminar as derradeiras caminhadas pela vida com o pouco, sendo só pouco, que vier todos os meses aquecer os bolsos dos mais velhos.
Não falo agora, por demasiado debatido, na situação daqueles que, sendo as excepções mas, mesmo assim demasiados, auferem reformas verdadeiramente escandalosas e não merecidas. Não serão os que mais valem, mas tiveram a esperteza, a habilidade, a manha de conseguir serem colocados em posições de privilégio. E, se falarmos, por exemplo, nas reformas vitalícias dos ex-políticos, que, em 2010, recebem um valor médio de 1.900 euros mensais, pelo que a despesa pública
com as respectivas subvenções se fixam na casa dos 8,8 milhões, mais 5,6 por cento do que no ano passado e que, no que vem a seguir, crescerá ainda mais. Os ex-deputados, por exemplo, fazem parte dos beneficiários que têm garantida a pensão enquanto forem vivos.
Agora, a possibilidade que dá a lei de os portugueses poderem recorrer à reforma antecipada, isto é, antes de atingirem os 65 anos, mesmo sofrendo alguma penalização por esse motivo – desde que não tenha a ver com a saúde ou com acidente laboral -, essa antecipação provoca custos de vária ordem, tanto no capítulo financeiro como no social. Por um lado, se a não saída total do mercado de trabalho no período estabelecido não deixa margem para que outros, mais novos, possam preencher os seus lugares, dando ocasião a que o desemprego continue a constituir outra aflição que tanto está a pesar no campo social do nosso País, representa, por outro lado, uma não diminuição nas receitas da segurança social, pois os descontos que continuam a produzir proporciona o ir arrecadando verbas para fazerem face, durante o maior tempo que for possível, às pensões dos que se mantém já no descanso da reforma.
Trata-se, portanto, de um problema que os governos têm nas mãos. Ou o prolongarem o período de trabalho e não ser aos 65 anos, mas mais tarde, que os trabalhadores passam a ter acesso a esse regalia, o que representa a não possibilidade de abrir portas aos que se encontram no desemprego e são muitíssimos, ou, actuando de forma exactamente contrária e atender, acima de tudo, à redução de gente sem encontrar forma de ocupação profissional, fomentando a corrida à reforma e deixando para depois, para os futuros governantes, o problema de conseguir dinheiro para fazer frente às reformas.
Há quem saiba responder a este dilema? Não vale a pena preocuparmo-nos hoje com o que pode muito bem vir a passar-se no horizonte que anda por aí a rondar-nos?
Não. Essa do copo meio cheio e meio vazio é uma forma de dizer coisas sem querer dizer nada. Para isso mais vale não haver sequer copo. E será que o tal copo, que é de vidro, até mesmo de cristal se vai manter inteiro, não se quebrando entretanto?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

RIR DE MIM PRÓPRIO

Não sou muito de me rir
sobretudo a contra-gosto
o que é preciso é sentir
para se ver bem no rosto

A gargalhada sentida
de dentro da alma sai
essa sim por mim querida
como chega também vai

Vistas as coisas no fundo
se há algo p’ra me rir
o melhor deste mundo

P’ra mim é de mim fugir
este pobre moribundo
nem sabe p’ra onde ir

FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS



CADA VEZ me convenço mais de que não existe em Portugal a consciência da situação real que o nosso País atravessa e que, por sinal, também é sofrida por diferentes nações, da Europa mas não só. E esse afastamento do concreto, se é notado no que ocorre na actualidade, mais ainda se constata em relação ao futuro e não só ao distante mas sobretudo o que estará aí a bater à porta.
Quando surgem manifestações de vários agrupamentos laborais a exigir que o Estado – e particularmente este – proceda a melhorias das condições de trabalho, com o aumento dos ordenados e das regalias subsequentes, pondo os sindicatos em primeiro plano para organizar tais reclamações, a ideia que tem de nos saltar é que ainda há muita gente por aí que se encontra alheada do panorama generalizado que somos forçados a viver.
Ninguém duvida de que os salários da maioria esmagadora dos trabalhadores por conta de outrem são cada vez mais insuficientes para fazer face ao custo de vida em Portugal, mas é igualmente certo que aqueles que não se encontram na situação de estar à porta das empresas a reclamar o pagamento de salários em atraso e na esperança de que a mesma não feche as portas, esses, seguramente, não fazem manifestações a pedir aumentos salariais. E só pedem às alminhas para que, pelo menos, aquilo que têm tido, não acabe…
No que se refere aos funcionários públicos, os que encontram agora, por via dos seus sindicatos, em fase de expandirem a sua reclamação pelo facto de não lhes ter sido comunicada a melhoria dos seus vencimentos e até das condições que existem das suas reformas, sabendo-se que o número de trabalhadores naquela área é, por cá, elevadíssimo e que, pelo menos por agora, se trata de uma contratação que salvaguarda qualquer tipo de despedimento, o que se esperaria em último lugar era que, por muito justos que sejam os seus anseios de melhoria de condições de vida, fosse dessa área de trabalho que saltassem, neste momento concreto, as ameaças de manifestações de rua e, eventualmente, de greves.
Neste blogue, que me parece que algumas pessoas lêem, pelo menos pelos comentários que recebo, tenho dados mostras da minha preocupação pela inconsciência que existe ainda por aí quanto ao que nos devemos precaver em relação ao futuro que se aproxima e que, em face das múltiplas notícias que chegam todos os dias, não são de molde a permitir-nos atitudes desacauteladas. E, quem tem a sua vida ligada ao sector público, maior obrigação tem de não enfileirar em aventuras que podem aumentar ainda mais o risco em que se vive em Portugal.
Bem bastam as insustentáveis situações de ordenados altíssimos e todas as condições excepcionais de que usufruem uns tantos fulanos que, pelo facto de estarem instalados em altos cargos e especialmente em empresas com ligação ao erário público, se regalam com o que lhes cabe nesta Democracia nacional, em que as desigualdades sociais são tão exploradas.
Não se compenetrem os funcionários públicos da camisa de onze varas em que se metem, com as exigências a uma “patrão” que se encontra em vias de fechar a porta., que está a dar mostras claras de que é muito debilitada a sua posição financeira e não importa agora perdermos tempo a investigar a quem ca
be a culpa, não pensem bem, não e depois não se queixem de que, tal como uma fábrica, uma empresa, uma organização particular, chegam um dia ao ministério ou a uma das suas dependências e encontrem a porta fechada e um aviso pendurado no portão a indicar que se encontra “encerrado para balanço”, que é o mesmo que dizer que está ser feito apuramento dos activos para pagar aos credores externos.
Parece uma gracinha, pois parece. Mas há que ver depois se também se fazem manifestações para ver quem ri mais alto… ou se, pelo contrário, é para ver quem chora arrependido.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ACERTAR

Ter sempre razão
é uma doença
é provocação
pode até ser crença

Melhor é por vezes
dizer coisas tontas
ignorar as teses
fazer poucas contas

É bom enganar-se
s’aprender com isso
do certo fartar-se
não ter compromisso

Falhar no que diz
depois emendar
é mostrar cariz
senso salutar

Agora esse orgulho
de estar sempre certo
tem ar de entulho
pregar no deserto

O normal humano
que pensa acertado
aceita o engano
é bem educado

Pela vida fora
razão lá vai tendo
na última hora
já não tem remendo

GREGOS


ESTAMO-NOS A VER gregos com tudo isto que, numa rapidez impressionante, está a ocorrer e que diz directamente respeito ao nosso País. O panorama que foi apresentado em Bruxelas, em que um comissário europeu comparou – ou quase o fez – a nossa situação económica e financeira com a que está a passar-se na Grécia, essa semelhança criou, de imediato, um mal estar no ambiente mundial, sobretudo junto dos países e das instituições que, até agora, acorriam a responder às nossas solicitações de empréstimos, no que resultou que, nesse mesmo dia, tivessem subido os juros que estavam a ser praticados e que, na praça portuguesa, a Bolsa sofresse uma baixa espectacular que, para os grandes investidores, foi motivo de elevadas perdas, ao ponto de se terem desvalorizado acções, com o reflexo de percas que atingiram milhares de milhões de euros, não tendo escapado desse descalabro alguns bancos nacionais. A fuga à Bolsa ocasionou que se tivesse transaccionado de imediato o triplo das acções que se movimentaram no mês anterior e, obviamente, o que marcou foi o sentido da venda em correria.
E, perante esta situação assustadora, o ministro das Finanças Teixeira dos Santos, depois de, na véspera, ter dado sinais de que se iria demitir perante o caso do financiamento à Madeira, em entrevista concedida à cadeia americana de televisão CNN, declarou abertamente que “Portugal não precisa de qualquer espécie de ajuda externa”, acrescentando que não vamos solicitar a intervenção de instituições internacionais. Uma confusão instalada na cabeça de Teixeira dos Santos!
Se não estamos a vermo-nos gregos com o que sucede, com o que se diz e com o que se faz, então começa a não ter sentido essa frase tão antiga que representava uma situação aflitiva que nos colocava em má posição.
Já não nos bastava a embrulhada em que nos envolveram com a situação denominada “Face Oculta”, com as suas escutas e as demonstrações de que se tinha passado por uma estranha conversa tida pelo primeiro-ministro, com sintomas de compadrios com figuras públicas e em que se deram mostras bem nítidas de que alguma atitude antidemocrática estava a ser preparada para pôr cobro a incómodos elementos da comunicação social que não aceitavam o comportamento de Sócrates como governante, situação essa que, com a ajuda de elementos da Justiça, não foi esclarecida junto dos portugueses, como se impunha que tivesse sucedido, não chegou esse perturbador acontecimento e logo a seguir apareceu aquela da comparação com o mau momento que a Grécia atravessa.
A nós, seguidores linguísticos do idioma grego, tendo presente a Ilíada e a Odisseia nas obras literárias que nos foram ensinadas e em que a própria palavra “filosofia” representa a “fala grega”, tem de nos custar assistir a esta dificuldade que ocorre lá longe no Mar Egeu. Mas, amigos- -amigos, problemas aparte, e só isso nos chega para ter de seguir o caminho contrário e procurarmos resolver as questões económicas e financeiras que também nos afectam, aproveitando até o exemplo que motivou a situação que se vive na Grécia, para actuar de maneira a não poderem ser feitas comparações.
Vermo-nos gregos para deixar pelo caminho esta denominação que nos foi aplicada é já uma séria tarefa. Vamos a ver se conseguimos vencer esta dura provação, o que será bem difícil. Venham lá os optimistas do costume, que essa não é a minha especialidade nesta altura em que nos encontramos, sobretudo com os governantes que temos.
Já sei, a mim não me vai calhar nenhuma posição bem remunerada como tantas que por aí têm feito calar muita gente. Mas também não me fiz nunca e agora muito menos a tais bandalhices!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

BALANÇA

Tudo na vida é uma balança
dois pratos estão sempre a aguardar
no fundo sempre existe a esperança
de ver alguma coisa a balançar

A balança da vida bem assusta
sobem e descem pratos que lá estão
e o nosso nem sempre está em cima
dado o peso da insatisfação

Os grandes desencontros com a sorte
tudo isso faz pesar mais no prato
mas o bem estar, o sentir-se forte
chega-nos alegria até no trato

Que o nosso prato suba é o desejo
que todos nós levamos nesta vida
o preciso é que não falta ensejo
e que se acabe vencendo a corrida

Contrabalançar o bom e o mau
lembrar tudo aquilo que já passou
subindo na vida cada degrau
descendo sempre que se enganou

E a balança está a observar
para que lado cai mais cada braço
para dar algum tempo a emendar
o que terá sido algum fracasso

Orientar na balança o fiel
é missão que só a cada um cabe
é nisso que constitui o papel
daquele que disto pouco sabe

ELE É ASSIM...



QUE NINGUÉM GOSTA que os outros falem da sua vida privada e tornem públicas situações que só dizem respeito ao próprios, isso é o mais natural deste mundo. Mas, como diz o povo, quem anda à chuva molha-se e se não quer ser salpicado por essa água o que tem a fazer é não sair de casa quando o mau tempo faz a sua aparição.
Por outras palavras: se o Manuel do talho só canta nos fundos da sua loja e não faz demonstrações públicas daquilo que entoa, ninguém tem o direito de criticar se canta bem ou mal, é lá com ele; agora, se o mesmo Manuel do talho resolve abrir a porta do seu estabelecimento e se põe aos gritos a dar mostras da sua voz para que toda a rua o oiça, nesse caso fica sujeito a que haja pessoal que se revolte e que exija que se cale, porque não gosta, fazendo críticas severas ao seu procedimento.
Escrevo isto para fazer a comparação com o caso José Sócrates. Parece pouco esclarecedor mas, no fundo, não é tanto. Se o primeiro-ministro tem tanta aversão à comunicação social e se até poderá ter alguma razão no que diz respeito a certa pouca ética que se verifica em determinados casos concretos, na sua posição de chefe de um Governo não pode, nem deve, enfrentar a classe, pois as suas funções são outras e inegavelmente muito mais importantes do que fiscalizar o comportamento das televisões e dos jornais. Se não está nem nunca esteve disposto a não se melindrar com as opiniões dos que, na actual Imprensa, seja ela escrita ou falada, então não teria concorrido ao lugar que ocupa, fosse com maioria absoluta ou só relativa, a menos que tivesse esperanças de actuar em regime de força, com domínio total e com uma maioria confortável.
Porém, as circunstâncias políticas em que vivemos não lhe dão essa possibilidade. E ainda bem, digo eu. Logo, perante o desconforto que José Sócrates sente perante os casos em que se julga atingido por críticas que ele próprio interpreta como injustas, aquilo a que deita a mão, não medindo o limite a que está sujeito, é o utilizar o pouco poder de que dispõe e, procurando não olhar a meios, seguir vias antidemocráticas, tudo fazendo para arredar do seu caminho essas incomodidades, não hesitando em servir-se também de ajudas que sempre tem, dada a posição privilegiada de que goza, de elementos que não hesitam em servir o poder a troco de qualquer benesse. E casos desses têm-se visto com fartura.
A pouco e pouco a situação no nosso ambiente governamental foi-se agravando e, como é natural, a imagem do primeiro-ministro é a que sai, em primeiro lugar, mais mal tratada no conjunto de figuras que se encontram relacionadas com os problemas mais sérios do dia-a-dia actual. Nem podia ser de outra maneira. E aqui volto a referir a comparação, mesmo desfigurada, com o Manuel do talho que desatou a cantar à porta da loja. Ninguém o mandou exercer esse papel e se o fez não se pode queixar de haver quem não goste e o diga claramente. Tem de suportar.
Mas não há nada a fazer em relação ao José Sócrates. Ele é assim e, no nosso País, verdade seja dita, não se encontra sozinho. É um feitiozinho bem português, em que queremos dar nas vistas, mas não aceitamos que haja quem não pense de igual modo como nós o fazemos de nós próprios. A Democracia enche-nos a boca. Todos, logo no dia a seguir ao 25 de Abril, saímos à rua a proclamar a nossa condição de autênticos democratas … de sempre! Ninguém foi capaz de assimilar modestamente que essa atitude de saber ouvir os outros, de não nos considerarmos como tendo sempre razão, de não insistirmos para que os outros concordem connosco, de aceitar que a nossa juventude de hoje ainda tem muito que aprender para que, daqui a três gerações, talvez nos possamos gabar de que a Democracia se encontra já a ser uma prática natural dos portugueses, disso estamos laionda bem longe de poder encarar tal realidade.
E este José Sócrates, que não teve bastante vida anterior à Revolução que lhe possa dar uma ideia clara da diferença entre as duas situações, não estando também muito bem acompanhado, talvez porque nem isso lhe interesse excessivamente pois que a adulação ao redor de certa gente é uma espécie de medicina para lhe dar força, não admira que não esteja em muito boas condições para exercer um lugar que requer, para além de competência, bom senso, saber e outras características em que não deve faltar uma dose apreciável de humildade.
Mas isso é coisa que não sai apenas das eleições, dado que o essencial é que os proponentes a determinados lugares se sintam preparados para disputá-los. E não é de esperar que o ser humano, na sua ânsia de ser sempre aquele que está acima dos outros, seja capaz de fazer tão importante exame de consciência.
Parece-me que disse tudo!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

RUMORES

A verdade dita assim
sem antes ser preparada
pode ser algo ruim
ter efeito de pedrada

Por outro lado a mentira
tem de ser sempre danosa
pode provocar a ira
mesmo sendo piedosa

Mas ela dita à socapa
usando d’alguns primores
disfarçada sempre escapa

Espalhada aos arredores
lá se agarra como lapa
disfarçada de rumores

ORDENADOS CHORUDOS


JÁ AQUI me referi a este tema e voltarei a ele as vezes que forem precisas, por muito que as entidades que deveriam, há muito tempo, pôr termo a esta vergonha, não dêem mostras de meter mão no assunto ou só o vão fazendo, como agora foi tornado público, de modo cauteloso, para não causar grandes desconsolos naqueles que, usufruindo de regalias inaceitáveis dentro da crise geral que atravessamos, não convém aos amigos que governam que amuem demasiado.
Pois quero referir-me ao que chegou agora – só agora – ao conhecimento da generalidade dos cidadãos portugueses, de que o Ministério das Finanças, através do seu braço empresarial, a Parpública, que tem o subtítulo Participações Públicas e gere as participações do Estado nas empresas com participação estatal, deu instruções para que as sociedades com estas características não procedam a “actualizações”, este ano, dos vencimentos dos seus administradores. E vem já a propósito referir que o presidente desta Instituição, José Plácido Reis, aufere mensalmente apenas 134.197 euros.
Não me vou gabar de que este blogue terá tido influência numa decisão do Governo, pois só admirava que não tivesse sido tomada já um ou dois anos atrás, dado que a crise que nos ataca fortemente não começou em 2010, mas, de qualquer forma, como sempre é melhor tarde do que nunca, não podemos deixar de nos congratularmos por acabar por ser considerada uma decisão que, ao fim e ao cabo, muito pouco afecta a vida regalada que levam alguns dos detentores de certos cargos, pois os vencimentos que obtêm são mais do que suficientes para não sentirem faltas de grandes coisas.
E, só para ficarmos com uma ideia daquilo que digo, aqui deixo alguns dos ordenados desses privilegiados que, este ano, não vão ver aumentados esses benefícios:
O que ganha mais de todos é o presidente dos TAP, o brasileiro Fernando Pinto, que recebe 420.000 euros; e logo a seguir vem Faria de Oliveira, que aufere 371 mil; depois Henrique Granadeiro, da PT, com 365 mil; vindo atrás Guilherme Costa, da RTP, com 250 mil; seguindo-se Fernando Nogueira, do ISP, com 247.938; e depois Vítor Constâncio, do Banco de Portugal e Carlos Tavares, com 245.552. E a lista prossegue, daqueles que foram tornados públicos os seus vencimentos: Vítor Santos, 233.857, do ERSE; Guilhermino Rodrigues, 133.000, da ANA e por aí abaixo até ao último de que se tem conhecimento público, o “pobrezinho”, da Carris, José Manuel Rodrigues, que aufere apenas 58.865 euros por ano.
Pretendendo seguir o mesmo exemplo, no sector das instituições de crédito, por imposição do CMVM, as remunerações das suas administrações são divulgadas publicamente, o que, pelo menos, deixa de ser uma “caixinha” no segredo dos deuses.
Quando as pensões dos reformados aumentaram ao Estado mais de 1,1 mil milhões de euros em 2009, do sector privado e de ex-funcionários públicos, ou seja, atingiram os 16 mil e 196 milhões, a pergunta a fazer é quanto pesa neste montante os que, pertencendo já este grupo, em quanto é que contribuem para atingir tal montante. E se não influencia ainda, estará a chegar a altura em que pesarão bastante.
A pouco e pouco, sem grandes pressas, vamos progredindo, pelo menos no sector da vergonha. É já um passo em frente. Vamos a ver se ainda iremos a tempo de conseguir que não nos aproximemos é à falta de avisos que os que ainda poderão fazer alguma coisa de mais positivo, e em que não terão desculpa depois de que ninguém lhes disse nada.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ADIAR

Tem razão quem não tem pressa
e para depois se deixa
sem medo de que se esqueça
nem de ouvir qualquer queixa
confiando na cabeça

P’ra quê andar a correr
afogueado labor
esteja onde estiver
algo se faz com rigor
tudo pode dar prazer

O cansaço não é prova
de que o labor sai perfeito
e se é matéria nova
pode sair sem defeito
seja prosa ou seja trova

Esperar com paciência
dar tempo ao tempo, então
é apostar na cadência
à corrida dizer não
e mostrar a sã prudência

O adiar é bem cómodo
o depois logo se vê
é um dito popular
em que muita gente crê
sem sair do patamar

Assim sem fazer alarde
Sem gritos de ter razão
Muito menos ser cobarde
Pensar com os pés no chão
Que amanhã pode ser tarde

O VETO


DEPOIS de todo o alvoroço que tem tido lugar neste nosso País e que ainda se vai manter, julgo eu, durante largo tempo, primeiro em relação ao Orçamento do Estado e também quanto à revisão da Lei das Finanças Regionais, isso por agora, em que os milhares de milhões andam continuamente nas bocas de todos os intervenientes que temos por cá, isso enquanto as centenas e até dezenas de magros euros constituem as preocupações dos outros milhões, esses sim, de portugueses que lutam pelo seu dia-a-dia, aguarda-se agora pela atitude que vai tomar Cavaco Silva e se o seu eventual veto porá, por agora, um ponto final na “guerra” em que estão envolvidos partidos e Governo. No confronto sim, não na solução.
Atrevo-me a antecipar este texto à decisão do Presidente, pois que não vai ser fácil a posição que for tomada e isso porque, seguramente, a sua opinião pessoal, como simples cidadão, será uma e, na qualidade de próximo futuro concorrente à reeleição para Belém, então tem de ser outra em termos e em conveniência política. Isto, porque lhe convém não afastar do seu horizonte os votos de muitos militantes socialistas que, naturalmente, podem não ficar satisfeitos por ver o seu partido não ser favorecido na passagem das propostas saídas do Parlamento e sujeitas à decisão presidencial. Ainda que, nestas circunstâncias, a darem-se, ainda haja o recurso ao Tribunal Constitucional que, provavelmente, será o caminho que se deparará antes da decisão final. Tudo isto, claro, são conjecturas minhas, mas não estarão totalmente fora de virem a constituir uma realidade.
Mas, no fundo, todos os participantes no panorama actual da política portuguesa acumulam sérias dúvidas e muitos receios quanto ao resultado dos passos que devem dar na conjuntura que se apresenta. No que se refere a Cavaco Silva, está dito acima com o que o tem de preocupar. Já do ponto de vista de José Sócrates, este, perante a imagem desfavorável que tem vindo a acumular, ninguém lhe pode garantir que, em eventuais próximas eleições, venha a atingir a tão desejada maioria absoluta. No caso das várias oposições de hoje, especialmente as que se podem situar na área da possibilidade de obterem votos suficientes para governar – mas nunca maiorias parlamentares -, essas não terão provavelmente qualquer atracção pelo chamado poder, pois, a não ser para depois se lastimarem do estado em que encontraram as contas públicas, o que lhes caberia enfrentar seriam os graves problemas que já existem hoje e que, dia após dia, se vão tornando de mais difícil solução. E de choradeiras e críticas ao que ocorreu durante a actuação dos Executivos anteriores, dessas acusações estão os portugueses fartos e não podem suportar mais desculpas para não governar de forma minimamente razoável. Todos os Executivos que ocuparam as cadeiras do poder, sendo de ideologias diferentes dos anteriores, desde o início do período democrático que se têm servido desse argumento, de culpar quem ocupou os seus lugares, para mostrar que lhes coube a eles emendar os erros dos antecessores. Nunca apareceu um novo protagonista que se preocupasse apenas em enfrentar o futuro deixando para trás o que tinha passado. É, pelos vistos, outra característica dos portugueses, pois que todos somos detentores de determinados comportamentos que são bem característicos da nossa raça.
Vamos lá ver o que acontece na fase seguinte daquilo a que já chamei folhetim ou telenovela com actores de segunda categoria. Tudo é possível.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

CHORAR

Em tempo de magras vacas
só apetece é chorar
se são poucas as patacas
quem tem fé é só orar

É o que por cá se passa
já sem rumo este País
em que nem mesmo a chalaça
põe a maioria feliz

Afinal é a saída
já antiga e de agora
acalma qualquer ferida

Porque chorar não tem hora
sempre serve de guarida
e o palhaço também chora

AMEAÇAS


O CONSELHO DE ESTADO, reunido por iniciativa do Presidente da República e para tentar servir de apelo ao bom senso de todos os participantes principais nos problemas que envolvem o nosso País, acabou, ao cabo de cinco horas de reunião, por, como era de esperar, apenas deixar sair para o exterior a preocupação de que, se não forem capazes os intervenientes no caminhar político da Nação de encontrar um consenso mínimo, o futuro que se apresenta ao virar da esquina será ainda mais negro do aquele que já se contempla na actualidade. E todos os que estiveram presentes nesse Conselho e que tiveram oportunidade de expor as suas razões, sobretudo aqueles que mais influem na solução dos casos que se encontram agora na montra, sabe-se que se limitaram a seguir o programa pré-estabelecido e, quanto ao resto, limitaram-se a usar da palavra para aconselhar o bom senso e fazer o pedido de responsabilidade a todos os intervenientes nas eventuais soluções dos problemas existentes.
Ao fim e ao cabo, as ameaças, depois desmentidas, que foram espalhadas da demissão do Governo face às exigências de o Estado ter de contribuir financeiramente para o Executivo madeirense, e em que, tanto Sócrates como o ministro das Finanças, foram referidos de que seria esse o seu gesto na eventualidade de não conseguirem o apoio parlamentar à sua recusa de desviar dinheiros públicos para o arquipélago madeirense, pelo menos essa atitude terá ficado, por agora, fora de conjecturas. Por agora.
Ao mesmo tempo que ocorreu este encontro de alto nível, em Bruxelas, o comissário europeu Almunia, responsável pelos assunto económicos e financeiros desta área da Comissão Europeia, fazia declarações aos jornalistas em que a posição de Portugal foi apontada como atravessando um período de enormes dificuldades, até mesmo muito críticas, e com sucessiva perda de competitividade. E, em vistas disso, logo a nossa dívida pública excessivamente elevada serviu de comparação com outros casos, com alguma distância em relação ao da Grécia, salientando que este País merece algum desanuviamento da tensão existente dado o plano de austeridade que ali começou já a ser executado. No que a nós diz respeito, as atenções voltaram-se todas para a situação perigosa que atravessamos, recomendando a penalização de imediato da emissão da dívida pública, tendo desde logo, a partir dessa altura, Portugal sofrido a subida do preço dos empréstimos que sejam, a partir de agora, solicitados. E o resultado foi o de terem baixado rapidamente os valores cotados na nossa Bolsa.
Enfim, não vou aqui expor, mais uma vez, o retrato da posição portuguesa no panorama internacional. O que tenho vindo a anunciar como aviso está aí, infelizmente, a dar-me razão.
Agora, estas ameaças, agora desmentidas, vindas do sector governamental de abandonarem o “barco”, deixando-o navegar ao sabor das ondas numa altura em que a tempestade mais estragos provoca no casco da embarcação, uma atitude deste tipo não beneficiaria ninguém e menos ainda o capitão que, não se tendo acautelado mesmo face aos repetidos avisos que os passageiros lhe lançaram, correria o risco de só passar a dispor de um salva-vidas que não chegaria sequer para acomodar toda a sua tripulação.
Uso esta linguagem marítima, porque talvez seja só esta que José Sócrates entenderá, não por ter sido marinheiro mas porque, quem está habituado a meter tanta água, pode respeitar um ambiente conhecido.
Não é altura para graças, lá isso não. Mas chorar já não resolve nada!
Ainda algum alargamento de opinião no que respeita às declarações prestadas pelo ministro das Finanças, ao fim da tarde, que, ao serem anunciadas, provocaram algum alvoroço. Seria que, por fim, o responsável pelos dinheiros públicos nacionais, não se conformaria com a decisão tomada pelas oposições, contrariando o decidido pelo PS de fechar a torneira de financiamentos ao Governo da Madeira e iria então apresentar a sua demissão? Foi o que se pensou antes de ouvir Teixeira dos Santos. Mas não foi isso que aconteceu. E, ao mesmo tempo que se ouviam as queixas do ministro, em S. Bento José Sócrates recebia, a seu pedido, Manuela Ferreira Leite, para uma troca urgente de pontos de vista. Não se sabe, na altura em que escrevo, o que saiu desse encontro.
Continua, pois, o folhetim dramático a que os portugueses assistem, deixando o final do enredo para a altura em que ficaremos a conhecer quem casa com quem e se os maus da fita sempre terão o castigo que merecem. Nesta caso, são os espectadores que vão pagar e bem caro…

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AQUILO QUE VEJO

Aquilo que vejo
que atrai meus olhos
que me causa ensejo
mesmo sendo aos molhos
eu acredito?
É verdade pura?
Não será um mito?
Uma desventura?
Mas vejo e pergunto:
poderei eu crer
constitui assunto
para eu ver
e aquilo que é dado
algo como queixa
será um recado
que a vida me deixa
uma prevenção
com certa importância
chama-me a atenção
provoca-me ânsia
abre-me o sentido
mas olho parando
e o despercebido
agora pensando
com calma observo
a ideia apurada
por fim lá conservo
a vista do nada
e aquilo que eu via
e que os olhos liam
tinha mais valia
e todos deviam
cá por este mundo
ter algum rigor
olhar sempre a fundo
que tudo tem valor



Por isso m’interrogo
procuro resposta
faço-o como um jogo
é quase uma aposta
tudo por que passo
e atrai minha vista
se causa embaraço
constitui uma pista?
Como em tanto assunto
não sei responder
até ser defunto
terei de aprender




PESSIMISMO


PODEM acusar-me de não ser suficientemente optimista por forma a transmitir aos leitores que acompanharão este meu blogue alguma dose de esperança em relação ao futuro português que nos aguarda. Aceito essa acusação. Mas o que não poderão dizer é que, só para agradar, ando aqui a inventar boas perspectivas no horizonte, porque sempre é mais agradável pintar quadros com cores alegres do que deixar nas telas imagens tenebrosas que fazem até arrepiar.
Seja como for, quem, daqui a um certo tempo tiver memória e encontre interesse em referir os que têm razão antes de tempo – do que tenho sido várias vezes apelidado -, poderá fazer-me justiça. E a razão deste meu ponto de vista é a de que considero preferível avisar o pior a tempo, para dar ocasião a que se criem as condições mínimas de defesa, do que depois, já em plena catástrofe, sendo forçados a remendar as situações e não conseguindo executar uma obra que mereça ser recordada na História. Vejamos o que se tem passado no Haiti, onde dizem que existiram sinais de que o terramoto era previsível, mas que não se verificou o mínimo, pelo menos de aviso, de maneira a que a surpresa não fosse tão prejudicial.
Quanto ao que pode suceder a Portugal, como consequência de vários factores e em que a crise mundial tem um peso assinalável, mas que também a menos boa atitude por parte dos políticos que têm tido a responsabilidade de conduzir a governação nos últimos tempos contribuiu com enorme irresponsabilidade para a situação que se atravessa – e para a que vem aí -, devido a tudo isso é condenável que se continue a não querer falar verdade aos portugueses, avisando-os de que, mais do que nunca, é obrigatório que cada um dos cidadãos, seja qual for a actividade que desenvolva, deve assumir a sua responsabilidade, procurando não criar ainda mais estragos do que aqueles que suportamos e são alheios às nossas vontades.
Se um primeiro-ministro e todos os seus sequazes tiverem (ou já tivessem tido) a coragem de falar claro e não esconder o que, por muito duro que seja, tem de ser dado a conhecer aos cidadãos nacionais, talvez se pudessem ter evitado certas greves que já ocorreram e as que se anunciam, pois que, quando um devedor se abre honestamente perante um credor e lhe comunica que não tem meios materiais que possam saldar a dívida e que a única via pela qual será possível encontrar solução é através de um acordo de bom senso, nesta altura, face a uma realidade bem explicada, convincente, que poderá acontecer que devedor e credor se juntem num esforço comum e, daí saia a solução dos problemas.
Agora, como o Governo não tomou nem dá sinais de tomar essa posição, e apenas o Chefe do Estado, que não tem meios governativos para actuar, foi capaz de ser claro no sue último discurso, ainda muitos portugueses andam a viver num mundo da fantasia e exigem do Estado aquilo que ele não pode dar, mas que também não explica claramente que se encontra numa posição complicada em termos financeiros, sobretudo porque, no capítulo dos gastos, não consegue entrar a fundo e de cortar tudo, mas mesmo tudo, que possa ser evitado. Por exemplo – e apenas um, de fugida – os gastos que se anunciam com a proclamação do centenário da implantação da República (e atenção, que eu sou republicano), em que são de dezenas de milhares de euros que estão previstos, isso e muito mais que faz parte de uma lista que, há muito, deveria estar feita, não há ninguém que seja capaz de rasgar das folhas de despesas. Festas, festanças, jantaradas, comemorações, viagens… nesta altura, nem pensar!
E se for bem entendido que metade da riqueza produzida em Portugal é gasta pelo Estado, então se compreenderá a verdade nua e crua. E como, no Orçamento do Estado, agora apresentado, se encontra o “compromisso” de, até ao ano de 2048, se liquidarem todas as dívidas, internas e externas, então fica bem claro que é o próprio Governo actual que subscreve a duração do martírio em que vivemos.
O Conselho de Estado que decorreu ontem e de que ainda não são conhecidos elementos que ajudem a prever o futuro, não pode v ir aliviar este texto que eu bem gostaria de ter escrito com outro espírito.
Chamem-me derrotista, chamem-me. E eu não serei o último a rir, só porque não acho graça nenhuma e tenho esperança de que não me caberá a mim o apagar a luz e o fechar a porta!...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

ODE A PESSOA


Oh! Pessoa
tu que me inspiras, que me orientas
na minha cabeça ecoa
o que em mim sustentas
com o teu génio ou o dos teus heterónimos
com rima ou sem ela
mas sempre bela
afastando os demónios.
Ajuda-me, oh! Pessoa
a escrever esta ode
pensando em Lisboa
saindo como pode
com esforço, com rompantes
contrariando o ruído do café que me acolhe
que tem algo de igual ao teu que era dantes
mas que, tal como contigo,
é o café que escolhe
a freguesia, qual porto de abrigo
é ele que anima a que olhe
e veja o que me rodeia, o mau e o bom
aquilo que me foi dado apreciar,
deleitar
e ouvir o som
com agrado ou sem ele
E desde que me conheço
é o que peço:
que Aquele,
o que comanda,
não deixe a banda
à solta.
Pessoalmente penso assim
não me importa saber
se outros julgam igual a mim,
eu sei o que fazer
com a inspiração do poeta,
não basta pegar na caneta
e divagar,
pessoar,
procurar
no íntimo do sentimento
o que tiver mais cabimento
para saudar,
gritar
que poeta serei quem for
mas por amor
ao génio de um poeta dedico
e por aqui me fico
a compreendê-lo
e a relê-lo.

Ele, que dizia não ser nada
era tudo
perdido em frente da sua janela
ou sentado no café, à mesa,
procurando a frase mais bela
e encontrando com certeza
a sua inspiração
interpretando os sonhos do mundo
com devoção
bem no fundo
carregando a carroça da vida
com o fervor de um crente
que sabe que só há ida
por isso olhando sempre em frente
sem saber que o futuro
lhe traria tanta aclamação,
que transporia o muro
da vulgarização.

Oh! Fernando
tu que não sabias o que eras
nem como nem quando
que não crias deveras
nas certezas do mundo,
que só a Tabacaria era verdadeira
porque a vias ao fundo
da tua rua inteira
onde compravas os cigarros
da mesma maneira
que sacudias os catarros
e bebias a tua jeropiga
para acalmar a ânsia de versejar
e respirar
e produzir outra cantiga
sem fadiga,
naturalmente,
mas preocupadamente
a pensar que os versos criavam nada
que acontecia zero
que não havia fada
capaz de mudar, mesmo em desespero
a vida sensaborona,
triste e pesada,
qual matrona
pavoneada.
Hoje, o mundo sempre igual continua
parece diferente, mas nada mudou
aqui nesta como em qualquer outra rua
quer para quem trabalha e também estudou
porque os políticos continuam a falar
na busca de eleitor,
a dissertar
mas não são capazes, nem querem mudar
seja o que for
lá se vão enchendo
porque o que dá lucro vai-se mantendo
que o povo, esse fica,
a gritar pelo Benfica
sem eira nem beira
agarrado à bandeira
como se fosse da Pátria a salvação
a gritar nos estádios com emoção
contra quem seja
tendo na mão a cerveja
que dá calor
tremor
mas não altera os resultados
dos futebóis ou dos pecados.
Hoje está tudo na mesma
como a lesma.

Vês, Pessoa ?
Não fui capaz.
Estás onde estás
e eu estou onde estou
e não sei quando vou.
Verás que a minha intenção era boa
que me esforcei
mas o génio não agarrei.
Não digo como tu
que não sei o que serei,
sei sim, foi o génio que ficou no baú
e que também nada herdei
e como deixei de fumar
continuo sem achar
a Tabacaria
a que te trazia
o fumo da inspiração,
a divinização.

Perdoa-me, Fernando
Continuarei procurando
mas será tarde
para fazer alarde
de algo que me falta
para trazer à ribalta
coisa de valor,
mas amor
esse sim, não perdi
e como mostro aqui
não serei capaz
mas lá contumaz
é o que até agora tenho sido
e estou decidido
a prosseguir
enquanto a vida mo permitir.

Pessoa houve um,
não haverá mais nenhum
e se alguém o prometeu
não fui nem serei eu.

CEM DIAS - CEM ANOS!...


ULTRAPASSADO que está o susto de não se ver a aceitação maioritária, no Parlamento, do Orçamento do Estado, pois nenhum partido correu o risco de assumir a responsabilidade de fazer cair o Governo actual e com isso provocar eleições – que seria um presente envenenado a quem viesse a vencer de seguida e fosse obrigado a tomar conta de um Executivo com a tarefa de tomar conta de um País num período que será, sem dúvida, um dos mais difíceis da História política, económica e social portuguesa dos últimos tempos -, passada, pois, essa preocupação, como o tempo corre velozmente logo surgiu a data da comemoração dos cem dias de governação socratiana, neste seu segundo mandato.
Pois bem, neste País em que qualquer situação serve de motivo para uma comemoração, com o festim, maior ou menor que a data proporciona, tal tinha que suceder. E lá se aproveitou para se colocar a primeira pedra no local para onde vai ser transferido o Museu dos Coches, com a pompa e a circunstância que serviram para José Sócrates e a sua vasta comitiva fazerem folga na procura de soluções para os problemas graves e urgentes que há que enfrentar, sem descanso, nesta nossa Terra. E o momento foi aproveitado também, como os bajuladores tanto gostam, para ouvir as bacoradas do costume proferidas pelo primeiro-ministro. Só que ninguém pensou no tempo perdido com tal acto, especialmente porque não se tratou de uma acção considerada urgente, pois o Museu, onde se encontra há imensos anos, podendo não ser o ideal poderia muito bem esperar por uma ocasião onde todos os gastos devem ser evitados pois fazem falta para atender a inúmeras situações de absoluta urgência.
E é isto o País que temos. E é este o Governo que nos calhou, por sinal escolhido pelos portugueses. Toda a atenção que é forçoso dedicar e para o que já estamos largamente atrasados para vencer a crise, fazendo sobressair dessa tarefa o enorme perigo, que está mais perto do que imaginamos. O de o dinheiro para pagar as reformas começar a dar mostras de, dentro de certo tempo, não vir a ser suficiente para atender os cada vez em maior número de retirados da vida activa pela idade, sendo que, para que isso possa ser evitado, e até mesmo retardado o mais possível, se tenham que encarar as situações que nos estão a bater à porta há largo tempo e sejam postas por ordem de urgência todas as que fazem parte da longa lista de malefícios.
A redução do défice público situa-se nos primeiros lugares desse rol, bem como o ataque ao desemprego tem de figurar também na prioridade das prioridades, logo seguido do fomento da exportação (para o que o organismo chamado agora AICEP, existente há muitos anos sem a letra inicial A, que foi só a mudança que se verificou, seja chamado à responsabilidade de efectuar um trabalho positivo e com resultados à vista, pois é esta instituição que tem a obrigação de abrir portas e de lutar pelo estudo das possibilidades de vendas dos produtos portugueses no estrangeiro, assim como no capítulo de procurar investidores de fora para dentro).
Mas outros temas têm de ser encarados com toda a coragem, como é o caso da Madeira, em que as “birras” de Jardim devem ser denunciadas e havendo que chamá-lo publicamente à realidade da situação financeira de Portugal, de que a Madeira faz parte.
O que o conjunto governativo de Sócrates deverá fazer é deixar-se de fantasias folclóricas e meter cabeça e ombros à tarefa de tudo fazer para que a situação dificílima que atravessamos seja alterada, por mais impopulares que tenham der ser os meios utilizados, sempre, claro, dentro dos preceitos democráticos.
O Plano de Estabilidade e Crescimento, que vai até 2013, título muito falado mas cujo conteúdo minucioso não é do conhecimento da generalidade dos cidadãos, por forma a mostrar que há motivos para, apesar de tudo, reinar ainda, por pouca que seja, alguma esperança, mas sempre divulgando a verdade dos factos, não escondendo nada e chamando os portugueses a participarem na luta que tem de ser conjunta, tal Plano pode talvez constituir aquilo que o Governo entende ser uma saída. Provavelmente a única. Oxalá não esteja mais uma vez enganado.
Mas, ainda duas palavras para referir o almoço realizado nas instalações do primeiro-ministro, em que foram convidados todos os elementos femininos do Executivo actual. Tratou-se de mais uma fantasia de Sócrates. Este homem não consegue ter uma ideia que seja a tradução de uma boa cabeça, de uma noção correcta das acções correctas. Que interessa fazer esta diferença, que talvez tivesse justificação se fosse Santana Lopes o chefe do Governo, dando largas à atracção indesmentível do referido político pelo sexo oposto?
Mas é com isto que vamos assistindo ao desmoronamento de um País que tanto custou a erguer. Fica-se contente por saber que a Grécia está muito pior do que nós, que a Espanha tem mais desempregados do que deste lado do fronteira, que a nossa área marítima é a maior da Europa (mesmo que não a saibamos utilizar). Mas, quanto ao resto, é o que sabemos e é ao que assistimos.
Cem dias passaram. Mais de três meses. E, entretanto, nada ocorreu que possa constituir um activo de bom trabalho levado a cabo pelo elenco de Sócrates. E não se trata de perseguição ao homem. Não há já tempo para estes pormenores. Mas que a aflição vai aumentando e que o fim da linha não está muito longe, lá isso…
O que se passará em Portugal daqui a cem anos? Haverá algum sábio, desses que usufruem nesta altura de bons rendimentos salariais e de pensões, que seja capaz de prever o futuro?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

DESPERDIÇAR O TEMPO

Só quando se chega a uma certa etapa da vida
é que descobrimos o tempo que desperdiçámos
o que não aproveitámos na corrida
e tudo aquilo que não alcançámos
o mal que com que utilizámos aquilo que tivemos
a pouca atenção que dedicámos ao que valia a pena
porque saber não soubemos
tirar partido de cada cena
e as preocupações que nos absorveram
distraindo toda a ilusão
não nos favoreceram
retirando grande parte da nossa atenção.

Só muito tarde é que entendemos
que a vida é tão passageira
que tudo o que perdemos
que deixamos sem eira nem beira
ficando pelo caminho da nossa andança
não aproveitando o melhor possível
e que, num prato da balança,
de forma bem visível
devem ser colocadas as boas situações
enquanto, no outro lado,
envergonhados como ladrões
sem querer dar grande brado
se podem olvidar os maus momentos,
olvidar não, talvez esconder
porque mesmo sem os largar aos quatro ventos
e isso não dê grande prazer
sempre será bom trazer à nossa memória,
de vez em quando, pelo menos,
aquilo que não tendo grande história
por serem males pequenos
o que poderia não ter sido feito
mas que, de certa maneira,
na altura deu algum jeito
e que mesmo sendo asneira
constituiu uma aprendizagem,
se é que serviu para não se repetir
e até para dar certa coragem
para conseguir fugir
de um possível desterro
e não voltar
ao mesmo erro
praticar.

Agora, com um passado que existiu,
com alguma coisa para contar,
pois houve gente que não viu
e por isso não pode divulgar
aquilo que merecer a pena
ser ouvido
e colocar em cena
para não cair no olvido.
Mesmo que não se diga nada
serve de lastro
para a longa caminhada
e faz parte de um cadastro
que, volta não volta,
saltará à memória
provocando ou não revolta
conforme seja a sua história
e a consciência de cada qual
filtrará o que ainda animará a existência
procurando talvez não voltar a fazer igual
pois para tanto não haverá paciência
e por muito que não haja já
grande vontade de mais longe ir
quem sabe o que se passará por cá
e daquilo de que teremos de fugir

Aqueles que estiverem agora
com a idade que já tivemos,
os que falta ainda muito para se irem embora
e sabem mais do que aquilo que soubemos
esses podem fazer melhor ideia
de que o tempo que têm para percorrer
nesta vida que é uma cadeia
em que se é feliz e há sofrer

deve ser o melhor aproveitado quanto puderem,
emendando sempre o mais rapidamente possível
o que sair mal e não souberem
como fazer melhor e ter nível
esses, por muito que não estejam interessados
em aprender mais alguma coisa
precisam de ser motivados
para deixar obra jeitosa
será pelos seus próprios meios
que evitarão fazer asneiras
e defrontar bloqueios
tendo de ultrapassar barreiras
tendo então ocasião de verificar,
e oxalá não seja demasiado tarde
que às vezes há que parar
sem medo de que lhes chamem cobarde
e então aí fazer a prova dos nove
fazendo aparecer a tal balança e nessa altura,
imitando aquele que sempre se comove
sujeitar-se à tortura
de nos dois pratos equilibrados
poder confirmar qual de ambas posições
pode dar maiores cuidados
se entre as duas acções
umas que boa disposição deixaram
e outras que apetece esquecer
sendo que todas ensinaram
a melhor conseguir viver

Se for preferível
partir na ignorância,
como tudo é discutível
é relativa a importância
e se julgar melhor para os outros deixar
o apuramento das suas acções,
assim deve ficar
e atender as suas opiniões
se é que alguém se interessará por isso,
então, não deixe cair os braços,
e faça o seu serviço
que é como quem diz
ponha o cérebro a funcionar
e ainda que não seja muito feliz
aceite o que lhe vier a calhar
aguarde apenas pelo dia da partida
sem reclamar contra nada
que todos têm a sua ida
seja qual for a via usada

Embora eu não me sinta capaz
de me deixar facilmente entregue
só ao que a vida nos traz
seja o que for que se segue
com o passar dos dias
enquanto funcionar a minha cabeça
não me deixo dominar por apatias
e não me peçam que esqueça
só me entregando ao que vem a seguir
mesmo já sabendo do que se trata
nunca pude sacudir
muita coisa mesmo chata
tanto o que deixei de fazer
como o que saiu menos bem

E agora,
com os meios técnicos que já estão
a ser usados sem demora
e à nossa disposição
que esse computador tão eficaz
a que eu não aderi com entusiasmo
mostra daquilo que é capaz
provocando tanto pasmo
e deixando o muito que fará adivinhar
não sendo já necessário guardar papéis
já valerá a pena deixar
tanto os feles como os méis
pois o tal “disco” pode tudo arquivar
e depois alguém poderá haver
que se incomode com a divulgação
que dê a conhecer
aquilo que constituiu a preocupação
do que ficou feito
não deixar escondido
e que de qualquer jeito
seja bastante difundido
que ponha nos pratos da tal balança
o que aqui deixo bem gravado
e que no final de tal dança
diga se de facto causa agrado
porque se não, bem simples é
deitar fora o disco e pronto…
nem vale a pena chamar-me tonto!

´É GASTAR VILANAGEM!...



NÃO HÁ PALAVRAS que cheguem para mostrar o que nos vai no íntimo como irritação quanto aos procedimentos dos governantes, desses que se esgotam a elogiar-se em boca própria, afirmando descaradamente que não há ninguém melhor do que eles e que, verdade verdadeira, são todos piores uns do que os outros, venham eles de que partido vierem e que, não é por serem substituídos nos postos de comando em que lutam para serem escolhidos, que as coisas melhoram neste País em vias de cair da tripeça.
Tomei hoje conhecimento de uma notícia que, mesmo farto de contemplar disparates, não acreditaria que pudesse suceder, sobretudo nesta fase da difícil vida nacional. Então não é que, por via do Orçamento do Estado que acabou por passar na rede das oposições, ficou definido que a equipa de ministros do grupo de Sócrates (e não incluindo secretários de Estado), vai gastar, em 2010, mais 3,2 % do que foi atribuído no ano findo, sendo certo que, na época passada, foram as seguintes as verbas atribuídas e gastas pelos detentores dos referidos cargos público e isso em milhares de euros: viagens e hotéis 1437,8; combustível 818,1; telemóveis 558,5; carros 1.004,3; ajudas de custo 533,3; estudos 247; horas extraordinárias 1.124,3.
Pois bem, não entrando em pormenores, a minha atenção fica-se sobretudo na rubrica horas extra, sendo certo que a maior parte se atribui aos motoristas, aos seguranças e às secretárias que têm de aguardar que suas excelências libertem os seus serviços, já que não se encontrou ainda forma de solucionar este problema que, no que se refere sobretudo aos condutores das viaturas, apontei já, tempos atrás, o modo de acabarem esses gastos. Não vou repetir agora o que ficou escrito.
Mas a pergunta a deixar aqui expressa tem a ver com a falta de capacidade de, em vez de se recomendarem cortes drásticos em tais gastos improvisados, se dá mais uma margem para que nada falte aos diferentes ministros que se preparam para atravessar o ano que está à frente. Por aqui se pode ficar com uma ideia da falta de disposição governamental de ser aí, no alto da pirâmide, que deve surgir o exemplo de poupança, mostrando a todos os portugueses que a época que se viveu (e que nunca deveria ter existido nas circunstâncias autênticas que jamais foram de grandes extravagâncias) das “vacas gordas”, nesta altura, mais do que sempre, é ideal fora de questão.
Custa-me a admitir que o Governo, como lhe compete, recomende mais produtividade aos portugueses e, ao mesmo tempo, contenção nos gastos desnecessários, quando não mostra disposição em reduzir, naquilo que lhe diz respeito, todas as despesas que têm de ser evitadas.
No fundo, a dificuldade existe na descoberta do remédio capaz de solucionar a grave crise em que estamos envolvidos e que, por muito que se ande a esconder a verdade no que respeita ao futuro, mesmo o mais próximo, no íntimo dos governantes não pode permanecer uma extrema esperança de que tudo correrá sobre rodas e que Portugal não vai sofrer dificuldades acrescidas.
Sendo assim, mais vale ir aproveitando o que ainda existe, porque depois logo se vê como nos safaremos dos problemas. É um princípio bem português e que, até à data, tem desenrascado a malta de cá.