sábado, 9 de janeiro de 2010

CASAMENTOS HOMOSEXUAIS


ESTE PROBLEMA, que levantou grande celeuma, sobretudo na Assembleia da República mas que, naturalmente, continua ainda a colocar muitas dúvidas aos cidadãos que assistem às polémicas entre diferentes partidos políticos, sobretudo aos portugueses que ainda têm disposição para ocupar o seu pensamento com situações que se encontram muito longe das preocupações principais que os atormentam nesta altura, isto dos casamentos entre gente do mesmo sexo não seria de imaginar que fizesse os responsáveis mais directos pelo caminhar do País ocupar tanto do seu tempo na sua discussão. Mas, como somos, de facto, uma Nação sui-generis, pois aí se viu o primeiro-ministro, José Sócrates, a tomar um grande calor na bancada do Governo a responder às oposições na Assembleia e a defender o seu ponto de vista. Só ele.
Eu, por mim, devo confessar que, em primeiro lugar, me escandaliza que, numa altura em que é anunciado que o desemprego em Portugal já atingiu uma percentagem que nos coloca dentro dos quatro postos principais na média do 27 da Europa, ou seja que atingimos mais de dez por cento da população sem trabalho, se ande a discutir aquilo que diz directamente respeito a um número reduzido de portugueses, pois que, não se sabendo que posição ocupam no panorama nacional os homens e mulheres que optam pelo relacionamento sexual dentro do seu grupo, seguramente que está muito longe de ser parecido com qualquer maioria. Mesmo que dêem bastante nas vistas…
Mas, muito bem. As minorias também têm de ser atendidas e é natural que as leis não as abandonem e não cuidem de solucionar problemas que as afectem. Daí, portanto, que, ao analisar esta questão, da minha parte se me levante a dificuldade em tomar partido, muito embora aceite que não haja impedimento de que, homem com homem e mulher com mulher, realize, legalmente, a união e, como a língua portuguesa é tão rica, devendo encontrar-se uma designação que não deixe dúvidas e não provoque confusões com a expressão e o significado da palavra casamento, que esse, penso eu, deve apenas referir-se aos casais de sexos diferentes.
Que sejam salvaguardadas as protecções legais que advêm das separações que também têm de verificar-se nos “acasalamentos”, expressão que, por exemplo, se poderia dar a esse tipo de junções, que, também por morte de um dos participantes deveria salvaguardar o vivente no capítulo das heranças, nesse particular não encontro razões para não serem atendidos os seus direitos e aí a legislação tem de estar preparada para responder
Mas já no que diz respeito à adopção de menores, neste particular tenho de confessar que me é difícil entender como se pode explicar a situação a uma criança, que, nos progenitores afectivos, um tem o lugar de pai e o outro a posição de mãe, sendo necessário distinguir em ambos os casos, de machos e fêmeas, qual dos dois exerce as funções que lhes correspondem. E, no relacionamento nas escolas e nas brincadeiras com colegas, que tipo de complexo não surgirá por via da liberdade de linguagem e de pensamento que é comum entre crianças.
Estas são as minhas dúvidas. E, pelo que já foi exposto em declarações televisivas, tudo indica que se procedeu com demasiada ligeireza na redacção dos artigos legais que regularão os casos que podem vir a surgir decorrentes da nova união. Mas quanto a isso já estamos habituados e ninguém terá a certeza de que não se amontoarão nos tribunais mais casos a juntar ao muito e variados que por lá se arrastam. Mas aceito que os defensores das adopções em tais circunstâncias apresentem argumentos que procurem tentar convencer os mais renitentes.
A Democracia tem de ser aplicada em todas as situações. Liberdade é isso. Obriga os homens a recorrer ao bom senso para tentarem solucionar os casos que as leis podem não ser devidamente aplicadas. Esperemos que ela não falte na altura em que, como é de prever, apareçam perante os juízes que temos por cá.
Agora só resta aguardar pela decisão que vai ser tomada pelo Presidente da República, se aprova, se veta ou se envia para o Tribunal Constitucional. E daí também tudo pode acontecer. E nós, portugueses, com os graves problemas que temos, sentados a ver o que vai suceder.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

DEUS

O Deus de que se fala
é uma mancha
uma sombra
não tem imagem
não é visível
há quem O imagine sentado
com barba branca
olhos azuis
a roupagem até aos pés
pois não se pode idealizar
um Deus de gravata
de casaco e calças vincadas
com o cabelo cortado e penteado
de unhas arranjadas
e sapatos com sola
e atacadores.
Terá de ser uma névoa
que não fala
que soam as Suas palavras
nos nossos ouvidos
vindas de dentro de nós próprios
perguntamos-Lhe algo
e Ele responde sem som
fala sem ser ouvido
sentimos o Seu afago
mas sem que use as mãos
procuramos entender as Suas razões
não discutimos o que nos parece serem Seus erros
um Deus nunca se engana
mesmo quando nos inquietamos
com as injustiças que ocorrem no mundo
com a fome que mata as crianças
com os abanões da Natureza
com as guerras que não são evitadas
com as epidemias que matam milhões
aceitamos
seguimos em frente
dizemos “graças a Deus”.
O Homem é previdente
é prudente
é sobretudo temeroso
teme discordar do desconhecido
mesmo quando não vê
o melhor é não discutir
e colocar-se do outro lado.

Não tem certezas
mas, pelo sim pelo não,
manda o bom senso
não levantar dúvidas.

Seja o que Deus quiser!...

DISCIPLINA DO VOTO


EU CONTINUO a insistir na tese de que todos nós - os que já somos crescidinhos mas sobretudo os que estão a dar ainda os primeiros passos nesta luta de praticar continuadamente a Democracia -, todos nós, repito, não nos devemos convencer que já sabemos tudo e de que não necessitamos de lições, como se ouve constantemente sair da boca dos políticos profissionais, sobretudo quando levantam a voz na Assembleia da República. Cada vez mais temos provas de que, em especial por parte daqueles que maior obrigação deveriam assumir do resultado dos poucos anos ainda que decorreram desde que esse estilo de política foi implantado em Portugal, o exercício da Democracia se encontra bastante longe de ser praticado com naturalidade, sem ser necessário ser feito o esforço de raciocinarmos cada vez que temos de tomar uma atitude ou de pronunciar uma afirmação.
Não, por cá, 36 anos apenas após ter caído o regime totalitário anterior, não tendo passado pelo menos duas gerações de gente nascida já em plena prática democrática (e pior ainda, porque nas escolas primárias ainda não foi implantada a disciplina por que eu tanto tenho clamado, o que poderá adiantar bastante a mentalidade dos portugueses das novas gerações), é evidente que nos situamos longe da naturalidade que é fundamental para que, a exemplo do que sucede com os cidadãos ingleses (já com 300 anos de uso daquele formato) e mesmo assim nem todos, saibamos respeitar a opinião dos outros e não impúnhamos os nossos pareceres, batendo com o pé no chão a clamar por ela ser a única verdadeira e merecedora de ser seguida por toda a gente.
No nosso Parlamento, a cada passo se dá conta de que os deputados que ali são colocados por vontade dos cidadãos – diz-se – não exercem esse direito, pois existe uma imposição a que se dá o nome de “disciplina partidária” e que limita grandemente aquilo que individualmente será o ponto de vista de cada um. Quer dizer, na hierarquia de cada grupo partidário existem os seres maiores, os mais capazes, segundo eles próprios, os que estipulam o que devem pensar e fazer politicamente os que se situam em posições menores. Esta é a regra. É certo que, para existir uma força partidária, tem de se formar um bloco, dado que, de outra maneira, não era possível contar com “maiorias partidárias”. Daí se dar cada vez mais razão à frase de que a Democracia é a menos má das políticas, o que quer dizer que “boa política” é coisa que não existe…
Agora, como sucede nesta altura com a questão de se recorrer ou não ao referendo, os partidos não se encontrarem de acordo quanto a votarem favoravelmente ou não e sabendo-se que, dentro de cada grupo, existem deputados que são ou não favoráveis a tal proposta, aí se constata que não é a opinião de cada um que conta, mas sim aquilo que os chefes desses representantes do povo decidem. A não imposição da disciplina do voto é, de facto, a solução mais democrática para este caso, se bem que, aquilo que se denomina por “unidade do partido” seja uma necessidade imperiosa para que se possam “contar espingardas” antes de ser tomada uma decisão.
É a tal coisa: a menos má das políticas
!...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A HUMILDADE

Reconhecer o que somos
não tanto como julgamos
hoje tal qual como fomos
é sinal de que estamos
conscientes da verdade
sem pensar em exageros
aceitar realidade
não entrando em desesperos
isso é a humildade
que só permite o pensar
que é sempre a igualdade
a abrir portas p’ramar

Dos outros não sermos mais
é dos cidadãos dever
se somos todos iguais
em vida e até morrer
só a sorte e circunstâncias
permitem nossos caminhos
não há lugar p’rarrogâncias
onde só cabem carinhos
ignorância aceitar
e que os outros saber menos
é humildade abraçar
à vaidade só acenos

Se eu ser humilde propago
gritando aos quatro ventos
a própria humildade estrago
entrando nos fingimentos
para se ser bem sincero
tenho qu’acreditar bem fundo
sem cair no exagero
de não haver neste mundo
quem seja senhor total
da ciência e do poder
e que atinja o ideal
em tudo que é o saber

MÉDICOS PRECISAM-SE



JÁ NADA nos pode surpreender no nosso País. Aquilo que pareceria impossível há uns anos atrás, ao surgir nos noticiários dos nossos dias actuais é recebido com pouca atenção. Tudo é natural!
Imaginemos que, num passado mesmo depois da Revolução, seria comunicado aos portugueses que o Ministério da Saúde iria recrutar mais algumas dezenas de médicos estrangeiros, por períodos de três anos, para actuarem nos centros de saúde nacionais, indo procurá-los na América Latina, sobretudo em Uruguai e Cuba, e isto porque existem cerca de 400 mil utentes portugueses sem médico de família. Seria normal, então?
Os serviços oficiais reconhecem agora que há muitos estrangeiros a exercer a profissão médica em Portugal, havendo mesmo cerca de 4.400 inscritos na Ordem dos Médicos, muitos oriundos da União Europeia, do Brasil e também da América do Sul.
Dada esta notícia, a pergunta que tem de ser feita é como foi possível ter-se chegado a este extremo sem que nenhum dos vários governos que passaram pelo poder, com diversos ministros da Saúde, tivesse sido capaz de levantar o problema de aliviar a entrada de estudante na Faculdade de Medicina, sabendo-se que as altas médias exigidas em relação ao curso secundário foram o maior impedimento para que se formassem bastantes profissionais da actividade médica. E sendo que, “fazer um médico” ocupa uma média de 10 anos desde que um candidato entra na área do ensino superior.
É certo que, infelizmente, não é apenas nesse sector que os homens que temos tido na área da política e a quem não são pedidas responsabilidades quando prestam maus serviços à Nação, que se notam constantemente falta de perspectivas em relação ao futuro, deixando-se chegar ao apuro absoluto para, só depois, se ir a correr remediar as situações, mas tudo tem de ter um máximo de suporte e os 36 anos decorridos desde o 25 de Abril são tempo demais para ainda poder haver paciência.
Toda a gente no nosso País sabia que a política do ensino médico estava em Portugal a ser mal conduzida. Não se levou em conta a realidade de que para ser um bom profissional da saúde não é o mais importante ter sido bom aluno nos liceus, mas sim a vocação de seguir essa via. E, sendo certo que nos cursos de medicina exista a maior exigência de aplicação, já que se obrigue a que as médias para entrar na respectiva faculdade andem médias dos 19/20 graus, aí ninguém explica que os bons clínicos tenham de ser bons “marrões”, por exemplo em geografia, história e literatura.
O resultado que tudo isto deu é aquilo que as noticias divulgam de que, em determinados hospitais, este fim-de-semana houve doentes que, na secção das urgências, passaram mais de uma dúzia de horas a aguardar por atendimento. E que vários centros de oncologia espalhados pelo País estão a ser encerrados, exactamente pelo mesmo motivo, a falta de clínicos que atendam os pacientes necessitados.
Cá estamos, pois, no caminho de que Cavaco Silva lançou o alarme. O de uma situação explosiva. Eu ando a avisar, neste meu blogue, mesmo antes do Presidente da República. Haja quem imagine sobre quem cá estará nessa altura, para apagar a luz e fechar a porta!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ACHAR

Nossa língua portuguesa
tem essa coisa de achar
e usa-a com franqueza
até poder encontrar

Eu acho, diz toda a gente
quando tem a impressão
sobretudo quando sente
que não é só ilusão

Achar o que alguém perdeu
não guardar por ser honrado
pode deitar mãos ao céu
por não ficar com achado

Receber confirmação
de algo que já se disse
é pedir opinião
não acha que é tolice?

Uma acha na fogueira
aumenta lume que existe
pode ser grande asneira
e tornar tudo mais triste

Acho eu, posso dizer
quando não tenho certeza
sem querer comprometer
também não faço surpresa

Não acha? Quero saber
para aplauso sair
só o sim me dá prazer
e já não volto a pedir

ADEUS À PESCA PROFISSIONAL



NÃO PODIA SER de outra maneira. Um País geograficamente situado com um oceano todo à sua volta, a Ocidente e a Sul, e as costas entupidas por um vizinho, tinha de ter na pesca uma fonte de rendimento que tem origem desde o início da nacionalidade e que, por ventura, já era prática das populações anteriores. Antes, pois, da exploração das terras como modo de vida dos habitantes, seguramente que os peixes que abundariam junto às costas constituíam uma forma de alimentação dos lusitanos, iniciando-se aí a saída para o mar salgado de embarcações que o homem foi construindo. De resto, esse terá sido também o início da tentação para a descoberta do mistério marítimo, o que deu ocasião depois à iniciativa histórica de ir investigar o que se passava para lá do que a vista humana alcançava ao contemplar a linha do horizonte.
Durante séculos, a prática da pesca constituiu uma maneira de subsistência de sucessivas famílias, especialmente aquelas instaladas nas áreas marítimas. E, para além dos espaços mais perto da costa, a busca de espécies mais rentáveis mas oriundas de mares longínquos levou a que os pescadores se aventurassem pelos oceanos adentro e se dirigissem para o Norte, sabendo-se que era aí que o bacalhau se desenvolvia e, por isso, tal especialidade começou a constituir um prato obrigatório dos portugueses. E até hoje, se bem que nesta altura não seja já um prato dos pobres.
Os séculos, os anos, os tempos foram passando e, para além dos vizinhos espanhóis, que também enveredaram por essa via da pesca profissional, outras nacionalidades desenvolveram, técnica e economicamente, a devastação dos mares, ao ponto de se ter chegado agora a uma situação que poderá representar o princípio do fim de muitas espécies, sobretudo porque a prática do arrasto não elimina a captura de peixes sem tamanho mínimo para terem interesse de consumo. Sobretudo os oriundos de países orientais, como o Japão, utilizando meios muito sofisticados, dedicaram-se à perseguição de pescados de grande porte, como baleias e tubarões, o que tem provocado alguma preocupação por parte do resto do mundo, que não consegue convencer essa gente de que faz mal em querer satisfazer a sua guloseima com o prato das barbatanas de tubarão.
Mas, no que diz respeito a Portugal, para não fugir à regra, também nesta área nos situamos numa posição inferiorizada, que não condiz com o passado marítimo de que somos detentores e com a escala que atingimos no campo da pesca profissional. Temos vindo a perder progressivamente uma posição que nos coube durante longos tempos. Começando por abater embarcações, a troco de subsídios recebidos da então CEE, não sendo capazes de encarar o futuro que nos surge agora, ficámo-nos pelo caminho. Haja quem se ufane por tais decisões de govrnantes que já nem se sabe quem foram!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A CONSCIÊNCIA

Será que isso é vulgar
que obriga a grande ciência
para neste mundo andar
pôr de parte a consciência?
Não tê-la sempre presente
até sem mostrar p’ra fora
é não querer ser prudente
falhando na própria hora

Ser consciente dos actos
antes de os praticar
evitando espalhafatos
que possam embaraçar
esse é princípio ideal
que muito ajuda a viver
e evita muito mal
impedindo de sofrer

Mas então a consciência
é coisa que se explique?
É mais do que uma tendência
mas de que não se abdique
é a forma de pensar
ver a fundo consequência
e não tem de hesitar
se é boa a consciência

O FISCO À ESPREITA



PROVAVELMENTE este tema não mereceria ser referido numa altura em que ainda estará muita gente embevecida pelas esperanças de que o ano novo em que entrámos trará perspectivas mais animadoras quanto à vida que somos forçados a levar. Mas, contrariando os que têm esta opinião, eu entendo que todos os portugueses devem andar sofrivelmente ao corrente do que se passa no nosso País, o que seguramente não sucede, pois a maioria dos habitantes deste cantinho na ponta da Europa não ocupa o seu tempo a procurar informar-se e a sua passagem pelo ambiente em que vivem não ultrapassa aquilo que a vista alcança e o pouco que consegue despertar o seu interesse através das notícias televisivas que, mesmo assim, alguma ideia, mesmo que vaga, deixam quanto ao que ocorre por esse mundo fora.
Quero dizer com isto, afinal, aquilo de que muita gente tem alguma ideia: que, dos dez milhões de habitantes que somos todos por cá, só uma pequena percentagem se preocupa em aprofundar os seus conhecimentos no que respeita aos problemas concretos com que Portugal se debate, deixando para os políticos, “para eles”, a responsabilidade de solucionarem o que constituir situações difíceis de enfrentar.
Só com a aprendizagem profunda do que é a Democracia, quando as gerações novas e as que estão para aparecer tiverem, nas escolas primárias, como disciplina obrigatória, o estudo teórico e a prática desse comportamento de que todos os cidadãos necessitam fazer um uso natural, e isso nas cidades mas igualmente nas aldeias mais afastadas, só então é que poderemos tomar consciência de que os cidadãos portugueses não se afastam do acompanhamento da evolução do nosso País, continuando a relegar para “eles” a única obrigação de não cometer erros de governação. Já aqui me referi, em blogue anterior, a esta necessidade de assegurarmos desde já o ensino obrigatório da disciplina da Democracia, preparando para o futuro as gerações de jovens que hoje frequentam as escolas primárias. Sim, as primárias, que é aí que se “torce o pepino”.
Toda esta introdução serve para sublinhar um facto que poderá passar despercebido e pouco interessante a muitos de nós, cidadãos. Parecendo que tem pouco a ver com a prática democrática, no fundo é mais um tema que diz respeito a Portugal e por isso encontra-se ligado a tudo o mais.
Trata-se da notícia de que o Fisco vendeu em hasta pública 26 milhões de euros de imóveis, para liquidação de impostos. E não ficou por aí a medida tomada pelo sector fiscal português. No ano que terminou, outros valores provenientes de salários, pensões e contas bancárias, num total de 7.095 execuções de penhoras e encontram-se em lista de espera para igual actuação, este ano, dezenas de milhar de bens, entre os quais 50 mil automóveis.
Não há dúvida que o sector do Fisco funcionou de forma profissional como seria desejável que todos os outros sectores da administração pública também tivessem mostrado a sua eficiência. Só que, infelizmente, não é esse o panorama com que podemos deparar em toda a vasta zona do funcionalismo do Estado. Desde os seus maiores, incluindo membros do Executivo, até aos mais baixos cargos, a forma de actuação é de pouca aplicação no seu trabalho e os atrasos que se verificam nas múltiplas repartições públicas - e de que a Justiça não é a única a merecer apontamento – é fruto de uma ausência de interesse e de aplicação que contribui também para o atraso do nosso País em diversas áreas.
Talvez se se verificasse uma mudança de funcionários, retirando do sector das Finanças para outros cargos aqueles que dão mostras de eficiência, fosse possível provocar uma sacudidela nas competências e nos interesses que andam moribundos por muitos sectores oficiais. É uma ideia, não sei se com pés para andar.
Agora, que a burocracia que trava tudo o que deve andar rápido é uma enfermidade instalada por cá, lá isso é. E por isso temos de nos admirar como o Fisco consegue ser tão célere.
Como se pode concluir, a prática democrática serve de base para tentar remediar tudo que funciona menos bem, pois que a abertura e o estímulo de discussão dos problemas obriga a que os visados pelas críticas tentem melhorar as suas actuações. O que leva é muitos anos e abrange múltiplas gerações, razão pela qual quanto mais depressa entenderem os governantes que não podem ficar a aguardar que os cidadãos aprendam, por si próprios, o que representa ouvir e respeitar as opiniões dos outros, melhor será para todos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MÚSICA MINHA PAIXÃO

Por eu não ter acertado
quando o podia ter feito
sem seguir caminho errado
e procurar o meu jeito
desconsolado me sinto
faltando-me qualquer cousa
pois que não é quando pinto
ou quando m’atiro à prosa
ou se me atrai a poesia
despejando no papel
ou nas telas fantasia
mesmo que saia a granel
não é aí que me sinto
feliz e realizado
se digo outra coisa minto
e mais vale ficar calado

O que eu conservo é isso
guardado dentro de mim
como sendo um feitiço
bem pegado até ao fim
é que bem fundo a paixão
que vem comigo do berço
que a tenho no coração
e com a qual eu converso
é a música, só ela
a boa que faz chorar
que do alto, qual estrela
não me deixa nem pensar
tocada por instrumentos
saída da voz humana
mostrando bem os talentos
se é boa não engana

Como gostava ser eu
a compor as sinfonias
que ouvi no Coliseu
usando das revelias
para entrar sem pagar
e nos degraus da geral
me podia regalar
a ouvir tão bem tocar

O que havia que fazer
perante tal apetite?
Era preciso aprender
sem precisar de convite
como o dinheiro era escasso
e o tempo também faltava
havia que dar o passo
para onde se ensinava
e havia uma Academia
de Música p’r Amadores
onde estava quem sabia
merecia até louvores

Ali aprendi solfejo
com o padre Borba, Tomás
e nunca dei um bocejo
e até fui bem capaz
de entender bem as pautas
mas tocar isso não pude
pois piano não havia
e não tive a virtude
d’ultrapassar arrelia

Fiquei-me pois por ali
pensando que num futuro
o dó, ré, mi, fa, sol, la si
não estariam no escuro
e que uns anos depois
dominaria tal arte
como um e um serão dois
esse seria o estandarte
o fulgor da minha vida
que nada mais me atraia
e que até minha partida
felicidade seria

Não foi o que sucedeu
só de longe extasiado
sem conseguir tal troféu
fiquei como o mal amado
mas tudo que fui fazendo
só com música ao fundo
para me ir convencendo
que era o único no mundo
que me enchia as medidas
que o que não alcancei
com as outras cometidas
na música seria rei

Ter ilusões é melhor
do que perder esperanças
eu morro com esta dor
depois de tantas andanças
fico-me entregue aos papéis
com prosa e poesia
e às tintas e pastéis
tudo sem grande mestria
e se alguma coisa vale
à musica sempre presente
devo o quase ideal
que lá sai da minha mente

Mas perdoem a vaidade
que eu não poso esconder
será um mal da idade
que comigo vai morrer:
se compositor eu fosse
e aquilo que eu invento
com o amargo e doce
do que é um monumento
saísse nas minhas pautas
fosse cantado e tocado
não esquecendo as flautas
daria enorme brado
por todo o mundo de Cristo
e até com a minha voz
mesmo com o meu registo
mostraria a todos vós
que o que por aí anda
a arrepiar os ouvidos
levaria uma desanda
pois não são mais que gemidos

Tinha que isto dizer
revoltado como ando
com quem vive a ofender
isolado ou em bando
o que música tem belo
pois o só fazer barulho
para além de um flagelo
só constitui um entulho
que se junta ao outro lixo
que os homens por cá deixam
e com o malvado bicho
só os outros se queixam

Aqui deixo o meu protesto
se na música não entro
pois que com este meu gesto
mostre a revolta por dentro

LIVROS QUE SOBRAM



NESTE começo de ano, fartos como temos de andar de deitar as mãos à cabeça perante as desgraças que nos rodeiam por todos os lados, dando razão ao Presidente da República quando se disponibilizou para apontar erros e tentar incutir nos políticos o espírito de colaboração no sentido de todos contribuírem para solucionar os problemas da Nação, vou aqui deixar uma ideia que, não sendo original, pelo menos tem o mérito de ser positiva. E vale a pena ser repetida.
Tem a ver, sobretudo, com as editoras. Como é sabido, todos os anos as edições de livros atingem números que se situam nas casas dos milhares, mesmo sabendo-se que o número de exemplares, em média, que cada obra alcança não vai muito acima dos mil cópias. Existindo, claramente, as excepções, que são aquelas edições que se sabe antecipadamente que são mais procuradas pelos leitores.
Dentro deste panorama e sobretudo porque também se verificam preferências de directores de edição que não são fáceis de explicar, aquilo que se chama de “sobras”, ou sejam exemplares que não conseguem ser vendidos nas livrarias e que se acumulam nos armazéns para serem depois destruídos, atingem números enormes. E o caminho desse entulho é o da reciclagem que, menos mal, ainda se traduz por um certo aproveitamento.
Agora, aquilo por que eu tenho lutado desde que, de longa data, me preocupo com a divulgação da língua portuguesa é com a expansão da literatura no nosso idioma, especialmente para os países onde a lusofonia se pratica, é, de concreto, o da distribuição para essas zonas de tudo o que sobre de edições que já não têm aproveitamento de venda em Portugal.
Agora, a forma de pôr em prática esta iniciativa ultrapassará a simples vontade de o fazer. E aí, julgo eu, deveriam intervir os ministérios da Educação ou da Economia e o dos Negócios Estrangeiros, pois as editoras, por si só, necessitarão de ser ressarcidas dos montantes referentes à venda dos livros para reciclagem e, por outro lado, a entrega das obras aos países de língua portuguesa terá de obedecer a um critério e a um acordo pré-estabelecido, por forma a existir a garantia de que o final de utilização de tal literatura será o da expansão do português onde ele precisa de ser enriquecido.
Aqui deixo, pois, uma sugestão que o Governo, este e os anteriores, nunca deram mostras de pôr em prática. Não se trata de nenhuma extravagância que ponha em risco os cofres do Estado e, por outro lado, presta um serviço linguístico de grande valia.
Mas os homens do poder andam muito preocupados com outros assuntos que consideram de muito mais urgência e, dentro da suas opções, ainda não chegaram a um degrau tão pouco valoroso em votos como é o da expansão da língua portuguesa. Existem causas muito mais preocupantes para os Senhores deste e de anteriores Executivos. Por exemplo, o mais recente que é o dos casamentos “gay”. Sempre é mais preocupante isso do que o ver o nosso idioma bem infiltrado nos locais que descobriram os nossos antepassados e que deixámos ir ao Deus dará, quando não soubemos encontrar uma solução pacífica para os entregar em boas mãos e sempre com o nosso apoio…

domingo, 3 de janeiro de 2010

A REVOLUÇÃO

25 de Abril

Quem está perto dos quarenta
nascido à volta da data
que por cá se aguenta
nesta vida tão ingrata
tem este tempo na mente
e dele nunca se esquece
porque no fundo bem sente
que o festejar merece

Mas não viveu na altura
o efeito da diferença
não estava já na moldura
dos que sofreram doença
da ditadura teimosa
do come e cala e mais nada
de uma vida medrosa
que assim tinha sido herdada

Aprendeu tudo a seguir
do passado conhecia
só que podia ouvir
e era o que percebia
como tinha sido antes
mesmo que mal contado
por antigos apoiantes
do que foi o triste fado
pois que na volta da folha
do calendário fiel
não havia outra escolha
que pegar-se bem ao mel

E assim naquele dia
a maioria aderiu
agarrou sua fasquia
convencida aplaudiu
era algo que chegava
pior não podia ser
do que então acabava
e que estava a apodrecer
por isso bem vinda a nós
a boa Revolução
porque o que vem após
há que agarrar em festão
e seja o que Deus quiser
logo se vê o que passa
como mudar de mulher
e retirar a mordaça

E passada a confusão
daqueles meses de início
em que muito aldrabão
quis tirar seu benefício
parecia que lá íamos
conquistando a alforria
e que assim conseguíamos
chegar à Democracia

Mas não é em trinta anos
que se aprende a assumir
que causar aos outros danos
pode ser o destruir
da igualdade total
aceitar opiniões
ser-se em tudo liberal
mesmo nas religiões
faz falta à juventude
crescer e isso aceitar
e mostrar tal atitude
já no primeiro falar
E com caminhar dos anos
entender a liberdade
mesmo com uns desenganos
vai mostrando a verdade
de que como alguém dizia
ao olhar para os sistemas
de que a Democracia
é menos mau dos esquemas

Porque o Homem esse ser
não deixa haver melhor
está dentro do seu qur’er
nunca perder o pendor
de ficar só com o bom
ao próximo não deixar
mais do que um simples som
que reste do seu bem-estar
o tal não dividir
e só p’ra si tudo querer
não deixa poder cumprir
nem chegar a entender
o bem da igualdade
de não haver diferenças
em toda a Humanidade
sejam quais forem as crenças

Ao terem por fim passado
três décadas do Abril
teremos aproximado
do verdadeiro perfil
que a Revolução sonhara
um Portugal vaidoso
que para trás deixara
o que era pavoroso?

Se isso se alcançou
os que antes conheceram
vêem bem o que mudou
e aos que depois nasceram
alguma coisa explicam
mas sem poder comparar
na dúvida sempre ficam
custa-lhes a acreditar
que era essa a nossa vida
no meio de tanto mal
não havendo outra saída
para o nosso Portugal

O que resta é saber
se o dia-a-dia de agora
tem alguma coisa a ver
com o que naquela hora
os da revolta queriam
dar felicidade ao povo
nem sei se eles sabiam
o que saia do ovo
o estado a que chegaríamos
com ou sem crise que há
sim ou não conseguiríamos
estar melhor do que está.

Pode ser que o futuro
se apresente noutro tom
e que caia enfim o muro
que não deixa ouvir o som
que outras democracias
mais antigas e seguras
nos mostrem as mais valias
de políticas mais puras
com mais anos de vivência
mais gerações assumidas
não pequem pela ausência
de posições bem paridas

E se a nossa juventude
souber assumir o bem
e com vera atitude
apreciar o que tem
então talvez o futuro
se apresente melhor
e que todo aquele apuro
que hoje é um horror
se transforme em oração
e que os que não viveram
a época da Revolução
bendigam os que fizeram
o golpe da nossa História
e eles que não nós
cantam bem alto a vitória

Sim, porque há que bem dizê-lo
nós os que vivemos hoje
apanhámos o farelo
os restos para quem foge
sofremos o que foi antes
sentimos todo o depois
e mesmo sendo amantes
somando os dois com dois
apanhámos com dois males
um que acaba de partir
e outro a pedir embales
sem saber bem onde ir

Cá estamos, pois, a aguardar
a melhor consolação
não vale a pena chorar
que viva a Revolução!

SITUAÇÃO EXPLOSIVA



AS 24 HORAS que passaram sobre o momento da mensagem de Cavaco Silva, marcando o início do Ano Novo, deram tempo a pensar, mais pausadamente, sobre o que se pode interpretar das palavras que o Presidente da República dirigiu à Nação. E eu tenho estado a reflectir seriamente sobre as preocupações, que foram bem explícitas, e com que o Supremo Magistrado de Portugal quis, por fim, marcar a sua posição.
Como escrevi ontem, não se me pode apontar uma grande dissonância entre o que eu tenho vindo a escrever neste meus blogues diários e aquilo que Cavaco Silva não fez por esconder. Mas, uma coisa é o que um cidadão expõe e outra, bem mais importante, é o que o Homem que ocupa o primeiro lugar na hierarquia do Estado decide tornar público.
Ora, para começar, quero chamar a atenção para uma possibilidade que deixei expressa e sobre a qual recebi alguns comentários de desagrado. Trata-se do enorme perigo de uma tomada de posição oriunda de extremos políticos que leve a que os cidadãos, perante a impossibilidade de solucionar as aflições que nos atingem a quase todos, se envolvam numa situação explosiva, tal foi a frase usada por Cavaco Silva no seu discurso.
Por outras palavras e para ser completamente claro, o que se quer dizer com este aviso é que, perante o descalabro de, quem sabe, se chegar ao ponto de não haver dinheiro para suportar as reformas – e este probabilidade, mesmo que afastada por agora, não pode estar situada fora dos horizontes financeiros -, nessa altura tudo é possível prever, posto que, como diz o povo, “casa onde não há pão…”. E, nesse momento, ao não haver Democracia que suporte o descontentamento levado ao rubro, aparecer um dos habituais “salvadores de pátrias” é suficiente para se implantar um regime político de força, cheio de promessas de que a solução existe.
Por outro lado, o endividamento do Estado que não pára de crescer e que terá de ser enfrentado na altura em que se vir o vazio da gaveta, sobretudo porque este Governo, agora e já antes, não consegue dar mostras de saber reduzir os gastos públicos, quando há ainda tanto sector onde é possível economizar. E eu aqui tenho deixado alguns exemplos desse exercício fundamental.
Em igual escala se encontra o malfadado desemprego que continua a provocar o pavor nas famílias portuguesas, pois com um número que vai a caminho dos 600 mil trata-se de um mal que poderá já estar a influir no mau comportamento de muitos cidadãos que, na falta de meios para sustentar os seus, se poderão ver na contingência de serem apanhados pela criminalidade. E Cavaco Silva, sem ter entrado em pormenores, terá dado uma amostra deste perigo que se situa na área social.
Não nos podemos já queixar, a partir do momento em que o Presidente resolveu falar abertamente aos portugueses, de que não existe ninguém bem situado no panorama político nacional que deixa os cidadãos do nosso País entregues a si próprios. Pelo menos podemo-nos agarrar ao consolo de que as verdades são ditas e que os culpados pelas consequências do mau momento que estamos a passar, esses, mesmo não sendo indicados os seus nomes, ficam registados para a História, quando ela for redigida.

sábado, 2 de janeiro de 2010

AMOR DE PARDAIS

Quatro pardalinhos brincam no chão do meu jardim
picam a terra com entusiasmo
e eu olho-os com ternura
pensando no mundo dos homens
desses que se guerreiam uns aos outros
e não confraternizam como estes pássaros
não dividem o que há para comer
são egoístas, querem só para si

E estes pássaros inocentes
que não sabem o que é pecado
que só procuram defender-se
dos que são gulosos
dos que apreciam o petisco
dos passarinhos fritos
saltitando, piando
lá vão apanhando as migalhas que
sem querer
os homens deixam cair

Que bom seria
se o mundo fosse todo como o dos pardais
dividindo o amor e as migalhas


CHEGAR A ACORDO



LOGO APÓS a entrada do Novo Ano e passadas as manifestações que são habituais sempre que se pretende celebrar um acontecimento com data estabelecida, tudo regressa ao habitual e começamos novamente a vida de todos os dias. Neste caso, também se tratou do habitual a intervenção do Presidente da República só que, neste caso, e dando-me a mim a impressão que deu ouvidos ao que eu tenho proclamado neste meu blogue – claro que se trata de uma afirmação sem responsabilidade -, veio esclarecer os portugueses da sua posição, mostrando que se encontra bastante preocupado com as coisas como estão a correr em Portugal e dando ocasião a que cada um no seu lugar faça o exame de consciência que julgar conveniente para deduzir se lhe cabe alguma responsabilidade no estado em que nos encontramos.
É evidente que o Chefe do Estado, de acordo com a nossa Constituição, tem pouco poder de intervenção nas acções governativas, só lhe restando que, em última e derradeira atitude, se veja forçado a dissolver o Parlamento e, com isso, a queda do Governo e a realização de eleições legislativas antecipadas. E foi por isso que Cavaco Silva terá tomado a decisão de sublinhar os graves problemas que nos enredam, desde o elevadíssimo desemprego, até às dívidas públicas, sobretudo ao estrangeiro, à falta de produtividade e a situação de desconforto que nos coloca em posição pouco abonatória no panorama económico, financeiro e social europeu. E se não se referiu concretamente nos mais de dois milhões de pobres que as estatísticas já apontam no nosso espaço, nem foi necessário entrar nesse pormenor, mas todos nós temos obrigação de contribuir para que não se chegue ao extremo, tanto mais que se iniciou no dia 1 o Ano Europeu contra a Pobreza e a Exclusão Social.
Mas foi importante que Cavaco Silva tivesse orientado o seu discurso na direcção da falta de entendimento que se tem verificado entre o Executivo do PS e as Oposições que se têm mostrado pouco dispostas a ajudar o teimoso do José Sócrates a dar indícios de alguma maleabilidade, pois que uma coisa for ter governado com maioria absoluta e outra, completamente diferente, é encontrar-se agora muito dependente de acordo com os partidos que ocupam o Hemiciclo.
O recado que foi deixado perante as câmaras de televisão não deixa dúvidas no que respeita às responsabilidades que cabem a todos e, para bom entendedor, ficou explícito que devem ser feitos todos os esforços para que o Orçamento Geral do Estado, apresentado pelos socialistas, após as rectificações possíveis, passe as malhas do Parlamento, se bem que, posteriormente, existam maneiras de ir melhorando as várias especialidades ali presentes, de forme a satisfazer todos os apetites e sem pôr em causa o interesse nacional.
Isto, numa primeira análise. Porque, a pouco e pouco, como manda a Democracia, se podem ir discutindo pormenores, sempre dentro de uma ausência de teimosias doentias, posto que é com uma maioria relativa que se dá mostras de saber governar e de ter capacidade para ouvir as opiniões dos outros que, muitas vezes, são melhores do que as nossas.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

PAZ Á SUA ALMA

Com tanta desgraça que o mundo mostra,
diariamente,
persistentemente
ao tomar conhecimento daquilo que o Homem é capaz de fazer, com indiferença, lendo as notícias e passando à frente como assunto que não lhe diz respeito,
a pergunta que talvez valha a pena fazer
é se este caminho da humanidade pode conduzir
a algo que aponte para uma melhoria, para uma
aproximação da felicidade,
para conduzir a que, após tantos séculos de sofrimento,
o ser humano acabe por compreender
que, sobretudo os dois séculos mais recentes,
não contribuíram para que se tivesse parado para pensar e para concluir que
o avanço tecnológico que
se foi efectivando
só contribuiu para tornar ainda mais malvado o interior do Homo Sapiens.
Este último período dos cinquenta anos,
esses então só serviram para comprovar que
a idade, a sapiência, a descoberta de novos valores,
a experiência do antes vivido,
nada disso foi benéfico quanto à melhoria
das qualidades humanas que são essenciais
para que todos dêem as mãos
e acabem, de vez, com as quezílias,
com as invejas,
sobretudo com os orgulhos,
essa palavra que se encontra agora tanto na moda
e que, em lugar de ser uma qualidade,
se trata sobretudo de um defeito perigoso.

Perguntem lá a todos aqueles
que foram vítimas, recentemente, dos bombardeamentos, de um lado e de outro,
na Faixa de Gaza ou em Israel,
se serviu para alguma coisa terem estado vivos.
E os que sofrem as epidemias por esse mundo fora?
E os que dormem nas ruas,
por não terem onde acolher-se?
E aos que ficaram sem emprego
nesta fase dramática da crise?
Que fazer com todos esses milhares de milhões
de gente sem trabalho?

Não pode haver esperanças quanto ao futuro,
os que ainda dispuserem de alguma consciência
só lhes restará irem-se defendendo e
procurar não aumentar ainda mais
a massa de gente
imprópria para consumo

Os optimistas pensam isto mas ao contrário.
Pois que sejam felizes assim.
E que tenham a sorte de ir caminhando para outro mundo
Com a convicção de que
o que fica vai sempre melhorando.

Paz às suas almas.

COMEÇAR DE NOVO!



NESTE primeiro dia de Janeiro do ano que entra parece que mandam as regras que apenas desejemos aos parceiros desta vida que tudo corra pelo melhor. Enterremos o que acaba e arregacemos as mangas para o que surge.
Sendo assim, não é possível ignorarmos as principais dificuldades que nos esperam. Se não fizermos caso, então é que tudo continua na mesma se não até mesmo piorar.
Vou juntando, com o correr dos dias, recortes de jornais que me servem para poder fazer o balanço da situação que vivemos em Portugal, já que o que ocorre nos países que prosseguem belicosos isso não está nas nossas mãos fazer mudar. E, com esse egoísmo deparo, por exemplo, com as últimas notícias que, queiramos ou não, não irão alterar-se muito ao longo dos 365 dias que se deparam no panorama. E não posso deixar de referir um discurso pronunciado pelo ex-ministro da Economia, Manuel Pinho, aquela que pôs os dedos na cabeça para imitar uns cornos, em que, com grande ênfase – que é o que sucede com o próprio Sócrates e com os seus companheiros de Governo -, em que pronunciou a frase de que “daqui a 15 anos o mundo vai lembrar-se de nós, por sermos os pioneiros”, isto no que se referia à criação de energia a partir das ondas do mar, num chamado pomposamente Parque de Ondas de Aguçadoura, e em que o investimento público durou 3 meses, pois avariou-se e por ali ficou tudo abandonado. Isto um exemplo.
Também continuaremos a contemplar os vários campos de futebol que foram construídos por esse País fora, em Braga, Faro/Loulé, Coimbra, Aveiro e Leiria, que constituem uns “elefantes brancos” de que ninguém se apresenta como responsável. No fundo, trata-se de mais um daqueles hábitos nacionais de fazer primeiro e pensar depois, pelo que se tem de descobrir em 2010 que destino se encontra para tamanho disparate. O que também ninguém é capaz de solucionar é o escândalo do Banco Privado Português, em que está muita gente desesperada por ter perdido as suas economias depositadas naquela instituição de crédito e que, pelos vistos, não vai ser durante o ano que começa agora que o assunto fica solucionado por quem tem de ter poder suficiente para o fazer.
Quantas perguntas ficam sem resposta neste início de 2010, sendo difícil fazer caber todas no espaço reduzido que aqui tenho. Será desta que deixamos de ouvir os enfadonhos problemas, como o dos professores que não param de estar descontentes e da Fenprof com o seu secretário-geral que faz das reivindicações a sua vida? E, mais grave ainda do que isso, vão realizar-se ou não eleições antecipadas, exercendo Cavaco Silva o seu direito de dissolver o Parlamento ou será que Sócrates mete na cabeça que lhe é fundamental mudar de atitude e conseguir entender-se com as oposições? Por outro lado, será no próximo período que o PSD encontrará o seu caminho e surge a acalmia intestina que tanto precisa? No campo da Justiça, alguém meterá a mão sabedora e de bom senso por forma a que termine a vergonha nacional em que vivemos e, por exemplo, se ponha fim ao julgamento do fastidioso caso Casa Pia e o Freeport também seja encerrado, para não falar já do da Face Oculta que enjoa ouvir ser referido? E o desemprego, esse mal social que pode acarretar até alterações no regime político, será este ano que aí vem que marcará a redução indispensável?
Isto no que diz respeito ao nosso País, porque na área internacional e embora nos diga respeito, directa ou indirectamente, é caso para nos interrogarmos se a União Europeia consegue finalmente um entendimento de fundo, de molde a que todos os países situados geograficamente no espaço que lhe pertence caminhem todos no mesmo sentido e sem pretensões de uns quererem ter mais privilégios do que os outros. Isto para não referir as guerras que não há forma de terminarem por esse mundo fora. E enquanto houver ditadores, sejam eles de que cores forem e tenham as opções religiosas que tenham, esse desejo parece não ser possível ver realizado.
Como seria bom que este meu blogue, por ser redigido numa data em que é costume celebrar-se a esperança e com votos de felicidade, seguisse a norma habitual e enunciasse apenas os assuntos que deveriam dar razões a que nós, portugueses, nos congratulássemos por viver num local que representasse a porta de entrada num paraíso terrestre, já que, geograficamente, nos situamos na ponta do Continente, do lado do Oceano.
Mas olhem, eu não consigo formar uma lista de bons augúrios para 2010. Por isso, ao contrário do Sócrates que continua a pensar que vive num País cor de rosa e só se lambe a ele próprio com as vanglórias do que diz ter conseguido ao longo dos últimos anos, eu, que deveria ter a coragem de mentir – para dar razão a Fernando Pessoa que disse que os poetas sãos uns grandes mentirosos -, não consigo fazê-lo. É que estes textos do meu blogue não são poesia. Essa segue aparte

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

APODRECER

Como ele passa, o grande atrevido
Nem nos dá descanso para pensar
O que fica p’ra trás cai no olvido
Tudo se conjuga no verbo amar

Mas esse tempo, o tão necessário
P’ra levar a vida que nos impõem
Acaba por ser enorme calvário
Da via que os outros nos dispõem

Tal como um verme, rói-nos e tortura
Vai corroendo a carne e a alma
Quase nos tira o que é bom de viver

E é do lado de cá da sepultura
Com o seu tempo e sem perder a calma
Que nós começamos a apodrecer


FIM DO ANO


ALELUIA! Um novo ano está aí. É à meia-noite que, de baguinhos de uva numa mão, subindo a uma cadeira, com o porta-moedas com uns trocados na outra mão, que o portuguesinho da silva repete aquilo que fez durante toda a sua vida e viu fazer aos pais e até aos avós. E, em silêncio, faz um pedido que, naturalmente, dirá respeito ao seu sucesso no trabalho, à saúde que aspira sempre ter, para si e para a sua família mais chegada e a qualquer outra situação que conserva só para si.
No fundo, trata-se de enterrar o que ocorreu e de abrir portas de esperança para o que vem a seguir. É sempre assim. O Homem, por muito mal que seja tratado enquanto se arrasta por este suplício da vida, no fundo arrecada permanentemente a aspiração de que o que vem depois compensará o que de ruim teve de suportar. E até os miseráveis, os que não têm cama para se deitar nem prato com comida, mesmo esses suportam no seu íntimo a ânsia de que as coisas irão mudar. E o começo de um ano novo traz sempre essa espécie de milagre que não dá felicidade apenas aos outros. Por isso se diz que a esperança é a última coisa a morrer.
Sendo assim, por cá, por este País que anda azarado desde há muitos anos, há décadas, talvez há séculos, que não foi capaz de tirar partido das qualidades do seu povo, paciente, resmungão mas que lá vai fazendo, descobridor mas não sabendo tirar partido daquilo aonde chegou primeiro, com uma posição geográfica invejável no Continente Europeu mas não sendo capaz de beneficiar dessa situação, com grande História mas com confuso futuro, este País, chamado Portugal, entra em 2010 à procura do pé que deve colocar à frente, o Esquerdo ou o Direito, e, atrapalhando-se, metendo os pés pelas mãos e escorregando na passadeira da entrada.
Mas entremos. À porta não podemos ficar. E sejamos capazes de desembrulhar o pacote que nos espera pendurada na aldraba. Por muito que surjam os alertas amarelos, primeiro, e vermelhos, depois, isto devido às consequências das subidas dos caudais dos rios e das chuvas intensas que resolveram inundar várias partes do País, mesmo assim, depois de tanta água e precisamente a seguir a um período recente em que os agricultores se queixavam de que não tinham água para dar de beber aos seus animais – é sempre assim, ou excesso ou falta, mas nunca o bastante -, apesar disso tudo os aleluias são cantados, pelo menos para dentro, porque o suicídio não se pratica com facilidade e o que se tornou um destino dos portugueses é o aguentar, aguentar, aguentar…

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

CANSADO

Estou cansado do que fiz
do muito que já foi feito
ter querido o que não quis
levado coisas a peito
no fundo
confundo
o que neste mundo
é sempre segundo

Queria coisa melhor
ter vaidade numa obra
com a escrita ou pintor
mostrando arte de sobra
ser primeiro
de pé, pinheiro,
sem berreiro
bom viveiro

E se eu não me acredito
se ao alto eu não cheguei
o muito que deixo escrito
eu nunca renegarei
seja o que for
é suor
algum amor
muita dor

Mas a busca do talento
aquele que nunca fica
causa grande sofrimento
nem sempre se justifica
quem procura
com agrura
vive numa tortura
pode cair na loucura

Fatigado eu estou
mas se paro por momentos
já não sei p’ra onde vou
encontro outros tormentos
prossigo
castigo
afadigo
me obrigo

O que não quero é queixar-me
não vale já a lamúria
o que posso é castigar-me
rogar por génio com fúria
combater
querer vencer
e se perder
refazer

Chegado a esta altura
com tantos anos p’ra trás
este vício não tem cura
e mudar não sou capaz
aguentar
sem queixar
esperar
por outro ar

Cansado lá isso estou
p’ra isto não há remédio
eu sei bem p’ra onde vou
libertar-me deste tédio
então adeus
sonhos meus
enfiados nos seus breus
tapados por negros véus



ATÉ À PRÓXIMA!...


TENHO VINDO a ocupar este período de aproximação do final do ano de 2009 com uma série de textos que, valha a verdade, não se podem classificar como pertencendo ao grupo dos optimistas. Mas quem dá aquilo que leva dentro de si e não se esconde atrás de precisões que só servem para enganar, na minha opinião só merece elogio e não para ser alvo de crítica. Um não dito a tempo e sendo sincero é preferível a um sim enganoso até mesmo a um talvez que cria expectativas e +provoca depois um destruidor desengano. Quem já sabe com aquilo que conta tem tempo para se prevenir e procurar outro caminho, aquele que fica sempre à espera e não sai do mesmo sítio é normalmente a vítima que culpa os parceiros por não ter sido avisado com franqueza.
Daí eu despedir-me de um período que ocupou a nossa vida, que foi preenchido na maioria dos casos mundiais com sobressaltos e poucas notícias agradáveis e que, por isso, embora tenha gasto o espaço de um ano que poderia ter sido utilizado com outros acontecimentos que nos deixariam boas recordações, não creio que fique na História da Humanidade como algo a recordar, deixamo-lo e entramos no 2010 com naturais expectativas de coisa melhor.
Mas, enquanto caminhamos para as 0 horas do dia 31 de Dezembro, não podemos deixar de sublinhar as situações que, sendo as últimas que nos chegam através das notícias, por isso mesmo as colocamos no tapete da porta de saída.
Aquilo de que se falou tanto neste dia foi a da falta de carros para o serviço da Polícia que faz investigação e que, nesta altura, há uma falha de mais de 100 viaturas para atender às necessidades da população. Tomar conhecimento deste caso quando existem tantas viaturas que passam os dias estacionados ao serviço de altas e menos altas figuras da administração pública, grande número delas com motorista próprio a aguardar as ordens de suas excelências, assim como se sabe que, frequentemente, são confiscadas tantas viaturas pelos serviços fiscais e pelas autoridades que as confiscam por motivo de serem utilizados pelos não cumpridores das leis correntes (em assaltos, etc.) e de que não se sabe onde vão parar, se existisse uma organização capaz de dar seguimento às paralisações burocráticas (ou outras) e de suprir as necessidades com inteligência, sabendo-se que isto se passa e agora ficarmos a saber que as polícias andam com automóveis que já não cumprem o que deles se exige é coisa mesmo de um País como o nosso que não há forma de solucionar os seus próprios problemas.
Bem se compreende que se tome conhecimento de que alguns líderes partidários escolheram lugares no estrangeiro para passar as festas do fim do ano. José Sócrates, Paulo Portas e Francisco Louça, da Esquerda e da Direita, vão fugir de Portugal para ganhar forças que cheguem para enfrentar os múltiplos problemas que nos vão apoquentar em 2010.
Ao menos têm dinheiro para essa extravagância, se bem que, há que dizê-lo, não se trate de uma atitude muito patriótica. Mas lá isso, bem prega Frei Tomás…
E só uma coisinha para despedida: afinal, o Hot Club de Portugal, cujas instalações arderam e que a Câmara Municipal ofereceu um espaço no Cinema S. Jorge para poderem prosseguir com os seus concertos, acaba por ficar sem local. Um desentendimento à portuguesa não solucionou, por agora, o problema. Fiquei contente na altura e deixei de ficar!...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

POUCA SAÚDE

A saúde é uma graça
que quem a tem agradece
porque quando ela é escassa
a vida não apetece

E que haja quem ajude
a quem lhe falta a saúde

Quando lá longe anda ela
é que se lhe dá valor
há quem lhe acenda uma vela
p’ra não sentir qualquer dor

Só p’ra fugir da doença
aceita-se qualquer crença

Quem não é de meias contas
e os extremos prefere
apenas agarra as pontas
e mostra algum saber

Sendo a saúde uma espuma
mais vale não ter nenhuma

NÃO SABEMOS VENDER



ANDO-ME A DESPEDIR de 2009 já há alguns dias. É que é grande a minha apetência de esquecer o que foi este período de más novas com que nos defrontámos sucessivamente. O que é mau é para esquecer. Por outro lado, também já estou farto de, ao longo dos anos, emitir uma opinião, quer no tempo em que a Censura não perdoava e me cortava as opiniões, mas também depois, em plena Democracia, em que tenho vindo a insistir com tal tese, mas com uma razão que pouco interessa aos que não estão dispostos a analisar as nossas características como portugueses que somos, habilidosos para umas coisas mas, para outras, de que não damos mostras de ter o menor jeito. E esta lamúria refere-se à antiga mas infeliz medida tomada pelo rei D. Manuel I, quando decidiu expulsar os judeus que não aderiram ao catolicismo, tendo partido grande parte deles para a Holanda, que muito ficou a ganhar com essa entrada de gente bem preparada e sabedora das artes de vender, não interessando para nada a religião que processavam.
Explico-me então: a partir daí, mesmo tendo sido grandes descobridores por esse mundo fora, nunca fomos capazes de tirar partido do que passámos a dominar, dos locais onde nos instalámos, das riquezas que por lá foram encontradas. E até os diamantes de Angola, por exemplo, foram fazer a riqueza de uma família judia, instalada em terras nórdicas da Europa, a qual, até hoje, conserva esse negócio e fá-lo com enorme competência.
Mas adiante. O que é verdade é que, mesmo com a desculpa de que nos encontramos situados geograficamente na ponta do Continente Europeu, longe dos centros de grande movimentação de muitas mercadorias, sobretudo as agrícolas, o certo é que não podemos negar a realidade. E esse é de que não nos sentimos vocacionados para introduzir junto dos potenciais compradores estrangeiros os produtos que, mesmo mal estudados no que se refere às suas características de se adaptarem às preferências dos potenciais interessados, ainda assim poderiam caber numa mancha de mercado que existirá se for convenientemente convencido.
Mas não é isso que se passa. Na área da agricultura, por exemplo, sendo o nosso clima propício a, no que diz respeito a novidades de estação, apareçam com algumas semanas de adiantamento, não somos capazes de usufruir dessa vantagem. E eu sei do que falo, já que fui director da revista “o País Agrícola” e lutei, na altura, pela introdução de uma genica actualizada por parte das cooperativas agrícolas que existem, em demasia, por esse País fora, e nunca consegui motivá-las. E nem ao Ministério respectivo, em que os nossos engenheiros agrónomos gostam mais de estar sentados e bem engravatados por detrás das secretárias, em lugar de sujarem os sapatos nas terras. Ao contrário, por exemplo, do que se passa em Israel!
Mas, só no fim deste texto é que me refiro à razão por que escolhi hoje este tema. É que Basílio Horta, actualmente presidente do AICEP (um organismos que deveria funcionar meticulosamente por forma a abrir portas no estrangeiros para os nossos produtos e consiga conquistar capitais de fora para serem aplicados entre nós), veio declarar publicamente que há investimentos estrangeiros em risco de desaparecerem, em virtude de um novo regime fiscal criado para atrair investimentos do exterior para serem canalizados para Portugal, em virtude de não ter o Governo definido ainda as actividades abrangidas por esse novo regime (publicado em 22 de Setembro e com efeitos retroactivos a 1 de Janeiro de 2009), existem vários projectos que estão em risco de serem desviados para outros países.
Para quê, pois, andarmos a discutir pequenos problemas que, às centenas nos rodeiam, se os grandes, aqueles que representam, na verdade, uma possibilidade de abrir portas ao relacionamento com empresas estrangeiras que podem vir criar trabalho no nosso País, esses, a burocracia, a mandriice nacional, a nossa estupidez crónica não permitem que consigamos sair desta molenguice em que vivemos?
E é assim. Nem fazemos nem criamos as condições para mudarmos de incapacidade de vender, de progredir, de sairmos da trampa (e não tenho medo da palavra) em que estamos atolados.
Que o ano que vai ficar para trás não nos deixe muita marcas de molde a ficarmos agarrados a métodos que não servem para o futuro é o que me resta desejar nesta altura.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DESPEDIDA


Dizer adeus sempre é pena
ver partir os que gostamos
nunca se esquece tal cena
mesmo passados os anos

Por mais longe que eles vão
p’ro Além ou cá na Terra
os queridos partirão
a dor em nós se encerra

Por muito que seja dura
e grande a nossa dor
na hora de despedida

O tempo os males cura
diz o povo sabedor
que conhece bem a vida



ADEUS!...



O ACTO da despedida é, de uma forma geral, algo que provoca tristeza, que causa um sentimento de pré-saudade, de desejo que não suceda muitas vezes. Desta vez, porém, verifica-se uma partida e a sensação que nos deixa a quase todos – isto sou eu que o digo, por me parecer que se trata de uma opinião bastante generalizada – é a de que nos causa alguma sensação de alívio. Pois que vá e não volte!
Dizer isto a dois dias de acabar o ano de 2009 pode parecer um gesto de mau agradecimento à Providência, pois que se vivemos até aqui, nós os que nos conservamos vivos, é caso para estarmos já gratos. Isto é o que pensam também muitos, os que dão sempre graças a Deus pelo que ocorreu e olham para o futuro com o sentimento de seja o que Deus quiser…
Sendo assim, esses que se despeçam dos doze meses ocorridos com conformismo e olhem com expectativa para os que estão a chegar. Cada um…
Mas já nem me quero referir as ocorrências pelo mundo fora, que, de uma maneira generalizada, também não foram passando de forma a marcarem um período de satisfação que deixe vincado na História como tendo sido algo de desejar ser relembrado. Fico-me apenas pelo território que é o nosso, este pequeno rectângulo, na ponta Oeste da Europa, dá pelo nome de Portugal. E sobre isso me fico neste pequeno apontamento quase a fechar a porta de um período que os homens resolveram, muito tempo atrás, estabelecer como tratando-se um ano completo.
Pois paro para recordar, com esforço, este longo trecho de 365 dias e noites e, relendo até os meus blogues, que são diários, não consigo deparar com motivos para me regozijar por ter sido também um participante da cena que nos envolveu a todos.
A crise mundial, de que os culpados principais não terão sofrido tanto as consequências como os pobres cidadãos que acreditaram na segurança dos bancos, esse desmoronamento económico, financeiro e social que tem feito a vida negra aos mais débeis chegou fortemente às casas dos portugueses e o desemprego foi e ainda é uma das razões mais fortes para que desejemos ardentemente que o 2010 chegue com cores bem menos tristes do que aquelas que pintaram o cenário que nos foi oferecido.
Não sabemos o que outro Governo, diferente daquele que nos conduziu ao longo dos mais de quatro anos, teria sido capaz de fazer melhor, mas o que sim sabemos é que o de José Sócrates não deixou saudades e, ainda por cima, temo-lo presente nesta altura em que o panorama político nacional não dá mostras de serenidade e de compreensão entre as várias forças que se digladiam para subir na escada do poder.
Seja como for, a despedida de 2009 não deixa saudades. E também, quanto a mim, as portas que se abrem no 2010 que está a chegar não oferecem razões para se respirar de alívio.
Mas, cá estamos e enquanto houver dinheiro para pagar as reformas, mesmo ridículos que sejam os montantes da maioria, que os felizardos dos protegidos pelo regime, esses ainda podem ir pondo de parte alguma coisa para fazer face aos piores tempos que estarão aí para vir.




domingo, 27 de dezembro de 2009

CONTRADIÇÕES


As contradições existem
estão do outro e deste lado
e as duas lá resistem
enfrentando-se com enfado
a verdade e a mentira
são exemplos bem patentes
por vezes causam a ira
de muitas das nossas gentes

O valente e o cobarde
fazem parte da História
o primeiro causa alarde
o outro perde a memória
mas os dois são grande parte
deste mundo em que vivemos
um é porta-estandarte
o segundo nós tememos

Ser nesta vida sincero
traz por vezes dissabor
causa certo desespero
a quem tem esse valor
porque usar a falsidade
uma forma de fingir
com tamanha habilidade
leva-se a vida a sorrir

E isso de ser honrado
dos outros não querer nada
será sempre um coitado
sem conseguir vida airada
porque o roubo se é bem feito
tenha o nome que tiver
não é chamado defeito
pode levar ao poder

Daqui há que concluir
que o defeito é ciência?
Não há que por aí ir
que ceder a tal tendência
cada um tem seu perfil
não muda só porque sim
mantém-se no seu carril
e assim vai até ao fim

VIDA VELHA



O ANO de 2009 está de partida. Mais um, depois de todos os que passámos e quanto mais idade nós temos maior é o número de passagens de ano que já comemorámos, sendo que as perspectivas de que o período novo que se aproxima terá de ser melhor do que os que ficaram para trás. Para isso cumprimos a tradição e subimos, à meia-noite, a uma cadeira e metemos na boca as doze passas ou bagas de uva e fazemos os nossos pedidos íntimos. Depois, acreditando ou não no resultado, quedamo-nos na expectativa quanto ao que vai suceder. O Homem é um animal de crenças, por muito que pretenda mostrar que a sua superioridade não se coaduna com esses caprichos de “gente menor”.
De facto, tratam-se, de uma forma geral, de hábitos de cariz religioso ou místico, cada um com as suas preces íntimas See em especial o Natal é encarado com mais sentido de que se trata de uma comemoração do nascimento de Cristo, personagem esta que, tendo historicamente existido, escolheu uma época apropriada para se mostrar ao Mundo, porque, se fosse hoje que tal acontecesse, seguramente que se depararia com uma imensidão de inimigos que não o deixariam nem sequer abrir a boca, por muito que utilizasse os mais modernos meios de comunicação que o Homem, entretanto, criou.
Claro que os não crentes têm sempre motivos para dar mostras do seu afastamento das linhas religiosas. E este ano, com as intempéries que se têm visto por tantos lados, a questão que mais salta à ideia é a de que se não seria natural que, ao menos nesta época, a mão divina impedisse que houvesse tantas desgraças provocadas pelas “zangas” da Natureza.
Mas o tempo passa, os anos surgem novos, os homens recomeçam as suas tarefas, os problemas não param e as discórdias entre os seres que não abandonam as suas características egoístas, tudo isso, juntamente com a velocidade da ânsia das descobertas de modernidades que se sucedem sem quase dar tempo para serem gozadas com a tranquilidade mínima, parece não contribuir para aquilo que, ao fim e ao cabo, seria a que mais interessava aos que andam por este mundo: a felicidade.
E a extensão dos anos de vida contribui também para que os problemas humanos se arrastem. Se repitam. Se compliquem.
Vem aí, pois, o ano 2010. São mais doze meses, outros 365 dias e uma crise em que não existe ninguém que diga se este será o período em que entraremos na tranquilidade dos espíritos e em que os cidadãos, sobretudo os mais responsáveis, os que dispõem de maior possibilidade de interferir dão mostras de ter aprendida a lição e tomarão juízo, indo recomeçar uma vida já de paz e de comunhão de interesses, afastando o desejo de que os benefícios sejam exclusivamente para si próprios.
Vai ser desta vez? Acabarão os terrorismos que não há religião que possa explicar? Entrarão na linha os detentores do poder económico e financeiro e que, no fundo, estiveram na origem dos problemas mundiais que levaram ao terror que tem sido defrontado? Os afeganistãos, os iraques e os Irões, assim como as palestinas, os israeis e todas as questiúnculas africanas, bem como as dissidências em várias partes do Globo, tudo isso passará a ser memória triste do passado?
Haja quem acredite. Dizem que o querer é poder. Agora o “crer”, isso já é outra posse.

sábado, 26 de dezembro de 2009

AMA OS OUTROS

Se a ti não te amas
nem sequer o teu umbigo
se não te interessam as famas
se não és teu próprio abrigo
nem se calhar tens paixão
por tudo aquilo que fazes
se és tua oposição
e não gostas do que trazes
se é isso mesmo que sentes
um permanente desgosto
esse nem sequer tu mentes
sobre qual é o teu gosto
então está tudo sabido
p’ra sentires alguma flama
e não ficares esquecido
ao menos os outros ama

ESPERANÇA?



COMO GOSTARIA que, apesar da situação de crise que somos forçados a enfrentar, mantivéssemos um mínimo de confiança na franqueza e na competência, na honestidade de procedimentos daqueles que se encontram com a responsabilidade de evidenciar todos os esforços para que Portugal não se veja envolvido, cada vez mais, no charco económico, financeiro e de dívidas que já nos colocou nos fins da tabela dos países mais débeis da Europa.
Mas uma coisa é o que se deseja e outra, quase sempre bem diferente, é a realidade que se vive. E, por muito que José Sócrates surja, com frequência, a propósito de inaugurações quase sempre despropositadas, a cantar hossanas a situações que ele se convence que são dignas de merecer louvores públicas ao Governo que comanda, por mais que não seja possível convencer o chefe do actual Executivo de que o importante seria que da sua boca saísse verdades, transparências, até mesmo arrependimentos, quando fosse o caso, por não terem resultado, como seria esperado, as medidas que o seu grupo político entendeu levar a cabo, por excessivo convencimento das suas razões que o primeiro-ministro não consegue esconder, não é por aí que os cidadãos portugueses mudam do descontentamento em relação ao chefe do Governo e passam a apreciá-lo em absoluto.
Porém, o que também se tem que sublinhar como uma realidade é que, na altura das eleições, como sucedeu no último escrutínio, a maioria dos portugueses colocou o seu voto no grupo partidário a que Sócrates está ligado, o PS, e, por esse motivo conseguiu situar-se no comando de um Governo. Quando se repetiu a situação eleitoral, por sinal a mais recente, apesar de não ser de grande entusiasmo popular a escolha de novo de Sócrates, quis o destino que o outro partido que poderia ter aspirações a substituir o PS na frente da escolha, o PSD, se encontrasse em luta intestina e não transmitisse o mínimo de confiança para que essa opção fosse a vencedora.
Esta realidade nem é preciso transmiti-la. É do conhecimento geral. E a posição nacional neste altura também não constitui qualquer novidade para os cidadãos deste País.
Só nos resta fazer as contas no que diz respeito ao ano que se aproxima, ao 2010 que entre daqui a dias, e, não fazendo caso das “discursatas” de Sócrates, sermos todos nós, os que, ao fim e ao cabo, pagamos sempre as favas, e aguardar pelo que os ditos responsáveis, Governo, Oposições e Chefe do Estado, acabarão por decidir, se num arrastamento de uma situação que não tem condições para resistir muito mais tempo ou se, numa tomada de posição radical, nova experiência eleitoral será levada a cabo, não se sabendo bem se será desta vez que as coisas entram no bom caminho.
Um presságio deste em pleno dia 26 de Dezembro, ainda com o sabor das filhoses e do bolo-rei na boca, não se pode considerar como sendo um voto de Feliz Ano Novo. Estou de acordo. Mas haverá outro vaticínio que seja minimamente crível?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

ALENTEJANOS

Debaixo de um chaparro
é bem bom pensar na vida
não tendo outra saída
se não fumar um cigarro

Alentejano de um raio
não é igual a ninguém
é sua forma também
de não olhar de soslaio

Se no Inverno faz frio
e o capote o protege
há sempre quem o inveje
e recuse o elogio

Recorrendo à anedota
julgando que o ofende
mas se é isso que pretende
faz papel de idiota

O Alentejo isso tem
muita paz, um bem-estar
pode-se tal procurar
noutro sítio, mas porém…

…por cá não se vê aonde
outras belezas existem
mas por mais que se registem
se as há bem se escondem

Sem pressas p’ra responder
lá vão saindo as sentenças
sem certezas e sem crenças
pois têm mais que fazer

Compadres há-os bem perto
sentados não há que ver
porque as horas de lazer
não se perdem e está certo

Boa gente, muito pura
as migas, o ensopado
têm o pão como fado
de fome passada e dura

Por tal, na Revolução
aderiram tão depressa
pois tinham bem na cabeça
o sofrido até então

Têm direito ao que for
porque são bons lá no fundo
e olhando para o mundo
não se vê quem pode opor

Alentejanos queridos
sempre que posso vou vê-los
não falam p’los cotovelos
nem são gentes de alaridos

Não sendo como formigas
não enchem o Alentejo
agrada-me quando os vejo
sem me mandar às urtigas

Agora que se fedeu
o 25 de Abril
estão vendo por funil
o que julgavam ser seu

Ilusões nem muitos têm
vida melhor quem lhes dera
porque aí estão os que vêm
comprar o que de outros era

São os outrora vizinhos
espanhóis, nossos irmãos
que apontam seus caminhos
à procura de outros chãos

Conformados já estão
os nossos alentejanos
pois outra Revolução
não trazem “nuestros hermanos”

O chaparro seguirá
no mesmo sítio quieto
sua sombra que lá está
deu ao avô, hoje ao neto






AGRICULTURA Á PORTUGUESA



AO APROXIMAR-SE o início de um novo ano, ao dar razão àqueles que gostam das datas fixadas para realizar qualquer iniciativa, pois eu sigo esse caminho e sublinho as mágoas que são costumadas no nosso País, provavelmente desde que ele existe, no respeitante aos problemas com a agricultura que temos.
O péssimo tempo que tem feito nestes últimos dias veio acrescentar dificuldades às gentes dos campos que, muitas delas por descendência familiar vão suportando o seu sustento através daquilo que as terras produzem. E, na maioria dos casos, tratam-se de pequenas parcelas que, por isso mesmo, não permitem que as explorações sigam sistemas modernos e mecanizados que fazem reduzir substancialmente os custos na lavoura.
Mas isto que vem de séculos passados, pois sempre fomos uma Nação reduzida ao espaço que nos coube na ponta oeste da Europa, o que fez que se arrastasse pela nossa História fora a exploração da pequena propriedade. E como não temos sido dados à criação de grupos localizados que fizessem aumentar as áreas agrícolas, muito embora contemplemos o que ocorre por essa Europa fora, em que, até aqui ao lado em Espanha os preços das produções ficam muito reduzidos pelo facto de tanto as culturas como depois as operações de colocação nos mercados serem resultado de quantidades que justificam os investimentos em todas as áreas, dada a nossa paralisação nos tempos cada vez mais nos afastamos das possibilidades de competirmos em preços com a concorrência internacional.
Quando dirigi uma revista que deu brado na altura, “o País Agrícola”, como jornalista vi-me na necessidade de estudar o problema que era motivo de desânimo de uma grande parte dos agricultores nacionais. E a conclusão a que cheguei, mesmo não sendo agrónomo ou talvez por isso mesmo, foi de que se tornava necessário mudar a mentalidade não só dos homens dos campos como também do próprio Ministério que, agarrado a princípios burocráticos e de secretária, com os seus engenheiros engravatados e com deficiência de contacto com os principais interessados em desenvolver os métodos tradicionais de cultura, não eram dados os passos absolutamente imperiosos para que o panorama se alterasse.
E chagámos aos dias de hoje tal como nos encontrávamos bastantes anos atrás.
Nessa altura de “o País Agrícola”, em que era ministro respectivo Álvaro Barreto, feliz os possíveis para tentar convencer aquele Ministério de que era importante aproveitar uma oferta que obtive por parte das autoridades de Israel que se ofereceram para transmitir os seus saberes aos agricultores portugueses interessados. Bastava que o Governo da altura quisesse colaborar na proposta. Mas nada foi conseguido!” E a única possibilidade que poderia ser aproveitada era a de organizar visitas semanais ao País dos israelitas e efectuar visitas aos “kibbutz” onde a exploração agrícola é feita com grandes avanços tecnológicos, bastando recordar a invenção da “rega gota a gota” que de lá surgiu há anos.
E foi assim que foram efectuadas mais de uma dezena de viagens a preços reduzíssemos e em que participaram umas centenas largas de agricultores portugueses. Até o pai de Cavaco Silva foi um dos viajantes.
Refiro-me a este caso, nesta altura, porque se trata de uma espécie de prenda de Natal. Prenda que se oferece ao actual e novo ministro da Agricultura que, ao entrar no ano de 2010, sendo novo naquele lugar, poderia pegar na ideia e querer, definitivamente, alterar o panorama que se vive por cá de uma agricultura familiar e incomportável com a união que se impõe, sobretudo quando somos pequenos e não conseguimos sair da nossa menoridade de tamanho e de saber.
Não consegui nada anos atrás. Vou conseguir agora?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATAL

A data chega, infalível
cada ano, sem faltar
com festejos, consumível
dizem ser tempo de amar
sem ser com amor carnal
distribuir amizade
pelo menos no Natal
porque s’afasta a maldade
como manda o calendário
25 de Dezembro
como se fosse um notário
se tu t’esqueces eu lembro
boas-festas p’ro vizinho
seja amigo ou nem isso
há que parecer bonzinho
para depois dar sumiço.
Antes da data festiva
às compras se tem de ir
gastar pouco é missiva
faz falta é iludir.

Mas se no dia seguinte
for preciso fazer mal
com o máximo requinte
já se esquece o ideal
isto de ser comandado
pela folha da agenda
cumprindo sempre o feriado
como sendo uma encomenda
é caso p’ra perguntar
s’aquilo que está marcado
é que tem de se levar
até estar realizado

Cumpramos o estabelecido
façamo-lo tal e qual
será ele parecido
com todo e qualquer Natal

HOT CLUB E NATAL



NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS, segundo alguns fazem questão em afirmar. Eu, que não sei nada, prefiro optar pela tese das circunstâncias, talvez por ter convivido, durante um ano, com o filósofo Ortega y Gasset, quando ele aqui se refugiou, amuado com o que estava a ocorrer no seu País pela mão do Franco. Mas isto vem a propósito do fogo ocorrido na madrugada de anteontem que destruiu a cave onde, durante mais de sessenta anos, esteve instalado o Hot-Club de Portugal.
Mas eu explico: nessa altura, conforme também aqui deixei expresso, por ser amigo do dono do Maxime, na praça da Alegria, em Lisboa, ali ia com frequência e, uma noite, assisti a uma limpeza que ocorria numa cave ao lado da referida casa de espectáculos. E, ao aproximar-me para matar a curiosidade, entrei e deparei com um espaço numa cave que me deu logo a ideia de ser algo que se adaptava perfeitamente ao que o meu amigo Luís Villas Boas dizia que precisava para instalar o “seu” clube de jazz. Ele, que tinha sido meu colega de escola primária e a sua mãe até era professora e que morava perto da casa da minha família, foi de seguida informado e, no dia seguinte, fomos ambos bater à porta para, de dia, nos certificarmos de que o sítio servia para o que se prensava. E era. Foi assim, portanto, que ali ficou instalado o local onde passaram tantos amantes daquele tipo de música, portugueses e estrangeiros. E a circunstância de eu ter sido apenas quem descobriu o sítio não influenciou em nada o êxito que o clube obteve ao longo de todos os anos de existência.
Nesta altura de Natal, uma tristeza foi substituída por um contentamento. É que, tendo o fogo acabado com umas instalações que guardavam história, pelo menos já foi anunciado que a Câmara Municipal de Lisboa disponibilizou a sala 3 do Cinema S. Jorge para ali se instalar o que não deve ser mais uma coisa a desaparecer do nosso convívio, sobretudo porque se trata de algo que sempre foi cuidada com enorme carinho e inteiro desapego de lucros por pessoas que se entregarem à causa da música de jazz, seguindo o exemplo do meu querido amigo Luís Villas Boas, que se entregou de alma e coração a uma obra que teve depois muitos seguidores.
Ora aí está um acontecimento que devo considerar como uma prenda de Natal. Foram as tais circunstâncias que me vieram trazer esta alegria que, de seguida, tapou o desgosto de ver morrer o que eu ajudei a criar. Julgo que só o Luís, se fosse vivo, poderia testemunhar este facto, mas também não faço questão de marcar a passagem como acontecimento de grande valia. A outra testemunha e também amigo de muitos anos, o Luís Sangareau, deixou-nos há pouco tempo. Se calhar vão ficando os piores!...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ATRASADO

Estou de facto atrasado
já não vou chegar a tempo
se é que alguém está parado
por qualquer contratempo
eu que fui toda a vida
pontual, cumpridor
não era nesta corrida
que ia ser fautor.
Tenho ânsias de partir
porque aqui não faço nada
o que me resta é sair
pois já passou a minha vez
de ser útil
de acabar com o talvez
não quero mais parecer fútil
e de já não ter valor
pois agora só me resta
sem pavor
ver terminar a festa
sentar-me e contemplar
que isto de ir embora
é com paciência esperar
pelo dia e pela hora
e se não foi antes, então
é porque era esse o destino
e ninguém tem na própria mão
o fim de ser peregrino

Pelo comboio eu aguardo
bem sentado na estação
não vale a pena ir-me embora
assim fico mais à mão
e como o que eu não quero
é lugar sentado, marcado
o que pedi e espero
é que o lume seja ateado
p’ra nada de mim restar
nem ninguém por mim chorar

Estou atrasado, é tarde
bem queria antes partir
sempre sem fazer alarde
é o caminho a seguir
andei de relógio em punho
p’ra cumprir a minha sina
não preparei nem rascunho
porque morrer é rotina
o próprio não manda nela
como também p’ra nascer
pertence tudo à novela
do fazer e desfazer

Tudo tem a sua altura
mesmo sem nos conformarmos
ter cumprido a aventura
de esperar por abalarmos
é o preço que se paga
até chegar ao fim da praga!




SEMPRE ATRASADO



Já todos sabemos que José Sócrates não tem o culto da pontualidade. Os portugueses que, valha a verdade, não são, na sua grande maioria, cumpridores desse princípio de, pelo menos boa educação, mesmo assim, por se tratar do comportamento de um responsável principal pela condução do Governo, não há dúvida que os atrasos horários as múltiplas manifestações, mais ou menos festivas, que resultam de inaugurações, a maior parte delas claramente evitáveis ou, no mínimo, não merecendo a deslocação de comitivas de apaniguados que aproveitam todas as circunstância para besuntar José Sócrates, essas procissões também são alvo do relógio atrasado do residente em S. Bento.
A questão agora é saber se, perdendo o chefe do Governo tanto tempo com essas passeatas excessivamente frequentes, lhe restará alguma disponibilidade para, como isso, sim, lhe compete mais do que tudo, no seu gabinete dar seguimento a múltiplos assuntos que se encontram por solucionar e bastaria ter assistido ontem ao debate quinzenal que teve lugar na Assembleia da República para se tirar uma pálida ideia daquilo que é forçoso e urgente fazer para não continuamos a assistir à paralisação do nosso País, sem darmos mostras de sermos capazes de mostrar coragem e saber para não ficarmos sempre no mesmo sítio, que é, como e sabe, o da estagnação.
O ar sempre de riso de gozo que põe quando os deputados das oposições expõem as suas discordâncias e a crítica aberta que faz sempre que os mesmos deputados acrescentam algum comentário, exigindo um respeito de que ele não dá mostra de praticar, tal posição é prova de que José Sócrates se considera encontrar-se numa posição superior a todas s outras áreas partidárias.
Mas a este atrasado José Sócrates, não é só na falta de respeito pelas horas a que deve chegar aos locais onde ele é guardado que se nota tal incumprimento. É, sobretudo e com enorme gravidade, no que se refere à lentidão em fazer andar o País e em mudar as medidas que já deram vastas provas de que não são as mais indicadas, é no atraso em que nos encontramos em relação à maioria dos nossos parceiros europeus, é face a isso que o não cumprimento de horários estabelecidos que dizem respeito ao tão desejado melhor estar dos portugueses merece a crítica severa dos cidadãos deste País.
Eu, que não tolero os teimosamente atrasados que, na maioria dos casos, até usam relógios de marca afamada e de alto preço. Embora, não seja isso que transmite aos desrespeitadores da pontualidade a obrigação de não fazer os outros esperarem.
E nós, no caso de José Sócrates, andamos a esperar demasiado. E já agora, como o período que se atravessa, apesar de ser de Natal nem por isso se mostra festivo nos corações mesmo dos mais confiantes, como é de imaginar que o Natal para o primeiro-ministro que temos seja para desejar que as coisas por cá se mantenham dentro das perspectivas que ele teimosamente persegue, sem condições para dar uma volta à sua presunção de que sabe tudo e de que os outros é que andam enganados, os desejos que se lhe devem enviar é de que nada corra de acordo com o seu espírito muito pessoal.
A menos, claro, que, entretanto, se verifique uma mudança radical no seu comportamento.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

COMO SEREI?

Gostava de me conhecer bem por dentro
fazer como se faz a qualquer fato
esmiuçar
desencantar
abrir as bainhas
tirar as linhas
ir fundo avançar até ao centro
não deixar qualquer coisa ao desbarato

Tudo aquilo que mostro cá por fora
o que está à vista vêem todos
É bonito?
É esquisito?
Será que agrada?
É só fachada?
é apenas o que eu tenho agora
o que não quero é causar engodos

Porém, as minhas dúvidas persistem
eu próprio como sou não saberei
pergunto-me
consulto-me
bisbilhoto as entranhas
p’ra descobrir coisas estranhas
todas as portas fechadas resistem
e respondo a mim mesmo que não sei

No entanto, há dias em que acerto
será quando não ando angustiado
aceito-me melhor
dou-me mais valor
pareço-me normal
nada encontro mal
e sobretudo quando eu desperto
não sinto ânsias de olhar p’ro lado

Mas nada disto assim me dá resposta
fico sem saber o que tanto quero
conhecer-me
entender-me
saber tudo sobre mim
não ter dúvidas assim
saber se existe alguma proposta
que me tire todo este desespero

Para ser o juiz de própria causa
sendo muito suspeito no apreço
não serei eu
a tirar o véu
não será honesto
pois darei pretexto
a que esse gesto provoque náusea
e não tenha jus a qualquer sucesso

Que gostava de me conhecer fundo
lá isso dúvidas não oferece
não desanimo
por isso primo
enquanto cá ando
não perco o mando
já que faço questão de neste mundo
perseguir tudo que tem interesse

Se não o que me resta é esperar
espreitando de lá do outro lado
onde estiver
hoje sem crer
se vê depois
lá direi pois, pois
aceitando o real e tolerar
seja ou não seja do meu agrado





NATAL


ESTE PERIÍODO que está, uma vez mais, a preencher a atenção de uma esmagadora quantidade de seres humanos, uns porque a sua tradição religiosa conduz a que se sigam normas que, desde há milhares de anos, levam a que se sigam hábitos de veneração do Presépio, isso numas zonas mais tradicionais, que, por influência dos povos do norte europeu, o Pai Natal tomou o lugar do Menino nas Palhinhas.
Isso, claro, seguindo o Calendário Gregoriano, posto que outras culturas e crenças diversas não cultivam o hábito mais ocidental de entender este momento, que se repete anualmente, como sendo a altura de todos quererem dar mostras de fraternidade universal, de evidenciar generosidade em relação aos próximos.
Isso o que consta dos costumes, o dar as Boas Festas a torto e a direito, empregados aos patrões (pelo menos até há pouco tempo atrás era assim), pedintes que aproveitam a altura para tentar recolher algum benefício da eventual generosidade alheia, ministros que dão ares de enorme reverência perante o seu Chefe, enfim, um despejar de salamaleques que podem ter o seu efeito benéfico algum tempo depois.
Eu já o referi neste blogue do ano passado. Não tenho pelo período do Natal uma veneração que me leve a encontrar no meu interior uma grande felicidade. Não sou partidário de festividades com data certa, esta e outras, e muito menos me conformo com a ideia de que é no Natal que temos de ser bonzinhos, de dar esmola aos pobres e de nos incomodarmos com os maus momentos que estejam a passar outros cidadãos. E, particularmente neste momento, em que exitem centenas de milhar de famílias portugueses – e não só – que lutam com os problemas que o desemprego provoca, toda essa avalancha de gente que não faz parte das nossas relações, não será com os votos de Boas Festas e de um Ano Feliz que lhes traz o mínimo de consolo e de ajuda para que a mesa da consoada tenha alguma coisa para calar os estômagos.
Sou assim. Nu e cru. E é por tal motivo que encolho os ombros às falsidades que o Homem utiliza para esconder a sua indiferença em relação ao que se passa da sua porta para fora.
E, apesar de manter essa posição de afastamento em relação aos votos que circulam por aí, neta altura, agora através dos meios lectrónicos, o que rouba muita receita aos Correios, mesmo assim limito-me a responder aos que são dirigidos, pois não quero passar por mal educado.
Por aqui me fico. E como gostaria de ter escrito um texto de contentamento pelo Natal que está aí a chegar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

TER AMIGOS

Ter amigos nos humanos
quem não tem esse desejo?
Melhor ainda que manos
que nem sempre dão ensejo
ambição
é uma sorte encontrar
tamanha felicidade
porque sempre pode dar
prova de fidelidade
comoção

Mas nos homens é seguro
encontrar até demais
o que quero é com apuro
ter amigos animais
são seguros
que não pedem nada em troca
dão-nos inteiro amor
chega-lhes uma beijoca
para sermos seu tutor
como muros

O pior é quando humano
sem o mesmo sentimento
sem temer de fazer dano
não cuida do seu sustento
se desleixa
deixando de ser patrono
já não sendo novidade
o gesto é o abandono
mas que grande crueldade
sem queixa
Isso mostra afinal
que o homem é bem pior
do que qualquer animal
seja ele o que for
perverso
por isso prefiro até
amigo de quatro patas
tê-lo aqui bem ao pé
passando horas pacatas
e converso