domingo, 31 de janeiro de 2010

ABRE-TE

Abre-te, abre-te caminho
deixa-me ver para a frente
eu quero sair do ninho
mostrar como sou valente

Mesmo sem depois saber
se no fim da caminhada
algo de bom lá estiver
que agrade à minha chegada
quero partir, eu confio
onde estou é que não fico
eu aceito o desafio
não serei mais mafarrico

Abre-te, abre-te minha estrada
estás em frente, é só andar
ocupo a minha jornada
estou pronto para me cansar

Tem sido assim toda a vida
na busca de algo melhor
à procura da saída
mesmo que seja com dor

Se só com muito trabalho
com dor e grande cansaço
aproveitando um atalho
e sem medo de fracasso
for possível lá chegar
eu espero não desistir
até em mim se acabar
a força p’ra poder ir

Mesmo de rastos lá vou
até ver que se acabou!...


CONSELHO DE ESTADO


CHEIRA a princípio de uma caminhada para reocupar o lugar de Belém e, quanto a isso, cada um faz o que pode para preparar o seu futuro, sempre que seja dentro das normas legais e éticas. É o que parece querer representar a convocatória de Cavaco Silva para a reunião do Conselho de Estado ainda esta semana. Mas, por outro lado, dadas as circunstâncias amargas que se vivem no nosso País e as dificuldades nítidas em encontrar resposta positiva, todas as iniciativas são bem aceites e a esperança de que alguma coisa de bom saia dos que ainda têm nas mãos alguma possibilidade de procurar saída, todas elas serão bem vindas. Realize-se, pois, mais esse Conselho e que os seus membros não utilizem tal reunião apenas para mostrar que estão vivos, mas que façam ouvir as suas vozes no sentido de tentarem acrescentar algo de útil, não receando referir as verdades e já que a ordem de trabalhos incide sobre os desafios do futuro e para uma análise da situação política.
Sendo a quinta vez que, com este Presidente da República, tem lugar um encontro desta instituição, dada a situação muito delicada que Portugal atravessa há que esperar que não se trate de uma reunião, por sinal a 40ª desde que foi constituída, sem resultados palpáveis, visíveis, úteis, e que os seus 20 membros, com o Presidente, não saiam da mesa com a sensação de que foi infrutífera a iniciativa.
Os portugueses que começam a estar pausadamente conscientes da situação que se vive e do que ainda virá a enegrecer o panorama, e de como são duvidosas as medidas positivas que esperam do poder, quando se sabe que a dívida pública, só em juros, atingirá os 5,5 milhões de euros no final deste ano, para além de o saldo das contas públicas se apresentar negativo em mais de 14 mil milhões de euros, tudo isto acrescido da taxa do desemprego que, segundo tudo indica, já chegou os dois dígitos, ao não presenciarem os cortes que se impõem nos gastos públicos em termos de verdadeira necessidade, e de não assistirem a só serem feitas despesas no que é absolutamente essencial, é evidente que, face a essa situação, têm de aguardar por qualquer “milagre”, seja ele qual for, que surja de um sector que mantendo, pelo menos, alguma tranquilidade política, seja capaz de trazer certa esperança para os espíritos mais atingidos pela realidade económica, financeira, social que se vive no nosso País.
Será que o próximo Conselho de Estado anunciará possibilidades de ultrapassarmos o desassossego em que vivemos? Mostrará esta Instituição, que não serve apenas para dar lugares honrosos a personalidades que, tendo já exercido funções importantes ou encontrando-se ainda dentro delas, que os seus parceiros não aparecem somente para dar lustro às suas honrarias?
Se ao menos os nossos vizinhos espanhóis se encontrassem numa situação que pudesse constituir uma ajuda de valor ao nosso caso, nem que fosse com a continuidade de importações dos produtos portugueses e com a contratação de muita mão-de-obra nacional como sucedeu antes, ainda poderíamos antever uma saída por essa porta! Mas, tal como se encontram, embora dispondo de meios mais viáveis de sair da crise, ainda levará algum tempo até isso suceder. Se este conjunto peninsular já estivesse integrado numa nação ibérica, sem sujeição de nenhuma das partes à outra e mantendo a suas características próprias, seria possível que o drama comum fosse solucionado com maior força e determinação. Mas como essa comunhão sempre encontrou aljubarrotistas dispostos a estarem orgulhosamente sós, não é essa a posição e cada um chora os seus problemas isoladamente.
Já sei. Os mesmos de sempre revoltam-se perante esta ideia que defendo há muitops anos, desde os tempos em que a Censura me proibiu de voltar a este tema. Mas o
futuro dirá se se trata de ter razão antes de tempo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

LIBERDADE

O teu nome só por si vale ouro
gritar por ele enche de luz a alma
gozar a liberdade é miradouro
em que a boa vista nos acalma

Nação livre é país abençoado
é luz que alumia os caminhos
onde ninguém está amordaçado
todos podem voar quais andorinhos

Ser livre é ir mais longe mais distante
sem fronteiras e sem impedimentos
mudando de via em qualquer instante
rumando com marés e com bons ventos

Quando depois de estar anos trancado
se atinge muito a custo a liberdade
bem parece um sonho ser acordado
sem ter na frente a pesada grade

Respirar fundo o bom ar liberto
mostrar ao alto toda a alegria
deixar de haver medo encoberto
viver correndo atrás da fantasia

Há que manter, porém, toda a atenção
para vários valores bem definidos
porque o que se ganhou com paixão
não pode retornar aos abatidos

Se não for a prudência a comandar
e o bom senso a ditar os passos
tudo se pode num ápice esfumar
e pôr a liberdade em estilhaços

A minha liberdade bem cumprida
não pode, não deve pisar a tua
posto que o que se levou de vencida
ainda espreita por aí na rua

A tentação do poder está viva
desejosos de o ter há bastantes
p’ra apanhar em contrapé, à deriva
os mais descuidados e confiantes

Os tempos mudam, mudam-se os propósitos
as vontades também não são as mesmas
se antes iguais hoje apósitos
agora lindos antes abantesmas

Mas o que se mantém é a verdade
mesmo que esquecidos os princípios
por muito que falte hoje a lealdade
e por isso abundem os mancípios

Mais do que nunca falta-nos gritar
para que oiçam todos muito alto
a liberdade só pode restar
se estiver presente na ribalta

Liberdade não é libertinagem
não dá p’ra agredir os que mal a usam
só os anos de muita aprendizagem
ajudam os que dela não abusam

Quem não sabe viver em liberdade
quem aspira por uma ditadura
o que merece é a descaridade
de seguir vivendo em noite escura

Liberdade é só pr’a quem merece
para todos que outros deixam soltos
só desta maneira é que apetece
que vivamos alegres, desenvoltos

Mas liberdade milagres não faz
não basta tê-la pr’a mudar o mundo
é preciso usá-la, ser capaz
de entendê-la bem, do princípio ao fundo

O risco de a perder está sempre à esquina
basta abusar da sua brandura
sobretudo nesta terra latina
onde há gente que aspira p’la censura

Para ser livre só com gerações
e sem justiça não há liberdade
pois não basta que hajam eleições
faz falta grande dose de humildade

Humildade sim, dos outros ouvir
aceitar os que não pensam igual
e até nunca se deixar cair
no triste afã de pregar moral

Terrorismo, agora tão na moda
da liberdade enorme inimigo
é verdade, tira a vontade toda
de ainda conservá-la como abrigo

Mas há que resistir à tentação
de combatê-lo só com violência
e ter a força como solução
pois também é preciso paciência

Se o terror o que quer é destruir
aquilo que não tem: a liberdade
então o que faz falta é instruir
abrindo-se as portas à verdade

Mostrando que cada um pode crer
naquilo que lhe parecer mais certo
não tem é o direito de fazer
com que os outros os sigam de perto

Enfim, ser livre não é fácil cousa
é preciso ser forte e consciente
bem enganado anda quem repousa
na crença qu’isso é p’ra toda a gente

JUSTIÇA, QUEM A ACODE?


TANTOS a falar de Justiça. Tantos a queixarem-se do seu mau uso neste País, que é o nosso. Tantos de acordo com a necessidade de ser feito com urgência o necessário para que tudo entre nos eixos e que, por fim, possam os portugueses usar do direito de terem uma Justiça célere, competente, justa. Nisto, pelo menos, há entendimento e mesmo os intervenientes profissionalmente nesse sector da maior importância, embora discordando por vezes de certas medidas que são apontadas, no fundo são unânimes em reconhecer que como estão as coisas é que não devem continuar.
Ocorreu há dias mais uma abertura do Ano Judicial. E, como sempre, esse acto revestiu-se da solenidade tradicional, com a presença das mais altas figuras do sector e o apadrinhamento do Presidente da República. Como é tradicional, não faltaram os discursos proferidos pelas entidades mais envolvidas no sector, todos eles reveladores de que nos encontramos num “centro de um furacão que os tribunais já começaram a sentir e pelo qual vão pagar”, e de que “um novo boom de acções de dívida desabará nos tribunais”, segundo o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, assim como o Bastonário dos Advogados deixou sair de que “há sinais de que a Justiça está politizada”.
Mas foi Cavaco Silva, na sua posição presidencial, que não deixou dúvidas quanto ao seu pensamento referente à situação que se vive neste campo. De entre o muito que afirmou, ficou claro da sua parte que “muitas das leis produzidas entre nós não têm adequação à realidade, sendo necessário legislar com maior rigor”, assim como “a Justiça em Portugal atravessa um momento delicado”, e ainda que “os atrasos na Justiça alcançaram níveis preocupantes para a imagem de Portugal”, acrescentando ainda que “as leis para a corrupção não são ajustadas”.
Esta posição de revolta quanto ao estado em que se encontra a Justiça no nosso País tem constituído um tema repetidamente aludido neste meu blogue. Inquietamo-nos muito com a deficiência, a incompetência e o desleixo com que correm determinadas áreas da vida pública nacional, mas, no que se refere a uma das mais importantes armas da Democracia, aí não somos capazes de colocar os seus participantes em sentido e de responsabilizar os culpados de tão vergonhoso cumprimento da actividade dos tribunais, começando pelas acções que são necessárias antes, por forma a que, quando chegam aos julgamentos, não existam impedimentos para que os magistrados actuem com rapidez e com absoluta justeza.
Na abertura do Ano Judicial, também esteve presente José Sócrates. Mas o primeiro-ministro, que é tão falador quando se trata de lançar os elogios em causa própria, ali nem abriu o bico. Poderia não ser o local ideal para o fazer, admito, mas que, antes ou depois, deveria dar mostras da sua posição e do que estará nas mãos do Governo fazer para que acabem de vez as anomalias judiciárias.
Depois, também a separação da política e da Justiça, que tem razão de ser quando não existem motivos para intervir porque o sector que representa os cidadãos não é confrontado com as reclamações que são notórias há anos, essa separação tem permitido que não haja forma do ministro da Justiça, em nome do Executivo, meta a mão a fundo e, com o apoio do Parlamento, efectue as alterações que todos concordam em dever ser feitas.
Andamos neste jogo do empurra, tão ao gosto dos portugueses, e assim prosseguimos até já termos ar para respirar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

AGONIA


Os meus poemas são feitos com esforço
para lá mesmo do que posso
e insisto
e persisto
e quero convencer-me
que vale a pena.
É uma pena !
Não leiam, não,
faço questão
são um desastre.
Mas vou escrevendo
lá vou fazendo
e, se possível, com certa rima
que se aproxima
da perfeição
que é p’ra agradar
ao paladar
de quem os sabe saborear
devagar
p’ra não ter indigestão

Assim lá saem
maduros caem
triste figura
pobre do homem que não resiste
e que insiste
nesta falsura
de ser poeta
que é uma treta
digo eu, não sei,
se houvesse lei
que dominasse
e não deixasse
ser poeta quem não pode sê-lo
não estaria aqui a escrevê-lo,
e a lê-lo.

Poupava-os a este flagelo
Será que isso de ser poeta, cabe em mim?
Por fim !
Ou sou eu quem não cabe na poesia?
Que agonia !



COMPARAR - NEM A BRINCAR!



QUALQUER COMPARAÇÃO, ainda que remota, constitui uma afronta a todos aqueles muito milhares que foram e estão ainda a ser vítimas da catástrofe do Haiti. Tamanho sofrimento, provavelmente só semelhante ao que ocorreu em Lisboa, em 1755, sendo que, nessa altura, a ajuda de países estrangeiros não terá sido tão prestimosa e positiva como a que se tem verificado actualmente na ilha em questão, essa enorme desgraça não pode ser posta em confronto com outra mesmo semelhante, até porque a evolução tecnológica que se desfruta hoje não existia no século XVIII. Por isso, faço questão de deixar bem claro que não é intenção deste texto estabelecer qualquer tipo de quadro comparativo na presente situação em que vivemos.
No entanto, e levando em conta as reuniões que já tiveram lugar por cá, com o objectivo de tentar antever o que se passaria no nosso território se um terramoto semelhante ocorresse nesta capital, como a imaginação é pródiga vale a pena, não o elaborarmos um quadro de como se apresentaria Lisboa se se repetisse o que o tormentoso desastre da época do Marquês de Pombal provocou, mas sim falarmos da nossa cidade tal como ela se apresenta hoje. E, salvaguardadas as respectivas distâncias no que respeita ao descalabro que, felizmente, não aconteceu por cá, sempre poderemos aproveitar a ocasião para nos concentrarmos naquilo a que se assiste no dia-a-dia lisboeta, que é o que vemos e de que não nos é dada esperança para descortinamos forma de melhorar dentro de um período aceitável.
Não se trata, claro, de uma brincadeira, porque se assim fosse não teria outra classificação que não de muito mau gosto. Mas apenas de um exercício que poderá ter alguma utilidade, chamando a atenção para algo que, pelo menos com o que faço nos meus variados escritos, considero como tratando-se de um desmazelo progressivo que os múltiplos presidentes da Edilidade lisboeta não têm dado mostras de conseguir ultrapassar. Claro que não haverá alguém que pense que um terramoto de grau 7 seria a maneira mais rápida de fazer com que os milhares de casas que se encontram por cá em absoluto estado de degradação – como todos os dias as contemplamos e que as televisões também não escondem -, as ruas aos altos e baixo, quer nos passeios quer nas vidas de rodagem atormentam os que têm de as utilizar, os múltiplos buracos que as viaturas enfrentam, mas que também nos passeios deixam os peões enfurecidos -, tudo isso viesse a ser alvo obrigatório de obras. Não é admissível chegar tão longe nos desejos dos habitantes alfacinhas. Mas que não podemos prolongar indefinidamente uma actuação que é indiscutivelmente obrigatória, agora, claro, com a desculpa da falta de meios que a crise impõe, mas que, mesmo assim, deveria ser objecto de uma escala de prioridades, dando mostras de que não se está paralisado de todo, tal é o desafio que se tem vindo a prolongar a todos os que, vivendo e trabalhando na capital, estão condenados a ver a degradação progressiva de uma cidade que, com as suas sete colinas e o Tejo a seus pés, bem merece um tratamento particular de Rainha portuguesa.
Diz-se agora que a cidade de Port-au-Prince, a capital do Haiti, ao ter de ser totalmente recuperada, só assim poderá vir a apresentar um aspecto que nunca consegui possuir. De outra maneira, sem o revoltante acidente que a vitimou, permaneceria eternamente como sempre esteve. Ou seja, não habitável.
Repito, por isso. Não se trata de estabelecer qualquer grau comparativo. Mas que, em 1755, se não existisse um Marquês de Pombal que deitou as mãos à obra e que transformou uma Lisboa feia numa cidade que nos orgulhava, essa realidade não é possível desmentir. E a partir daí, que ponha cada um de nós a imaginação a trabalhar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

GRITAR BEM ALTO

Penso nisso muitas vezes
se melancólico estou
chegam-me à cabeça teses
direito ao papel eu vou
vontade vem-me da alma
de dizer alto e bom som
não fazendo apelo à calma
nem mostrar ser de bom tom
porque no tempo é que penso
no que me falta ainda
ponho de parte o bom senso
porque já nada se alinda
e face a tal realidade
se tudo que fiz não conta
não deixo nada a metade
vamos a isso: à afronta !

Portugal está num beco
bem difícil a saída
é como um País já seco
sem água nem na descida
há que fazer qualquer cousa
e jamais ficar parado
não desculpar quem repousa
e se põe sempre de lado
por muito que esteja errado.

Faz falta gritar bem alto
apontar o que está mal
se o País não der o salto
mantendo-se sempre igual
então as crianças de hoje
amanhã descobrirão
que em Terra do bate e foge
não há qualquer salvação
e o mais perto aqui ao lado
que também foi ditadura
já oferece o seu telhado
para vida menos dura
e não se queixem depois
os do aljubarrotismo
que se julgam heróis
mesmo deixando um abismo

Penso nisso a miúdo
e não sendo exemplar
ponho na balança tudo
e paro para analisar
o que passa à minha volta
e é ao estudar o mundo
que me ressalta a revolta
à superfície e no fundo
e ao pela manhã ler
os jornais que tenho à mão
fico logo a saber
que se vive em tensão
que há mortes e há guerras
que só vencem os mais fortes
os que dominam nas terras
mesmo provocando mortes
os mais ricos, poderosos
que têm primos e primas
e não são os valorosos
os que merecem estimas.
Fico, pois, desanimado
só me resta é gritar
ver onde chega meu brado
não passa do poemar
mas se mais longe não vou
se só me ouvem ao pé
não vou sair donde estou
na mesa do meu café

Estou limitado por isso
ao que a minha voz alcança
poder dos outros cobiço
dos que usam a gritança
mas que posso fazer eu
para além de encher papel
tal como pobre plebeu
perante um rei cruel
de manhã escrevo poemas
poemas… que fantasia !
abordo somente uns temas
com rima, por teimosia
são centenas, já milhares
que acumulo sem saber
se serão assim vulgares
mas dão-me tanto prazer
ao vê-los surgir na folha
que descubro a qualidade
numa miragem zarolha
que desperta caridade.
E de tarde vou pintando
quadritos a óleo puro
e com isso vou gritando
para mim e sem futuro.

Pensando sempre assim
pois isso ninguém me impede
sigo a gritar para mim
sequinho cheio de sede
sede de ver melhorar
este mundo, tão maldoso
sem crença já de chegar
a tempo de ter o gozo
de ver o Homem mudar.
Morrerei desiludido
o depois a lastimar
que eu não fui um protegido
pois a vera felicidade
está naquele que acredita
que o Homem tem qualidade
para mudar onde habita
que a água não faltará
e oxigénio também
e a cura haverá
p’ra se viver mais além
E em todo o globo cabe
cada um no seu lugar
a fazer só o que sabe
sem andar a empurrar
o vizinho que incomoda.
S os velhos forem tantos
mesmo não estando na moda
não se afastando p’ros cantos
mas com amor para dar
se vier a ser assim
se tudo se alterar
coisa em que eu não creio
não é preciso chinfrim
e muito menos receio.

Se o mundo se endireita
Portugal imitará
e a malta satisfeita
as hossanas cantará
eu é que não acredito
nem no mundo ou só cá
e é por isso que eu grito
p’ra me ouvir Deus e Alá
qualquer Buda ou seu parente
que p’ro caso tanto faz
já que o Homem é que não sente
o mal que lhe vem de traz
do jardim do Paraíso
no tempo de Adão e Eva
quando se perdeu o siso
e se caiu na treva
como dizem Escrituras
e a maçã desfez perdão
e s’inventaram figuras
e com nova situação
os cristão recomeçaram
a encarar o seu mundo
e nunca mais descansaram
convencidos bem no fundo
de toda a sua verdade

Faço, pois, mal em gritar
contra quem contente diz
tudo vai continuar
o ser humano é feliz ?
Tenho de dar grito alto
mesmo sem ter resultados
a vida é um sobressalto
nós andamos enganados
e num futuro qualquer
mais próximo ou nem por isso
seja homem ou mulher
verá que não foi enguiço
aquilo de que avisaram
os que estavam mais atentos
para o pior alertaram
apelando aos sentimentos
.

GREVES RESOLVEM?



NÃO HÁ DÚVIDA de que um grande número de portugueses não se deu ainda conta de estado real da nossa Nação, continuando a supor que todas as difíceis situações que sucessivamente somos obrigados a enfrentar não passam de coisas passageiras e que, numa rápida mudança, tudo se comporá e o mundo encontra uma nova e feliz vivência. E, tanto os mais antigos como os que se movem com relativa juventude no actual ambiente, todos, os que são optimistas doentios, não se dispõem a aceitar a realidade e a tentar fazer um esforço para prever o que será o futuro que se aproxima.
Não é aconselhável, de facto, que passemos os nossos dias amargurados com os piores quadros que possam ser pintados na nossa imaginação e sobretudo face às realidades que temos vivido ultimamente, mas o resguardar uma certa prudência, por forma a não virmos a ser surpreendidos com aquilo que pode vir a surgir no caso de não ser de todo agradável, essa posição tem algumas vantagens e sempre ajuda a que, na altura própria, se possa contar com a preparação mais útil para solucionar os problemas que nos afectarem.
De entre os que vivem ainda num mundo de sonho e não realizam a real situação portuguesa há que dizer que alguns sectores dos chamados “trabalhadores” – e uso as aspas porque, para mim, todos trabalham, excepto os que não fazem nada e vivem dos rendimentos - , sobretudo os seus sindicatos que têm à frente profissionais que, com o seu ordenado garantido, movimentam camadas de população para protestar continuamente, sem serem capazes de solucionar os problemas reais, como seja os das falências das empresas, esses exigem que o Estado aumente os seus ordenados, seja como for, sem cuidar de saber se os dinheiros públicos podem suportar tais necessidades (que ninguém discute).
O que ocorre com os enfermeiros que, na verdade, com os seus 1200 euros mensais, os iniciados, não têm condições de vida aceitáveis, a greve que faz paralisar gente que é fundamental nos hospitais e nos centros de saúde, deixando uma população necessitada de tratamentos entregues à sua sorte, tal exigência de aumento de ordenados demonstra a ignorância absoluta de que os dinheiros públicos não chegam para satisfazer a imensidão de necessidades que se conhecem em todo o nosso País.
E o mesmo espírito de descontentamento ocorre em todos os funcionários públicos, esses que, apesar das enormes deficiências de actuação que se conhecem e que, por mais de uma vez, aqui denunciei em casos concretos, por desleixo, incompetência, desinteresse, movimentam as suas organizações sindicais com aquela figura carismática sempre à frente, com um ar muito composto no vestuário e na faladura, de nome Bettencourt Picanço.
Seja como for, o que importa é que, como digo logo no início, existe uma enorme camada de portugueses que não se dispuseram ainda a entender profundamente a realidade do nosso País, em termos de capacidade de fazer frente a todas as situações de défice financeiro, pois que aquilo que Portugal deve em muitas áreas, sobretudo ao estrangeiro, faz-nos correr o risco de, um dia destes, se fecharem as portas e, tal como sucede quando a mercearia encerra o crédito e não nos deixa mais lá ir buscar o que faz falta para comer sem ser com o dinheiro na mão, também poderá, noutra escala, passar-se em relação ao nosso País.
Não se compenetrem dessa realidade, não! E depois bem podem fazer greves os senhores dos sindicatos, que só serve para gastar solas nas avenidas e nem para os cartazes vão chegar as ajudas…

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

MARCHA DE LISBOA

(lETRA PARA UMA MARCHA)
Lisboa do Sol brilhante
Lisboa do Tejo aos pés
Tu tens a força gigante
Tu és assim como és
Mesmo a olhar p´ro futuro
Tens sempre o passado atrás
E sou fiel, isso juro
Ao amor que tu me dás

Cantiga da rua
Tu és para nós
A força da voz
Que actua
Esperança, tão boa
Que vem já de trás
Que o povo é capaz
Oh! Lisboa
Cidade velhinha
Não julgues que a história
Parou na escadinha
Na rua estreitinha
E é só memória
Olhar para a frente
E força alfacinha
Que o coração sente
A ânsia da gente
Que canta e caminha

Mas se o passado morreu
E o orgulho permanece
Uma nova fé nasceu
No coração que amanhece
Lá no alto, o castelo
Sempre estava e há-de estar
A olhar tudo que é belo
E a Lisboa namorar

DISCRIMINAÇÃO OU DESCRIMINAÇÃO


FALA-SE muito de discriminação, do não cumprimento do direito que todos têm de ser iguais, de não haver uns e haver outros. E é verdade que não se pode aceitar que se estabeleçam diferenças de tratamento por motivo da cor da pele, da religião que se pratica, das preferências sexuais, dos que fumam e dos que não fumam, dos que não são iguais fisicamente aos considerados do padrão normal e até por antagonismos políticos ou mesmo clubísticos e todas as diferenciações que se façam.
Quanto a todo este panorama, em Democracia, o princípio é o de que não é legalmente permitido que não sejam encarados todos os seres humanos da mesma maneira, salvaguardadas as nacionalidades de cada pessoa que, em cada caso, goza das regalias específicas pelo seu próprio país.
Até aqui tudo bem. Acontece, no entanto, que, por cá em Portugal, se têm verificado situações que, segundo exemplos conhecidos noutros países por onde passaram os imigrantes que atravessaram a Europa em busca de local onde mais lhes apraz viver, concretamente no caso dos romenos, são os oriundos dessa parte do Leste que mais demonstrações têm dado de que o seu comportamento não é de modo a permitir que se mantenham a criar problemas onde já existem os nossos próprios. Obviamente que, generalizar do mesmo modo todos os naturais daquela nação, por sinal com língua também baseada no latim, não é a atitude mais apropriada. Haverá seguramente gente da Roménia que é merecedora da toda a consideração que é devida a quem escolhe Portugal para continuar a sua vida. Mas, dada a percentagem de gente desta nacionalidade que tem dado provas de não merecer o nosso acolhimento, pois é conhecida a sua forma de viver, vindo em caravanas e em que os homens se de dedicam a acções pouco recomendáveis e as mulheres, essas, novas e de mais idade, o que fazem é colocar-se à porta de supermercados e junto dos semáforos a pedir esmola, numa choradeira ensaiada e, normalmente, de bebes, verdadeiros ou falsos, ao colo, face a esta característica não é aceitável que não se tomem as necessárias medidas para que se ponha fim a tal panorama.
Já foram descritos casos de raparigas romenas que entram em casas, sabendo que estão vazias, sobretudo durante o dia e depois de terem ficado a observar as saídas dos moradores e, ainda pior do que isso, são os assaltos à mão armada que grupos de romenos, dizem, têm estado a efectuar e que, particularmente agora no Algarve, a residências de estrangeiros, e que provocam o clima de terror que ali se vive, com o prejuízo que tal representa na área do turismo estrangeiro.
É preciso atingir-se este ponto para que as medidas necessárias, por mais drásticas que possam ser, venham a ser aplicadas? E, nestas circunstâncias, trata-se de qualquer discriminação ou não será antes uma pura descriminação dos culpados?

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FELICIDADE, O QUE É ISSO?

Quando me ponho a pensar
e a tentar entender
o valor do respirar
satisfação de viver
felicidade, bem grito
para que longe me oiçam
com este ar de aflito
e com isso se convençam
que é difícil alcançar
essa tão grata benesse
podendo então proclamar
que por vezes aparece
sendo assim é não largar
já que ela sendo rara
e que não é só amar
que por vezes a mascara
da ilusão do feliz
todo o mais esquecendo
e não ligando à raiz
do que se está vivendo

‘Inda bem que não se sabe
felicidade o que é
já que ao todo não cabe
por maior que seja a fé
em pleno no humano
e em qualquer condição
e nem mesmo por engano
ela se encontra à mão
ser feliz um dia sim
infeliz um dia não
isso acontece em mim
e me serve de lição
p’ra suportar os desgostos
de que é bem farta a vida
podendo ajudar os gostos
tudo antes da partida


Fico então a perguntar
se isso de feliz ser
se pode a alguém roubar
só porque nos dá prazer.
No outro a felicidade
cabe em mim na perfeição
basta que tenha vontade
p’rassentar no coração?
Que não, é a resposta a dar
cada um terá a sua
não há pois que invejar
a felicidade qu’é tua

Saúde, amor e dinheiro
dizem ser trio venturoso
qual deles o primeiro
já é coisa mais custosa
muita gente muito rica
do roubo tem muito medo
outra alarmada fica
do amor acabar cedo
a saúde essa sim
a todos é bem precisa
mas ela também tem fim
e sozinha é indecisa

A felicidade total
se alguém a tem neste mundo
encontrou o ideal
mas no fundo, bem no fundo
lá andará assustado
a menos que em consciência
não se haja ainda dado
conta de uma vivência
única, quase anormal
pois será até doente
a pedir o hospital
para tratar su mente


O MISTÉRIO DO FUTURO



HAVERÁ ALGUÉM que consiga descrever o que será a vida de todos os habitantes terrestres daqui a cinquenta anos, para nos limitarmos a apenas esse espaço de tempo? Por muita imaginação de que sejamos possuídos, é possível acertarmos em pormenor com a maneira como se comportarão, de uma forma geral, os que, nessa altura, andarão por este mundo?
Com a velocidade com que, desde as últimas décadas do século XX e já agora no que estamos a percorrer, se desenvolveram e continuam em progresso as descobertas científicas e tecnológicas em diferentes sectores, poderemos prever que atrás de cada novidade outros inventos não irão surgir e que aquilo que hoje mesmo nos causa surpresa será rapidamente ultrapassado por novas invenções, ao ponto de nem haver ocasião para se gozar em pleno o que o homem é capaz de ir produzindo continuadamente.
Os que têm idade agora para isso recordam-se, sem dúvida, dos tempos em que o telefone estava limitado a formatos e a utilizações restritas aos locais para isso instalados. Ninguém imaginaria, cinquenta anos atrás, que se passaria mais tarde a andar com esse objecto de comunicação imediata connosco no bolso, embora, hoje em dia, já se saiba que os telemóveis que usamos, pelo menos os que não têm posses para modelos muito sofisticados, dentro de muito pouco tempo serão substituídos por aparelhos que, num só objecto, darão satisfação ao ser humano em áreas que, já hoje, se conseguem através da utilização de diferentes mecanismos muito sofisticados. Este é um exemplo, porque, no campo da evolução inventiva, sabe-se lá o que vai ainda aparecer que transformará completamente a forma de viver dos sempre insatisfeitos humanos de hoje.
Mas, ficando-nos apenas pelo sector da informática, com a invasão de quase todo o espaço de actuação dos habitantes do Globo desses aparelhos que, progressivamente, foram ocupando o espaço das diversas idades, ao ponto de serem mesmo os mais jovens que, nesta fase, dominam o seu uso, aquilo que tem de constituir uma preocupação é que o contacto face a face dos mais novos – e não só – vai sendo substituído pelo teclado dos computadores, pois que as conversas que, provavelmente, nem existiriam de via voz, ocorrem agora através dos “Messengers”, dos “Facebooks”, dos “mails” e de outros modos de comunicação que os “écrans” facilitam.
Será que, num futuro, as trocas de impressões, amigáveis ou antagónicas, o contacto pessoal, com o cheiro que ajuda a caracterizar os parceiros, deixará de existir?
Hoje em dia, as saudosas tertúlias de outros tempos, que constituíram muitas criações de grupos culturais de que eu me recordo constantemente, já só muito raramente se verificam. A leitura dos livros, embora ainda se mantenha e não se tenha perdido ainda também o apalpar do papel, tudo indica que, cada vez mais, vai ser a Internet que fará o funeral das livrarias, essas instituições comerciais que sempre constituíram - e talvez se mantenham por algum tempo – o ponto de encontro dos “perdidos pelos livros”.
Eu prefiro não amachucar a minha imaginação com a “pintura” do que será o futuro. Como também já cá não estarei, quem não teve contacto com o panorama que foi vivido antes não tem possibilidade de estabelecer a comparação.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SE EU FOSSE UM HOMEM RICO

Hoje estou num desses dias
com ganas de fazer nada
todos nós temos manias
ou gosto pela vida airada
tenho livros para ler
mais de dez na escrivaninha
pinturas para fazer
mas caí nesta morrinha
é preguiça
enfermiça

Olho só, mas nada vejo
nem isso quero fazer
tudo me causa bocejo
mas que maçada viver
e falar não é comigo
que trabalho isso me dá
andar também não consigo
dar uns passitos vá lá
mandriice
que lesmice
vou falando com quem passa
poesia escreverei
mirarei a mulheraça
e tudo que sei farei
com vontade
e qualidade

Postas as coisas assim
parando para pensar
ponho esta questão a mim
em prosa ou a versejar
pode-se ser mais feliz
estando atento à nossa volta
e sendo sempre juiz
ou seguir na vida à solta
divertido
extrovertido?

Boa questão está no ar
que responda quem souber
cada um faça o que achar
o que mais lhe aprouver
porém o mundo não deixa
que cada qual faça a escolha
pois muita porta se fecha
quem anda à chuva se molha
aguenta
que tormenta

Sendo pobre, coisa má
mais difícil a opção
não há por perto o sofá
e p’ra dormir há o chão
por isso não fazer nada
não é escolha para ter
e andar na vida airada
não é questão de querer
o trabalho quando falta
sem ser por própria vontade
mesmo doente com alta
não dispõe de liberdade
desemprego
desassossego

Comigo não é assim
não sou pobre nem sou rico
é só por não estar afim
não quero e nem abdico
já nesta altura da vida
de ser de outra maneira
o momento é que convida
seja certo ou seja asneira
dolência
independência

Não posso ser mentiroso
pôr em questão meus desejos?
É que dá certo gozo
fingir que tenho bocejos
não, nunca estou desse modo
no “dolce fare niente”
por mim nunca me incomodo
na posição de ausente
é que tenho consciência
de que o tempo que me falta
me desperta a exigência
de não m’entregar à sesta
essa a razão por que faço
esforços p’ra produzir
e afugento o cansaço
em troca do insistir
teimosia
rebeldia

Estou num dia portanto
ao contrário do que disse
em que p’ra dentro canto
não vejo nisso chatice
acrescento mais poemas
ao rol imenso em arquivo
são quase todos algemas
que eu deixo em donativo
aos que ainda cá ficarem
nada têm de nocivo
mesmo sem apreciarem
testamento
sem talento

Só se for rico
o mafarrico




SE EU MANDASSE...


TENHO PENSADO muitas vezes nesta situação, sobretudo quando escuta as múltiplas notícias que apontam para as deficiências que se notam nos mais variados sectores da administração pública, incluindo até a falta de cumprimento de disposições que são tomadas legalmente pelos sectores hierarquicamente colocados para ter esse poder.
O primeiro alvo das críticas que fazemos sempre que se aponta alguma falha por parte dos elementos da governação é, obviamente, desde logo o primeiro-ministro, neste caso José Sócrates. É verdade que o próprio também se põe sempre a jeito, pela sua pouca habilidade em falar claramente ao povo que somos, por ser muito repetitivo nos elogios em causa própria e por utilizar expressões que não são as mais apropriadas para se fazer compreender com clareza e sem margem para interpretações dúbias, mas também é forçoso que tenhamos todos consciência de que, sendo a administração pública uma pirâmide que, desde o topo e pelo seu corpo abaixo, apresenta inúmeros sectores com chefias próprias e em vários desses níveis existem comandos que não têm capacidade para actuar em benefício dos cidadãos e, constantemente, nem sequer cumprem as determinações legais que são estabelecidas acima pelos sectores apropriados.
Ora, o que eu já dei comigo a reflectir é, que se eu ocupasse as funções de chefe do Governo, teria de contar com a ajuda de um grupo, limitado mas eficiente, de assessores que estivessem permanentemente ao corrente das queixas que a população fizesse, através sobretudo dos meios de comunicação social, e esses elementos, depois de me comunicarem, numa conferência diária de uma hora, os casos mais gritantes, terem posição credível suficiente para, em meu nome, exercerem a influência para que as situações se mudassem e dando disso conta aos principais visados pelos erros de actuação. E não seria - disso fazia questão - de mais assessores só para dar emprego a amigos, mas sim um grupo de colaboradores que teriam de mostrar serviço, sob pena de serem imediatamente afastados, coisa que não se verifica nos casos conhecidos.
Claro, que, para poder dispor de tempo para dedicar uma atenção proveitosa a estes pormenores, teria que abdicar das “passeatas” que são excessivas para efectuar inaugurações fictícias, posto que, para serem colocadas primeiras pedras, só nas situações que se justificassem tais exibições de propaganda teriam lugar.
Há muitas formas de publicitar o que se pretende ir acumulando na memória dos portugueses para efeitos de serem colhidos os votos nos momentos das eleições. Andar constantemente a puxar o lustro ao umbigo, atribuindo méritos constantes a si próprios, para além do ridículo dessa representação significa retirar tempo para as acções que merecem ser bem cumpridas e não atender às verdadeiras prioridades – falo sempre neste pormenor – que Portugal precisa de ver atendidas.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O QUE SOU E O QUE FUI

Se eu não sou quem imagino ser
se não fui o que julgava ter sido
quem fui e quem sou, finalmente
e que de útil foi tudo o que fiz
se me resta fazer mais alguma coisa?
Vasculho na memória, sem resposta
desperto a consciência e é igual
não encontro nada de destaque
algo que mereça ser mencionado
tudo foi arrancado com esforço
muito me custou bastante desgosto
porém, espremido agora é zero
não provoca espanto a ninguém
também não haverá razão para isso.

Sei que não é excesso de modéstia
não acredito que se trate disso
eu que desconfio dos que se adulam
dos que só pensam bem de si mesmos
que não avaliam os seus defeitos
e que acham que o mundo é ingrato
por não reconhecer valor nos próprios
eu que sou muito exigente comigo
o que não me falta é teimosia
e é graças a ela que persisto
que repito, que vou continuando
até aquele momento decisivo
em que já não puder deslocar-me
e nem mesmo isto que faço agora
seja capaz de levar a cabo.

Não, de facto eu não sou nem nunca fui
o que cheguei a admitir que era
alguma coisa que valesse a pena.
Ao menos ainda fui a tempo
de encarar a realidade.

QUEM É O RESPONSÁVEL?


CONTINUAMOS a não exigir responsabilidades aos culpados de vários erros graves que, por terem pesados custos de diversas espécies a Portugal, não deveriam sequer passar despercebidos e, muito pelo contrário, impunha-se que, até para evitar outros casos que se podem perfilar para aparecer, marcassem um rigor de punição, pois não nos encontramos em condições de suportar falta de profissionalismo e de eficiência nos diversos sectores públicos que temos.
A notícia que foi agora divulgada de que a Segurança Social tem por receber uma enorme verga de prestações pagas indevidamente e isso situa-se na casa dos cerca de 300 milhões de euros, de acordo com dados publicados pelo Tribunal de Constas sobre a Caixa Geral do Estado de 2008, pois que o Ministério de Trabalho de Segurança Social não apresentou ainda valores para 2009.
A realidade é esta: enquanto existem milhares de desempregados sem acesso ao subsídio, por outro lado a Segurança Social atribuiu esse auxílio de desemprego, rendimento social e baixas por doença que não deveriam ter sido pagas, mas que o foram por fraude ou simplesmente por falta de cruzamento de dados. Numa palavra, por má actuação dos serviços que têm a seu cargo efectuar um trabalho limpo e correcto.
Não me alongo mais por hoje. Tomam-se conhecimento dos desleixos do sector do Estado, do tal que custa ao erário público valores muito elevados que faltam noutras áreas, mas não se fica a saber qual a actuação punitiva que se impõe mas que se faz por esconder e por deixar cair no esquecimento.
É a tal coisa. Uns protegem os outros e a corporação funciona, como sucede também quando se organizam manifestações para fazer subir os ordenados dos funcionários públicos. A que têm direito como todos os portugueses, mas só depois de darem mostras de que se empenham para que o serviço aos cidadãos – que são os seus verdadeiros patrões – seja impecável.

sábado, 23 de janeiro de 2010

AVARO

No poupar há algum ganho
dizem os tais cautelosos
mas isso de ser tacanho
só pertence aos mais medrosos.
Poupar hoje, ter depois
se é assim já se aceita
pois se um mais um são dois
é conta que está perfeita

Mas guardar bem guardadinho
e na vida passar mal
é como ave no ninho
a sofrer o temporal.
Deixar tudo o que tem
só para olhar a beleza
e não ajudar ninguém
é prova de avareza

Entre dois males humanos
um de só desperdiçar
e outro que causa enganos
de tudo que tem guardar
eu não sei qual o pior
porque no meio a virtude
certa dose de rigor
é o que não desilude

Por isso o ir gastando
com a devida cautela
é como ir caminhando
guiado por boa estrela.
Ter a noção do que tem
ajudando quem precisa
é deitar mão a alguém
ao mesmo tempo qu’avisa

ORDENADOS CHORUDOS



JÁ AQUI me referi a este tema e voltarei a ele as vezes que forem precisas, por muito que as entidades que deveriam, há muito tempo, pôr termo a esta vergonha, não dêem mostras de meter mão no assunto ou só o vão fazendo, como agora foi tornado público, de modo cauteloso, para não causar grandes desconsolos naqueles que, usufruindo de regalias inaceitáveis dentro da crise geral que atravessamos, não convém aos amigos que governam que amuem demasiado.
Pois quero referir-me ao que chegou agora – só agora – ao conhecimento da generalidade dos cidadãos portugueses, de que o Ministério das Finanças, através do seu braço empresarial, a Parpública, que tem o subtítulo Participações Públicas e gere as participações do Estado nas empresas com participação estatal, deu instruções para que as empresas com estas características não procedam a “actualizações”, este ano, dos vencimentos dos seus administradores.
Não me vou gabar de que este blogue terá tido influência numa decisão do Governo que só admirava que não tivesse sido tomada já um ou dois anos atrás, dado que a crise que nos ataca fortemente não começou em 2010, mas, de qualquer forma, como sempre é melhor tarde do que nunca, não podemos deixar de nos congratularmos por acabar por ser considerada uma decisão que, ao fim e ao cabo, muito pouco afecta a vida regalada que levam alguns dos detentores de certos cargos, pois os vencimentos que obtêm são mais do que suficientes para não sentirem faltas de grandes coisas.
E, só para ficarmos com uma ideia daquilo que digo, aqui deixo alguns dos ordenados desses privilegiados que, este ano, não vão ver aumentados esses benefícios:
O que ganha mais de todos é o presidente dos TAP, Fernando Pinto, que recebe por ano 420.000 euros; e logo a seguir vem Faria de Oliveira, que aufere 371 mil; seguindo-se Fernando Nogueira, do ISP, com 247.938; e depois Vítor Constâncio, do Banco de Portugal e Carlos Tavares, com 245.552. E a lista prossegue, daqueles que foram tornados públicos os seus vencimentos: Vítor Santos, 233.857, do ERSE; José Plácido Pires, 134.197, da Parpública; Guilhermino Rodrigues, 133.000, da ANA e por aí abaixo até ao último de que se tem conhecimento público, o “pobrezinho”, da Carris, José Manuel Rodrigues, que aufere apenas 58.865 euros por ano.
Pretendendo seguir o mesmo exemplo, no sector das instituições de crédito, por imposição do CMVM, as remunerações das suas administrações são divulgadas publicamente, o que, pelo menos, deixa de ser uma “caixinha” no segredo dos deuses.
Quando as pensões dos reformados aumentaram ao Estado mais de 1,1 mil milhões de euros em 2009, do sector privado e de ex-funcionários públicos, ou seja, atingiram os 16 mil e 196 milhões, a pergunta a fazer é quanto pesa neste montante os que, pertencendo já este grupo, em quanto é que contribuem para atingir tal montante. E se não influencia ainda, estará a chegar a altura em que pesarão bastante.
A pouco e pouco, sem grandes pressas, vamos progredindo, pelo menos no sector da vergonha. É já um passo em frente. Vamos a ver se ainda iremos a tempo de conseguir que não nos aproximemos do estado em que se encontra a Grécia. Pois que não é à falta de avisos que os que ainda poderão fazer alguma coisa de mais positivo, poderão desculpar-se depois de que ninguém lhes disse nada.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O MUNDO QUE TEMOS

Oh Deus que estás contemplando a Terra
contente não creio com obra feita
o homem por Ti feito só quer guerra
não seria essa Tua receita
De início Caim matou Abel
por diante esse homem foi mau
abriu asas ao seu fundo cruel
à maldade contida em alto grau

Até hoje nada mudou no ser
segue agarrado ao seu egoísmo
e Deus lá deverá estar a ver
sem evitar a queda no abismo

Se não é prudente pensar assim
se mandam os cânones ser prudente
pois que então quando chegar ao fim
mude o meu pensar e passe a ser crente

Será tarde, não valerá a pena
pois que por cá é que se deve crer
ainda que nesta vida terrena
a fé não nos retire o sofrer

Pois se Deus nos protege de verdade
eu me pergunto que seria então
deste mundo de tamanha maldade
sem contar com a Sua protecção


JUSTIÇA DIVINA



QUANDO assistimos a todas as catástrofes que ocorrem pelo mundo, em que as vítimas são, quase por norma, multidões de famintos, crianças, gente que se arrasta na vida nas piores condições, não podemos, de facto, ficar indiferentes. Eu não serei excepção, assumo, e, tal como muita gente, espero, são essas situações que me fazem ir ao fundo da questão e provocar em mim ainda maiores interrogações do que aquelas que acarreto desde que me conheço como pensador. Se não com a mesma intensidade, talvez com alguma semelhança.
O caso é o seguinte: como não sabemos, de ciência certa, se o Universo acarreta planetas com características iguais ou parecidas com a que temos na Terra, ficamo-nos por aqui e teremos de sujeitar a nossa preocupação ao que se passa à nossa volta. E, admitindo os princípios religiosos que são mais seguidos nesta Esfera, de que um Deus criou no princípio, e que, depois disso, passou a olhar e a acompanhar os seres terrestres, por isso é-lhe atribuída a função de “Todos Poderoso”, ao darmo-nos conta de ocorrências como aquela que abalou agora o território do Haiti, provocando a mortandade e o sofrimento que afectou uma vasta mancha de seres humanos, os que viram o fim da sua existência e aqueles que, provavelmente ainda piores, se vêm mutilados fisicamente ou que sofrem a perda de parentes que não resistiram à catástrofe, que se pode face a isso que se pode concluir no que diz respeito ao que cada crente espera da bondade divina, já que se admitirá que tudo que ocorre na crosta terrestre tem de ter “autorização” da mão de Deus?
Bem sei que a fé encontra sempre resposta para acontecimentos na vida humana que, os que não se encontram tão ligados a esse tipo de crenças, têm dificuldade em digerir. E, para além do princípio, a que eu já me referi em blogue atrasado, de que o excesso de população mundial está a ser também causador da crise que se debate a população na sua maioria, não encontro outra resposta que satisfaça minimamente os que não se conformam com as vilanias que a Natureza pratica.
Pouco mais tenho a acrescentar ao que já dei mostras de constituir mais uma dúvida às que me atormentam sempre que me proponho reflectir na área dos mistérios divinos. E a desejar que não constitua mais uma preocupação às muitas que os mortais já têm de suportar. Mas também, deixar passar e somente cuidar dos vivos e enterrar os mortos, sem entrar nos meandros espirituais, isso parece-me pouco ambicioso.
Eu, pelo menos, não me fico por aí. Embora não encontre qualquer resposta e não tenha conhecimento se os sábios, os que contribuem constantemente para os grandes avanços tecnológicos, alguma vez serão capazes de fazer desaparecer o grande mistério que envolve os que têm pretensões a querer saber mais. E só facto dele existir já dá que pensar.