sábado, 2 de janeiro de 2010

AMOR DE PARDAIS

Quatro pardalinhos brincam no chão do meu jardim
picam a terra com entusiasmo
e eu olho-os com ternura
pensando no mundo dos homens
desses que se guerreiam uns aos outros
e não confraternizam como estes pássaros
não dividem o que há para comer
são egoístas, querem só para si

E estes pássaros inocentes
que não sabem o que é pecado
que só procuram defender-se
dos que são gulosos
dos que apreciam o petisco
dos passarinhos fritos
saltitando, piando
lá vão apanhando as migalhas que
sem querer
os homens deixam cair

Que bom seria
se o mundo fosse todo como o dos pardais
dividindo o amor e as migalhas


CHEGAR A ACORDO



LOGO APÓS a entrada do Novo Ano e passadas as manifestações que são habituais sempre que se pretende celebrar um acontecimento com data estabelecida, tudo regressa ao habitual e começamos novamente a vida de todos os dias. Neste caso, também se tratou do habitual a intervenção do Presidente da República só que, neste caso, e dando-me a mim a impressão que deu ouvidos ao que eu tenho proclamado neste meu blogue – claro que se trata de uma afirmação sem responsabilidade -, veio esclarecer os portugueses da sua posição, mostrando que se encontra bastante preocupado com as coisas como estão a correr em Portugal e dando ocasião a que cada um no seu lugar faça o exame de consciência que julgar conveniente para deduzir se lhe cabe alguma responsabilidade no estado em que nos encontramos.
É evidente que o Chefe do Estado, de acordo com a nossa Constituição, tem pouco poder de intervenção nas acções governativas, só lhe restando que, em última e derradeira atitude, se veja forçado a dissolver o Parlamento e, com isso, a queda do Governo e a realização de eleições legislativas antecipadas. E foi por isso que Cavaco Silva terá tomado a decisão de sublinhar os graves problemas que nos enredam, desde o elevadíssimo desemprego, até às dívidas públicas, sobretudo ao estrangeiro, à falta de produtividade e a situação de desconforto que nos coloca em posição pouco abonatória no panorama económico, financeiro e social europeu. E se não se referiu concretamente nos mais de dois milhões de pobres que as estatísticas já apontam no nosso espaço, nem foi necessário entrar nesse pormenor, mas todos nós temos obrigação de contribuir para que não se chegue ao extremo, tanto mais que se iniciou no dia 1 o Ano Europeu contra a Pobreza e a Exclusão Social.
Mas foi importante que Cavaco Silva tivesse orientado o seu discurso na direcção da falta de entendimento que se tem verificado entre o Executivo do PS e as Oposições que se têm mostrado pouco dispostas a ajudar o teimoso do José Sócrates a dar indícios de alguma maleabilidade, pois que uma coisa for ter governado com maioria absoluta e outra, completamente diferente, é encontrar-se agora muito dependente de acordo com os partidos que ocupam o Hemiciclo.
O recado que foi deixado perante as câmaras de televisão não deixa dúvidas no que respeita às responsabilidades que cabem a todos e, para bom entendedor, ficou explícito que devem ser feitos todos os esforços para que o Orçamento Geral do Estado, apresentado pelos socialistas, após as rectificações possíveis, passe as malhas do Parlamento, se bem que, posteriormente, existam maneiras de ir melhorando as várias especialidades ali presentes, de forme a satisfazer todos os apetites e sem pôr em causa o interesse nacional.
Isto, numa primeira análise. Porque, a pouco e pouco, como manda a Democracia, se podem ir discutindo pormenores, sempre dentro de uma ausência de teimosias doentias, posto que é com uma maioria relativa que se dá mostras de saber governar e de ter capacidade para ouvir as opiniões dos outros que, muitas vezes, são melhores do que as nossas.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

PAZ Á SUA ALMA

Com tanta desgraça que o mundo mostra,
diariamente,
persistentemente
ao tomar conhecimento daquilo que o Homem é capaz de fazer, com indiferença, lendo as notícias e passando à frente como assunto que não lhe diz respeito,
a pergunta que talvez valha a pena fazer
é se este caminho da humanidade pode conduzir
a algo que aponte para uma melhoria, para uma
aproximação da felicidade,
para conduzir a que, após tantos séculos de sofrimento,
o ser humano acabe por compreender
que, sobretudo os dois séculos mais recentes,
não contribuíram para que se tivesse parado para pensar e para concluir que
o avanço tecnológico que
se foi efectivando
só contribuiu para tornar ainda mais malvado o interior do Homo Sapiens.
Este último período dos cinquenta anos,
esses então só serviram para comprovar que
a idade, a sapiência, a descoberta de novos valores,
a experiência do antes vivido,
nada disso foi benéfico quanto à melhoria
das qualidades humanas que são essenciais
para que todos dêem as mãos
e acabem, de vez, com as quezílias,
com as invejas,
sobretudo com os orgulhos,
essa palavra que se encontra agora tanto na moda
e que, em lugar de ser uma qualidade,
se trata sobretudo de um defeito perigoso.

Perguntem lá a todos aqueles
que foram vítimas, recentemente, dos bombardeamentos, de um lado e de outro,
na Faixa de Gaza ou em Israel,
se serviu para alguma coisa terem estado vivos.
E os que sofrem as epidemias por esse mundo fora?
E os que dormem nas ruas,
por não terem onde acolher-se?
E aos que ficaram sem emprego
nesta fase dramática da crise?
Que fazer com todos esses milhares de milhões
de gente sem trabalho?

Não pode haver esperanças quanto ao futuro,
os que ainda dispuserem de alguma consciência
só lhes restará irem-se defendendo e
procurar não aumentar ainda mais
a massa de gente
imprópria para consumo

Os optimistas pensam isto mas ao contrário.
Pois que sejam felizes assim.
E que tenham a sorte de ir caminhando para outro mundo
Com a convicção de que
o que fica vai sempre melhorando.

Paz às suas almas.

COMEÇAR DE NOVO!



NESTE primeiro dia de Janeiro do ano que entra parece que mandam as regras que apenas desejemos aos parceiros desta vida que tudo corra pelo melhor. Enterremos o que acaba e arregacemos as mangas para o que surge.
Sendo assim, não é possível ignorarmos as principais dificuldades que nos esperam. Se não fizermos caso, então é que tudo continua na mesma se não até mesmo piorar.
Vou juntando, com o correr dos dias, recortes de jornais que me servem para poder fazer o balanço da situação que vivemos em Portugal, já que o que ocorre nos países que prosseguem belicosos isso não está nas nossas mãos fazer mudar. E, com esse egoísmo deparo, por exemplo, com as últimas notícias que, queiramos ou não, não irão alterar-se muito ao longo dos 365 dias que se deparam no panorama. E não posso deixar de referir um discurso pronunciado pelo ex-ministro da Economia, Manuel Pinho, aquela que pôs os dedos na cabeça para imitar uns cornos, em que, com grande ênfase – que é o que sucede com o próprio Sócrates e com os seus companheiros de Governo -, em que pronunciou a frase de que “daqui a 15 anos o mundo vai lembrar-se de nós, por sermos os pioneiros”, isto no que se referia à criação de energia a partir das ondas do mar, num chamado pomposamente Parque de Ondas de Aguçadoura, e em que o investimento público durou 3 meses, pois avariou-se e por ali ficou tudo abandonado. Isto um exemplo.
Também continuaremos a contemplar os vários campos de futebol que foram construídos por esse País fora, em Braga, Faro/Loulé, Coimbra, Aveiro e Leiria, que constituem uns “elefantes brancos” de que ninguém se apresenta como responsável. No fundo, trata-se de mais um daqueles hábitos nacionais de fazer primeiro e pensar depois, pelo que se tem de descobrir em 2010 que destino se encontra para tamanho disparate. O que também ninguém é capaz de solucionar é o escândalo do Banco Privado Português, em que está muita gente desesperada por ter perdido as suas economias depositadas naquela instituição de crédito e que, pelos vistos, não vai ser durante o ano que começa agora que o assunto fica solucionado por quem tem de ter poder suficiente para o fazer.
Quantas perguntas ficam sem resposta neste início de 2010, sendo difícil fazer caber todas no espaço reduzido que aqui tenho. Será desta que deixamos de ouvir os enfadonhos problemas, como o dos professores que não param de estar descontentes e da Fenprof com o seu secretário-geral que faz das reivindicações a sua vida? E, mais grave ainda do que isso, vão realizar-se ou não eleições antecipadas, exercendo Cavaco Silva o seu direito de dissolver o Parlamento ou será que Sócrates mete na cabeça que lhe é fundamental mudar de atitude e conseguir entender-se com as oposições? Por outro lado, será no próximo período que o PSD encontrará o seu caminho e surge a acalmia intestina que tanto precisa? No campo da Justiça, alguém meterá a mão sabedora e de bom senso por forma a que termine a vergonha nacional em que vivemos e, por exemplo, se ponha fim ao julgamento do fastidioso caso Casa Pia e o Freeport também seja encerrado, para não falar já do da Face Oculta que enjoa ouvir ser referido? E o desemprego, esse mal social que pode acarretar até alterações no regime político, será este ano que aí vem que marcará a redução indispensável?
Isto no que diz respeito ao nosso País, porque na área internacional e embora nos diga respeito, directa ou indirectamente, é caso para nos interrogarmos se a União Europeia consegue finalmente um entendimento de fundo, de molde a que todos os países situados geograficamente no espaço que lhe pertence caminhem todos no mesmo sentido e sem pretensões de uns quererem ter mais privilégios do que os outros. Isto para não referir as guerras que não há forma de terminarem por esse mundo fora. E enquanto houver ditadores, sejam eles de que cores forem e tenham as opções religiosas que tenham, esse desejo parece não ser possível ver realizado.
Como seria bom que este meu blogue, por ser redigido numa data em que é costume celebrar-se a esperança e com votos de felicidade, seguisse a norma habitual e enunciasse apenas os assuntos que deveriam dar razões a que nós, portugueses, nos congratulássemos por viver num local que representasse a porta de entrada num paraíso terrestre, já que, geograficamente, nos situamos na ponta do Continente, do lado do Oceano.
Mas olhem, eu não consigo formar uma lista de bons augúrios para 2010. Por isso, ao contrário do Sócrates que continua a pensar que vive num País cor de rosa e só se lambe a ele próprio com as vanglórias do que diz ter conseguido ao longo dos últimos anos, eu, que deveria ter a coragem de mentir – para dar razão a Fernando Pessoa que disse que os poetas sãos uns grandes mentirosos -, não consigo fazê-lo. É que estes textos do meu blogue não são poesia. Essa segue aparte

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

APODRECER

Como ele passa, o grande atrevido
Nem nos dá descanso para pensar
O que fica p’ra trás cai no olvido
Tudo se conjuga no verbo amar

Mas esse tempo, o tão necessário
P’ra levar a vida que nos impõem
Acaba por ser enorme calvário
Da via que os outros nos dispõem

Tal como um verme, rói-nos e tortura
Vai corroendo a carne e a alma
Quase nos tira o que é bom de viver

E é do lado de cá da sepultura
Com o seu tempo e sem perder a calma
Que nós começamos a apodrecer


FIM DO ANO


ALELUIA! Um novo ano está aí. É à meia-noite que, de baguinhos de uva numa mão, subindo a uma cadeira, com o porta-moedas com uns trocados na outra mão, que o portuguesinho da silva repete aquilo que fez durante toda a sua vida e viu fazer aos pais e até aos avós. E, em silêncio, faz um pedido que, naturalmente, dirá respeito ao seu sucesso no trabalho, à saúde que aspira sempre ter, para si e para a sua família mais chegada e a qualquer outra situação que conserva só para si.
No fundo, trata-se de enterrar o que ocorreu e de abrir portas de esperança para o que vem a seguir. É sempre assim. O Homem, por muito mal que seja tratado enquanto se arrasta por este suplício da vida, no fundo arrecada permanentemente a aspiração de que o que vem depois compensará o que de ruim teve de suportar. E até os miseráveis, os que não têm cama para se deitar nem prato com comida, mesmo esses suportam no seu íntimo a ânsia de que as coisas irão mudar. E o começo de um ano novo traz sempre essa espécie de milagre que não dá felicidade apenas aos outros. Por isso se diz que a esperança é a última coisa a morrer.
Sendo assim, por cá, por este País que anda azarado desde há muitos anos, há décadas, talvez há séculos, que não foi capaz de tirar partido das qualidades do seu povo, paciente, resmungão mas que lá vai fazendo, descobridor mas não sabendo tirar partido daquilo aonde chegou primeiro, com uma posição geográfica invejável no Continente Europeu mas não sendo capaz de beneficiar dessa situação, com grande História mas com confuso futuro, este País, chamado Portugal, entra em 2010 à procura do pé que deve colocar à frente, o Esquerdo ou o Direito, e, atrapalhando-se, metendo os pés pelas mãos e escorregando na passadeira da entrada.
Mas entremos. À porta não podemos ficar. E sejamos capazes de desembrulhar o pacote que nos espera pendurada na aldraba. Por muito que surjam os alertas amarelos, primeiro, e vermelhos, depois, isto devido às consequências das subidas dos caudais dos rios e das chuvas intensas que resolveram inundar várias partes do País, mesmo assim, depois de tanta água e precisamente a seguir a um período recente em que os agricultores se queixavam de que não tinham água para dar de beber aos seus animais – é sempre assim, ou excesso ou falta, mas nunca o bastante -, apesar disso tudo os aleluias são cantados, pelo menos para dentro, porque o suicídio não se pratica com facilidade e o que se tornou um destino dos portugueses é o aguentar, aguentar, aguentar…

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

CANSADO

Estou cansado do que fiz
do muito que já foi feito
ter querido o que não quis
levado coisas a peito
no fundo
confundo
o que neste mundo
é sempre segundo

Queria coisa melhor
ter vaidade numa obra
com a escrita ou pintor
mostrando arte de sobra
ser primeiro
de pé, pinheiro,
sem berreiro
bom viveiro

E se eu não me acredito
se ao alto eu não cheguei
o muito que deixo escrito
eu nunca renegarei
seja o que for
é suor
algum amor
muita dor

Mas a busca do talento
aquele que nunca fica
causa grande sofrimento
nem sempre se justifica
quem procura
com agrura
vive numa tortura
pode cair na loucura

Fatigado eu estou
mas se paro por momentos
já não sei p’ra onde vou
encontro outros tormentos
prossigo
castigo
afadigo
me obrigo

O que não quero é queixar-me
não vale já a lamúria
o que posso é castigar-me
rogar por génio com fúria
combater
querer vencer
e se perder
refazer

Chegado a esta altura
com tantos anos p’ra trás
este vício não tem cura
e mudar não sou capaz
aguentar
sem queixar
esperar
por outro ar

Cansado lá isso estou
p’ra isto não há remédio
eu sei bem p’ra onde vou
libertar-me deste tédio
então adeus
sonhos meus
enfiados nos seus breus
tapados por negros véus



ATÉ À PRÓXIMA!...


TENHO VINDO a ocupar este período de aproximação do final do ano de 2009 com uma série de textos que, valha a verdade, não se podem classificar como pertencendo ao grupo dos optimistas. Mas quem dá aquilo que leva dentro de si e não se esconde atrás de precisões que só servem para enganar, na minha opinião só merece elogio e não para ser alvo de crítica. Um não dito a tempo e sendo sincero é preferível a um sim enganoso até mesmo a um talvez que cria expectativas e +provoca depois um destruidor desengano. Quem já sabe com aquilo que conta tem tempo para se prevenir e procurar outro caminho, aquele que fica sempre à espera e não sai do mesmo sítio é normalmente a vítima que culpa os parceiros por não ter sido avisado com franqueza.
Daí eu despedir-me de um período que ocupou a nossa vida, que foi preenchido na maioria dos casos mundiais com sobressaltos e poucas notícias agradáveis e que, por isso, embora tenha gasto o espaço de um ano que poderia ter sido utilizado com outros acontecimentos que nos deixariam boas recordações, não creio que fique na História da Humanidade como algo a recordar, deixamo-lo e entramos no 2010 com naturais expectativas de coisa melhor.
Mas, enquanto caminhamos para as 0 horas do dia 31 de Dezembro, não podemos deixar de sublinhar as situações que, sendo as últimas que nos chegam através das notícias, por isso mesmo as colocamos no tapete da porta de saída.
Aquilo de que se falou tanto neste dia foi a da falta de carros para o serviço da Polícia que faz investigação e que, nesta altura, há uma falha de mais de 100 viaturas para atender às necessidades da população. Tomar conhecimento deste caso quando existem tantas viaturas que passam os dias estacionados ao serviço de altas e menos altas figuras da administração pública, grande número delas com motorista próprio a aguardar as ordens de suas excelências, assim como se sabe que, frequentemente, são confiscadas tantas viaturas pelos serviços fiscais e pelas autoridades que as confiscam por motivo de serem utilizados pelos não cumpridores das leis correntes (em assaltos, etc.) e de que não se sabe onde vão parar, se existisse uma organização capaz de dar seguimento às paralisações burocráticas (ou outras) e de suprir as necessidades com inteligência, sabendo-se que isto se passa e agora ficarmos a saber que as polícias andam com automóveis que já não cumprem o que deles se exige é coisa mesmo de um País como o nosso que não há forma de solucionar os seus próprios problemas.
Bem se compreende que se tome conhecimento de que alguns líderes partidários escolheram lugares no estrangeiro para passar as festas do fim do ano. José Sócrates, Paulo Portas e Francisco Louça, da Esquerda e da Direita, vão fugir de Portugal para ganhar forças que cheguem para enfrentar os múltiplos problemas que nos vão apoquentar em 2010.
Ao menos têm dinheiro para essa extravagância, se bem que, há que dizê-lo, não se trate de uma atitude muito patriótica. Mas lá isso, bem prega Frei Tomás…
E só uma coisinha para despedida: afinal, o Hot Club de Portugal, cujas instalações arderam e que a Câmara Municipal ofereceu um espaço no Cinema S. Jorge para poderem prosseguir com os seus concertos, acaba por ficar sem local. Um desentendimento à portuguesa não solucionou, por agora, o problema. Fiquei contente na altura e deixei de ficar!...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

POUCA SAÚDE

A saúde é uma graça
que quem a tem agradece
porque quando ela é escassa
a vida não apetece

E que haja quem ajude
a quem lhe falta a saúde

Quando lá longe anda ela
é que se lhe dá valor
há quem lhe acenda uma vela
p’ra não sentir qualquer dor

Só p’ra fugir da doença
aceita-se qualquer crença

Quem não é de meias contas
e os extremos prefere
apenas agarra as pontas
e mostra algum saber

Sendo a saúde uma espuma
mais vale não ter nenhuma

NÃO SABEMOS VENDER



ANDO-ME A DESPEDIR de 2009 já há alguns dias. É que é grande a minha apetência de esquecer o que foi este período de más novas com que nos defrontámos sucessivamente. O que é mau é para esquecer. Por outro lado, também já estou farto de, ao longo dos anos, emitir uma opinião, quer no tempo em que a Censura não perdoava e me cortava as opiniões, mas também depois, em plena Democracia, em que tenho vindo a insistir com tal tese, mas com uma razão que pouco interessa aos que não estão dispostos a analisar as nossas características como portugueses que somos, habilidosos para umas coisas mas, para outras, de que não damos mostras de ter o menor jeito. E esta lamúria refere-se à antiga mas infeliz medida tomada pelo rei D. Manuel I, quando decidiu expulsar os judeus que não aderiram ao catolicismo, tendo partido grande parte deles para a Holanda, que muito ficou a ganhar com essa entrada de gente bem preparada e sabedora das artes de vender, não interessando para nada a religião que processavam.
Explico-me então: a partir daí, mesmo tendo sido grandes descobridores por esse mundo fora, nunca fomos capazes de tirar partido do que passámos a dominar, dos locais onde nos instalámos, das riquezas que por lá foram encontradas. E até os diamantes de Angola, por exemplo, foram fazer a riqueza de uma família judia, instalada em terras nórdicas da Europa, a qual, até hoje, conserva esse negócio e fá-lo com enorme competência.
Mas adiante. O que é verdade é que, mesmo com a desculpa de que nos encontramos situados geograficamente na ponta do Continente Europeu, longe dos centros de grande movimentação de muitas mercadorias, sobretudo as agrícolas, o certo é que não podemos negar a realidade. E esse é de que não nos sentimos vocacionados para introduzir junto dos potenciais compradores estrangeiros os produtos que, mesmo mal estudados no que se refere às suas características de se adaptarem às preferências dos potenciais interessados, ainda assim poderiam caber numa mancha de mercado que existirá se for convenientemente convencido.
Mas não é isso que se passa. Na área da agricultura, por exemplo, sendo o nosso clima propício a, no que diz respeito a novidades de estação, apareçam com algumas semanas de adiantamento, não somos capazes de usufruir dessa vantagem. E eu sei do que falo, já que fui director da revista “o País Agrícola” e lutei, na altura, pela introdução de uma genica actualizada por parte das cooperativas agrícolas que existem, em demasia, por esse País fora, e nunca consegui motivá-las. E nem ao Ministério respectivo, em que os nossos engenheiros agrónomos gostam mais de estar sentados e bem engravatados por detrás das secretárias, em lugar de sujarem os sapatos nas terras. Ao contrário, por exemplo, do que se passa em Israel!
Mas, só no fim deste texto é que me refiro à razão por que escolhi hoje este tema. É que Basílio Horta, actualmente presidente do AICEP (um organismos que deveria funcionar meticulosamente por forma a abrir portas no estrangeiros para os nossos produtos e consiga conquistar capitais de fora para serem aplicados entre nós), veio declarar publicamente que há investimentos estrangeiros em risco de desaparecerem, em virtude de um novo regime fiscal criado para atrair investimentos do exterior para serem canalizados para Portugal, em virtude de não ter o Governo definido ainda as actividades abrangidas por esse novo regime (publicado em 22 de Setembro e com efeitos retroactivos a 1 de Janeiro de 2009), existem vários projectos que estão em risco de serem desviados para outros países.
Para quê, pois, andarmos a discutir pequenos problemas que, às centenas nos rodeiam, se os grandes, aqueles que representam, na verdade, uma possibilidade de abrir portas ao relacionamento com empresas estrangeiras que podem vir criar trabalho no nosso País, esses, a burocracia, a mandriice nacional, a nossa estupidez crónica não permitem que consigamos sair desta molenguice em que vivemos?
E é assim. Nem fazemos nem criamos as condições para mudarmos de incapacidade de vender, de progredir, de sairmos da trampa (e não tenho medo da palavra) em que estamos atolados.
Que o ano que vai ficar para trás não nos deixe muita marcas de molde a ficarmos agarrados a métodos que não servem para o futuro é o que me resta desejar nesta altura.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DESPEDIDA


Dizer adeus sempre é pena
ver partir os que gostamos
nunca se esquece tal cena
mesmo passados os anos

Por mais longe que eles vão
p’ro Além ou cá na Terra
os queridos partirão
a dor em nós se encerra

Por muito que seja dura
e grande a nossa dor
na hora de despedida

O tempo os males cura
diz o povo sabedor
que conhece bem a vida



ADEUS!...



O ACTO da despedida é, de uma forma geral, algo que provoca tristeza, que causa um sentimento de pré-saudade, de desejo que não suceda muitas vezes. Desta vez, porém, verifica-se uma partida e a sensação que nos deixa a quase todos – isto sou eu que o digo, por me parecer que se trata de uma opinião bastante generalizada – é a de que nos causa alguma sensação de alívio. Pois que vá e não volte!
Dizer isto a dois dias de acabar o ano de 2009 pode parecer um gesto de mau agradecimento à Providência, pois que se vivemos até aqui, nós os que nos conservamos vivos, é caso para estarmos já gratos. Isto é o que pensam também muitos, os que dão sempre graças a Deus pelo que ocorreu e olham para o futuro com o sentimento de seja o que Deus quiser…
Sendo assim, esses que se despeçam dos doze meses ocorridos com conformismo e olhem com expectativa para os que estão a chegar. Cada um…
Mas já nem me quero referir as ocorrências pelo mundo fora, que, de uma maneira generalizada, também não foram passando de forma a marcarem um período de satisfação que deixe vincado na História como tendo sido algo de desejar ser relembrado. Fico-me apenas pelo território que é o nosso, este pequeno rectângulo, na ponta Oeste da Europa, dá pelo nome de Portugal. E sobre isso me fico neste pequeno apontamento quase a fechar a porta de um período que os homens resolveram, muito tempo atrás, estabelecer como tratando-se um ano completo.
Pois paro para recordar, com esforço, este longo trecho de 365 dias e noites e, relendo até os meus blogues, que são diários, não consigo deparar com motivos para me regozijar por ter sido também um participante da cena que nos envolveu a todos.
A crise mundial, de que os culpados principais não terão sofrido tanto as consequências como os pobres cidadãos que acreditaram na segurança dos bancos, esse desmoronamento económico, financeiro e social que tem feito a vida negra aos mais débeis chegou fortemente às casas dos portugueses e o desemprego foi e ainda é uma das razões mais fortes para que desejemos ardentemente que o 2010 chegue com cores bem menos tristes do que aquelas que pintaram o cenário que nos foi oferecido.
Não sabemos o que outro Governo, diferente daquele que nos conduziu ao longo dos mais de quatro anos, teria sido capaz de fazer melhor, mas o que sim sabemos é que o de José Sócrates não deixou saudades e, ainda por cima, temo-lo presente nesta altura em que o panorama político nacional não dá mostras de serenidade e de compreensão entre as várias forças que se digladiam para subir na escada do poder.
Seja como for, a despedida de 2009 não deixa saudades. E também, quanto a mim, as portas que se abrem no 2010 que está a chegar não oferecem razões para se respirar de alívio.
Mas, cá estamos e enquanto houver dinheiro para pagar as reformas, mesmo ridículos que sejam os montantes da maioria, que os felizardos dos protegidos pelo regime, esses ainda podem ir pondo de parte alguma coisa para fazer face aos piores tempos que estarão aí para vir.




domingo, 27 de dezembro de 2009

CONTRADIÇÕES


As contradições existem
estão do outro e deste lado
e as duas lá resistem
enfrentando-se com enfado
a verdade e a mentira
são exemplos bem patentes
por vezes causam a ira
de muitas das nossas gentes

O valente e o cobarde
fazem parte da História
o primeiro causa alarde
o outro perde a memória
mas os dois são grande parte
deste mundo em que vivemos
um é porta-estandarte
o segundo nós tememos

Ser nesta vida sincero
traz por vezes dissabor
causa certo desespero
a quem tem esse valor
porque usar a falsidade
uma forma de fingir
com tamanha habilidade
leva-se a vida a sorrir

E isso de ser honrado
dos outros não querer nada
será sempre um coitado
sem conseguir vida airada
porque o roubo se é bem feito
tenha o nome que tiver
não é chamado defeito
pode levar ao poder

Daqui há que concluir
que o defeito é ciência?
Não há que por aí ir
que ceder a tal tendência
cada um tem seu perfil
não muda só porque sim
mantém-se no seu carril
e assim vai até ao fim

VIDA VELHA



O ANO de 2009 está de partida. Mais um, depois de todos os que passámos e quanto mais idade nós temos maior é o número de passagens de ano que já comemorámos, sendo que as perspectivas de que o período novo que se aproxima terá de ser melhor do que os que ficaram para trás. Para isso cumprimos a tradição e subimos, à meia-noite, a uma cadeira e metemos na boca as doze passas ou bagas de uva e fazemos os nossos pedidos íntimos. Depois, acreditando ou não no resultado, quedamo-nos na expectativa quanto ao que vai suceder. O Homem é um animal de crenças, por muito que pretenda mostrar que a sua superioridade não se coaduna com esses caprichos de “gente menor”.
De facto, tratam-se, de uma forma geral, de hábitos de cariz religioso ou místico, cada um com as suas preces íntimas See em especial o Natal é encarado com mais sentido de que se trata de uma comemoração do nascimento de Cristo, personagem esta que, tendo historicamente existido, escolheu uma época apropriada para se mostrar ao Mundo, porque, se fosse hoje que tal acontecesse, seguramente que se depararia com uma imensidão de inimigos que não o deixariam nem sequer abrir a boca, por muito que utilizasse os mais modernos meios de comunicação que o Homem, entretanto, criou.
Claro que os não crentes têm sempre motivos para dar mostras do seu afastamento das linhas religiosas. E este ano, com as intempéries que se têm visto por tantos lados, a questão que mais salta à ideia é a de que se não seria natural que, ao menos nesta época, a mão divina impedisse que houvesse tantas desgraças provocadas pelas “zangas” da Natureza.
Mas o tempo passa, os anos surgem novos, os homens recomeçam as suas tarefas, os problemas não param e as discórdias entre os seres que não abandonam as suas características egoístas, tudo isso, juntamente com a velocidade da ânsia das descobertas de modernidades que se sucedem sem quase dar tempo para serem gozadas com a tranquilidade mínima, parece não contribuir para aquilo que, ao fim e ao cabo, seria a que mais interessava aos que andam por este mundo: a felicidade.
E a extensão dos anos de vida contribui também para que os problemas humanos se arrastem. Se repitam. Se compliquem.
Vem aí, pois, o ano 2010. São mais doze meses, outros 365 dias e uma crise em que não existe ninguém que diga se este será o período em que entraremos na tranquilidade dos espíritos e em que os cidadãos, sobretudo os mais responsáveis, os que dispõem de maior possibilidade de interferir dão mostras de ter aprendida a lição e tomarão juízo, indo recomeçar uma vida já de paz e de comunhão de interesses, afastando o desejo de que os benefícios sejam exclusivamente para si próprios.
Vai ser desta vez? Acabarão os terrorismos que não há religião que possa explicar? Entrarão na linha os detentores do poder económico e financeiro e que, no fundo, estiveram na origem dos problemas mundiais que levaram ao terror que tem sido defrontado? Os afeganistãos, os iraques e os Irões, assim como as palestinas, os israeis e todas as questiúnculas africanas, bem como as dissidências em várias partes do Globo, tudo isso passará a ser memória triste do passado?
Haja quem acredite. Dizem que o querer é poder. Agora o “crer”, isso já é outra posse.

sábado, 26 de dezembro de 2009

AMA OS OUTROS

Se a ti não te amas
nem sequer o teu umbigo
se não te interessam as famas
se não és teu próprio abrigo
nem se calhar tens paixão
por tudo aquilo que fazes
se és tua oposição
e não gostas do que trazes
se é isso mesmo que sentes
um permanente desgosto
esse nem sequer tu mentes
sobre qual é o teu gosto
então está tudo sabido
p’ra sentires alguma flama
e não ficares esquecido
ao menos os outros ama

ESPERANÇA?



COMO GOSTARIA que, apesar da situação de crise que somos forçados a enfrentar, mantivéssemos um mínimo de confiança na franqueza e na competência, na honestidade de procedimentos daqueles que se encontram com a responsabilidade de evidenciar todos os esforços para que Portugal não se veja envolvido, cada vez mais, no charco económico, financeiro e de dívidas que já nos colocou nos fins da tabela dos países mais débeis da Europa.
Mas uma coisa é o que se deseja e outra, quase sempre bem diferente, é a realidade que se vive. E, por muito que José Sócrates surja, com frequência, a propósito de inaugurações quase sempre despropositadas, a cantar hossanas a situações que ele se convence que são dignas de merecer louvores públicas ao Governo que comanda, por mais que não seja possível convencer o chefe do actual Executivo de que o importante seria que da sua boca saísse verdades, transparências, até mesmo arrependimentos, quando fosse o caso, por não terem resultado, como seria esperado, as medidas que o seu grupo político entendeu levar a cabo, por excessivo convencimento das suas razões que o primeiro-ministro não consegue esconder, não é por aí que os cidadãos portugueses mudam do descontentamento em relação ao chefe do Governo e passam a apreciá-lo em absoluto.
Porém, o que também se tem que sublinhar como uma realidade é que, na altura das eleições, como sucedeu no último escrutínio, a maioria dos portugueses colocou o seu voto no grupo partidário a que Sócrates está ligado, o PS, e, por esse motivo conseguiu situar-se no comando de um Governo. Quando se repetiu a situação eleitoral, por sinal a mais recente, apesar de não ser de grande entusiasmo popular a escolha de novo de Sócrates, quis o destino que o outro partido que poderia ter aspirações a substituir o PS na frente da escolha, o PSD, se encontrasse em luta intestina e não transmitisse o mínimo de confiança para que essa opção fosse a vencedora.
Esta realidade nem é preciso transmiti-la. É do conhecimento geral. E a posição nacional neste altura também não constitui qualquer novidade para os cidadãos deste País.
Só nos resta fazer as contas no que diz respeito ao ano que se aproxima, ao 2010 que entre daqui a dias, e, não fazendo caso das “discursatas” de Sócrates, sermos todos nós, os que, ao fim e ao cabo, pagamos sempre as favas, e aguardar pelo que os ditos responsáveis, Governo, Oposições e Chefe do Estado, acabarão por decidir, se num arrastamento de uma situação que não tem condições para resistir muito mais tempo ou se, numa tomada de posição radical, nova experiência eleitoral será levada a cabo, não se sabendo bem se será desta vez que as coisas entram no bom caminho.
Um presságio deste em pleno dia 26 de Dezembro, ainda com o sabor das filhoses e do bolo-rei na boca, não se pode considerar como sendo um voto de Feliz Ano Novo. Estou de acordo. Mas haverá outro vaticínio que seja minimamente crível?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

ALENTEJANOS

Debaixo de um chaparro
é bem bom pensar na vida
não tendo outra saída
se não fumar um cigarro

Alentejano de um raio
não é igual a ninguém
é sua forma também
de não olhar de soslaio

Se no Inverno faz frio
e o capote o protege
há sempre quem o inveje
e recuse o elogio

Recorrendo à anedota
julgando que o ofende
mas se é isso que pretende
faz papel de idiota

O Alentejo isso tem
muita paz, um bem-estar
pode-se tal procurar
noutro sítio, mas porém…

…por cá não se vê aonde
outras belezas existem
mas por mais que se registem
se as há bem se escondem

Sem pressas p’ra responder
lá vão saindo as sentenças
sem certezas e sem crenças
pois têm mais que fazer

Compadres há-os bem perto
sentados não há que ver
porque as horas de lazer
não se perdem e está certo

Boa gente, muito pura
as migas, o ensopado
têm o pão como fado
de fome passada e dura

Por tal, na Revolução
aderiram tão depressa
pois tinham bem na cabeça
o sofrido até então

Têm direito ao que for
porque são bons lá no fundo
e olhando para o mundo
não se vê quem pode opor

Alentejanos queridos
sempre que posso vou vê-los
não falam p’los cotovelos
nem são gentes de alaridos

Não sendo como formigas
não enchem o Alentejo
agrada-me quando os vejo
sem me mandar às urtigas

Agora que se fedeu
o 25 de Abril
estão vendo por funil
o que julgavam ser seu

Ilusões nem muitos têm
vida melhor quem lhes dera
porque aí estão os que vêm
comprar o que de outros era

São os outrora vizinhos
espanhóis, nossos irmãos
que apontam seus caminhos
à procura de outros chãos

Conformados já estão
os nossos alentejanos
pois outra Revolução
não trazem “nuestros hermanos”

O chaparro seguirá
no mesmo sítio quieto
sua sombra que lá está
deu ao avô, hoje ao neto






AGRICULTURA Á PORTUGUESA



AO APROXIMAR-SE o início de um novo ano, ao dar razão àqueles que gostam das datas fixadas para realizar qualquer iniciativa, pois eu sigo esse caminho e sublinho as mágoas que são costumadas no nosso País, provavelmente desde que ele existe, no respeitante aos problemas com a agricultura que temos.
O péssimo tempo que tem feito nestes últimos dias veio acrescentar dificuldades às gentes dos campos que, muitas delas por descendência familiar vão suportando o seu sustento através daquilo que as terras produzem. E, na maioria dos casos, tratam-se de pequenas parcelas que, por isso mesmo, não permitem que as explorações sigam sistemas modernos e mecanizados que fazem reduzir substancialmente os custos na lavoura.
Mas isto que vem de séculos passados, pois sempre fomos uma Nação reduzida ao espaço que nos coube na ponta oeste da Europa, o que fez que se arrastasse pela nossa História fora a exploração da pequena propriedade. E como não temos sido dados à criação de grupos localizados que fizessem aumentar as áreas agrícolas, muito embora contemplemos o que ocorre por essa Europa fora, em que, até aqui ao lado em Espanha os preços das produções ficam muito reduzidos pelo facto de tanto as culturas como depois as operações de colocação nos mercados serem resultado de quantidades que justificam os investimentos em todas as áreas, dada a nossa paralisação nos tempos cada vez mais nos afastamos das possibilidades de competirmos em preços com a concorrência internacional.
Quando dirigi uma revista que deu brado na altura, “o País Agrícola”, como jornalista vi-me na necessidade de estudar o problema que era motivo de desânimo de uma grande parte dos agricultores nacionais. E a conclusão a que cheguei, mesmo não sendo agrónomo ou talvez por isso mesmo, foi de que se tornava necessário mudar a mentalidade não só dos homens dos campos como também do próprio Ministério que, agarrado a princípios burocráticos e de secretária, com os seus engenheiros engravatados e com deficiência de contacto com os principais interessados em desenvolver os métodos tradicionais de cultura, não eram dados os passos absolutamente imperiosos para que o panorama se alterasse.
E chagámos aos dias de hoje tal como nos encontrávamos bastantes anos atrás.
Nessa altura de “o País Agrícola”, em que era ministro respectivo Álvaro Barreto, feliz os possíveis para tentar convencer aquele Ministério de que era importante aproveitar uma oferta que obtive por parte das autoridades de Israel que se ofereceram para transmitir os seus saberes aos agricultores portugueses interessados. Bastava que o Governo da altura quisesse colaborar na proposta. Mas nada foi conseguido!” E a única possibilidade que poderia ser aproveitada era a de organizar visitas semanais ao País dos israelitas e efectuar visitas aos “kibbutz” onde a exploração agrícola é feita com grandes avanços tecnológicos, bastando recordar a invenção da “rega gota a gota” que de lá surgiu há anos.
E foi assim que foram efectuadas mais de uma dezena de viagens a preços reduzíssemos e em que participaram umas centenas largas de agricultores portugueses. Até o pai de Cavaco Silva foi um dos viajantes.
Refiro-me a este caso, nesta altura, porque se trata de uma espécie de prenda de Natal. Prenda que se oferece ao actual e novo ministro da Agricultura que, ao entrar no ano de 2010, sendo novo naquele lugar, poderia pegar na ideia e querer, definitivamente, alterar o panorama que se vive por cá de uma agricultura familiar e incomportável com a união que se impõe, sobretudo quando somos pequenos e não conseguimos sair da nossa menoridade de tamanho e de saber.
Não consegui nada anos atrás. Vou conseguir agora?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATAL

A data chega, infalível
cada ano, sem faltar
com festejos, consumível
dizem ser tempo de amar
sem ser com amor carnal
distribuir amizade
pelo menos no Natal
porque s’afasta a maldade
como manda o calendário
25 de Dezembro
como se fosse um notário
se tu t’esqueces eu lembro
boas-festas p’ro vizinho
seja amigo ou nem isso
há que parecer bonzinho
para depois dar sumiço.
Antes da data festiva
às compras se tem de ir
gastar pouco é missiva
faz falta é iludir.

Mas se no dia seguinte
for preciso fazer mal
com o máximo requinte
já se esquece o ideal
isto de ser comandado
pela folha da agenda
cumprindo sempre o feriado
como sendo uma encomenda
é caso p’ra perguntar
s’aquilo que está marcado
é que tem de se levar
até estar realizado

Cumpramos o estabelecido
façamo-lo tal e qual
será ele parecido
com todo e qualquer Natal

HOT CLUB E NATAL



NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS, segundo alguns fazem questão em afirmar. Eu, que não sei nada, prefiro optar pela tese das circunstâncias, talvez por ter convivido, durante um ano, com o filósofo Ortega y Gasset, quando ele aqui se refugiou, amuado com o que estava a ocorrer no seu País pela mão do Franco. Mas isto vem a propósito do fogo ocorrido na madrugada de anteontem que destruiu a cave onde, durante mais de sessenta anos, esteve instalado o Hot-Club de Portugal.
Mas eu explico: nessa altura, conforme também aqui deixei expresso, por ser amigo do dono do Maxime, na praça da Alegria, em Lisboa, ali ia com frequência e, uma noite, assisti a uma limpeza que ocorria numa cave ao lado da referida casa de espectáculos. E, ao aproximar-me para matar a curiosidade, entrei e deparei com um espaço numa cave que me deu logo a ideia de ser algo que se adaptava perfeitamente ao que o meu amigo Luís Villas Boas dizia que precisava para instalar o “seu” clube de jazz. Ele, que tinha sido meu colega de escola primária e a sua mãe até era professora e que morava perto da casa da minha família, foi de seguida informado e, no dia seguinte, fomos ambos bater à porta para, de dia, nos certificarmos de que o sítio servia para o que se prensava. E era. Foi assim, portanto, que ali ficou instalado o local onde passaram tantos amantes daquele tipo de música, portugueses e estrangeiros. E a circunstância de eu ter sido apenas quem descobriu o sítio não influenciou em nada o êxito que o clube obteve ao longo de todos os anos de existência.
Nesta altura de Natal, uma tristeza foi substituída por um contentamento. É que, tendo o fogo acabado com umas instalações que guardavam história, pelo menos já foi anunciado que a Câmara Municipal de Lisboa disponibilizou a sala 3 do Cinema S. Jorge para ali se instalar o que não deve ser mais uma coisa a desaparecer do nosso convívio, sobretudo porque se trata de algo que sempre foi cuidada com enorme carinho e inteiro desapego de lucros por pessoas que se entregarem à causa da música de jazz, seguindo o exemplo do meu querido amigo Luís Villas Boas, que se entregou de alma e coração a uma obra que teve depois muitos seguidores.
Ora aí está um acontecimento que devo considerar como uma prenda de Natal. Foram as tais circunstâncias que me vieram trazer esta alegria que, de seguida, tapou o desgosto de ver morrer o que eu ajudei a criar. Julgo que só o Luís, se fosse vivo, poderia testemunhar este facto, mas também não faço questão de marcar a passagem como acontecimento de grande valia. A outra testemunha e também amigo de muitos anos, o Luís Sangareau, deixou-nos há pouco tempo. Se calhar vão ficando os piores!...