sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O COVEIRO... SALVO SEJA!


LOGO na primeira aparição, no Parlamento, de José Sócrates, quando se poderia esperar que o chefe do XVIII Governo viesse dar mostras de ter aprendido alguma coisa com o seu comportamento anterior, ou seja com um ar compreensivo e uma atitude de moderação quanto às críticas que, naturalmente, as Oposições lhe movem, o que se viu foi aquilo que se usa agora muito dizer: mais do mesmo!
Não restam dúvidas de que não tem emenda aquele que se mantém a julgar que sabe tudo, que nunca se engana, que os outros é que cometem erros e não são capazes de aderir ao seu modo de conduzir o País. O seu discurso de inauguração perante os deputados de todas as bancadas, em vez de ter sido preparado, por ele próprio ou por assessores que devem fazer bem o seu papel de conselheiros construtivos, no sentido de deixar bem claro que não é necessário referir-se insistentemente ao passado, repisar que ganhou as eleições, como se tivesse alcançado uma maioria absoluta, que a sua disposição é utilizar na prática a palavra que ele insiste em repisar mas a não usar, o diálogo, em lugar disso aquilo a que se assistiu foi a uma repetição de comportamento, de linguagem e de ar impositivo, o que colocou de imediato toda a Assembleia da República, no que diz respeito à agora maioria, que são as Oposições, de pé atrás e com disposição para fazer uma frente ainda mais aguerrida do que aquela que, provavelmente, poderia ser diluída.
É evidente que um primeiro-ministro não é um actor. Não tem as características e as qualificações dos que pisam os palcos. Mas, tratando-se de uma personagem que é obrigada a saber adaptar-se às circunstâncias que a vida política impõe, o mínimo que se espera de tal figura é que não seja inflexível na maneira como se apresenta perante o País.
No fundo o que se pretende é que o Governo, já que foi o PS o partido que obteve maior número de votos, faça todos os esforços que estiverem ao seu alcance para conseguir afastar o perigo de uma queda, o que obrigaria a uma solução de emergência que, nas circunstâncias difíceis em que nos encontramos, provocariam uma ainda maior calamidade de todos os tipos que Portugal não tem condições para suportar.
Agora, armar-se o Governo actual em ufano, espalhando presunções fora de propósito, correndo o risco de desafiar os adversários que, ninguém garante, podem perder a cabeça e provocar a intervenção do Presidente da República que, em derradeira análise, se vê obrigado a meter a mão na fogueira, ser essa a posição que José Sócrates deu a entender que continua a ser da sua preferência, é, no mínimo, contribuir para que a História o deixe marcado com o cognome de “O Coveiro”. Que alguém o salve desse passo…
Felizmente, na sessão que se seguiu ontem por parte dos deputados que intervieram na primeira discussão parlamentar, houve ocasião para assistir a uma certa contenção e, como era natural, o tema da corrupção foi o que mais foi chamado à liça. E, se bem que, naturalmente, as críticas e as recomendações que não podiam faltar ali fossem expostas, não se notou um comportamento desse lado que leve ao pessimismo de admitir, desde já, que o confronto que se aguarda encaminhe para uma saída perigosa, se bem que, de uma forma geral, o conteúdo do Programa do Governo tenha sido também alvo de profunda crítica.
Talvez a época que se aproxima seja a que mais provocará a atenção dos portugueses que, apesar de tudo, acompanham passo a passo o que vai ocorrendo na zona daqueles que têm a obrigação tanto de governar como de criticar. Todos são responsáveis!...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

DEUS


O Deus de que se fala
é uma mancha
uma sombra
não tem imagem
não é visível
há quem O imagine sentado
com barba branca
olhos azuis
a roupagem até aos pés
pois não se pode idealizar
um Deus de gravata
de casaco e calças vincadas
com o cabelo cortado e penteado
de unhas arranjadas
e sapatos com sola
e atacadores.
Terá de ser uma névoa
que não fala
que soam as Suas palavras
nos nossos ouvidos
vindas de dentro de nós próprios
perguntamos-Lhe algo
e Ele responde sem som
fala sem ser ouvido
sentimos o Seu afago
mas sem que use as mãos
procuramos entender as Suas razões
não discutimos o que nos parece serem Seus erros
um Deus nunca se engana
mesmo quando nos inquietamos
com as injustiças que ocorrem no mundo
com a fome que mata as crianças
com os abanões da Natureza
com as guerras que não são evitadas
com as epidemias que matam milhões
aceitamos
seguimos em frente
dizemos “graças a Deus”.
O Homem é previdente
é prudente
é sobretudo temeroso
teme discordar do desconhecido
mesmo quando não vê
o melhor é não discutir
e colocar-se do outro lado.

Não tem certezas
mas, pelo sim pelo não,
manda o bom senso
não levantar dúvidas.

Seja o que Deus quiser!...

CORRUPÇÃO, ELA AÍ CONTINUA!



NUM PAÍS de dez milhões de habitantes quantos haverá que não têm consciência de que a roubalheira se instalou aqui onde vivemos hoje e que, em cada escalão social, esse extrair de valores que pertencem aos outros toma um nome
Aquele que rouba para satisfazer necessidades básicas, a esse chama-se simplesmente ladrão. Começa por meter no bolso o que lhe aparece à mão e que, perante a facilidade em executar tal acção, se apresenta como um convite aos que não têm escrúpulos, e que, com o hábito, vai assumindo proporções mais rotineiras. Assim se formam os gatunos que, por sua vez, ao actuarem em companhia, formam os “gangues”, também denominados quadrilhas.
E esses agrupamentos de malfeitores ainda se classificam por diferentes características. Há os que se limitam ao rapinanço puro, seja por roubos das carteiras nos transportes públicos, os dos classificados “esticões”, como aqueles que se introduzem nas casas alheias, mas só quando as mesmas não estão ocupadas.
Mas, mais perigosos são os que usam de meios violentos, como os modernos “carjackings”, assim como a introdução em residências com os proprietários lá dentro, o que leva a que se processem agressões e exigências para lhes serem entregues valores. Isto, para não falar dos assaltos a estabelecimentos comerciais, joalharias mas já não só, em pleno dia e com o uso de armas e que já provocaram mortes.
Por isso justifica-se a questão que ponho logo no início deste texto, de saber se existe plena consciência por parte da população nacional do estado a que chegámos por cá no capítulo da insegurança em que se vive nos tempos correntes e isso também devido à variedade de sistemas que são usados para apanhar os desprevenidos e deixá-los queixosos de terem sofrido as consequências dos “amigos do alheio”.
Porque ainda há outro meio que, sendo mais sofisticado, é utilizado cara a cara, entre ladrão e roubado: o do conto do vigário, que, valha a verdade, requer grande força de persuasão e convencimento do roubado.
Mas o que atingiu em Portugal proporções nunca imagináveis noutros períodos passados – embora essa forma seja antiga, mas mais rara do que sucede hoje -, é a via da apropriação de valores, geralmente excessivamente vultosos, que são extraídos de empresas, do próprio Estado, de bancos e que, pelas formas sofisticadas que se impõem, só podem ser executadas por figuras bem situadas no meio social e até com posições destacáveis no ambiente da política. A isso dá-se pomposamente o nome de corrupção, sendo que, na maioria dos casos, é necessário existirem pelo menos dois intervenientes, o do corruptor e o do corrompido.
Atravessamos neste momento um período em que são várias as situações que se impõe que sejam rapidamente esclarecidas judicialmente. A comunicação social tem trazido a lume variadas poucas-vergonhas que, a exemplo de outras já antigas que se arrastam por caminhos tortuosos, deixa-nos a impressão que nunca serão solucionadas. Os autores saem sempre impunes por pertencerem ao grupo dos “colarinhos brancos”.
É vergonhoso o que ocorre nesta Terra que sempre foi pobre, mas que nesta altura atravessa um período ainda mais difícil de ultrapassar. Seria natural que aqueles que se situam em lugares cimeiros na política se envergonhassem do que toda a gente sabe que se passa. E não deixasse que a Justiça continuasse a actuar da forma vergonhosa como se comporta, não arrastando os casos que se prolongam indefinidamente. É preciso enumerá-los? Já nem me refiro ao da Casa Pia. E ao da Freeport? E a todos os outros que acabam por prescrever, parece que de propósito para ninguém ser acusado de nada!...
Com Governo novo ou com todos os antigos, nunca houve ninguém que chamasse a si tamanhas poucas-vergonhas e se prontificasse a defrontar os problemas, pegando-lhes pela cabeça e não desistindo de os ver solucionados. Bem se sabe que essa posição fazia e faz correr riscos, com consequências que podem ser depois difíceis de vencer.
Portugal está condenado a ter de aceitar as faltas de coragem políticas para pôr as coisas em ordem. A tal valentia que existiu no período das descobertas esgotou-se e não sobrou nada para agora… que tanta falta nos faz!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

FALTA DE DEUS


Que falta me faz Deus,
que falta,
sobretudo quando exerço o direito de ser racional
e me revolto,
porque retenho na memória que,
em miúdo,
me impuseram a sua veneração
com missas, rezas, terços,
quando diziam que Deus
era a suprema e indiscutível autoridade
e que castigava
os que não lhe obedeciam ,
cegamente,
e aqueles que punham questões incómodas
não aceitando o que não entendiam,
discutindo as histórias do Evangelho,
contadas sem direito a perguntar
o porquê
das afirmações não demonstradas.
Ao recordar tudo isso
e ao confrontar-me
com a vida
já longa,
decorrida desde então,
não cheguei
ao ateísmo
porque nunca tive coragem
para tanto
e também porque não quero ser
fundamentalista.
Mas a razão leva-me
ao limite do agnosticismo
perante a dúvida quanto ao que é isso
do infinito,
que habilidade e imaginação foi essa
de fazer um mundo
cheio de defeitos, é certo,
mas com imensas maravilhas,
desde a criação dos seres vivos que se movimentam sobre a terra
até às extraordinárias paisagens
que nenhum pintor seria,
provavelmente, capaz
de imaginar.


Mas, e as vilezas ?
A maldade que se verifica por esse mundo ?
Que Deus pode permitir
que o homem seja capaz
de tanta destruição ?
Porquê as guerras,
as doenças incuráveis,
a fome,
a desgraça dos povos infelizes,
o ódio
que faz com que os humanos se guerreiem,.
até invocando o nome
de Deus ?
Afinal as igrejas servem quem
e para quê ?
As guerras, ditas santas, são as piores de todas,
porque, muito para além
do desejo de conquista
do poder material,
transportam a bandeira do que chamam fé,
lutando contra os outros,
os infiéis,
que é o mesmo que dizer
os que não acreditam
no mesmo Deus,
o que é o seu
e de que querem ter o exclusivo.


Perante tantas incongruências
navegando
entre o belo e o odiento
detenho-me
e não me atrevo
a ser ateu
e sinto, por vezes,
a falta de um Deus que me tire
desta angústia existencial
e me farte da busca
de uma explicação
dos mistérios profundos que nos rodeiam.


Se não houver o Deus
das igrejas,
das mesquitas,
das sinagogas,
dos santuários,
haverá, quero crer,
um Deus
com os olhos nos homens,
mesmo que muito distraído
ou talvez farto do mau comportamento
de um mundo que não saiu
como idealizaria
o seu Autor,
que não poderá ter sido construído para
estar a ser destruído
desta maneira.


Será castigo?
Mas Deus pune ?
Então não poderia actuar
doutra forma ?
Se Ele tudo pode
basta-Lhe pôr um ponto final
dar o murro na mesa do Céu
fazendo com que todos
se dêem bem,
uns com os outros.
Se não quiser fazer isso,
então bem podem,
as gerações que aí vêm,
preparar-se para apagar a luz
e fechar a porta
deste mundo.

DESENCANTO...POR ENQUANTO!

Pode-se chamar-lhe alma, espírito ou outro nome que pareça mais adequado. O que importa é sabermos que, para além da massa corpórea, daquilo que vemos, apalpamos e não desconhecemos que funciona dentro ou fora de nós mesmos, o coração, o estômago, os pulmões e os órgãos genitais, para dar alguns exemplos, têm peso fundamental na vivência humana e comanda mais do que todas as nossas acções, pois é o senhor da nossa vontade.
Todo o ser humano pode ter sede, fome, apetite de qualquer extravagância ou até de algo muito simples, mas, para satisfazer esse desejo, quem comanda se deve ou não cumprir tal vontade é o indivíduo invisível, que mora dentro de cada ser humana. E esse comandante da vontade é algo que o invólucro não conhece. Sabe que ele existe, mas nunca o tendo visto, não sabe como ele é e daquilo que é capaz de fazer.
Mandrião, nalguns casos, muito activo, noutros, é, por vezes, inesperado, incontrolável, repentino. E deixa, nalgumas ocasiões, o ser que está à sua disposição, mal disposto com a falta de razoabilidade nos actos que obriga a praticar, ou nas palavras que coloca para serem ditas.
Quando se diz que os bons espíritos sempre se encontram, está-se, obviamente, a utilizar uma metáfora. Porque está por provar que, aquilo que cada um leva dentro, tenha forma de contactar com o exterior de uma maneira directa. Mas sempre tem de ser admitido um intermediário. O dono do corpo, Que é o que se dá ao manifesto. Sermos conhecedores absolutos do que pode ser transferido de um espírito para outro espírito, por muito crédulos que sejamos quanto a estes mistérios, é fenómeno difícil de se levar a sério na ausência de uma profunda crença.
Porque o que mostra o Humano à superfície não tem forçosamente que coincidir com o que, no interior, está disponível para ver. Não andar excessivamente longe já não será mau de todo. E fiquemo-nos por aí.
Quando, através dos meios exteriores de que dispõe o Homem, é possível descobrir um pouco do que paira no espírito de um parceiro, essa descoberta pode constituir uma profunda desilusão e até causa de corte de relações que antes se iam mantendo. É o que acontece com os matrimónios que, em dada altura, se desfazem, para admiração dos outros que não esperavam tal desfecho.
O que fazemos e o que dizemos faz parte da máscara corporal que exibimos. Completa o vestuário que utilizamos para transmitir a imagem do que queremos parecer, de harmonia com os actos em que vamos estar presentes. Depois, as roupagens escondem a nudez humana, embora os corpos não apresentem grandes diferenças entre si. Já os espíritos, como nunca se vêm as suas formas, será impossível encontrar semelhanças ou desigualdades. E, se se conseguisse colocar-lhes um invólucro e exibi-los, pondo-os à mostra, possivelmente assistir-se-ia a uma parada de monstros, a um desfile de horrores que assustaria quem tivesse a curiosidade de os contemplar.
E aqueles que se referem aos espíritos dos que já se foram do mundo dos vivos, utilizando artimanhas mágicas e místicas julgadas eficazes, convencem-se e induzem os outros na ideia de que o mundo espiritual é eterno, encontrando-se atafulhado o espaço de criaturas gasosas, etéreas, que aguardam a sua vez para entrar em corpos que se encontrem em condições de efectuar uma nova viagem terrestre.
É, da mesma forma inútil, aceitar ou rejeitar tal crença. O que não se pode provar, também se encontra livre de desmentido.
A todos nós, simples mortais, já nos basta ter de suportar as realidades da vida. Mas, não nos deve ser permitido contrariar todos os que, muitos ou poucos, carregam a sua fé, seja ela qual for. Se são felizes assim, com espírito ou sem ele, pois prossigam nas suas convicções. Desde que não provoquem confrontos que sejam decorrentes de facciosismos, sectarismos doentios, todas as ideologias são próprias dos habitantes do Mundo.
Por não ter a mesma opinião do que eu, o outro não tem de ser meu inimigo. Eu, pelo menos, não o sou, dos que caminham por outras vias, por mais contrárias que sejam das que eu sigo. Sou um exemplo? Longe disso…




terça-feira, 3 de novembro de 2009

MEMÓRIA

Tanta falta que ela faz
quando a ela recorremos
e se ela se compraz
não mostra o que queremos

É assim a tal memória
faz-nos sofrer com desgraças
recordar-nos cada história
que nem vê-la com mordaças

Certos nomes, certas caras
que precisamos lembrar
são situações bem claras
que a memória faz passar

Coisas passadas há anos
que os tempos já tinham posto
no fundo dos oceanos
não nos causam o desgosto

Mas ocorrências de há pouco
essas de que ‘inda paira o cheiro
deixam-nos como um bacoco
ardeu tudo num fumeiro

Pois a memória é assim
muitas vezes nos ajuda
compensa a dizer que sim
quando não teima em ser muda

Queixamo-nos muitas vezes
da falta que ela nos faz
então a nós portugueses
muita arrelia nos traz

Memórias da ditadura
é coisa que ninguém quer
é matéria muito dura
não é algo de prazer

Mas recordar coisas belas
bons momentos já passados
é como acender as velas
em honra de seres amados

Temo-nos que conformar
com as lembranças melhores
que já não querem voltar
a fazer seus favores

Memórias más nem pensar
mas são essas as que chegam
só dão para enfadar
e nos aconchegam

Se no botão eu pudesse
escolher o que me apraz
talvez nunca eu fizesse
olhar sempre para trás

Memória que até dá jeito
para lembrar os favores
que me trouxeram proveito
no que conta a desamores
então já não acho graça
mais vale não ter memória
que isso de mulheraça
é tema p’ra outra história

DESENCANTO...POR ENQUANTO!

A memória das gentes, quando funciona, tem as suas vantagens. Recordar o que de bom se passou é rever um filme que ficou guardado no armazém dos prazeres. Já o lembrar situações tristes constitui um sofrimento que se repete. E se é por moto próprio, então será um acto masoquista.
Mas a memória nem sempre funciona a pedido. Ela abre as portas mesmo sem necessidade de apelos. Aparece subitamente e mais ainda quando nos encontramos sós. Também por comparação com o que se assiste em determinado momento. Por vezes, ela rebusca um passado longínquo. Transporta-nos, por exemplo, à meninice. Faz-nos ver caras antigas, quantas vezes de gente já desaparecida do nosso convívio. Até mortas.
Acontecimentos recentes nem valem a pena rememorar. Tudo que está fresco não tem interesse. Mas voltar atrás muitos anos, sejam factos animadores ou, pelo contrário, desagradáveis, para esse exercício não necessito de fazer grande esforço. Basta-me fechar os olhos, pois ajuda à mais conveniente. concentração. E deixar que a memória faça ela própria o trabalho, trazendo à presença o que achar
Quem têm má memória, quem só se preocupa com o que vive no momento, aqueles que entendem não ganhar nada com recordações, tais personagens também não são capazes de imaginar um futuro. Não crêem no princípio de que é muito útil lembrar os erros passados, para tentar não os repetir.
Conseguir fazer uma retrospectiva histórica, isenta de partidarismos, honesta na apreciação, é um passo para poder imaginar o que vem aí, é ser possuído da capacidade de viajar no desconhecido e tentar descobrir o ignorado que nos espera.
Isto digo eu, admitindo que poderá haver controvérsia aceitável.





segunda-feira, 2 de novembro de 2009

TESTAMENTO

Hoje estou num desses dias
com ganas de fazer nada
todos nós temos manias
ou gosto pela vida airada
tenho livros para ler
mais de dez na escrivaninha
pinturas para fazer
mas caí nesta morrinha
é preguiça
enfermiça

Olho só, mas nada vejo
nem isso quero fazer
tudo me causa bocejo
mas que maçada viver
e falar não é comigo
que trabalho isso me dá
andar também não consigo
dar uns passitos vá lá
mandriice
que lesmice

Amanhã será diferente
terei plena energia
pois nem sempre a gente sente
bem fundo a mesma agonia
vou falando com quem passa
poesia escreverei
mirarei a mulheraça
e tudo que sei farei
com vontade
e qualidade

Postas as coisas assim
parando para pensar
ponho esta questão a mim
em prosa ou a versejar:
pode-se ser mais feliz
estando atento à nossa volta
e sendo sempre juiz
ou seguir na vida à solta
divertido
extrovertido ?

Boa questão está no ar
que responda quem souber
cada um faça o que achar
o que mais lhe aprouver
porém o mundo não deixa
que cada qual faça a escolha
pois muita porta se fecha
quem anda à chuva se molha
aguenta
que tormenta

Sendo pobre, coisa má
mais difícil a opção
não há por perto o sofá
e p’ra dormir há o chão
por isso não fazer nada
não é escolha para ter
e andar na vida airada
não é questão de querer
o trabalho quando falta
sem ser por própria vontade
mesmo doente com alta
não dispõe de liberdade
desemprego
desassossego

Comigo não é assim
não sou pobre nem sou rico
é só por não estar afim
não quero e nem abdico
já nesta altura da vida
de ser de outra maneira
o momento é que convida
seja certo ou seja asneira
dolência
independência

Não posso ser mentiroso
pôr em verso meus desejos?
é que me dá certo gozo
fingir que tenho bocejos.
Não, nunca estou desse modo
no “dolce fare niente”
por mim nunca me acomodo
na posição de ausente
é que tenho consciência
de que o tempo que me resta
me desperta a exigência
de não m’entregar à sesta
essa a razão por que faço
esforços p’ra produzir
e afugento o cansaço
em troca do insistir
teimosia
rebeldia

Estou num dia portanto
ao contrário do que disse
em que p’ra dentro canto
não vejo nisso chatice
acrescento mais poemas
ao rol imenso em arquivo
são quase todos algemas
que deixo em donativo
aos que ainda cá ficarem
nada têm de nocivo
mesmo sem apreciarem
testamento
sem talento

CONFISSÃO



CONFESSO-ME farto de andar a tomar conhecimento dos problemas que nos envolvem, a nós cidadãos do mundo, e, no meu caso, obviamente, ao que diz respeito ao que se passa aqui, em Portugal, que é o quinhão natal que tanto gostaria de ver entrar no bom caminho, já que, aquilo que aprendemos na História não nos empresta muito conforto, mesmo levando em conta os feitos heróicos que algumas figuras de enorme destaque e que não podem ser olvidadas pelas gerações que estudam nas escolas, sobretudo nas primárias – e continuo a chamar-lhes assim, porque não me conformo em dar-lhes outra classificação -, e que, por isso mesmo, deveriam servir de exemplo para mostrar a estrada que nos falta percorrer e que, nesta altura, se situa numa encruzilhada de que ninguém se pode alvorar em adivinho do que será o amanhã, repito, farto de tomar conhecimento e de constatar a falta de medidas que alterem o que está a durar há excessivo tempo, entendo que se impõe mudar de forma de encarar a vida, especialmente por me encontrar já na situação de reformado.
É que eu, que não escondo e não disfarço a angústia que me vai no interior de não descortinar por aí portugueses exemplares que mostrem capacidade para nos tirar do buraco em que fomos enfiados, que, por mais que mudem as figuras de destaque no comando do nosso barco, não consigo retirar uma só que alastre confiança para, com bom senso, inteligência, capacidade organizativa, verdade e, bastante acima de tudo, de honestidade para merecer a confiança dos sacrificados lusitanos, mantendo este ponto de vista interrogo-me se valerá a pena continuar na senda de debitar num blogue, num livro ou num jornal – pois todas as formas já foram por mim utilizadas – e, apesar de me satisfazer o ego lançar para o exterior aquilo que mantenho na cabeça, que ainda funciona regularmente, cada vez me convenço mais de que se trata de tempo perdido e que, por outro lado, não sei se os eventuais leitores tiram algum proveito do meu esforço.
Sim, porque os nossos compatriotas talvez nem mereçam que um indivíduo se entregue a este trabalho, pois as reacções que recebo pelo eventual seguimento dos meus dislates não compensam a intenção que ponho neles. Este é um povo que nem faz nem liga ao que os outros fazem e se não vislumbram algum proveito com a adesão a uma causa – a menos que seja uma caravana sindical -, deixam-na cair e olham para o lado.
Talvez, por isso, vá dedicar maior atenção aos meus poemas do que aos textos que têm como preocupação principal chamar a atenção para o que nos rodeia e tem intervenção directa na vida que levamos por cá.
Deixem-me desabafar hoje desta maneira. Deixem-me ser sincero, ainda que possa não ter toda a razão do mundo. De facto, embora muitos dos blogues que eu leio não me pareçam nada merecedor de louvor excessivo, ainda que sejam originários de figuras bastante conhecidas no mundo da política, e se encontrem na lista dos que contam com milhares de leitores, eu, que não sou nada de louvar o que faço, sempre conservo uma determinada confiança quanto ao préstimo do que escrevo.
Deixem-me, por uma vez, olhar para o meu umbigo!...

domingo, 1 de novembro de 2009

UMA VIDA

Só agora publico este poema, porque talvez já seja altura de dar mostras, aos que são recentes e não viveram, por isso, difíceis tempos antigos, de que um tal José Vacondeus existiu e, casualmente, ainda existe, sempre sem querer dar nas vistas, que aqui andou por este Portugal e algumas coisas fez...
Toda a minha vida um desafio
desde que me conheço é assim
por isso terá sido um desfastio.

Na primária, quando dei por mim
já sabia a tabuada de cor
repetia-a tim-tim por tim-tim.

Na quarta-classe tive um professor
antigo preso político era
que ensinava, era sabedor,

tTnha sempre uma atitude austera
resultado de anos de cadeia
e do isolamento que sofrera.

Terei colhido aí uma boleia
sem dar por isso, era muito novo,
tal ser doente deu-me a ideia

De que se está descontente o povo
e critica em surdina um político
o que quer é recomeçar de novo.

Nasceu assim em mim sentido crítico
mas tão pequeno falava sozinho
não podia sequer ser analítico.

Foi aí o começo do caminho
com dez anos no liceu não entrava
fiquei a marcar passo um aninho,

Com tal professor fiquei onde estava
e ouvia com ele a BBC
da Situação também não gostava.

Tal como o que não se vê não se crê
a bondade do regime não vi
e passei a perguntar o porquê.

Para os estudos a sério nasci
a minha irmã mais velha ia à frente
com a vida então eu aprendi,

E essa pode ser mais complacente
ou conforme a conduzimos, madrasta
mesmo olhando bem o que vai à frente.

Lembro-me que nem sequer tinha pasta
e com cordéis os livros apertava
não deixando de ser entusiasta.

Passando todos os anos lá dava
à família prazer e alegria
que com dificuldade suportava

A despesa que o estudo cria
tratando-se de mais do que um filho
ambos sem razões para fantasia.

Entendi por isso de afogadilho
sem consultar ninguém nem os meus pais
que deveria evitar o sarilho

De criar preocupações demais
pelo que teria de trabalhar
como faziam outros tantos tais.

Então isso foi só um começar
e a estudar à noite fui andando
pois muito me faltava ainda andar.

Empregos menos maus fui arranjando
era sempre eu só que decidia
quando não gostava ia mudando,

Até que, por acaso, um belo dia
fui parar ao que seria o futuro
a Bertrand, a saudosa livraria,

Onde despertou em mim com apuro
a paixão pelos livros e leituras:
tinha de ser esse então o meu furo.

Convivi aí com grandes figuras
das artes, das letras, do jornalismo;
marcaram-me forte tais criaturas.

Pegado me ficou o fetichismo
mas estudar à noite lá se impunha
nada fazia com amadorismo.

Foi no jornalismo que entrei sem cunha
mantendo as duas obrigações
foi como pegar os touros à unha.

As Letras eram minhas intenções
mas a Economia me apanhou
onde fui andando aos tropeções.

Aquilo que desde então se passou
pertence ao desafio da minha vida
em que a política não faltou.

Não foi por isso geração perdida
vivi num mundo de intelectuais,
de gente pensante e bem sabida.

As tertúlias eram semanais
com Ortega y Gasset muito aprendi,
Ferreira de Castro e outros mais

Muitos já morreram, o que é duro,
Aquilino Ribeiro um de tantos
com todos eles fiquei mais maduro

E sem me agarrar a quaisquer santos
mantendo sempre a independência
entrei no jornalismo com encantos.

Não tendo a Censura complacência
e tendo à minha perna sempre a PIDE
o que me valeu foi a insistência

Para prosseguir nessa dura lide
para não desistir da profissão
seguindo exemplo de quem progride

Mesmo face a alguma decepção
podia aguentar, era solteiro,
e mais de uma vez conheci prisão,

Mas até aí tive bom parceiro
o Piteira Santos, que companhia!
boas conversas o tempo inteiro…

Em certa altura tive a ousadia
de escrever uma enciclopédia
um editor teve a valentia

Embora não fosse uma tragédia
eram vinte volumes, que corrida!
não se tratava de qualquer comédia…

Empenhei-me dois anos nessa lida
embora não deixando os jornais
mas foi uma aventura atrevida.

E a enfrentar tantos vendavais
a idade avançava sem parar
a vida não são só jogos florais.

Já bem trintão e quase sem esperar
num intervalo dos jornais, forçado,
surgiu a ocasião de casar,

Eu, esquerdista predestinado
entrar em família da direita
seria desviar todo o meu fado!

Mas já estava escrita a receita
não podia fugir de tal destino
nunca se sabe o que nos espreita

E mesmo quando se pensa ser fino
quando nos damos conta já fizemos
aquilo que dizemos não ter tino.

Depois da obra tudo esquecemos
o melhor é começar vida nova
engolir sapos vivos merecemos

E saber que dai até à cova
tudo o que dantes eu fazia, era,
o passado é coisa que se escova.

É verdade que a mulher sincera
abdica uma porção do seu antes
ainda que a família fique fera.

E perante todos esses obstantes
com a mobilidade reduzida
ela cristã, eu tal como Cervantes

A ver paisagem já indefinida
com moinhos de vento bem distantes
e com sanchos panzas de foragida.

Republicano sim, tal como dantes
monárquica Filipa por herança
mas nada disso criou rocinantes

A cavalgar diferente andança
desencontrada, destinos opostos,
mas cada um de nós com sua dança

Cá estamos os dois com nossos gostos
em bastantes coisas bem diferentes
pelo que certas vezes dá desgostos.

E dado que não temos descendentes
se não aquela que sentimos filha
não haverá guerra entre parentes,

Não ficará nada que dê guerrilha
só livros, muitos livros e pintura
que para alguns não é maravilha

Alguma coisa na minha cultura.
serviu para poder amealhar
o que fiz ao longo de vida dura.

Como isso não serve para dar
bem se perde com as cinzas da morte
não terá régua para avaliar

Reconheço que fui bastante forte
para preencher todo o meu programa
talvez pudesse ter feito um corte

Criando diferente panorama
mas já não seria eu o autor
do que fiz sem merecer qualquer fama.

A peça de teatro com rigor
até recebeu um prémio de ensaio
mas a Censura não a deixou pôr

Em cena no Nacional, mas que raio!
e até hoje nunca ninguém viu
nem espreitou mesmo até de soslaio

Ninguém se lembra a quente ou a frio
de uma revista que até deu brado
chamava-se Mercúrio, cumpriu

Aquilo que lhe estava destinado
que era difundir bom escritor
de contos e talvez pouco falado.

E o que então fez grande furor,
na época em que surgiu à venda
o Mundo Financeiro sim senhor

Que era quase uma oferenda
aos comerciantes que sem estudos
tinham as finanças como uma lenda.

Apesar de na rua sermos mudos
tive colaboradores comunistas
quer operários quer com canudos.

Eu, que nunca gostei de dar nas vistas
e a minha independência conservava
jamais figurei em qualquer das listas

Do único partido que reinava,
clandestino pudera, perseguido,
e que a PIDE então não largava

Quem o aceitasse era bandido
só tinha um destino, era a prisão
ou a U.N. o único partido.

Quando o Piteira Santos, de puxão,
tinha a polícia à perna p’ro prender
encontrou um amigo mesmo à mão,

Era eu, que o podia esconder
o que fiz numa casa emprestada
onde mais ninguém tinha de saber

Que era ali a última morada
antes de partir pr’a África norte
onde ficou com fé na alvorada.

Só que eu não tive a mesma sorte
denunciado por traidora vil
lá fui parar ao quinto andar do forte.

Tudo isto passou com ar hostil
mas como ainda não era casado
havia que voltar ao meu redil.

Começando de novo já cansado
deixei por uns tempos o jornalismo
tinha que me voltar p’ra outro lado

Assim, tornei de novo ao fatalismo
ao que está escrito no guião da vida
pensei muito, mas hoje já não cismo

Casado, era agora outra lida
para trás ficou o que eu fui então
não faz falta lamber hoje a ferida.

O dia dos cravos trouxe ilusão
pois novas perspectivas se abriam
e eu não teria qualquer perdão

Se não festejasse sonhos que haviam;
sem censura era o momento dado
para ver de facto o que valiam

Todos os que se diziam do lado
dos revoltosos, sempre tendo sido
gente que passou um mau bocado.

Isso diziam com ar convencido
levantando o punho com arrogância
qualquer um ficaria convencido

De que isso não era apenas ânsia
de que faziam parte do partido
desde sempre, desde sua infância!

Dessa forma fazia bem sentido
lançar semanário independente
mesmo no meio de tanto alarido

E continuando a ser intransigente
com os princípios da democracia
fundei o “Tempo” sem ficar contente

Tendo logo depois chegado o dia
em que decidi criar de raiz
jornal sem partido, grande utopia!

Durou dez anos, chamou-se “o País”
nasceu e viveu sempre com paixão
cumpriu o dever, nunca foi juiz

O seu fim foi só por uma traição
de um desses que fugiu p’ro Brasil
e toda a vida foi um aldrabão.

Pois essa gente que odeia Abril
mesmo os falidos que fingem que não
usam a política como ardil.

Já muito longe a Revolução
quem apanhou o comboio a andar
deixou para trás quem naquele então
sofreu bastante por não abdicar.

Só resta hoje a consolação
de ter a consciência tranquila
mesmo estando já no fim da fila.
por ter feito algo pela Nação

GOVERNO QUASE NOVO



AGORA, que já se conhece todo o elenco do XVIII Governo que acabou de tomar posse, e em que se aguarda apenas que José Sócrates anuncie formalmente qual é o programa que vai defender na Assembleia da República, isto depois de o mesmo já ser conhecido na sua generalidade, haverá muita gente a fazer contas à vida, alguns confiantes e contentes e outros desconsolados por não fazer parte daquele número de novos titulares de lugares públicos superiores quem seja das suas relações e por isso não possam contar com favores para colocações escolhidas, pois, por muito que desmintam tais personalidades, as cunhas sempre fizeram e farão parte do comportamento lusitano. Há os que pedem e os que concedem, a troco seja do que for…
De resto, nos actos de posse assiste-se sempre a uma verdadeira caravana de aduladores, de toda aquela gente que se veste a propósito e se apressa a felicitar os novos membros, curvando as espinhas e mostrando o melhor sorriso e, se possível, possibilitando um abraço que tem de ser aceite e que ajuda a compor um elogio a propósito. Nesta fase, dita de Democracia, nada mudou em relação ao que se passava no tempo da outra senhora. Haverá algumas caras diferentes, não na totalidade absoluta, mas os locais são os mesmos e as atitudes teatrais repetem-se. Um enjoo.
O que se aguarda agora, que vai começar a sério o trabalho que o Executivo novo tem de desempenhar, é verificar se existirá capacidade para enfrentar os verdadeiros problemas que o País apresenta e se, também com dificuldade, ultrapassará os “nãos” das Oposições, pois que, à falta de uma maioria absoluta no Parlamento, o entendimento tem de estar na ordem do dia.
Para já, face a uma debilidade financeira com que lutam os dinheiros do Estado, o número de ministérios que fazem parte deste Executivo talvez pudesse ser reduzido, tanto mais que ainda se encontra por fazer a remodelação da administração pública que constitui uma das queixas mais repetidas dos cidadãos. Não é por serem muitos que poderão ser melhores. E também outra interrogação que me ocorre fazer e que vem mesmo a propósito perante a “bronca” agora divulgada com o cognome de “Face Oculta” é a de ficarmos na expectativa sobre a intervenção dos poderes públicos para que o caso na Justiça, para saber se ocorrerá outra demora de anos como tem acontecido com a vergonha do Casa Pia. Sempre queremos ver se, com a mudança do ministro do pelouro, o chefe do Governo se satisfaz com uma situação que não dá louros a nenhum Executivo em qualquer parte do mundo.
Só nos resta, portanto, a todos nós, portugueses que temos obrigação de estar atentos ao que vai sucedendo e às maneiras como vão sendo encaradas as soluções encontradas, ir soltando a nossa opinião e, caso não nos encontremos em condições de participar num julgamento adequado, não deixando de ler e de ir ouvindo o que os mais sabedores (ou atrevidos) divulgam. Indiferentes é que nunca.
Por agora, no que me diz respeito, farei o que julgo estar ao meu alcance, com base em muitos anos de acompanhamento da vida de vários conjuntos governamentais, desde o que existia antes e após o que surgiu depois. Tem sido uma aprendizagem à força de sofrer na própria pele as consequências de não me encontrar satisfeito com o que considero merecedor de crítica. Antes, era a PIDE e a Censura que actuavam. E os custos não eram frouxos, sou eu que digo…
Agora, já só com este blogue, não fico mudo e quedo. E os que me lêem que digam se estão de acordo ou não. Mas não se calem!...

sábado, 31 de outubro de 2009

DESCONSOLADO

Aqui estou eu, desconsolado
a ver passar o mundo
à minha volta
sem que nele interfira
sem que o melhore
mas também pouco
o piorando.
Sou mais um
dos milhares de milhões
que por cá andam
a consumir o ar,
a água, o ambiente,
o espaço e que contribui para que o amanhã
seja muito pior,
mais escasso de tudo,
menos belo,
menos natural.

Aqui estou, enfastiado
já sem me importar
com o que vem a seguir,
com o que vai ser o futuro,
aquele que não me vai encontrar...
para me desconsolar

FACE OCULTA



EU BEM tomo conhecimento dos comentários que me enviam e, tirando aqueles, felizmente bastantes, de aplauso quanto ao que escrevo, surgem também os que tomam a posição de me acusar de ser excessivamente pessimista. Mesmo tratando-se de opiniões pouco frequentes, não deixo de me inquietar porque tomo sempre atenção ao que os outros opinam e tenho de levar em conta a razão que lhes poderá assistir.
Porém, como ainda hoje sucedeu, ao dar a volta a todas as notícias que busco nos vários meios de que disponho, por mais que quisesse encontrar assuntos que dessem para transmitir alguma satisfação, um certo optimismo, a verdade é que nada me chegou que pudesse nesse sentido aproveitar no meu blogue. E, bem ao contrário, os noticiários deram grande relevo ao caso dito de corrupção que envolve empresas com participação do Estado e a constituição de arguidos suspeitos de estarem envolvidos no que tem já o nome de “Operação Face Oculta”.
Poderia passar por cima, ignorar este caso e, para não dar assunto aos que me acusam de falta de optimismo, ir directamente às situações que também surgem nas primeiras páginas dos jornais e que dão grande relevo aos casamentos desfeitos, aos namoros que se interrompem, às gravidezes que algumas figuras mais ou menos conhecidas assumem e ficam satisfeitas de tornar públicas, assim como a outros assuntos de igual menoridade noticiosa. Mas não foi por aí que entendi seguir na preparação do texto que dou a conhecer. Não pude fugir de considerar como tema principal aquilo que está a ocupar o sector de investigações, policiais e já mais adiante, posto que a corrupção, num País como o nosso em que a situação social se encontra tão melindrosa, tem de ser devidamente apontada não permitindo que passe despercebida, já que o andamento nos Tribunais se encarrega sempre de fazer esquecer na opinião pública os problemas que deveriam ser mais rápidos a merecer os respectivos julgamentos.
Não vou demorar-me, por hoje, neste caso. Deixo para mais tarde referir-me ao que começar a sair como esclarecimento de quem são os envolvidos numa situação que cheira a milhões de euros, posto que situações deste tipo envolvem sempre quantias muito altas e beneficiados que pertencem ao grande grupo de figuras que se sabe que têm um nível de vida muito acima do normal.
Mas, sem entrar numa área por agora muito sensível, basta que deixe aqui referido o caso de Armando Vara, que não sendo uma excepção, antes pertence a um grupo de gente que muito tem beneficiado com a situação política que se tem vivido por cá, fará reflectir bastante os portugueses comuns, pois que a sua ascensão foi tão rápida e tão satisfatória para o próprio que leva a perguntar se não existe forma de impedir que casos semelhantes e tão extravagantes sucedam com tanta frequência. Este felizardo, que passou de funcionário simples da C.G.D. lá no interior do País, inexplicavelmente para a função de vice-presidência do BCP e que, não só isso, pois beneficiou da subida rápida de escalão dentro do Banco público, o que lhe dá uma reforma, a seu tempo, que excede enormemente o que os seus colegas antigos vão auferir quando chegarem a essa situação de reformados, pois tudo isso lhe sucedeu graças ao caminho que tomou dentro da política e que, como a tantos outros, permitiu acumular benesses verdadeiramente escandalosas.
Graças a António Guterres, conseguiu chegar a lugares no Governo, como secretário de Estado e como ministro, até que, no ano 2000, se viu envolvido por um escândalo que merece outro texto para o lembrar. Não lhe foi atribuída qualquer responsabilidade e Armando Vara, não sendo uma excepção, conseguiu sobreviver a todas as situações e coube-lhe agora uma nova referência a um caso que promete.
Promete o quê? Pois será mais uma situação que, se não for uma raridade de tudo a que estamos habituados a assistir, ficará nas conhecidas “águas de bacalhau”.
Sou pessimista? Digam que sim, digam… mas depois não se queixem!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DIVERSOS

Muito amor diz-se eterno
são juras de namorados
ninguém diz que tais amados
mandam juras p’ro Inferno

Um bom livro é bom amigo
por muito mau que ele seja
também provoca inveja
se escrever eu não consigo

Ter a certeza é banal
naqueles que poucos sabem
e na dúvida não cabem
dentro do erro fatal

São sempre os negativos
que nunca dizem que sim
não concordam com o fim
usam mal os adjectivos

Sou daqueles que acredita
que quanto mais estudamos
mais ignorância alcançamos
descobrindo tal desdita

O tempo tal corredor
mesmo sendo conselheiro
acaba por ser coveiro
de tristeza ou grande amor

E quem não quer fazer nada
mas critica quem bem faz
fecha os olhos e zás-trás
desembainha a espada

Oposições aos Governos
estão lá mesmo p’ra isso
p’ra prestar um bom serviço
demitir os estafermos

PRIORIDADES



A NOTÍCIA não causou surpresa, mas assim, com números e tudo, não pode deixar de interferir na nossa preocupação, pois que portugueses continuamos a ser, à falta de outra alternativa que nos seja apresentada, e por isso cabe-nos enfrentar aquilo que constitui o panorama que nos envolve. Refiro-me à divulgação dada pela Imprensa de que a pobreza já atingiu por cá a casa do milhão e oitocentos mil cidadãos, mais de dez por cento da população total desta nossa Terra.
Eu tenho consciência de que os dinheiros do Estado – e, por outras palavras, o que é nosso – não podem chegar para tudo e muitas vezes, ao presenciar a divulgação de um investimento que o sector estatal resolve tomar, me pergunto se tal decisão será prioritária na lista de urgências ou se conviria antes dar aplicação, às verbas correspondentes, a outra iniciativa muito mais premente. E, não o escondo, com frequência o meu ponto de vista não coincide com a que é tomada pelas forças públicas, quer as que se situam no topo da pirâmide quer as que são provenientes de sectores médios e secundários, como os municípios, por exemplo.
A tarefa, que deveria ser generalizada, de fazer frente à pobreza que grassa por aí não é coisa que se resolva por simples decreto. E se os cofres oficiais não conseguem suportar o bastante para apoiar todas as necessidades, então há que descortinar outras formas de, pelo menos, reduzir as situações mais graves que sabemos existirem em Portugal.
Nesta altura, em que o XVIII Governo acabou de tomar posse, o ter apontado que uma das medidas que vai tomar é legalizar o casamento dos “gays”, sem me caber entrar no pormenor de discutir se se trata de uma decisão justa ou não, o que julgo importa é avaliar se existe realmente urgência em enfrentar esse problema.
E, no capítulo da pobreza, não sendo original, permito-me sublinhar o princípio de que, no caso da miséria que invadiu o nosso País, é preferível facilitar a cana de pesca do que distribuir peixe pescado, o que se traduz, na prática, na conveniência de o novo conjunto governamental dever colocar em posição ultra-prioritária o efectuar todos os esforços para diminuir drasticamente o desemprego no nosso País, criando condições favoráveis às empresas para procederem a admissões de novos funcionários em lugar de se sucederem os despedimentos.
Esta é apenas uma indicação, um desejo que os portugueses trarão na ponta da língua, e, por conseguinte, uma proposta que um Governo que acaba de tomar posse deveria situar na primeira linha do seu programa. Agora, aquela de defender a prioridade de legalizar o casamento dos “gays” numa altura destas, nem merece mais do que uma exclamação, na falta de uma gargalhada que não apetece a ninguém dar nas circunstâncias actuais.
A menos que o número de casos de pares nas tais condições seja assim tão grande que chegue a ultrapassar a quantidade de pobres que fazem parte das estatísticas oficiais. Será que o Sócrates tem consciência disso?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PERGUNTO

O que é isto afinal
esta coisa onde ando
não agora, mas de há muito?
Será que me dão sinal
e se sim, como e quando
respondendo ao meu intuito?
Quem me dera p’ra mudar
e saber por onde andar

Eu pergunto: vale a pena
que se ganha em esperar?
É bem grande o desengano
em toda a vida plena
na ânsia de retirar
a mancha suja do pano.
Eu bem quero, bem insisto
mas não saio nunca disto

Sei onde e como estou
e como cheguei aqui
o que andei até vir
mas não sei p’ra onde vou
se algo eu aprendi
se tem valor p’ro porvir
agora só o talento
me pode levar ao vento

Mas como esse só foge
e não consigo agarrá-lo
m’escapa cada segundo
não faço com que s‘aloje
muito menos amarrá-lo
p’ra m’ajudar neste mundo.
Assim fico cada dia
nesta profunda agonia

DESENCANTO POR ENQUANTO...

As mesmas caras, as mesmas vozes, as mesmas frases, o mesmo comportamento, tudo igual há 30 anos neste País.
A monotonia instalou-se, o grupo de privilegiados é sempre aquele, desinteressante, enfastiador, repetitiva.
Por isso nada muda, nem melhora. Portugal continua igual a si mesmo, mas sempre há aqueles que se sentem satisfeitos com o que os rodeia.
E fazem o possível para manter o status quo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

VISITAS

Se Camões aqui descesse
e surgisse em minha casa
mostrava-lhe os meus poemas
e talvez lhe apetecesse
fazer logo tábua rasa
colocando-me algemas
p’ra não mais poetizar
e a minha vida mudar

Nem a tal Lusofonia
com que tentei imitá-lo
lhe deu pr’aconchegar-se
e mostrar a simpatia
e certo ar de regalo
surgiu para mostrar-se.
Nada disto tem valor
disse Camões com ardor

Procurei outra visita
desta vez foi o Pessoa
que eu adoro e releio
tentando qu’a minh’escrita
podendo ser algo boa
atingisse o meu anseio
mas Fernando não gostou
também me desconsolou

Quis ouvir um mais moderno
o Ary talvez pudesse
não que um seu fã eu fosse
mas talvez com ar fraterno
alegrar-me já quisesse
como quem me dá um doce
pois convivemos em vida
mas também não deu saída

O da Silva, o Agostinho
que em vida no jardim
da sua casa bem perto
com seu ar de desalinho
me fazia ir ao fim
procurar caminho certo
nem esse qu’eu trouxe a ler
os meus trabalhos quis ver

Desisti, não procurei
outras figuras com fama
p’ra me dar opinião
à conclusão eu cheguei
do que melhor que um drama
é guardar em alçapão
o que tem computador
durante o tempo que for










POLUIÇÃO

Da obra "DESENCANTO POR ENQUANTO" que se encontra por publicar)

Neste País de clima temperado, como dizem, talvez seja onde se sofre mais quer com o calor quer com o frio. Precisamente porque se assume que não há temperaturas do ar, nem muito altas nem demasiado negativas.
No Inverno, nos dias em que baixa um pouco mais a temperatura bate-se o queixo, nas ruas, nos estabelecimentos comerciais e até em casa de cada um que não possua um regulador de graduação do ambiente. A falta de convicção de que não fazemos assim tanta diferença com o que ocorre noutros países, leva-nos a que descuremos o aquecimento artificial, por exemplo o eléctrico, que é imprescindível para resistir ao desconforto dos arrepios. Claro que é sempre uma questão de poder económico da população.
No Verão, passa-se o contrário. O ar condicionado ainda é, entre nós, um artigo que só está ao alcance dos mais favorecidos. Já são muitos, mas estão bastante longe de serem todos. Verifica-se uma grande diferença com o que ocorre já hoje em dia nos países que gozam de um nível de vida muito superior aos dos portugueses. E depois, continuando-se a considerar Portugal como um País temperado…
A notícia que tem sido divulgada é de que o ar que se respira na nossa Terra, especialmente nalgumas cidades e com destaque para Lisboa, está carregado de poluição, provocado sobretudo pelo trânsito automóvel. Divulgaram os cientistas que, não se podendo evitar o crescimento da circulação de motores que provocam os gases, é essencial beber muita água. Sempre compensa, ainda que pouco, os males provocados pelo óxido de azoto e pelo ozone.
Leio os alertas saídos na Imprensa e quedo-me preocupado então, com o aumento demográfico acelerado que se verifica em todo o mundo – não podendo deixar de levar em conta a idade cada vez mais tardia do fim da vida humana (e mesmo descontando o efeito das doenças que surgem e que tardam em ser atacadas por medicinas que também se vão descobrindo) e o facto de não se conseguir estabilizar um número razoável de habitantes da Terra. Basta ter-se em conta que, no fim da II Guerra Mundial, a população total do Globo era de pouco mais de dois mil milhões de habitantes, e que se verifica agora sermos mais de seis mil milhões, tendo em cinquenta anos triplicado a população da Terra. Se este fenómeno voltar a repetir-se, a conta a fazer é a de multiplicar por três o número dos que somos hoje.
Não irão caber os que cá estiverem! – não me canso de advertir.
A nossa imaginação pode funcionar na busca de uma possível solução. E uma delas, digo eu, poderá ser a de encaminhar todos os sobrantes para um planeta que tenha condições para proporcionar possibilidade de vida em aceitável, até melhor se possível, da que têm sido usufruída na nossa Bola. Será isso possível?
De uma coisa ninguém deve ter dúvidas: aproxima-se a data em que escassearão muitos dos géneros que hoje são considerados essenciais. O petróleo, não faltará assim tanto tempo para que se esgotem os poços que hoje provocam tantas guerras, a água potável vai ser um dos grandes sustos que provocará o seu racionamento inevitável, e até o ar que se respira obrigará a que se faça uma reconversão geral dos gases que os homens produzem na ânsia de aproveitar todas as tecnologias avançadas e, caso não se consiga, nem valerá a pena pensarmos nas consequências de tal facto.
Penso nisto e não tenho coragem de deixar passar este meu pessimismo para os outros. Fica apenas nestas linhas que ninguém lerá. Será ainda o melhor.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

CONTEMPLO


Olho o Céu, contemplo
que estará p’além do que se vê
algo que servirá de exemplo
aquilo em que muita gente crê?
Mas partirei sem nunca saber
ninguém me diz p’ra meu sossego
os crentes, a ciência, quem quiser,
esta ignorância que eu carrego.
Este não saber que tanto insiste
podem não crer, mas p’ra mim é dor
já que o que por este mundo existe
já eu sei, não me provoca louvor
o panorama é por demais bem duro
e o Homem tem vindo a piorá-lo
pelo que o que virá no futuro
não dará motivo para amá-lo.
Hà os que acreditam que mais tarde
de cima para baixo lá verão
e disso fazem enorme alarde
e com tal provocam mais confusão.
Oh, quem me dera ter tamanha crença
podia esperar pelo final
e sendo a curiosidade imensa
aprendia no local divinal.
Mas perdi já todas as esperanças
de tamanha ânsia satisfazer
não será durante minhas andanças
que virei algum dia a saber.
Contemplo pois o azul e lindo Céu
com as nuvens passando e repassando
e o que o astronauta conheceu
não mostrou nada do onde e quando.

Continuo assim a contemplar
restam sem resposta tantas perguntas
perdi as esperanças de alcançar
saber de uma só ou todas juntas

O MURO DE BERLIM



VEIO-ME cair nas mãos um jornal espanhol – El Pais – que trazia a memória de um acontecimento vergonhoso e de que o mundo inteiro não se devia esquecer, muito embora, em consciência, haja que reconhecer que o Homem não deseja aprender com os erros que foram cometidos para trás e mantenha essa maledicência doentia de não ser capaz de tudo fazer para que a paz se instale em todo o Planeta e a concordância e a ajuda fraterna sejam o mote principal e até único que poderia trazer alguma felicidade a todos os seres humanos. Refiro-me a esse chamado Muro da Vergonha que foi instalado para dividir a Alemanha.
Vale a pena trazer à memória esse acontecimento, mesmo com datas. Pois foi a partir de Junho de 1948 que, durante 10 meses e 23 dias, as autoridades soviéticas impediram que dois milhões e meio de berlinenses ficassem sem acesso terrestre ao lado oeste e foi uma greve provocada pelos operários que tinham levantado a divisória berlinense que provocou, em 17 e Junho de 1953, depois de uma actuação feroz por parte do exército vermelho, que, na noite de 12 para 13 de Agosto de 1961, Berlim Oriental se converteu num cárcere para todos os habitantes daquele lado da que já era denominada República Democrática da Alemanha e foi na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989 que se começou a erigir aquele muro que acabaria por ter 160 quilómetros de comprimento e que levou onze meses a ser construído, tendo dividido em duas a Alemanha que antes se conhecia.
Durante 28 anos e 88 dias, os alemães estiveram divididos e os 17 milhões que viviam no lado oriental puderam terminar com a frustração do impedimento de sair dessa prisão e de poder conviver com os parentes, os que os tinham, que residiam do outro lado do muro.
Eu ainda tive ocasião, na minha profissão de jornalista, de, durante a existência dessa divisão controlada, poder passar a Porta de Brandenburg, visitando o outro lado, depois de ter sido sujeito a um estudo profundo do meu passaporte e da minha fotografia lá colocada e de ter aguardado largos minutos até me ser permitida a passagem para o outro lado (tendo que cambiar uma quantia de marcos da Alemanha de Oeste por uma quantidade ridícula de marcos de Leste, que valiam quase nada).
Ao ter entrado na larga praça que surgia logo a seguir ao arco lindíssimo que separava as duas zonas de Berlim e tendo percorrido a pé umas ruas que desembocavam no local, deparei com uma população muito metida consigo, triste e vestida de forma bem diferente do que se via do lado donde eu chegava.
Dizem-me que a cidade de Berlim de hoje é muito diferente do que era na época triste em que visitei o lado Leste. Toda a capital alemã recorda um pouco o passado mas faz questão em construir o seu presente. A cultura mantém-se na base de toda a sua existência. Ainda se conservam, propositadamente, alguns pedaços do muro, em locais estudados. Essa memória não há que a perder. Nem parece que se trata de uma cidade que passou pelo martírio que lhe foi imposto, pois renasce com entusiasmo. Os nossos arquitectos e os construtores civis que temos deviam ir tomar conhecimento de como a vontade de uma nação produz milagres e ultrapassa as dificuldades. Bem se poderia modificar a tristeza da nossa cidade de Lisboa e ser-lhe dada uma imagem que acabasse de vez com a velharia que se mantém e que poderia e deveria ser aproveitada para, tirando partido do antigo, incutir-lhe uma ligeireza de cores, dado que, afinal, o rosa velho até é um tom de que muito gostamos.Mas qual!... Nós não temos nada a aprender com ninguém

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

GRIPE

Há os que provam de tudo
nem perdoam acepipe
falar muito sem ser mudo
assim se apanha a gripe

Pandemia nos assusta
a doença faz razia
tudos isso bem nos custa
mesmo sendo só mania

Para aos outros não pegar
ficar em casa é melhor
porque indo trabalhar
contagia-se ao redor

A “baixa” é bom remédio
já estando ou vindo a estar
por muito que cause tédio
o não poder trabalhar

É útil o bom motivo
para ao trabalho não ir
mesmo ficando activo
é fazer por distrair

Para quê ser produtivo
se os outros fazem pouco
é preciso um incentivo
basta receber um troco

A gripe veio a calhar
chegou na melhor altura
se o emprego não falhar
é bem bom enquanto dura


SARAMAGO OUTRA VEZ...



DEPOIS do que escrevi ontem sobre esta personagem fiquei convencido de que não voltaria ao assunto, pelo menos tão cedo. Mas, afinal, tendo sido atraído pela leitura de mais umas páginas do seu livro “Caim” e dado que as entrevistas que o Prémio Nobel tem concedido largamente a tudo que são jornais, revistas e televisões não dão sossego e desafiam o jornalista que reside em mim, não me conformo com o pequeno resumo que apresentei no blogue passado e entendo que o assunto em si merece mais alguma reflexão e um certo desabafo, seja de aplauso seja de discordância em relação à forma como o livro foi escrito. Porque, no capítulo que tem sido objecto de tanta discussão, ou seja no que se refere ao ser a favor ou contra as apreciações saramaguianas em relação à Bíblia, o que eu sou é fervorosamente seguidor da liberdade de pensamento e de considerar que cada um tem o direito de expressar as suas opiniões, deixando aos outros a possibilidade de evidenciarem o seu ponto de vista, pois que é dessa forma que se confrontam as diferentes ideias e é daí que, com bom senso, boa educação e respeito por aquilo que os demais pensam, se constrói uma vivência respeitosa. Ninguém pode ser obrigado a seguir os princípios que sejam propagandeados.
No que me diz respeito, eu, que tive uma infância muito ligada às práticas seguidas pela Igreja Católica, tendo cumprido todos os cânones que o catolicismo aplica à juventude, incluindo a missão de ter sido várias vezes acólito de missas, ainda em latim, por acaso proferidas pelo venerando Padre Cruz, não me posso considerar ignorante das regras que a referida religião segue. E, no capítulo familiar, o ambiente que me rodeia é o de uma veneração convencida dos preceitos impostos por Roma.
Mas, a vida levou-me a reflectir profundamente sobre tudo o que o Homem tem procurado impor considerando-se mensageiro de forças superiores, e, como não poso evitar a prática do julgamento, para mal dos meus pecados, nem sempre alinho nas definições que uns tantos pregadores entendem que devem espalhar, seja porque obedecem honestamente ao que lhes dita o seu íntimo ou porque se aproveitam das circunstâncias e entendem que podem tirar partido da sua habilidade em convencer as massas. Porque não é a primeira vez que se descobre que uns tantos inventores de religiões acumulam fortunas com as propagações de milagres que os ingénuos aceitam sem discutir.
Mas não sou eu quem vai aqui deixar expresso quem, de toda a História de milhares de anos das múltiplas religiões que se propagaram pelo mundo e ainda hoje vão aparecendo, cumpriu meticulosamente com as regras da verdade e da decência. Não me sinto competente para tanto.
O livro Caim, quanto a mim, peca por não cumprir, aliás como todos os anteriores de Saramago (embora se venha a verificar, de obra em obra, uma melhoria no cumprimento de regras), com os princípios de uma escrita escorreita e que segue as normas de pontuação que servem para ajudar os leitores na sua leitura. E, no que diz respeito a ter-lhe sido atribuído, tempos atrás, o Prémio Nobel, temos de levar em conta que os críticos que seleccionam essa escolha não lêem os originais, mas sim traduções. E, como dizem os italianos, “traduttore, tradittore”, essa mudança pode representar rectificação que talvez tenha beneficiado a apreciação. Para mim não há outra explicação, embora tenha ficado satisfeito com a circunstância de um escritor português ter sido distinguido com tão importante honraria.
Mas volto ao mesmo: no capítulo religioso, as considerações que Saramago faz quanto às ocorrências passadas no Éden e as fantasiosas conversas de Deus com Adão e Eva e até às suas maneiras imperiosas de se dirigir a terceiros (e eu coloco estes e outros nomes em maiúscula, o que ele não faz), não se deve interpretar isso senão como uma fantasia literária, pois ir além dessa manifestação é querer entrar na discussão que só pode beneficiar o autor do livro que, com os seus 86 anos, se vangloria por dentro por ter conseguido criar tanta celeuma em volta do que escreveu.
Nesse aspecto, temos de concordar que o escritor tem olho para a promoção!…

domingo, 25 de outubro de 2009

PRIMEIRA VEZ

É frequente lembrarmo-nos
de quando ocorreu tal coisa
que foi a primeira vez.
Será de envergonhar-nos
e o tal acto repousa
no fundo da timidez?

Antes um grande mistério
era imaginação
tal coisa não se dizia
por ser obra de galdério
que não merece perdão
por viver em heresia

Só que sucede a primeira
da mesma ninguém escapa
assim se começa a vida
pode não ser grande asneira
e tudo feito à socapa
é de facto a partida

Nem sempre vem à memória
essa tal primeira vez
o tempo que já passou
faz-nos olvidar a história
e com pouca nitidez
vemos o que então voou

Porém, a vez derradeira
essa está mais presente
por se encontrar bem mais perto
tendo sido ou não asneira
mantêm-se sempre na mente
como sendo acto certo

Porque chega a todos isso
o de não lembrar sequer
como foi última vez
se se fez um bom serviço
se constituiu prazer
se repetia o que fez

É bom lembrar cada vez
a primeira longe está
a última já mais perto
e o que é malvadez
é que o que já não há
é como vida em deserto

Mas mesmo com mais idade
há sempre primeira vez
de algo que nunca antes
lá permitiu a vontade
de que com certa sagez
nos deixasse radiantes

Até a morte, afinal
quando chega é a primeira
e a última também
seja por bem ou por mal
quando chega à nossa beira
leva-nos para o Além






APRENDER



SUCEDE constantemente ouvirmos sair das bocas dos políticos, especialmente quando contestam opiniões de adversários, que “não precisam de receber lições de ninguém”. E isso provoca-me a maior das interrogações. Então, haverá alguém que possa afirmar conscientemente que não tem nada a aprender com os outros, sejam eles quais forem?
No que a mim toca, confesso que me custa a admitir que aqueles que fazem tal afirmação sintam profundamente aquilo que garantem ser o seu princípio de vida. Embora eu não possa nem queira servir de exemplo a ninguém, sinto-me diminuído porque uma das preocupações que mais me persegue é exactamente a contrária, ou seja a de ter a sensação de saber pouco e de, cada vez que absorvo mais algum conhecimento, constatar que continua a ser grande a distância que me separa da sapiência.
Quantas vezes eu me questiono se não contribuirá para me distanciar cada vez mais da felicidade - a tal impossível de alcançar em pleno - a ânsia de ir aprendendo o mais que posso nas diversas áreas de conhecimento que a vida apresenta. Não sei se o saber pouco não ajudará a não nos darmos conta do grau de ignorância que mantemos. E ficarei sempre com esta dúvida.
Aquilo que é ensinado hoje à miudagem quando ainda frequenta os primeiros anos da escola, nas antigas 3.ª e 4.ª classes, cada vez mais se afasta do que seria rigorosamente necessário que fizesse parte da aprendizagem que corresponde ao princípio de que é de “pequenino que se torce o pepino”. E repito aqui o que já referi em blogue anterior, de que uma classe de Democracia seria da maior importância para preparar os futuros adolescentes e adultos a saber respeitar os outros e ter vontade de ouvir. Pois acrescento agora que também seria da maior utilidade se não faltasse uma cadeira que incutissem nos alunos a consciência de que é raro saber-se muito e nunca se sabe tudo…
Talvez desta forma os homens que ocupam e venham a ocupar lugares na política não insistam em fazer afirmações de que não precisam de lições de ninguém. E, com essa modéstia, desde que seja autêntica, terão capacidade para escutar pontos de vista diferentes e até antagónicos dos seus que, quem sabe, não ajudarão a encontrar soluções que, quando se encontram fechados nas suas convicções, não satisfazem os objectivos que são essenciais para fazer andar o País no bom caminho.
O que eu não tenho é nenhuma esperança de que um José Sócrates qualquer, um que venha a ocupar o lugar de chefe de um Governo que surja, leve em conta a minha proposta. E ficaremos pelos Magalhães e pelo Inglês, sendo cada vez mais ignorantes na nossa própria língua. Até a língua francesa, de origem latina como a nossa, era, no meu tempo, a que se tinha de aprender e agora está completamente posta de parte.
Cada vez aumento mais as minhas dúvidas no que respeita à instrução escolar que se segue nesta época. Os velhos ditados e as redacções que éramos obrigados a fazer sem erros – porque cada um correspondia a uma palmatoada (que não matava ninguém) -, tudo isso hoje desapareceu. E o resultado está à vista.
Ai que Velho do Restelo em que me estou a transformar!”…


sábado, 24 de outubro de 2009

POETAS RESISTEM

Já foi tempo, isso já foi
em que a poesia invadia a vida
o que se dizia
aquilo que se escrevia
o que se vivia
estava cheio de poesia
e hoje que tanto se destrói
não há quem lhe dê guarida

Com toda a tecnologia
A velocidade, os avanços
O que se diz
Neste País
Não faz feliz
Não tem cariz
por isso a poesia
é só pr’os tanços

Porém, que pena
que tal texto doce
tenham partido
fugido
sumido
sem um gemido
saindo de cena
um bem escapou-se

Hoje o que mais importa
são as novas descobertas
várias
revolucionárias
originárias
imaginárias
é assim a vida torta
sempre com novos alertas

Mas a poesia, essa pobre
poucos lhe dão importância
desgraçada
escorraçada
desprezada
arrumada
perdeu o seu ar de nobre
mas nunca sua elegância

Enquanto houver quem a ame
mesmo que poucos existam
ainda que lhes chamem patetas
e lhes façam caretas
e só lhes paguem umas chetas
os poetas
nem impondo-lhes grosso açame
impedem qu’eles persistam






OS CAINS DE SARAMAGO



NÃO TENHO o costume de me referir a alguma coisa sem antes procurar inteirar-me, o melhor possível, do que se trata e, mesmo contrariado, colocar-me do lado do que pretendo observar. Isso de dizer não gosto, sem antes efectuar a prova para não deixar de ter razão fundamentada, é situação que sucede com muita gente mas que, neste caso, retira argumentos e força para demonstrar que todos têm direito a manifestar a sua opinião.
Esta questão que tem sido debatida largamente para gozo e prazer do apontado, com as televisões a trazer continuadamente o assunto à baila e os periódicos a publicarem sucessivamente a sua imagem e as suas declarações, essa propaganda que, sem ser paga, tem sido difundida, tem contribuído para que o tema focado obtenha o privilégio de ser largamente espalhado. E, sendo assim, também se coloca na posição ideal para ser criticado.
Refiro-me, julgo que foi entendido, a José Saramago e ao seu último livro intitulado “Caim”.
Desde que este escritor foi distinguido com o Prémio Nobel que passei a interessar-me pela leitura das suas obras. Não podia ficar-me pela primeira impressão que tinha tido antes e que não era de molde a considerá-lo um autor de craveira superior. Mas, perante as referências elogiosas que foram largamente divulgadas em redor da sua obra e da sua personalidade, levei tempo a formar a minha opinião definitiva e não deixei de ir seguindo os livros que foram aparecendo e de ter analisado as múltiplas rectificações que iam surgindo, até mesmo no capítulo da pontuação, que era o que saltava logo à vista na leitura do que ele escrevia. Mas os assuntos referenciados também não contribuíam para atrair a minha preferência.
Eu, que tinha seguido à distância a caminhada de José Saramago, quer na área política como na vida profissional que, depois do 25 de Abril, foi desenvolvendo primeiro no campo da publicidade e depois numa carreira dita jornalística que a sua participação no Partido Comunista lhe facilitou, ao ponto de ter chegado, incompreensivelmente, a dirigir o “Diário de Notícias”, onde deixou bem marcada a sua presença com uma atitude que, essa sim, me fez arredar da sua proximidade, a de ter despedido 22 jornalistas só porque não faziam parte da área política que o atraia a ele, pois foi precisamente o seu comportamento que também contribuiu para que, depois do galardão recebido em Estocolmo, não quisesse perder uma só das suas produções literárias para não cair na crítica ao seu trabalho sem ser por razões estritamente literárias.
Pois vem agora a motivo deste blogue o referir-me ao tal “Caim” que tem provocado tanta celeuma e propaganda. Começo por apontar a forma como o nome do dito filho de Abel é escrito, sem acento, e igualmente ao seu hábito de não escrever os nomes de participantes nos seus escritos sem ser com letra maiúscula. Quanto ao resto, não discuto se se trata de um trabalho que interfere na verdade ou não verdade de um tema que, apesar de não constituir leitura muito lida, não deixa de ser largamente conhecida, a Bíblia, nos seus dois Testamentos.
O que me deixa a mim a convicção é que Saramago é um excelente propagandista e a escola que fez nas agências de publicidade tem-lhe servido para, por tudo e por nada, divulgar largamente o que produz lá na ilha espanhola onde se instalou. Quanto a este livro último, eu, que contribui para aumentar a sua receita de direitos de autor, sinto-me confortado para poder afirmar que fiz um grande esforço para ultrapassar a página 40, que é onde, geralmente, me fico nos outros livros que lançou antes no mercado.
Que ele é o mais vendido, lá isso é. Agora que também será o menos lido… nesse aspecto igualmente não se andará muito longe da verdade. E isto não tem nada a ver com o assunto que escolheu, pois toda a gente tem o direito a opinar sobre o que lhe apetece – desde que tenha editor, claro está, e isso não lhe falta, pois as empresas respectivas o que querem é produto que se venda, seja ele de Sócrates ou de qualquer Carolina. Ao que é obrigado é a escrever bem e a usar correctamente a língua portuguesa, seguindo todas as regras da escrita, incluindo as pontuações, que essas são uma autêntica desgraça, próprias de um principiante. E nisso, o Prémio Nobel português, ainda que tenha vindo a melhorar bastante, ainda se situa muito longe do que a qualquer iniciado nessa arte é imposto. Mas se os editores gostam assim!...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FUTURO

Neste País onde estamos
onde nascemos, vivemos
ainda nos conservamos
temos aquilo que temos

E é pouco, coisa pouca
e cada dia é menos
a caixa vai estando oca
à fartura só acenos

Mas que podemos fazer
que nos resta nesta hora
em que é enorme o muro?

Já nem se pode crer
não serve ir para fora
não me apetece o futuro




NOVO GOVERNO


Por fim, com a maior das discrições, Sócrates lá levou ao PR a lista do novo Executivo que, na próxima 2.ª feira, ao meio-dia, tomará posse em Belém. A demora que causou grande preocupação no meio político e também, provavelmente, em muitos atentos cidadãos que vivem e sentem os acontecimentos políticos nacionais, acabou por não provocar assim tantas surpresas, até porque, de facto, não havia excessivas expectativas em relação às figuras que iriam ocupar os lugares daqueles que deixaram as pastas e de que, em parte, se tinha a convicção de que não repetiriam funções executivas.
Cinco mulheres foram incluídas no grupo, o que, não sendo nada de estranhar, pois o género feminino tem vindo a impor-se nos lugares de importância nos vários sectores portugueses (e não só), no que diz respeito ao nosso caso sempre se trata de alguma coisa que pretenderá dar mostras de modernidade. Oito ministros foram mantidos, ainda que alguns com pequenas mudanças nos títulos dos ministérios e outros alterando as tutelas que mantinham. Portanto, no capítulo da confiança de Sócrates a tais figuras, esta conserva-se.
Agora, assim de imediato, pouco há a referir no que respeita ao novo Governo. Temos de esperar por resultados e, no capítulo da Educação, como não podia deixar de ser, saiu a “governanta” que tão mau serviço prestou e que é difícil de entender como é que foi mantida até ao final. Só se espera que, desta vez, o Sindicato dos Professores mostre alguma condescendência, caso sejam alterados os motivos que levaram a tanta reclamação. Também, na pasta da Justiça, saiu um elemento que esteve ali a contemplar sorrateiramente o exercício dos Tribunais de que tantas demoras e maus resultados deram mostras, sendo outro que bem merecia ter saído a tempo, pois o detentor do lugar nada fez para modificar a situação e nem uma palavra de desagrado foi capaz de expressar. Só por isso, do novo detentor do cargo se espera alguma coisa de proveitoso.
Cá ficamos, pois. Mais uma vez temos de esperar sentados, pois que José Sócrates parece ter tomado o gosto por criar um “suspense” nos cidadãos, e, por outros lado, naturalmente não vai ser rápida a mudança, sobretudo também porque um governo que não é maioritário tem de saber mover-se no meio de partidos que espreitam as suas oportunidades e que não parecem dispostos a identificar-se mais pelo interesse nacional do que pelos seus próprios propósitos partidários.
Esta é a realidade que os portugueses têm de suportar já a seguir, juntando as consequências de uma governação difícil à crise que, digam o que disserem, cá continua a provocar o desemprego que não pára de subir.
Que vai haver muito para dizer, lá isso vai. E a seu tempo tudo saltará cá para fora.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CANTEMOS Á CHUVA

Chove lá fora, ai chove
depois de uma longa seca
será a prova dos nove
dos que molham a careca

Primeira chuva é tão bom
lava as ruas, lava a alma
dá gosto ouvir o seu som
e até o calor acalma

Há que sair com chapéu
e que fugir das goteiras
com alegria Deus meu
vêm aí as janeiras

Depois das primeiras águas
nas cidades são bastantes
pois surgem depois as mágoas
queixam-se os lamuriantes

Mas para ter sol na eira
e a chuva no nabal
há que ir pedir à feira
à bruxa do arraial

Chuva, chuva venha ela
contratempo não será
pode-se ver da janela
e o sol depois virá

Cantemos portanto à chuva
à sua força de vida
assenta como uma luva
quando com conta e medida

ESTABILIDADE PRECISA-SE


Não tenho nenhuma certeza. Como em tantos assuntos que se nos deparam pela vida fora, não consigo ultrapassar certas dúvidas que não me deixam tomar partido por um caminho de entre vários que podem ser seguidos. E esta é uma delas.
Refiro-me à questão de defender o ponto de vista de que devemos chamar a atenção para os problemas com que o nosso País se debate ou se é preferível pintar cor de rosa as situações que, sendo reais, é bom que disfarcemos o panorama para não espalhar o pessimismo que pode provocar um desinteresse pela luta para melhorar o que existe.
Ninguém pode garantir qual seja a medida mais apropriada e eu, por mim, prefiro não olhar para o lado a assobiar, posto que, por mais negra que seja a situação em que vivemos, considero que devemos chamar a atenção para o que nos envolve e procurarmos contribuir para, dentro das nossas limitações, para dar uma volta por cima, para utilizar uma expressão abrasileirada.
Sendo assim, vou referir-me àquilo que fez parte dos noticiários de hoje e que, sendo conhecido o seu conteúdo, não é demais rebater uma situação que nos deve preocupar a todos nós, portugueses, pois está em causa o nosso futuro e, sobretudo, o dos nossos descendentes: trata-se do défice do Estado que já atingiu os 20 milhões de euros por dia, sim por dia(!), o que quer dizer que se Portugal fosse uma empresa se encontrava em situação de falência profunda, pois o que entra em fundos nos seus cofres não chega para suportar os gastos e vai-se, diariamente, diminuindo o activo… enquanto ele existir!
Pois, ao mesmo tempo que o panorama económico nos dá esta imagem tão preocupante, ocorre o problema da próxima votação no Parlamento do Programa e do Orçamento do novo Governo ainda por constituir e cuja composição vai dar bastante que falar. E o que se espera que suceda é que os partidos políticos com assento na Assembleia da República não tomem a medida perigosa de chumbar, na maioria, tais propostas, o que fará, seguramente, com que José Sócrates respire de alívio e anuncie a demissão do seu conjunto. E como o Presidente da República está impedido de convocar mais outras eleições legislativas até Abril de 2010 e o Parlamento não pode ser dissolvido por se encontrar dentro do prazo de seis meses após a sua eleição, o provável é que um novo Executivo teria de sair da iniciativa presidencial.
Que lindo panorama! Que trapalhada resultaria desta medida provocada pela falta de senso daqueles que podem ser responsabilizados pelo caos que isso representaria! É preferível esconder esta probabilidade de tornar-se real?
Cada um julgará como entender. Achará que é preferível não apontar os erros que podem sair das cabeças de gente que, estando colocada nas primeiras filas dos agrupamentos políticos, não é por isso que garantam ser capazes de tomar as decisões mais aconselháveis face ao País que temos e como o temos.
Que se dê, ao menos, a possibilidade de José Sócrates, apesar de não ter dado provas no exercício que findou, de boa actuação e de capacidade para enfrentar os problemas com competência e humildade, poder agora remir-se do mau de antes e dar mostras de que está em condições de actuar de forma adequada ao que o País necessita. Libertar-se assim do problema e partir para outra é que não me parece adequado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

VIVER A VIDA

O que é isso de viver
é ocupar uma data
devagar ou a correr
tormentosa ou pacata?

Deve ser algo de mais
ter até certa razão
com risos e com uns ais
a vida é uma ilusão

Que bom que nos iludamos
dá força p’ra sustentar
aquilo que nós amamos

e com o que dá azar
sempre nos aguentamos
com ilusões a pairar

TECNOLOGIAS SEMPRE NOVAS



O MUNDO está cada vez mais dominado pela tecnocracia. A cada instante surge um novo avanço da complexa aparelhagem que já existe, que se encontra à mão do homem comum e que os facciosos pelo acompanhamento das descobertas que são divulgadas não deixam passar em claro, não perdendo ocasião para tomarem contacto directo com tais novidades.
Imagino muitas vezes a eventualidade de cidadãos que já nos deixaram há meio século e que teriam feito uma visita ao mundo de hoje. E penso no espanto que causaria a esses visitantes o presenciarem o número enorme de modernidades que hoje são consideradas indispensáveis e que não queremos nem admitir a hipótese de deixarem de estar ao nosso dispor. E uma dessas invenções é, indiscutivelmente, o telemóvel.
Alguém, da maioria esmagadora da população de hoje, admitiria dispensar o uso desse aparelho mágico que permite, em qualquer momento e em diferentes locais, transmitir e receber mensagens, ouvindo e dando a ouvir falas e todo o tipo de sons? E a interrogação dos jovens de hoje é como é que os antigos podiam viver sem recorrerem a este telefone portátil.
E o mesmo se passa com os mais diversos tipos de tecnologias que, prestando os mais imaginativos e úteis serviços ao Homem de hoje, quando entram no uso corrente logo fazem esquecer o que era utilizado na véspera. E a transição passa a constituir um fenómeno natural que a ninguém espanta.
Mas não há bem que não tenha os seus inconvenientes. E um deles é o abuso de alguns instrumentos que tornam o ser humano escravo da sua utilização, exagerando-a e criando logo vícios que bem podiam ser evitados. Refiro-me, como já terão imaginado, à utilização permanente, seguida, cansativa do telemóvel. Há gente que passa o dia de aparelho agarrado ao ouvido, não trabalhando e não deixando que os outros também façam alguma coisa. Os portugueses são assim, já sabemos. Têm uma paixão doentia pelo telefone e, agora que até dispõem do aparelho que levam para todo o sítio, não descansam um momento e até a conduzir, que é proibido e bastante perigoso, não são capazes de colocar por momentos no bolso essa atracção doentia.
E cá estamos para assistir e utilizar o muito que certamente virá por aí e que fará pôr de parte o que ainda hoje consideramos como indispensável.
O Homem, na verdade, tem aproveitado estes últimos cinquenta anos para revolucionar com novidades técnicas que, ate na juventude dos mais idosos que ainda por cá andam, era inimaginável admitir que seriam postos ao serviço dos habitantes do mundo de hoje.
Somos, por isso, mais felizes? Essa a pergunta que vale a pena fazer. Não seriamos capazes de caminhar na vida se não se tivesse operado essa revolução tecnológica? Não tem, de facto, grande importância o poder-se dispor hoje do computador e das suas avançadas ajudas nas mais diversas áreas em que o Homem se movimenta?
Como sempre fica aberta a discussão.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A ILUSÃO

Ter ilusão sempre ajuda
a vencer o dia-a-dia
ir pensando na taluda
provoca muita alegria

Viver uma vida inteira
a manter tais esperanças
é colocar feiticeira
num jardim só de crianças

Mas na falta de melhor
esperançoso ajuda
pois olhando ao redor

e vendo que nada muda
já serve seja o que for
esperança nos acuda

JUSTIÇA Á PORTUGUESA



Numa entrevista dada pelo bastonário da Ordem dos Advogados ao Jornal 24 Horas de ontem, em que foi entrevistadora Luísa Castel-Branco, este frontal Homem que não esconde as suas declarações por detrás de sofismas ou de desculpas não convincentes, não hesitou, como tem feito noutras ocasiões, em acusar aqueles que, sendo personalidades com responsabilidades públicas, praticam frequentemente faltas que acabam por vitimizar os cidadãos, que são sempre os últimos a sofrer com as consequências.
Marinho Pinto, pois é dele que se trata, não deixou por meias palavras aquilo que teve a dizer e não se recusou a fazer referência ao detentor da referida pasta, afirmando que esse actual responsável é “de papel e de palha”, deixando claro que, de uma forma geral, “os ministros da Justiça não têm capacidade de influir em muito daquilo que está mal”.
Ora, numa altura em que se aguarda a mudança de vários membros que exerceram a sua actividade no Governo de Sócrates que está de saída, o que nos falta ver é por quem é que o chefe do Executivo substitui aquelas figuras que prestaram um mau serviço à Nação e de que não existiu a coragem de os substituir mesmo na altura em que se encontravam em funções. É o mal de um responsável maior pelo Governo que está em exercício não ter visão suficiente para verificar que alguns dos elementos antes escolhidos representam erros que deveriam ser rectificados logo que deram mostras da sua falta de competência.
Não é necessário reafirmar aqui que um País com uma Justiça deficiente, demorada e sem fiscalização sobre as decisões proferidas em Tribunais, não sendo alteradas as circunstâncias em que funciona, pode ter boas actuações nas outras áreas mas peca sempre pelo principal que é a ausência de confiança da população no que respeita a ser protegida face às injustiças que possam ser praticadas.
Marinho Pinto põe o dedo na ferida dizendo, de forma clara, que “há irresponsabilidade a mais nos nossos tribunais” e que “os magistrados não prestam contas a ninguém, a não ser a si próprios”. Acrescentando que “as suas prerrogativas funcionais acabaram transformadas em privilégios pessoais; todos são independentes, irresponsáveis, vitalícios, inamovíveis; escolhem-se uns aos outros, avaliam-se uns aos outros, nomeiam-se uns aos outros e, quando lhes convém, fazem greve em conjunto”. E deixa a pergunta: “neste quadro, qual a capacidade dos ministros da Justiça mudarem esses estado de coisas?”.
Ora aqui está o que um Bastonário da Ordem dos Advogados, falando daquilo que conhece, deixa bem claro o estado em que se encontra a Justiça portuguesa.
Será que, face a tão claras acusações, não existe em Portugal nenhuma força com capacidade para solucionar de vez o problema? Temos de viver nestas condições toda a nossa vida?
Talvez a resposta caiba ao Presidente da República, que em vez de se preocupar com discussões de pátio, possa interferir na busca de uma solução que urge ser encontrada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O QUE VEJO

Aquilo que vejo
que atrai meus olhos
que me causa ensejo
mesmo sendo aos molhos
eu acredito?
É verdade pura?
Não será um mito?
Uma desventura?
Mas vejo e pergunto:
poderei eu crer
constitui assunto
para eu ver
e aquilo que é dado
algo como queixa
será um recado
que a vida me deixa
uma prevenção
com certa importância
chama-me a atenção
provoca-me ânsia
abre-me o sentido
mas olho parando
e o despercebido
agora pensando
com calma observo
a ideia apurada
por fim lá conservo
a vista do nada
e aquilo que eu via
e que os olhos liam
tinha mais valia
e todos deviam
cá por este mundo
ter algum rigor
olhar sempre a fundo
que tudo tem valor
Por isso m’interrogo
procuro resposta
faço-o como um jogo
é quase uma aposta
tudo por que passo
e atrai minha vista
se causa embaraço
constitui uma pista?
Como em tanto assunto
não sei responder
até ser defunto
terei de aprender



O MUNDO A ACABAR


Sim senhor, já me referi a este tema em blogue anterior e, ao longo da minha actividade jornalística, abordei em várias ocasiões o tema por o considerar, não uma longínqua hipótese, mas algo que pode muito bem ocorrer como sendo uma enorme fatalidade que o mundo corre o risco de vir a suportar, pois o Homem é um ser imprevisível e ninguém está em condições de garantir que um desses mandões de uns países que já deram mostras de grande irresponsabilidade, não dará ordens para que seja carregado o botão.
Todos nós desejamos que isso nunca venha a acontecer, mas uma coisa é a esperança de que o bom senso vencerá as raivas e os ódios que pululam nalguns chefes de governos e outra, bem diferente, é a garantia de que nunca ocorrerá tamanha calamidade.
As situações criadas na Coreia do Norte, cuja ameaça passou de pai para filho e não se sabe se o neto, prestes a tomar posse, como tratando-se de uma monarquia dinástica, não virá a seguir as pisadas da família, assim como as afrontas que são oriundas do Irão, desconhecendo-se se outros países de religião muçulmana não dispõem do conhecimento do poder nuclear, posto que o permanente confronto que mostram em relação às nações com credos diferentes não deixa tranquilos todas as restantes nações, vizinhas ou mais distantes. Israel, por exemplo, podará vir a ser a primeira vítima desse ódio e, se tal acontecer, a resposta não se fará esperar e aí existe o risco de ser um início do uso generalizado da terrível bomba atómica.
Mas, já que estou a referir-me a um acção malévola do ser humano, entendo que, tal como a preocupação com a crise que envolveu todo o Planeta foi alvo de uma atenção generalizada para tentar-se pôr cobro a esse vírus económico com consequências sociais terríveis, os povos deveriam estar atentos ao renascimento de uma onda de juventude, mas não só, de adeptos que cultivam os princípios tidos como fascistas, com grupos que se vêem em estúdios de futebol, bandos de rock, subscritores de atitudes agressivas contra os estrangeiros nos seus países, negros, homossexuais, etc., os quais já deram mostras de existência em França e que, agora em Itália, não escondem que seguem com entusiasmo esse princípio hitleriano. Até na Polónia já surgiram tais manchas de adeptos, imagine-se…
Pois é isto tudo que não deve ser escondido, ignorando-se a sua existência só porque é incómodo e não desejamos ver por perto. As Democracias têm esta fraqueza de não serem suficientemente severas com as forças que pretendem terminar com a Liberdade. E elas sabem que, se implantarem a sua ideologia totalitária, não deixarão que regresse a possibilidade de se discordar e as revoluções não são fáceis de levar a cabo.
Não devia escrever isto? Eu, por mim, que não corro o risco de vir a assistir a este descalabro, pois o tempo ainda decorrerá durante algum tempo suficientemente longo até esse perigo ocorrer, se ficasse calado só tinha a ganhar. Mas manda a consciência que não proceda assim. E oxalá nunca venha alguém dizer, daqui a uns tantos anos… tinha razão aquele José Vacondeus, quando alertou para o que está a decorrer.