sábado, 21 de novembro de 2009

COMPUTADORES



UMA AMIGA minha, por sinal médica, já na casa dos 60 e poucos anos, conversando um dias destes e vindo à baila o tema dos computadores, não teve qualquer hesitação em declarar que “essas modernices” não lhe interessavam nada e que nunca tinha sentido falta de saber mexer nas “complicadas” máquinas. Para além disso, até lhe metia raiva ver como a miudagem passava horas agarrada aos teclados, com jogos “esquisitos” e outras complicadas distracções. Esta a forma que utilizou para expor o seu ponto de vista de alergia em relação às tais “esquisitices”.
Conto este pormenor, hoje que resolvi, para desenfastiar, não me dedicar a temas complicados da política que temos por cá, pretendo apenas sublinhar a situação dos que, pertencendo já a uma geração que vem de longe, e que considera não estar já em condições de enfileirar na nova tecnologia da informática, deve, pelo contrário, ser convencida de que esta forma de comunicar, escrever, arquivar e tomar conhecimento do que o mundo informa não tem porquê ser apenas objecto de uso da juventude.
Eu próprio, que vim do tempo do jornalismo escrito à mão, depois às máquinas de escrever, primeiro aquelas antigas e pesadonas e depois as portáteis e, por fim, as eléctricas, e em que os arquivos dos jornais ocupavam espaços enormes e uma imensidade de pastas com textos e fotografias, quando passei à computorização, inicialmente também antiquada e sem os recursos que hoje apresenta, tive a minha reacção de recusa de adaptar-me à modernidade.
Quem ainda assistiu ao trabalho dos revisores dos textos que, sendo mestres do português, emendavam nas redacções os artigos saídos das mãos apressadas dos que escreviam e que só depois seguiam para as oficinas de composição e impressão, e quem contemplava depois os compositores, ainda antes das “linotipes”, a alinhar as letras de chumbo e a ler ao contrário as frase acabadas, é evidente que, mesmo com os primeiros computadores que ocupavam uma sala inteira, teve de ficar tão deslumbrado como desconfiado com a novidade. Mas a evidência era tão flagrante que não havia que hesitar. E hoje seria inconcebível admitir que era possível voltar aos tempos antigos.
Ora, o que eu pretendo expor com este intróito histórico é que há que convencer as velhas gerações, sejam quais forem as suas idades e desde que se encontrem com saúde bastante para poderem aderir às novas tecnologias, de que, tal como não se pode hoje passar sem receber os benefícios das mais modernas formas de medicina e cirurgia, também não é benéfico que não acompanhemos a juventude com os mails, os blogues, os SMS, as mensagens e todas as técnicas que não afinal assim tão complicadas que um adulto maduro não domine. E mais: é que acabaram os montes de papel que, os que sempre escreveram, guardavam pelos cantos das casas, para zanga das mulheres de família.
Já que a duração do tempo de vida aumentou tanto nos últimos anos, o mínimo que se pode fazer é ocupar os espaços sem ter nada que fazer e desenvolver a escrita e o arquivo de tudo, até de fotografias, que convém deixar para os que vierem depois. Pelo menos, no nosso País em que o entretenimento a escrever e a ler não é uma atracção muito apreciada pela terceira idade, será uma forma muito útil dos mais novos contribuírem para que os seus familiares de idade deixem de estar sentados a um canto a olhar para o infinito e lhes ofereçam, neste Natal que aí vem, um computador dos mais baratos e tenham paciência para os ensinar a tirar partido de um instrumento que a tecnologia moderna fez chegar até às nossas mãos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

UM DIA

Um dia farei tal cousa
não partirei sem cumprir
quem não fizer não repousa
nem merece prosseguir
nesta viagem da vida
que um dia terminará
com a missão cumprida
p’ra ver Deus ou Allah

Um dia também eu provo
esse petisco bonito
porque daqui eu me movo
e se for bom eu repito
comer do bom e do mau
para ter opinião
ser lagosta ou bacalhau
o que estiver mais à mão

Um dia se for possível
vou conhecer tal lugar
para que se tiver nível
poder do mesmo falar
gosto de tudo qu’é belo
no ambiente em redor
e faço sempre apelo
a um mínimo de amor

Um dia, um dia destes
tenho esse livro de ler
a obra que vós fizestes
porque é sempre com prazer
que vejo o esforço d’amigos
em produzir o que valha
e se precisam d’abrigos
eu cá estou mesmo na calha

Um dia, tempos atrás
saiu-me fácil da pena
uma crítica tenaz
sobre uma lusa cena
daquelas que tanto enjoam
o comum do cidadão
mas que em muito ressoam
em qualquer opinião

Pois foi mesmo nesse dia
que acabei por entender
que não é por essa via
que alguém pode aprender
que fez mal e se assume
da responsabilidade
pois nunca virá a lume
o culpado da maldade

Um dia, talvez bem perto
o País entenderá
que o que tem como certo
é que isto mudará
não podem continuar
todas as grandes maldades
e quando isso acabar
outro Portugal será

APOSENTADOS



VEEM-SE constantemente aparecer nas televisões nacionais entrevistados ocasionais, nas ruas, para darem a sua opinião sobre temas que, nessa altura, estão a ser debatidos. E, ao ser-lhes perguntado qual a profissão que exercem, a resposta é, com grande frequência, de aposentados. Mas, ao darem a conhecer a sua idade, também constantemente, não escondem – e é esse o seu aspecto – encontrarem-se na casa dos cinquenta e poucos anos!
Por aqui se pode tomar consciência do montante astronómico que corresponderá ao total dos pagamentos mensais das reformas de todo o País, pois que, ao depararmos com a quantidade enorme de gente ainda distante dos 65 anos e com aspecto de se encontrarem em perfeitas condições para trabalhar que usufrui já desse benefício, não podemos deixar de fazer as nossas próprias contas e de nos interrogarmos, com natural preocupação, se os que estão reformados mas dentro das condições de idade que estão apropriadas, não têm razões para temer que não se encontre assim tão longe a altura em que os dinheiros reservados para esse efeito não termine e que não seja absolutamente imperioso tomar medidas drástica que levem a diminuições de valores e até - quem pode garantir o contrário? - ao fim de tal disposição.
É certo que, perante o grande volume de desempregados que circulam por aí, não é possível encontrar trabalho para esses a quem foi atribuída a reforma antes da idade regular, pelo que não existe saída para uma situação que pode vir a constituir um verdadeiro dilema. E assim ficamos a contemplar o problema.
Apesar de muitas mortes provocadas por epidemias que aparecem sem aviso, como agora esta denominada H1V1 ou gripe A, não obstante as doenças prolongadas que continuam, por esse mundo fora, a extinguir milhares e até milhões de vidas, por outro lado, as idades, antes consideradas avançadas, agora já se situam longe de chegar perto do fim, pelo que a população humana quase triplicou desde que, há cerca de cinquenta anos, no final da Guerra Mundial, encontrando-se então na casa dos dois mil milhões, anda em redor dos seis mil milhões.
Devemos reflectir sobre esta realidade. Tentar antever o que se passará no nosso Planeta daqui a outros cinquenta anos. E preparar os que têm probabilidades de cá se encontrarem nessa altura, para que tenham condições para enfrentar o que for se deparará ao Homem.
No que a nós diz respeito, os que circulamos e cumprimos a nossa obrigação de seres vivos, já temos bastante com que nos preocupar…

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A GULA

Querer tudo de uma vez
e ter medo que se acabe
não aceitar o talvez
de haver alguém que se gabe
de comer tudo
não deixando depois nada
do petisco saboroso
p’ra sorver uma garfada
do que estava apetitoso
ficar pançudo

Isso dos olhos comerem
põe bastante gente fula
faz os gulosos temerem
não satisfazer a gula
grande defeito
a temperança por si
é da gula o contrário
o guloso só se ri
nem chama a isso calvário
bom proveito

HÁ VARA NOS TRIBUNAIS?



QUANDO no meu blogue de ontem confessava que me encontrava “farto de isto tudo”, queria dizer que o espectáculo que o mundo oferece e, particularmente, a agonia que tem de se sentir ao analisarmos aquilo que ocorre pelo nosso País, sobretudo nas áreas da política, da economia e, de forma particular, no que se refere ao sector social, fazendo esforço para arredar da minha disposição esse enjoo, cada dia que passa ainda mais serve para avolumar as razões que levam a não conseguir perder essa estado de espírito. E não é possível distrair tal situação com a euforia futebolística que tem tentado distrair a população no caso do jogo com a Bósnia que, no momento em que redijo este texto, ainda não sei quem vai sair vencedor, mas não será por aí que a Nação fica mais feliz, ainda que, sem dúvida, a nossa malta se mantenha atenta a um encontro que sempre provoca alguma dose de optimismo no capítulo do chamado apelo patriótico.
Deixemos, porém, este factor transitório e prestemos atenção ao que foi motivo para uma notícia trazida a público sobre o homem que se encontra nesta altura nas páginas dos jornais. E, enquanto noutro espaço do mesmo periódico, se pode tomar conhecimento de que, no nosso País, se perdem 488 empregos por dia e que o número total já atingiu a casa dos 550 mil desempregados, é referida uma situação que, no mínimo, só pode ser considerada escandalosa: é que o total de ordenados e acumulações de todas as espécies que Armando Vara auferia no momento em que desempenhava as funções de administrador da Caixa Geral de Depósitos foi de 240 mil euros anuais.
Não importa excessivamente saber se o ex-governante esteve ou não envolvido no denominado caso do “Face Oculta”. Isso diz respeito às autoridades judiciárias. Mas o que não pode deixar de constituir um insulto à pobreza nacional, aos desempregados, aos que arrastam enormes dificuldades – e é a maior dia população -, a diferença abissal entre os felizardos e os cidadãos comuns, por muito mérito que possam ter os que, vindo das berças sem nada sobem na vida, e não se sabendo se, neste capítulo, é este um caso de mérito, por muito que se queira encontrar motivos para situações deste tipo que ocorrem na nossa Terra e precisamente nesta ocasião tão difícil para a esmagadora da maioria dos cidadãos lusitanos, não se pode ficar indiferente e sentir uma revolta quanto ao mau uso da Democracia e da luta pela igualdade possível entre todos os portugueses.
Não, não venham com essa do comunismo, que por lá também existiam desigualdades… e de que maneira! O que se tem de clamar é pelo esforço que deve estar presente na actuação dos governantes, no sentido de que não se observem poucas vergonhas desta tipo, sobretudo porque os exageros revoltantes que se verificam, a maior parte tem origem em lugares em empresas em que o Estado tem interferência, directa ou indirecta.
Então, não tenho de andar farto desta trampa toda?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

PERSEVERANÇA

Essa enorme qualidade
de querer chegar ao certo
não importa com que idade
esteja ela longe ou perto
se chama perseverança
parecida à teimosia
se precisa confiança
e mostra boa valia
pois s’aos outros fizer bem
dará certa esperança
de poder ir mais além
com sua perseverança

É preciso confiança
na’strada que se percorre
se ela vem de criança
é coisa que nunca morre
é crime grave tirar
e forçar a desistir
os que no seu caminhar
se propunham conseguir
ao contrário de uns tantos
que desistem à partida
é caso para festança
se se dá grande acolhida
à maior perseverança




FARTINHO...



ANDO FARTO disto tudo. Mas se deixo de me interessar pelo que se passa no meu País, que razão me assiste para poder criticar o que considero estar errado e que não pode passar em branco, pois, como cidadão, me assiste o direito de querer que os homens que tudo fazem para se encontrar na ribalta política e com isso ganharem bem a vida (ao contrário do que pretendem fazer crer que é por puro patriotismo) cumpram com o mínimo de seriedade e eficiência o lugar em que se encontram e que tudo fazem para que outros não o ocupem – vide a “guerra” que existe até dentro do mesmo partido, em que se enxovalham o mais que podem para limpar a concorrência - , repito, se paro com estes meus blogues quem fica a ganhar são aqueles que estão a usufruir das múltiplas benesses que são atribuídas a tais criaturas. E não venham dizer que há uns tantos que tinham maiores proventos noutras actividades, porque o que sucede é que, por meio da política, são conseguidas inúmeras negociatas, quanto mais não seja por via das influências que os contactos privilegiados proporcionam.
É natural, pois, que, tendo sofrido as consequências, como jornalista e autor, no antigo regime, chegue a esta altura e assista ao que ocorre com o maior desconsolo e chegue à conclusão de que os regimes políticos são todos óptimos ou péssimos, dependendo apenas da qualidade dos homens, da sua honestidade e do cumprimento de uma ética de vida que nada tenha a ver com o benefício próprio, que é, afinal, o que é corrente na prática dos que sobem na escadaria do poder.
Por aqui me fico hoje. Vou incluindo as minhas poesias, que essas, feitas sem qualquer presunção e com ausência absoluta de ganhos, servem, pelo menos, para expandir as angústias que circulam no mais fundo do meu ser.



terça-feira, 17 de novembro de 2009

CIRCUNSTÃNCIAS

Há aqueles que na vida acreditam
que a sina é que comanda o destino
o qual já se encontra bem traçado
ainda antes de se ser menino
dizia filósofo espanhol
sem ter de usar qualquer arrogância
que todo aquele que goza do sol
está sujeito a toda a circunstância

Assim, as circunstâncias e o homem
atravessam em conjunto este mundo
e por muito que não queiram que tomem
a atenção perde-se num segundo
e o facto de um passo dado então
cria a circunstância do acidente
podia ser em outra ocasião
mas foi ali e com esse existente

Também ficar rico assim de chofre
só porque comprou o número certo
passar a utilizar sempre o cofre
e não sentir já de dinheiro aperto
foi ou não foi essa tal circunstância
de ter então comprado a cautela
quando raramente tinha tal ânsia
e não sabe por que lhe deu aquela

Ortega y Gasset foi autor da tese
de que o homem e as circunstâncias
não é princípio que alguém despreze
e por muito que goze de abundâncias
não vive isolado do que à volta
lhe proporciona bem e mal
pois que mesmo dispondo de escolta
não difere de um qualquer mortal

O que há então que esperar com ânsias
é que a vida a nós nos gratifique
com a melhor de boas circunstâncias
que tal sorte de todo modifique
o que depois nos pode suceder
que as doenças por longe lá andem
que o trabalho tenha bom correr
e que todos malefícios desandem

EXPROPRIADOS


EU POR MIM sei os esforços que faço para encaminhar as minhas meditações escritas no sentido de valorizar as características positivas do nosso País e do povo que somos e temos sido. Mas se tais desejos não são encontrados, só me resta uma de duas coisas: ou não escrever nada ou fazer sair o que considero ser literariamente (ou jornalisticamente se for nessa condição) da forma mais honesta possível. Preciso de referir, de vez em quando, esta situação para me salvaguardar das críticas que, felizmente, recebo, o que é sinal de que o meu blogue é seguido ainda por um público com opinião.
Pois bem, o que hoje quero salientar é um caso que, tendo ocorrido na época em que Marcelo Caetano foi primeiro-ministro, serve de mostra de que o comportamento das forças políticas antes do 25 de Abril, em certos aspectos não se diferenciava muito do que ocorre agora, neste período da Democracia. E é pena.
Acontece que, em 1974, quando ainda não tinha ocorrido a Revolução, pouco tempo antes, o Gabinete da Área de Sines, então criado concretamente para expropriar cerca de 50 mil hectares de terrenos cultivados naquela zona, com o pretexto de ser dada execução a um projecto da construção do porto de Sines. Com o nome de “vendas amigáveis”, 210 proprietários das referidas terras viram-se corridos dos seus terrenos, ficando abandonadas os milhares de sobreiros, eucaliptos e olivais, os quais, grande parte ainda se encontra por aproveitar, com prejuízo para o Estado português.
No Governo de Cavaco Silva, em 1988, extinto o GAS, as terras em questão foram entregues à Direcção-Geral dos Recursos Florestais e às Câmaras de Silves e de Santiago de Cacém, mas nada foi feito no sentido de aproveitamento de toda a riqueza em cortiça que ali jazia abandonada. Durante todo este tempo sucedeu o abandono da área de uma grande parte de habitantes, ficando apenas a gente idosa. A mata cresceu de forma perigosa e ninguém cuida de dar caminho ao que foi alvo de medidas que não são capazes de encontrar solução para o problema.
Nesta altura, a Direcção-Geral das Florestas detém a maior parte dos terrenos, bem como os referidos Municípios, e nada nem ninguém surge a pegar num assunto tão escaldante.
Que resta então? Pois, com a entrada em vigor do XVIII Executivo, e com um ministro da Agricultura que não é o anterior – pelo menos nisso ganhou-se alguma coisa: esperança – renasceram as esperanças que andam há muito adormecidas. Pode ser que seja desta vez, 35 anos depois da primeira asneira levada a cabo pelo antigo regime, também tempo passado sobre os vários responsáveis no período democrático, alguém seja capaz de pegar o touro pelos cornos e não faça vista grossa sobre o que é uma vergonha de todo o tamanho e a prova de que, em qualquer situação política, os governantes portugueses não têm competência, coragem ou seja lá o que for, para fazerem alguma coisa de útil ao País a que pertencemos.
Está explicado o princípio deste texto, em que faço referência à dificuldade com que me debato frequentemente para não fazer crítica não positiva ao que somos, nós portugueses, em todas as classes sociais a que pertencemos. Mas, sobretudo, aos que se situam no chamado poder.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

SUBIR

P’ro alto queremos ir
subir, subir sem parar
é preciso conseguir
mesmo que possa cansar

Tod’as escadas da vida
se se sobem sem batota
não precisam de corrida
marcam certinha uma rota

Se porém nessa subida
nem sempre bem se proceda
rápida será descida
e até sucede a queda

Cuidado pois n’ascenção
a ver onde põe os pés
é bom olhar para o chão
sem te esqueceres quem tu és

Um corrimão sempre ajuda
o conselho de um amigo
haver alguém que acuda
e nos livre dum perigo

Quem somos nós p’ra subir
querendo ir aos extremos?
Temos que saber medir
mesmo o pouco que sabemos

Mas, porém, os que se arriscam
a subir sem as prudências
alguma coisa petiscam
mas sofrem consequências

Ir d’empregado a patrão
tem vantagens, isso tem
o pior é que então
sobem encargos também

Há que medir bem os passos
não aspirar impossível
só assim se criam laços
e a obra é visível

Porém, quem não corre o risco
não passa da cepa torta
nunca alcança o petisco
não lhe bate nem à porta

Em que ficamos então
vale a pena que se tente?
Ou a melhor sugestão
é permanecer temente

Cada um tem o seu caso
não há a regra geral
não se trata de ter prazo
o que importa é o final

Depois de muito subir
de tentar a nossa sorte
ninguém consegue fugir
de descer até à morte





DO MAL O MENOR...




JÁ NÃO é novidade nenhuma que a corrupção se instalou, nos mais diversos níveis, no nosso País. E não é um comportamento exclusivo dos nossos dias, pois desde tempos bastante recuados que isso de passar o envelope por debaixo da mesa é atitude que sempre correspondeu à necessidade de se conseguir um emprego, de passar num exame, de ganhar um concurso público, de obter a aprovação de um projecto, de convencer um fiscal de qualquer coisa a fechar os olhos a uma irregularidade. Enfim, nesta Terra onde, sobretudo por causa das inúmeras burocracias que fazem as delícias de imensos serviços públicos e que, em muitos casos, só conseguem retardar as resoluções, uma das maneiras de se poder fazer qualquer coisa de positivo é utilizar o dinheirinho por fora, beneficiando umas vezes funcionários de segunda ordem e noutras ocasiões até fulanos posicionados em lugares de destaque. Provavelmente, desde o tempo de Afonso Henriques que os lusitanos, no País então inventado, descobriram que não havia só que vencer os mouros e corrê-los daqui para fora, pois além das armas era necessário recorrer ao saquinho das pesadas moedas para conseguir “convencer” uns tantos teimosos a abrir as portas ao caminho que havia a percorrer.
Mas, enfrentando agora o que ocorre nos nossos dias, de facto, ou porque a coisa se tornou já tão corriqueira que não há porquê escondê-la ou devido ao facto de ter toda a gente ficado já farta de ver os desavergonhados ricos que se pavoneiam com exibições repentinas de milhões que conseguem extorquir por processos que o sistema até dá a impressão que protege, a verdade é que tem de exigir que a Justiça, apesar de ser aquela que temos, faça alguma coisa para pôr cobro a tantos sucessivos casos de corrupção.
Já perdemos a conta às situações que se encontram ainda por solucionar através das vias legais, pois que umas fazem esquecer as anteriores e a sucessão de dinheiros a circular por carreiros obscuros levam a que no fixemos nos mais recentes e deixemos de pensar nos anteriores. Este caso do sucateiro, que se encontra nesta altura debaixo de olho público, ninguém sabe durante quanto tempo andará nas páginas dos jornais e que mereçam das televisões o privilégio da saliência. Vamos ver até onde se manterá esta situação.
Porém, há que, em minha opinião, fazer um sublinhado na personalidade do, até agora, único participante no caso denominado “Face Oculta” e já detido, o empresário de sucata Manuel Godinho, o qual, segundo veio a lume, é considerado em Ovar uma pessoa de grande generosidade, pois são bastantes as situações em que deu provas do seu sentimento de ajuda dos alheios, ao ponto de ser chamado naquela terra como o “padrinho dos pobres”.
Enriqueceu imenso, dizem, apesar de ser filho de sucateiro que não passou nunca de uma relativa modéstia. Mas, através do seu trabalho e, provavelmente, dos métodos que o levaram a posicionar-se na situação que forçou a Justiça a intervir, sendo um corruptor que teve a “arte” de convencer personalidades importantes a posicionarem-se como “corruptados” - coitadinhos deles -, o que, em meu entender, o distingue de muitos e muitos que levaram uma vida a obter benefícios chorudos com o seu procedimento e andam por aí a pavonear-se, em diferentes áreas empresariais e mesmo políticas, como gente honesta é precisamente a característica de que deu mostras Manuel Godinho de não querer só para si os benefícios de que usufruiu.
Perante tantos glutões que ignoram as faltas dos outros, perdoem-me mas tenho de tirar o meu chapéu a uma excepção!

domingo, 15 de novembro de 2009

NEM SEMPRE

Nem sempre temos a disposição
para dedicar todo o carinho
que deve merecer com atenção
com o que deparamos no caminho

E nem sempre temos bastante tempo
que chegue para fazer um afago
surge por vezes algum contra-tempo
que só pode deixar grande estrago

Ser amigo, nem sempre, do amigo
é condição que se impõe a todos
quem não o for merece um castigo
alguma coisa que magoe a rodos

Cumprir sempre com as obrigações
em vez de nem sempre ter tal cuidado
mesmo que existam certas razões
a maior não está do nosso lado

Pois é, nem sempre estamos felizes
tristeza invade nosso espaço
toda a vida nós somos aprendizes
custa-nos a livrar do embaraço

Mas, o nem sempre não é passageiro
muitas vezes chega e se arruma
saca daquele seu ar de matreiro
e ao falar das gentes se acostuma




COMUNISMO E CAPITALISMO



QUEM não tem complexos em se referir e em analisar os dois tipos de governação que, de uma forma generalizada, em dada altura dividiram o mundo em duas partes, para lá e para cá do “Muro”, e, com conhecimento objectivo de ambas as situações, se encontra na posição de emitir a sua opinião, se não quiser defender facciosamente uma das facções como sendo a que, indiscutivelmente, merece a sua preferência e, numa posição contrária, aceita os pontos de vista da parte que se situa no outro lado das preferências, quem assim proceder encontra, admito eu, algumas dificuldades em dar exclusivamente a razão a uma das duas partes.
Quer dizer, o comportamento comunista ou mesmo socialista radical, enquanto foi seguido nos países que se submeteram à orientação soviética, permitiu que as populações que estavam englobadas naquela política, em muitos casos, se sentisse satisfeita com o sistema. Como não conheciam com exactidão o que ocorria nos chamados países do Ocidente, e dado que a propaganda que lhes era oferecida nas suas zonas não permitia elogios ao que deste lado se passava, a opinião generalizada era bastante negativa quanto ao regime vivido neste lado.
Digo isto com conhecimento de causa e não apenas por ter ouvido dizer. Eu, que estive várias vezes, mas alturas mais severas do domínio soviético, em diferentes países sob o domínio político ali implantado e até dormi, numa ocasião, em casa de um casal jovem de professores universitário, em Budapeste (em plena subjugação de Moscovo), com um bebé de berço, pude avaliar a disposição que residia naquele exemplo que não me foi imposto, porque fui eu que escolhi a opção do convívio. E, ao trocarmos conhecimento das condições de vida nas duas situações, deparei, em certa altura, que, mesmo os intelectuais dessa área não entendia as vantagens, por exemplo, de existirem inúmeras ofertas de diversas marcas, cheiros, preços, tamanhos de um determinado artigo (por exemplo, sabonetes), quando o consumo se resumia a um só. E por aí adiante…
Numa visita a Portugal de um director de um diário, membro do Partido Comunista, que jantou em minha casa, foi grande a admiração demonstrada por termos, como qualquer outra pessoa, uma mobília de uma boa madeira. E, após a apreciação de uns vinhos nacionais, confessou-se entristecido por não ter tido autorização de ser acompanhado pela sua mulher, mas, de uma forma geral, os jornalista que saíam tinham de viajar sozinhos.
Bem, isto passou-se naquela época atrasada em que o Muro ali se encontrava a dividir a Alemanha, muro esse que, como eu já escrevi neste blogue, eu passei em Berlim, depois de um demorado estudo do meu passaporte.
Mas, depois desta descrição toda, vale a pena sustermo-nos numa apreciação do que é este mundo do livre mercado. E analisarmos que não temos a saúde toda defendida, a educação gratuita se merecermos esse apoio, a atribuição de residência, embora com sujeição ao compromisso do número de filhos, o emprego garantido com remuneração mínima, mas com almoço no trabalho, espera de anos para adquirir um frigorífico, uma televisão ou uma rádio, mas com preços de saldo. Não temos deste lado nada disso. Mas temos, isso sim, a liberdade plena de nos revoltarmos contra o que consideramos ser ataques à cidadania.
Não pretendo ir a fundo em ambas as situações. Apenas desejo alertar os leitores para uma reflexão sobre ambas as posições políticas. E talvez chegar à conclusão de que o Homem não conseguiu ainda encontrar a maneira ideal de se governar, de conduzir a vida em quase total harmonia e com a felicidade política plena.
Já dizia Churchill que a Democracia era a menos má das políticas. Quer isto dizer, segundo o velho britânico, que não existe situação que possa ser considerada como isenta de defeitos. Para quê, portanto, escolher?

sábado, 14 de novembro de 2009

SOBERBA

Ser-se com outros pedante
querendo sobressair
nada faz com que adiante
ao contrário só faz rir
presunçosos
a soberba é grotesca
é prova de ruindade
é defeito que se pesca
onde não há humildade
orgulhosos

Normalmente os que sabem
não mostram qualquer vaidade
conscientes que não cabem
seja qual for a idade
o saber
São os muito ignorantes
que presumem de saber
dão mostra de arrogantes
para toda a gente ver
para esquecer

O mal é que o mundo aceita
os que arrotam pescadas
os que formam uma seita
e dizem coisas erradas
sem sentido
mas a soberba assusta
impõe-se aos temerosos
e até sendo injusta
adapta-se aos mais pirosos
humildade


FISCAIS - FISCALIZAM?



COMO é que nos admiramos de sermos um povo desobediente, amigo de não cumprir com as regras mínimas de convivência, sempre a faltar às obrigações mais elementares e quase sempre por simples comodidade e falta de vontade em obedecer a princípios que nem sequer são muito difíceis de executar?
Então, no que diz respeito aos condutores de automóveis são inúmeras as falhas que estes praticam de uma forma geral, começando pelo aparcar em qualquer sítio, sobre os passeios, em segunda fila, a interromper o trânsito, quando bastaria dar uma pequena volta ou esperar um pouco para não causar incómodo aos outros, mas é sobretudo em condução que, por se encontrarem envolvidos pela carcaça da viatura, os indivíduos se julgam donos do mundo e aí dão mostras do egoísmo, da sobranceria e da prepotência que o ser humano traz dentro de si e que procura com esforço não mostrar publicamente.
Há países onde os serviços de correcção das faltas de bom comportamento das populações, as polícias, para se ser mais claro, não se distraem e cumprem o seu dever aplicando as coimas aos que resistem em aceitar o que está estabelecido para todos. Na Suíça, por exemplo, onde vive um povo que, por nós, é considerado muito “chato”, especialmente por respeitar escrupulosamente os horários, um carro que permanece num local público mais do que dois dias, proporciona que logo apareçam as denúncias dos vizinhos que fazem com que o mesmo seja rebocado para parque apropriado. Por cá, o espectáculo de se assistir à exposição da velhas carcaças que vão apodrecendo nas ruas, essa exposição tem a sua graça.
Os portugueses, embora não gozem de felicidade a mais, pelo menos fazem o gosto ao dedo, isto é, contrariam o que os que mandam lhes impõem. E, até para isso, as instituições jurídicas, os parlamentos e as forças que têm a seu cargo o estabelecer as legislações, quando as redigem deixam sempre uma possibilidade de se jogar com a sua interpretação, o que quer dizer que as leis podem frequentemente ser ludibriadas e os advogados servem exactamente para isso, para dar a volta e encontrar uma escapatória que liberta os prevaricadores do cumprimento de penas.
Já não digo que seria bom que, em Portugal, fossemos rigorosos cumpridores de regras que, por serem escrupulosamente cumpridas, não deixariam margem ao nosso lusitânico hábito de usar a sua tão pândega improvisação, não assistindo assim às animadas falhas, sobretudo na área da construção, seja de uma simples casinha ou de um complicado túnel, com a maçador cumprimento de prazos e de custos, pois que o aumento para o dobro do que estava previsto dá sempre jeito a muita gente. Igualmente, na área das fiscalizações de toda a ordem, incluindo, evidentemente, as que competem aos Municípios, o rigor, que seria o fim das corrupções dos fiscais, dos que fecham os olhos constantemente para os construtores poderem estabelecer as suas próprias regras, então isso teria alguma graça?
Deixem-nos continuar a ser como somos. Não avançamos em nada no capítulo do progresso em todas as áreas, mas isso de sermos um povo que ama a perfeição, que adora não cometer faltas, que se deleita a puxar pela cabeça para encontrar maneiras de contornar as leis, isso, embora possa compensar bastante a pobreza e o atraso em que vivemos, é uma maçada que ninguém gosta de ter de suportar.
É o que pensa muita gente. E desde o tempo do Afonso Henriques. Não se julgue que é só de agora!...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

PACIÊNCIA


Sem ela não se consegue
atravessar existência
p’a ter uma vida alegre
é preciso paciência
mesmo muita
tê-la sempre bem presente
e não perder o controlo
porque muito que se sente
provocará grande dolo
dor fortuita
O contrário de tal dom
é, bem sabemos, a ira
isso não é de bom tom
não há ninguém que a prefira
é irritante
conseguir aguentar
é algo que tem ciência
obriga muito a pensar
recorrer à paciência
que brilhante
Alcançar ser paciente
com aquilo que irrita
transforma ateu num crente
destrói a vida aflita
milagre é
mal sofre quem não atinge
defesa do irritante
se não é verdade finge
tê-la em dose bastante
mesmo ao pé

A ira só causa dano
sem dar razão a quem tem
é como sujar um pano
sem proveito p’ra ninguém
paciência
o melhor é não ligar
aos que só fúria provocam
é passar e não parar
sem choros e sem lamúrias

EDUCAÇÃO



NÃO sou eu que o digo sem bases para o poder afirmar. É o que os observadores atentos, aqueles que não têm medo em apontar os nossos erros sendo também portugueses, e são as informações que chegam de fora, provenientes de estudos feitos por atentos observadores. Trata-se do nível de instrução dos nossos juvenis, comparativamente com o que ocorre em muitos países, mesmo daqueles que se situam em zonas onde até há bem pouco tempo era um regime de força que imperava. Refiro-me aos países chamados de Leste, como também se verifica o mesmo, por exemplo em Cuba. É triste chegar a esta conclusão, mas não vale a pena esconder a verdade se queremos emendar a tempo um dos problemas de Portugal que, a médio prazo, vai ser bem evidente e as consequências não podem, por isso, ser animadoras.
Temos a coragem ou não de nos convencermos de que os estudantes que saem das escolas, quer das secundárias quer ainda das superiores, de uma forma geral – havendo que reconhecer as excepções -, não se situam, ao nível dos conhecimentos, na craveira do que ocorre na Europa comunitária. O ensino que ocorre por cá não tem contribuído para que os alunos obtenham o proveito absoluto que tanto necessário é para que o desenvolvimento em todas as áreas se produza como é fundamental para a saída do estado paralisado em que nos encontramos.
A “guerra” criada entre o Ministério da Educação e a Fenprof, as greves, as lutas dos professores e a ex-ministra, as teimosias de um e de outro lado, tudo isso acrescendo um sistema que está completamente ultrapassado, como o de não serem levadas em conta as faltas às aulas, que sempre foi uma prioridade nas escolas, todas as situações que não se conseguiram rectificar contribuíram para se ter chegado ao ponto em que nos encontramos hoje.
E, para além do confronto que se estabeleceu no que se refere à avaliação dos professores, prova que necessita ser feita para evitar que existam profissionais mal preparados num sector em que a exigência tem de ser a maior, para que os alunos não sejam colocados na vida prática com deficiência de aprendizagem, ultrapassando essa fase que não tem razão para se arrastar ano atrás de ano, o que importa é rever com perfeita consciência e bom senso todo o sistema de ensino, e se, épocas passadas, de uma forma geral não se saia dos centros escolares com défice de aprendizagem.
Não é elogiar o que ocorria antes só por saudosismo, mas seria bom que se encarasse a realidade e se avaliasse se não á verdade que os mais velhos de hoje, os que estudaram, não aprenderam mais nessa altura do que hoje a rapaziada sabe.
Bastava esse exercício e não ter preconceitos. Mesmo com a maldita Mocidade Portuguesa e classes que não faziam falta nenhuma, só passavam de ano os que sabiam e os que não faltavam às aulas. Já não era pouco.
Nesta altura, uma vez mais, uma luz pode aparecer no fundo do túnel português: a actuação da nova Ministra da Educação. Há que esperar para ver se alguma coisa melhora no panorama. Também, se não, nem vale a pena gastarmos lágrimas!...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

MUROS DA FÉ



AGORA, que se fala tanto do muro de Berlim porque se comemorou o aniversário da sua queda (e espero que tenham lido, a tempo, neste meu blogue, o texto que escrevi em 27 de Outubro, antes pois da data nesta altura tão referida), é altura apropriada para o mundo se dar conta de que existem ainda três muros levantados que dividem populações desta parte norte do mundo. São eles o da Irlanda do Norte, do Chipre e de Israel.
Tratam-se de separações que pretendem marcar as distâncias entre religiões diferentes, e que, devido aos confrontos armados que têm tido lugar por tal motivo, forçaram a que uma das partes – ou até as duas simultaneamente – erguesse uma divisória suficientemente alta e forte que impeça o contacto entre as populações separadas. Logo, no arredo de amigos, famílias e interesses económicos.
Na verdade, parece inconcebível que, numa época em que se procura estabelecer comunidades, agrupar interesses, conviver para fazer frente às dificuldades que têm vindo a aumentar e que, até com a chamada crise económica, mais justifica que exista uma entreajuda dos vários participantes em vez das costas voltadas, seja precisamente com este panorama que se assista à manutenção de muros.
O mais incompreensível ainda é que se apontam, justificando esse tal desencontro, as diferenças religiosas, sobretudo no Chipre e na Irlanda do Norte, como se fosse muito difícil conciliar formas diferentes de seguir as crenças que cada grupo acolhe e pratica entre si. Já que, no que se refere a Israel e aos palestinos o afastamento tem como base um ódio mais profundo que põe frente-a-frente dois comportamentos que assentam em factos históricos com milhares de anos, também eles com origem numa crença religiosa. E daí vem o conflito que assenta no direito à posse da terra onde estão instalados dois países.
Também há que referir o que ocorre no que se refere às duas Coreia, a do Norte e a do Sul, e aí a diferenciação assenta exclusivamente nas orientações políticas seguidas por cada um desses países. Sendo que a divisão se situa no tão falado paralelo 38 (que, por sinal eu já visitei como jornalista e escrevi na altura sobre o caso), de ambos os lados se encontram as forças militares antagónicas, ainda que um número apreciável de militares americanos esteja colocado na parte sul, como que a prevenir contra o apetite de uma disputa entre ambos os pólos. E assim se conserva até que um dia, sobretudo na Coreia do Norte, se assista à substituição do sistema fundamentalista que já terminou até na China e que na Rússia sofreu um enorme amolecimento, para que um entendimento leve, sobretudo aos sul-coreanos, uma diminuição assinalável da pobreza.
Todos os muros que o Mundo insiste em manter são a demonstração plena de que o Homem não dá mostras de ser capaz de terminar com as separações e seguir o conselho de que a união faz a força.
Mas não podem ser muitas as esperanças numa mudança de comportamento. O egoísmo e a petulância política de que o meu sistema é melhor do que o teu fazem com que o entendimento não se mostra fácil. A não ser que a crise que grassa provoque um desejo de saída da situação através dos apoios que se recebam dos vizinhos. A fome aguça o engenho, diz-se, e o tempo que já ocorreu desde que se iniciou este período difícil para todo o mundo já deveria ter aberto os olhos aos que têm os muros a separá-los.
Mas parece que, até agora, não bastou…




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ONDAS BENDITAS

As ondas da vida
com baixos e altos
única saída
causam sobressaltos
não é só no mar
que ela se encontram
por aí a andar
também se defrontam
e bem violentas
causam muita moça
enormes tormentas
pancada da grossa
se no mar se furam
já aqui na terra
o que elas procuram
é ser como a serra
o corpo retalham
deixam-no marcado
até esmigalham
causam desagrado
sem nenhuma ira
não é de estranhar
que por mim prefira
as ondas do mar






ÍDOLOS



DIGAM lá o que disserem, com todos os seus defeitos a televisão sempre proporciona fazer-se uma análise do que somos, nós portugueses, sobretudo quando se procura ouvir opiniões de rua ou são organizados concursos que desafiam os espectadores a concorrer e aí têm de mostrar a sua validade, sejam com perguntas que representam pontos ou se efectua o desafio de darem mostras de capacidades específicas, como é a de cantar, que é a que trata o tema a que vou referir.
Antes disso, porém, ainda não deixo escapar as avaliações que um programa da manhã faz nos passantes ocasionais e que se refere, especificamente, a saberes da língua portuguesa. E aí se constata como são pobres os conhecimentos que possuímos no que respeita à nossa própria fala e à respectiva escrita. Uma vergonha!
Mas quero chamar agora a atenção para um concurso que tem dado muito que falar e que tem como objectivo encontrar o que chamam de “Ídolo”, ou seja um jovem, parece que com o limite de idade dos 27 anos, que faça prova de que tem capacidade de aparecer a público a cantar no estilo “pop”.
Foram milhares os concorrentes que se submeteram ao juízo de quatro especialistas, segundo dizem, tendo, ao cabo de vários dias inteiros de julgamentos, sido apurados os considerados em condições de se sujeitarem ao segundo escrutínio. Isso fica para mais tarde. Pois o que importa, nesta altura, é termos a capacidade de reflectir sobre o triste espectáculo que foi dado aos espectadores televisivos, não só no que diz respeito à inconsciência da valia da maioria esmagadora dos participantes, mas sobretudo no capítulo do seu aspecto geral, da sua apresentação, do vestuário, dos modos de oratória.
A ideia com que se fica face ao espectáculo que foi proporcionado aos seguidores dos programas televisivos é a de que não podemos ficar satisfeitos com os chamados homens de amanhã, dado que foram em tão grande número os que se aprontaram para pretenderem ser “ídolos” e foi tão censurável a sua apresentação que não nos resta outra alternativa que não seja temermos pelo Portugal de amanhã, o que está mesmo aí à porta e que necessita de contar com cidadãos capazes de resolver os enormes berbicachos que a geração actual vai deixar.
Já não digo que a falta de consciência no que diz respeito às capacidades de virem a exercer bem a arte do canto, por muito “pop” que ele seja, seja assim tão grave, pois muita gente, mesmo crescida, não tem a noção do pouco valor que lhe cabe em determinadas actuações, sobretudo nas artísticas. Mas, sabendo que iam apresentar-se perante as câmaras televisivas, logo para serem vistos por milhões de espectadores e não terem cuidado no mínimo de roupagem que não escandalizasse, pelo desleixo, quem os observasse, essa atitude dá mostras de que a juventude anda convencida de que os que não apreciam os seus gostos e as suas preferências é que precisam de recauchutagem, que estão ultrapassados e têm de ser postos de lado.
Pobres “ídolos” estes que se preparam para entrar na luta da vida. Mas, como não podem ser excluídos da possibilidade de virem a ser eles os que cá ficam, quem sabe se não existe a hipótese de lhes caber a missão difícil de apagar a luz e de fechar a porta… E isso talvez contribua para os chamar à realidade.
Como gostaria que estas palavras não tivessem o mais pequeno sentido!