quinta-feira, 12 de novembro de 2009

MUROS DA FÉ



AGORA, que se fala tanto do muro de Berlim porque se comemorou o aniversário da sua queda (e espero que tenham lido, a tempo, neste meu blogue, o texto que escrevi em 27 de Outubro, antes pois da data nesta altura tão referida), é altura apropriada para o mundo se dar conta de que existem ainda três muros levantados que dividem populações desta parte norte do mundo. São eles o da Irlanda do Norte, do Chipre e de Israel.
Tratam-se de separações que pretendem marcar as distâncias entre religiões diferentes, e que, devido aos confrontos armados que têm tido lugar por tal motivo, forçaram a que uma das partes – ou até as duas simultaneamente – erguesse uma divisória suficientemente alta e forte que impeça o contacto entre as populações separadas. Logo, no arredo de amigos, famílias e interesses económicos.
Na verdade, parece inconcebível que, numa época em que se procura estabelecer comunidades, agrupar interesses, conviver para fazer frente às dificuldades que têm vindo a aumentar e que, até com a chamada crise económica, mais justifica que exista uma entreajuda dos vários participantes em vez das costas voltadas, seja precisamente com este panorama que se assista à manutenção de muros.
O mais incompreensível ainda é que se apontam, justificando esse tal desencontro, as diferenças religiosas, sobretudo no Chipre e na Irlanda do Norte, como se fosse muito difícil conciliar formas diferentes de seguir as crenças que cada grupo acolhe e pratica entre si. Já que, no que se refere a Israel e aos palestinos o afastamento tem como base um ódio mais profundo que põe frente-a-frente dois comportamentos que assentam em factos históricos com milhares de anos, também eles com origem numa crença religiosa. E daí vem o conflito que assenta no direito à posse da terra onde estão instalados dois países.
Também há que referir o que ocorre no que se refere às duas Coreia, a do Norte e a do Sul, e aí a diferenciação assenta exclusivamente nas orientações políticas seguidas por cada um desses países. Sendo que a divisão se situa no tão falado paralelo 38 (que, por sinal eu já visitei como jornalista e escrevi na altura sobre o caso), de ambos os lados se encontram as forças militares antagónicas, ainda que um número apreciável de militares americanos esteja colocado na parte sul, como que a prevenir contra o apetite de uma disputa entre ambos os pólos. E assim se conserva até que um dia, sobretudo na Coreia do Norte, se assista à substituição do sistema fundamentalista que já terminou até na China e que na Rússia sofreu um enorme amolecimento, para que um entendimento leve, sobretudo aos sul-coreanos, uma diminuição assinalável da pobreza.
Todos os muros que o Mundo insiste em manter são a demonstração plena de que o Homem não dá mostras de ser capaz de terminar com as separações e seguir o conselho de que a união faz a força.
Mas não podem ser muitas as esperanças numa mudança de comportamento. O egoísmo e a petulância política de que o meu sistema é melhor do que o teu fazem com que o entendimento não se mostra fácil. A não ser que a crise que grassa provoque um desejo de saída da situação através dos apoios que se recebam dos vizinhos. A fome aguça o engenho, diz-se, e o tempo que já ocorreu desde que se iniciou este período difícil para todo o mundo já deveria ter aberto os olhos aos que têm os muros a separá-los.
Mas parece que, até agora, não bastou…




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ONDAS BENDITAS

As ondas da vida
com baixos e altos
única saída
causam sobressaltos
não é só no mar
que ela se encontram
por aí a andar
também se defrontam
e bem violentas
causam muita moça
enormes tormentas
pancada da grossa
se no mar se furam
já aqui na terra
o que elas procuram
é ser como a serra
o corpo retalham
deixam-no marcado
até esmigalham
causam desagrado
sem nenhuma ira
não é de estranhar
que por mim prefira
as ondas do mar






ÍDOLOS



DIGAM lá o que disserem, com todos os seus defeitos a televisão sempre proporciona fazer-se uma análise do que somos, nós portugueses, sobretudo quando se procura ouvir opiniões de rua ou são organizados concursos que desafiam os espectadores a concorrer e aí têm de mostrar a sua validade, sejam com perguntas que representam pontos ou se efectua o desafio de darem mostras de capacidades específicas, como é a de cantar, que é a que trata o tema a que vou referir.
Antes disso, porém, ainda não deixo escapar as avaliações que um programa da manhã faz nos passantes ocasionais e que se refere, especificamente, a saberes da língua portuguesa. E aí se constata como são pobres os conhecimentos que possuímos no que respeita à nossa própria fala e à respectiva escrita. Uma vergonha!
Mas quero chamar agora a atenção para um concurso que tem dado muito que falar e que tem como objectivo encontrar o que chamam de “Ídolo”, ou seja um jovem, parece que com o limite de idade dos 27 anos, que faça prova de que tem capacidade de aparecer a público a cantar no estilo “pop”.
Foram milhares os concorrentes que se submeteram ao juízo de quatro especialistas, segundo dizem, tendo, ao cabo de vários dias inteiros de julgamentos, sido apurados os considerados em condições de se sujeitarem ao segundo escrutínio. Isso fica para mais tarde. Pois o que importa, nesta altura, é termos a capacidade de reflectir sobre o triste espectáculo que foi dado aos espectadores televisivos, não só no que diz respeito à inconsciência da valia da maioria esmagadora dos participantes, mas sobretudo no capítulo do seu aspecto geral, da sua apresentação, do vestuário, dos modos de oratória.
A ideia com que se fica face ao espectáculo que foi proporcionado aos seguidores dos programas televisivos é a de que não podemos ficar satisfeitos com os chamados homens de amanhã, dado que foram em tão grande número os que se aprontaram para pretenderem ser “ídolos” e foi tão censurável a sua apresentação que não nos resta outra alternativa que não seja temermos pelo Portugal de amanhã, o que está mesmo aí à porta e que necessita de contar com cidadãos capazes de resolver os enormes berbicachos que a geração actual vai deixar.
Já não digo que a falta de consciência no que diz respeito às capacidades de virem a exercer bem a arte do canto, por muito “pop” que ele seja, seja assim tão grave, pois muita gente, mesmo crescida, não tem a noção do pouco valor que lhe cabe em determinadas actuações, sobretudo nas artísticas. Mas, sabendo que iam apresentar-se perante as câmaras televisivas, logo para serem vistos por milhões de espectadores e não terem cuidado no mínimo de roupagem que não escandalizasse, pelo desleixo, quem os observasse, essa atitude dá mostras de que a juventude anda convencida de que os que não apreciam os seus gostos e as suas preferências é que precisam de recauchutagem, que estão ultrapassados e têm de ser postos de lado.
Pobres “ídolos” estes que se preparam para entrar na luta da vida. Mas, como não podem ser excluídos da possibilidade de virem a ser eles os que cá ficam, quem sabe se não existe a hipótese de lhes caber a missão difícil de apagar a luz e de fechar a porta… E isso talvez contribua para os chamar à realidade.
Como gostaria que estas palavras não tivessem o mais pequeno sentido!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

SOFRER

O sofrer é a sina do humano
tem alegrias mas também tristezas
e não se trata de nenhum engano
nem é por falta de algumas rezas

E lá se leva a vida disfarçando
passando cada dia com alento
porque todo o mundo anda em bando
ninguém pode escapar ao sofrimento

Mais felizes os que não sentem tanto
p’ras eles próprios que p’ros outros não
e não vale a pena entrar em pranto
pois o choro não mata sofridão

O dinheiro, dizem, disfarça a dor
algo reduz o mal que se sente
dado que o ser pobre é bem pior
e muito mais se não for crente

A fé também deita alguma mão
se se sofre é porque Deus o quer
boa ajuda em ter tal ilusão
dizer sempre seja o que Deus quiser

Porém, se logo após ao sofrimento
surge algo que traga alegria
parece que nasce um novo alento
Homem prepara-se p’ra nova agonia

Aquele que no último instante
não leva sofrimento em companhia
tem sorte por dar passo adiante
sem ninguém lhe ter dito onde ia



PUBLICIDADE TELEVISIVA



AS EMPRESAS de televisão portuguesas, como talvez não pudesse deixar de ser, estão a sentir na pele os efeitos da malfadada crise. E isso nota-se, sobretudo, na área da publicidade. E essa situação pode ser claramente observada pelos espectadores, se bem que, por razões também compreensíveis, os críticos dessa área não tenham, até agora, dado nota do que passo a referir.
É que a repetição enjoativa de certos anúncios, sobretudo de supermercados, mas não só, não deixa dúvidas de que, na falta de anunciantes variados que preencham os tempos dedicados a essa fonte de receita televisiva, as ofertas de ocupar mais tempo de antena televisiva com o mesmo pagamento de um só, essa forma de oferecer descontos às marcas, sob a modalidade de “paga um transmitem-se três”… ou talvez mais!, dá como resultado televisivo o excesso de edição do mesmo anúncio, ao ponto de o público potencialmente comprador do produto se fartar e, por isso mesmo, até ficar candidato a não desejar ser cliente do que é oferecido comercialmente. Pelo menos comigo passa-se isso.
Depois, ainda se a publicidade produzida por profissionais desta nova era fosse baseada num elementar bom gosto, tivesse a preocupação, como dantes sucedia com técnicos que tinham a noção precisa do tempo que deveriam durar os anúncios, de não cansar os que se pretendem que sejam potenciais interessados pelo produtos que se oferece, ainda se poderia aguentar as referidas duplicações, triplicações e mesmo mais de apresentação do já visto poucos minutos antes, e haveria compreensão pela necessidade das estações de televisão tudo fazerem para não perderem as receitas publicitárias que são o sustento das mesmas. Mas não existirem nos locais de comando dessas emissoras televisivas quem seja capaz de encontrar outra forma de entusiasmar as marcas para, mesmo repetindo o cliente, não insista na amostra do mesmo produto, essa ausência de autocrítica é que provoca, especialmente a quem teve a ver alguma coisa com essa actividade de lutar pela busca dos melhores “slogans”, o que, por vezes, levava o seu tempo, uma lógica repulsa.
São muitos os casos de publicidade televisiva que comprovam a falta de sentido de introdução de produtos, no mínimo espaço de tempo possível e com o maior impacto que for conseguido. E, como agora parece que os supermercados andam a competir uns com os outros, para dar mostras dos seus preços baixos, aquele do barbudo que entra pelas casas dentro com a repetição do seu nome é uma prova provada de que nem as marcas nem os técnicos publicitários são capazes de se colocar na pele dos clientes. Porque se o fizessem, nem uma única vez aquela imagem surgia nos écrans televisivos.
Eu, por exemplo, na situação de cliente de seguros, já pus de parte algumas companhias que nem para venderem nas feiras mostram capacidade. Com tais anúncios fazem perder a confiança dos potenciais clientes…

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

SABER TUDO

Quem sabe algo na vida
será que sabe, que sabe
ou em vez disso duvida
pois que o tudo em si não cabe?

Haverá então no mundo
quem domine o saber
que saiba de tudo a fundo
mais nada falta aprender?

Essa angústia de não ser
capaz de tudo abarcar
sem dúvida faz sofrer
quem não se quer envaidar

Não, o saber tem limites
estamos sempre a aprender
mesmo grandes apetites
só provocam desprazer

Na vida, a cada passo
encontramos novidade
confirma como é escasso
nosso saber de verdade

Deve humilde ser o Ser
reconhecer ignorância
levar vida a aprender
e aceitar a distância

Quem na longa caminhada
d’aprender têm a sorte
sabe que o quase nada
levaram para a morte



ECONOMISTAS DIZEM



VÁRIOS economistas portugueses de renome do nosso País, em reunião que os juntou no CCB, não sendo para causar admiração, pintaram um cenário bem negro do futuro do nosso País. Num estudo com o título “Economia no Futuro de Portugal”, foi deixado bem claro que, neste nosso País, que “vale tudo para enriquecer de qualquer maneira e depressa, sem critério, e isto dito de uma maneira elegante”.
Ernani Lopes, autor de um livro a propósito, foi bem claro na declaração que fez, deixando expresso que “é a golpadazeca do ordinareco que faz umas jogadas, umas burlas, umas corrupções, umas porcarias, condenando o País”, isto respeitante ao caso “Face Oculta” que acaba de surgir e de que se esperam as conclusões que a Justiça terá que apresentar aos portugueses, isto se não se tratar de mais um esquema, daqueles que acabam no fundo da gavetas.
Mas faço aqui um resumo do que foi afirmado na dita reunião de técnicos da economia:
- Portugal está a viver um cenário de definhamento. Este é o principal problema da economia nacional. Está há uma década sem garra, sem ideias”.
- É um erro a realização de grandes obras e investimentos públicos numa altura em que não temos a casa arrumada nem definida uma linha futura”.
- Vamos ser para a Europa o que Trás-os-Montes é para Portugal: uma região empobrecida. O País dificilmente sairá da armadilha de empobrecimento relativo”.
Ora, é com este panorama e com tais opiniões de pessoas tidas como sabendo o que dizem, que se apresenta o que nos espera no tempo que se encontra pela frente.
Não quero ser eu a acrescentar mais cenas escuras ao espectáculo que é oferecido aos portugueses, aos que viveram nos tempos anteriores e atravessaram a fronteira para a entrada na Democracia – e com a alegria e a esperança bem compreensíveis –, aos que nasceram depois do 25 de Abril, agora na escala dos 40 anos e, sobretudo, aqueles que se situam nesta altura no período da alegre infância.
Os que atravessam a escala da reforma, esses já perderam todas as aspirações em assistir a um fim de caminhada nacional que venha a compensar todos os revezes que preencheram o recheio de uma vida passada de trabalho. Só lhes resta (aos crentes) deitar as mãos ao Céu para que, no mínimo, não se esgotem as reservas que ainda poderão existir para que, todos os meses, caia a tão desejada verba que, por muito reduzida que ela seja, sempre serve para suportar parte dos gastos mensais de cada um. Os outros, os que não se situam no vasto agrupamento dos desempregados, utilizam todos os meios de que ainda poderão dispor para não virem a preencher essa dramática lista. Resta a juventude. E que poderão esperar os seus progenitores que, em consciência, por mais instrução escolar que façam o sacrifício de lhes proporcionar – e essa também não se situa num paralelo competitivo com o que ocorre lá fora -, sabem que as perspectivas não são de molde a sentirem-se minimamente seguros?
É este VIII Executivo, com o José Sócrates, que tem a responsabilidade de tudo fazer para que não sejam cometidos os habituais erros de governação, as teimosias em seguir caminhos equivocados, o não saber emendar a tempo o que possa sair mal. E as Oposições, a essas cabe-lhes a tarefa de tudo fazer para que não se perca tempo com quezílias inúteis e que indique caminhos que sejam positivos para que o Governo, apesar de tudo, não se queixe de que não recebe indicações úteis e claras dos que não pertencem ao seu Partido.
Não é tarefa fácil, pois não. Mas ou queremos que Portugal não caia numa situação de falência irresolúvel, ou continuamos como até aqui e, ainda por cima, com as roubalheiras que a Justiça não é capaz de travar.
Eu bem não me calo com avisos aos que cá vão ficar na próxima década. E os que são governantes hoje, com a idade que têm, bem pagarão também o mau trabalho que fazem agora!...

domingo, 8 de novembro de 2009

PERGUNTO

O que é isto afinal
esta coisa onde ando
não agora, mas de há muito?
Será que me dão sinal
e se sim, como e quando
respondendo ao meu intuito?
Quem me dera p’ra mudar
e saber por onde andar

Eu pergunto: vale a pena
que se ganha em esperar?
É bem grande o desengano
em toda a vida plena
na ânsia de retirar
a mancha suja do pano.
Eu bem quero, bem insisto
mas não saio nunca disto

Sei onde e como estou
e como cheguei aqui
o que andei até vir
mas não sei p’ra onde vou
se algo eu aprendi
se tem valor p’ro porvir
agora só o talento
me pode levar ao vento

Mas como esse só foge
e não consigo agarrá-lo
m’escapa cada segundo
não faço com que s‘aloje
muito menos amarrá-lo
p’ra m’ajudar neste mundo.
Assim fico cada dia
nesta profunda agonia




NÓS, PORTUGUESES, QUE POR CÁ ANDAMOS



SERÁ que nós, os que atravessamos esta época de um mundo acabrunhado e, particularmente, um País que, embora habituado por séculos de poucas felicidades, suporta nesta altura uma das maiores crises económicas, financeiras e sociais que já teve ao longo da sua História, será que a geração a que pertenço e de que sobram ainda muitos cidadãos, aquela que, ao longo de várias décadas, viveu sob o jugo de uma ditadura que deixou as suas marcas de que, por sinal, ainda muita gente não se desabituou, repito ainda, será que não teremos a alegria de vir a contemplar um Portugal, ainda durante a nossa vivência, que seja uma Nação que só terá razões para se regozijar com o que oferece aos seus cidadãos? Pergunto de novo: acabaremos todos por partir com a mágoa de nos ter sido oferecido um espaço de nascimento em que os desgostos e as dificuldades preencheram todo o tempo em que nos movimentámos como portugueses?
Já sabem os que me lêem desde sempre que eu não costumo cantar hossanas só para mostrar que anda tudo bem, que não têm os nacionais razões de queixa no que diz respeito ao ambiente em que são forçados a viver, não só quanto às determinações políticas superiores como igualmente ao comportamento de outros cidadãos e até de empresas, sobretudo as estatais, que não se habituaram ainda a cumprir os seus deveres, com competência e como é obrigação de quem tem de atender a sua clientela com competência.
Todos nós sabemos que, na vida quotidiana que somos forçados a acompanhar, frequentemente deparamos com o desleixo, com a ausência de atenção no trabalho, com o desinteresse dos funcionários, sejam eles públicos ou privados. Há, na verdade um número aflitivo de desocupados em Portugal, mas o que falta, por outro lado, é gente, portugueses, que sejam aprumados no cumprimento das suas obrigações nas actividades que exercem.
Não é verdade que todos nós, enquanto consumidores, temos repetidamente razões de queixa no que diz respeito à forma como somos tratados, especialmente por certas empresas públicas (a água, o gás e electricidade, os correios e outras com monopólios), quando deparamos com faltas de bom atendimento, de rapidez nas execuções, de boa vontade em solucionar os problemas?
Quem vê diariamente o programa na RTP, com o nome “Nós por cá”, em que são denunciadas situações escandalosas de incompetência, de ausência de cumprimento de deveres, de verdadeiro desleixo na execução de erros que têm obrigação de ser rapidamente ultrapassados e que levam tempos infinitos em ser atendidos, nesse programa, que merece o louvor de todos nós, assiste-se a escândalos do tal portuguesismo não operativo, que começa nos responsáveis superiores e que logo se transmite a toda a escala de operacionais.
As Brisas, as Estradas de Portugal, as companhias de água, electricidade, e por aí adiante são a prova provada de que actuam à solta e criam a imagem daquilo que todos nós somos: uns “deixa para lá”, uns não apressados que preferimos estar ao telefone todo o dia do que cumprir com rigor o trabalho para que somos pagos, uns ditos trabalhadores que fazemos horas extraordinárias porque, durante o horário estabelecido, nos entretemos com outras coisas… e por aí adiante.
Fico-me por aqui, porque a lista de casos que tenho para contar é de tal forma extensa que, seguramente, enfastiaria os leitores que estarão cansados de saber que tudo isto é verdade, mas que preferem ter a ilusão de que não é tanto assim.
Eu é que tenho este costume de não andar a fingir que estou vivo e, por isso, pago com as queixas que faço a mim próprio. Já que ninguém quer enfrentar as dificuldades e procurar resolvê-las…

sábado, 7 de novembro de 2009

ODE A PESSOA


Oh! Pessoa
tu que me inspiras, que me orientas
na minha cabeça ecoa
o que em mim sustentas
com o teu génio ou o dos teus heterónimos
com rima ou sem ela
mas sempre bela
afastando os demónios.
Ajuda-me, oh! Pessoa
a escrever esta ode
pensando em Lisboa
saindo como pode
com esforço, com rompantes
contrariando o ruído do café que me acolhe
que tem algo de igual ao teu que era dantes
mas que, tal como contigo,
é o café que escolhe
a freguesia, qual porto de abrigo
é ele que anima a que olhe
e veja o que me rodeia, o mau e o bom
aquilo que me foi dado apreciar,
deleitar
e ouvir o som
com agrado ou sem ele
E desde que me conheço
é o que peço:
que Aquele,
o que comanda,
não deixe a banda
à solta.
Pessoalmente penso assim
não me importa saber
se outros julgam igual a mim,
eu sei o que fazer
com a inspiração do poeta,
não basta pegar na caneta
e divagar,
pessoar,
procurar
no íntimo do sentimento
o que tiver mais cabimento
para saudar,
gritar
que poeta serei quem for
mas por amor
ao génio de um poeta dedico
e por aqui me fico
a compreendê-lo
e a relê-lo.

Ele, que dizia não ser nada
era tudo
perdido em frente da sua janela
ou sentado no café, à mesa,
procurando a frase mais bela
e encontrando com certeza
a sua inspiração
interpretando os sonhos do mundo
com devoção
bem no fundo
carregando a carroça da vida
com o fervor de um crente
que sabe que só há ida
por isso olhando sempre em frente
sem saber que o futuro
lhe traria tanta aclamação,
que transporia o muro
da vulgarização.

Oh! Fernando
tu que não sabias o que eras
nem como nem quando
que não crias deveras
nas certezas do mundo,
que só a Tabacaria era verdadeira
porque a vias ao fundo
da tua rua inteira
onde compravas os cigarros
da mesma maneira
que sacudias os catarros
e bebias a tua jeropiga
para acalmar a ânsia de versejar
e respirar
e produzir outra cantiga
sem fadiga,
naturalmente,
mas preocupadamente
a pensar que os versos criavam nada
que acontecia zero
que não havia fada
capaz de mudar, mesmo em desespero
a vida sensaborona,
triste e pesada,
qual matrona
pavoneada.
Hoje, o mundo sempre igual continua
parece diferente, mas nada mudou
aqui nesta como em qualquer outra rua
quer para quem trabalha e também estudou
porque os políticos continuam a falar
na busca de eleitor,
a dissertar
mas não são capazes, nem querem mudar
seja o que for
lá se vão enchendo
porque o que dá lucro vai-se mantendo
que o povo, esse fica,
a gritar pelo Benfica
sem eira nem beira
agarrado à bandeira
como se fosse da Pátria a salvação
a gritar nos estádios com emoção
contra quem seja
tendo na mão a cerveja
que dá calor
tremor
mas não altera os resultados
dos futebóis ou dos pecados.
Hoje está tudo na mesma
como a lesma.

Vês, Pessoa ?
Não fui capaz.
Estás onde estás
e eu estou onde estou
e não sei quando vou.
Verás que a minha intenção era boa
que me esforcei
mas o génio não agarrei.
Não digo como tu
que não sei o que serei,
sei sim, foi o génio que ficou no baú
e que também nada herdei
e como deixei de fumar
continuo sem achar
a Tabacaria
a que te trazia
o fumo da inspiração,
a divinização.

Perdoa-me, Fernando
Continuarei procurando
mas será tarde
para fazer alarde
de algo que me falta
para trazer à ribalta
coisa de valor,
mas amor
esse sim, não perdi
e como mostro aqui
não serei capaz
mas lá contumaz
é o que até agora tenho sido
e estou decidido
a prosseguir
enquanto a vida mo permitir.

Pessoa houve um,
não haverá mais nenhum
e se alguém o prometeu
não fui nem serei eu.

O BANQUEIRO ANARQUISTA


SE FERNANDO PESSOA ainda estivesse por cá e nos desse o enorme prazer de podermos acompanhar a sua genial composição literária, provavelmente neste ocasião aproveitaria o tema que está tanto em voga e referir-se-ia à tão comum corrupção que se instalou nos meios da alta finança e no empresariado com aproximação ao sector da política. Tinha pano para mangas!
Aquele livro, com um nome tão sugestivo, que foi certamente inspirado nalgum caso raro que terá ocorrido na sua época, “O Banqueiro Anarquista”, nesta altura, com este título e só mesmo por tal denominação, vinha a calhar para cobrir o que está a tornar-se uma forma normal de comportamento de uma série de gente que, tendo caído na profissão ligada aos vastos dinheiros, não se ficou apenas pelas chorudas retribuições que lhes são atribuídas e partiu para outras vias de alcançar fortunas fabulosas no mais curto espaço de tempo possível.
São já conhecidas várias situações de fulanos que, tendo tomado assento em administrações de empresas de crédito, vários deles vindos de cargos públicos ou, na inversa, saindo de onde estão por convite sendo-lhes oferecidos altos lugares de chefia no Estado, que, tempos depois, são focados pelos media por terem-se dado ocorrências que justificam a divulgação dos seus nomes, essas situações têm vindo a constituir aquilo que parece ter-se tornado num hábito sucessivo.
As enormes fortunas, vaidosamente mostradas, de formas de vida que não são explicáveis em face dos ingressos normais de dinheiros que se supõem constituir as suas profissões, os casarões onde passaram a residir, os carros de luxo em que se deslocam, tudo isso não pode deixar de fazer duvidar de que o enriquecimento súbito não foi obra de um totoloto milionário que alterou completamente o dia-a-dia dos visados. E como isso se constata em um grande número de sortudos, não podemos deixar de revelar estranheza por se tratarem, de uma geral, de figuras que estão colocadas em lugares de relevo, sendo que, em muitos casos, conhecendo-se o seu passado, maior espanto terá de causar, pois que não se passa de ter uma mão à frente e outra atrás para a demonstração de fartura estonteante sem que algum “milagre” tenha ocorrido…
Não vou aqui enumerar situações dignas de serem sublinhadas, pois que elas são tantas que ocupariam um largo espaço deste blogue. E, para além disso, o risco que se corre de ser apanhado pela tal Justiça que temos, com acusações de manchar o “bom nome” dos eventuais visados, tudo isso obriga a que haja cautela, dado que sabemos perfeitamente que os chamados poderosos têm muita força e comandam em várias zonas do nosso País. Para bom entendedor…
Mas como a esperança é sempre a última a morrer, dizem, com a entrada em funções do VIII Governo e com um novo ministro da Justiça, espera-se que aquela pasta mole, que se situa nos palácios onde se lê nas paredes de fora a palavra “justitiae”, leve agora uma volta de tal maneira grande que modifique de forma categórica aquilo que ocorre lá dentro.
E se não for desta…

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

TEJO

Este rio que por cá passa
tem um nome bem latino
chama-se Tejo
não é nenhuma ameaça
apontou-nos o destino
bem o vejo

Lisboa acolhe-o no fim
meio doce, meio salgado
vai a correr
faz contraponto ao jardim
que se encontra neste lado
e é um prazer

Esta cidade que eu gosto
mas ainda mais amaria
é uma pena
se aquilo em que eu mais aposto
me dessem a alegria
de fazer obra plena

Tuas ondas são revoltas
dão alegria ao teu cais
as colunas
que não se encontram soltas
aguentam vendavais
são fortunas

Rio que de longe vens
de mãe de fala espanhola
vais juntando
as águas de outros haréns
não sendo isso uma esmola
nem contrabando

Chegas ao mar desaguas
o Atlântico enriqueces
liberdade
ali também te habituas
nem por isso entristeces
sem saudade

O COVEIRO... SALVO SEJA!


LOGO na primeira aparição, no Parlamento, de José Sócrates, quando se poderia esperar que o chefe do XVIII Governo viesse dar mostras de ter aprendido alguma coisa com o seu comportamento anterior, ou seja com um ar compreensivo e uma atitude de moderação quanto às críticas que, naturalmente, as Oposições lhe movem, o que se viu foi aquilo que se usa agora muito dizer: mais do mesmo!
Não restam dúvidas de que não tem emenda aquele que se mantém a julgar que sabe tudo, que nunca se engana, que os outros é que cometem erros e não são capazes de aderir ao seu modo de conduzir o País. O seu discurso de inauguração perante os deputados de todas as bancadas, em vez de ter sido preparado, por ele próprio ou por assessores que devem fazer bem o seu papel de conselheiros construtivos, no sentido de deixar bem claro que não é necessário referir-se insistentemente ao passado, repisar que ganhou as eleições, como se tivesse alcançado uma maioria absoluta, que a sua disposição é utilizar na prática a palavra que ele insiste em repisar mas a não usar, o diálogo, em lugar disso aquilo a que se assistiu foi a uma repetição de comportamento, de linguagem e de ar impositivo, o que colocou de imediato toda a Assembleia da República, no que diz respeito à agora maioria, que são as Oposições, de pé atrás e com disposição para fazer uma frente ainda mais aguerrida do que aquela que, provavelmente, poderia ser diluída.
É evidente que um primeiro-ministro não é um actor. Não tem as características e as qualificações dos que pisam os palcos. Mas, tratando-se de uma personagem que é obrigada a saber adaptar-se às circunstâncias que a vida política impõe, o mínimo que se espera de tal figura é que não seja inflexível na maneira como se apresenta perante o País.
No fundo o que se pretende é que o Governo, já que foi o PS o partido que obteve maior número de votos, faça todos os esforços que estiverem ao seu alcance para conseguir afastar o perigo de uma queda, o que obrigaria a uma solução de emergência que, nas circunstâncias difíceis em que nos encontramos, provocariam uma ainda maior calamidade de todos os tipos que Portugal não tem condições para suportar.
Agora, armar-se o Governo actual em ufano, espalhando presunções fora de propósito, correndo o risco de desafiar os adversários que, ninguém garante, podem perder a cabeça e provocar a intervenção do Presidente da República que, em derradeira análise, se vê obrigado a meter a mão na fogueira, ser essa a posição que José Sócrates deu a entender que continua a ser da sua preferência, é, no mínimo, contribuir para que a História o deixe marcado com o cognome de “O Coveiro”. Que alguém o salve desse passo…
Felizmente, na sessão que se seguiu ontem por parte dos deputados que intervieram na primeira discussão parlamentar, houve ocasião para assistir a uma certa contenção e, como era natural, o tema da corrupção foi o que mais foi chamado à liça. E, se bem que, naturalmente, as críticas e as recomendações que não podiam faltar ali fossem expostas, não se notou um comportamento desse lado que leve ao pessimismo de admitir, desde já, que o confronto que se aguarda encaminhe para uma saída perigosa, se bem que, de uma forma geral, o conteúdo do Programa do Governo tenha sido também alvo de profunda crítica.
Talvez a época que se aproxima seja a que mais provocará a atenção dos portugueses que, apesar de tudo, acompanham passo a passo o que vai ocorrendo na zona daqueles que têm a obrigação tanto de governar como de criticar. Todos são responsáveis!...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

DEUS


O Deus de que se fala
é uma mancha
uma sombra
não tem imagem
não é visível
há quem O imagine sentado
com barba branca
olhos azuis
a roupagem até aos pés
pois não se pode idealizar
um Deus de gravata
de casaco e calças vincadas
com o cabelo cortado e penteado
de unhas arranjadas
e sapatos com sola
e atacadores.
Terá de ser uma névoa
que não fala
que soam as Suas palavras
nos nossos ouvidos
vindas de dentro de nós próprios
perguntamos-Lhe algo
e Ele responde sem som
fala sem ser ouvido
sentimos o Seu afago
mas sem que use as mãos
procuramos entender as Suas razões
não discutimos o que nos parece serem Seus erros
um Deus nunca se engana
mesmo quando nos inquietamos
com as injustiças que ocorrem no mundo
com a fome que mata as crianças
com os abanões da Natureza
com as guerras que não são evitadas
com as epidemias que matam milhões
aceitamos
seguimos em frente
dizemos “graças a Deus”.
O Homem é previdente
é prudente
é sobretudo temeroso
teme discordar do desconhecido
mesmo quando não vê
o melhor é não discutir
e colocar-se do outro lado.

Não tem certezas
mas, pelo sim pelo não,
manda o bom senso
não levantar dúvidas.

Seja o que Deus quiser!...

CORRUPÇÃO, ELA AÍ CONTINUA!



NUM PAÍS de dez milhões de habitantes quantos haverá que não têm consciência de que a roubalheira se instalou aqui onde vivemos hoje e que, em cada escalão social, esse extrair de valores que pertencem aos outros toma um nome
Aquele que rouba para satisfazer necessidades básicas, a esse chama-se simplesmente ladrão. Começa por meter no bolso o que lhe aparece à mão e que, perante a facilidade em executar tal acção, se apresenta como um convite aos que não têm escrúpulos, e que, com o hábito, vai assumindo proporções mais rotineiras. Assim se formam os gatunos que, por sua vez, ao actuarem em companhia, formam os “gangues”, também denominados quadrilhas.
E esses agrupamentos de malfeitores ainda se classificam por diferentes características. Há os que se limitam ao rapinanço puro, seja por roubos das carteiras nos transportes públicos, os dos classificados “esticões”, como aqueles que se introduzem nas casas alheias, mas só quando as mesmas não estão ocupadas.
Mas, mais perigosos são os que usam de meios violentos, como os modernos “carjackings”, assim como a introdução em residências com os proprietários lá dentro, o que leva a que se processem agressões e exigências para lhes serem entregues valores. Isto, para não falar dos assaltos a estabelecimentos comerciais, joalharias mas já não só, em pleno dia e com o uso de armas e que já provocaram mortes.
Por isso justifica-se a questão que ponho logo no início deste texto, de saber se existe plena consciência por parte da população nacional do estado a que chegámos por cá no capítulo da insegurança em que se vive nos tempos correntes e isso também devido à variedade de sistemas que são usados para apanhar os desprevenidos e deixá-los queixosos de terem sofrido as consequências dos “amigos do alheio”.
Porque ainda há outro meio que, sendo mais sofisticado, é utilizado cara a cara, entre ladrão e roubado: o do conto do vigário, que, valha a verdade, requer grande força de persuasão e convencimento do roubado.
Mas o que atingiu em Portugal proporções nunca imagináveis noutros períodos passados – embora essa forma seja antiga, mas mais rara do que sucede hoje -, é a via da apropriação de valores, geralmente excessivamente vultosos, que são extraídos de empresas, do próprio Estado, de bancos e que, pelas formas sofisticadas que se impõem, só podem ser executadas por figuras bem situadas no meio social e até com posições destacáveis no ambiente da política. A isso dá-se pomposamente o nome de corrupção, sendo que, na maioria dos casos, é necessário existirem pelo menos dois intervenientes, o do corruptor e o do corrompido.
Atravessamos neste momento um período em que são várias as situações que se impõe que sejam rapidamente esclarecidas judicialmente. A comunicação social tem trazido a lume variadas poucas-vergonhas que, a exemplo de outras já antigas que se arrastam por caminhos tortuosos, deixa-nos a impressão que nunca serão solucionadas. Os autores saem sempre impunes por pertencerem ao grupo dos “colarinhos brancos”.
É vergonhoso o que ocorre nesta Terra que sempre foi pobre, mas que nesta altura atravessa um período ainda mais difícil de ultrapassar. Seria natural que aqueles que se situam em lugares cimeiros na política se envergonhassem do que toda a gente sabe que se passa. E não deixasse que a Justiça continuasse a actuar da forma vergonhosa como se comporta, não arrastando os casos que se prolongam indefinidamente. É preciso enumerá-los? Já nem me refiro ao da Casa Pia. E ao da Freeport? E a todos os outros que acabam por prescrever, parece que de propósito para ninguém ser acusado de nada!...
Com Governo novo ou com todos os antigos, nunca houve ninguém que chamasse a si tamanhas poucas-vergonhas e se prontificasse a defrontar os problemas, pegando-lhes pela cabeça e não desistindo de os ver solucionados. Bem se sabe que essa posição fazia e faz correr riscos, com consequências que podem ser depois difíceis de vencer.
Portugal está condenado a ter de aceitar as faltas de coragem políticas para pôr as coisas em ordem. A tal valentia que existiu no período das descobertas esgotou-se e não sobrou nada para agora… que tanta falta nos faz!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

FALTA DE DEUS


Que falta me faz Deus,
que falta,
sobretudo quando exerço o direito de ser racional
e me revolto,
porque retenho na memória que,
em miúdo,
me impuseram a sua veneração
com missas, rezas, terços,
quando diziam que Deus
era a suprema e indiscutível autoridade
e que castigava
os que não lhe obedeciam ,
cegamente,
e aqueles que punham questões incómodas
não aceitando o que não entendiam,
discutindo as histórias do Evangelho,
contadas sem direito a perguntar
o porquê
das afirmações não demonstradas.
Ao recordar tudo isso
e ao confrontar-me
com a vida
já longa,
decorrida desde então,
não cheguei
ao ateísmo
porque nunca tive coragem
para tanto
e também porque não quero ser
fundamentalista.
Mas a razão leva-me
ao limite do agnosticismo
perante a dúvida quanto ao que é isso
do infinito,
que habilidade e imaginação foi essa
de fazer um mundo
cheio de defeitos, é certo,
mas com imensas maravilhas,
desde a criação dos seres vivos que se movimentam sobre a terra
até às extraordinárias paisagens
que nenhum pintor seria,
provavelmente, capaz
de imaginar.


Mas, e as vilezas ?
A maldade que se verifica por esse mundo ?
Que Deus pode permitir
que o homem seja capaz
de tanta destruição ?
Porquê as guerras,
as doenças incuráveis,
a fome,
a desgraça dos povos infelizes,
o ódio
que faz com que os humanos se guerreiem,.
até invocando o nome
de Deus ?
Afinal as igrejas servem quem
e para quê ?
As guerras, ditas santas, são as piores de todas,
porque, muito para além
do desejo de conquista
do poder material,
transportam a bandeira do que chamam fé,
lutando contra os outros,
os infiéis,
que é o mesmo que dizer
os que não acreditam
no mesmo Deus,
o que é o seu
e de que querem ter o exclusivo.


Perante tantas incongruências
navegando
entre o belo e o odiento
detenho-me
e não me atrevo
a ser ateu
e sinto, por vezes,
a falta de um Deus que me tire
desta angústia existencial
e me farte da busca
de uma explicação
dos mistérios profundos que nos rodeiam.


Se não houver o Deus
das igrejas,
das mesquitas,
das sinagogas,
dos santuários,
haverá, quero crer,
um Deus
com os olhos nos homens,
mesmo que muito distraído
ou talvez farto do mau comportamento
de um mundo que não saiu
como idealizaria
o seu Autor,
que não poderá ter sido construído para
estar a ser destruído
desta maneira.


Será castigo?
Mas Deus pune ?
Então não poderia actuar
doutra forma ?
Se Ele tudo pode
basta-Lhe pôr um ponto final
dar o murro na mesa do Céu
fazendo com que todos
se dêem bem,
uns com os outros.
Se não quiser fazer isso,
então bem podem,
as gerações que aí vêm,
preparar-se para apagar a luz
e fechar a porta
deste mundo.

DESENCANTO...POR ENQUANTO!

Pode-se chamar-lhe alma, espírito ou outro nome que pareça mais adequado. O que importa é sabermos que, para além da massa corpórea, daquilo que vemos, apalpamos e não desconhecemos que funciona dentro ou fora de nós mesmos, o coração, o estômago, os pulmões e os órgãos genitais, para dar alguns exemplos, têm peso fundamental na vivência humana e comanda mais do que todas as nossas acções, pois é o senhor da nossa vontade.
Todo o ser humano pode ter sede, fome, apetite de qualquer extravagância ou até de algo muito simples, mas, para satisfazer esse desejo, quem comanda se deve ou não cumprir tal vontade é o indivíduo invisível, que mora dentro de cada ser humana. E esse comandante da vontade é algo que o invólucro não conhece. Sabe que ele existe, mas nunca o tendo visto, não sabe como ele é e daquilo que é capaz de fazer.
Mandrião, nalguns casos, muito activo, noutros, é, por vezes, inesperado, incontrolável, repentino. E deixa, nalgumas ocasiões, o ser que está à sua disposição, mal disposto com a falta de razoabilidade nos actos que obriga a praticar, ou nas palavras que coloca para serem ditas.
Quando se diz que os bons espíritos sempre se encontram, está-se, obviamente, a utilizar uma metáfora. Porque está por provar que, aquilo que cada um leva dentro, tenha forma de contactar com o exterior de uma maneira directa. Mas sempre tem de ser admitido um intermediário. O dono do corpo, Que é o que se dá ao manifesto. Sermos conhecedores absolutos do que pode ser transferido de um espírito para outro espírito, por muito crédulos que sejamos quanto a estes mistérios, é fenómeno difícil de se levar a sério na ausência de uma profunda crença.
Porque o que mostra o Humano à superfície não tem forçosamente que coincidir com o que, no interior, está disponível para ver. Não andar excessivamente longe já não será mau de todo. E fiquemo-nos por aí.
Quando, através dos meios exteriores de que dispõe o Homem, é possível descobrir um pouco do que paira no espírito de um parceiro, essa descoberta pode constituir uma profunda desilusão e até causa de corte de relações que antes se iam mantendo. É o que acontece com os matrimónios que, em dada altura, se desfazem, para admiração dos outros que não esperavam tal desfecho.
O que fazemos e o que dizemos faz parte da máscara corporal que exibimos. Completa o vestuário que utilizamos para transmitir a imagem do que queremos parecer, de harmonia com os actos em que vamos estar presentes. Depois, as roupagens escondem a nudez humana, embora os corpos não apresentem grandes diferenças entre si. Já os espíritos, como nunca se vêm as suas formas, será impossível encontrar semelhanças ou desigualdades. E, se se conseguisse colocar-lhes um invólucro e exibi-los, pondo-os à mostra, possivelmente assistir-se-ia a uma parada de monstros, a um desfile de horrores que assustaria quem tivesse a curiosidade de os contemplar.
E aqueles que se referem aos espíritos dos que já se foram do mundo dos vivos, utilizando artimanhas mágicas e místicas julgadas eficazes, convencem-se e induzem os outros na ideia de que o mundo espiritual é eterno, encontrando-se atafulhado o espaço de criaturas gasosas, etéreas, que aguardam a sua vez para entrar em corpos que se encontrem em condições de efectuar uma nova viagem terrestre.
É, da mesma forma inútil, aceitar ou rejeitar tal crença. O que não se pode provar, também se encontra livre de desmentido.
A todos nós, simples mortais, já nos basta ter de suportar as realidades da vida. Mas, não nos deve ser permitido contrariar todos os que, muitos ou poucos, carregam a sua fé, seja ela qual for. Se são felizes assim, com espírito ou sem ele, pois prossigam nas suas convicções. Desde que não provoquem confrontos que sejam decorrentes de facciosismos, sectarismos doentios, todas as ideologias são próprias dos habitantes do Mundo.
Por não ter a mesma opinião do que eu, o outro não tem de ser meu inimigo. Eu, pelo menos, não o sou, dos que caminham por outras vias, por mais contrárias que sejam das que eu sigo. Sou um exemplo? Longe disso…




terça-feira, 3 de novembro de 2009

MEMÓRIA

Tanta falta que ela faz
quando a ela recorremos
e se ela se compraz
não mostra o que queremos

É assim a tal memória
faz-nos sofrer com desgraças
recordar-nos cada história
que nem vê-la com mordaças

Certos nomes, certas caras
que precisamos lembrar
são situações bem claras
que a memória faz passar

Coisas passadas há anos
que os tempos já tinham posto
no fundo dos oceanos
não nos causam o desgosto

Mas ocorrências de há pouco
essas de que ‘inda paira o cheiro
deixam-nos como um bacoco
ardeu tudo num fumeiro

Pois a memória é assim
muitas vezes nos ajuda
compensa a dizer que sim
quando não teima em ser muda

Queixamo-nos muitas vezes
da falta que ela nos faz
então a nós portugueses
muita arrelia nos traz

Memórias da ditadura
é coisa que ninguém quer
é matéria muito dura
não é algo de prazer

Mas recordar coisas belas
bons momentos já passados
é como acender as velas
em honra de seres amados

Temo-nos que conformar
com as lembranças melhores
que já não querem voltar
a fazer seus favores

Memórias más nem pensar
mas são essas as que chegam
só dão para enfadar
e nos aconchegam

Se no botão eu pudesse
escolher o que me apraz
talvez nunca eu fizesse
olhar sempre para trás

Memória que até dá jeito
para lembrar os favores
que me trouxeram proveito
no que conta a desamores
então já não acho graça
mais vale não ter memória
que isso de mulheraça
é tema p’ra outra história

DESENCANTO...POR ENQUANTO!

A memória das gentes, quando funciona, tem as suas vantagens. Recordar o que de bom se passou é rever um filme que ficou guardado no armazém dos prazeres. Já o lembrar situações tristes constitui um sofrimento que se repete. E se é por moto próprio, então será um acto masoquista.
Mas a memória nem sempre funciona a pedido. Ela abre as portas mesmo sem necessidade de apelos. Aparece subitamente e mais ainda quando nos encontramos sós. Também por comparação com o que se assiste em determinado momento. Por vezes, ela rebusca um passado longínquo. Transporta-nos, por exemplo, à meninice. Faz-nos ver caras antigas, quantas vezes de gente já desaparecida do nosso convívio. Até mortas.
Acontecimentos recentes nem valem a pena rememorar. Tudo que está fresco não tem interesse. Mas voltar atrás muitos anos, sejam factos animadores ou, pelo contrário, desagradáveis, para esse exercício não necessito de fazer grande esforço. Basta-me fechar os olhos, pois ajuda à mais conveniente. concentração. E deixar que a memória faça ela própria o trabalho, trazendo à presença o que achar
Quem têm má memória, quem só se preocupa com o que vive no momento, aqueles que entendem não ganhar nada com recordações, tais personagens também não são capazes de imaginar um futuro. Não crêem no princípio de que é muito útil lembrar os erros passados, para tentar não os repetir.
Conseguir fazer uma retrospectiva histórica, isenta de partidarismos, honesta na apreciação, é um passo para poder imaginar o que vem aí, é ser possuído da capacidade de viajar no desconhecido e tentar descobrir o ignorado que nos espera.
Isto digo eu, admitindo que poderá haver controvérsia aceitável.





segunda-feira, 2 de novembro de 2009

TESTAMENTO

Hoje estou num desses dias
com ganas de fazer nada
todos nós temos manias
ou gosto pela vida airada
tenho livros para ler
mais de dez na escrivaninha
pinturas para fazer
mas caí nesta morrinha
é preguiça
enfermiça

Olho só, mas nada vejo
nem isso quero fazer
tudo me causa bocejo
mas que maçada viver
e falar não é comigo
que trabalho isso me dá
andar também não consigo
dar uns passitos vá lá
mandriice
que lesmice

Amanhã será diferente
terei plena energia
pois nem sempre a gente sente
bem fundo a mesma agonia
vou falando com quem passa
poesia escreverei
mirarei a mulheraça
e tudo que sei farei
com vontade
e qualidade

Postas as coisas assim
parando para pensar
ponho esta questão a mim
em prosa ou a versejar:
pode-se ser mais feliz
estando atento à nossa volta
e sendo sempre juiz
ou seguir na vida à solta
divertido
extrovertido ?

Boa questão está no ar
que responda quem souber
cada um faça o que achar
o que mais lhe aprouver
porém o mundo não deixa
que cada qual faça a escolha
pois muita porta se fecha
quem anda à chuva se molha
aguenta
que tormenta

Sendo pobre, coisa má
mais difícil a opção
não há por perto o sofá
e p’ra dormir há o chão
por isso não fazer nada
não é escolha para ter
e andar na vida airada
não é questão de querer
o trabalho quando falta
sem ser por própria vontade
mesmo doente com alta
não dispõe de liberdade
desemprego
desassossego

Comigo não é assim
não sou pobre nem sou rico
é só por não estar afim
não quero e nem abdico
já nesta altura da vida
de ser de outra maneira
o momento é que convida
seja certo ou seja asneira
dolência
independência

Não posso ser mentiroso
pôr em verso meus desejos?
é que me dá certo gozo
fingir que tenho bocejos.
Não, nunca estou desse modo
no “dolce fare niente”
por mim nunca me acomodo
na posição de ausente
é que tenho consciência
de que o tempo que me resta
me desperta a exigência
de não m’entregar à sesta
essa a razão por que faço
esforços p’ra produzir
e afugento o cansaço
em troca do insistir
teimosia
rebeldia

Estou num dia portanto
ao contrário do que disse
em que p’ra dentro canto
não vejo nisso chatice
acrescento mais poemas
ao rol imenso em arquivo
são quase todos algemas
que deixo em donativo
aos que ainda cá ficarem
nada têm de nocivo
mesmo sem apreciarem
testamento
sem talento