sábado, 31 de outubro de 2009

DESCONSOLADO

Aqui estou eu, desconsolado
a ver passar o mundo
à minha volta
sem que nele interfira
sem que o melhore
mas também pouco
o piorando.
Sou mais um
dos milhares de milhões
que por cá andam
a consumir o ar,
a água, o ambiente,
o espaço e que contribui para que o amanhã
seja muito pior,
mais escasso de tudo,
menos belo,
menos natural.

Aqui estou, enfastiado
já sem me importar
com o que vem a seguir,
com o que vai ser o futuro,
aquele que não me vai encontrar...
para me desconsolar

FACE OCULTA



EU BEM tomo conhecimento dos comentários que me enviam e, tirando aqueles, felizmente bastantes, de aplauso quanto ao que escrevo, surgem também os que tomam a posição de me acusar de ser excessivamente pessimista. Mesmo tratando-se de opiniões pouco frequentes, não deixo de me inquietar porque tomo sempre atenção ao que os outros opinam e tenho de levar em conta a razão que lhes poderá assistir.
Porém, como ainda hoje sucedeu, ao dar a volta a todas as notícias que busco nos vários meios de que disponho, por mais que quisesse encontrar assuntos que dessem para transmitir alguma satisfação, um certo optimismo, a verdade é que nada me chegou que pudesse nesse sentido aproveitar no meu blogue. E, bem ao contrário, os noticiários deram grande relevo ao caso dito de corrupção que envolve empresas com participação do Estado e a constituição de arguidos suspeitos de estarem envolvidos no que tem já o nome de “Operação Face Oculta”.
Poderia passar por cima, ignorar este caso e, para não dar assunto aos que me acusam de falta de optimismo, ir directamente às situações que também surgem nas primeiras páginas dos jornais e que dão grande relevo aos casamentos desfeitos, aos namoros que se interrompem, às gravidezes que algumas figuras mais ou menos conhecidas assumem e ficam satisfeitas de tornar públicas, assim como a outros assuntos de igual menoridade noticiosa. Mas não foi por aí que entendi seguir na preparação do texto que dou a conhecer. Não pude fugir de considerar como tema principal aquilo que está a ocupar o sector de investigações, policiais e já mais adiante, posto que a corrupção, num País como o nosso em que a situação social se encontra tão melindrosa, tem de ser devidamente apontada não permitindo que passe despercebida, já que o andamento nos Tribunais se encarrega sempre de fazer esquecer na opinião pública os problemas que deveriam ser mais rápidos a merecer os respectivos julgamentos.
Não vou demorar-me, por hoje, neste caso. Deixo para mais tarde referir-me ao que começar a sair como esclarecimento de quem são os envolvidos numa situação que cheira a milhões de euros, posto que situações deste tipo envolvem sempre quantias muito altas e beneficiados que pertencem ao grande grupo de figuras que se sabe que têm um nível de vida muito acima do normal.
Mas, sem entrar numa área por agora muito sensível, basta que deixe aqui referido o caso de Armando Vara, que não sendo uma excepção, antes pertence a um grupo de gente que muito tem beneficiado com a situação política que se tem vivido por cá, fará reflectir bastante os portugueses comuns, pois que a sua ascensão foi tão rápida e tão satisfatória para o próprio que leva a perguntar se não existe forma de impedir que casos semelhantes e tão extravagantes sucedam com tanta frequência. Este felizardo, que passou de funcionário simples da C.G.D. lá no interior do País, inexplicavelmente para a função de vice-presidência do BCP e que, não só isso, pois beneficiou da subida rápida de escalão dentro do Banco público, o que lhe dá uma reforma, a seu tempo, que excede enormemente o que os seus colegas antigos vão auferir quando chegarem a essa situação de reformados, pois tudo isso lhe sucedeu graças ao caminho que tomou dentro da política e que, como a tantos outros, permitiu acumular benesses verdadeiramente escandalosas.
Graças a António Guterres, conseguiu chegar a lugares no Governo, como secretário de Estado e como ministro, até que, no ano 2000, se viu envolvido por um escândalo que merece outro texto para o lembrar. Não lhe foi atribuída qualquer responsabilidade e Armando Vara, não sendo uma excepção, conseguiu sobreviver a todas as situações e coube-lhe agora uma nova referência a um caso que promete.
Promete o quê? Pois será mais uma situação que, se não for uma raridade de tudo a que estamos habituados a assistir, ficará nas conhecidas “águas de bacalhau”.
Sou pessimista? Digam que sim, digam… mas depois não se queixem!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DIVERSOS

Muito amor diz-se eterno
são juras de namorados
ninguém diz que tais amados
mandam juras p’ro Inferno

Um bom livro é bom amigo
por muito mau que ele seja
também provoca inveja
se escrever eu não consigo

Ter a certeza é banal
naqueles que poucos sabem
e na dúvida não cabem
dentro do erro fatal

São sempre os negativos
que nunca dizem que sim
não concordam com o fim
usam mal os adjectivos

Sou daqueles que acredita
que quanto mais estudamos
mais ignorância alcançamos
descobrindo tal desdita

O tempo tal corredor
mesmo sendo conselheiro
acaba por ser coveiro
de tristeza ou grande amor

E quem não quer fazer nada
mas critica quem bem faz
fecha os olhos e zás-trás
desembainha a espada

Oposições aos Governos
estão lá mesmo p’ra isso
p’ra prestar um bom serviço
demitir os estafermos

PRIORIDADES



A NOTÍCIA não causou surpresa, mas assim, com números e tudo, não pode deixar de interferir na nossa preocupação, pois que portugueses continuamos a ser, à falta de outra alternativa que nos seja apresentada, e por isso cabe-nos enfrentar aquilo que constitui o panorama que nos envolve. Refiro-me à divulgação dada pela Imprensa de que a pobreza já atingiu por cá a casa do milhão e oitocentos mil cidadãos, mais de dez por cento da população total desta nossa Terra.
Eu tenho consciência de que os dinheiros do Estado – e, por outras palavras, o que é nosso – não podem chegar para tudo e muitas vezes, ao presenciar a divulgação de um investimento que o sector estatal resolve tomar, me pergunto se tal decisão será prioritária na lista de urgências ou se conviria antes dar aplicação, às verbas correspondentes, a outra iniciativa muito mais premente. E, não o escondo, com frequência o meu ponto de vista não coincide com a que é tomada pelas forças públicas, quer as que se situam no topo da pirâmide quer as que são provenientes de sectores médios e secundários, como os municípios, por exemplo.
A tarefa, que deveria ser generalizada, de fazer frente à pobreza que grassa por aí não é coisa que se resolva por simples decreto. E se os cofres oficiais não conseguem suportar o bastante para apoiar todas as necessidades, então há que descortinar outras formas de, pelo menos, reduzir as situações mais graves que sabemos existirem em Portugal.
Nesta altura, em que o XVIII Governo acabou de tomar posse, o ter apontado que uma das medidas que vai tomar é legalizar o casamento dos “gays”, sem me caber entrar no pormenor de discutir se se trata de uma decisão justa ou não, o que julgo importa é avaliar se existe realmente urgência em enfrentar esse problema.
E, no capítulo da pobreza, não sendo original, permito-me sublinhar o princípio de que, no caso da miséria que invadiu o nosso País, é preferível facilitar a cana de pesca do que distribuir peixe pescado, o que se traduz, na prática, na conveniência de o novo conjunto governamental dever colocar em posição ultra-prioritária o efectuar todos os esforços para diminuir drasticamente o desemprego no nosso País, criando condições favoráveis às empresas para procederem a admissões de novos funcionários em lugar de se sucederem os despedimentos.
Esta é apenas uma indicação, um desejo que os portugueses trarão na ponta da língua, e, por conseguinte, uma proposta que um Governo que acaba de tomar posse deveria situar na primeira linha do seu programa. Agora, aquela de defender a prioridade de legalizar o casamento dos “gays” numa altura destas, nem merece mais do que uma exclamação, na falta de uma gargalhada que não apetece a ninguém dar nas circunstâncias actuais.
A menos que o número de casos de pares nas tais condições seja assim tão grande que chegue a ultrapassar a quantidade de pobres que fazem parte das estatísticas oficiais. Será que o Sócrates tem consciência disso?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PERGUNTO

O que é isto afinal
esta coisa onde ando
não agora, mas de há muito?
Será que me dão sinal
e se sim, como e quando
respondendo ao meu intuito?
Quem me dera p’ra mudar
e saber por onde andar

Eu pergunto: vale a pena
que se ganha em esperar?
É bem grande o desengano
em toda a vida plena
na ânsia de retirar
a mancha suja do pano.
Eu bem quero, bem insisto
mas não saio nunca disto

Sei onde e como estou
e como cheguei aqui
o que andei até vir
mas não sei p’ra onde vou
se algo eu aprendi
se tem valor p’ro porvir
agora só o talento
me pode levar ao vento

Mas como esse só foge
e não consigo agarrá-lo
m’escapa cada segundo
não faço com que s‘aloje
muito menos amarrá-lo
p’ra m’ajudar neste mundo.
Assim fico cada dia
nesta profunda agonia

DESENCANTO POR ENQUANTO...

As mesmas caras, as mesmas vozes, as mesmas frases, o mesmo comportamento, tudo igual há 30 anos neste País.
A monotonia instalou-se, o grupo de privilegiados é sempre aquele, desinteressante, enfastiador, repetitiva.
Por isso nada muda, nem melhora. Portugal continua igual a si mesmo, mas sempre há aqueles que se sentem satisfeitos com o que os rodeia.
E fazem o possível para manter o status quo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

VISITAS

Se Camões aqui descesse
e surgisse em minha casa
mostrava-lhe os meus poemas
e talvez lhe apetecesse
fazer logo tábua rasa
colocando-me algemas
p’ra não mais poetizar
e a minha vida mudar

Nem a tal Lusofonia
com que tentei imitá-lo
lhe deu pr’aconchegar-se
e mostrar a simpatia
e certo ar de regalo
surgiu para mostrar-se.
Nada disto tem valor
disse Camões com ardor

Procurei outra visita
desta vez foi o Pessoa
que eu adoro e releio
tentando qu’a minh’escrita
podendo ser algo boa
atingisse o meu anseio
mas Fernando não gostou
também me desconsolou

Quis ouvir um mais moderno
o Ary talvez pudesse
não que um seu fã eu fosse
mas talvez com ar fraterno
alegrar-me já quisesse
como quem me dá um doce
pois convivemos em vida
mas também não deu saída

O da Silva, o Agostinho
que em vida no jardim
da sua casa bem perto
com seu ar de desalinho
me fazia ir ao fim
procurar caminho certo
nem esse qu’eu trouxe a ler
os meus trabalhos quis ver

Desisti, não procurei
outras figuras com fama
p’ra me dar opinião
à conclusão eu cheguei
do que melhor que um drama
é guardar em alçapão
o que tem computador
durante o tempo que for










POLUIÇÃO

Da obra "DESENCANTO POR ENQUANTO" que se encontra por publicar)

Neste País de clima temperado, como dizem, talvez seja onde se sofre mais quer com o calor quer com o frio. Precisamente porque se assume que não há temperaturas do ar, nem muito altas nem demasiado negativas.
No Inverno, nos dias em que baixa um pouco mais a temperatura bate-se o queixo, nas ruas, nos estabelecimentos comerciais e até em casa de cada um que não possua um regulador de graduação do ambiente. A falta de convicção de que não fazemos assim tanta diferença com o que ocorre noutros países, leva-nos a que descuremos o aquecimento artificial, por exemplo o eléctrico, que é imprescindível para resistir ao desconforto dos arrepios. Claro que é sempre uma questão de poder económico da população.
No Verão, passa-se o contrário. O ar condicionado ainda é, entre nós, um artigo que só está ao alcance dos mais favorecidos. Já são muitos, mas estão bastante longe de serem todos. Verifica-se uma grande diferença com o que ocorre já hoje em dia nos países que gozam de um nível de vida muito superior aos dos portugueses. E depois, continuando-se a considerar Portugal como um País temperado…
A notícia que tem sido divulgada é de que o ar que se respira na nossa Terra, especialmente nalgumas cidades e com destaque para Lisboa, está carregado de poluição, provocado sobretudo pelo trânsito automóvel. Divulgaram os cientistas que, não se podendo evitar o crescimento da circulação de motores que provocam os gases, é essencial beber muita água. Sempre compensa, ainda que pouco, os males provocados pelo óxido de azoto e pelo ozone.
Leio os alertas saídos na Imprensa e quedo-me preocupado então, com o aumento demográfico acelerado que se verifica em todo o mundo – não podendo deixar de levar em conta a idade cada vez mais tardia do fim da vida humana (e mesmo descontando o efeito das doenças que surgem e que tardam em ser atacadas por medicinas que também se vão descobrindo) e o facto de não se conseguir estabilizar um número razoável de habitantes da Terra. Basta ter-se em conta que, no fim da II Guerra Mundial, a população total do Globo era de pouco mais de dois mil milhões de habitantes, e que se verifica agora sermos mais de seis mil milhões, tendo em cinquenta anos triplicado a população da Terra. Se este fenómeno voltar a repetir-se, a conta a fazer é a de multiplicar por três o número dos que somos hoje.
Não irão caber os que cá estiverem! – não me canso de advertir.
A nossa imaginação pode funcionar na busca de uma possível solução. E uma delas, digo eu, poderá ser a de encaminhar todos os sobrantes para um planeta que tenha condições para proporcionar possibilidade de vida em aceitável, até melhor se possível, da que têm sido usufruída na nossa Bola. Será isso possível?
De uma coisa ninguém deve ter dúvidas: aproxima-se a data em que escassearão muitos dos géneros que hoje são considerados essenciais. O petróleo, não faltará assim tanto tempo para que se esgotem os poços que hoje provocam tantas guerras, a água potável vai ser um dos grandes sustos que provocará o seu racionamento inevitável, e até o ar que se respira obrigará a que se faça uma reconversão geral dos gases que os homens produzem na ânsia de aproveitar todas as tecnologias avançadas e, caso não se consiga, nem valerá a pena pensarmos nas consequências de tal facto.
Penso nisto e não tenho coragem de deixar passar este meu pessimismo para os outros. Fica apenas nestas linhas que ninguém lerá. Será ainda o melhor.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

CONTEMPLO


Olho o Céu, contemplo
que estará p’além do que se vê
algo que servirá de exemplo
aquilo em que muita gente crê?
Mas partirei sem nunca saber
ninguém me diz p’ra meu sossego
os crentes, a ciência, quem quiser,
esta ignorância que eu carrego.
Este não saber que tanto insiste
podem não crer, mas p’ra mim é dor
já que o que por este mundo existe
já eu sei, não me provoca louvor
o panorama é por demais bem duro
e o Homem tem vindo a piorá-lo
pelo que o que virá no futuro
não dará motivo para amá-lo.
Hà os que acreditam que mais tarde
de cima para baixo lá verão
e disso fazem enorme alarde
e com tal provocam mais confusão.
Oh, quem me dera ter tamanha crença
podia esperar pelo final
e sendo a curiosidade imensa
aprendia no local divinal.
Mas perdi já todas as esperanças
de tamanha ânsia satisfazer
não será durante minhas andanças
que virei algum dia a saber.
Contemplo pois o azul e lindo Céu
com as nuvens passando e repassando
e o que o astronauta conheceu
não mostrou nada do onde e quando.

Continuo assim a contemplar
restam sem resposta tantas perguntas
perdi as esperanças de alcançar
saber de uma só ou todas juntas

O MURO DE BERLIM



VEIO-ME cair nas mãos um jornal espanhol – El Pais – que trazia a memória de um acontecimento vergonhoso e de que o mundo inteiro não se devia esquecer, muito embora, em consciência, haja que reconhecer que o Homem não deseja aprender com os erros que foram cometidos para trás e mantenha essa maledicência doentia de não ser capaz de tudo fazer para que a paz se instale em todo o Planeta e a concordância e a ajuda fraterna sejam o mote principal e até único que poderia trazer alguma felicidade a todos os seres humanos. Refiro-me a esse chamado Muro da Vergonha que foi instalado para dividir a Alemanha.
Vale a pena trazer à memória esse acontecimento, mesmo com datas. Pois foi a partir de Junho de 1948 que, durante 10 meses e 23 dias, as autoridades soviéticas impediram que dois milhões e meio de berlinenses ficassem sem acesso terrestre ao lado oeste e foi uma greve provocada pelos operários que tinham levantado a divisória berlinense que provocou, em 17 e Junho de 1953, depois de uma actuação feroz por parte do exército vermelho, que, na noite de 12 para 13 de Agosto de 1961, Berlim Oriental se converteu num cárcere para todos os habitantes daquele lado da que já era denominada República Democrática da Alemanha e foi na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989 que se começou a erigir aquele muro que acabaria por ter 160 quilómetros de comprimento e que levou onze meses a ser construído, tendo dividido em duas a Alemanha que antes se conhecia.
Durante 28 anos e 88 dias, os alemães estiveram divididos e os 17 milhões que viviam no lado oriental puderam terminar com a frustração do impedimento de sair dessa prisão e de poder conviver com os parentes, os que os tinham, que residiam do outro lado do muro.
Eu ainda tive ocasião, na minha profissão de jornalista, de, durante a existência dessa divisão controlada, poder passar a Porta de Brandenburg, visitando o outro lado, depois de ter sido sujeito a um estudo profundo do meu passaporte e da minha fotografia lá colocada e de ter aguardado largos minutos até me ser permitida a passagem para o outro lado (tendo que cambiar uma quantia de marcos da Alemanha de Oeste por uma quantidade ridícula de marcos de Leste, que valiam quase nada).
Ao ter entrado na larga praça que surgia logo a seguir ao arco lindíssimo que separava as duas zonas de Berlim e tendo percorrido a pé umas ruas que desembocavam no local, deparei com uma população muito metida consigo, triste e vestida de forma bem diferente do que se via do lado donde eu chegava.
Dizem-me que a cidade de Berlim de hoje é muito diferente do que era na época triste em que visitei o lado Leste. Toda a capital alemã recorda um pouco o passado mas faz questão em construir o seu presente. A cultura mantém-se na base de toda a sua existência. Ainda se conservam, propositadamente, alguns pedaços do muro, em locais estudados. Essa memória não há que a perder. Nem parece que se trata de uma cidade que passou pelo martírio que lhe foi imposto, pois renasce com entusiasmo. Os nossos arquitectos e os construtores civis que temos deviam ir tomar conhecimento de como a vontade de uma nação produz milagres e ultrapassa as dificuldades. Bem se poderia modificar a tristeza da nossa cidade de Lisboa e ser-lhe dada uma imagem que acabasse de vez com a velharia que se mantém e que poderia e deveria ser aproveitada para, tirando partido do antigo, incutir-lhe uma ligeireza de cores, dado que, afinal, o rosa velho até é um tom de que muito gostamos.Mas qual!... Nós não temos nada a aprender com ninguém

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

GRIPE

Há os que provam de tudo
nem perdoam acepipe
falar muito sem ser mudo
assim se apanha a gripe

Pandemia nos assusta
a doença faz razia
tudos isso bem nos custa
mesmo sendo só mania

Para aos outros não pegar
ficar em casa é melhor
porque indo trabalhar
contagia-se ao redor

A “baixa” é bom remédio
já estando ou vindo a estar
por muito que cause tédio
o não poder trabalhar

É útil o bom motivo
para ao trabalho não ir
mesmo ficando activo
é fazer por distrair

Para quê ser produtivo
se os outros fazem pouco
é preciso um incentivo
basta receber um troco

A gripe veio a calhar
chegou na melhor altura
se o emprego não falhar
é bem bom enquanto dura


SARAMAGO OUTRA VEZ...



DEPOIS do que escrevi ontem sobre esta personagem fiquei convencido de que não voltaria ao assunto, pelo menos tão cedo. Mas, afinal, tendo sido atraído pela leitura de mais umas páginas do seu livro “Caim” e dado que as entrevistas que o Prémio Nobel tem concedido largamente a tudo que são jornais, revistas e televisões não dão sossego e desafiam o jornalista que reside em mim, não me conformo com o pequeno resumo que apresentei no blogue passado e entendo que o assunto em si merece mais alguma reflexão e um certo desabafo, seja de aplauso seja de discordância em relação à forma como o livro foi escrito. Porque, no capítulo que tem sido objecto de tanta discussão, ou seja no que se refere ao ser a favor ou contra as apreciações saramaguianas em relação à Bíblia, o que eu sou é fervorosamente seguidor da liberdade de pensamento e de considerar que cada um tem o direito de expressar as suas opiniões, deixando aos outros a possibilidade de evidenciarem o seu ponto de vista, pois que é dessa forma que se confrontam as diferentes ideias e é daí que, com bom senso, boa educação e respeito por aquilo que os demais pensam, se constrói uma vivência respeitosa. Ninguém pode ser obrigado a seguir os princípios que sejam propagandeados.
No que me diz respeito, eu, que tive uma infância muito ligada às práticas seguidas pela Igreja Católica, tendo cumprido todos os cânones que o catolicismo aplica à juventude, incluindo a missão de ter sido várias vezes acólito de missas, ainda em latim, por acaso proferidas pelo venerando Padre Cruz, não me posso considerar ignorante das regras que a referida religião segue. E, no capítulo familiar, o ambiente que me rodeia é o de uma veneração convencida dos preceitos impostos por Roma.
Mas, a vida levou-me a reflectir profundamente sobre tudo o que o Homem tem procurado impor considerando-se mensageiro de forças superiores, e, como não poso evitar a prática do julgamento, para mal dos meus pecados, nem sempre alinho nas definições que uns tantos pregadores entendem que devem espalhar, seja porque obedecem honestamente ao que lhes dita o seu íntimo ou porque se aproveitam das circunstâncias e entendem que podem tirar partido da sua habilidade em convencer as massas. Porque não é a primeira vez que se descobre que uns tantos inventores de religiões acumulam fortunas com as propagações de milagres que os ingénuos aceitam sem discutir.
Mas não sou eu quem vai aqui deixar expresso quem, de toda a História de milhares de anos das múltiplas religiões que se propagaram pelo mundo e ainda hoje vão aparecendo, cumpriu meticulosamente com as regras da verdade e da decência. Não me sinto competente para tanto.
O livro Caim, quanto a mim, peca por não cumprir, aliás como todos os anteriores de Saramago (embora se venha a verificar, de obra em obra, uma melhoria no cumprimento de regras), com os princípios de uma escrita escorreita e que segue as normas de pontuação que servem para ajudar os leitores na sua leitura. E, no que diz respeito a ter-lhe sido atribuído, tempos atrás, o Prémio Nobel, temos de levar em conta que os críticos que seleccionam essa escolha não lêem os originais, mas sim traduções. E, como dizem os italianos, “traduttore, tradittore”, essa mudança pode representar rectificação que talvez tenha beneficiado a apreciação. Para mim não há outra explicação, embora tenha ficado satisfeito com a circunstância de um escritor português ter sido distinguido com tão importante honraria.
Mas volto ao mesmo: no capítulo religioso, as considerações que Saramago faz quanto às ocorrências passadas no Éden e as fantasiosas conversas de Deus com Adão e Eva e até às suas maneiras imperiosas de se dirigir a terceiros (e eu coloco estes e outros nomes em maiúscula, o que ele não faz), não se deve interpretar isso senão como uma fantasia literária, pois ir além dessa manifestação é querer entrar na discussão que só pode beneficiar o autor do livro que, com os seus 86 anos, se vangloria por dentro por ter conseguido criar tanta celeuma em volta do que escreveu.
Nesse aspecto, temos de concordar que o escritor tem olho para a promoção!…

domingo, 25 de outubro de 2009

PRIMEIRA VEZ

É frequente lembrarmo-nos
de quando ocorreu tal coisa
que foi a primeira vez.
Será de envergonhar-nos
e o tal acto repousa
no fundo da timidez?

Antes um grande mistério
era imaginação
tal coisa não se dizia
por ser obra de galdério
que não merece perdão
por viver em heresia

Só que sucede a primeira
da mesma ninguém escapa
assim se começa a vida
pode não ser grande asneira
e tudo feito à socapa
é de facto a partida

Nem sempre vem à memória
essa tal primeira vez
o tempo que já passou
faz-nos olvidar a história
e com pouca nitidez
vemos o que então voou

Porém, a vez derradeira
essa está mais presente
por se encontrar bem mais perto
tendo sido ou não asneira
mantêm-se sempre na mente
como sendo acto certo

Porque chega a todos isso
o de não lembrar sequer
como foi última vez
se se fez um bom serviço
se constituiu prazer
se repetia o que fez

É bom lembrar cada vez
a primeira longe está
a última já mais perto
e o que é malvadez
é que o que já não há
é como vida em deserto

Mas mesmo com mais idade
há sempre primeira vez
de algo que nunca antes
lá permitiu a vontade
de que com certa sagez
nos deixasse radiantes

Até a morte, afinal
quando chega é a primeira
e a última também
seja por bem ou por mal
quando chega à nossa beira
leva-nos para o Além






APRENDER



SUCEDE constantemente ouvirmos sair das bocas dos políticos, especialmente quando contestam opiniões de adversários, que “não precisam de receber lições de ninguém”. E isso provoca-me a maior das interrogações. Então, haverá alguém que possa afirmar conscientemente que não tem nada a aprender com os outros, sejam eles quais forem?
No que a mim toca, confesso que me custa a admitir que aqueles que fazem tal afirmação sintam profundamente aquilo que garantem ser o seu princípio de vida. Embora eu não possa nem queira servir de exemplo a ninguém, sinto-me diminuído porque uma das preocupações que mais me persegue é exactamente a contrária, ou seja a de ter a sensação de saber pouco e de, cada vez que absorvo mais algum conhecimento, constatar que continua a ser grande a distância que me separa da sapiência.
Quantas vezes eu me questiono se não contribuirá para me distanciar cada vez mais da felicidade - a tal impossível de alcançar em pleno - a ânsia de ir aprendendo o mais que posso nas diversas áreas de conhecimento que a vida apresenta. Não sei se o saber pouco não ajudará a não nos darmos conta do grau de ignorância que mantemos. E ficarei sempre com esta dúvida.
Aquilo que é ensinado hoje à miudagem quando ainda frequenta os primeiros anos da escola, nas antigas 3.ª e 4.ª classes, cada vez mais se afasta do que seria rigorosamente necessário que fizesse parte da aprendizagem que corresponde ao princípio de que é de “pequenino que se torce o pepino”. E repito aqui o que já referi em blogue anterior, de que uma classe de Democracia seria da maior importância para preparar os futuros adolescentes e adultos a saber respeitar os outros e ter vontade de ouvir. Pois acrescento agora que também seria da maior utilidade se não faltasse uma cadeira que incutissem nos alunos a consciência de que é raro saber-se muito e nunca se sabe tudo…
Talvez desta forma os homens que ocupam e venham a ocupar lugares na política não insistam em fazer afirmações de que não precisam de lições de ninguém. E, com essa modéstia, desde que seja autêntica, terão capacidade para escutar pontos de vista diferentes e até antagónicos dos seus que, quem sabe, não ajudarão a encontrar soluções que, quando se encontram fechados nas suas convicções, não satisfazem os objectivos que são essenciais para fazer andar o País no bom caminho.
O que eu não tenho é nenhuma esperança de que um José Sócrates qualquer, um que venha a ocupar o lugar de chefe de um Governo que surja, leve em conta a minha proposta. E ficaremos pelos Magalhães e pelo Inglês, sendo cada vez mais ignorantes na nossa própria língua. Até a língua francesa, de origem latina como a nossa, era, no meu tempo, a que se tinha de aprender e agora está completamente posta de parte.
Cada vez aumento mais as minhas dúvidas no que respeita à instrução escolar que se segue nesta época. Os velhos ditados e as redacções que éramos obrigados a fazer sem erros – porque cada um correspondia a uma palmatoada (que não matava ninguém) -, tudo isso hoje desapareceu. E o resultado está à vista.
Ai que Velho do Restelo em que me estou a transformar!”…


sábado, 24 de outubro de 2009

POETAS RESISTEM

Já foi tempo, isso já foi
em que a poesia invadia a vida
o que se dizia
aquilo que se escrevia
o que se vivia
estava cheio de poesia
e hoje que tanto se destrói
não há quem lhe dê guarida

Com toda a tecnologia
A velocidade, os avanços
O que se diz
Neste País
Não faz feliz
Não tem cariz
por isso a poesia
é só pr’os tanços

Porém, que pena
que tal texto doce
tenham partido
fugido
sumido
sem um gemido
saindo de cena
um bem escapou-se

Hoje o que mais importa
são as novas descobertas
várias
revolucionárias
originárias
imaginárias
é assim a vida torta
sempre com novos alertas

Mas a poesia, essa pobre
poucos lhe dão importância
desgraçada
escorraçada
desprezada
arrumada
perdeu o seu ar de nobre
mas nunca sua elegância

Enquanto houver quem a ame
mesmo que poucos existam
ainda que lhes chamem patetas
e lhes façam caretas
e só lhes paguem umas chetas
os poetas
nem impondo-lhes grosso açame
impedem qu’eles persistam






OS CAINS DE SARAMAGO



NÃO TENHO o costume de me referir a alguma coisa sem antes procurar inteirar-me, o melhor possível, do que se trata e, mesmo contrariado, colocar-me do lado do que pretendo observar. Isso de dizer não gosto, sem antes efectuar a prova para não deixar de ter razão fundamentada, é situação que sucede com muita gente mas que, neste caso, retira argumentos e força para demonstrar que todos têm direito a manifestar a sua opinião.
Esta questão que tem sido debatida largamente para gozo e prazer do apontado, com as televisões a trazer continuadamente o assunto à baila e os periódicos a publicarem sucessivamente a sua imagem e as suas declarações, essa propaganda que, sem ser paga, tem sido difundida, tem contribuído para que o tema focado obtenha o privilégio de ser largamente espalhado. E, sendo assim, também se coloca na posição ideal para ser criticado.
Refiro-me, julgo que foi entendido, a José Saramago e ao seu último livro intitulado “Caim”.
Desde que este escritor foi distinguido com o Prémio Nobel que passei a interessar-me pela leitura das suas obras. Não podia ficar-me pela primeira impressão que tinha tido antes e que não era de molde a considerá-lo um autor de craveira superior. Mas, perante as referências elogiosas que foram largamente divulgadas em redor da sua obra e da sua personalidade, levei tempo a formar a minha opinião definitiva e não deixei de ir seguindo os livros que foram aparecendo e de ter analisado as múltiplas rectificações que iam surgindo, até mesmo no capítulo da pontuação, que era o que saltava logo à vista na leitura do que ele escrevia. Mas os assuntos referenciados também não contribuíam para atrair a minha preferência.
Eu, que tinha seguido à distância a caminhada de José Saramago, quer na área política como na vida profissional que, depois do 25 de Abril, foi desenvolvendo primeiro no campo da publicidade e depois numa carreira dita jornalística que a sua participação no Partido Comunista lhe facilitou, ao ponto de ter chegado, incompreensivelmente, a dirigir o “Diário de Notícias”, onde deixou bem marcada a sua presença com uma atitude que, essa sim, me fez arredar da sua proximidade, a de ter despedido 22 jornalistas só porque não faziam parte da área política que o atraia a ele, pois foi precisamente o seu comportamento que também contribuiu para que, depois do galardão recebido em Estocolmo, não quisesse perder uma só das suas produções literárias para não cair na crítica ao seu trabalho sem ser por razões estritamente literárias.
Pois vem agora a motivo deste blogue o referir-me ao tal “Caim” que tem provocado tanta celeuma e propaganda. Começo por apontar a forma como o nome do dito filho de Abel é escrito, sem acento, e igualmente ao seu hábito de não escrever os nomes de participantes nos seus escritos sem ser com letra maiúscula. Quanto ao resto, não discuto se se trata de um trabalho que interfere na verdade ou não verdade de um tema que, apesar de não constituir leitura muito lida, não deixa de ser largamente conhecida, a Bíblia, nos seus dois Testamentos.
O que me deixa a mim a convicção é que Saramago é um excelente propagandista e a escola que fez nas agências de publicidade tem-lhe servido para, por tudo e por nada, divulgar largamente o que produz lá na ilha espanhola onde se instalou. Quanto a este livro último, eu, que contribui para aumentar a sua receita de direitos de autor, sinto-me confortado para poder afirmar que fiz um grande esforço para ultrapassar a página 40, que é onde, geralmente, me fico nos outros livros que lançou antes no mercado.
Que ele é o mais vendido, lá isso é. Agora que também será o menos lido… nesse aspecto igualmente não se andará muito longe da verdade. E isto não tem nada a ver com o assunto que escolheu, pois toda a gente tem o direito a opinar sobre o que lhe apetece – desde que tenha editor, claro está, e isso não lhe falta, pois as empresas respectivas o que querem é produto que se venda, seja ele de Sócrates ou de qualquer Carolina. Ao que é obrigado é a escrever bem e a usar correctamente a língua portuguesa, seguindo todas as regras da escrita, incluindo as pontuações, que essas são uma autêntica desgraça, próprias de um principiante. E nisso, o Prémio Nobel português, ainda que tenha vindo a melhorar bastante, ainda se situa muito longe do que a qualquer iniciado nessa arte é imposto. Mas se os editores gostam assim!...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FUTURO

Neste País onde estamos
onde nascemos, vivemos
ainda nos conservamos
temos aquilo que temos

E é pouco, coisa pouca
e cada dia é menos
a caixa vai estando oca
à fartura só acenos

Mas que podemos fazer
que nos resta nesta hora
em que é enorme o muro?

Já nem se pode crer
não serve ir para fora
não me apetece o futuro




NOVO GOVERNO


Por fim, com a maior das discrições, Sócrates lá levou ao PR a lista do novo Executivo que, na próxima 2.ª feira, ao meio-dia, tomará posse em Belém. A demora que causou grande preocupação no meio político e também, provavelmente, em muitos atentos cidadãos que vivem e sentem os acontecimentos políticos nacionais, acabou por não provocar assim tantas surpresas, até porque, de facto, não havia excessivas expectativas em relação às figuras que iriam ocupar os lugares daqueles que deixaram as pastas e de que, em parte, se tinha a convicção de que não repetiriam funções executivas.
Cinco mulheres foram incluídas no grupo, o que, não sendo nada de estranhar, pois o género feminino tem vindo a impor-se nos lugares de importância nos vários sectores portugueses (e não só), no que diz respeito ao nosso caso sempre se trata de alguma coisa que pretenderá dar mostras de modernidade. Oito ministros foram mantidos, ainda que alguns com pequenas mudanças nos títulos dos ministérios e outros alterando as tutelas que mantinham. Portanto, no capítulo da confiança de Sócrates a tais figuras, esta conserva-se.
Agora, assim de imediato, pouco há a referir no que respeita ao novo Governo. Temos de esperar por resultados e, no capítulo da Educação, como não podia deixar de ser, saiu a “governanta” que tão mau serviço prestou e que é difícil de entender como é que foi mantida até ao final. Só se espera que, desta vez, o Sindicato dos Professores mostre alguma condescendência, caso sejam alterados os motivos que levaram a tanta reclamação. Também, na pasta da Justiça, saiu um elemento que esteve ali a contemplar sorrateiramente o exercício dos Tribunais de que tantas demoras e maus resultados deram mostras, sendo outro que bem merecia ter saído a tempo, pois o detentor do lugar nada fez para modificar a situação e nem uma palavra de desagrado foi capaz de expressar. Só por isso, do novo detentor do cargo se espera alguma coisa de proveitoso.
Cá ficamos, pois. Mais uma vez temos de esperar sentados, pois que José Sócrates parece ter tomado o gosto por criar um “suspense” nos cidadãos, e, por outros lado, naturalmente não vai ser rápida a mudança, sobretudo também porque um governo que não é maioritário tem de saber mover-se no meio de partidos que espreitam as suas oportunidades e que não parecem dispostos a identificar-se mais pelo interesse nacional do que pelos seus próprios propósitos partidários.
Esta é a realidade que os portugueses têm de suportar já a seguir, juntando as consequências de uma governação difícil à crise que, digam o que disserem, cá continua a provocar o desemprego que não pára de subir.
Que vai haver muito para dizer, lá isso vai. E a seu tempo tudo saltará cá para fora.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CANTEMOS Á CHUVA

Chove lá fora, ai chove
depois de uma longa seca
será a prova dos nove
dos que molham a careca

Primeira chuva é tão bom
lava as ruas, lava a alma
dá gosto ouvir o seu som
e até o calor acalma

Há que sair com chapéu
e que fugir das goteiras
com alegria Deus meu
vêm aí as janeiras

Depois das primeiras águas
nas cidades são bastantes
pois surgem depois as mágoas
queixam-se os lamuriantes

Mas para ter sol na eira
e a chuva no nabal
há que ir pedir à feira
à bruxa do arraial

Chuva, chuva venha ela
contratempo não será
pode-se ver da janela
e o sol depois virá

Cantemos portanto à chuva
à sua força de vida
assenta como uma luva
quando com conta e medida

ESTABILIDADE PRECISA-SE


Não tenho nenhuma certeza. Como em tantos assuntos que se nos deparam pela vida fora, não consigo ultrapassar certas dúvidas que não me deixam tomar partido por um caminho de entre vários que podem ser seguidos. E esta é uma delas.
Refiro-me à questão de defender o ponto de vista de que devemos chamar a atenção para os problemas com que o nosso País se debate ou se é preferível pintar cor de rosa as situações que, sendo reais, é bom que disfarcemos o panorama para não espalhar o pessimismo que pode provocar um desinteresse pela luta para melhorar o que existe.
Ninguém pode garantir qual seja a medida mais apropriada e eu, por mim, prefiro não olhar para o lado a assobiar, posto que, por mais negra que seja a situação em que vivemos, considero que devemos chamar a atenção para o que nos envolve e procurarmos contribuir para, dentro das nossas limitações, para dar uma volta por cima, para utilizar uma expressão abrasileirada.
Sendo assim, vou referir-me àquilo que fez parte dos noticiários de hoje e que, sendo conhecido o seu conteúdo, não é demais rebater uma situação que nos deve preocupar a todos nós, portugueses, pois está em causa o nosso futuro e, sobretudo, o dos nossos descendentes: trata-se do défice do Estado que já atingiu os 20 milhões de euros por dia, sim por dia(!), o que quer dizer que se Portugal fosse uma empresa se encontrava em situação de falência profunda, pois o que entra em fundos nos seus cofres não chega para suportar os gastos e vai-se, diariamente, diminuindo o activo… enquanto ele existir!
Pois, ao mesmo tempo que o panorama económico nos dá esta imagem tão preocupante, ocorre o problema da próxima votação no Parlamento do Programa e do Orçamento do novo Governo ainda por constituir e cuja composição vai dar bastante que falar. E o que se espera que suceda é que os partidos políticos com assento na Assembleia da República não tomem a medida perigosa de chumbar, na maioria, tais propostas, o que fará, seguramente, com que José Sócrates respire de alívio e anuncie a demissão do seu conjunto. E como o Presidente da República está impedido de convocar mais outras eleições legislativas até Abril de 2010 e o Parlamento não pode ser dissolvido por se encontrar dentro do prazo de seis meses após a sua eleição, o provável é que um novo Executivo teria de sair da iniciativa presidencial.
Que lindo panorama! Que trapalhada resultaria desta medida provocada pela falta de senso daqueles que podem ser responsabilizados pelo caos que isso representaria! É preferível esconder esta probabilidade de tornar-se real?
Cada um julgará como entender. Achará que é preferível não apontar os erros que podem sair das cabeças de gente que, estando colocada nas primeiras filas dos agrupamentos políticos, não é por isso que garantam ser capazes de tomar as decisões mais aconselháveis face ao País que temos e como o temos.
Que se dê, ao menos, a possibilidade de José Sócrates, apesar de não ter dado provas no exercício que findou, de boa actuação e de capacidade para enfrentar os problemas com competência e humildade, poder agora remir-se do mau de antes e dar mostras de que está em condições de actuar de forma adequada ao que o País necessita. Libertar-se assim do problema e partir para outra é que não me parece adequado.