segunda-feira, 12 de outubro de 2009

VOTOS DE DOMINGO



Não consegui aguentar até altas horas da noite para poder tomar conhecimento dos resultados das eleições autárquicas, as quais constituem o final da série de consultas aos cidadãos no que respeita a três diferentes objectivos.
Sabido que já é, na altura em que escrevo este início de blogue, que, nos casos de Lisboa e Porto, sem dúvida as duas forças políticas mais destacadas são as que atraem mais a atenção política e que, logo no início, por via das sondagens, se constatou a melhor posição de António Costa, na capital, e de Rui Rio, na cidade Invicta, talvez se verifique um maior desapontamento pelo facto de Pedro Santana Lopes não ter conseguido dar mostras de uma projecção mais destacável, face ao combate que foi mantido e as promessas do candidato social-democrata no que diz respeito a não dar seguimento aos projectos “Costista” de manter a acumulação de contentores nos cais lisboetas e de prosseguir com uma obras contestáveis. Mas, por seu lado, Santana também não conseguiu convencer os cidadãos alfacinhas de que a sua actuação provocaria uma alteração profunda da imagem que Lisboa nos dá, tendo ainda muito presente a “borrada” feita com o Parque Mayer.
Seja como for, o que é fundamental ser deixado claro, nos casos das eleições nas autarquias, é que os partidos políticos, na maioria das situações, têm pouco a ver com os resultados conseguidos, sobretudo nas povoações mais pequenas, pois o que conta são os indivíduos que se apresentam para presidir a cada local de escolha, com predominância para as Juntas de Freguesia, como é natural, e mesmo nas Câmaras Municipais, conta bastante a simpatia pessoal para que a escolha recaia neste ou naquele candidato.
Não vale a pena, pois, nesta altura, referir-me aos grupos partidários que, através das declarações que estou a ouvir nas televisões, se encontram cada um que conseguiu uma boa posição, a arvorar-se em grande vencedor como ideal político.
Acabaram as deslocações da população às mesas do voto, depois de uma fartura de demonstrações de que a Democracia está já instalada em Portugal com profunda convicção de todos os naturais do nosso País. É verdade que, pelo menos no que se refere ao gesto de pôr as cruzinhas nos boletins que são apresentados para fins das opções de cada um, esse acto reveste-se de um significado que não pode ser desvirtuado. Mas, daí a concluir-se que o povo português, passados 35 anos sobre a mudança de regime, já se encontra absolutamente inserido no espírito da Democracia, isto é, o aceitar as opiniões dos outros sem brigas e o não limitar as suas relações às posições políticas, religiosas, até desportivas dos outros cidadãos, sabendo ouvir e não temendo dar razão aos adversários, se essas opiniões podem ser sustentadas com razoabilidade.
É por isso que eu tenho repetido sem me cansar que é nas escolas primárias que se deve começar a instruir as crianças a entender o que representa essa prática do dia-a-dia. Oxalá os políticos no poder entendam esta recomendação.

domingo, 11 de outubro de 2009

PASTOR

Se tivesse que ser outra coisa
na vida
e me dessem a escolher
logo à partida
se soubesse o que sei hoje
por pouco que seja
esteja como esteja
talvez tivesse optado por ser pastor
por certo estranho
junto do meu rebanho
para os outros que me olhariam
andando por montes e vales
entregue ao não te rales
mas sempre com papel e caneta
a inspirar-me na Natureza
e a reproduzir sua beleza
e só pensar nos bons actos
que o ser humano poderia fazer
e pondo bem longe a hora de morrer

Que bom seria ser pastor
viver isolado das maldades
ser feliz
de raiz
ouvir apenas os balidos
das minhas companheiras
as ovelhas
e de vez em quando os ladridos
do fiel amigo
sempre atento ao perigo
que possa existir
de alguma fugir
do grupo que me dá
esta profissão de pastor

De manhã à noite
ter a imaginação
sempre em acção
ver passar as estações do ano
todas elas úteis e benéficas
sentir o sol e o vento,
mas ter presente o talento
beijando cada flor do caminho
cuidando em raízes não pisar
e deslumbrando o olhar
sem ambições, sem maldades
pegando no cordeirinho
que também quer o seu caminho
e, de vez em quando,
fazendo saltar os poemas
agarrado ao cajado
que também puxa pelos temas
sem pretender compreender
o mundo que se atravessa
e que desde ali não se pode ver

E à noite, recolhidas as ovelhas,
abrigado no curral, pensar
à luz do petróleo, sonhar
lembrar-me que os ricos
sofrem por querer mais
que eu com os meus nicos
sou feliz, por demais.

Ser pastor neste mundo
é o que eu queria no fundo.






OBAMA, NOBEL DA PAZ... JÁ?


Eu confesso que, desde que foi eleito o actual Presidente dos Estados Unidos da América, tenho tido um grande apreço pelo homem que conseguiu substituir o seu tão mau antecessor, George Bush, por muitas razões e sobretudo porque, tendo lutado num País que mantêm bem enraizado o espírito de separatismo em relação à raça negra, obteve, desde o início do seu mandato, uma larga mancha de admiradores e, no que diz respeito à população geral do mundo, também se tem verificado uma adesão de simpatizantes por Barak Obama, de seu nome.
Com excepção dos grupos de religião muçulmana, especialmente aqueles que seguem cegamente os princípios ditos sagrados da sua fé e que, por tal motivo, aplaudem as acções que andam próximas dos ataques terroristas que deflagram por toda a parte, tirando esses e uns tantos outros naturais de diferentes países que nunca alimentaram uma grande admiração pelos chamados “americanos”, pode-se dizer que Obama tem merecido uma especial consideração do exterior da sua Pátria, e isso devido a um estilo de compreensão e simpatia que, nestas coisas da política, são fundamentais para que a imagem caia bem à primeira impressão.
Há que reconhecer que o seu ar de não pretender mostrar que sabe muito e de que tudo que decide é o melhor, sendo ou não autêntica esta compostura – só os mais íntimos podem garantir -, tal comportamento público tem-lhe trazido uma onda de apreço que pesa favoravelmente na balança da sua análise.
Posto este preâmbulo, vou agora referir-me ao Prémio Nobel, visto que acaba de lhe ser atribuído o referente à Paz e essa distinção merece que, da minha parte e sem ter certezas de nada, faça uma reflexão que tem a importância que tem mas que, em virtude de poder dispor deste blogue que alguns interessados acompanham e me enviam os seus comentários, é o espaço de que disponho agora e que serve de escape às minhas reflexões.
No que diz respeito ao propriamente dito Prémio Nobel, tratando-se de um galardão de enorme prestígio e que tem sido atribuído, ao longo dos anos, a personalidades que deram mostras claras e indiscutíveis do seu merecimento, em certas ocasiões, sobretudo no capítulo da literatura, a sua entrega tem motivado interrogações e certas dúvidas que se relacionam com inclinação politica dos premiados. Aqui fica o reparo.
No capítulo da característica da Paz, haverá que apontar a ausência de atribuição do Prémio a figuras que, tendo dado grandes provas de contributo mundial para diminuírem os confrontos guerreiros, embora esse facto não diminua a importância e a honraria que significa serem homenageados os contemplados.
Agora, falemos de Barak Obama. Será que ele merece a distinção com que acabou de lhe ser atribuída? Vou ser franco: provavelmente, dentro de um ou dois anos, se se concretizarem aquelas que parecem ser as intenções do desejado interveniente no capítulo de moderar bastante do que se passa de condenável na Esfera terrestre, no que se refere às relações entre os povos, se o Afeganistão deixar de ser um espaço de confronto bélico, se entre Israel e a Palestina for posto ponto final na agressividade que dura há demasiado tempo, se, por sua influência e exemplo, forem afastados os desentendimentos de que o ser humano é o principal culpado – e não vale a pena apontar aqui os múltiplos exemplos em que o E.U.A. podem contribuir para pôr alguma serenidade onde ela não existe -, se isso vier a verificar-se e Obama tiver a mínima influência nos êxitos que se esperam, então sim, o Prémio Nobel da Paz caber-lhe-ia que nem uma luva e o mundo inteiro aplaudiria, até provavelmente os que não apreciam em demasia o Presidente negro.
Mas já está. Quiseram pôr o carro adiante dos bois. E o Homem agora fica com a responsabilidade de dar mostras universais de que é merecedor de tal honraria. Oxalá o consiga. E eu nem quero admitir a hipótese de virmos a assistir a uma frustração mundial!...

sábado, 10 de outubro de 2009

O QUE EU CÁ DEIXO

Como hoje, é dia de reflexão, no que respeita às Eleições Autárquicas, entendo que não deveria referir-me a qualquer assunto que se aproximasse, por mais longe que fosse, do acto que irá demonstrar quem o povo português vai escolher para presidir a cada Câmara Municipal e como ficarão definidas as Assembleias Municipais e as Juntas de Freguesia. Por isso, o texto que se segue é de tipo bastante pessoal. Quando terminar toda esta azáfama de eleições e de dúvidas quanto ao que vai ocorrer no nosso País depois do novo Governo estar formado, voltarei, se tiver apetite para tanto, a mostrar os meus pensamentos no que se refere ao mundo em que vivemos.

Não sei se isso só se passará com aqueles que, sendo possuidores de avultadas fortunas, têm a preocupação obsessiva de, quando partirem deste mundo, deixarem os seus fartos haveres entregues a quem lhes merecerá o suficiente apreço, confiança ou o que seja e até muito mais do que isso, em escala progressiva que poderá ir até ao enorme amor.
Os testamentos servem para isso, para que fique tranquilo o dono dos haveres de que, após o seu falecimento, alguém cuidará de dispor do espólio que foi construído ao longo de anos, muitas vezes com grande sacrifício, e que o fim de uma existência mande que mude de mãos. E, se a importância, sobretudo material, for de molde a constituir o desejo de muitos pretendentes, não é raro que se instale uma disputa e o inconformismo daqueles que se julgam injustiçados pela decisão do defunto.
Esta é a vulgaridade do que se passa por esse mundo fora. Agora, quando aquilo que fica para distribuir pelos familiares do defunto não mostra ter valor que justifique a vontade de ficar na posse dos que estiveram presentes na hora do falecimento, aí a preocupação primeira é a de escolher alguma coisa que possa ainda servir para uso pessoal ou que justifique colocar à venda aos ferros-velhos que ainda existam nos arredores.
Quantas vezes aconteceu que, tratando-se de obras executadas pelo parente que não gozava de grande fama de ser artista, andaram as peças que estavam guardada de mão em mão e só passados vários anos é que, por casualidade, alguém descobre que, na verdade, o defunto era possuído de um génio que passou despercebido durante todo o tempo da sua vida? E é nessa altura que se iniciam as disputas pela posse dos restos que ainda estejam conservados em águas furtadas e armazéns e conseguiram resistir à fúria de os despejar em diferentes montes de lixo.
Fernando Pessoa, como mestre das letras, foi um desses génios que, só passados anos depois da sua morte, em 1935, ainda que uns poucos intelectuais portugueses já tivessem consciência do seu valor excepcional, obteve o reconhecimento geral da sua importância passado muito tempo e os editores, então esses, só tarde entenderam o que tinham desprezado em vida do grande prosador, poeta e pensador. A sua família guardava ainda, espalhados por diferentes membros, textos originais que, a pouco e pouco, foram aparecendo editados.
Agora é a minha vez de justificar o título deste desabafo do meu blogue: como consegui chegar à época dos computadores, ainda que contrariado fui forçado a aderir a esta nova tecnologia. E ainda bem que o fiz, depois de ter levado uma vida profissional a usar, na Imprensa, para começar, a caneta, seguida da máquina de escrever pesada e teimosa e depois a mesma, primeiro a portátil e depois a eléctrica, necessitando-se, nessas alturas, de grandes arquivos que serviam para se encherem de papeis e fotografias, tudo classificado, para guardar o que constituía material que podia ser necessário mais tarde.
Pois eu, que produzo diariamente, que persigo avidamente o talento, que insiste em fugir, agora, por conta própria, só faço o que me sai da imaginação, o que redijo em prosa e o que, com persistência, também dedico largamente à poesia, para além do trabalho que tenho com alguma pintura em acrílico, vou deixar tudo isso guardado no disco do meu computador. Pode-se meter num bolso e cabe facilmente no vidrão da minha rua. Só os quadros enchem as paredes da minha casa e esses serão olhados com outro espírito.
É este o meu testamento. Humilde como é o que fica.









sexta-feira, 9 de outubro de 2009

CEGO

Aquilo que eu vejo hoje
o que gosto e o que detesto
as flores, as árvores, a Natureza
e as maldades dos homens
só é possível porque os meus olhos
ainda funcionam
e é com eles que o meu cérebro
raciocina
se alegra e se revolta
se sensibiliza
me obriga a olhar para trás e para a frente
a parar para ver melhor
a espantar-me com o belo
e com o desprezível

Mas penso se um dia
deixo de ver
se terminam as minhas contemplações
se se fecha a janela da vida
se só poderei
ouvir, apalpar, falar
e só com isso serei capaz de decifrar
o que se planta diante de mim,
então o cérebro trabalhará a dobrar
penso eu, mas talvez a falta de visão
descanse mais o pensamento
o que não se vê
se não mostra a beleza
também não revolta
quando é isso mesmo:
repugnante

O pior é a leitura
o braille ajuda, dizem os invisuais
mas não se anda tão ao par
do que vai saindo
e que valha a pena
embora, por outro lado,
não se tenha de assistir
à enormidade de lixo literário
que as editoras atiram para a rua.

É melhor ou pior ser cego?
o ideal é não se conhecer nunca
a resposta
ficar na dúvida
questionar-se até ao fim.
Por enquanto, já que vejo
deixem-me ficar assim!...






AUTÁRQUICAS E LISBOA



NESTA caminhada final para o último exercício de eleições no período em que se entendeu agrupar os dois exercícios em datas muito próximas em vez de ter efectuado os três exercícios no mesmo dia, o que teve, obviamente, os inconvenientes de não suscitar tanto interesse por parte dos cidadãos portugueses, estamos agora já muito perto de sermos chamados a depor o voto para eleição autárquica dos diferentes propostos para ocupar os cargos que, sendo importantes para dar mostra do peso dos diferentes agrupamentos partidários nas zonas espalhadas pelo nosso País, com incontestável importância para os principais centros urbanos, já no que respeita à governação nacional não altera nada do que já ficou resolvido com as eleições legislativas.
Porém, no que se refere a Lisboa e também ao Porto, com menos destaque para Coimbra e, por questão de prestígio, noutras cidades menos populosas, aí já conta a cor partidária que se colocar à frente das autarquias, e as amostras das lutas de algum relevo que se verificaram é a prova de que os Partidos tudo fizeram para conseguirem atingir posições dominantes no próximo domingo.
Mas falemos da capital. Aí, tanto António Costa, o actual presidente municipal, e Santana Lopes, o homem que já exerceu, ainda que por pouco tempo, essas funções e ganhou experiencia na Figueira da Foz, onde parece que deixou boa obra, ambos os políticos se empenharam para sorrir abertamente quando, à noite do dia 11 de Outubro, tomarem conhecimento da sua proposta ser a vencedora.
Já deixei neste blogue de ontem algumas considerações sobre os dois concorrentes e, no meu caso particular, declarei em qual dos dois votaria se tivesse conhecimento antecipado de que um deles se interessaria pelo fim da horrorosa “calçada à portuguesa” que constitui o sofrimento de todos os que têm de calcorrear as ruas da capital. E essa determinação como tratando-se de uma tarefa prioritária e não apenas de acrescento a outras iniciativas.
Evidentemente que não é apenas esta a questão importante para levar por diante iniciativas que alterem profundamente muita coisa mal que se encontra nesta cidade, entre elas o envelhecimento progressivo das casas lisboetas e a incapacidade de transformar esta capital portuguesa de cidade triste e abandonada, sobretudo a partir do fim das tardes, numa urbe alegre, bastante florida, com movimento e apetecível de visitar. De igual modo, os bairros típicos lisboetas, como Alfama, o Bairro Alto e outros bem característicos, deveriam estar na mirada do vencedor da eleição próxima, fazendo o mesmo que se vê em muitas cidades lá fora, como em Espanha, Itália e outros, em que os estabelecimentos comerciais de renome internacional estão instalados em bairros congéneres, com lojas muito bem montadas, contribuindo e muito para valorizar os locais. Quanto a tudo isso, nada se ouviu e viu nos projectos divulgados pelos dois candidatos, se bem que, pelo seu feitio movido, seja de admitir que Santana esteja mais perto de caminhar nesse sentido. Mas não há garantia nenhuma que assim venha a ser.
O triste, pois, é verificar que uma cidade capital tão bonita e geograficamente bem situada como é Lisboa, tenha chegado a este estado de desfiguração que bem mostras dá da falta de imaginação dos diferentes e vários responsáveis municipais que têm passado pelo lugar cimeiro e que não souberam assumir as suas responsabilidades.
Não sei, francamente, qual dos dois será capaz de querer ficar na memória dos portugueses, deixando obra que valha a pena e que passe a ser considerada como tratando-se de um trabalho equivalente ao de um segundo Marquês de Pombal, provocando um “terramoto” que altere substancialmente a imagem que nos é oferecida hoje pela nossa capital.
O que tenho a dizer é que, se me fosse dado escolher, preferiria ser o presidente da Câmara de Lisboa, do que chefe do Governo. É que, no segundo caso, haverá grande luta mas sem paixão, enquanto que, no que se refere à batalha lisboeta, aí tem de existir muito amor, uma dose enorme de actividade artística, um permanente ardor pela perfeição e um compromisso absoluto com os cidadãos de lhes oferecer, com o pouco gasto que pode ser dispensado nesta fase, uma capital portuguesa que venha a constituir o prazer máximo dos que cá vivem e dos que nos visitam.
E isso eu sabia como fazer!... Modestia à parte.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CONFISSÃO

Dizer a outro, em segredo
o mal que tenhamos feito
confessar
libertar
fazê-lo até com medo
mostrando o que é defeito

Fazendo-o na sacristia
também no confessionário
recolhido
escondido
para alguns é agonia
será até um calvário

Mas com a fé a mandar
no dizer de quem confessa
liberta-se
desperta-se
pode outra vez começar
quanto ao mau de trás esqueça

Dessa forma a consciência
volta a dormir descansada
liberta
aberta
p’ra dar nova sequência
a seguinte caminhada

Já livre então dos pecados
tranquilo fica o crente
ar puro
passado o muro
malefícios perdoados
só há que seguir em frente

É assim o ser humano
inventa religiões
esperteza
ardileza
como uma nódoa no pano
tudo sai com esfregões

Quem não crê que por contar
lá vem perdão para asneiras
realista
ateísta
será até acabar
portador dessas besteiras

E se for homem de bem
dos seus erros consciente
pensador
com rigor
para sempre lá retém
e paga por não ser crente






COSTA E SANTANA - QUAL DOS DOIS?




Há, evidentemente, outros concorrentes às eleições autárquicas em Lisboa, no domingo, mas são estas duas personagens que se apresentam com mais possibilidades de vir a ocupar a presidência da Câmara Lisboeta. Os restantes, com os seus valores próprios, não terão tanta ambição e contentam-se com um lugar na vereação.
Por isso, a pergunta que se pode fazer nesta altura, com o acto do voto à vista, é qual dos dois terá capacidade para vencer a luta que já se encontram a trava, sabendo-se que um já exerceu esse cargo e levantou várias questões, sobretudo com os gastos enormes que efectuou, ainda que, verdade seja dita, os túneis que conseguiu implantar tenham a sua validade e constituíam uma valia que a capital agradece. Mas o caso do Parque Mayer, com a contratação do arquitecto americano que facturou mundos e fundos pelo projecto que, afinal, não foi avante na prática, porque se tratou de uma ligeireza de Pedro Santana Lopes, que não foi capaz de fazer as coisas por ordem e com senso prático, esse erro e alguns outros do mesmo estilo fazem pensar se, deste vez, será capaz de só se meter em trabalhos que tenham princípio, meio e fim.
Já António Costa, que se queixa e parece que com razão, que recebeu o Município cheio de dívidas e que teve de se dedicar, primeiro que tudo, a pôr as contas em ordem, esse, com ar de elemento com mais cuidado nas decisões que venha a tomar, tem o contra de se encontrar muito enraizado no Governo de José Sócrates e de, por esse enfeudamento, vir a ser obrigado a seguir as pesadas do seu Partido, o que, em muitas ocasiões, não deu mostras de ser capaz de ouvir as opiniões dos outros para emendar os maus procedimentos.
No que a mim diz respeito, eu escolheria sem pestanejar o candidato que, de acordo com o que escrevo há anos, tivesse a sensatez de garantir que, uma das suas iniciativas, seria a de alterar o sistema de muitos anos do calcetamento das ruas lisboetas, substituindo-o por placas com os desenhos tradicionais tanto ao nosso gosto, acabando de vez com o feio espectáculo dos homens de cócoras a partir na mão e a colocar pedra a pedra, deixando altos e baixos e custando caríssimo por essa mão-de-obra antiquada.
Nenhum dos dois levantou essa questão. Pelo que tudo indica que ficaremos na mesma quanto a esta solução, como aliás acontece em tudo no nosso País que tanto gosta de não mexer no que existe, pois que sempre é mais cómodo assobiar para o lado, meter as mãos nos bolsos e manter a tradição.
O pior é que ficamos a ver o resto da Europa a andar e nós, muito contentinhos, sentados neste rectângulo à beira-mar plantado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

BURROS


Ter sempre razão
É tão doentio
Como a discussão
Vem do mau feitio

Não saber ouvir
Fechar-se ao diálogo
É como cair
Num triste monólogo

Aqueles que insistem
E são tão casmurros
Enfim, não desistem
O que são é burros

E mesmo na hora
De partir p'ra outra
Se já estão de fora
Dizem que estão noutra

Se fica p'ra trás
O mal que foi feito
Já tanto lhes faz
Estão noutro pleito

Mas nada já muda
Seguem sem razão
Até sem ajuda
Têm ares de leão

São burros, são burros
Dizem os sensatos
Mas eles dão urros
E chamam-lhes chatos

Então na política
São mesmo teimosos
É a ver quem fica
Sempre mais vaidosos

Quando muda a coisa
Outros lhes sucedem
P'ra partir a loiça
Licença não pedem

O povo assim fica
A chuchar no dedo
E já nem critica
Tem medo, tem medo

Na vida, afinal
Quem ganha tem lata
Meter não faz mal
Na poça, a pata

Os burros quem são
Pergunto por fim
São os que no chão
Dizem sempre sim

Burros, pobrezinhos
Nobres animais
Esses, coitadinhos
Não são seus iguais

PORTUGAL E A COMUNIDADE



NUMA altura em que a dívida de Portugal ao estrangeiro atingiu já níveis, de tal maneira elevados, que não é possível prever como e quando nos libertaremos de tal peso que condiciona toda e qualquer iniciativa de empreendimentos que forem considerados úteis e necessários para o progresso nacional, razão pela qual existe tanta controvérsia em relação ao TGV, ao novo aeroporto, à desejada ponte suplementar a atravessar o Tejo na área de Lisboa, às auto-estradas que o Governo de Sócrates tanto ambiciona, e a muita coisa que a imaginação não esconde, neste momento e com o Governo que tomará posse depois das próximas eleições autárquicas todos nós, cidadãos, nos interrogamos como será possível sairmos deste marcar passo a que parece que vamos estar condenados.
Segundo contas que apareceram aí divulgadas, seriam precisos 386 dias de trabalho de todos os portugueses, oferecido o valor respectivo ao Estado, para poder ser paga a dívida que todos nós mantemos para com os países que se encontram fora das nossas fronteiras, sendo que os juros dessa dívida atingiram já mais de cindo mil milhões de euros.
É este o panorama que não podemos nem devemos ocultar de toda a população lusitana. Metermos a cabeça na areia e fingirmos que não sabemos o que se passa não constitui uma medida que possa ser seguida por todos nós que estamos vivos e que deixamos descendências que, na devida altura, terão de se defrontar com a realidade. É que manter montantes elevados por pagar não é acção que possa resistir eternamente. Chegará o dia em que não se conseguirão mais empréstimos e todas as portas se fecharão, sendo então que as consequências farão sofrer os que estiverem por cá e não tenham forma de resistir às dificuldades reais desse momento.
A Europa, por sua vez, também não avança com a destreza e a utilidade que Jean Monnet previa que viesse a ser aplicada. A ideia da criação dos Estados Unidos da Europa que, segundo muitos pensadores, de entre os quais eu me quero incluir, não foi, infelizmente, ainda posta em prática. Os países continuam, egoisticamente, a cuidar dos seus próprios problemas e não conseguem dar as mãos no sentido de procurar ajudar-se uns aos outros e de efectuar uma política de conjunto que só beneficiaria todos os membros, procurando eliminar as dificuldades dos mais frágeis e obtendo as vantagens de uma produção estruturada e de uma sociedade de consumo perfeitamente integrada no princípio de “todos por um e um por todos”.
Não bastou ainda a criação da moeda única – a que alguns parceiros da União Europeia ainda não aderiram. Espera-se a eleição de um Presidente da Europa, por dois anos e meio, e de um representante para a política externa, figuras fulcrais para que a cooperação passe a ser mais eficiente entre todos os membros. Mas está-se longe de ficar concluído o programa a que todos os países da Europa terão de aderir, sem hesitação e com completa abertura, se quiserem que surjam os Estados Unidos da Europa. Até lá, se isso vier de facto a acontecer, ainda haverá que esperar muito tempo. As nações irão mastigar os seus interesses privativos e, enquanto umas aderirem à ideia mais rapidamente, outras, como é costume, discutirão internamente, levantarão razões para não se incorporarem no interesse colectivo e os anos vão passar sempre na expectativa. E o tempo decorrerá. E os europeus irão continuar na luta pelo entendimento. E cada país do Continente integrado no grupo interrogando-se sobre se valerá a pena ou não aderir ao projecto.
E nós por cá, com este receio aljubarrotista do pavor por um entendimento ibérico, ficaremos acocorados na ponta da Europa até ao momento em que não pudermos mais aguentar a condução da vida por nossa própria conta. E, nesse caso, tudo é aceite.
É uma visão derrotista? Há quem pense que podia ser pior, digo eu, como, por exemplo, retrocedermos a um horrível regime ditatorial, por não conseguirmos viver em liberdade e em Democracia. Quando o povo está descontente, é mais fácil fazer cair uma Democracia do que uma Ditadura.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

AMOR DE PARDAIS

Quatro pardalinhos brincam no chão do meu jardim
picam o chão com entusiasmo
e eu olho-os com ternura
pensando no mundo dos homens
desses que se guerreiam uns aos outros
e não confraternizam como estes pássaros
não dividem o que há para comer
são egoístas, querem só para si

E estes pássaros inocentes
que não sabem o que é pecado
que só procuram defender-se
dos que são gulosos
dos que apreciam o petisco
dos passarinhos fritos
saltitando, piando
lá vão apanhando as migalhas que
sem querer
os homens deixam cair

Que bom seria
se o mundo fosse todo como o dos pardais
dividindo o amor e as migalhas



QUE PENA, CAVACO|...



No meio de toda a confusão e do triste espectáculo que se vive no nosso espectro político, só nos faltava a demonstração que o Presidente da República ofereceu aos portugueses da sua total incapacidade de se movimentar com bom senso no meio das várias forças políticas que lutam por uma posição que seja, no mínimo, aceitável. O menos que se pedia e pede ao Magistrado máximo da Nação é que se afaste o mais possível das quezílias partidárias e que, através da sua serenidade e das intervenções feitas em tempo oportuno e utilizando as palavras adequadas e justas, mantenha as controvérsias dentro de um espírito mínimo de civilizado e democrático confronto.
Pois foi a questão das alegadas escutas em Belém que trouxe à praça pública uma amostra que se julgava que nunca seria dada a conhecer aos portugueses: a ausência de possibilidade da parte de Cavaco Silva de se manter no seu lugar cimeiro e não querer imiscuir-se nas guerrilhas de pátio que são as que surgem em primeiro lugar, fomentadas pelos próprios partidos que sempre têm alguém nas suas fileiras que não sabem comportar-se dentro das regras que a Democracia impõe.
O ter querido o Presidente falar aos portugueses, sobretudo numa “conferência de Imprensa”, como lhe quis chamar, em que essa classificação não se pode dar quando não existem perguntas e respostas, o ter dito o que disse – nada – e, depois, também voltar a botar “faladura” fora do local habitual (o que talvez se compreenda) no 5 de Outubro, tudo isso está a fortalecer a ideia de que Cavaco Silva tem necessidade urgente de um aconselhamento de assessores, com absoluta independência partidária e com capacidade para preparar textos devidamente esclarecedores, quando for o caso disso, e estando profundamente atentos aos passos que têm que ser dados por uma personalidade que não pode, em circunstância alguma, dar mostras de hesitação e de fragilidade.
O respeito que tem existido por parte dos portugueses em relação a Cavaco Silva, na sua qualidade de Presidente, essa confiança ficou muito fragilizada com a sua intervenção motivada, de início, com o problema, nunca esclarecido, das ditas escutas em Belém. Poderá ser que ainda consiga reabilitar-se deste percalço, e isso deseja-se para que o clima político que se vive neste momento e que não é dos melhores, em que os problemas que despontam no horizonte não vão ser de resolução fácil, esse clima seja ultrapassado.
Optimistas, é difícil que estejamos. Muito depende ainda, em parte, dos resultados que saiam, no próximo domingo, com as autárquicas. Haja esperanças, que é o único que resta aos cidadãos despe País…

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PUBLICIDADE


Quando, em tempos recuados, os profissionais do jornalismo davam os primeiros passos, havia a preocupação de os fazerem passar pela área da publicidade, não porque fosse obrigatório mas devido ao facto deste sector ter uma certa influência no desembaraço no capítulo da imaginação e do “fabrico” de frases que podiam promover alguns produtos que eram lançados no mercado. E as agências publicitárias, de uma forma geral, contavam entre os seus membros, não como funcionários efectivos mas como colaboradores em mesas redondas que se preparavam sempre que era necessário encontrar respostas para os novos clientes que desejavam publicitar algum produto acabado de aparecer.
Recordo-me de ter participado com José Carlos Ary dos Santos numa dessas mesas, como, noutra agência, fazer parte profissional do “staff” o poeta Alfredo O’Neill, que foi o autor do “há mar e mar, há ir e voltar”.
Foi um período em que, por vezes se repetiam as discussões, os murros nas mesas, os gritos e até que, de repente, saia um “slogan” que era agarrado por todo, com grandes gargalhadas de satisfação.
Terá sido assim que surgiram centenas de frases que ficaram nos ouvidos de todo o Portugal e que constituíram a razão das boas vendas de artigos que as agências de publicidade propunham aos seus clientes. Os mais antigos ainda hoje se recordam de tantas dessas promoções, e não vou aqui repetir muitas de tais referências, ditas e cantadas, porque os novos nem têm ideia de que isso se terá passado cá na nossa Terra.
Vem isto a propósito de quê? Dos termos utilizados hoje quer nas rádios, na Imprensa e, sobretudo, nas televisões, e em que, na maioria das situações, os ouvintes ou espectadores não absorvem o produto que pretende ser dado a conhecer e ficam coma ideia estranha quanto ao que será que está a ser anunciado.
É o mundo de hoje, dirão. Pois será. Mas, afinal, para que serve gastar dinheiro em publicidade se os públicos que se pretende que sejam atingidos não conseguem entender, logo à primeira, o que está a ser, pelos vistos, divulgado?
De facto, num certo aspecto a publicidade não se situa assim tão distante do jornalismo propriamente dito no capítulo de que é necessário passar uma ideia aod possíveis compradores e nisso há que ser explícito e rápido na mensagem. É o que se passa com os jornalistas que têm mais queda para formar títulos dos artigos e chamá-los à primeira página das publicações. Um texto pode ser muito bem escrito, relatar convenientemente um acontecimento, mas se o leitor não é convidado a apreciá-lo através de um cabeçalho que lhe prenda a atenção, mas que – cuidado – não desvirtue o conteúdo, então metade da sua importância é perdida.
Atravessamos neste momento um período de má publicidade. É a minha opinião. Quantas vezes oiço e vejo repetidamente um anúncio e só fazendo algum esforço é que entendo o que é pretendido vender. Por exemplo, esse anúncio, repetido inúmeras vezes, que até faz deixar de gostar dos Gatos Fedorentos, que anuncia nem se sabe bem o quê, tem razão de ser? Não ficaria mais barato, ocupando menos espaço na televisão, e não seria mais produtivo a divulgar o que se pretende vender? Sobretudo sem cansar os espectadores?
Será que isso só se passa comigo? Todos os potencialmente candidatos a serem consumidores do produto mal divulgado conseguem ficar esclarecidos?
Publicidade que tem de ser bem digerida para atingir o objectivo da sua criação, não é um convite é uma barreira que se cria entre um produto e os seus desejados clientes.

VENTOS


Bem longe de mim estão esses ventos
Que sopram a outros e por mim passam
Sem parar, sem olhar os meus tormentos
Que também tenho e me trespassam

Quero agarrar o silvo desse vento
Pleno de saber, de compreensão
Quero-o para mim e bem o tento
Mas é todo um esforço em vão

Brisa que passa cheia de alegria
Envolta em bem e com boas notícias
Se eu pudesse nunca partiria

Só tempo agreste é que quer ficar
O que vem carregado de sevícias
E que insiste à minha volta rodar

domingo, 4 de outubro de 2009

O SEGREDO



Se o outro mundo fosse um lugar onde se juntassem as almas das criaturas que passaram por este mundo e aí convivessem, contando uns aos outros, as situações mais curiosas e mais estranhas, até secretas que ocorreram com cada um, se pudesse existir um registo dessas manifestações e fossem transcritas todas as histórias resultantes dessas descrições, certamente que seria a forma de reunir o maior número de segredos e de situações que o ser humano é capaz de produzir no decorrer da sua vivência.
Quantos casos que nunca foram revelados, que se mantiveram bem guardados no interior das cabeças dos seus autores, que constituíram enormes aberrações que os próprios nunca tiveram coragem para os contar, que número vasto de situações acompanharam os praticantes e partiram com ele sem terem tido oportunidade para serem divulgados? Ninguém está em condições nem sequer de fazer uma ideia aproximada do seu número.
De facto, os segredos que ainda se mantêm ao longo de séculos da existência do Planeta são os mistérios mais resguardados que o ser humano ainda não conseguiu desvendar. E, se há ausência de revelação de fenómenos que têm a ver com a existência do Homem, essa personalidade, que tem vindo a encontrar respostas científicas para muitos dos que constituíram profundos mistérios ao longo de séculos, não descansa enquanto não forem surgindo contestações a todas as interrogações que ainda perduram.
Mas esses serão os segredos que têm a ver com toda a Humanidade. Não se referem a ninguém em particular. Saber o que é isso do Universo, daquilo que não tem fim, do próprio nascimento da Terra, da forma como surgiram os seres racionais e os irracionais, qual é a sua origem, tudo isso é que já nos diz respeito e, por muito que se procurem encontrar respostas através do misticismo, das fés, do credito em histórias que o próprio Homem tirou da sua imaginação, a verdade verdadeira, a que não ofereça quaisquer dúvidas, essa que resista a todas as provas, tais segredos mantêm-se na zona das incógnitas.
Afinal, cada um de nós, no seu íntimo também terá o seu segredo, alguma coisa que, no mínimo, a sua divulgação causa vergonha. A importância dessa coisa guardada só cada um é que lhe pode atribuir. E não conta, nesta apreciação, a posição social do seu “proprietário”. O muito rico ou o miserável, cada um é senhor de manter o seu segredo. Talvez um porque tenha construído a sua fortuna por meios nada recomendáveis e o outro porque roubou, uma vez, uma banana de um super mercado, mas ambos os actos são, para os próprios, inconfessáveis.
O segredo é, ao fim e ao cabo, aquilo que cada um dos seres viventes pode considerar como sendo a sua própria propriedade e que não compartilha com ninguém.

sábado, 3 de outubro de 2009

CANSADO

Estou cansado do que fiz
do muito que já foi feito
ter querido o que não quis
levado coisas a peito
no fundo
confundo
o que neste mundo
é sempre segundo

Queria coisa melhor
ter vaidade numa obra
com a escrita ou pintor
mostrando arte de sobra
ser primeiro
de pé, pinheiro,
sem berreiro
bom viveiro

E se eu não me acredito
se ao alto eu não cheguei
o muito que deixo escrito
eu nunca renegarei
seja o que for
é suor
algum amor
muita dor

Mas a busca do talento
aquele que nunca fica
causa grande sofrimento
nem sempre se justifica
quem procura
com agrura
vive numa tortura
pode cair na loucura

Fatigado eu estou
mas se paro por momentos
já não sei p’ra onde vou
encontro outros tormentos
prossigo
castigo
afadigo
me obrigo

O que não quero é queixar-me
não vale já a lamúria
o que posso é castigar-me
rogar por génio com fúria
combater
querer vencer
e se perder
refazer

Chegado a esta altura
com tantos anos p’ra trás
este vício não tem cura
e mudar não sou capaz
aguentar
sem queixar
esperar
por outro ar

Cansado lá isso estou
p’ra isto não há remédio
eu sei bem p’ra onde vou
libertar-me deste tédio
estão adeus
sonhos meus
enfiados nos seus breus
tapados por negros véus


ESCOLHER GOVERNO



Nas tentativas de se pretender adivinhar os nomes dos ministros do Governo findo que não repetirão os seus mandatos, os sábios politólogos que aparecem nas televisões e ocupam espaços nos jornais têm lançado alvitres e, de uma forma geral, lá vão coincidindo quase todos, dado que há nomes que, na verdade, só com grande falta de realismo de José Sócrates é que não chegou ele próprio à conclusão de que uns tantos mereciam, há já bastante tempo, ter partido para outras tarefas.
No caso da Educação, até eu me atrevo a afirmar que a Ministra, teimosa e turbulenta, não pode continuar naquele posto. Já chega de tamanho mau desempenho!
Quem vem a seguir, neste momento em que escrevo, não sei. Mas, seja quem for, uma coisa deveria vir na cabeça de quem substituir a Senhora que deu tão má conta de si: a necessidade absoluta de reduzir, de maneira substancial, toda a livralhada que a rapaziada é forçada a carregar todos os dias nas mochilas, não só pelo peso mas sobretudo pelo que custa aos encarregados de educação pagar elevadas verbas que, no tempo dos mais antigos, não atingiam, nem de longe nem de perto, as quantias que nesta altura são exigidas. Eu bem me lembro de que, tendo até uma irmã mais velha que andava um ano avançada dos meus estudos, e em que eu aproveitava bastante dos livros que tinham passado pelas suas mãos, o que queria dizer que a mudança de títulos não era tão grande e que se podiam aproveitar os utilizados na época anterior. A verdade também é que os desse tempo não aprendiam menos do que os estudantes de hoje. Alguém tem dúvidas?
Deixo, pois, aqui o alvitre que poderá ou não ser levado em conta pelo novo Ministério da Educação. Mas há outro na mesma área política e que considero da maior importância: para que, em Portugal, se enraíze no espírito dos mais jovens a prática da Democracia, ou seja o respeito pelas opiniões dos outros e o saber ouvir para, só depois, responder. E como é de pequenino que se torce o pepino, é desde as classes infantis que se deve começar a criar uma disciplina em que esse comportamento constitua uma maneira de tudo ser feito para se proceder à mudança daquilo que nós (e todos os povos latinos, de uma forma geral) temos dificuldade em utilizar no dia-a-dia.
Se Sócrates ficou tão ufano por ter imposto a aprendizagem da língua inglesa desde as escolas primárias, teria sido útil se lhe ocorresse proceder a esta modernização no ensino, começando ele próprio por dar umas espreitadelas às aulas, aceitando humildemente que os 35 anos depois da Revolução não foram ainda suficientes para que os portugueses se compenetrasse de que, mesmo com os três séculos que levam os ingleses com tal prática, ainda lhes foge, de vez em quando, o pé para se esquecerem de alguma das principais regras.
Oxalá, dentro das enormes dificuldades que vão surgir com a governação que se aproxima e sem maioria, o indicado primeiro-ministro consiga reunir um Executivo com gente que não seja apenas formada por um grupo de incompetentes. Eu, por mim, temo muito que haja escolhas mal pensadas. Já apareceu um nome que me faz duvidar bastante da qualidade dos escolhidos. É alguém que já foi do CDS, que já esteve num governo e fez muito má figura e está sempre disposto a ocupar um emprego desses. Eu aguardo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

FADO

De onde vens tu, ó fado
e como apareceste ?
Caíste bem no agrado
e como sobreviveste ?

Terão sido os muçulmanos
que p’ra cá te arrastaram
com os ventos africanos
se foram mas te deixaram ?

A guitarra portuguesa
que nunca falta no fado
alguém terá a certeza
como veio, de que lado ?

Com as dúvidas que temos
e só com suposições
a verdade é que soubemos
fazer bonitas canções

Muito chorosas é certo
sobretudo as mais antigas
porque eram o excerto
de amores perdidos, intrigas

E até como o flamengo
bem trinado com a voz
tinha ares de mostrengo
só merecedor de dós

Na cidade de estudantes
Coimbra tradicional
surgiram os praticantes
de um fado não igual

Mais galante, amoroso
cantado às raparigas
esse fado bem baboso
manda o estudo às urtigas

Mas o fado de Lisboa
cantado pelas vielas
nos ouvidos ‘inda soa
mesmo sem usar chinelas

Com os anos foi mudando
os poemas melhorados
foi-se até marquesando
nos salões eram cantados

Do povo passou p’rá alta
nas touradas, nos salões
passou-se a ver o peralta
a cantar suas paixões

Com Amália, já perto
alinharam bons poetas
e foi então descoberto
que essas eram boas metas

E qual será o futuro ?
Fica-se com ansiedade
de saber se qualquer muro
que não tenha piedade
travará a caminhada
bem longa do belo fado
dará como acabada
a senda de um bem amado

Ó fado antigo e castiço
pertences ao teu Magriço



GANHAR AUTÁRQUICAS



Vai parecer uma presunção aquilo que eu vou aqui escrever e talvez seja, mas quando se faz uma afirmação completamente convicto de que não se andará muito longe da verdade, neste caso sempre se pode aplicar uma certa dose de desculpa, sobretudo se não se compreende o motivo por que os múltiplos candidatos às eleições autárquicas que tem havido e agora se perfilam para novas eleições não se lembraram, nenhum deles até agora, de incluir nos seus programas uma tão simples forma de convencer, neste caso os lisboetas, de que se trata de uma simples propostas que caria no agrado de uma enorme maioria.
Vou já explicar aquilo a que me refiro. Como saberão os leitores habituais dos meus diversos escritos, já neste blogue mas, desde sempre, em várias colunas dos jornais, para não falar já naquele de que fui director, “o País”, uma luta permanente que tenho mantido é contra aquilo a que se chama de “calçada à portuguesa” e que, nem mais nem menos, do que ver pedras colocadas uma à uma e acertadas nas mãos dos calceteiros, por esses operários que, de cócoras, se vêm, desde tempos recuados, a fazer esse trabalho tão pouco estético, e cujo resultado é o de andarem os peões a torcer permanentemente os pés, sobretudo as mulheres, com os seus sapatos de saltos, e em que, com frequência, se magoam tornozelos, quando não levam ao chão os mais idosos. Isso, porque as pedras nem sempre ficam direitinhas no solo, mas, quando isso não sucede, com os tempos vão saindo dos lugares e logo um buraco é aberto, com a terra a espalhar-se pelas calçadas. E assim fica por tempos infinitos.
É bonito, sim senhor, ver os desenhos em pedra preta que dão feitos com moldes e que, em locais centrais, como o Rossio, os Restauradores, até o Terreiro do Paço e outros bem situados, dentro e fora da capital, se justificam, obrigando a que exista uma vistoria assídua para emendar o que, com o tempo, se vai alterando. Quanto a esta atitude estou perfeitamente de acordo, não desculpando, no entanto, que o desmazelo tome conta de tais arranjos.
Agora, voltando ao assunto das candidaturas à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, a minha proposta ganhadora se me colocasse na posição de concorrente era a de que, salvaguardando as excepções para os locais que merecessem essa referida calçada, me comprometeria a contratar com fábricas de placas com os desenhos que se vêem feitos com pedra e a fazer a aquisição desse material e a substituir o que hoje está espalhado pela ruas lisboetas. Se não existe ainda no nosso País tal indústria, pois seria muito fácil obter a informação lá fora, por exemplo em Espanha, e promover o fabrico entre nós, criando até postos de trabalho novos, onde seriam empregados os actuais calceteiros, aqueles que sobrassem da prática especializada de utilizar as pedras nas excepções que se abrissem.
Vamos a ver o que os proponentes para ocuparem os lugares cimeiros das câmaras municipais serão capazes de mostrar na fase da competição que devem aproveitar. E, no caso de Lisboa, não estou muito confiante que os situados no primeiro plano nessa disputa tenham a imaginação suficiente para apresentarem uma proposta semelhante. E como, provavelmente, não lêem este meu blogue, o que perdem é esta achega que aqui deixo.
Claro que os concorrentes que aguardam pelo dia das eleições autárquicas que se aproxima, esses também sabem tudo. E não precisam de se informar do que os cidadãos mais gostam! Para quê obterem esta informação?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

CINZAS

Em novo pensava que era outro o fim
E que longe estava
Todo o mal da Terra que fosse ruim
Que a si não chegava

Com pai e com mãe e uma irmã mais velha
Lá ia crescendo
Nessa altura ainda com grande guedelha
E no mundo crendo

E chegou o momento de ir para a escola
Credo, por sinal
Com papéis, mais papéis dentro da sacola
ERA natural

Passava em exames e ia seguindo
Sempre bem discreto
Que o tempo, por sinal, corria fugindo
Sem deixar afecto

Lá ia à Igreja rezar sem fervor
Que bem o mandavam
Fez tudo a preceito e Nosso Senhor
Sabia que erravam

E até em latim ajudou à missa
Tamanho enfado
Como era à força, grande injustiça
Enorme pecado

Estudando lá foi pela vida fora
Cumprindo a preceito
Não desperdiçando uma única hora
Levada com jeito

O mundo em guerra trazia cuidados
Morriam as gentes
E havia que optar por um dos dois lados
Por uma das frentes

Desde tenra idade era o social
Que o preocupava
Para acabar a fome nacional
Que então lavrava

Mas o trabalho impunha-se sem dó
Era um dever
E a enfrentar a vida fazia-o só
Sem tempo a perder

Passados momentos com pouca história
A ganhar balanço
A escrita e os estudos de boa memória
Não davam ripanço

Os anos e a vida foram-no formando
Numa vertical
Os acontecimentos foram ajudando
A ver o Graal

E lá foi vivendo baixos e altos
Escrevendo e lendo
Sem renegar vários sobressaltos
Que foi sofrendo

Ser contra o regime tinha o seu preço
Um custo pesado
Mas não se podia virar do avesso
O já instalado

Os jornais, enfim, eram o grande sonho
E estudar bem alto
Em simultâneo parecia medonho
Grande sobressalto

Tudo em conjunto lá ia levando
Forte correria
E a si próprio ia demonstrando
Podia, queria

E no jornalismo correu as escalas
Que bom p’ra aprender!
Não foram precisas quaisquer bengalas
P’ra saber crescer

Muito novo ainda era director
De uma revista
Como da Censura não tinha temor
Surgiu-lhe a pista

Chegou a altura de dar-lhes motivo
Actuavam, claro
Com a PIDE activa sempre no activo
Fez-lhe pagar caro

Ficha bem cheia lá nos seus arquivos
De outras andanças
Fê-lo dançar como a outros plumitivos
A contradança

E mais de uma vez passou p’los calabouços
Estava escrito
O que chamavam os solícitos moços
De grave

Abril chegou e quem tinha lutado
Contra o Estado
Por não ser possível estar conformado
Nem mesmo calado

Zangou-se com os revolucionários
De pacotilha
Foi criador e fundou dois semanários
E um foi cartilha

E a vida passa sem tempo a perder
Mais e mais veloz
Mesmo que não queira pôr-se a correr
Para o fim atroz

Esse o fim a que não escapa
Tudo que é deste mundo
Por mais que passe à socapa
Sem ter de ir muito ao fundo
No jazigo, cova ou fogo
T’arrenego oh enguiço
Não se diga que é um jogo
São cinzas, apenas isso
O começo e o fim da vida
No fundo é um passadiço
Sem volta, somente ida
Não passa de um compromisso