quinta-feira, 20 de agosto de 2009

VELHOS E NOVOS




Chegar a uma idade enfastiante, com setenta e tantos anos e pedir a quem quer que seja que tenha condições para ouvir la do alto e dar resposta para não se avançar mais para diante, ultrapassar os oitenta, então, será um horror, viver nessa angústia é asfixiante, por muito que a cabeça esteja ainda no seu sítio e que, por via disso, funcione, pense, dê ainda resposta ao que dela se pede – com excepção dos esquecimentos, que esses são a demonstração permanente de que existe uma parte do cérebro que anda distraído -, ter passado todo esse tempo não perdendo de vista aquele que ainda estará à frente para percorrer, tudo isso não constitui razão para que exista alguma ânsia para que o tal momento surja, ainda que sem dar muito nas vistas e o ideal será até que ocorra uma manhã em que o acordar não se verifica.
Mas, ao mesmo tempo, sabendo-se que Moisés dirigiu o Êxodo aos oitenta aons, e que Rubinstein interpretou magistralmente Chopin, com noventa, e que, com uma elevadíssima idade, Goethe, terminou essa obra imortal que é o “Fausto”, isto entre tantos outros autores de grande nomeada que, já no fim da vida, produziram o que se mantém ao longo dos séculos, contemplando tais feitos, mesmo sem efectuar qualquer tipo de comparação, alguma consolação renasce no nosso período de velhice.
Mas, por outro lado, também darmo-nos conta de que a juventude de hoje, aquela que é agora o que fomos nós noutros tempos, com as enormes diferenças que não podem deixar de ser notadas, sem sabermos se é mais fácil hoje encontrarem a felicidade do que aquilo que se passou connosco na devida altura, constarmos que essa onda de jovens se vai debater com problemas que eram impensáveis cinquenta anos atrás, como por exemplo o que se anuncia que vai constituir uma aflição do próximo futuro, o ser considerada a água um bem escasso, entre outros factores como o aquecimento global, não pode deixar de nos fazer reflectir sobre a sorte que temos de não fazermos já parte desses tormentos quando os mesmos tocarem o mundo.
Esse é um tormento que os mais velhos acumulam com um sentimento simultâneo de inveja e de pena em relação às rapaziadas de hoje, se bem que esses, tendo as perspectivas de vir a alcançar a idade que nós temos hoje, nada nem ninguém lhes garante que tal consigam. Mas o que sim tem de constituir uma ambição e uma esperança é que, caso o Homem consiga solucionar os problemas graves que se anunciam hoje, pois o seu espírito inventivo promete que, até os bons pratos gastronómicos que são nos dias de hoje as delícias dos apreciadores e nós, os portugueses, bem sabemos o que isso significa, venham a ser substituídos por pastilhas de bacalhau com batatas e outras e bons vinhos por uns pós que venham a ser inventados.
E o excesso de população que, de dia para dia, constitui uma ameaça para toda a humanidade, essa ameaça terá de ser resolvida, por ventura, com a invasão da Lua e de Marte, pois cá já não cabem os residentes terrestres.
Perante tão arrepiante panorama, o melhor é conformarmo-nos por não passarmos muito mais tempo por cá. Pode ser que haja forma de assistir, do outro local onde se repouse, às modificações que se operarem na Esfera terrestre. É a esperança que ainda envolve aqueles que têm a sorte de ter alguma fé, seja ela qual for.
Por agora basta-nos fechar os olhos e pôr a imaginação a funcionar. E, para alguns, aqueles que se julgam com capacidade para deixar certa coisa feita, então que o façam. Pode ser que nem tudo se perca e que, daqui a certo tempo, sobretudo agora com os arquivos nos discos dos televisores, se descubra que não foram devidamente honrados os trabalhos que mereceriam algum mérito.
Que sejam os velhos a dizer isto, já que os novos não se preocupam, não têm tempo, não dão importância. E ainda bem.

MERECEMOS A JUSTIÇA QUE TEMOS?



Cada vez que o tema da conversa dos portugueses assenta sobre a questão da Justiça que existe em Portugal, não deve haver muita gente que se considere satisfeita com a actuação desse importante sector da vida nacional. E isso não é só de agora, há muitos anos que se verifica uma ausência de capacidade de execução por parte dos diferentes intervenientes da aplicação de uma Justiça minimamente capaz, não excessivamente demorada e que dê confiança aos cidadãos de molde a não duvidarem das decisões dos Tribunais.
E, nesta altura, quando surge perante as câmaras de televisão o responsável principal do Governo pelo referido ministério, piscando os olhos e fazendo afirmações que não conduzem a nenhuma conclusão, então o afastamento dos portugueses em relação ao mínimo de confiança é ainda maior e até se compreende o motivo por que tudo caminha de mal a pior e são os próprios magistrados que, quando têm coragem para mostrar a sua opinião, atacam as circunstâncias que não se modificam e que os colocam em má posição perante todos nós que aqui vivemos.
E como o programa do PS, em relação às próximas eleições, segundo textos já publicados da autoria de juízes que sabem do que falam, e que afirmam que se trata de “mais do mesmo”, que é como quem diz, nada surge que mostre melhoras na Justiça, deparando-se que o século XXI não entrou ainda na cabeça dos que prepararam o referido documento.
Os quatro anos que decorreram durante o período legislativo que está a terminar não serviu rigorosamente para nada no sentido de serem introduzidas alterações profundas, sobretudo quanto à redução dos prazos de decisão dos processos. Sobretudo o Código do Processo Civil, que tanto precisava de sewr mexido, manteve-se na mesma em todo esse tempo. E um Governo que não foi capaz de analisar este problema e todos os outros que são os causadores das vergonhas a que se assistem no que se refere aos tempos de espra por soluções nos tribunais, esse Executivo não merece que seja de novo votado para repetir as asneiras.
Pode-se não saber quem será capaz de arregaçar as mangas e fazer o que tem de ser feito, mas insistir em que tanto faltou é que não parece ser aconslhável.
A situação do que se verificou com o problema Casa Pia – e não só esse -, é de tal maneira vergonhoso que não pode haver desculpas para uma calamidade daquela dimensão.
Um País sem Justiça capaz não pode constituir uma garantia para ninguém e muito menos para os seus compatriotas. E todo o resto que faz parte de uma Nação tem de sofrer as consequências de tanto desleixo. A crise económica que atravessamos é, na realidade, um pesadelo que tanto nos aflige, mas a situação da má Justiça que ninguém é capaz de solucionar também representa um martírio que não deixa que as restantes áreas populacionais se desenvolvam de acordo com a época a que chegámos e ao ano em que já estamos.
Se parámos no tempo, alguma coisa é devido à péssima Justiça que temos. Ela não é a culpado de tudo mau que temos por cá, mas que uma grande parte é da sua inteira responsabilidade, disso não se livram os que tinham obrigação de ter feito muita coisa e acabaram por não fazer quase. Nada. Não têm desculpa possível e só se espera que os responsáveis por isso não venham, após o acto legislativo, a ocupar lugares de altos vencimentos… e grandes regalias. Como é costume!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

JUNTAS DE FREGUESIA



Em face das eleições que se aproximam e que visam escolher os responsáveis principais nas zonas municipais, os concorrentes aos lugares cimeiros dessas Câmaras que estão espalhados pelo País, subordinadas aos partidos que os propõem, fazem as suas promoções com o objectivo de conseguirem a maioria de votos suficientes para obterem boas posições e, com isso, se classificarem nos postos principais de molde a que as assembleias municipais sejam dominadas e, por esse facto, o apoio aos presidentes constitua uma força dominadora. Esta é uma verdade de todos conhecida.
Perante tal regra e, do mesmo modo que nas restantes disputas eleitorais, os grupos partidários dão o seu melhor para atingirem o que mais desejam e que é, naturalmente, terem mais domínio do que os concorrentes na execução das tarefas que cabem em cada situação.
No caso da Câmara Municipal de Lisboa sucede exactamente o mesmo do que nas restantes que se situam por Portugal fora, e, por ser este caso o mais destacado no panorama geral, as atenções prendem-se às disputas que são relatadas pela comunicação social, e em particular, pelas televisões. A frontalidade do Santana Lopes, alguma confiança do António Costa, o apoio da Helena Roseta e também a argúcia por parte do Bloco de Esquerda, todos estes espectáculos televisivos têm procurado transmitir os pontos de vista de cada um dos grupos em confronto. Tudo bem e cada um procura ser o mais convincente possível.
No entanto, aqui nesta posição e apenas como munícipe, eu vou dar a minha achega: e é a da distância em que se mantém este município alfacinha dos cidadãos que têm a capital como seu ponto de residência. Trata-se, nem mais nem menos, da falta de relacionamento que têm as Juntas de Freguesia em função de cada zona que faz parte do seu mandato. E eu por mim falo.
Na verdade, se nas terras da província, sobretudo nas mais pequenas, toda a gente se conhece, já o mesmo não sucede na nossa cidade alfacinha. As freguesias já têm uma dimensão que não permite, sem ser por iniciativa própria dos presidentes das Juntas, o contacto com os diferentes munícipes. E é precisamente essa falta que eu considero grave e que, nas propagandas feitas pelos partidos que concorrem ao acto que se aproxima, não se verificou ainda uma proposta nesse sentido.
A Câmara Municipal de Lisboa devia dispor de uns serviços exclusivamente destinados a apoiar as Juntas de Freguesia e de lhes transmitir ideias que constituíssem aumentar o contacto e o conhecimento das famílias que fazem parte de cada aglomerado. Por seu lado, de fora para dentro dos municípios, conviria que as necessidades que fossem mais salientes passassem para o conhecimento da Casa-Mãe e dela serem obtidas as ajudas possíveis. Dirá o Município lisboeta que já diospõe de tais serviços. Pois se sim, não se dá por isso e o que importa não é que existam dependências, mas sim que funcionem bem.
Lisboa, que poderia ser uma cidade exemplar, até em relação às estrangeiras, pela sua situação geográfica, com um rio Tejo a seus pés e as sete colinas a embelezarem todo o conjunto, tem vindo, ao longo da sua existência e especialmente nos últimos cinquenta anos, a perder qualidade e a não serem aproveitadas as suas características particulares. As flores, por exemplo, não têm sido do agrado dos responsáveis municipais. Mas muito mais coisas do que isso. E eu bem tenho lutado, ao longo de muitos anos, pela melhoria da actuação dos responsáveis. Mas em vão…
Por isso, tenho proposto e insisto nisso que as Juntas de Freguesia cumpram o seu papel de aproximação dos cidadãos que residem nas respectivas áreas, não esperando que eles os procurem mas, pelo contrário, ps visitem e se proponham ajudar naquilo que for necessário.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

FELIZ OU INFELIZ



Haverá quem se preocupe em perguntar a si mesmo se conseguiu atingir a felicidade na vida ou se lhe calhou a outra face da moeda, isto é, se não alcançou sentir o prazer de gozar essa coisa de ser feliz. Poderá ser que, ainda que raramente, penso eu, exista gente que procure descobrir uma resposta a esta pergunta ou, no mínimo, queira tirar dúvidas que atormentem os pensamentos. É que não será fácil estabelecer os dois pratos da balança e colocar neles aquilo que cada um entende que pode fazer parte de ambas as situações. E como, naturalmente, o ser humano atravessa, ao longo da sua vida, situações que se podem encaixar numa ou noutra categoria, bastará ter a capacidade de somar a quantidade e a intensidade das duas fases e tirar a súmula para poder ver qual delas suplanta a outra.
Esta explicação é um pouco confusa, mas será o que se pode encontrar para tentar definir o que cada um considera ser a felicidade e a infelicidade.
O que será mais certo, porém, é que a maioria esmagadora dos habitantes terrestres não se debruce sobre essa questão de apurar qual a condição em que se situa a sua vivência. E ainda bem que o faz, pois, tal preocupação só serviria para, mesmo sem poder ser caso desesperado, grande parte dos cidadãos passar a ter uma vivência dentro do maior descontentamento. Os ricos, então, aqueles que só têm de se preocupar em ir acumulando mais fortuna e em salvaguardar a que conseguiram utilizando os meios financeiros que tal propiciam, tais fulanos devem viver envolvidos numa constante inquietação, consultando permanentemente as tabelas bolsistas e apanhando sustos frequentes sempre que a sua escolha temporária am acções não foi a mais indicada para resguardar o que antes foi adquirido em boas condições. E, no capítulo do relacionamento com outras pessoas, especialmente se se tratam de seres sem comparação possível quanto a haveres, a dúvida no que respeita a poderem depositar confianças nesses companheiros ou se o relacionamento deles só tem fundamento por se sentirem protegidos pelo contacto com quem lhes pode valer, se um dia for preciso. Com esses amigos mantêm sempre uma margem de dúvida, não entregando abertamente o seu coração, como aconteceria se não existisse preponderância de fortuna, de um em relação ao outro. Digo isto, porque tal posição já me foi comunicada por alguém que se angustiava com esta interrogação.
De facto, a felicidade é mais fácil de descobrir em gente desprovida de grandes valores materiais. E, não será descabido afirmá-lo, quanto mais ínfima é a sua situação, talvez mais perto de ser feliz se encontre tal criatura. Desde que tenha saúde, é preciso acrescentar, pois que esta é a base do afastamento de aflições e de existir uma preocupação permanente que não pode retirar desprazer da vida que se leva.
Sempre imaginei que o pastor, aquele que vive com o seu gado, que não toma conhecimento das notícias desagradáveis que a comunicação social transmite todos os dias, que fala com o seu companheiro, o cão, que, fiel como são estes nossos amigos, não lhe dá desgostos, que, na sombra de uma árvore protectora, a hora própria, come as suas fatias de pão, acompanhadas de troços de um belo queijo e bebendo uns golos de um vinho que não lhe custou muito caro, embora seja bom, esse guardador de gado poderá ser o indivíduo deste mundo que mais perto se encontra da tão desejada felicidade que os bem situados na vida muito procuram.
Mas o mundo está repleto de contradições e de injustiças. E o Homem é o grande culpado de contribuir para que o invólucro humano não permita que os habitantes terrestres atravessem as existências com menos infortúnios e com pleno prazer de por cá passar uma temporada.
Há as felicidades temporárias e até momentâneas. Jogar numa lotaria e ser premiado com uma boa quantia, constitui um desses prazeres que quase toda a gente aspira. O pior é depois. É o ocultar essa sorte, até da própria família, pois o receio de vir a ser “atacado” com pedidos de ajuda, com propostas de negócios, e até o medo de poder ser assaltado por profissionais do roubo que tomem conhecimento da ocorrência, tudo isso transforma uma felicidade na maior amargura que até então se teve.
Por todos estes factores, cabe-me a mim também pôr a questão de pretender saber se a felicidade me bateu à porta ou andei sempre por caminhos diferentes. E, pior do que isso, não encontro resposta para indicar a via que eu procuraria descobrir. Como, ao longo da minha via sacra sempre lá fui conseguindo obter alguns resultados com as minhas actuações, c om imenso esforço e enormes sustos, não escondo, mas tenho de reconhecer que lá consegui ultrapassar várias fasquias que a andança pela vida coloca no nosso caminho, mas, não o escondo, tendo sempre pela frente a luta para ultrapassar as dificuldades, especialmente as de recursos financeiros escassos em relação aos mínimos exigidos em cada caso, apesar disso não posso considerar que a felicidade me acompanhou todo o tempo, pois os sustos que se apanham sempre que parece que se está numa fase em que não se consegue vencer os contratempos, esses sobressaltos não conseguem tapar a sensação de infelicidade.



segunda-feira, 17 de agosto de 2009

FÉRIAS


Por mais que queira condescender e tentar entender a maneira de actuar de algumas personalidades que, por via da sua actuação, se encontram permanentemente na montra, muitas vezes me custa aceitar que essa gente não cuide de tomar todas as cautelas, no sentido de não prestar argumentos desfavoráveis à população que, sobretudo neste período difícil da vida quotidiana, mais atenta e crítica se encontra e, por isso mesmo, muito mais débil no capítulo de não abrir margens de desculpa aos faltosos, especialmente se se tratam de figuras políticas..
No caso do primeiro-Ministro, é óbvio que estas críticas surgem com mais facilidade. Ninguém tem de se admirar face a esta realidade. Por isso, a notícia, até com fotos e custos da diária das férias escolhidas por José Sócrates e a sua família, que excedem os 1.000 euros diários, isso na ilha espanhola de Menorca, no Mediterrâneo, tal informação que surgiu na Imprensa portuguesa não pôde deixar de criar um ambiente de má vontade contra quem tem a enorme obrigação de preferir passar férias cá dentro e de não dar exemplos negativos, especialmente agora que se torna obrigatório aos portugueses deixarem-se de luxos e fazerem todos os possíveis para não gastar fora do País.
Não quero ir mais além do que isto. E, numa altura em que estamos em vésperas de eleições, ainda mais confuso fico ao constatar estas atitudes de Sócrates, ao mesmo tempo que, por outro lado, me deixa grandes dúvidas a atitude de Manuela Ferreira Leite que, também nm momento de enorme preocupação para conseguir animar os portugueses a votarem PSD, mostrou aquela atitude que, dentro do seu próprio partido, levantou desentendimentos no capítulo das escolhas dos representantes aos lugares políticos fieis à sua bandeira.
É por isso que me pergunto muitas vezes que responsáveis partidários merecem o voto dos portugueses a fim de conseguirem, na próxima legislatura, cumprir com o mínimo respeito democrático por forma a levarem com competência a condução de Portugal com eficiência.
Claro que existem outros espectros que talvez mereçam ser levados em consideração para efeitos de escolha nos lugares que se prestam a ser ocupados. Não vou aqui referir quais, mas a negativa do PCP em fazer parceira com o PS, com o objectivo de se conseguir aí uma maioria e o BE também não se mostrar muito disponível para tal, a preocupação em relação ao pós-eleições tem de ser devidamente pensada.
Porque ficarmos com um País ingovernável, isso é que não aponta para um futuro tranquilo. É essa a gravidade!...

domingo, 16 de agosto de 2009

HOMENAGENS



Se se perguntar a qualquer pessoa se prefere ser homenageado depois de morto ou antes de partir desta vida, naturalmente que a resposta mais esperada será a de que as honrarias devem chegar enquanto por cá andamos e não quando já não podemos assistir e deslumbrarmo-nos com tais manifestações em nosso louvor.
Porém, segundo se toma conhecimento pela leitura dos factos históricos e, ainda no nosso tempo, por termos assistido a tais situações, verifica-se que um grande número de casos ocorreu e ocorre quando os visados não pertencem já ao número dos vivos. Mais recentemente e tratando-se de um português ilustre que bem merece situar-se num ponto bem alto dos valorosos portugueses, temos o exemplo de Fernando Pessoa que, enquanto por cá andou e ia tomar o seu cafezito ao Café da Arcada (agora em vias de desaparecimento devido às obras do Terreiro do Paço) e ganhava a vida como ajudante de guarda-livros num escritório na Baixa lisboeta, nessa altura só uns muito poucos se deram conta de que ali estava um escritor e poeta de grande nomeada, a que os editores não ligavam importância, pois só certo tempo após a sua despedida da vida é que lhe começou a ser dedicada alguma atenção para, passados anos, se ter verificado que ali esteve um homem de enorme importância intelectual.
O mundo é assim e este fenómeno não foi nem será um exclusivo nacional. Muitos acontecimentos foram denunciados ao longo dos anos e sabe-se lá quantos não poderiam ter sido encontrados se as circunstâncias da vida tivessem proporcionado descobertas idênticas.
Temos de concluir, por isso, que, apesar das injustiças cometidas com as não reveladas vocações e as genialidades que terão passado desconhecidas pelos quatro cantos da Terra, sempre será melhor que sejam lembrados os que, mesmo não podendo usufruir do prazer de ver-lhes ser prestado o agradecimento devido, apesar disso sempre os outros acabaram por descobrir um valor por mais tardiamente que seja.
O que ocorreu há pouco com as hossanas cantadas a Raul Solnado que, apesar de tudo, não levou de que se queixar, pois em vida não foi totalmente desprezado, coisa que não ocorreu com muitos dos seus colegas de igual valor ou mesmo mais destacáveis, como José Viana, por exemplo, mas temos tantos ao longo das vidas artísticas de que a juventude de hoje nem sabe que existiram, esse exemplo serve de prova de que os que morreram são mais importantes do que aqueles que ainda se encontram vivos.
Tudo isto serve para dizer que, mal por mal, sempre é melhor ser-se reconhecido quando já somos cinzas do que nem aí os outros encontrarem razão para se recordarem dos que cá é deixado com algum valor, quer se trate de descobertas científicas, quer sejam escritores e poetas, ou tenham sido pintores que nunca conseguiram chamar a atenção dos que estão vivos.
O que se passou depois da morte de Michael Jackson, esse um americano que arrebatou populações, daquelas que quando gostam perdem a cabeça e os que não entendem tais fúrias permanecem nos seus cantos, verificamos que os mistérios criados com o seu desaparecimento têm dado muitas fortunas a alguns, familiares e outros, tal caso também pode suceder e não há que procurar razões sensatas para explicar esses fenómenos.
A vaidade, ainda que depois de já não poder ser exibida, sempre é um defeito ou uma virtude que, quanto mais não seja, podem ser os familiares e amigos a puxá-la para si.

sábado, 15 de agosto de 2009

MEDINA CARREIRA



Medina Carreira, por mais amargo que seja, por muito pessimista que surja e por tanto desconsolado que se mostre, no fundo não deixa de ter razão. O que não quer dizer que, se fosse chefe de Governo, teria possibilidade de fazer aquilo que proclama ser essencial.
É verdade que os capitais que participam nas formações de empresas e que tanto necessitamos de receber vindos de fora, sejam c convenientemente acolhidos no nosso País e que uma eficiente e bem exposta programação junto dos potenciais investidores que existem pelo mundo possa ser apresentada nos mercados onde existe a possibilidade de serem conquistados E é para isso que o AICEP existe. Mas, antes de tudo, como diz Medina Carreira, é forçoso que saibamos as razões por que os capitais fogem de Portugal e, ao estar de posse desses elementos, tudo fazer para criar as condições que aliciam os investidores a dar o passo que desejamos.
É evidente que são muitos os obstáculos que existem no nosso País e que não animam os dinheiros de fora a serem colocados no nosso território. Ninguém arrisca um cêntimo que seja se não está seguro que o local onde pode aplicar os seus valores e conhecimentos dispões de mecanismos que proporcionam as condições ideais para tudo correr sobre rodas. E, nesse aspecto, todos nós sabemos que Portugal prima pelas dificuldades burocráticas que cria ao menor passo que se pretenda dar para abrir uma empresa e, depois dela existir, fazer com que não existam impedimentos para o seu andamento legal. Gostamos e sempre gostámos de dificultar a vida daqueles que dão provas de poder criar empregos e desenvolver iniciativas que constituam a criação de riquezas.
É verdade que um Governo, o que possa vir a nascer das próximas eleições, que se dedique a facilitar o nascimento e a vida das empresas, não só as grandes mas também as pequenas, só por isso deve merecer a preferência dos eleitores. E é isso que ainda não foi entendido por todos aqueles que se estão a predispor para concorrer à governação de Portugal. É pena. É triste. Mas demonstra bem como os políticos que existem por cá não são capazes de entender com profundidade aquilo que o nosso País necessita urgentemente.
Não vale a pena dizer mais nada. E ficamos todos a ver decorrer as campanhas que já se iniciaram e as que ainda virão, para analisar se algum partido entendeu o que constitui uma forma de poderem ser ganhas eleições. Nem sei mesmo se Medina Carreira, se estivesse colocado num lugar que lhe pudesse proporcionar a tal chefia, seria capaz de transformar a sua tese em medida prática. Com a AICEP que temos e seguindo uma actuação – aliás que nos sai bem cara – com vários escritórios espalhados pelo mundo, tenho dúvidas de que saibamos fazer o trabalho que, desde o início da sua existência, nunca foi capaz de cumprir com êxito. Era necessário formar todos os funcionários que se encontram lá fora, de modo a que fosse feito um trabalho que resultasse em verdadeiros benefícios para o nosso pobre País.
Já estou como Medina Carreira. Pessimista que dá pena!...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

DAR TEMPO AO TEMPO



Isto de sermos escravos do tempo, de estarmos sempre dependentes das regras que nos são impostas pelos relógios, de termos de obedecer ao que nos é estipulado por aquilo que consideramos obrigações em relação aos outros, a escravatura de não podermos ter as nossas próprias vontades, sejam quais forem as condições de vida que seguimos, é isto que, ao nascermos e durante todo o período que nos é atribuído até à data definitiva da partida, ninguém, sobretudo os que gozam de uma situação de benefício material desafogada, pode fugir. Se atendermos bem ao fenómeno da existência, serão até os mais desfavorecidos, aqueles que serão classificados como pobres, e até mesmo os miseráveis aqueles que gozam do privilégio de não estarem tão sujeitos às obrigações impostas pelo tempo. Quem sofre os efeitos da fome, da falta de um tecto, do abandono total das mínimas condições de vida, serão esses os que não necessitam de estar sempre atentos ao relógio, aos compromissos de faltar a um encontro ou de se apresentarem num local de trabalho.
Essa preocupação do “já ser tarde” ou do “ainda ser cedo”, de nos faltar o tempo ou de sobrar um bocadinho para podermos fazer ainda qualquer coisa antes, essa escravidão dos horários é uma constante que coloca os seres humanos, em todo o seu período de vida, sujeitos a um tiquetaque desses horrorosos aparelhos que, quer sejam umas simples “cebolas” sem valor material ou tratando-se de objectos de verdadeiro luxo, e neste caso, silenciosos e traiçoeiros, cobertos de material precioso, constituem, de igual modo, o ordenador do cumprimento de regras a que o Homem obedece sem discutir.
Se, para vir a este mundo, não estará rigorosamente definida uma hora, já quando se trata da despedida, o horário das cerimónias dos adeus e da guarda em local próprio ou da transformação em cinzas, isso obedece a cumprimento das marcações estabelecidas antes pelas organizações que se encarregam de todos os pormenores das partidas.
E enquanto por cá andamos, havendo os que são cumpridores rigorosos dos encontros marcados e aqueles que se atrasam sistematicamente e que sempre aparecem com desculpas que têm de ser aceites, pois só acontecem a eles, os contrários, por sua vez, põem má cara quando passa um minuto da hora estabelecida e, muitas amizades já foram desfeitas pela simples razão de haver quem não respeite combinações feitas com horário acordado.
Há países, como a Suíça, por exemplo, em que o respeito pelo cumprimento dos horários classifica os cidadãos e aqueles que se mostram desligados dessa regra são colocados na posição de gente de pouco valor e não merecedores da consideração dos outros.
Marcar um encontro com alguém dentro do largo espaço “por volta das 9 horas” ou “lá para as 11 horas”, ou ainda “entre as 10 e as 11”, esse comportamento é muito próprio dos portugueses e entre nós ninguém se admira por lhe ser estabelecida essa maneira de encontro. Quem chegar primeiro que espere.
E isto de não ter tempo para nada, expressão que também faz parte do nosso estilo de conversação, sobretudo quando se verifica alguma falta a um compromisso assumido, serve bem de desculpa de muita gente que se vê permanentemente a gozar de largas folgas.
O ainda ser cedo para já ser tarde deveria fazer pensar aqueles que se afligem com a escassez de ocasião para executar alguma tarefa que têm em mente, pois quer dizer que falta muito tempo para se chegar ao fim da viagem. Já o ser tarde para ainda ser cedo representa exactamente o contrário, ou seja que não vale a pena guardar para depois o que se tem de levar a cabo, pois o final da corrida está já à vista.
Dar tempo ao tempo é talvez o mais coerente que o Homem pode fazer. Não nos damos conta de que, afinal, nós próprios somos tempo e de que não nos podemos separar dele. Cada vez que dizemos que não temos tempo é o mesmo que dizer que não existimos.
O pior de tudo será quando constatamos, mesmo que vagamente, que o tempo se está a esgotar e que, sem olhar para o relógio, mal sentimos o tiquetaque do coração.


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

VENTO


Vento que sopras ligeiro
pões os cabelos à solta
és como aquele romeiro
que não se sabe se volta

que vai p’ra lá na estrada
em ligeira caminhada

Quando de mansinho vais
e não provocas pavor
ninguém pensa em vendavais
e menos no Bojador

vento nem sempre é chuvada
pode do ar ser lufada

Mas quando os deuses se zangam
e sopram com muita força
aí os ventos descangam
e não há quem não se torça

e a força da rajada
leva tudo de enfiada

Tal como o ser humano
só é bom o meio termo
moderado não faz dano
em excesso é um estafermo

a fúria de uma rajada
traz consigo a derrocada

Vento, vento és amigo
porque trazes as sementes
que acabam por ter abrigo
em locais que são nascentes

que são as melhores achadas
para as que estão despegadas

Os moinhos te aguardam
tua força dá a luz
dos mesmo que se resguardam
por baixo do seu capuz

sabem que uma ventoada
é boa se é bem usada

E o povo que é sábio
e que por vezes tem tento
diz sem ir ao alfarrábio:
palavras leva-as o vento


e até a própria abrilada
chegou numa madrugada…
…qual vento !

ORGULHO



Este é um País de orgulhosos. Por tudo e por nada, toda essa gente de cá que surge a prestar declarações, sobretudo na área da política mas não só, usa a expressão que mostra bem como somos todos uns contentinhos da silva com aquilo que é o produto das nossas actuações. Tornou-se um hábito, quase uma monotonia de expressão o afirmar-se que se está orgulhoso por isto ou por aquilo. E, nesse particular, o nosso José Sócrates, até agora no artigo que publicou no “Jornal de Notícias”, lá aparece a expressão tão do gosto daqueles que não têm dúvidas, que sempre estão convencidos de que aquilo que fazem é o único possível e aceitável que deve ser executado.
Eu confesso que não tenho grandes certezas de tudo o que faço. E, quanto ao que fiz, só depois de conhecer os resultados é que pude tirar conclusões sobre se se tratou da melhor opção ou se haveria outra que suplantava a que tomei. Mas como o arrependimento já não resolve as más escolhas, sou restava tirar proveito da lição e evitar que, de futuro, viesse a ser tomada uma dcisão equivalente.
Por isso, procuro não usar a expressão de ficar orgulhoso com alguma decisão que saiu certa, pois não fico seguro sobre se a próxima medida que me caiba tomar acabará por ser a certa ou não me equivocarei de novo. Enquanto estamos vivos, sempre que somos forçados a ter de optar por uma deliberação que as circunstâncias nos põem à frente, em cada um desses momentos, se temos consciência das nossas fraquezas, sendo obrigados a decidir damos o passo que não pode ficar no vazio. E se acertarmos, pois só temos que agradecer pela sorte que nos protegeu nessa altura.
Isso acontece, por exemplo, quando temos de aceitar a colaboração de alguém que se dispõe a prestar um serviço. Se acertarmos, melhor. Mas se a escolha foi desafortunada, pois não há outro remédio que não seja aceitar o que as circunstâncias nos proporcionaram. Em qualquer dos casos, o orgulho não é para aqui chamado.
A escolha dos elementos que, num Governo, fazem parte do elenco ministerial, também está pendente do acerto, se bem que conte, nesse caso, o conhecimento antecipado da qualidade das pessoas convidadas para os lugares. o que não constitui, de forma absoluta, uma garantia de que os resultados corresponderão ao que era esperado na altura dos convites. E também aí não há que ser orgulhoso da qualidade dos membros do Gabinete.
É, portanto, preferível não se ficar orgulhoso de nada, pois que mais vale argumentar com a sorte que foi favorável no capítulo de qualquer acção tomada e que tenha saído bem.
De gente orgulhosa devemos andar todos nós, portugueses, bastante fartos. Têm-se visto os resultados de tais orgulhos. É o País que temos e são as medidas que têm sido tomadas no decorrer dos últimos anos. Da mesma maneira que antes da Revolução, nós, os dessa época, temos bons motivos para exibir grandes orgulhos… Oh se temos!...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

JUDEUS

Sou feliz por ter amigos judeus
Aqui, no País e em Israel
Uns sendo crentes e outros ateus
Mas sempre com amizade fiel

São gente capaz, de alma bem pura
Gostando de ser aquilo que são
Sem perder nunca boa compostura
Tratando-me sempre como irmão

Só quem não quer ver não o acredita
Que sim, passou-se grande holocausto
Onde milhões sofreram a desdita
Depois de, um a um, ficar exausto

Antes a diáspora foi real
Por lá nos anos de mil e quinhentos
Esse rei Manuel foi-lhes fatal
Causando-lhes tantas dores, sofrimentos

Perderam eles, perdeu Portugal
A mais valia foi para além
Ficou-se por cá, neste lodaçal
E não lhes foi dada Jerusalém

Ganhou forais essa Inquisição
Que hoje tem um nome diferente
Andámos sempre no sim e no não
Sem ter chegado a um finalmente

Não sou judeu, porém melhor pensando
Chego a julgar que muito gostaria
De me poder aos poucos transformando
Num membro fiel de judiaria

Não que eu fosse total cumpridor
De regras como de ortodoxia
Bastava-me só ser um seguidor
Poder gozar de boa companhia

Com tal saber e tamanha mestria
Como provaram a todo o mundo
Não foi bastante tamanha sangria
Para os colocar lá bem no fundo

Foram inúmeros os Prémios Nobel
Mais do que os outros povos ganharam
Sempre lhes coube assim o papel
De calar muitos que os desamaram



terça-feira, 11 de agosto de 2009

PERDOAR


O perdão bem alivia
algo que pesa na alma
é menos uma agonia
sempre nos traz certa calma

Há porém que ter em conta
se é correcto o sentimento
sem ser algo que desponta
do fundo do fingimento

Tem sempre de ser verdade
e não algo fabricado
representar a bondade

E perdoar com vontade
não fazê-lo com enfado
menos por comodidade

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

PENSAR




Deixem-me pensar, ter memória
E calar o mundo ao redor
Matutar na minha história
Quero silêncio por favor

Coisas tristes e coisas belas
Numa corrida infernal
Apressado ou com cautelas
Tal o trajecto afinal

Parar para pensar, que bom
Se somente a nós pertencemos
Não se escuta nenhum som
E névoas é o que vemos

Se tudo o que passou por mim
E que guardei cá bem no fundo
Teve um princípio e um fim
É porque se deu neste mundo

Morrer a pensar bom será
Sobretudo em coisas belas

Pois quem cá ficar ficará
A acender as suas velas

PENSAMENTO



Ando seriamente a pensar em suspender, por uns tempos em princípio, mas também poderá ser em definitivo, este meu blogue que mantenho há já um certo tempo e que alimento diariamente. É que, metendo a mão na consciência, não chego à conclusão de que constitua alguma utilidade debitar aqui os meus pensamentos, transmitir aos outros aquilo que ninguém pediu para o fazer, dar opiniões que poderão encontrar-se bem distantes de um certo número de eventuais leitores, numa expressão simples, não estar a contribuir para melhorar em nada o modo de encarar a situação que vivemos no nosso País e que, por diferentes razões, mesmo que algumas soluções tenham sido abordadas nestes meus escritos, têm de ser pensadas e solucionadas por formas que cabem a cada família escolher.
É isso mesmo! Não me posso considerar como elemento indispensável, posição que, aliás, ninguém deve assumir e é natural que alguns me possam perguntar: quem te pediu a opinião?
Este texto tenho-o redigido há algum tempo. Tem-me faltado a coragem suficiente para o colocar no blogue como tema de despedida. Vou vendo, entretanto, se me chegam algumas opiniões que me levem a concluir que, afinal, sempre se reveste de um mínimo de utilidade aquilo que me sai cá do fundo do meu espírito. Na área da política, o problema mais grave que nos tem transportado ao estado em que nos encontramos – mas também não só, porque a crise mundial não pediu licença para se introduzir em Portugal -, esse não mostra sinais de nos proporcionar, mesmo com as mudanças que provavelmente sejam provocadas por eleições democráticas, mas não há que aguardar por “milagres”, pois, mesmo que aconteça uma mudança profunda, tudo leva muito tempo a recompor e o tempo perdido no passado ninguém consegue eliminá-lo da área dos prejuízos pesadíssimos que os cidadãos, como sempre, têm de pagar.
A conclusão, portanto, a que tenho de chegar é que, provavelmente como tantos outros blogues que por aí se podem ler, não contribuo em nada para fazer pensar as gentes, para levar-lhes alguma felicidade, para ajudar a resolver algum problema, e tudo isso porque aquilo que eu costumo deixar neste espaço todos os dias, mesmo que seja lido por alguns, não constitui nada de útil e de novo.
A mim, sim, tem-me feito bem. Primeiro, porque o escrever, tal como o ler, constituem uma forma de obrigar o meu cérebro a fazer ginástica mental. E, enquanto sou forçado a pensar nos temas que transformo em textos, nessa altura pensamentos mais tristes e tormentosos, por vezes, são absorvidos pelas palavras que sou obrigado a escolher para fazerem parte do conjunto, e as tristezas são ultrapassadas.
Essa a razão que me levou a entender que os meus blogues não aquecem nem arrefecem. Vamos a ver o que isto dá. E se recebo algum sinal de que estou enganado.

domingo, 9 de agosto de 2009

DESPERCEBIDO




Passar na vida sem nada acontecer
desde que saiu da mãe e até morrer
é algo de no túmulo se gravar
mas não é raridade, antes vulgar

Passar despercebido, ser boa gente
ser alguém entre muitos que ninguém sente
falar, falar às vezes e não ser ouvido
passar entre os homens e não ser sentido

Após morrer, chamarem boa pessoa
incapaz de ser alguém que atraiçoa
ninguém aponta um único defeito
mas também não se conhece qualquer feito

Eis o modelo de gente entre milhões
igual aos que não saíram dos padrões
mas a dúvida é ficar sem saber
se aquilo foi viver ou apodrecer

Quem não consegue viver em plenitude
anda por cá e não faz que algo mude

ESCREVER AS MEMÓRIAS



Já me referi neste meu blogue, tempos atrás, ao tema que, sendo verdadeiramente doloroso e muito preocupante, mesmo assim merece a reflexão dos portugueses, especialmente por se encontrarem todos sujeitos, neste período difícil que se atravessa e perante o comportamento de demasiados políticos que não sabem aproveitar a Democracia para terem um bom diálogo com os cidadãos, sujeitos, dizia eu, a uma má condução da vida do País.
Trata-se, nem mais nem menos, do eventual dia de amanhã que poderá vir a passar-se em Portugal. Quem acompanha a História do nosso País e tem conhecimento do que sucedeu na altura da I República, em que os políticos da época não foram capazes de se entender e acabaram por criar disputas até violentas, acabando isso por descambar na Ditadura que colocou António de Oliveira Salazar à frente do regime, o qual durou todo o tempo para tornar a vida na nossa Nação no inferno que foi.
Essa procura de “salva-pátrias” que alguns, saudosos do passado, clamam para que apareça, pega-se com a maior facilidade à juventude que, por não ter tomado contacto com o que foi o referido período, sustenta que o aperreamento então vivido, que o controlo das liberdades, que a condução de um regime político como sucede com as religiões, provoca melhor comportamento por parte dos adversários ideológicos, que aliás nem estes devem ter direito a sustentar caminhos diferentes daquele que é praticado pelo Poder.
As Revoluções políticas sempre aconteceram assim. As caídas das democracias e a implementação dos regimes de força tiveram a comparticipação desses amantes dos tais “salva-pátrias”.
Todos aqueles que, actuando no seio do regime democrático nacional, estão convencidos de que, aconteça o que acontecer, seja qual for o comportamento dos participantes na política que temos, não existe o perigo de a História do mundo se repetir e virmos, sabe-se quando e se, acabar a Democracia de que gozamos nesta altura, nem imaginam o que aconteceria no nosso País.
Não vale a pena fazer estes avisos de tipo pessimista. Eu, que venho do que foi, que andei metido nos perigos dessa altura, que estive marcado por não ser um aderente ao regime que vigorava, ao contrário de muitos que andam por aí hoje, mascarados de democratas de toda a vida e que, sobretudo na área da comunicação social, até ganharam bastante com a sua participação no então SNI (Secretariado Nacional de Informação, para os que não sabem), eu não posso andar satisfeito com o que se vê hoje por aí. E é também por essa razão que não acedi ao convite de escrever as minhas memórias, porque isso seria o descalabro e muita gente deixaria de me falar… com o qual também não perderia muito!

sábado, 8 de agosto de 2009

RAULZINHO



Recebi a notícia com avassalador desgosto. Não que eu, nestes últimos anos, tivesse assíduos contactos com ele. As nossas vidas não se cruzavam, muito embora tivesse sido ele que fez questão em ser padrinho das nossas entradas, da minha Mulher e minha, como sócios da APOIARTE, a Associação de Apoio aos Artistas, isso já há uma dúzia de anos, para ambos podermo-nos encontrar com ele na nossa fase final da vida. O que não veio a acontecer.
O nosso querido Solnado quis ir à frente. E, embora eu acompanhasse o seu estado de saúde, bastante debilitado, e sobretudo esta última intervenção cirúrgica, sempre se esperava que o Raul Solnado arrebitasse e ainda nos desse alguns anos de convívio.
As pessoas que me persistem em insistir comigo para eu escrever as minhas memórias, ao que eu me tenho sempre furtado por receio de trazer à baila assuntos que muitos não gostariam nada que fosse divulgados, ao lerem esta minha singela homenagem ao Raul logo virão dizer-me que faço mal em não transmitir para os outros aquilo que se passou ao longo da minha vida e que, segundo eles, constitui pedaços de história (com h pequeno) que interessava a uns tantos. Mas eu prefiro contar pequenos trechos quando eles vêm a propósito de alguma coisa. E este é o caso.
Pois o Raul, que tinha a mesma idade que eu, entrou nas minhas relações ainda ele não tinha aderido à profissão de actor. Nessa altura, há cerca de 56 anos, ainda ele ocupava a vida a vender piaçabas e vassouras que eram fabricados pelo seu pai e, nas horas disponíveis, frequentava a Academia Guilherme Cossul, já na ânsia de enveredar pela carreira de actor. Nessa ocasião, na minha juventude e por ser meu amigo o rapaz da mesma geração que dirigia o Cabaret Maxime, que tinha sido construído pelo seu pai Cabeleira, avô do agora conhecido pianista José Manuel Cabeleira, devido a essa circunstância frequentava assiduamente a referida casa de espectáculos e sentava-me à mesa do Carlos Cabeleira a gozar do prazer do ambiente que ali era vivido. Durou um ano, exactamente, o período dessa distracção, pois que, a partir daí, nunca mais entrei na referida casa que convidava a distracções das realidades da vida.
Pois foi nesse período que o responsável pelo Maxime, conhecendo a minha inclinação para a escrita e sendo já eu profissional do jornalismo, me convidou para escrever um número que fugisse completamente aos espectáculos que ali ocorriam, só à base de artistas espanholas, para desenfastiar um pouco o ambiente. E assim nasceu na minha ideia um texto em que surgisse um actor português a desempenhar a figura de um amolador de rua, graças ao empréstimo de uma bicicleta para o efeito. Para desempenhar esse papel convidou-se o ainda pouco conhecido José Viana, que também frequentava a Guilherme Cossul. Só que, na verdade, o número não causou grande efeito e foi o próprio Zé Viana que sugeriu que o texto fosse acrescentado para dar entrada a outro protagonista e indicou “um rapaz com habilidade” que também frequentava a Academia. Aderindo-se à proposta, surgiu, na noite seguinte, uma pequena figura, de casaco por cima do rabo e… gago. E eu fiquei espantado! Como ia escrever um texto para um tartamudo? Mas, perante a garantia do Zé de que o rapaz tinha habilidade, lá acrescentei o possível à cena que tinha o nome de “O Sol da Meia-Noite”. E assim se estreou Raul Solnado, como actor profissional, auferindo o primeiro dinheiro como tal. Cinquenta escudos por noite.
Anos mais tarde, ao conversar Raul comigo sobre este episódio, disse-me ele com entusiasmo: “Olha, pá, e depois fui aumentado para 60 escudos!...”
E foi daqui que saiu o grande Raul Solnado, o genial que teve a grande visão de seguir as pisadas do cómico espanhol Gila, o que lançou as conversas telefónicas engraçadíssimas e que o próprio teve a capacidade de, em português, as reproduzir, sem lhe retirar a alegria e a graça que já traziam de origem.
Vejam lá como as coisas são. E eu, que sempre clamo pelo princípio filosófico que Ortega y Gasset deu a conhecer (e que, também este, foi meu companheiro quando se encaixou em Lisboa, depois de se ter enfastiado de Franco), refiro-me ao “Homem e as circunstâncias”, não posso deixar de sublinhar, também aqui, que talvez tenham sido essas circunstâncias que surgiram no Maxime, há 56 anos, e as mesmas de eu ter escrito “O Sol da Meia-noite”, que fizeram com que nascesse um artista de grande valor como foi o meu querido Raul Solnado, agora desaparecido.
Lá estarei a despedir-me com uma recordação da nossa juventude. E das cenas que ocorreram durante os ensaios.
Como a vida, afinal, é curta!...

A SORRIR

Queria morrer a rir
ir assim até ao fim
para lá me divertir
a ouvir falar de mim

Muito mal, assim assim
tudo me faria rir
o que quisessem, enfim
continuava a sorrir

Digam coisas, mesmo más
não me fazem deprimir
lá onde só há paz
só teria que sorrir

O pior é se se calam
me olvidam mesmo a dormir
não dizem nada, não falam
deixava então de sorrir

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

CABEÇA PERFEITA

Ter cabeça instalada
e o corpo, num quase nada
com funcionamento sofrível
mostrar que está disponível
ter ou não ter crença
pois quem assim não pensa
é pior do que o contrário
não precisa de rosário
basta entender o que passa
aceitar ou não o que faça
mas reflectir
que é sentir
que nada já é igual
que o que ocorre está mal
que as pernas não obedecem
e que os músculos fenecem
a ligeireza perdeu-se
agora só devagar
e a cabeça a pensar
a entender
a sofrer
a aceitar a velhice
bem longe da meninice
essa que foi e não volta
sem ser razão para revolta
antes tem de ser aceite
mesmo que sem deleite
e no fundo agradecer
por não ter acontecido perder
o que resta
e fazer até bela festa
pela cabeça que impera
e que, por isso, espera
o dia do adeus final
em que já não se sente o mal.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

AMIGOS LIVROS

Livros amigos
novos e antigos
que nunca se zangam
e até nos mangam
que nos acompanham
e nunca estranham
também envelhecem
amarelecem
mas não se queixam
e não nos deixam
e dos que gostamos menos
fazem-nos acenos
se os pomos de lado
não se nota enfado
ficam na prateleira
com sua soneira
mas não os perdemos
somos nós que os temos
não os abandonamos
somos todos manos
e algo nos ensinam
mesmo se desafinam
sempre aprendemos
e não nos ofendemos
por os seus autores
não nos quererem leitores.
Um dia virá
que algo mudará
com mais paciência
e mais indolência
mudemos de gosto
e o que nos é exposto
passe a fazer parte
do que chamamos arte
e será um livro mais
ao lado dos tais
dos que gostamos
daqueles que amamos.
Oh livros amigos
novos e antigos
pena não poder
tê-los ao morrer