sábado, 15 de agosto de 2009

MEDINA CARREIRA



Medina Carreira, por mais amargo que seja, por muito pessimista que surja e por tanto desconsolado que se mostre, no fundo não deixa de ter razão. O que não quer dizer que, se fosse chefe de Governo, teria possibilidade de fazer aquilo que proclama ser essencial.
É verdade que os capitais que participam nas formações de empresas e que tanto necessitamos de receber vindos de fora, sejam c convenientemente acolhidos no nosso País e que uma eficiente e bem exposta programação junto dos potenciais investidores que existem pelo mundo possa ser apresentada nos mercados onde existe a possibilidade de serem conquistados E é para isso que o AICEP existe. Mas, antes de tudo, como diz Medina Carreira, é forçoso que saibamos as razões por que os capitais fogem de Portugal e, ao estar de posse desses elementos, tudo fazer para criar as condições que aliciam os investidores a dar o passo que desejamos.
É evidente que são muitos os obstáculos que existem no nosso País e que não animam os dinheiros de fora a serem colocados no nosso território. Ninguém arrisca um cêntimo que seja se não está seguro que o local onde pode aplicar os seus valores e conhecimentos dispões de mecanismos que proporcionam as condições ideais para tudo correr sobre rodas. E, nesse aspecto, todos nós sabemos que Portugal prima pelas dificuldades burocráticas que cria ao menor passo que se pretenda dar para abrir uma empresa e, depois dela existir, fazer com que não existam impedimentos para o seu andamento legal. Gostamos e sempre gostámos de dificultar a vida daqueles que dão provas de poder criar empregos e desenvolver iniciativas que constituam a criação de riquezas.
É verdade que um Governo, o que possa vir a nascer das próximas eleições, que se dedique a facilitar o nascimento e a vida das empresas, não só as grandes mas também as pequenas, só por isso deve merecer a preferência dos eleitores. E é isso que ainda não foi entendido por todos aqueles que se estão a predispor para concorrer à governação de Portugal. É pena. É triste. Mas demonstra bem como os políticos que existem por cá não são capazes de entender com profundidade aquilo que o nosso País necessita urgentemente.
Não vale a pena dizer mais nada. E ficamos todos a ver decorrer as campanhas que já se iniciaram e as que ainda virão, para analisar se algum partido entendeu o que constitui uma forma de poderem ser ganhas eleições. Nem sei mesmo se Medina Carreira, se estivesse colocado num lugar que lhe pudesse proporcionar a tal chefia, seria capaz de transformar a sua tese em medida prática. Com a AICEP que temos e seguindo uma actuação – aliás que nos sai bem cara – com vários escritórios espalhados pelo mundo, tenho dúvidas de que saibamos fazer o trabalho que, desde o início da sua existência, nunca foi capaz de cumprir com êxito. Era necessário formar todos os funcionários que se encontram lá fora, de modo a que fosse feito um trabalho que resultasse em verdadeiros benefícios para o nosso pobre País.
Já estou como Medina Carreira. Pessimista que dá pena!...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

DAR TEMPO AO TEMPO



Isto de sermos escravos do tempo, de estarmos sempre dependentes das regras que nos são impostas pelos relógios, de termos de obedecer ao que nos é estipulado por aquilo que consideramos obrigações em relação aos outros, a escravatura de não podermos ter as nossas próprias vontades, sejam quais forem as condições de vida que seguimos, é isto que, ao nascermos e durante todo o período que nos é atribuído até à data definitiva da partida, ninguém, sobretudo os que gozam de uma situação de benefício material desafogada, pode fugir. Se atendermos bem ao fenómeno da existência, serão até os mais desfavorecidos, aqueles que serão classificados como pobres, e até mesmo os miseráveis aqueles que gozam do privilégio de não estarem tão sujeitos às obrigações impostas pelo tempo. Quem sofre os efeitos da fome, da falta de um tecto, do abandono total das mínimas condições de vida, serão esses os que não necessitam de estar sempre atentos ao relógio, aos compromissos de faltar a um encontro ou de se apresentarem num local de trabalho.
Essa preocupação do “já ser tarde” ou do “ainda ser cedo”, de nos faltar o tempo ou de sobrar um bocadinho para podermos fazer ainda qualquer coisa antes, essa escravidão dos horários é uma constante que coloca os seres humanos, em todo o seu período de vida, sujeitos a um tiquetaque desses horrorosos aparelhos que, quer sejam umas simples “cebolas” sem valor material ou tratando-se de objectos de verdadeiro luxo, e neste caso, silenciosos e traiçoeiros, cobertos de material precioso, constituem, de igual modo, o ordenador do cumprimento de regras a que o Homem obedece sem discutir.
Se, para vir a este mundo, não estará rigorosamente definida uma hora, já quando se trata da despedida, o horário das cerimónias dos adeus e da guarda em local próprio ou da transformação em cinzas, isso obedece a cumprimento das marcações estabelecidas antes pelas organizações que se encarregam de todos os pormenores das partidas.
E enquanto por cá andamos, havendo os que são cumpridores rigorosos dos encontros marcados e aqueles que se atrasam sistematicamente e que sempre aparecem com desculpas que têm de ser aceites, pois só acontecem a eles, os contrários, por sua vez, põem má cara quando passa um minuto da hora estabelecida e, muitas amizades já foram desfeitas pela simples razão de haver quem não respeite combinações feitas com horário acordado.
Há países, como a Suíça, por exemplo, em que o respeito pelo cumprimento dos horários classifica os cidadãos e aqueles que se mostram desligados dessa regra são colocados na posição de gente de pouco valor e não merecedores da consideração dos outros.
Marcar um encontro com alguém dentro do largo espaço “por volta das 9 horas” ou “lá para as 11 horas”, ou ainda “entre as 10 e as 11”, esse comportamento é muito próprio dos portugueses e entre nós ninguém se admira por lhe ser estabelecida essa maneira de encontro. Quem chegar primeiro que espere.
E isto de não ter tempo para nada, expressão que também faz parte do nosso estilo de conversação, sobretudo quando se verifica alguma falta a um compromisso assumido, serve bem de desculpa de muita gente que se vê permanentemente a gozar de largas folgas.
O ainda ser cedo para já ser tarde deveria fazer pensar aqueles que se afligem com a escassez de ocasião para executar alguma tarefa que têm em mente, pois quer dizer que falta muito tempo para se chegar ao fim da viagem. Já o ser tarde para ainda ser cedo representa exactamente o contrário, ou seja que não vale a pena guardar para depois o que se tem de levar a cabo, pois o final da corrida está já à vista.
Dar tempo ao tempo é talvez o mais coerente que o Homem pode fazer. Não nos damos conta de que, afinal, nós próprios somos tempo e de que não nos podemos separar dele. Cada vez que dizemos que não temos tempo é o mesmo que dizer que não existimos.
O pior de tudo será quando constatamos, mesmo que vagamente, que o tempo se está a esgotar e que, sem olhar para o relógio, mal sentimos o tiquetaque do coração.


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

VENTO


Vento que sopras ligeiro
pões os cabelos à solta
és como aquele romeiro
que não se sabe se volta

que vai p’ra lá na estrada
em ligeira caminhada

Quando de mansinho vais
e não provocas pavor
ninguém pensa em vendavais
e menos no Bojador

vento nem sempre é chuvada
pode do ar ser lufada

Mas quando os deuses se zangam
e sopram com muita força
aí os ventos descangam
e não há quem não se torça

e a força da rajada
leva tudo de enfiada

Tal como o ser humano
só é bom o meio termo
moderado não faz dano
em excesso é um estafermo

a fúria de uma rajada
traz consigo a derrocada

Vento, vento és amigo
porque trazes as sementes
que acabam por ter abrigo
em locais que são nascentes

que são as melhores achadas
para as que estão despegadas

Os moinhos te aguardam
tua força dá a luz
dos mesmo que se resguardam
por baixo do seu capuz

sabem que uma ventoada
é boa se é bem usada

E o povo que é sábio
e que por vezes tem tento
diz sem ir ao alfarrábio:
palavras leva-as o vento


e até a própria abrilada
chegou numa madrugada…
…qual vento !

ORGULHO



Este é um País de orgulhosos. Por tudo e por nada, toda essa gente de cá que surge a prestar declarações, sobretudo na área da política mas não só, usa a expressão que mostra bem como somos todos uns contentinhos da silva com aquilo que é o produto das nossas actuações. Tornou-se um hábito, quase uma monotonia de expressão o afirmar-se que se está orgulhoso por isto ou por aquilo. E, nesse particular, o nosso José Sócrates, até agora no artigo que publicou no “Jornal de Notícias”, lá aparece a expressão tão do gosto daqueles que não têm dúvidas, que sempre estão convencidos de que aquilo que fazem é o único possível e aceitável que deve ser executado.
Eu confesso que não tenho grandes certezas de tudo o que faço. E, quanto ao que fiz, só depois de conhecer os resultados é que pude tirar conclusões sobre se se tratou da melhor opção ou se haveria outra que suplantava a que tomei. Mas como o arrependimento já não resolve as más escolhas, sou restava tirar proveito da lição e evitar que, de futuro, viesse a ser tomada uma dcisão equivalente.
Por isso, procuro não usar a expressão de ficar orgulhoso com alguma decisão que saiu certa, pois não fico seguro sobre se a próxima medida que me caiba tomar acabará por ser a certa ou não me equivocarei de novo. Enquanto estamos vivos, sempre que somos forçados a ter de optar por uma deliberação que as circunstâncias nos põem à frente, em cada um desses momentos, se temos consciência das nossas fraquezas, sendo obrigados a decidir damos o passo que não pode ficar no vazio. E se acertarmos, pois só temos que agradecer pela sorte que nos protegeu nessa altura.
Isso acontece, por exemplo, quando temos de aceitar a colaboração de alguém que se dispõe a prestar um serviço. Se acertarmos, melhor. Mas se a escolha foi desafortunada, pois não há outro remédio que não seja aceitar o que as circunstâncias nos proporcionaram. Em qualquer dos casos, o orgulho não é para aqui chamado.
A escolha dos elementos que, num Governo, fazem parte do elenco ministerial, também está pendente do acerto, se bem que conte, nesse caso, o conhecimento antecipado da qualidade das pessoas convidadas para os lugares. o que não constitui, de forma absoluta, uma garantia de que os resultados corresponderão ao que era esperado na altura dos convites. E também aí não há que ser orgulhoso da qualidade dos membros do Gabinete.
É, portanto, preferível não se ficar orgulhoso de nada, pois que mais vale argumentar com a sorte que foi favorável no capítulo de qualquer acção tomada e que tenha saído bem.
De gente orgulhosa devemos andar todos nós, portugueses, bastante fartos. Têm-se visto os resultados de tais orgulhos. É o País que temos e são as medidas que têm sido tomadas no decorrer dos últimos anos. Da mesma maneira que antes da Revolução, nós, os dessa época, temos bons motivos para exibir grandes orgulhos… Oh se temos!...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

JUDEUS

Sou feliz por ter amigos judeus
Aqui, no País e em Israel
Uns sendo crentes e outros ateus
Mas sempre com amizade fiel

São gente capaz, de alma bem pura
Gostando de ser aquilo que são
Sem perder nunca boa compostura
Tratando-me sempre como irmão

Só quem não quer ver não o acredita
Que sim, passou-se grande holocausto
Onde milhões sofreram a desdita
Depois de, um a um, ficar exausto

Antes a diáspora foi real
Por lá nos anos de mil e quinhentos
Esse rei Manuel foi-lhes fatal
Causando-lhes tantas dores, sofrimentos

Perderam eles, perdeu Portugal
A mais valia foi para além
Ficou-se por cá, neste lodaçal
E não lhes foi dada Jerusalém

Ganhou forais essa Inquisição
Que hoje tem um nome diferente
Andámos sempre no sim e no não
Sem ter chegado a um finalmente

Não sou judeu, porém melhor pensando
Chego a julgar que muito gostaria
De me poder aos poucos transformando
Num membro fiel de judiaria

Não que eu fosse total cumpridor
De regras como de ortodoxia
Bastava-me só ser um seguidor
Poder gozar de boa companhia

Com tal saber e tamanha mestria
Como provaram a todo o mundo
Não foi bastante tamanha sangria
Para os colocar lá bem no fundo

Foram inúmeros os Prémios Nobel
Mais do que os outros povos ganharam
Sempre lhes coube assim o papel
De calar muitos que os desamaram



terça-feira, 11 de agosto de 2009

PERDOAR


O perdão bem alivia
algo que pesa na alma
é menos uma agonia
sempre nos traz certa calma

Há porém que ter em conta
se é correcto o sentimento
sem ser algo que desponta
do fundo do fingimento

Tem sempre de ser verdade
e não algo fabricado
representar a bondade

E perdoar com vontade
não fazê-lo com enfado
menos por comodidade

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

PENSAR




Deixem-me pensar, ter memória
E calar o mundo ao redor
Matutar na minha história
Quero silêncio por favor

Coisas tristes e coisas belas
Numa corrida infernal
Apressado ou com cautelas
Tal o trajecto afinal

Parar para pensar, que bom
Se somente a nós pertencemos
Não se escuta nenhum som
E névoas é o que vemos

Se tudo o que passou por mim
E que guardei cá bem no fundo
Teve um princípio e um fim
É porque se deu neste mundo

Morrer a pensar bom será
Sobretudo em coisas belas

Pois quem cá ficar ficará
A acender as suas velas

PENSAMENTO



Ando seriamente a pensar em suspender, por uns tempos em princípio, mas também poderá ser em definitivo, este meu blogue que mantenho há já um certo tempo e que alimento diariamente. É que, metendo a mão na consciência, não chego à conclusão de que constitua alguma utilidade debitar aqui os meus pensamentos, transmitir aos outros aquilo que ninguém pediu para o fazer, dar opiniões que poderão encontrar-se bem distantes de um certo número de eventuais leitores, numa expressão simples, não estar a contribuir para melhorar em nada o modo de encarar a situação que vivemos no nosso País e que, por diferentes razões, mesmo que algumas soluções tenham sido abordadas nestes meus escritos, têm de ser pensadas e solucionadas por formas que cabem a cada família escolher.
É isso mesmo! Não me posso considerar como elemento indispensável, posição que, aliás, ninguém deve assumir e é natural que alguns me possam perguntar: quem te pediu a opinião?
Este texto tenho-o redigido há algum tempo. Tem-me faltado a coragem suficiente para o colocar no blogue como tema de despedida. Vou vendo, entretanto, se me chegam algumas opiniões que me levem a concluir que, afinal, sempre se reveste de um mínimo de utilidade aquilo que me sai cá do fundo do meu espírito. Na área da política, o problema mais grave que nos tem transportado ao estado em que nos encontramos – mas também não só, porque a crise mundial não pediu licença para se introduzir em Portugal -, esse não mostra sinais de nos proporcionar, mesmo com as mudanças que provavelmente sejam provocadas por eleições democráticas, mas não há que aguardar por “milagres”, pois, mesmo que aconteça uma mudança profunda, tudo leva muito tempo a recompor e o tempo perdido no passado ninguém consegue eliminá-lo da área dos prejuízos pesadíssimos que os cidadãos, como sempre, têm de pagar.
A conclusão, portanto, a que tenho de chegar é que, provavelmente como tantos outros blogues que por aí se podem ler, não contribuo em nada para fazer pensar as gentes, para levar-lhes alguma felicidade, para ajudar a resolver algum problema, e tudo isso porque aquilo que eu costumo deixar neste espaço todos os dias, mesmo que seja lido por alguns, não constitui nada de útil e de novo.
A mim, sim, tem-me feito bem. Primeiro, porque o escrever, tal como o ler, constituem uma forma de obrigar o meu cérebro a fazer ginástica mental. E, enquanto sou forçado a pensar nos temas que transformo em textos, nessa altura pensamentos mais tristes e tormentosos, por vezes, são absorvidos pelas palavras que sou obrigado a escolher para fazerem parte do conjunto, e as tristezas são ultrapassadas.
Essa a razão que me levou a entender que os meus blogues não aquecem nem arrefecem. Vamos a ver o que isto dá. E se recebo algum sinal de que estou enganado.

domingo, 9 de agosto de 2009

DESPERCEBIDO




Passar na vida sem nada acontecer
desde que saiu da mãe e até morrer
é algo de no túmulo se gravar
mas não é raridade, antes vulgar

Passar despercebido, ser boa gente
ser alguém entre muitos que ninguém sente
falar, falar às vezes e não ser ouvido
passar entre os homens e não ser sentido

Após morrer, chamarem boa pessoa
incapaz de ser alguém que atraiçoa
ninguém aponta um único defeito
mas também não se conhece qualquer feito

Eis o modelo de gente entre milhões
igual aos que não saíram dos padrões
mas a dúvida é ficar sem saber
se aquilo foi viver ou apodrecer

Quem não consegue viver em plenitude
anda por cá e não faz que algo mude

ESCREVER AS MEMÓRIAS



Já me referi neste meu blogue, tempos atrás, ao tema que, sendo verdadeiramente doloroso e muito preocupante, mesmo assim merece a reflexão dos portugueses, especialmente por se encontrarem todos sujeitos, neste período difícil que se atravessa e perante o comportamento de demasiados políticos que não sabem aproveitar a Democracia para terem um bom diálogo com os cidadãos, sujeitos, dizia eu, a uma má condução da vida do País.
Trata-se, nem mais nem menos, do eventual dia de amanhã que poderá vir a passar-se em Portugal. Quem acompanha a História do nosso País e tem conhecimento do que sucedeu na altura da I República, em que os políticos da época não foram capazes de se entender e acabaram por criar disputas até violentas, acabando isso por descambar na Ditadura que colocou António de Oliveira Salazar à frente do regime, o qual durou todo o tempo para tornar a vida na nossa Nação no inferno que foi.
Essa procura de “salva-pátrias” que alguns, saudosos do passado, clamam para que apareça, pega-se com a maior facilidade à juventude que, por não ter tomado contacto com o que foi o referido período, sustenta que o aperreamento então vivido, que o controlo das liberdades, que a condução de um regime político como sucede com as religiões, provoca melhor comportamento por parte dos adversários ideológicos, que aliás nem estes devem ter direito a sustentar caminhos diferentes daquele que é praticado pelo Poder.
As Revoluções políticas sempre aconteceram assim. As caídas das democracias e a implementação dos regimes de força tiveram a comparticipação desses amantes dos tais “salva-pátrias”.
Todos aqueles que, actuando no seio do regime democrático nacional, estão convencidos de que, aconteça o que acontecer, seja qual for o comportamento dos participantes na política que temos, não existe o perigo de a História do mundo se repetir e virmos, sabe-se quando e se, acabar a Democracia de que gozamos nesta altura, nem imaginam o que aconteceria no nosso País.
Não vale a pena fazer estes avisos de tipo pessimista. Eu, que venho do que foi, que andei metido nos perigos dessa altura, que estive marcado por não ser um aderente ao regime que vigorava, ao contrário de muitos que andam por aí hoje, mascarados de democratas de toda a vida e que, sobretudo na área da comunicação social, até ganharam bastante com a sua participação no então SNI (Secretariado Nacional de Informação, para os que não sabem), eu não posso andar satisfeito com o que se vê hoje por aí. E é também por essa razão que não acedi ao convite de escrever as minhas memórias, porque isso seria o descalabro e muita gente deixaria de me falar… com o qual também não perderia muito!

sábado, 8 de agosto de 2009

RAULZINHO



Recebi a notícia com avassalador desgosto. Não que eu, nestes últimos anos, tivesse assíduos contactos com ele. As nossas vidas não se cruzavam, muito embora tivesse sido ele que fez questão em ser padrinho das nossas entradas, da minha Mulher e minha, como sócios da APOIARTE, a Associação de Apoio aos Artistas, isso já há uma dúzia de anos, para ambos podermo-nos encontrar com ele na nossa fase final da vida. O que não veio a acontecer.
O nosso querido Solnado quis ir à frente. E, embora eu acompanhasse o seu estado de saúde, bastante debilitado, e sobretudo esta última intervenção cirúrgica, sempre se esperava que o Raul Solnado arrebitasse e ainda nos desse alguns anos de convívio.
As pessoas que me persistem em insistir comigo para eu escrever as minhas memórias, ao que eu me tenho sempre furtado por receio de trazer à baila assuntos que muitos não gostariam nada que fosse divulgados, ao lerem esta minha singela homenagem ao Raul logo virão dizer-me que faço mal em não transmitir para os outros aquilo que se passou ao longo da minha vida e que, segundo eles, constitui pedaços de história (com h pequeno) que interessava a uns tantos. Mas eu prefiro contar pequenos trechos quando eles vêm a propósito de alguma coisa. E este é o caso.
Pois o Raul, que tinha a mesma idade que eu, entrou nas minhas relações ainda ele não tinha aderido à profissão de actor. Nessa altura, há cerca de 56 anos, ainda ele ocupava a vida a vender piaçabas e vassouras que eram fabricados pelo seu pai e, nas horas disponíveis, frequentava a Academia Guilherme Cossul, já na ânsia de enveredar pela carreira de actor. Nessa ocasião, na minha juventude e por ser meu amigo o rapaz da mesma geração que dirigia o Cabaret Maxime, que tinha sido construído pelo seu pai Cabeleira, avô do agora conhecido pianista José Manuel Cabeleira, devido a essa circunstância frequentava assiduamente a referida casa de espectáculos e sentava-me à mesa do Carlos Cabeleira a gozar do prazer do ambiente que ali era vivido. Durou um ano, exactamente, o período dessa distracção, pois que, a partir daí, nunca mais entrei na referida casa que convidava a distracções das realidades da vida.
Pois foi nesse período que o responsável pelo Maxime, conhecendo a minha inclinação para a escrita e sendo já eu profissional do jornalismo, me convidou para escrever um número que fugisse completamente aos espectáculos que ali ocorriam, só à base de artistas espanholas, para desenfastiar um pouco o ambiente. E assim nasceu na minha ideia um texto em que surgisse um actor português a desempenhar a figura de um amolador de rua, graças ao empréstimo de uma bicicleta para o efeito. Para desempenhar esse papel convidou-se o ainda pouco conhecido José Viana, que também frequentava a Guilherme Cossul. Só que, na verdade, o número não causou grande efeito e foi o próprio Zé Viana que sugeriu que o texto fosse acrescentado para dar entrada a outro protagonista e indicou “um rapaz com habilidade” que também frequentava a Academia. Aderindo-se à proposta, surgiu, na noite seguinte, uma pequena figura, de casaco por cima do rabo e… gago. E eu fiquei espantado! Como ia escrever um texto para um tartamudo? Mas, perante a garantia do Zé de que o rapaz tinha habilidade, lá acrescentei o possível à cena que tinha o nome de “O Sol da Meia-Noite”. E assim se estreou Raul Solnado, como actor profissional, auferindo o primeiro dinheiro como tal. Cinquenta escudos por noite.
Anos mais tarde, ao conversar Raul comigo sobre este episódio, disse-me ele com entusiasmo: “Olha, pá, e depois fui aumentado para 60 escudos!...”
E foi daqui que saiu o grande Raul Solnado, o genial que teve a grande visão de seguir as pisadas do cómico espanhol Gila, o que lançou as conversas telefónicas engraçadíssimas e que o próprio teve a capacidade de, em português, as reproduzir, sem lhe retirar a alegria e a graça que já traziam de origem.
Vejam lá como as coisas são. E eu, que sempre clamo pelo princípio filosófico que Ortega y Gasset deu a conhecer (e que, também este, foi meu companheiro quando se encaixou em Lisboa, depois de se ter enfastiado de Franco), refiro-me ao “Homem e as circunstâncias”, não posso deixar de sublinhar, também aqui, que talvez tenham sido essas circunstâncias que surgiram no Maxime, há 56 anos, e as mesmas de eu ter escrito “O Sol da Meia-noite”, que fizeram com que nascesse um artista de grande valor como foi o meu querido Raul Solnado, agora desaparecido.
Lá estarei a despedir-me com uma recordação da nossa juventude. E das cenas que ocorreram durante os ensaios.
Como a vida, afinal, é curta!...

A SORRIR

Queria morrer a rir
ir assim até ao fim
para lá me divertir
a ouvir falar de mim

Muito mal, assim assim
tudo me faria rir
o que quisessem, enfim
continuava a sorrir

Digam coisas, mesmo más
não me fazem deprimir
lá onde só há paz
só teria que sorrir

O pior é se se calam
me olvidam mesmo a dormir
não dizem nada, não falam
deixava então de sorrir

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

CABEÇA PERFEITA

Ter cabeça instalada
e o corpo, num quase nada
com funcionamento sofrível
mostrar que está disponível
ter ou não ter crença
pois quem assim não pensa
é pior do que o contrário
não precisa de rosário
basta entender o que passa
aceitar ou não o que faça
mas reflectir
que é sentir
que nada já é igual
que o que ocorre está mal
que as pernas não obedecem
e que os músculos fenecem
a ligeireza perdeu-se
agora só devagar
e a cabeça a pensar
a entender
a sofrer
a aceitar a velhice
bem longe da meninice
essa que foi e não volta
sem ser razão para revolta
antes tem de ser aceite
mesmo que sem deleite
e no fundo agradecer
por não ter acontecido perder
o que resta
e fazer até bela festa
pela cabeça que impera
e que, por isso, espera
o dia do adeus final
em que já não se sente o mal.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

AMIGOS LIVROS

Livros amigos
novos e antigos
que nunca se zangam
e até nos mangam
que nos acompanham
e nunca estranham
também envelhecem
amarelecem
mas não se queixam
e não nos deixam
e dos que gostamos menos
fazem-nos acenos
se os pomos de lado
não se nota enfado
ficam na prateleira
com sua soneira
mas não os perdemos
somos nós que os temos
não os abandonamos
somos todos manos
e algo nos ensinam
mesmo se desafinam
sempre aprendemos
e não nos ofendemos
por os seus autores
não nos quererem leitores.
Um dia virá
que algo mudará
com mais paciência
e mais indolência
mudemos de gosto
e o que nos é exposto
passe a fazer parte
do que chamamos arte
e será um livro mais
ao lado dos tais
dos que gostamos
daqueles que amamos.
Oh livros amigos
novos e antigos
pena não poder
tê-los ao morrer

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

MISTÉRIO

Para esse mistério
do celeste infinito
é algo de muito sério
do âmbito do bendito
e ao contemplar o céu
nele a lua destacada
penso sempre no ateu
sem resposta para nada
depois do que não tem fim
algo tem de existir
um muro talvez, enfim
com força p’ra resistir
mas a dúvida manter
sobre o que não tem resposta
é o mesmo que não crer
em religião imposta

Agnóstico é o tal
que não sabendo a fundo
dar a resposta total
aos segredos deste mundo
prefere não se sujeitar
aos que apenas por fé
decidem acreditar
no que fazem finca-pé.
Outros, como S. Tomé
que são de ver para crer
ficam à espera até
q’os consigam convencer

Até lá há que aguardar
e fazê-lo com respeito
no qu’é de acreditar
no que parece perfeito
se é a fé ou a ciência
ou se nenhuma acerta
qual delas é a essência
de toda a verdade certa

E isso do infinito
resta sem explicação
continua a ser um mito
já vem do tempo de Adão
e até que descubra alguém
o que é que ele tem por trás
não se pod’ir mais além
ninguém se mostra capaz

Oh infinito, infinito
só tu me fazes temer
criar profundo conflito
naquilo em que devo crer
não pedir explicações
por quem as dê não haver
fazem nascer ilusões
e manter até morrer



terça-feira, 4 de agosto de 2009

Dado que surgiu uma avaria estranha no meu computador, em que não consigo escrever no Word com letra Activ Black, uso este meio para avisar que até à próxima semana, quando o técnico voltar de férias, só psso ir buscar poesias ao disco e metê-las no meu blogue.
Por um lado até é bom para quem gosta dos meus versos e para quem não aprecia as minhas considerações sobre a actualidade.
Até lá.

DIFERENTE-INDIFERENTE


O ser-se igual não anima
a estar-se um pouco contente
a ter o ego em cima
coisa de ser diferente

Imitar pode ser belo
se o retrato sair bem
se for feito com desvelo
cópia de um bom alguém

Mas p’ra se poder ser gente
que os outros olhem com gosto
tem de ser bem diferente

mostrar que não está ausente
que não tem qualquer desgosto
por não ser indiferente

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PORTUGUÊS DA SILVA

Não deve haver outro igual
por esse mundo de Cristo
é nascido em Portugal
não há nada como isto

bem diferente
e é gente

Tudo que faz sem rigor
é preciso é ficar feito
ao princípio no frescor
quer usar todo o preceito

eu não sou
aí não estou

Mas no decorrer da obra
os defeitos aparecem
tempo afinal não sobra
complicações aborrecem

não é meu o engano
é de qualquer outro magano


Enquanto os meticulosos
perdem tempo a estudar
e querem ser rigorosos
o luso é de desenrascar

é preciso é ficar feito
sair de qualquer jeito

Nada é um problema
quando muito é um fado
há que encontrar um esquema
ele virá de algum lado

a vida é a madressilva
do bom português da silva


Enquanto houver por cá um
com outro, um seu igual
tudo isto é um fartum
que forma o Portugal

com todos estes fulanos
vivemos há longos anos


Querem mudar o País
igualá-lo ao de lá fora
mas p’ra se ser aprendiz
falta querer e demora

dos outros temos inveja
mas vontade não sobeja


Lá simpatia não falta
consolar outros do mal
perguntar pela malta
e o cumprimento formal

tendo na mão telefone
não há quem o abandone


Bem custam as despedidas
dizer adeus muito tarda
há sempre coisas esquecidas
porque falar é à barda

recado dá-se depressa
despedir essa é que é essa!


Os horários p’ra cumprir
é coisa que bem molesta
não há horas p’ra sair
mas p’ra entrar vem da festa

O relógio, que chatice
Segui-lo é uma tolice


O perfeito português
desses da antiga escola
p’ra entrar na sua vez
deixa os outros com cachola

passar à frente é lei
costume de toda a grei


A pé ou no seu carrinho
sem poder ultrapassar
até insulta o vizinho
p’ra ser primeiro a chegar

p’ra quê não se sabe bem
pois tem de esperar alguém


Lusitano é só defeitos?
Mas quem tal asneira disse?
Também tem os seus proveitos
usa sua doutorice

porque não faltam doutores
mesmo sendo só rumores


Cada um por esse mundo
tem suas debilidades
mas bem visto lá no fundo
descobrem-se habilidades

e os defeitos também
afinal quem os não tem?


Só que aqui, o País
mesmo sem ser ideal
podia ser mais feliz
mostrar outro Portugal

com gente hábil capaz
de mostrar ser eficaz


Há, porém que aceitar
o que deixou tal Henrique
se não se puder mudar
pois que seja e que fique


Até que mostre o futuro
sendo derrubado o muro

e que um Portugal diferente
honre o antigamente

das descobertas, enfim
que a essas dizemos sim

sábado, 1 de agosto de 2009

É PRECISO É ACABAR TUDO, ATÉ QUE...


Só tomei conhecimento agora, quando fui assistir a uma "vernissage" na Galeria de Arte do Casino Estoril e o presidente da Câmara Municipal de Cascais, que discursou na ocasião, anunciou que tinha sido encerrada a Junta de Turismo da Costa do Estoril, com 84 anos de existência. Foi um grande espanto para quem não sabia e o responsável pelo Município deu mostras de enorme consternação. Como era possível ter sido tomada tal medida? Quem, nesta fase da vida nacional, por muito grave que seja a crise que se atravessa, por isso mesmo maior razão existe para que, ao contrário de se encerrar uma instituição que serve para prestar um grande serviço ao turismo, quem, absolutamente fora das realidades, decidiu encerrar aquela Junta que, tal como outras tantas, a funcionar correctamente, constitui uma incontrolável ajuda para melhorar e aumentar o turismo na zona onde está instalada?
A indústria turística, que, é não só hoje mas desde sempre, uma fonte de entrada de dinheiro, em euros mas não só, e promove o desenvolvimento do comércio local, particularmente os estabelecimentos hoteleiros, essa riqueza que é das já poucas que ainda mantemos, posto que a grande maioria de indústrias tem sofrido ultimamente com a recessão que se espalhou por toda a parte, o que tem é de ser desenvolvida para proporcionar a expansão de muitas fontes de rendimento, particularmente pequenas e médias empresas. Mas, dentro do espírito que tem sido observado por parte das autoridades que têm tomado posse em muitas áreas públicas, ou seja de não desenvolver as áreas que, mesmo com crise, têm de ser objecto de uma actuação de competência, dentro de tal posição o que tem ocorrido no nosso País é uma paralisação e até rectrocesso na vida nacional.
E não me refiro a este Governo. Ele tem dado mostras de falta de capacidade para fazer andar Portugal para a frente. Mas os anteriores, a mioria deles não deu mostras de ser capaz de desenvolver aquilo que, mesmo com debilidades económicas, tinha e tem condições para avançar.
Confesso que não me sinto com ânimo para me referir mais a este assunto. Acabo de chegar da inauguração da exposição no Estoril e ainda não recuperei da notícia recebida. Talvez volte a este tema num altura mais favorável.

MÁ EDUCAÇÃO POLÍTICA




Mas não será possível que, em Portugal, se realizem eleições sem termos de assistir, nos períodos das campanhas, às acusações mútuas dos candidatos, entrando em confrontos que, na maioria dos casos, chegam atingir as ofensas de todas as espécies? Então, para se apresentar um programa, para se explicar aos desejados votantes na sua candidatura quais vão ser as acções que se têm em vista efectuar, para, mesmo desfilando promessas que mais tarde não serão cumpridas, deixar gulosamente a ideia de que vai ser um período de boas novas e de contentamento dos que puserem a cruzinha no seu nome, para tudo isso é necessário fazer acusações aos concorrentes, sair a terreiro com afrontas contra os que também fazem pela sua vida e que, por sua vez, para não variar, usam do mesmo processo acusativo, isto é, também ofendem os que estão do outro lado?
Poderão dizer que este procedimento não é um exclusivo de Portugal. Pois que não seja, mas então, se surgir um candidato a qualquer eleição e declarar e mostrar que não está disposto a atacar aqueles que estão situados no outro lado da barreira e que pretendem concorrer ao mesmo lugar, se as suas palavras forem exclusivamente para esclarecer a sua própria candidatura, fazendo questão em não fazer referência aos outros, por isso conduzirá sem resultados a sua caminhada para o posto em eleição? Será, de facto, assim?
Eu, talvez ingenuamente, penso que cairia muito bem nos cidadãos ouvir da boca de um concorrente a declaração de que não cairia na baixeza de denegrir os outros participantes, usando este sistema para tentar retirar votos aos demais, e se preocupasse exclusivamente de fazer realçar a sua própria candidatura.
Aquilo a que se tem assistido no confronto verbal entre António Costa e Pedro Santa Lopes, cada um a pretender realçar os erros do adversário – quando, afinal, nas duas partes existem actuações que merecem censuras - , ultrapassa já a vergonha. Dá tudo ideia de uma zaragata de pátio, em que o bom comportamento não é a especialidade dos intervenientes quando se zangam. Lisboa não merece este espectáculo.
Infelizmente, porém, é o que temos. E somos obrigados a chegar à conclusão que os políticos nacionais não são gente bem formada e, sobretudo, bem educada. Votemos, portanto, no menos mau.