terça-feira, 5 de maio de 2009

ANALISTAS POLÍTICOS



Andam por aí tantos analistas políticos que, um a mais, como pode ser este caso, também não adianta nem atrasa o que ocorre no nosso panorama. De facto, com o andamento da situação e dado que nada acontece por cá que nos anime a ter confiança neste ou naquele movimento político, tenha a classificação de partido ou seja apenas uma vontade que desponta no meio de qualquer organização já constituída, o que apetece é também mostrar a nossa opinião, um pouco como tratando-se de uma antecipação ao que vai ocorrer como consequência das eleições que se aproximam, em particular as legislativas.
Devo confessar que, depois de ter averiguado todos os agrupamentos políticos que se plantavam no quadro das perspectivas de formar governo, isso nas eleições passadas, optei por facilitar o meu voto ao Partido Socialista por me dar a impressão que, com um líder sem grande compromisso com as linhas normalmente estabelecidas, havia razão para ter esperança de que a Democracia sairia reforçada por tal escolha. Não conhecia José Sócrates com profundidade, mas parecia-me que um rapaz ainda novo traria ideias também rejuvenescidas e seria capaz de dar a volta ao que ocorria e que estava a precisar de sangue na guelra.
Passado este período, constatadas as consequências da escolha, tendo contemplado, constrangido, os discursos mal construídos do responsável que se considerava, cada vez com mais evidência, da sua condição de seguro em tudo que fazia, observando o que foi ocorrendo, de uma forma que ia perdendo progressivamente toda a confiança que eu tinha depositado no início, acompanhando cautelosamente cada passo que ia sendo dado e os resultados pouco entusiasmantes que iam sendo conseguidos, não posso deixar de chegar a esta fase sem um desconsolo que não sei como esconder nesta altura.
Não é aceitável, especialmente estando todos nós a sofrer as consequências de uma crise que ninguém sabe com absoluta certeza como nos iremos livrar dela, que José Sócrates, que conta no seu elenco com alguns ministros que já deviam ter sido postos de lado quer pela actuação que têm demonstrado como pelo comportamento verbal de que têm dado provas bem tristes, em lugar de aceitar - e dar conta pública disso – as opiniões mesmo vindas das oposições, pelo contrário insiste em querer arrogantemente afirmar que só ele tem razão e que todos os demais não passam de gente incompetente.
E, para além de tudo o mais, a corrupção que tem vindo a desenvolver-se por todo o lado e, sobretudo, o consentimento superior quanto às criminosas benesses que têm sido oferecidas aos políticos que contam com a protecção partidária, ao ponto de um Jornal ter publicado na sua primeira página a frase de que “há políticos pobres que, ao fim de uns anos, estão milionários”, tudo isso poderia e deveria ter sido objecto da intervenção dos poderes e Sócrates, sabe-se lá porquê, nunca meteu mão neste crime que está à vista de toda a gente, e agora mais pelos milhares de desempregados que se acumulam por esse País fora.
Há muito mais para explicar porque é que me encontro tão desiludido com a minha escolha na última votação do grupo partidário que está no Governo. E o pior é que, provavelmente, repetirei o mesmo erro. Mas se não for assim, o quê? A abstenção, essa é que haverá que evitar por todos os meios que se possam dispor!...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

CONVERSA FIADA

Neste dia-a-dia
De vida errante
Só resta a mania
De ser bem falante
Falar para o povo
Dizer baboseiras
Sem nada de novo
Apenas asneiras
Na terra onde estamos
Onde nós vivemos
Já não nos safamos
No mais e no menos
Falar por falar
Promessas, enfim
Ter que aguentar
Ouvir tal latim
O povo acredita
Naquilo que dizem
No fim é que fica
Com medo que o pisem
Comer p’la calada
Dinheiro nem cheiro
Conversa fiada
No fim e primeiro

QUE FUTURO?



O que eu mais gostaria que me sucedesse na escrita destes meus blogues diários era que os temas focados fossem, na sua maioria, demonstrativos de que, neste nosso País, há mais motivos para expressar alegria e boa disposição do que o contrário. Que bom seria cantar aleluias às nossas demonstrações de felicidade, dar mostras de bem-estar com o mundo e connosco, ter saudades de algum passado que tivesse valido a pena e não perder expectativas agradáveis em relação ao futuro. Isto seria o que me apetecia que fosse uma realidade.
Mas, para fazer a vontade a todos aqueles que clamam pelo optimismo, que aconselham o acreditarmos que o que vem aí só pode apresentar boas perspectivas, que o mau tempo fica sempre para trás, sobretudo que somos capazes de vencer as adversidades e que temos competência para, como dizem os brasileiros, darmos a volta por cima, para aderirmos a esse espírito de que tudo corre bem não importa que estejamos a mentir a nós próprios?
Eu lastimo. Mas não sou portador dessa característica. O que vejo, o que sinto, o que perspectivo não corresponde a tal crença de que não temos razões para nos preocuparmos. Que podemos andar descansados e que os nossos descendentes vão encontrar um País pleno de forma e, em relação ao espaço europeu, não existirá nenhum atraso, para não dizer que nos vamos situar na frente da fila.
Sendo assim, vou apenas referir algumas notícias que, os que acompanham os jornais, as rádios ou as televisões, puderam constatar hoje, dando a conhecer ao público em geral como nos encontramos e como vamos ficar. Para começar, os cenários que o governador do Banco de Portugal entendeu comunicar não podem ser mais arrepiantes. Desde as diminuições da riqueza do País, da baixa do investimento privado que vai ter lugar, das exportações que caíram muito e a retoma que só será mais significativa lá para o ano de 2011, tudo isso acrescido do desemprego que não pára de aumentar, faz com que Portugal seja um País a viver um período de medo, em que a pobreza está bem ao alcance das mãos. Em resumo, os responsáveis pelas finanças públicas já não escondem que a queda agora analisada é mais forte do que se previa e que não vai ser fácil sairmos da recessão em que já nos encontramos.
E como se não bastasse a quantidade enorme de empresas de antigo sucesso e nome sonante que encerram as suas portas e ocasionam avultados despedimentos, também os pequenos empresários, que são aos milhares, diariamente dão mostras do encerramento das suas lojas onde figura o triste anúncio de “vende-se”.
Haverá então alguém neste nosso País que se queira iludir com toques de violino, para não se consciencializar no que respeita ao amanhã que tem de nos preocupar? Há ainda gente que se deixa levar pelas palavras falaciosas dos nossos governantes, com José Sócrates à frente, que não tendo nunca mostrado coragem para falar verdade aos portugueses, para convencer a população de que, em lugar de propagar a ideia de que estávamos ricos – como o fizeram durante a sua governação, especialmente no período mais inicial – o fundamental era ir preparando a população para o que a esperava, e que todo o mundo já conhecia? Aquilo que disse o Presidente da República, quando se referiu a este problema e não foi nada meigo no que respeita ao sentido crítico das suas palavras, não esteve longe do conteúdo do que aqui fica expresso neste texto.
Não ligo a que uns tantos, que até talvez estejam a ser beneficiados por esta situação de corda na garganta que se vive em Portugal (e não se admirem ao ler esta passagem, porque, como tenho referido nos meus blogues diários, é verdade, há sempre quem ganhe com o mal da maioria), mas eu prefiro olhar de frente e, ao insurgir-me contra a apatia que certos sectores mantêm, levanto a minha voz de inconformado e dou a cara. Que não tínhamos, nós, pequeno País, capacidade para passar ao lado da crise, isso aceita-se. Mas que tenhamos seguido o caminho de esconder a verdade e de não sermos capazes de escolher as opções de actuação mais apropriadas, isso é que não consigo aceitar, (volto a referir-me aos meus blogues anteriores).
Vamos a ver o que vai mostrar o resultado das próximas eleições, especialmente as legislativas. Tudo indica que maioria no Parlamento é situação que ninguém acredita que se verifique. Portanto, o panorama político se modificará de maneira bem clara. As abstenções, que se provêm por parte do eleitorado no momento do voto, darão a indicação de que os portugueses perderam o interesse pela situação política do nosso País. Não vão confiar em ninguém, digo eu, a esta distância e sem temer ser criticado por isso. E, da mesma maneira que não influencio ninguém da área do Governo com as minhas exposições neste blogue, também seguramente que não será pela leitura do que aqui escrevo que os cidadãos ficarão em casa no dia de ir às urnas.
Vamos lá a ver quando e como alterarei estes meus textos pessimistas, mas isso só se poderá verificar na altura em que se vislumbre algum passo por parte dos governantes, agora estes, depois os que vierem, nem que sejam os mesmos mas com companhia sabe-se lá de quem, que se possa considerar como medida ou medidas que, realmente, tenham de ser consideradas como valiosas, inteligentes, competentes e cujo objectivo seja o de melhorar o estádio em que se encontra Portugal.

domingo, 3 de maio de 2009

DESCONSOLADO

Aqui estou eu, desconsolado
a ver passar o mundo
à minha volta
sem que nele interfira
sem que o melhore
mas também pouco
o piorando.
Sou mais um
dos milhares de milhões
que por cá andam
a consumir o ar,
a água, o ambiente,
o espaço e que contribui para que o amanhã
seja muito pior,
mais escasso de tudo,
menos belo,
menos natural.

Aqui estou, enfastiado
já sem me importar
com o que vem a seguir,
com o que vai ser o futuro,
aquele que não me vai encontrar...
para me desconsolar

FAR WEST Á PORTUGUESA





Por mais que eu deseje entrar num período em que tudo o que eu escreva seja no âmbito optimista, não tendo de abordar temas de desgraça e de perspectivas angustiantes para o futuro que se depara ao Mundo, o facto é que todos os dias chegam notícias que nos deixam alarmados, isto se levarmos em consideração as realidades divulgadas, as que nos podem atingir directamente ou mesmo as que só vão chegar ao espaço terrestre daqui a alguns anos, provavelmente em época em que nos não apanham já na luta do dia-a-dia. Daí a minha preocupação. Na verdade, todos nós sentiremos enorme prazer em manter a esperança de que este mundo que vamos deixar será recebido pelos vindouros com prazer e agradecimento por não ser herdado em péssimas condições de vivência e com encargos que têm de ser suportados, provenientes de dívidas contraídas pelos antecessores. Mas isto já é outra conversa que não vou agora abordar.
Porém, o que nos tem de deixar deveras consternados são noticias que surgiram nesta altura de que, lá para o ano 2080, existe a ameaça de Lisboa, isto no caso português, ficar em parte submersa, resultado do degelo provocado pelo aquecimento global que já teve início nesta altura, o que vai fazer com que o nível da água suba, nos próximos 70 anos, podendo, no nosso caso, tapar metade do Arco da Rua Augusta.
Perante estes tipo de panorama que diz respeito ao mundo num futuro, mesmo que não seja muito distante, o que poderão pensar os multimilionários de hoje, aqueles que acumularam fortunas e que vivem preocupados em as manter a todo o custo, principalmente aquelas riquezas astronómicas que foram obtidas por acções obscuras, por rasgos de sorte provocada, por atitudes que poderão ter sido já faladas muito embora as provas concretas não surjam porque o dinheiro tem sempre forma de fazer esconder as habilidades que provocam acumulações de activos de todas as espécies? Esta pergunta dá vontade de ser feita, muito embora as respostas dos vários sortudos não surjam nunca.
Digo isto agora, por ter tomado conhecimento pela leitura de uma notícia saída num periódico de que um autarca de Gondomar, vivo, acumula uma fortuna, descrita numa sua declaração de rendimentos, em que, para além dos ganhos anuais de 47 mil euros, obtêm outros 77 mil euros de rendas prediais, mas, acima de isso, declara ser dono de 223 propriedades espalhadas pelo País. Trata-se de um autarca da Câmara de Gondomar, por sinal o mesmo local onde outra vida também avantajada é conhecida, pertencente ao seu Presidente (embora este, também segundo notícia jornalística publicada,"só" seja proprietário de 9 casas e de 17 empresas). Só que isto ocorre num País paupérrimo, encontrando-se a sua população, na sua grande maioria a roçar a miséria, até com vários organismos municipais sem poder liquidar as suas dívidas e em que o aspecto geral da Nação é de fragilidade financeira inquietante, é exactamente isto o que foi matéria de uma notícia que, bem sabemos, não é original nem rara, pois que se sabe que, no meio da crise, há aqueles que se aproveitam das circunstâncias e enchem fartamente os bolsos.
No que diz respeito aos governantes de hoje, eles que façam um exame de consciência e que analisem se têm sido tomadas todas as medidas para terminar com este verdadeiro Far West do roubo. E vamos ver o que vai occorrer depois das eleições...

sábado, 2 de maio de 2009

OUTRO INFERNO?



Foi, ao assistir a uma das duas manifestações populares – que é como quem diz, porque foram organizadas por centrais sindicais – do 1.º de Maio, em que, apesar das dificuldades que se conhecem de procurar resolver uma situação que está a atingir fortemente a situação social da maioria do povo, e ao confrontar-me uma vez mais com os exageros que alguns participantes resolveram assumir (desta vez foi o caso passado das afrontas com o candidato a deputado europeu pelo Partido Socialista, Vital Moreira), fiquei a pensar, como já me sucedeu noutras ocasiões, naquilo que os homens imaginam em relação a um mundo ideal, a uma espécie de se viver no Céu cristão, quando os nossos pés onde pisam é nesta Terra que, por sinal, é fruto da acção humana, e, por isso, do seu próprio egoísmo, das invejas que fazem com que o ser racional não se conforme nunca com o que tem e, antes, tudo faça para alcançar o máximo só para si, sejam quais forem as consequências e os prejuízos que tal causem ao próximo, ao vizinho que se movimenta do outro lado da rua a quem não é consentido que tenha mais abundância do que aquilo que se possui neste lado. E os causadores da crise que se instalou na nossa Esfera, e que anda por aí a tentar esconder o que conseguiram arrecadar, esses são bem a prova de que os habitantes do Planeta não realizaram ainda que onde vivemos não é propriamente o tal Céu imaginado, seja qual for a religião que se professe, mas sim um local onde o Homem dispõe dos meios para tornar o terreno que pisa numa espécie de paraíso e, em vez disso, sem medir as consequências dos seus actos, sem travar os ímpetos de malvadez que não hesita em utilizar só em busca do seu próprio benefício, o que tem conseguido é ir criando um autêntico Inferno, onde a existência se apresenta cada vez mais difícil.
Esta introdução até dá ideia de tratar-se de um texto litúrgico, oriundo de uma das fés que, também os Homens, foram construindo ao longo da sua existência e que têm vindo a desenvolver e a modernizar de acordo com o progresso tecnológico que também sai das suas cabeças e das suas mãos.
Mas não é disso que se trata e tão somente uma reflezão que me surgiu ao ter analisado o comportamento de uma avalanche de cidadãos que, para comemorar um dia que decidiu dedicar ao Trabalhador, não foi capaz de se limitar a festejar uma data, procedendo de forma inversa, isto é, perdendo a cabeça com insultos e manifestações hostis contra um participante dessa comemoração. E vá lá que poderia ter sido pior, como já se tem assistido em acontecimentos semelhantes que se dão em diferentes partes do mundo, onde a destruição e a raiva são de grande dimensão.
É verdade que, seja qual for o local onde se tenha que suportar a vida de hoje, há enormes razões de queixa da maioria das populações contra o estado a que chegaram, actualmente, as situações de sobrevivência que têm de se suportar amargamente. E o pior é que não se sabe como e quando terminam as aflições em que estão envolvidos milhões de habitantes terrestres.
E, para acrescentar ainda mais sofrimento, eis que surgiu agora a chamada “gripe A”, como se não fosse bastante todo o sofrimento que paira junto da maioria da população terrestre. Recordo-me do tempo em que a ameaça de ir parar ao Inferno era um dos castigos com que a religião Católica assustava os tidos como pecadores.
É caso para perguntar: Outro Inferno? Então este não chega?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

NO DIA DO TRABALHADOR



Já me referi nestes escritos às regalias que os deputados europeus obtêm pelo facto de exercerem a sua actividade em Bruxelas, conseguida por votação em cada país comunitário, onde têm de se deslocar periodicamente à sede do Parlamento Europeu. Mas não falei concretamente de valores e de outras mordomias que lhes são concedidas. Não ficaram completamente esclarecidas, portanto, as vantagens que obtêm esses “pobres” desempenhadores de funções que, em muitos casos, se resumem às viagens aéreas de ida e volta, em classe executiva, está bem de ver, e às presenças nas suas bancadas, quase sempre só a ouvir os outros interferirem nas discussões e, claro, na altura própria a terem de votar. Fora isso, o que lhes cabe é ter de dormir onde melhor escolhem e tirando partido da verba que lhes é concedida pela EU e que era, até agora, de 287 euros diários mas passou a ser de 430 euros, o que dá bem para um razoável hotel local e que, para alguns, até sobra.
Mas, no que diz respeito à remuneração, até há pouco era de 3.815 euros mensais, mas este ano subiu para 7.665 euros brutos, todos em igualdade de circunstâncias seja qual for o País que representem. Para além disso, e para que os deputados possam recuperar do esforço que fazem na sua actividade, a sede do Parlamento em Bruxelas dispõe ainda de instalações para refrescar as ideias e prestar uma qualidade de saúde superior, como seja um ginásio com “Spa” que é bem aproveitado pelos participantes do Parlamento.
E não ficam por aqui as condições faustosas que são concedidas aos mesmos deputados. A partir dos 63 anos, os membros da Instituição podem reformar-se e recebem, automaticamente, uma pensão vitalícia no valor de 3,5 por cento do ordenado por cada ano de trabalho exercido a favor da EU, após desconto facultativo, caso contrário os próprios podem optar pela pensão atribuída pela Assembleia da República, o que quer dizer que são, no nosso caso, os portugueses a suportar.
Nesta altura já os maiores partidos nomearam os seus principais representantes para estarem presentes nas próximas eleições europeias e estes encontram-se na expectativa de obter tal preferência, imagina-se que com compreensível frenesim. E não será caso para menos, trata-se de um “emprego” para quatro anos que, especialmente nesta época de tanta falta de colocação, cai como sopa no mel nos pratos dos felizardos que obtêm este privilégio.
Estive para não incluir no meu blogue este tema que provoca, como é evidente, a maior inveja a toda a classe popular que por cá labuta uma vida inteira e nunca teve possibilidade de auferir nem nada parecido com estas benesses que são concedidas aos deputados europeus. E que, sobretudo nesta altura dramática da nossa existência, em que a maioria dos portugueses se vê em palpos de aranha para conseguir suportar os seus gastos mensais mínimos, até de alimentação, tomar conhecimento do tratamento que é dado aos representantes nacionais naqueles lugares lá pela Europa, com idas e vindas semanais, e tendo-se ficado agora a saber que os custos das propagandas pagas aos partidos, pelas eleições que hão-de vir aí, são suportadas pelo Estado, ainda mais incómodo provoca este escrito.
Da minha parte trata-se, reconheço-o, de uma maldade e talvez custe a alguns perdoar-me. Mas não resisti ao vício de manter informados aqueles que me lêem diariamente.
Que me desculpem por isso. Sobretudo por sair este texto no Dia do Trabalhador.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

DESGOSTO

Como gosto de pintar
De trazer à tela em branco
O dom que sinto no ar
E da alma o arranco

Como ter papel à frente
À espera que o preencha
Com versos que estão na mente
A pedir que eu lhes mexa

Mas a música saltitante
Essa sim bem gostaria
De fazer dela uma amante

Mas aí é que eu não pego
Nem marcha nem sinfonia
Com desgosto, não lhe chego

O RETRATO


Eu que pinto, que me agarro aos pincéis e coloco diante de mim o cavalete, com a tela pronta a sofrer os mal tratos que eu lhe posso dar, com as cores que, de início, nunca sei bem quais serão, se resolvesse agora, mais uma vez, preencher o espaço em branco com a reprodução da minha imagem, que veria em mim que merecesse a pena reproduzir?
Nem sei bem. Não consigo, com o que escrevo, imaginar o que poderia sair.
Com a escrita é mais fácil. Quem, como eu, se dedica a esses dois atributos, que foram, há anos, simples entretenimentos e, quando chegou a altura, transformei em actividade permanente, perante a prosa, os poemas e a pintura tenho dificuldade em prever, antes de ter avançado alguma coisa no trabalho a que meti ombros, melhor dizendo as mãos, e não me sinto em condições de prever como vai ser o seu andamento e muito menos como o darei por concluído.
Na escrita, o computador ajuda muito, porque permite avanços e recuos, emendas de parágrafos inteiros, substituição de matéria antes pensada e concebida. Há sempre aalterações a fazer e só com um voltar de costas teimoso é possível substituir o que já estava escrito com aquilo que se desejaria ter executado.
Na poesia será um pouco diferente. É preciso pôr a funcionar a imaginação, a busca do tema, o profundo desejo de encontrar as palavras que melhor se adaptam à ideia e à cadência de um poema. E, claro que não são todas as que vêm no dicionário.
Na pintura, pelo menos comigo, não é fácil executar um quadro de cada vez. Começar e acabar o mesmo. A não ser se no retrato ou na reprodução de alguma modelo, quer vivo quer paisagístico, seja portanto ele qual for e em que existe o motivo à vista e então basta que se iguale o que se vê com a maior fidelidade possível – isso que eu já fiz, mas não pertence nesta altura aos meus propósitos pictóricos -, quando o artista coloca as bisnagas à vista, a dificuldade consiste em saber qual a primeira cor a colocar no espaço ainda em branco, aquela que vai constituir a base da obra que se procura desenvolver. Por isso, ao contrário da escrita, em que o autor não dá início à sua produção colocando palavras à solta no papel, a diferença com o pintar, especialmente nos primeiros passos de cada uma das artes, é enorme e não coabitam as duas actividades no mesmo espaço da imaginação.
Ao redigir tenho mais facilidade em retratar-me. Não existe tanto rigor na semelhança, os retoques literários permitem uma aproximação mais fiel do que eu possa ser de facto. E como a descrição do retratado não é física mas mais interior, com maior preocupação de descrever a maneira de ser, a actuação, o comportamento em todas as suas manifestações, humanas e intelectuais, se bem que se possa também escrever o aspecto exterior, aquele que se encontra mais à vista, ao fazer uma espécie de auto-retrato escrito, ainda que não revelando por completo um ou outro pormenor de maior intimidade, talvez consiga mostrar-me com uma certa fidelidade.
Voltando à pintura, não escondo que já tentei reproduzir-me na tela que tinha disposto para o efeito. E saíram várias demonstrações do esforço que empreguei para me aproximar daquilo que julgo ser a minha personalidade física. Passei por essa fase e a minha preocupação foi a mesma de me ver ao espelho. Pouco interessante. Daí que enveredei pela via da análise subjectiva da minha personalidade, utilizando cores que não se coadunavam com a realidade mas que se adaptavam ao estilo pictórico mais próprio da fase artística por que tinha enveredado.
Em qualquer das situações não fui capaz de me convencer que estava a ser fiel ao modelo.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

DIREITOS E DEVERES

O Homem tem seus direitos
os gregos foram primeiros
e a Demo com seus defeitos
teve aí os seus obreiros

Os romanos se seguiram
as Doze Tábuas criaram
mas os plebeus não se riram
longe dos nobres ficaram

A Revolução Francesa
fez algo p’lo cidadão
trouxe alguma firmeza
na sua Declaração

Mas só a França lucrou
a Europa estava fora
e o mundo nem se atinou
com tais sinais de aurora

Foi precisa uma guerra
que espalhou p’lo Universo
malefícios de quem erra
mostram o Homem perverso

No fim as Nações Unidas
lá do Homem se lembraram
p’ra tapar muitas feridas
a Declaração criaram

A segunda, a que existe
extensiva a todo o mundo
mantendo o dedo em riste
mas pouco eficaz no fundo

Muçulmanos, por exemplo
tolerância não conhecem
e mesmo crentes no templo
as mulheres só obedecem

Respeitar opiniões
é coisa que não aceitam
provocando explosões
aos que o Islão rejeitam

Porém há tantos que tais
que aos outros não dão direitos
e mandando querem mais
julgando-se até perfeitos

Pois todas as ditaduras
de quaisquer ideologias
têm as mesmas posturas
de severas tutorias

Mas de direitos falando
úteis p’ra todos os seres
é bom não ir olvidando
que também há os deveres

Uns e outros são irmãos
até gémeos por sinal
e todos os cidadãos
devem ter esse ideal

Direitos têm de haver
essa regra é de ouro
mas deveres não esquecer
fazem parte do tesouro

APRENDER DEMOCRACIA



Se pensarmos bem, cada vez que a nossa boca pronuncia a palavra Democracia, no seu verdadeiro significado e naquilo que cada um de nós deve fazer para praticar essa modalidade política, se usássemos a referida expressão mas, por outro lado, a praticássemos melhor, seguramente que o seu uso no dia-a-dia seria bastante mais visível. E isso, particularmente, no que se refere ao português de gema.
É evidente que seguir com rigor os princípios democráticos não é tarefa fácil de executar. Obriga-nos a ter sempre presente a razão dos outros, a acatar as suas opiniões, mesmo que nos encontraremos no patamar contrário, não discutir pontos de vista aos gritos, gesticulando, impondo o nosso parecer sem consentir que os parceiros apresentem os seus. E isso, como é natural, custa a praticar. Sobretudo nós, portugueses, que vivemos embatocados durante praticamente toda a nossa existência - sim porque não foi apenas no longo período ditatorial que o povo não foi ouvido para opinar sobre a condução dos destinos da Nação -, que acordámos numa manhã com uma evolução na rua, em que nos foi dito que e passava a viver em Liberdade, nunca entendemos completamente o que isso significava na sua verdadeira pureza e passámos a julgar que já estava enraizado no nosso espírito aquilo que a Democracia representa na verdadeira acepção política.
Mas se observarmos, por exemplo, o que sucede na Grã Bretanha, onde a prática democrática – a tal que já Winston Churchill disse que era a menos má das políticas – existe há cerca de 300 anos, se tivermos oportunidade de conviver com súbditos ingleses do nosso nível intelectual, então poderemos constatar que existe uma enorme diferença entre a duas práticas do mesmo princípio, a deles e o nosso.
É que ouvir, mostrando a maior atenção, o que outro cidadão pretende dizer e, durante todo o discurso, sentir dentro de nós toda a contradição quanto aos pontos de vista que nos são apresentados e aguardarmos pela nossa vez de falarmos para, então, expormos o que consideramos ser a nossa verdade, essa atitude não constitui ainda a nossa forma de actuar.
Não há dúvida de que vão ser precisos vários anos de prática democrática, que é necessário o aparecimento de algumas novas gerações para que o hábito de saber ouvir os outros, para que os portugueses consigam, a pouco e pouco, embrenhar-se naturalmente no que hoje ainda constitui um esforço, dado que é característica nacional julgarmos que a razão está sempre do nosso lado e que os demais andam sempre enganados, será essencial praticarmos muitos para podermos chegar a uma situação parecida com o espírito democrático autêntico.
Essa, pois, a razão que me leva a manifestar a minha estranheza por não ter sido ainda introduzida no ensino escolar, até mesmo logo no primeiro ciclo, a disciplina que ensine aos miúdos o verdadeiro valor da Democracia. Surgiu uma preferência pela língua inglesa que, aliás já se aprendia antes, tem sido grande a propaganda em redor do computador Magalhães, tudo com o seu valor relativo, mas envolver as classes da primeira aprendizagem no estudo da prática democrática, com exemplos bem claros e fazendo com que a rapaziada se inicie na respectiva utilização, entre eles próprios, do que representa permitir que cada um pense da sua forma e possa expor aos parceiros o que a sua cabeça produz, sem impor, mesmo que esteja em desacordo, aquilo que constitui a sua própria opinião, o saber ouvir e expor, tudo em acalmia e com boa educação, isso não lembrou ainda a nenhum Governo pós 25 de Abril estabelecer na instrução dos homens de amanhã.
Essa atitude passiva não vai contribuir para que os cidadãos se vão habituando, o mais rapidamente que for possível, a essa norma tão salutar de conviver. E é pena. Quanto mais tempo levarmos por cá a não usar enfaticamente só a palavra sem a sabermos aplicar na prática em toda a sua extensão, mais longe se encontra o entendimento entre os que passam a vida a discutir e a não chegar facilmente a um entendimento.

terça-feira, 28 de abril de 2009

FUNDO DE DESEMPREGO



Tanto se queixa José Sócrates de que não consegue que lhe cheguem às mãos, para além das críticas dos seus opositores, propostas que se destinem a encontrar soluções para resolver a crise e que sirvam também para ajudar o Governo a caminhar por vias positivas que proporcionem melhorar o estado degradado em que se debate o povo português, perante esta lástima que, até certo ponto, tem alguma veracidade, pois os partidos políticos opositores do PS só se têm interessado pelo dizer mal do que vem sendo feito – e tem sido muito, também há que dizê-lo -, faltando surgirem planos concretos, de que os cidadãos tenham conhecimento, que possam ser aproveitados pelos governantes actuais, atrevo-me a apresentar neste blogue uma ideia que, nas minhas fugas ao noticiário de televisões estrangeiras, neste caso a Rai Uno, italiana, tive ocasião de recolher, como tratando-se de algo que está a ser posto em prática pelo Executivo de Berlusconi. E é tão simples como o que passo a expor:
Dado que as pequenas e médias empresas são lá, como sucede entre nós, as mais sacrificadas, pois a Banca, assustada com os créditos mal parados, não lhes facilita os empréstimos para fazer face à evolução dos seus negócios, isso, apesar de serem elas as que proporcionam maior número de empregos, no total de posições que oferecem em todo o território - o que também se verifica entre nós -, a medida tomada foi a de conceder facilidades fiscais a esses pequenos contribuintes desde que os mesmos não despeçam trabalhadores e mesmo se abrirem a possibilidade de aumentar o número de colaboradores fixos que possuam. E esse auxílio consta da diminuição de impostos, o que, em muitos casos, representa um apoio bastante significativo.
Por outro lado, feitas as contas, o Estado deixa de pagar o auxílio do desemprego, que cá também se verifica, o que quer dizer que, em termos de dispêndio com dinheiros públicos proveniente da redução de impostos aos que beneficiem dessa participação, haverá alguma compensação com a redução de valores do Fundo de Desemprego.
Não sei se os serviços ao dispor do gabinete do primeiro-ministro acompanham o que se passa neste nosso País e se também se se ocupam de ler os blogues que vão saindo, porque se sim haverá possibilidade de tomarem conhecimento desta proposta. Se isso não acontece, então apenas outros cidadãos que não têm poder para actuar ficam ao corrente do que aqui deixo expresso.
Cada um faz o que pode.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

CEGO

Aquilo que eu vejo hoje
o que gosto e o que detesto
as flores, as árvores, a Natureza
e as maldades dos homens
só é possível porque os meus olhos
ainda funcionam
e é com eles que o meu cérebro
raciocina
se alegra e se revolta
se sensibiliza
me obriga a olhar para trás e para a frente
a parar para ver melhor
a espantar-me com o belo
e com o desprezível

Mas penso se um dia
deixo de ver
se terminam as minhas contemplações
se se fecha a janela da vida
se só poderei
ouvir, apalpar, falar
e só com isso serei capaz de decifrar
o que se planta diante de mim,
então o cérebro trabalhará a dobrar
penso eu, mas talvez a falta de visão
descanse mais o pensamento
o que não se vê
se não mostra a beleza
também não revolta
quando é isso mesmo:
repugnante

O pior é a leitura
o breille ajuda, dizem os invisuais
mas não se anda tão ao par
do que vai saindo
e que valha a pena
embora, por outro lado,
não se tenha de assistir
à enormidade de lixo literário
que as editoras atiram para a rua.

É melhor ou pior ser cego?
o ideal é não se conhecer nunca
a resposta
ficar na dúvida
a questionar-se até ao fim.
Por enquanto, já que vejo
deixem-me ficar assim!...


SE EU MANDASSE!


Se me tivesse calhado a mim a incumbência de ter entrevistado na SIC, como ocorreu recentemente, o político José Sócrates, talvez tivesse incluído nas perguntas apresentadas alguma coisa que se relacionasse com o que exponho abaixo e teria ocasião de o envolver na questão que está agora na boca de muitos portugueses: “Se fosse eu que mandasse, o que é que fazia?” Mas fica apenas a ideia da reacção do primeiro-ministro perante o problema que lhe fosse posto desta maneira. O resto é com a imaginação de cada um. Também não faço ideia da sensação que provocaria se, no discurso do 25 de Abril do Presidente da República, a questão posta a seguir tivesse feito parte das suas palavras.
“Se fosse eu que mandasse”
A esta pergunta que é feita ao público desprevenido na rua, que é apanhado pelas câmaras da SIC, num programa intitulado “Nós por cá”, se me calhasse a mim responder claro que não o faria sem deixar bem explícito que não é apenas um simples ponto, aquele que nos interessa a título pessoal, o que merece ser posto aos membros de um Executivo que, como sucede agora, se encontram ocasionalmente a comandar as várias pastas que lhes estão distribuídas.
Posto este ponto de vista, vale a pena acrescentar que o que eu faria logo à partida era convocar um Conselho de Ministros para comunicar a todos os membros que, a partir daquele momento, seria exigida a maior responsabilidade a cada um dos detentores da diferentes pastas, sendo que igual posição deveriam tomar os ministros em relação aos seus subordinados. Acabariam ali as desculpas quanto a demoras na execução das obrigações de cada um, demonstrações de incompetência, desculpas de mau pagador no que dissesse respeito a chamadas de atenção por acções, atitudes e declarações proferidas fora de propósito e todos, na sua escala respectiva, ficariam, portanto, sujeitos a uma avaliação permanente e a ter de assumir a respectiva responsabilidade para efeitos de encontrar os culpados, se os houvesse.
Para além disso, cada Ministério deveria criar um departamento para atender as reclamações dos cidadãos que dissessem respeito ao seu pelouro e, ao mesmo tempo, passaria a existir um cuidado particular no que se referisse ao tempo que levassem as respostas respectivas a cada caso. Teria de ser uma secção com um certo poder de requerer a urgência no seguimento dos assuntos, devendo ter acesso ao Ministro respectivo no caso de se verificar mau atendimento dos temas reclamados. Mas, esta medida teria de ser comunicada de seguida aos portugueses, para estes tomares conhecimento de que os sues problemas, desde que transmitidos às instâncias respectivas, teriam tido andamento no mais curto espaço de tempo possível, com o objectivo de criar confiança aos cidadãos que, desde sempre e até agora, se queixam e com razão de que o Poder não cuida de manter os naturais do nosso País informados do que se passa e não respondem às suas queixas.
Ora aí está o que eu faria em primeiro lugar. Porque, dizer em meia dúzia de palavras aquilo que me competia executar se mandasse, com a vastidão de assuntos que aguardam que os poderes públicos olhem para eles e se envergonhem das más actuações que a cada passo se detectam, isso não será possível.
E era a partir desta medida que todo o resto seria desbobinado, se bem que, tanta e tanta coisa que está a pedir que os que têm obrigação de tratar bem deste País lhes dediquem a atenção necessária, não seria, logicamente, de um dia para o outro que se poderia assistir a uma mudança radical do sistema e, com isso, se passasse a ver tudo solucionado, mas era um começo para dar a volta por que se espera há imenso tempo.
É óbvio que uma atitude deste tipo impunha que, da parte do principal responsável pelo Governo, se verificasse uma absoluta coragem e a disposição para enfrentar imensas contestações, mas é para isso que existe o lugar de primeiro-ministro, e não para se manifestar permanentemente como um sacrificado e um perseguido.

domingo, 26 de abril de 2009

OLHA EM FRENTE

Caíste no barranco da desgraça ?
Levanta-te, sacode o pó da estrada
Deixa que com o tempo tudo passa
‘Inda podes jogar nova cartada

Coragem homem e olha em frente
O que p’ra trás ficou, atrás está
Faz-te falta seres indiferente
Não julgues que ânimo alguém te dá

Força é preciso p’ra ter a cabeça
Bem alto sem que ela desfaleça
E não deixe de ter o seu querer

Olha p’ros outros, vê o que se passa
Que neste mundo nada é de graça
O mais difícil na vida é viver

O DISCURSO


O Presidente da República foi prudente. Sabia, seguramente, que as palavras que ia pronunciar no Parlamento eram aguardadas com enorme ansiedade, estando a ser previsto que iria aproveitar a ocasião para deixar bem clara a sua posição de demarcação do Governo que tem estado a ser alvo de críticas muito alargadas. Compreende-se, por isso, que, cautelosamente, tenha preparado um discurso que não servisse de motivo para que as Oposições, as políticas e as outras, surgissem de unhas afiadas e que o ambiente que se vive hoje, já por si de grande contestação, não aumentasse ainda mais, sobretudo neste período de pré-eleições em que as tentações são de não haver contenção nas acusações e de se praticar uma guerrilha do bota-abaixo que, sob o ponto de vista da ética e dos bons modos, não proporciona um ambiente calmo e ponderado.
Havia, isso sim, que apelar para os perigos da abstenção que, face ao que se pode avaliar no dia-a-dia e no contacto com a população corrente, constitui um perigo quanto a avaliação correcta de um resultado eleitoral. E tal alerta foi lançado por Cavaco Silva, no que, a nível colectivo, só merece a concordância de todos.
Face ao que eu escrevi no meu blogue de anteontem, é nítido que a expectativa que existia e que eu mantinha era a de que o primeiro Magistrado da Nação não se conteria quanto a deixar recados claros de desacordo com a prática política que José Sócrates tem vindo a praticar, sobretudo na fixação de que há que investir e muito, neste período difícil da vida portuguesa, por parte do Estado, deixando para os vindouros encargos que, até bastante tarde no futuro, vão constituir pesadas dificuldades, por muito que se beneficie alguma coisa antes com as modernizações que, provavelmente, não serão as opções mais sensatas nesta altura que atravessamos. Isto, no concreto, não saiu das palavras do Presidente, mas, com atenção e alguma boa vontade pode-se deduzir que se subentendeu tal preocupação no discurso presidencial.
Em conclusão: não ficariam os arreigados inimigos do partido do Governo completamente satisfeitos com o que ficou dito por Cavaco Silva. Esperavam muito mais e que não deixasse dúvidas quanto ao acatamento por parte de Belém dos passos que vão saindo de S. Bento.
Talvez tenha sido melhor assim. Já bem bastam as consequências de uma crise que estamos a viver, para acrescentar agora uma tensão institucional. E daí, apesar de Sócrates ter afirmado que estava de acordo com o que foi dito pelo Presidente, lá no seu íntimo não poderá sustentar um aplauso tão entusiástico.
No fundo, andam todos a fingir que não há razões para andarmos tão preocupados. E nós cá vamos indo também a criar a ilusão de que somos capazes de aguentar. São os portugueses, nus e crus!...

sábado, 25 de abril de 2009

REVOLUÇÃO

25 de Abril

Quem está perto dos quarenta
nascido à volta da data
que por cá se aguenta
nesta vida tão ingrata
tem este tempo na mente
e dele nunca se esquece
porque no fundo bem sente
que o festejar merece

Mas não viveu na altura
o efeito da diferença
não estava já na moldura
dos que sofreram doença
da ditadura teimosa
do come e cala e mais nada
de uma vida medrosa
que assim tinha sido herdada

Aprendeu tudo a seguir
do passado conhecia
só que podia ouvir
e era o que percebia
como tinha sido antes
mesmo que mal contado
por antigos apoiantes
do que foi o triste fado
pois que na volta da folha
do calendário fiel
não havia outra escolha
que pegar-se bem ao mel

E assim naquele dia
a maioria aderiu
agarrou sua fasquia
convencida aplaudiu
era algo que chegava
pior não podia ser
do que então acabava
e que estava a apodrecer
por isso bem vinda a nós
a boa Revolução
porque o que vem após
há que agarrar em festão
e seja o que Deus quiser
logo se vê o que passa
como mudar de mulher
e retirar a mordaça

E passada a confusão
daqueles meses de início
em que muito aldrabão
quis tirar seu benefício
parecia que lá íamos
conquistando a alforria
e que assim conseguíamos
chegar à Democracia

Mas não é em trinta anos
que se aprende a assumir
que causar aos outros danos
pode ser o destruir
da igualdade total
aceitar opiniões
ser-se em tudo liberal
mesmo nas religiões
faz falta à juventude
crescer e isso aceitar
e mostrar tal atitude
já no primeiro falar

E com caminhar dos anos
entender a liberdade
mesmo com uns desenganos
vai mostrando a verdade
de que como alguém dizia
ao olhar para os sistemas
de que a Democracia
é menos mau dos esquemas

Porque o Homem esse ser
não deixa haver melhor
está dentro do seu qur’er
nunca perder o pendor
de ficar só com o bom
ao próximo não deixar
mais do que um simples som
que reste do seu bem-estar
e o tal não dividir
e só p’ra si tudo querer
não deixa poder cumprir
nem chegar a entender
o bem da igualdade
de não haver diferenças
em toda a Humanidade
sejam quais forem as crenças

Ao terem por fim passado
três décadas do Abril
teremos aproximado
do verdadeiro perfil
que a Revolução sonhara
um Portugal vaidoso
que para trás deixara
o que era pavoroso?

Se isso se alcançou
os que antes conheceram
vêem bem o que mudou
e aos que depois nasceram
alguma coisa explicam
mas sem poder comparar
na dúvida sempre ficam
custa-lhes a acreditar
que era essa a nossa vida
no meio de tanto mal
não havendo outra saída
para o nosso Portugal

O que resta é saber
se o dia-a-dia de agora
tem alguma coisa a ver
com o que naquela hora
os da revolta queriam
dar felicidade ao povo
nem sei se eles sabiam
o que saia do ovo
o estado a que chegaríamos
com ou sem crise que há
sim ou não conseguiríamos
estar melhor do que está.

Pode ser que o futuro
se apresente noutro tom
e que caia enfim o muro
que não deixa ouvir o som
que outras democracias
mais antigas e seguras
nos mostrem as mais valias
de políticas mais puras
com mais anos de vivência
mais gerações assumidas
não pequem pela ausência
de posições bem paridas

E se a nossa juventude
souber assumir o bem
e com vera atitude
apreciar o que tem
então talvez o futuro
se apresente melhor
e que todo aquele apuro
que hoje é um horror
se transforme em oração
e que os que não viveram
a época da Revolução
bendigam os que fizeram
o golpe da nossa História
e eles que não nós
cantam bem alto a vitória

Sim, porque há que bem dizê-lo
nós os que vivemos hoje
apanhámos o farelo
os restos para quem foge
sofremos o que foi antes
sentimos todo o depois
e mesmo sendo amantes
somando os dois com dois
apanhámos com dois males
um que acaba de partir
e outro a pedir embales
sem saber bem onde ir

Cá estamos, pois, a aguardar
a melhor consolação
não vale a pena chorar
que viva a Revolução!






sexta-feira, 24 de abril de 2009

UM DISCURSO AGUARDADO





Era só o que faltava agora. É que, por via de recados, indirectas de um e de outro lado e razões que se reflectem nas opiniões dos cidadãos portugueses, surgisse agora um conflito institucional que envolvesse o Presidente da República e o primeiro-ministro, contrariando uma postura que se vinha a observar desde que o Executivo actual tomou posse.
As afirmações de que se tomaram conhecimento nos últimos tempos é que, mesmo sem indicação expressa do destinatário, existe um indício de que as coisas não estão agora a correr como antes. Durou algum tempo o anterior “namoro”, mas era inevitável que o escurecimento das actuações políticas de José Sócrates acabariam por provocar um afastamento do responsável de Belém. E isso, no discurso presidencial que é aguardado com grande expectativa na comemoração do 25 de Abril, marcando os 35 anos decorridos desde 1974, espera-se que fique aclarado amanhã. Na verdade, tem de chegar a altura em que também Cavaco Silva dará mostras de que não se pode conformar com o tratamento que tem sido dado aos problemas que afligem o nosso País e que, mais vezes do que seria desejável, não têm sido encarados com a lucidez política, económica e social que se impõem.
Se uma Revolução, pelo facto de representar uma alteração do sistema de governação de um país, não é natural que surja com a pacificação desejada, pois há sempre quem concorde e quem discorde, no caso português provocou algum trauma de comportamento, pois a Liberdade não é logo entendida e a libertinagem é aproveitada pelos oportunistas, que os há sempre em todas as situações. No caso nacional, impôs-se aguardar algum tempo, fazer acalmar os que apanham sempre os comboios em andamento, nada tendo feito para os pôr a andar, e, especialmente no caso do chamado ultramar português, por culpa primeiro do último chefe do Governo, Marcello Caetano, que se deixou vencer pelas forças reaccionárias que tinham ficado no “reinado” salazarista, e, depois, porque os militares revolucionários não tiveram capacidade para entender que era indispensável acomodar a viragem política produzida ao que os países europeus já democratizados seguiam, tudo isso fez com que o respirar ar puro e fresco no ambiente nacional não se tivesse imposto com a facilidade que seria desejada.
Estamos nesta altura numa fase, pré-eleitoral, que aponta para dificuldades de governação que se aproximam. E isso, depois de termos atravessado um período em que o Executivo de Sócrates, por nítida falta de saber ouvir o que outros poderiam e ainda poderão contribuir para solucionar certos problemas, essa atitude democrato-totalitária foi causadora de um excessivo descontentamento popular, se bem que, verdade seja dita, da parte das oposições não se tem descortinado nenhuma opção totalmente satisfatória.
Estamos, pois, na expectativa de verificar o que amanhã vai Cavaco Silva dizer ao País. Eu, por mim, aguardo com impaciência. E bastante preocupado.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

OS LIVROS


Vê-los na estante e atafulhados
de pé, como homens de coragem
por mais que pareçam arrumados
estão prontos para uma viagem

Tenho sempre de levar uns comigo
quando saio de casa por uns dias
podia deixá-los mas não consigo
fazem parte das minhas fantasias

É claro que eu tenho os preferidos
dia-a-dia o seu número aumenta
ainda que pareçam esquecidos

Quando partir para a outra tormenta
e passe ao mundo dos desvalidos
deixo o que o meu coração sustenta

OUTRA PERGUNTA A SÓCRATES


Cá está o que eu teria perguntado ao primeiro-ministro na entrevista que ele concedeu na televisão: e tratava-se de uma questão que, sem dúvida, interessaria a um elevadíssimo número de telespectadores, pois é uma infinidade de portugueses que sentem nos bolsos o preço dos combustíveis que, tendo subido assustadoramente em face do custo na origem, verificando-se essa ascensão logo a seguir a tomar-se conhecimento dos aumentos, sem dar tempo quase a que se tratassem de novas aquisições pelas companhias que, obviamente, bem aproveitaram as notícias para tirarem partido lucrativo com a marcação de novos preços sobre gasolina já guardada nos depósitos e adquirida com cotações anteriores e mais baixas.
Isto, poderá a Autoridade da Concorrência fazer afirmações como entender em defesa das companhias petrolíferas, que o público em geral não pode aceitar tais argumentos e, quando o presidente daquela instituição responde aos deputados da Assembleia da República dizendo que a “situação nacional é boa e que é difícil conseguir ter preços muito melhores do que os que temos”, isso no capítulo dos combustíveis, e, ainda por cima, garantir que não se verifica uma concertação entre as várias companhias no que se refere a ajustamento de tarifas, como é bom de ver, ninguém acredita e fica-se até bastante surpreendido com esta defesa atabalhoada de empresas que, como é sabido, ganham fortunas e estas evoluções de preços até ajudam a aumentar os lucros. A GALP, sobretudo, por se tratar de uma companhia nacional e dominada pelo Estado, tinha obrigação de contribuir para que os portugueses fossem aliviados deste sacrifício, para mais tendo ao lado um País onde se podem encher os depósitos dos carros por valores muito inferiores.
Repito, pois, aqui está um tema que bem poderia e deveria ter sido posto ao primeiro-ministro na entrevista que só serviu para ele dizer coisas que só lhe interessavam a ele, como propaganda em boca própria e até a abespinhar-se perante certas interrogações que lhe foram apresentadas. Como seria delicioso ouvir Sócrates explicar o que se passa neste particular!
Mas, quando o ser humano está convencido de que tem sempre razão e não admite que os outros não pensem da mesma forma que a sua – e é exactamente esse o comportamento dos ditadores ou até dos potenciais amantes do comando absoluto -, não há maneira de os fazer ouvir opiniões que não condigam com as suas e até não aceitam que lhes façam perguntas que consideram insultuosas, só porque podem fazer supor acusações – e vide também o que a presidente do PSD “atirou” a uma jornalista perante uma questão que lhe foi apresentada. Eles, afinal, são todos iguais!...