segunda-feira, 30 de março de 2009

EU


A 19 de Março
nesse mês de Primavera
sou Peixes e não disfarço
nasci eu, nasceu a fera

Foi na década de trinta
já lá vão bastantes anos
muita coisa já extinta
belezas e desenganos

Lá nas Caldas da Rainha
minha mãe me deu à luz
só não fui um alfacinha
era essa a minha cruz

Desigual de muita gente
não subi no pedestal
talvez roçasse a tangente
mas nada de genial

Escrita e poesia
pintura também saiu
música eu bem queria
mas tal não me acudiu

Sei o que é ser conformado
com o patamar que tive
menos mal por ter chegado
ao alto de um declive

Afinal e em resumo
perto de chegar ao fim
há que dizer com aprumo
eu nunca gostei de mim




NOMES DAS RUAS


Uma forma que ainda temos em Portugal de prestar homenagem a cidadãos que se salientaram no bom sentido do resto da população, ainda é o de ser dado o seu nome a uma rua no local mais adequado para essa referência. E, verdade seja dita, há sempre algum motivo que justifica essa recordação feita através de uma placa na esquina da rua escolhida.
O que se verifica, porém, não é tanto isso, pois, com excepção talvez das terras da província, onde a população e os municípios vivem perto dos homenageados, ainda em vida ou já depois do seu desaparecimento do mundo dos vivos, no que se refere às cidades esse gesto já é menos frequente, não se sabe se por ausência de conhecimento da existência de habitantes nesses centros ou se por desinteresse em reconhecer figuras que merecem ou mereceram ser recordadas nas placas identificas das avenidas, ruas e até travessas. Então, nos bairros novos, é vulgar encontrarem-se locais identificativos das residências dos locatários com a designação de rua A ou rua B, e por aí fora, quando há tantas personalidades que justificam plenamente que, pelo papel que desempenham ou desempenharam, têm jus a que sejam recordadas, pelo menos através daquela indicação do nome do local público.
Lisboa, deveria dar o exemplo neste particular. Não sei se a preocupação em atribuir nomes a novos arruamentos ou a antigos que ainda são conhecidas por denominações sem sentido ou sem razão de ser pertence a alguma departamento especial ou mesmo seja uma atribuição dos vereadores. Seja como for, o que deveria existir era a possibilidade de os próprios munícipes se dirigirem à Câmara Municipal de Lisboa, não só com propostas relacionadas com este tema como com ideias de outras espécies, isso no sentido de terem oportunidade de mostrar a sua participação e de contribuirem para os serviços municipais com ajudas que podem ser preciosas.
Esta mania, que tem o seu cúmulo nos Governos que temos tido, antigos e mais modernos, de não dar a oportunidade aos cidadãos de fazer ouvir as suas vozes, mesmo sabendo-se que, em muitos casos, as opiniões que são expressas pelo povo em geral não têm condições para serem atendidas, mas, com esse costume de auto convencimento dos governantes os cidadãos vão-se desinteressando de contribuir para o bom caminho das governações, sejam elas quais forem.
A acção das Juntas de Freguesia, já aqui referida em blogue anterior, seria da maior importância para colocar os munícipes com a ideia de que as suas propostas seriam sempre bem acolhidas e seguidas na medida do possível.
Mas esta ideia de abrir os ouvidos e prestar a maior atenção ao que a população tem para alvitrar acerca de muitos assuntos em que as ideias oriundas dessas bases podem ter grande significado, tal forma de aceitar o comportamento democrático sem restrições é coisa que ainda se encontra muito distante da forma de actuar dos que têm o comando nas mãos, mas que não devem fechar os olhos e os ouvidos às opiniões dos que, em certos casos, sabem mais.

domingo, 29 de março de 2009

TER FÉ


Quem me dera ter tal fé
E crer naquilo que fosse
Mesmo no que não se vê
Crer no fel e crer no doce
Crer no Céu e no Inferno
Crer no depois de amanhã
Acreditar no eterno
Tê-lo como talismã
Ser dono d'uma esperança
Ao horóscopo dar crédito
Não deixar de ser criança
Sem pretender ser inédito !

Tenho falta desses creres
Pois não sei o que isso é
Nunca senti tais prazeres
De idolatrar, de ter fé
De pedir e ser ouvido
Por deuses, santos, beatos
De, no fundo, ter sentido
Que não serão uns ingratos

Aqueles que sem querer
Por mais esforços que façam
Mantêm o seu descrer
E vivem tempos que passam
Mesmo se lhes toca a sorte
E a vida lhes sorrir
Como nada, nem a morte
Os poderá corrigir
Esses, uns pobres coitados
Que, como eu, se fartaram
E nunca foram bafejados
Porque nunca acreditaram
Nem no após, nem no final
Dizem que é falso, isso sim,
Que o que é, de facto, um mal
É crer que nada tem fim

E quando tudo se finar
Se, afinal, há outra vida
E há outro caminhar
Por estrada indefinida
Que devem fazer então ?
Quem lhes poderá valer ?
Se não merecem perdão
Nem sabem a quem se ater.
Lá nos fundos do Inferno
Também não estranharão
Por mais que seja eterno
Esse lume em que arderão.

Isso porque cá na vida
Neste mundo tão ingrato
Onde falta peso, medida
Não passou d'um curto acto,
Se se sofreram agruras
Dissabores, ingratidões
Se foram tais as torturas
Os desgostos e empurrões
Qu' importa que, no final,
Haja outra via a seguir
Pois já conhecendo o mal
Tanto faz que o porvir
Venha a ser o mais dramático
Em que se possa cair.
Isto para se ser prático !

Mas os que cá neste mundo
Não têm razões de queixa
Que no fundo, lá no fundo
Não gostam que algo mexa
Esses serão uns bons crentes
E adoram divindades
Por isso são tão tementes
De um fim com atrocidades
Quererão que se prolongue
O que por cá disfrutaram
Se eternize e se alongue
Tudo aquilo que gozaram

Têm razão os coitados
É triste perder favores
Que gozaram aos bocados
Quer em moeda ou louvores
Só pensar que deixam tudo
Quando entrarem no caixão
Que à volta se queda mudo
E só lhes resta o perdão
Se é que há quem os desculpe
Dos erros que cá fizeram
Os admoeste ou os multe
Pelo amor que nunca deram
E se assim for, desgraçados,
Pouco serve arrepender
Estarão amaldiçoados
Não há forma de volver !


Fica assim, pois, a questão
Por fim haverá Além ?
Dizer sim ou dizer não
É verdade de ninguém
E a dúvida persiste
Terra não pára por tal
Dum lado há quem insiste
Que se vive em grande mal
Que é pecado ser descrente
E não aceitar o depois
Como o que tem ponto assente
No que só crê dois mais dois
Não tem de ser castigado
Não tem culpa de pensar
De querer esmiuçado
De não poder aceitar.
Os mistérios insondáveis
Que os homens ainda inventam
E que são tão contestáveis
Qu' aqueles, mesmo os que tentam,
Não conseguem enfronhar
Porque a razão não os deixa
Porque insistem em pensar
E sempre há razões de queixa

Em plena dúvida, então
Por que caminho vou eu ?
Se me fizeram cristão
Como poderia ser judeu
Ter Allah como profeta
Ou ser seguidor de Buda
Qualquer que fosse a meta
Não sei se teria ajuda
E por aqui concluo
Que morrerei sem saber
Se afinal eu usufruo
Do direito de não crer

Haja então o que houver
Sendo ou não um pecador
Que seja o que Alguém quiser
Que possa ser julgador
Pois se, enfim, houver um Deus
Que é um todo poderoso
Que ama mesmo os ateus
Terá de ser generoso
E os que buscam certezas
Esses mais razões terão
Para justificar as fraquezas
E merecer um perdão

Sem querer ser prognóstico
Nem poder vaticinar
Resta-me ser agnóstico
E com paciência esperar

Ou será, por mais que insista
Em luta mesmo comigo
Que acabo por ser deísta
Como recurso ou abrigo ?

Nesta ânsia de saber
Faça aquilo que fizer
Já não me chega entender
E seja o que Deus quiser !

PRESERVATIVO



Isto de se andar a falar, por tudo e por nada, do uso do preservativo, chegando-se ao ponto de ser o próprio Papa a referir que não aprova tal utilização, leva a que se admita, de forma bizarra, que esta questão se transforme num problema que deve preocupar toda a humanidade e de que os seis mil milhões de habitantes do Globo tenham de pensar duas vezes sempre que dois seres têm ocasião para praticar uma vulgar união sexual, ou seja, se devem seguir as indicações papais ou se, pelo contrário, é cada um que decide sobre a forma de querer procriar ou, simplesmente, pretende apenas aproveitar os prazeres que as relações humanas propiciam.
É verdade que o Papa não será a entidade mais indicada para fazer este tipo de recomendações. E nem vale a pena referir os motivos por que entendo emitir esta opinião. Nem Sua Santidade, nem Suas Eminências os Bispos e, por aí abaixo, mesmo os Padres. E está bem de ver a razão desta afirmação. Que chamem a atenção para os graves riscos dos seropositivos transmitirem a sua condição de portadores da sida a terceiros e que, através desse aviso, procurem diminuir a propagação de um mal que tem vindo a ser espalhado, especialmente nos meios menos esclarecidos e mais pobres da Terra, como acontece em África e noutros continentes de igual menoridade intelectual e financeira, que seja esse o propósito só é louvável que seja feito. Mas, como é evidente, não será através da recriminação do uso do preservativo que esse objectivo será conseguido.
O Papa, portanto, cometeu um erro humano. E é pena que tenha entrado por esses caminho, de tal forma que até súbditos do seu esquema eclesiástico, como Bispos, surgiram a público opinando de forma não coincidente, até quando apresentaram razões e desculpas, um pouco “esfarrapadas” para que a contradição não surgisse como uma desobediência ao que vinha de cima.
É um facto, que só a fé muito introduzida não leva em linha de conta, que são os homens que, seguindo a sua vocação, se integram nas religiões que consideram serem as verdadeiras. Mas, apesar disso, não deixam de pertencer ao sector humano, o que significa que estão sujeitos a não serem diferentes de todos os outros, caindo, por isso, por vezes em erros. E manda a condescendência, mesmo de quem não segue a linha religiosa do Papa, que se desculpem falhas, sobretudo se se tratarem de excessos de argumentação, de intromissão em temas que não serão muito bem dominados por quem os utiliza nas suas afirmações.
Imagino que o bom senso já terá dado mostras, no Vaticano, do erro cometido. Teria sido preferível não avançar por esses terrenos do preservativo que, obviamente, iriam levantar contestação em todo o mundo e deixariam em posição incómoda os praticantes do catolicismo. Até mesmo, como já se constatou, nos diferentes graus canónicos que a Igreja católica sustenta.
Isso só poderá querer dizer, certamente, que não basta aos homens vestirem os hábitos sacerdotais, desde o mais alto posto, para ficarem libertados de, uma vez ou outra, praticarem os seus deslizes. Mesmo que muito raramente. O que se impõe é que os seus seguidores tenham a complacência suficiente para aceitar tais passos ao lado como resultado dos homens não serem deuses e, por isso, estarem sujeitos a lhes escapar uma ou outra verticalidade.

sábado, 28 de março de 2009

TODA A POESIA NESTE BLOGUE É MINHA


AMOR DE PARDAIS
Quatro pardalinhos brincam no chão do meu jardim
picam o chão com entusiasmo
e eu olho-os com ternura
pensando no mundo dos homens
desses que se guerreiam uns aos outros
e não confraternizam como estes pássaros
não dividem o que há para comer
são egoístas, querem só para si

E estes pássaros inocentes
que não sabem o que é pecado
que só procuram defender-se
dos que são gulosos
dos que apreciam o petisco
dos passarinhos fritos
saltitando, piando
lá vão apanhando as migalhas que
sem querer
os homens deixam cair

Que bom seria
se o mundo fosse todo como o dos pardais
dividindo o amor e as migalhas



MUSEU DOS COCHES



Muito se brinca por cá, sobretudo quando algumas cabeças mal pensantes resolvem dar mostras de que existem e vá de inventar uma polémica nova para distrair as pessoas, pois que os pequenos problemas, como os penalties mal marcados, é que conseguem juntar umas tantas reclamações que se organizam e enquanto andam à volta dessas causas que não servem para nada, as outras, as verdadeiramente importantes, essas, como lá ninguém consegue chegar, ficam para se dizer mal entre portas, para provocar uma revolta muda, para ir aumentando o descontentamento que, esse, nem com as próximas eleições se vão resolver.
Ora, este do projecto para o novo Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, só podia surgir agora, numa altura em que todos deveríamos estar muito quietinhos, para que os próprios movimentos não constituíssem a mesma pequena despesa, pois que o não gastar um cêntimo mal gasto tem de ser a ordem que todos devem cumprir.
Por isso, não discuto sequer se o Museu dos Coches está bem onde está ou se ficará melhor noutro que lhe venha a ser destinado, o que sim merece a minha preocupação é, uma vez mais, a falta de compreensão dos que tomam medidas fora de tempo de que nos encontramos numa fase em que, repito e não me canso de o fazer, temos de ter o maior tento em não criar mais razões para que os vindouros nos venham a acusar de que não fomos capazes de prever o futuro, tendo gasto o que fazia falta na altura própria e também nos tempos que se avizinhavam.
Já não se esconde que estamos, nos tempos que correm, a gastar mais de dois milhões de euros por hora e que a dívida externa, a pública e a privada, ultrapassa já uma altíssima percentagem do PIB. Quer dizer, estamos, portanto, empenhados até à raiz dos cabelos e isso deve-se a quem? Naturalmente a quem toma as decisões em nome do Estado e não é capaz de fazer contas à vida. A esses não os podemos desculpar nunca!
Bem basta o que já foi pela bolsa fora, como os dez estádios construídos por este País, os submarinos – de que falarei em breve – e que nos vão ficar atravessados, os auxílios concedidos à Banca e que nem por isso solucionaram a situação dos empréstimos necessários às PMEs, assim como as mãos largas com as nomeações e respectivos pagamentos de ordenados com as nomeações dos “boys”. Tudo isso não pode ser esquecido, mas já não tem remédio. Agora, o que ainda vamos a tempo de evitar, isso não pode escapar nem a um simples blogue que, modestamente, levanta a sua voz de indignação, quanto mais não seja para que, no futuro, se possa constatar que alguém não se conformou com o que se estava a passar. E, ao menos que, como acontece sempre com os que fazem a História e alteram as verdades, não deixem de referir que houve alguém que preencheu páginas computorizadas a contar o que se passava e não deixou de referir as maiores acusações aos governantes que existiam por cá.

sexta-feira, 27 de março de 2009

SER HOMEM

É preciso ser Homem
mas só isso não chega
é fundamental ter sentimentos
e usá-los
senti-los
transmiti-los
gostar do sol
da chuva
do vento
da lua
ter um ideal
e lutar por ele
defender o ambiente
e conservá-lo para o futuro
pensar nos que virão
e que vão herdar aquilo que lhes deixamos
não ser egoísta
respeitar os vizinhos
todos
os da rua
os do País
os do mundo
saber falar, mas, sobretudo
saber ouvir
pensar no que faz
e no que não deve fazer
e se fez e foi mal
arrepender-se sem receio
de mostrar o erro

É preciso ser Homem
mas de cabeça levantada
e consciência tranquila

Haverá quem seja assim?

PORTUGAL A FALIR!...




Portugal está em riscos de falir? Esta questão foi posta recentemente pela SIC, a estação de televisão que conta com larga audiência e que, face a isso, deixou muitos espectadores em verdadeiro pavor.
É evidente que esta pergunta e a falta de resposta, porque ninguém pode acrescentar alguma coisa a este alarme, só é possível devido ao facto de o Governo que temos suportado ao longo desta legislação o que tem feito é embalar os problemas, com afirmações públicas, pelo primeiro-ministro e por alguns dos seus companheiros de Executivo que só têm servido para provocar, cada vez mais, uma desconfiança quanto à capacidade de liderança dos que se encontram no poder. Temos, pois, que não esconder um grito de revolta que nos anda a querer saltar do peito, muito embora – e isso é que é dramático – não saibamos, na maioria de nós, portugueses, o que iremos votar no próximo acto (e isto se não se abstiver uma grande parte dos cidadãos), em quem depositaremos a nossa escolha.
É demais! Não podemos suportar por mais tempo aquela figura arrogante de José Sócrates a perder tempo e a fazer como antigamente, no tempo da Ditadura, com inaugurações e a colocar uma pá de cimento em obras que até dão vontade de rir. E as suas afirmações aos jornalistas, sempre com um ar de que não quer ser incomodado, de que vai tudo bem e que ele é que sabe, em vez de se preocupar em fazer diminuir a imagem péssima que tem junto dos portugueses, o que aumenta é a aversão que por ele os portugueses sentem cada vez mais. E quem tem dúvidas basta andar por aí, coisa que ele não faz e que, tal como Salazar, perdeu o contacto com as populações… que é a pior coisa para um governante…
Alguém deveria dizer-lhe, mesmo que ele naturalmente não quisesse ouvir, que, se obtiver de novo votos suficientes para formar Governo, mesmo que não maioritário, o que é evidente, isso não será por mérito próprio, mas apenas e só porque as oposições não são capazes de desempenhar o papel que lhes cabe e não mostram ao povo uma saída por essa via. E esse é que é o problema principal do nosso País. No meu entender, está bem de ver.
Tenho vindo, com enorme esforço, a contemporizar com a acção do Ministério de Sócrates, na esperança de que o homem acabaria por ser capaz de reconhecer que tem actuado com ausência de capacidade de evitar que o nosso País acabe por cair numa situação tal que seja comparável a uma falência empresarial. Mas chego a esta conclusão: a de que não é justo que tenhamos de correr o risco de cair nessa situação. E, todos, a contemplar o caminho que levamos, nada podemos fazer no sentido de sairmos deste atoleiro de incompetência em que nos encontramos.
Também, verdade seja dita, os colaboradores que são escolhidos para ocupar lugares de enorme importância para auxiliar a recuperação de Portugal, parece que, de propósito, estão a ser repescados por aquilo que o seu passado negativo tem para mostrar. Veja-se o que sucede com o AICEP. Mas, sobre isto, escreverei um dia destes. Mesmo que não resolva nada, cheguei ao ponto de não poder ficar mais tempo sem largar para o exterior aquilo que precisa de ser dito.
Bem me bastaram os anos em que, durante a época da outra senhora, a Censura e a PIDE calavam a boca dos jornalistas, dos que se atreviam a fazer chegar ao exterior o que se podia denunciar. Eu sei o que me custou essa mordaça…

quinta-feira, 26 de março de 2009

ONDE ANDAS, TALENTO?


Quando acordo cada manhã
e realizo que tenho mais um dia
para fazer o meu papel
de estar vivo
e, a pouco e pouco,
vou despertando, sem vontade de me mexer
então, confronto-me
com a realidade,
não é mais um
é um a menos
se contar, como é natural,
o que ma falta, na caminhada
e não o que eu já percorri.
Então, perco toda a vontade
de me meter ao caminho
pois é uma estrada que eu já conheço
onde transito todos os dias
e em que aspiro
encontrar o que nunca me apareceu.
Nesse trajecto
repito o exercício de escrever
na esperança de que
na ponta da caneta
me surja essa tão desejada
personagem que,
ao longo se tantos anos,
não há forma de vir ter comigo.
Mas eu teimo,
no fundo acredito que mereço
esse encontro,
quanto mais não seja
pelo tempo que tenho dedicado a essa busca,
pelo exercício permanente
que absorve as minhas energias mentais
e porque, apesar de tudo,
confio na sorte,
se tiver tempo para esperar.

Quando desperto pela manhã
passa-me tudo isto pela cabeça
e o desconsolo toma conta de mim
sem que transmita esse sentimento a ninguém.
É demasiado íntimo,
é excessivamente ridículo
para ser comunicado.
Não é entendível pelos outros,
porque consideram
que é um descontentamento vaidoso
porque interpretam a minha revolta como uma
demonstração de injustiça.
E talvez seja.
Afinal, quem levou uma vida
a tentar construir uma distinção,
quem sempre sonhou com o reconhecimento alheio
ao não ter encontrado o essencial
não pode andar conformado.

Onde andas tu, oh grandeza?
Por que não entras em mim, oh talento?

AS BARBAS DE MOLHO


Já ninguém procura esconder esta realidade: Portugal, nesta fase, em que nos encontramos, dá mostras de estar envelhecido e de continuar, neste caminho que se apresenta, a aumentar o número de gente idosa. E é o próprio Instituto Nacional de Estatística que prevê que, daqui a cinquenta anos, haverão 271 idosos por cada 100 jovens, isto levando em conta que o nosso País contará com dez milhões de habitantes e que esse número se deverá ao volume migratório e a níveis de fecundidade elevada resultante dessas populações oriundas do exterior.
Ora bem, a dúvida que será legítimo levantar é se as características do povo português, nessa altura, se manterão como têm vindo a ser uma constante desde tempos remotos e que ainda hoje constituem uma espécie de marca própria. O comportamento dos portugueses tem um estilo próprio e, quer as demonstrações favoráveis quer as outras, ambas têm estado na base dos resultados que obtivemos e que continuamos a conseguir. Quanto ao futuro, aos anos que ainda vêm a uma certa distância, ninguém pode fazer uma antecipação segura.
Mas, ao analisarmos o que se passa à nossa volta neste rectângulo situado na ponta final da Europa, sobre isso temos possibilidade de verificar que alguma coisa desfigura o que deveria já ter sido rectificado, especialmente por parte dos governantes que, por mais que se apontem deficiências de execução e se alvitrem caminhos mais certos, no que diz respeito ao Governo de Sócrates não há forma de encontrarmos uma saída, de que tanto precisamos, desta situação dramática que atravessamos.
Bem pode o próprio Presidente da República pedir rigor nos investimentos públicos, sobretudo nos casos de teimosia socratiana de prosseguir com a ideia de obras públicas que, ou são desnecessárias ou seria aconselhável que essa situação fosse enfrentada só mais tarde, quando as finanças públicas o puderem suportar sem sacrificar outras exigências. Mas o Executivo faz orelhas mocas e faz questão de deixar dívidas para os vindouros, quando os responsáveis de hoje, que já se encontrarem reformados, não tiverem que prestar contas ao País.
E, a propósito de reformados, no caso do pagamento das respectivas reformas, bem se podem preocupar os que tiverem que sofrer as consequências de existirem mais velhos do que novos. Conseguirá esta minoria descontar o bastante para manter os que trabalharam antes e depois têm direito a ser recompensados? Que medidas são hoje tomadas de molde a precaver essa maldição que não é preciso ser-se pessimista para imaginar tal possibilidade?
Mas, muito mais há a criticar os que, nos dias de hoje, já que não têm meios para superar a crise, pelo menos que não a agravem com sonhos delirantes. Que, por exemplo, metam mão nas regalias de ordenados sumptuosos e outras mordomias que continuam a ser atribuídos a administradores em instituições ligadas ao Estado, como se pôde ler na notícia saída de que o Banco de Portugal fixou o pagamento de um salário mensal de 19.500 euros ao administrador provisório do Banco Privado Português e acrescentou na nota que aquele funcionário tem direito a todas as regalias de natureza social, para além, está bem de ver, de uma viatura para utilização pessoal.
Será, então, que o País está, de facto, envelhecido? E será, portanto, por isso que existe a preocupação, por parte daqueles que têm nas mãos a condução da Pátria em diferentes sectores, o afã em garantir uma reforma daquelas que hoje atribuem por conveniência? Se sim, teremos neste caso um exemplo.
E esta é uma pequena amostra do que ocorre por aí, em que os favores são prestados uns aos outros, porque nunca se sabe o que pode passar amanhã e é bom garantir que os que são agora favorecidos não se esqueçam de que podem vir a ter nas mãos decisões que interessem aos que agora são os favorecedores.
Ora aqui está uma característica dos portugueses. Mais uma vez pergunto: será que se vai manter, pelos anos fora, esta situação de que é bom “ir pondo as barbas de molho” e, para isso, há toda a conveniência em salvaguardar a necessidade de recordar que “agora fiz por ti… depois fazes tu por mim!”?

quarta-feira, 25 de março de 2009

COMO NÓS - CIGANOS



Não é que eu tenha uma grande afinidade com a raça cigana, mas devo reconhecer que o afastamento que se verifica é mais por culpa dos que não pertencem a esse grupo étnico do que por opção cigana em se separar da maioria da população onde vive. E, naturalmente, ao criar-se uma separação, os que se encontram na ala dos minoritários procuram agrupar-se e, com isso, manter uma separação que não favorece nenhuma das partes.
Temos de reconhecer que cada forma de vida tem de ser aceite com naturalidade e, da mesma forma que existem qualidades gastronómicas diferenciadas de terra para terra, folclores distintos e até, nalguns casos, pronúncias da mesma língua que cria distinções, tudo isso a constituir uma riqueza que deve ser aproveitada, também os ciganos aplicam as suas regras nas suas festas, nos seus casamentos e, de uma forma particular, na condução das suas actividades. A pouco e pouco, verdade seja dita, os que conseguem sobressair em nível de vida das camadas mais deficitárias, esses, mesmo conservando os hábitos que vêem de gerações, vão-se diferenciando e procuram envolver-se com as características do país onde habitam. Não sei, confesso, se fazem bem em pretender seguir as regras dos locais onde se instalaram e até, como sucede, nos países onde já nasceram
Verifica-se nesta altura, em que os ciganos imigrantes, vindos da Roménia, já se encontram por todos os sítios e trazem consigo o hábito de pedir e de tentar vender material insignificante, sempre com o objectivo final de procurar a esmola, deparamos com frequência esse tipo de cidadãos que, pelo seu vestuário, pelo linguarejar específico que não podem evitar e pela forma de se apresentarem, especialmente as mulheres, com bebés ao colo e sentadas no solo, tal característica de pedintes não pode agradar e até provoca certa estranheza que venham de tão longe da Europa, atravessando diversas nações sempre com a sua prática pedinte, até chegarem a este extremo europeu.
Seja como for, trata-se de uma realidade que tem de ser encarada e tratada com a humanidade e os meios de que dispomos, por forma a solucionar um problema que não pode ser ignorado.
Agora, que concordemos com o que veio anunciado em vários órgãos de comunicação social de que, em alguns pontos de Portugal, se está a proceder à discriminação de crianças ciganas, colocando-as até em contentores para fazerem a sua aprendizagem escolar, isso é que nenhum português de boa cepa pode aceitar de ânimo leve. Não à separação e, bem pelo contrário, o que se torna imprescindível é que os não ciganos confraternizem com os que pertencem a essa etnia, por forma a formar-se um entendimento fraterno que permita, depois pela vida fora, não se criem barreiras entre portugueses, sejam de que cor forem, da religião que tiverem, do partido político que escolherem ou do clube futebolístico que mais gostarem.
Não é possível estabelecermos barreiras entre cidadãos, desde que todos cumpram as regras e que um velho ditado português explica com perfeição – em Roma sê romano!
É verdade que muita famílias ciganas transformam mal viver aos seus vizinhos, pois não conseguem conservar dentro de portas os seus costumes e transportam para o exterior os seus modos de se comportarem, que não agrada a quem deles toma conhecimento. Mas, para isso, é que servem as forças públicas e os serviços sociais. Aconselhando, amoldando os comportamentos e, de bons modos, tentar que os que são diferentes passem a cumprir as regras de convivência das maiorias. Olhem na Suíça, onde existe uma rigidez absoluta e quem chega e não conhece as regras fica desorientado. Ali, a partir das 22 horas, nem se pode puxar o autoclismo!
É estranho, mas é uma regra. Quem vai de fora só tem é que cumprir…

terça-feira, 24 de março de 2009

NOVA PONTE




Repete-se o que se passou com a discussão sobre o local onde instalar o novo aeroporto, em que o cómico ministro das Obras Públicas lançou o seu célebre “jamais” e em que nesta altura está a insistir com a nova ponte sobre o Tejo, para facilitar as comunicações com o aeroporto que, parece, sempre se vai fixar na outra banda. Mário Lino, com aquele seu ar que dá vontade de rir aos portugueses, garante que deposita toda a confiança nos estudos que foram feitos no que diz respeito à ligação Chelas/Barreiro, quando existem opiniões, suponho que também fundamentadas tecnicamente, que aconselham que a ponte ligue o Beato ao Montijo, por ser mais directo a Alcochete, local onde se fixará o tal discutido aeroporto. Dizem alguns que esta ligação poupa 7,3 kms. Em comparação com a preferência do Lino. Os cidadãos, que não têm acesso aos estudos, só podem aguardar pelo fim do confronto e aceitar, sem outro remédio, o que for decido pelos que têm nas mãos o poder. Mais tarde logo se vê se foi uma boa opção ou se se tratou de mais um equívoco dos muitos que ocorrem por cá e em que os que chegam depois ao Governo têm de enfrentar, se pertencerem a outro partido, e logo acusam o anterior de "burrice” e de dinheiro mal gasto. E andamos sempre nisto, sem que ninguém seja julgado por ser teimoso e incompetente.
Eu, aqui neste blogue, não posso acrescentar uma opinião que valha a pena. Mas tenho a humildade de reconhecer que quem sabe são os outros e que só depois de se terem desembolsado milhões é que se pode chegar a uma conclusão. Que bom seria que José Sócrates fosse assim, soubesse ouvir, despender o que fosse preciso para que os que são competentes em cada matéria garantam a melhor qualidade do trabalho que está em estudo. E se não for assim, responsabilizar os que deram opinião e foram pagos para isso, no caso de se terem enganado.
Isto? No nosso País? Em que ninguém tem culpa de nada e podem aparecer perante as câmaras de televisão a fazerem figura de sábios?
É o que temos. O desastre é que continuamos nisto…

segunda-feira, 23 de março de 2009

PROVEDOR DE JUSTIÇA



Alguém, por esse mundo fora, seria capaz de prever que a nomeação de um novo Provedor de Justiça, em Portugal, levaria nove meses a ser conseguida – se é que a coisa vai ficar por aqui -, pois a disputa entre partidos políticos que se confrontam nas coisas mais insignificantes proporcionou esta historieta de trazer por casa, de o Partido Socialista estar a puxar por um seu candidato, e o Partido Social Democrata ter outras ideias, não se sabendo bem onde cairia a escolha.
Chegou-se ao ponto bizarro do primeiro-ministro usar a expressão e acusar o PSD de “fazer birra”, por se recusar a aceitar Jorge Miranda para desempenhar aquele lugar, e tudo indica que o PS se prepara para uma tentativa de acordo com os outros agrupamentos políticos com acento na Assembleia da República para se chegar a uma conclusão, isto enquanto Manuela Ferreira Leite afirma peremptoriamente que a nomeação do Provedor pertence ao seu partido e não aos socialistas. E andamos nisto!
A obrigatoriedade de dois terços do Parlamento para se poder efectuar a nomeação, faz com que sejam necessários 154 votos entre os 230 deputados, o que cria o problema de os 121 representantes socialistas, somados a 11 comunistas, 11 do CDS e a 8 do Bloco de Esquerda, mais 2 do PEV, fazerem com que ainda falte um para se atingir aquele mínimo imposto. Como, ainda por cima, a votação é secreta, ninguém garante que todos os participantes dos partidos referidos votem na mesma personalidade apontada.
É, de facto, uma vergonha que existam estes impasses na política, tudo isto enquanto a maioria da população anda de calças na mão, os afectados pela crise, está bem de ver, colocando-se em segundo plano os problemas de verdadeira seriedade que são necessários para tentar resolver o que nos aflige a todos. Que não se admirem depois os que se sentam nos cadeirões do poder se receberem dos cidadãos o desprezo e o desinteresse em colaborar, como é agora tão notório, de Norte a Sul. E daí a manifestação que teve lugar recentemente e que atingiu a proporção que foi conhecida por todos, menos por Sócrates.
Tendo-se chegado ao ponto do ainda Provedor da Justiça, Nascimento Rodrigues, ter ameaçado de abandonar o cargos, pois não está disposto, e compreende-se, a ficar “eternamente” à espera que se resolva o problema da sua substituição, tal situação daria vontade de rir se não correspondesse à má qualidade das nossas instituições políticas e daqueles que se encontram nos lugares próprios para resolver, depressa e bem, as situações urgentes e difíceis que vão surgindo.
Haverá quem nos valha?

domingo, 22 de março de 2009

PENSAMENTO

Há sempre pedras inesperadas no meio das caminhadas da vida, mas há que superá-las sem nos magoarmos demasiado, para além das feridas que são inevitáveis, mesmo que custem muito a sarar.

EUROPA UNIDA!



Ao analisar o que se passa por essa Europa que eu, ingenuamente, cheguei a supor que fosse mais rápido e bastante mais fácil conseguir-se o entendimento e a formação em uníssono de um conjunto de países que juntassem forças no sentido de enfrentarem os problemas que a tecnologia avançada, por um lado, e a ambição humana, por outro, vão tornando mais complicados de resolver, chego à conclusão que não vai ser nem nesta nem na próxima década que teremos a felicidade de assistir a um Continente a caminhar de mãos dadas, todos a pensar naquilo que poderia até ter evitado que a malfadada crise, que surgiu do outro lado do Atlântico, tivesse cavalgado todos os muros que se lhe depararam pela frente sem que surgisse uma oposição forte e preparada que se encontraria neste lado do Hemisfério.
Os 27 chefes de Estado e de Governo que se reuniram em Bruxelas para debater a posição da União Europeia na junção do chamado ainda G20, que vai pôr em confronto, em Londres, em 2 de Abril próximo, as economias mais ricas do mundo e isso para tentar o acordo sobre uma lista de princípios que comporá a agenda dos 27, nessa altura o objectivo a atingir é a regulação financeira e a reforma de instituições como o Fundo Monetário Internacional, tudo no sentido de ser conseguida a restauração dos canais de crédito como chave para a saída da tal crise.
Verifica-se, no entanto, um desalinhamento por parte da Grã Bretanha em fazer coro com a tese comum, preferindo juntar-se à linha proposta por Washington, o que constitui mais uma falta de união das várias que se têm constatado desde que se deram os primeiros passos na constituição da Europa comunitária. O bom senso que, nestas coisas, deve prevalecer sobre os interesses particulares de cada participante, é o que se torna essencial para que não fiquemos a contemplar encontros, almoços, fotografias de grupo e apertos de mão e abraços, mas no que diz respeito a resultados, os avanços produzem-se pachorrentamente. Lá vão sendo conseguidos, mas à custa de uma perda tremenda de tempo, ao ponto de termos chegado até aqui por via de demoras exasperantes.
O ser humano tem grande dificuldade em colocar em segundo lugar os seus interesses pessoais e de grupo em favor dos benefícios que se podem conseguir através da prioridade que tem de ser dada ao bem generalizado. Só com o caminhar dos anos e com muita persistência se vai conseguindo aquilo que é uma ambição desejada por muitos neste nosso Continente: os Estados Unidos da Europa.
Ninguém pode garantir que se chegará a este objectivo e se sim, quando. Mas, quanto a mim, a profunda diversidade que existe de nações e de povos a fazer todos sacrifícios em seu favor único, não se importando com o que ocorre em casa dos vizinhos, não deixando de se preocupar com as tradições, as línguas, as histórias de cada região, mas tendo em comum interesses económicos e sociais, essas divisões só servem para criar conflitos e os que são desse tempo não esquecerão facilmente a II Guerra Mundial, que teve início precisamente entre países vizinhos.
Isso do meu bairro, da minha rua, do lado da minha casa na rua, do meu andar no prédio, já é chão que não dá uvas. O bom é a vizinhança unida e a sua inclusão de interesses em todos os bairros e em todas as cidades. Aquilo que é bom para mim tem de ser igualmente salutar para aos outros… Mas isto, para ser conseguido é fundamental que os Homens deixem de parte as suas conveniências próprias e olhar substantivamente para o bem comum. Será alguma vez possível atingirmos esse objectivo? Já não vai ser no meu tempo!...

sábado, 21 de março de 2009

Neste Dia Mundial da Poesia não quero deixar de participar com alguns poemas da minha autoria que fazem parte de um arquivo de mais de 500 produções a aguardar por altura adequada para serem divulgados. Pode ser que ainda em vida.
E, se não, também não se perderá muito.
Mais vale ser conhecido e considerado depois, que nunca antes.

CABEÇA A FUNCIONAR

Ter cabeça instalada
a funcionar como deve
e o corpo, quase nada
mostra que está disponível
e que lhe é impossível
estar igual ao que era antes
é pior do que o contrário
pois quem não pensa
nem tenta
entender o que se passa
e aceita tudo que faça
mas reflectir
é sentir
que nada já é igual
que o que ocorre está mal
que as pernas não obedecem
e que os músculos fenecem
a ligeireza perdeu-se
agora só devagar
e a cabeça a pensar
a entender
a sofrer
a aceitar a velhice
bem longe da meninice
essa que foi e não volta
sem ser razão para revolta
antes tem de ser aceite
e no fundo agradecer
por não ter acontecido perder
o que resta
e fazer até bela festa
pela cabeça que impera
e que, por isso, espera
o dia do adeus final
em que já não se sente o mal.

PINTAR

Como gosto de pintar
De trazer à tela em branco
O dom que sinto no ar
E da alma o arranco

Como ter papel à frente
À espera que o preencha
Com versos que estão na mente
A pedir que eu lhes mexa

Mas a música saltitante
Essa sim bem gostaria
De fazer dela uma amante

Mas aí é que eu não pego
Nem marcha nem sinfonia
Com desgosto, não lhe chego

CEGO


Aquilo que eu vejo hoje
o que gosto e o que detesto
as flores, as árvores, a Natureza
e as maldades dos homens
só é possível porque os meus olhos
ainda funcionam
e é com eles que o meu cérebro
raciocina
se alegra e se revolta
se sensibiliza
me obriga a olhar para trás e para a frente
a parar para ver melhor
a espantar-me com o belo
e com o desprezível

Mas penso se um dia
deixo de ver
se terminam as minhas contemplações
se se fecha a janela da vida
se só poderei
ouvir, apalpar, falar
e só com isso serei capaz de decifrar
o que se planta diante de mim,
então o cérebro trabalhará a dobrar
penso eu, mas talvez a falta de visão
descanse mais o pensamento
o que não se vê
se não mostra a beleza
também não revolta
quando é isso mesmo:
repugnante


OS PÁSSAROS


O céu sem aves não seria céu
Azul, com nuvens e sol a brilhar
Faltava-lhe vida, qual mausoléu
De silêncio, ausente do piar

Os pássaros são vida que remexe
Que fazem companhia aos isolados
Cruzando os ares em belo feixe
Fazendo os seus ninhos nos silvados

À solta e em plena liberdade
Chilreando felizes com a vida
Ignorantes do que é o mundo cão

Isso tem de ser a felicidade
Já que não precisam doutra guarida
Porque pássaros em gaiolas, não !