terça-feira, 18 de novembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Isto de ter pretensões de ser dono de opiniões e das mesmas serem indiscutíveis é de uma arrogância doentia.
Por outro lado, navegar permanentemente no mar das dúvidas dá também a sensação de ausência de chão seguro por onde se caminha.
Viver a meias, com metade de uma coisa e metade da outra, é nunca saber quando se deve estar certo ou quando é altura de duvidar. Um martírio!
Talvez seja preferível andar ao sabor das ondas e só ouvir as opiniões dos outros. Fazendo o julgamento para dentro. É uma forma de não se comprometer.
Mas isso é vida?

ESCREVER

Papel em branco que para mim olhas
por vezes pouco tempo outras horas
à espera que se encham muitas folhas
e impaciente com as demoras

Custa muito ter o papel bem cheio
de linhas mesmo riscadas por cima
o pior é quando se fica a meio
por falta de génio não sai a rima

Sem rimas também se faz poesia
como sem métrica pode ser boa
basta fazer voar a fantasia
pensar que houve um dia um Pessoa

Não pode é ficar o papel em branco
coisa que p’ra quem escreve é vulgar
mas neste assunto há que ser franco
escrever, nem que ao lixo vá parar

O INGÉNUO SOARES


Mário Soares, num texto de sua autoria publicado hoje no “Diário de Notícias”, parece mostrar alguma surpresa por ter constatado que na recente Cimeira dos G20, onde compareceram 21 chefes de Estado ou de Governo de vários países, para além de outras figuras mundiais de relevo, como Durão Barroso, estiveram presentes vários dos apoiantes de George Bush enquanto este exerceu a funções como chefe supremo nos Estados Unidos da América e teve enorme influência e responsabilidade em muitos acontecimentos que ocorreram pelo mundo e cujas consequências ainda se arrastam. Claro que Bush, de resto como anfitrião, esteve presente nessa Cimeira, e, segundo o mesmo Soares, sacando da sua experiência política e da idade que também é um posto, não esconde que o referido encontro teve como objectivo tentar branquear o mau comportamento do presidente americano, como primeiro responsável pela crise financeira e económica que grassa pelo mundo e que teve origem, em grande parte, na invasão do Iraque e de tudo o que se tem seguido posteriormente.
Sublinho ainda o facto de Barak Obama não ter assistido à referida Cimeira, como mostra de prudência em não se envolver numa espécie de homenagem que não estará nos horizontes do Presidente americano eleito, e de referir também que do mesmo encontro não se pode dizer que terão saído medidas de importância para solucionar os problemas graves em que o mundo está envolvido.
Mas, o que pretendo neste blogue acentuar é a surpresa que Mário Soares demonstra pelo facto de constatar que antigos apoiantes internacionais de Bush tenham surgido agora a evidenciar louvaminhas ao Homem forte que toma posse em Janeiro de 2009. Diz Soares textualmente que “é chocante que os homens que acompanharam Bush no passado (Berlusconi, Brown, Sarkozy e Durão Barroso, salienta-os) se queiram agora agarrar a Obama, sem largar Bush”.
A mim o que me estranha, eu que sempre acompanhei Soares em toda a sua vida política – mesmo antes do 25 de Abril -, que até fiz dez viagens ao estrangeiro nas minhas funções de jornalista e ele como primeiro-Ministro, o que me deu um conhecimento apreciável das suas interpretações políticas, mesmo com desacordos pontuais, é que este profissional experiente daquelas funções não tenha entendido que o ser humano, seja qual for a actividade a que se dedique, é raramente fiel, estando sempre a espreitar a oportunidade que lhe pode dar mais vantagens e não deixando de se passar para outra cor clubista se verificar que tira vantagens com essa troca.
Nem deu por isso, mesmo ele que lhe sucedeu ter deparado com “incontestáveis” seguidores que, na primeira altura, deram o salto para o outro lado? Sábio, sim, mas ingénuo, também.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Ter um sonho e caminhar pela vida tentando transformá-lo em realidade é, só por si, uma justificação para se existir
Ao menos que esse sonho não se desfaça antes de chegarmos ao fim do corredor do nosso percurso.

GARGALHADA

Uma gargalhada forte
Dada a tempo e com medida
Haverá quem não suporte
Quem a ache descabida

Mas se ela sair de dentro
Do fundo do coração
Pode cair bem no centro
De toda a nossa atenção

Afinal o rir com gosto
Sem ser com falsa ironia
Afasta qualquer desgosto

Dá prazer, põe bem disposto
Quem tem falta de alegria
E nem sequer paga imposto

PAÍS, ISTO?


Vá lá, que no capítulo da escaramuça que se tem mantido na área da Educação, com uns professores teimosos, uns alunos a aproveitar para brincar às manifestações e uma Ministra que, finalmente, resolveu esta noite passada dar um pouco de si e rectificar (ela chama clarificar) aquela medida que merecia mesmo ser rasgada na cara de quem a redigiu, a da não clarificar as faltas justificadas e meter tudo no mesmo saco, vá lá, dizia eu, que as coisas se encaminham para uma eventual solução. Mas ainda não é desta, esclarecem os professores da Fenprof, que a solução foi encontrada. Ainda fazem finca-pé no problema das avaliações e, ao fim e ao cabo, o que não conseguem é convencer os portugueses de que não querem é ser avaliados… por muito que afirmem o contrário.
Perante este estado de coisas, eu por mim confirmo aquilo que escrevi aqui ontem: tem de ser José Sócrates a sair do seu cacifo e dar mostras de que, com a Ministra caladinha para sempre, ponha os pontos nos “is” e apresente soluções que sirvam todos, sobretudo, os portugueses que pagam os seus impostos e não estão para suportar greves caríssimas e contribuições para que os estudantes saiam das escolas cada vez a saber menos.
E enquanto esse folclore nojento se arrasta, por seu lado o Ministério das Finanças não está para graças. E vá de exigir dos funcionários mínimos de cobranças diárias aos devedores ao fisco, chegando essa obrigação a cada “cobrador” ter de apresentar resultados de montantes cobrados até ao valor de 75 mil euros, e desde o mínimo de 3 mil, obrigações estas que se manterão até ao fim do ano. Não estou contra o dever dos contribuintes cumprirem o que lhes incumbe, mas lastimo que não conste em nenhum despacho a obrigação do Estado pagar as suas dívidas, que são muitas e s em prazo instituido. O cidadão que espere...
E já que estou a referir-me a dívidas, como o folclore dentro do nosso País não dá mostras de abrandar, vale a pena transcrever uma notícia vinda a lume de que uma empresa pediu a hipoteca judicial da sede do Banco Santander Totta, na rua do Ouro, por alegada recusa da instituição bancária em devolver 3,6 milhões de euros que, parece, foram cobrados de forma ilegal.
A falta que fazem as velhas revistas do Parque Mayer, com Censura e tudo, para podermos gozar à tripa forra as calamidades que ocorrem nesta Terra a que se costuma dizer que é um País!...

domingo, 16 de novembro de 2008

E DEPOIS?

Sempre há um depois do que agora passa
Alguma coisa de que se suspeita
Ou de que se tem só ideia escassa
Mas que está bem ao pé de nós à espreita

Esse depois assusta muita gente
Pode ser p’ra melhor ou nem por isso
Quem pode saber é só o que sente
Que esta vida é toda um compromisso

Se o depois é tão grande mistério
E se há também quem tal não entenda
Esteja só ou tenha vida a dois

Será bom ver o amanhã a sério
Estar sempre pronto para a contenda
Para não perguntar sempre: e depois?...

MÃO Á PALMATÓRIA


A Ministra da Educação não desarma e mantém-se na sua. Veio agora a firmar publicamente que “se o Governo suspendesse a avaliação seria uma vergonha”. Quer dizer, na opinião da responsável pela instrução escolar dos portugueses, repensar um assunto e, se for caso disso, não persistir teimosamente na defesa de um ponto de vista, dando mostras humildes de querer chegar a um consenso e de, até mesmo, dar o braço a torcer, actuar dessa forma modesta é… uma vergonha!
Eu não dou daqui razão à atitude dos professores, que vieram para a rua comportar-se como se gente sem a menor formação educativa se tratasse. Nem por sombras! Acuso mesmo essa classe de não ter sido capaz de lidar com um problema que, mesmo tratando-se de enfrentar uma ministra teimosa e dura de ouvido, teria de ser levado a seu termo de uma maneira mais elegante. As greves e as manifestações de rua com o aspecto que aquelas tiveram só devem ser utilizadas em derradeira circunstância e as explicações públicas têm obrigação de ser dadas com uma boa imagem dos declarantes – que não é o caso dos elementos do Sindicato.
Quanto aos alunos, ninguém me convence de que não houve ali a mão de gente crescida interessada em deixar o Governo socialista em maus lençóis. Há sempre, nestes casos, interesses que estão alheios ao fundamento dos problemas em discussão. E é pena.
Agora, quanto ao Executivo de Sócrates, já que a ministra sustenta que sé está a actuar assim para cumprir o programa governamental, bem podia e devia o primeiro-Ministro actuar de forma a que não deixasse chegar a situação ao extremo em que se encontra. É que acabam por perder todos e, em primeiro lugar, os estudantes que sofrem as consequências de as aulas serem interrompidas, de os educadores andarem distraídos com outros assuntos, em vez de estarem a ensinar os que vão até eles para aumentar os seus conhecimentos.
Só Sócrates tem poder para acabar de vez com este conflito vergonhoso. Já que a Ministra não pretende ir contra o Programa do Governo, então que seja o seu responsável principal a intervir para encontrar uma solução que possa ser aceite pelas partes em conflito, mesmo com a declaração de que a sua actuação é contrária ao seu entendimento. Para além disso, existem sempre os exames finais para penalizar quem não sabe da matéria, quem, em vez de estudar andou a atirar ovos à Ministra. Não se trata de uma vingança, mas de avaliação das duas partes: a da competência dos professores em ensinar e a da capacidade de aprendizagem dos alunos, sobretudo daqueles que não querem ser penalizados por falta às aulas.
Dar a mão à palmatória, neste caso escolar, é preferível a manter indefinidamente uma “guerra” que não dá nota positiva a ninguém!...

sábado, 15 de novembro de 2008

ODE A PESSOA

Oh! Pessoa
tu que me inspiras, que me orientas
na minha cabeça ecoa
o que em mim sustentas
com o teu génio ou o dos teus heterónimos
com rima ou sem ela
mas sempre bela
afastando os demónios.
Ajuda-me, oh! Pessoa
a escrever esta ode
pensando em Lisboa
saindo como pode
com esforço, com rompantes
contrariando o ruído do café que me acolhe
que tem algo de igual ao teu que era dantes
mas que, tal como contigo,
é o café que escolhe
a freguesia, qual porto de abrigo
é ele que anima a que olhe
e veja o que me rodeia, o mau e o bom
aquilo que me foi dado apreciar,
deleitar
e ouvir o som
com agrado ou sem ele
E desde que me conheço
é o que peço:
que Aquele,
o que comanda,
não deixe a banda
à solta.
Pessoalmente penso assim
não me importa saber
se outros julgam igual a mim,
eu sei o que fazer
com a inspiração do poeta,
não basta pegar na caneta
e divagar,
pessoar,
procurar
no íntimo do sentimento
o que tiver mais cabimento
para saudar,
gritar
que poeta serei quem for
mas por amor
ao génio de um poeta dedico
e por aqui me fico
a compreendê-lo
e a relê-lo.

Ele, que dizia não ser nada
era tudo
perdido em frente da sua janela
ou sentado no café, à mesa,
procurando a frase mais bela
e encontrando com certeza
a sua inspiração
interpretando os sonhos do mundo
com devoção
bem no fundo
carregando a carroça da vida
com o fervor de um crente
que sabe que só há ida
por isso olhando sempre em frente
sem saber que o futuro
lhe traria tanta aclamação,
que transporia o muro
da vulgarização.

Oh! Fernando
tu que não sabias o que eras
nem como nem quando
que não crias deveras
nas certezas do mundo,
que só a Tabacaria era verdadeira
porque a vias ao fundo
da tua rua inteira
onde compravas os cigarros
da mesma maneira
que sacudias os catarros
e bebias a tua jeropiga
para acalmar a ânsia de versejar
e respirar
e produzir outra cantiga
sem fadiga,
naturalmente,
mas preocupadamente
a pensar que os versos criavam nada
que acontecia zero
que não havia fada
capaz de mudar, mesmo em desespero
a vida sensaborona,
triste e pesada,
qual matrona
pavoneada.
Hoje, o mundo sempre igual continua
parece diferente, mas nada mudou
aqui nesta como em qualquer outra rua
quer para quem trabalha e também estudou
porque os políticos continuam a falar
na busca de eleitor,
a dissertar
mas não são capazes, nem querem mudar
seja o que for
lá se vão enchendo
porque o que dá lucro vai-se mantendo
que o povo, esse fica,
a gritar pelo Benfica
sem eira nem beira
agarrado à bandeira
como se fosse da Pátria a salvação
a gritar nos estádios com emoção
contra quem seja
tendo na mão a cerveja
que dá calor
tremor
mas não altera os resultados
dos futebóis ou dos pecados.
Hoje está tudo na mesma
como a lesma.

Vês, Pessoa ?
Não fui capaz.
Estás onde estás
e eu estou onde estou
e não sei quando vou.
Verás que a minha intenção era boa
que me esforcei
mas o génio não agarrei.
Não digo como tu
que não sei o que serei,
sei sim, foi o génio que ficou no baú
e que também nada herdei
e como deixei de fumar
continuo sem achar
a Tabacaria
a que te trazia
o fumo da inspiração,
a divinização.

Perdoa-me, Fernando
Continuarei procurando
mas será tarde
para fazer alarde
de algo que me falta
para trazer à ribalta
coisa de valor,
mas amor
esse sim, não perdi
e como mostro aqui
não serei capaz
mas lá contumaz
é o que até agora tenho sido
e estou decidido
a prosseguir
enquanto a vida mo permitir.

Pessoa houve um,
não haverá mais nenhum
e se alguém o prometeu
não fui nem serei eu.

ESPÓLIO DE FERNANDO PESSOA


Como seria interessante poder conhecer a reacção de Fernando Pessoa, lá onde estiver e para os que acreditam que há um sítio para onde se vai depois de morto, ao contemplar o leilão que teve lugar e ainda está por resolver completamente do espólio literário do poeta e escritor que, enquanto foi vivo, não mereceu a admiração e o apreço que veio a conquistar depois de ter partido.
Quem tem consciência que o ajudante de guarda-livros que passou grande parte da sua existência a habitar um quarto numa rua estreita da Baixa lisboeta e que, depois de beber o seu bagacito, ia sentar-se numa mesa no Café da Arcada e aí escrevia o muito que, passados anos, constitui o valioso material que foi discutido agora numa leilão proporcionado pelos seus familiares, quem, sendo considerado “pessoano” tem aquele autor na galeria dos seus predilectos, como é o meu caso, não pode deixar de, por um lado, manifestar a sua revolta pela ingratidão pública durante tantos anos e, nesta altura e a partir de determinado momento passar ser considerado como um mestre na ingrata missão de deixar no papel o muito que o seu íntimo deixou transparecer.
Os editores, que são os grandes culpados, quase sempre, de não saber distinguir os valores autênticos no meio dos vendilhões de palavras que, sobretudo na nossa era, sobressaem por motivos vários mas geralmente longe do valor da escrita que produzem, esses profissionais da venda de obras que merecem esse título deverão meter as mãos nas consciências e reconhecer que pouco lhes interessa analisar as propostas que lhes chegam de trabalhos que, pode acontecer, só mais tarde serão reconhecidos como valorosos, para, em primeiro lugar, colocarem os fazedores de escritos que apenas possuem um nome que lhes é reconhecido por serem vistos nas colunas dos jornais ou nas televisões, por exercerem qualquer mister que tem público… público esse que, de uma maneira geral, não lê livros.
Fernando Pessoa rendeu, com o leilão, cerca de 350 mil euros, dando a ganhar à leiloeira 66 mil da mesma moeda.
Vamos a ver como fica, no final do que é chamado “leilão virtual”, todo este espólio, em que o Estado ainda tem de exercer o seu direito de preferência que lhe cabe e ainda após a C.M.L. determinar, após decisão judicial, se alguns dos lotes pessoanos, que declara terem sido adquiridos em 1986 por 36 mil euros, lhes vão ser entregues.
Menos mal que o contrato de arrendamento da casa onde viveu os últimos tempos Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, propriedade do município lisboeta, já está salvaguardada, e é essa mesma casa onde, actualmente, se vai recordando a vida literária do infausto Mestre.
Termino como comecei: será que Pessoa se riria de todo este barafustante leilão da papelada, manuscrita ou passada alguma à máquina de escrever, numa altura em que a ele tanto lhe importaria que surgissem apressadamente os descendentes daqueles que não lhe ligaram muita importância enquanto foi vivo?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

FALAR


De repente, perdi a palavra
deixei de falar
fiquei mudo
nenhum som sai da minha boca
as mãos não chegam
para me expressar
só por escrito posso transmitir
o que me vai na alma
mas ninguém está disposto
a conversar comigo
e só a ler o que eu escrevo.

Eu oiço, mas não falo,
faço caretas
para mostrar se estou satisfeito
ou triste
se concordo ou discordo
mas não exponho os meus pontos de vista
não consigo manter um diálogo
para além do curto sim ou não
e o uso da mímica não chega
para ser expressivo.

Por isso, uso o papel
e a caneta
como sempre fiz, antes, quando falava
mas é como quem argumenta sozinho
sem se ouvir
sem ter uma ideia do tom que deve utilizar
sem perguntas
sem respostas
e só sim porque sim
ou o contrário

Não falar terá as suas vantagens
não aborrece o próximo
não lhe castiga os ouvidos
não corre o risco de dizer coisas inúteis
de falar por falar
do palrar demais
não tem de se arrepender do que disse
não tem de voltar atrás
com a palavra dada
não empenha a palavra de honra
só vale o que escreve
mas isso tem remédio
deita o papel para o lixo
não o mostra a ninguém.

Falar, falar…
falar barato
abrir a boca para dizer o que lhe vem à cabeça
até asneiras
quando mais valia ter ficado calado
que é o risco de quem não tem
tento na língua.

Por isso, desde que deixei de falar
passei a andar mais descansado
não tenho de me conter
para não dizer mais do que devia
falo comigo mesmo
sem som
e só funciona
o mesmo comando que antes
orientava as palavras:
o cérebro
e esse, de facto,
não se vê
nem se ouve.






EDUCAÇÃO


Já não bastava a crise que alastrou e alastra por todo o mundo e que nos chega, inevitavelmente, com as consequências bem nefastas que são conhecidas e de que não sabemos ainda como poderemos ultrapassá-las, não é suficiente esse tormento que atinge a maioria da população portuguesa, a mais débil economicamente, e eis que surge a posição agreste tomada pelos professores de Portugal e, não contentes com isso, também a rapaziada que anda a estudar, nitidamente comandada, vem para a rua gritar que não aceita a forma como as faltas às aulas lhes são impostas.
Ou seja, atravessamos um período em que, por um lado, a população constituída pelos mestres das escolas anda aos gritos “a ministra para a rua” e, por outro, os alunos usam o mesmo slogan e se divertem porque, enquanto participam nessa alegre manifestação, não têm de estudar nem de estar a aprender nas aulas.
Não pretendo agora avaliar as razões que levaram a que se chegasse a esta situação tão radical. As duas causas, dos que ensinam e dos que aprendem, podem e devem ser analisadas e discutidas, mas, segundo parece, deixou-se chegar a discórdia a tal ponto que já não será possível invocar o diálogo para se procurar chegar a uma solução.
Por um lado, a questão da avaliação dos professores é recusada pelos próprios porque, segundo afirmam – e percebe-se pouco das alegações apresentadas -, está baseada em excessiva burocracia de papelada, a qual faz perder muito tempo para ser preenchida. É estranho, mas é o que afirmam.
No caso dos alunos, ainda que dando a impressão que ali anda mão de graúdos a incendiar o ambiente, a razão dos protestos é de que a justificação das faltas não aceita os casos de doença, parecendo que este é o único fundamento dos protestos.
Pouco pode ser dito por quem não está colocado no meio de tanta barafunda. Mas, que existe todo o direito a avaliar os professores, os cidadãos que têm sobre si a responsabilidade de colocar na vida pública os futuros seres que, por seu lado, devem contribuir para que este País não se mantenha na cauda da Europa, quanto a essa necessidade de seleccionar os bons profissionais e de excluir os que não são capazes de formar a gente nova, quanto a isso permito-me opinar que sou favorável a deixar ensinar apenas aqueles professores que dão mostras de fazer o trabalho com total competência.
Já, quanto aos alunos que não querem prestar contas em relação às suas faltas às aulas, nesse ponto não abdico das normas que existiam no meu tempo, em que se perdia o ano quando se excediam 10 faltas. Mas, evidentemente, os atestados médicos permitiam estar doente, muito embora nos exames finais, aí se tinha de mostrar que se sabia da matéria analisada.
Ora bem, não havendo já nada a fazer em relação ao péssimo ambiente com a Ministra, então, sem ter de ser considerada essa atitude como fraqueza do Governo, mas simplesmente o desejo de encontrar uma saída, procedendo-se às alterações possíveis – e só essas - para satisfazer professores e alunos, dar descanso à detentora da pasta da Educação e nomear um substituto que mostre claramente logo de princípio que “se acabou a brincadeira”, essa talvez seja a única forma de “apagar o fogo”, mantendo, no entanto, a vigilância para que não se reacenda mais tarde. Já chega de má actuação de um lado e de outro. E se Sócrates não é capaz de acabar rapidamente com essas brincadeiras, então que pague as favas nas próximas eleições. Mas, para ganhar quem?...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Já ouvi dizer que um escritor não se arrisca. E isso, para mim, é o mesmo que afirmar que só corre riscos quem atravessa a rua despreocupadamente, ignorando as passadeiras dos peões, quem passa junto a um prédio em obras ou, muitas vezes mais afoito, resolve aventurar-se a subir os Himalaias Não é apenas isso – e já é muito – que serve para alinhar nas experiências de arriscar. Quem escreve e dá a ler aos outros o que lhe sai em prosa ou em verso enfrenta as críticas, especialmente as malévolas, de quem considera que a obra publicada não merece o apoio de quem perdeu tempo a apreciá-las e sujeita-se, por isso, a ser apontado como um mau cumpridor da tarefa a que se entregou.
E, dentro deste ponto de vista, sucede o mesmo aos que pintam e esculpem, aos autores musicais e, obviamente, aos que interpretam, com a voz ou com um instrumento musical, as composições dos outros.
Logo, o não fazer nada ou não dar a conhecer aquilo que constitui um atrevimento de produção, é a situação mais cómoda para não se ficar sujeito a críticas. Não correr esse risco é uma maneira de viver em tranquilidade, muito embora não se fique alguma vez a saber se valeu ou não a pena conhecer a opinião alheia.
Eu, pelos vistos, quero correr o risco de conhecer o que os outros pensam das minhas escritas e das minhas pinturas. E, mesmo que opinem desfavoravelmente, o mais que posso fazer é não aceitar tais opiniões ou admitir que têm mau gosto.
E cá vou continuando teimosamente…



CEGO


Aquilo que eu vejo hoje
o que gosto e o que detesto
as flores, as árvores, a Natureza
e as maldades dos homens
só é possível porque os meus olhos
ainda funcionam
e é com eles que o meu cérebro
raciocina
se alegra e se revolta
se sensibiliza
me obriga a olhar para trás e para a frente
a parar para ver melhor
a espantar-me com o belo
e com o desprezível

Mas penso se um dia
deixo de ver
se terminam as minhas contemplações
se se fecha a janela da vida
se só poderei
ouvir, apalpar, falar
e só com isso serei capaz de decifrar
o que se planta diante de mim,
então o cérebro trabalhará a dobrar
penso eu, mas talvez a falta de visão
descanse mais o pensamento
o que não se vê
se não mostra a beleza
também não revolta
quando é isso mesmo:
repugnante

O pior é a leitura
o breille ajuda, dizem os invisuais
mas não se anda tão ao par
do que vai saindo
e que valha a pena
embora, por outro lado,
não se tenha de assistir
à enormidade de lixo literário
que as editoras atiram para a rua.

É melhor ou pior ser cego?
o ideal é não se conhecer nunca
a resposta
ficar na dúvida
questionar-se até ao fim.
Por enquanto, já que vejo
deixem-me ficar assim!...





VENDER O QUE NÃO É PRECISO




C’oa breca, mas eu não desejo glorificar-me cada vez que assisto a uma tomada de posição dos governantes que coincida com opinião dada publicamente por mim, quer neste blogue quer em artigos saídos em diferentes órgãos de comunicação, mas, como mais vale tarde do que nunca, pelo menos que, com enormes atrasos, acabe por verificar que tinha razão na altura em que manifestei uma opinião que não era asneira de todo.
Desta vez, o caso é o de o ministro Nuno Severiano Teixeira ter anunciado que o Governo se prepara para alienar muito do património militar, constituído por quartéis, conventos, cadeias, hospitais, fortes, tudo já fora de uso e em condições até de mau funcionamento, não ficando para trás o próprio edifício do Ministério, também ele, apesar de imponente de aspecto, em risco de caiarem painéis de pedra, e que o valor que se espera que vá enriquecer o montante destinado a modernizar as infra-estruturas das Forças Armadas, dizem, atingirá cerca de 834 milhões de euros.
Tudo isto parece ser medida acertada, a mesma que eu já tinha alvitrado em tempos – e não só no que se refere ao Ministério da Defesa -, mas o que faz levantar certas dúvidas é a circunstância de esta atitude ir levar 12 anos a ser levada a cabo. E todo esse tempo chega e sobra para que uns novos governantes que, entretanto, possam surgir, não venham com opinião diferente e tudo fique “em águas de bacalhau”.
Digo isto não por excesso de pessimismo, mas por estar escaldado como cidadão normal por ver anúncios de iniciativas que, passados tempos, ou ficam nas gavetas esquecidas ou acabam mesmo por ser revogadas porque quem toma posse, mais tarde, nos lugares de decisão, aparece com ideias novas ou defende as antigas, não mexendo uma palha no sentido de fazer progredir o que tinha sido decidido antes.
Eu, por mim, aquilo que continuo a defender é que, aproveitando até um período em que o Estado está cheio de dívidas antigas que leva tempo a liquidar, e as faltas de dinheiro para pôr de pé medidas que são da maior importância para não ficarmos cada vez mais para trás, em comparação com a Europa a que pertencemos, desfazermo-nos de tudo que está a cair de podre e que não tem utilidade na vida moderna só pode ser observado com aprovação, isso, repito, desde que o dinheiro apurado não seja gasto em ordenados escandalosos de funcionários superiores, sobretudo de empresas públicas, nem em adquirir automóveis de modelos luxuosos sempre que um novo alto cargo entra no esquema.
E sobre isto dos carros, repito o que já escrevi em mais de uma ocasião: que é existir uma garagem de carros oficiais e uma disponibilidade de motoristas - muito menos do que existem hoje -, por forma a acabar com esse “riquismo” de ter sempre à porta das repartições um automóvel à disposição do chefe e com o motorista sentado à espera que “sua excelência” queira sair, para ir para casa ou para levar os filhotes ao colégio. Se fosse necessário requisitar condução quando fosse preciso para o serviço e surgisse um carro, fosse ele qual fosse, o disponível, e com o condutor que, também ele, fosse o que se encontrava na lista para sair, se essa fosse a forma de utilização das viaturas, quantos milhões de euros se economizavam por ano?

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

CAMPO DE OURIQUE


É neste bairro de Campo d’Ourique
Nesta Lisboa que já foi alegre
Que mais apetece pedir que fique
E se não é d’aqui que se integre

Ruas planas e gente agradável
Lojas vistosas, também populares
Andar às voltas é até saudável
E há ainda quem tome bons ares

Mas tudo muda nesta Capital
Os mais velhos notam a diferença
E vai-se perdendo a tradição

O que se pode esperar, afinal,
De uma vida que é toda tensa
Onde a cabeça mata o coração?

UM PAÍS DE CASOS




Estamos numa altura em que, todos os dias, acontece alguma coisa que extravasa os hábitos de tranquilidade que se tinham noutros tempos. E quem não anda completamente ao corrente da evolução da vida na nossa Terra, chega a acumular casos e a fazer confusões de nomes e de situações, misturando já tudo e metendo os pés pelas mãos.
Por isso, quem vai seguindo os meus blogues, talvez fique satisfeito pela selecção que faço no prosseguimento diário das “broncas” que se vão sucedendo. E já quase não tenho espaço para abarcar todas as mais importantes, para não falar do cuidado que ponho em não repetir temas já referidos, a não ser quando os folhetins vão aumentando de interesse e os seus autores vão acrescentando mais este ou aquele pormenor que merece ser divulgado.
Por hoje, ataco duas situações que, não se tratando de um grande “furo” que nos deixe de boca aberta, representam, pelo menos, o estado a que se chegou na desvergonha de comportamentos que já nem são limitados a pessoas que não têm responsabilidade na vida pública portuguesa. O primeiro a merecer a referência da minha atenção diz respeito a duas personalidades que deveriam ter mais cuidado nos seus procedimentos, para não dar razão ao dito tão antigo de que não é preciso só sê-lo, também importa parecê-lo. E se não é bem assim, pelo menos é parecido.
Ora, aquela do ministro da Economia, Manuel Pinho, que, na altura, detinha um alto cargo no BES, ter passado uma procuração com plenos poderes para compra/venda de um prédio em Lisboa, isso na hora em que o nomeado procurador, Manuel Sebastião, fazia parte da equipa de administradores que acompanhavam Vítor Constâncio no Banco de Portugal, passando agora a desempenhar as funções de presidente da Autoridade da Concorrência, essa atitude que, tratando-se de dois portugueses comuns, não mereceria qualquer comentário – a não ser fazer a estranheza da procuração, quando os dois estariam na cidade e não havia necessidade de um deles se esconder -, ao ter sido levada a cabo por quem foi, merece, isso sim, no mínimo que seja um acto tornado público. E que nos interroguemos sobre a razão do facto.
E, já agora, sublinhar a circunstância que está a ocorrer sucessivamente, de que os favores cá se fazem e cá se pagam, não sendo por acaso que os intervenientes de situações parecidas com esta, pouco depois mudam de lugares para outros ainda melhores e a ganharem mais dinheiro…
Falar agora de Vítor Constâncio e da sua pálida e atrasada actuação no drama do BPN, eu, que o conheço, não me passa pela cabeça que tenha existido o menor interesse de ordem pessoal do governador do Banco de Portugal. Agora, que não pode o homem com as obrigações que lhe cabem, desculpar-se, por muitos profundos discursos que faça na Assembleia da República, isso é que não se pode omitir na apreciação da ocorrência. Não vou ao ponto de subscrever o tom de Paulo Portas quando aproveitou a ocasião para se sobressair no Parlamento, ele que não está em condições de criticar ninguém, sobretudo depois daquele dos submarinos, quando foi ministro da Defesa .Mas tenho pena que Vítor Constâncio não tivesse actuado com a firmeza e a rapidez que o caso merecia.
Ao fim e ao cabo, estamos condenados a ser um País mal gerido e de interesses ocultos que circulam nos subterrâneos da política! Somos um País de casos...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

DESENCANTO...POR ENQUANTO!

Cada vez mais tenho a sensação de que, para os outros, fui sempre alguém do lado de lá. Não só para os mais afastados, mas também para os parentes. Quanto mais tempo vivo, mais me convenço desta realidade, E, nesta altura, não vale a pena disfarçar que não é assim. A culpa, se é que se pode querer descortinar culpado nesta situação, terá de ser atribuída apenas a mim. Porque não serei abertamente comunicativo. Porque não pertenço àquela maioria de pessoas que mostram dar grande importância ao que os outros dizem, sobretudo quando internamente não atribuem valor suficiente para isso. Será por não ter esse sentimento de interesse demonstrativo, que tanto agrada aos outros interlocutores. Será por isso. Mas, seja pelo que for, a realidade é essa: Provoco pouco sentimento de intimidade nos outros.
E a verdade é que nem sei se sinto falta dessa intimidade. Dessa cumplicidade. Mesmo no que diz respeito aos amigos mais chegados, nunca senti esse entrosamento, daqueles que dá para trocas de confidencialidades. O meu íntimo sempre foi resguardado e, talvez por isso, o dos outros nunca me foi revelado. Antes assim.
Aquilo a que se chama “abrir-se” com alguém, foi coisa que nunca fez parte dos meus costumes. Sobretudo, porque não creio que interesse ao próximo saber o que vai no meu íntimo. Poderão, por simples curiosidade, escutar o que lhes transmitisse de muito privado que existisse no meu âmago, mas mais do que isso não se passaria.
Estar do lado de lá é, pelo menos, estar nalgum sítio. Digo eu, para justificar o meu ponto de vista. Estar em todos os lugares, do lado de cá e do lado de lá, mostrar abertura e até entusiasmo quanto ao que se escuta numa conversação, é uma forma de estar na vida para além de ser cómodo. E não importa averiguar o grau de verdade que existe em tal posição. Se eu fosse assim, só tinha a ganhar no capítulo da apreciação dos outros a meu respeito.
Mas, quanto à apreciação de mim para mim próprio?

EMEL



Então não é que uma empresa municipal, que tem dado mostras de funcionar tão bem, estando exemplarmente a exercer as funções que lhe são atribuídas, e que, para além disso, é de tão grande importância no que se refere ao aparcamento das viaturas automóveis na cidade de Lisboa, não é que, de repente, perde a sua presidente do conselho de administração, de nome Marina Ferreira, alegadamente por “motivos pessoais”, segundo a própria! Esta demissionária e antes ex-vereadora do Município alfacinha chegou a ser tempos depois, interinamente, presidente da C.M.L., na altura em que Carmona Rodrigues deixou aquele cargo. Logo, trata-se de uma personagem com curriculum de mando e de responsabilidades que não sei se foram sempre levadas a cabo com inteira satisfação dos munícipes. Digo que não sei, para dizer alguma coisa.
António Costa, presidente do Município, aceitou a demissão da responsável principal da EMEL, que assim se chama a organização que, para além de tudo, encontra-se sob responsabilidade da Câmara.
A razão por que dou importância de blogue a este acontecimento é para fazer a mim próprio uma pergunta, de que antecipadamente sei a resposta, mas a deixo ao sabor dos que me lêem: A EMEL tem cumprido plenamente o papel que lhe foi entregue?
Falo, por exemplo, de um bairro que conheço bem: de Campo de Ourique. Os aparelhos colocados nos passeios para que os usuários dos aparcamentos nas ruas possam, depois de enfiar o seu dinheiro na ranhura própria, retirar o cartão que colocam na plataforma do pára-brisas, esses gingarelhos, que nem sempre funcionam, estão por toda a parte, mas o que não se vê nunca é os funcionários da empresa a verificarem se os automóveis têm à vista o tal identificativo das horas pagas para estacionar. Mas ao que, com frequência, se assiste é a indivíduos à paisana, ou seja sem qualquer identificação visual, a abrir aquelas caixas do dinheiro e a retirá-lo, tudo isso à frente de qualquer pessoa e com o maior à-vontade. Isto é a prova provada de que não existe qualquer controlo por parte da tal EMEL, ao mesmo tempo que se lê com frequência que a empresa não é lucrativa.
Casos destes só podem verificar-se no nosso País, porque noutro qualquer já há muito tempo que a situação estava regularizada e não dava ocasião a rirmo-nos todos das ineficiências dos empreendimentos geridos pela administração pública, isto, claro, com excepção para o Ministério das Finanças, que esse, no capítulo da recolha de contribuições e impostos, aí nunca falha!...Vamos a ver quem substitui a presidente demissionária da EMEL. Não é por nada, mas só para confirmar se a empresa andou mal, de facto, só por ter sido mal administrada

CABEÇA PERFEITA



Ter cabeça instalada
a funcionar como deve
e o corpo, quase nada
mostra que está disponível
e que lhe é impossível
estar igual ao que era antes
é pior do que o contrário
pois quem não pensa
nem tenta
entender o que se passa
e aceita tudo que faça
mas reflectir
é sentir
que nada já é igual
que o que ocorre está mal
que as pernas não obedecem
e que os músculos fenecem
a ligeireza perdeu-se
agora só devagar
e a cabeça a pensar
a entender
a sofrer
a aceitar a velhice
bem longe da meninice
essa que foi e não volta
sem ser razão para revolta
antes tem de ser aceite
e no fundo agradecer
por não ter acontecido perder
o que resta
e fazer até boa festa
pela cabeça que impera
e que, por isso, só espera
o dia do adeus final
em que já não se sente o mal.